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The Curious Case of Benjamin Button – O Curioso Caso de Benjamin Button

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Uma grande história já é meio caminho andado para um filme dar certo. Com uma grande história quero dizer não apenas o enredo, a idéia inicial, mas também o roteiro. Um texto bem escrito, meus amigos e amigas, realmente é primordial. Adicione-se a isso uma direção precisa, uma fotografia de primeiríssima, atuações condizentes e demais cuidados técnicos que acompanham tudo o demais e nós temos um grande filme em mãos. E a mola propulsora e fundamental de The Curious Case of Benjamin Button (este site em português) é, sem dúvida, a sua história inusitada e, como o nome mesmo diz, super curiosa. Um dos grandes filmes do ano (2008, me refiro) e um dos fortes pré-candidatos a levar várias estatuetas do Oscar para casa – com todos os méritos.

A HISTÓRIA: Uma mulher idosa respira com dificuldade. Ela está na cama de um hospital, recebendo cada vez doses mais fortes de anestésicos. Quando acorda em seu leito hospitalar, Daisy (Cate Blanchett) pede para a filha, Caroline (Julia Ormond), ler um diário que está perto delas. Preocupada em se despedir da mãe, com quem não passou o tempo que gostaria, Caroline decide realizar a sua vontade e começa a ler as anotações do velho diário. Assim, pouco a pouco, ela conhece a história de Benjamin (Brad Pitt), um homem que nasceu velho. Ele veio ao mundo no dia em que terminou a Primeira Guerra Mundial. Abandonado pelo pai, Thomas Button (Jason Flemyng), depois da morte da mãe, Benjamin acaba sendo adotado por Queenie (Taraji P. Henson), zeladora de um lugar chamado Nolan House, um lar para idosos. É lá que ele acaba conhecendo Daisy quando ela vem visitar a avó, Sra. Fuller (Phyllis Somerville).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Curious Case of Benjamin Button): Um conto de F. Scott Fitzgerald, um dos maiores escritores norte-americanos do século 20, foi o mote inicial do novo filme do ótimo David Fincher. Admito que eu gosto deste diretor. Desde Se7en ele me tem em seu bolso… como já aconteceu com outros diretores, que me fascinaram com algum título que tenham produzido, eu fico ali, só esperando eles sacarem outra “obra-prima” da cartola. Depois de Seven, Fincher ainda dirigiu outro dos meus filmes preferidos: Fight Club. Depois, ainda veio Zodiac, um filme bacana, mas abaixo dos demais… e agora este The Curious Case of Benjamin Button.

Falarei do Oscar e das possíveis indicações do filme sobre Benjamin Button demoradamente depois, mas quero dizer, desde já, que ficarei muito feliz em ver, finalmente, Fincher ser indicado. Espero que ele chegue lá. Que esteja entre os cinco “finalistas” da grande noite da indústria cinematográfica de Hollywood. Seria a sua primeira vez por lá, como convidado especial para a festa do Kodak Theatre.

Mas vamos falar do filme, antes de comentar suas indicações a prêmios. Benjamin Button nasce velho, com um corpo estranhamento mesclado entre o de um recém-nascido (pelo tamanho) e de um velho de mais de 80 anos (pelas condições físicas, especialmente pelas doenças que apresenta). Abandonado pelo pai, mesmo depois dele prometer para a esposa no leito da morte que cuidaria do filho, ele passa a ser criado por uma negra que trabalha em um ancionato público – mesmo contra a vontade de seu companheiro, Tizzy Weathers (Mahershalalhashbaz Ali). Com o tempo, Tizzy passa a gostar do menino branco que caiu de paraquedas na vida do casal e ajuda a criá-lo – a resistência inicial da parte dele tem ligação direta com aqueles tempos de preconceito racial e mudanças radicais na sociedades norte-americana, tenho certeza.

Quando o médico examina Benjamin, comenta com Queenie que a criança deve durar pouco tempo, especialmente porque apresenta todas as doenças de um velho. O que ninguém sabia naquela ocasião – e mesmo muito tempo depois – é que o “bebê” não iria envelhecer, como todas as pessoas normais… iria sim ficar com o corpo cada vez mais jovem. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Acompanhamos então a vida de Benjamin Button desde seu nascimento, em 1918, pequeno e velho, até sua morte, na primavera de 2003, com a aparência de um recém-nascido normal. Entre um ponto e outro da história, contudo, acompanhamos todas as descobertas de uma vida. Vemos, especialmente, a importância que os encontros tem na existência de qualquer pessoa. Porque são as histórias, do marinheiro, da bailarina, da mulher que tinha um cachorro velho e tocava piano, do empresário que herdou uma fábrica de botões, e todas as demais, que fizeram a vida de Benjamin Button ser tão cheia de ensinamentos. E o filme, tão rico em detalhes.

F. Scott Fitzgerald escreveu o conto sobre Benjamin Button em 1922. A idéia lhe surgiu depois de ler uma frase de Mark Twain: “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18”. A idéia do filósofo certamente já passou pela cabeça de muita gente. Quem nunca ouviu um senhor de certa idade dizer: “Ah, se eu soubesse o que eu sei hoje quando eu tinha 18 anos…”. Inicialmente a idéia de nascer velho e ir rejuvenescendo, chegando ao auge da juventude com a sabedoria de quem viveu muito, é interessante. Mas The Curious Case of Benjamin Button nos ensina que nem tudo é tão fácil quanto parece. Aliás, nada é tão fácil. E uma curiosidade: lá pelas tantas no filme Benjamin Button está lendo as aventuras de Tom Sawyer, a obra mais famosa de Mark Twain. Uma bonita homenagem ao homem que inspirou esta história.

É verdade que Benjamin Button aprende o essencial muito “jovem” – nos primeiros anos da sua vida vivida ao contrário. Cercado de idosos e aprendendo desde cedo o que acontece no fim da vida – todas as limitações de doenças, da solidão e do abandono – até o derradeiro momento da morte, ele percebe muito cedo que é bobagem dar tanta importância para a aparência. Afinal, quando todos pensavam que ele tinha mais de 70 anos, ele sabia pouco – ou quase nada – da vida. Era uma criança em um corpo de idoso. E isso é o que Daisy percebe pouco depois de o conhecer. Vê dentro dos olhos cansados daquele homem que ele é muito mais jovem do que aparenta.

Esse conto, entre outros temas, acaba assim tocando em algo importante: de como as aparências enganam. Podem existir pessoas muitos jovens que são extremamente sábias… souberam ouvir tantas pessoas diferentes à sua volta e sacar o máximo de toda e qualquer experiência para, no fim das contas, conseguir uma carga de aprendizado muito maior do que outras pessoas de 80 anos. E, por outro lado, muitas pessoas no fim da vida acabam retrocedendo, praticamente… adquirindo medos que não tinham antes. Talvez por medo de deixar a vida. Uma experiência que certamente é sempre dura, mas que é inevitável. Se elas tivessem nascido como Benjamin Button, sabendo que suas vidas são um milagre desde o início e de que todos estão aqui para aprender o máximo que podem enquanto têm esta possibilidade, talvez tudo seria mais fácil.

É difícil falar da morte. Talvez quando ela pareça tão próxima exista algo que aperta o peito e cria angústia. Afinal, não deve ser nada fácil admitir-se que se vai deixar este aprendizado de lado. Mas acho, muitas vezes, que o medo maior da perda é das pessoas que estão próximas de quem vai partir. Como no filme, quem parece carregar um peso maior é a filha, vivida por Julia Ormond – que ótimo ver esta atriz em um bom papel novamente. Ela está preocupada e com medo de deixar a mãe partir. E quando pergunta para Daisy se ela tem medo, ela apenas diz que quer ver o que vem em seguida. Que coisa maravilhosa! Quero ter esta paz de espírito quando for minha hora. 

Bem, mas deixando um pouco o tema da morte de lado. O filme é repleto de mensagens para fazer pensar. Como de como as pessoas são idiotas quando são jovens. Tão cheias de poder, tão onipotentes, e para que? Digo isso pelo que vive a personagem de Daisy. Ela sabe o que é importante. Ela sente. Mas o sucesso e a sensação de que ela pode “conquistar o mundo” lhe fazem perder tempo. Claro que essa perda de tempo é relativa – idéia essa que lhe vai assombrar por um bom tempo para, só depois, ela descobrir que o erro também faz parte do processo. Depois, na velhice, ela percebe que não perdeu tempo enquanto se achava onipotente… ela viveu, passou por experiências únicas, e isso foi o que valeu. Ainda assim, enquanto isso, Benjamin buscava novas experiências, conhecer lugares distantes – como a Rússia -, pessoas fascinantes (como Elizabeth Abbott, vivida com maestria por Tilda Swinton), sem a pretensão de ser alguém excepcional. Afinal, para ele, continuar vivendo era um milagre.

Talvez a “maravilha” de nascer com mais de 80 e morrer jovem seja justamente essa, a consciência de que a vida é realmente um milagre, algo muito raro e valioso. Acho que quando nascemos jovens e vivemos a “ordem natural” da vida, só nos damos conta disso muito tempo depois. Exceto em situações de risco permanente de morte, como em zonas de conflito e de guerras, onde realmente a noção de que a vida é um milagre acaba sendo percebida mais cedo – isso quando não vira algo até “banal”. 

Mas além de filosofia aqui e ali, o filme tem algumas das mensagens mais bonitas de pai para filha. O que Benjamin escreve para Caroline, a filha que abriu mão de educar, é de matar. Lindíssimo, realmente. Mérito principalmente do roteirista Eric Roth. Ele é o grande responsável pelo texto que vemos na tela. Afinal, ele escreveu todas as falas e detalhes, depois de ter trabalhado com o argumento para o cinema ao lado de Robin Swicord. Eles tiveram a idéia de Fitzgerald como norte para esta história, mas o “grosso” do que se vê realmente saiu de suas cabeças e não do texto original do escritor estadunidense.

Um filme verdadeiramente belo, feito com maestria técnica e com paixão pelos envolvidos. Percebe-se que todos estavam com “tesão” para contar esta história. Do diretor David Fincher, que pensou em cada plano de câmera, em cada detalhe para transportar para a tela a imaginação de Fitzgerald, de Swicord e de Roth; passando pela fotografia caprichada de Claudio Miranda e chegando na música encaixada como importante peça na engrenagem orquestrada pelo francês Alexandre Desplat. E o que falar dos detalhes técnicos, que fazem toda a diferença (e que dão credibilidade para a história)? Foi simplesmente perfeito o trabalho da equipe de 34 profissionais que garantiram a maquiagem dos atores – que pode ser secundária em outros filmes, mas que aqui foi importantíssimo para a história. Oscar garantido para eles, na minha opinião. Praticamente da mesma importância foi o trabalho da equipe responsável por figurino e direção de arte. Afinal, são praticamente 90 anos de mudanças visuais e de estilo mostradas como pano de fundo na tela.

NOTA: 10 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Por todos os elementos que eu comentei acima, tanto pela parte técnica do filme quanto por sua carga “filosófica”, não tenho como dar uma nota menor para este filme. Sei que assim parece que eu coloco ele no mesmo patamar de Slumdog Millionaire e Gran Torino, dois filmes recentes para os quais deu a nota máxima também. O pior é que estes três filmes são muito diferentes entre si e fica difícil de compará-los. Pessoalmente, tenho minhas preferências… Slumdog, para mim, continua tendo uma pequena vantagem em relação aos demais. Mas confesso que Benjamin Button me conquistou, assim como Gran Torino. São três grandes filmes de uma safra realmente especial.

Inicialmente eu achei que Brad Pitt havia assumido o papel de Benjamin Button desde o início. Ou seja, a partir do momento que o “garoto” envelhecido já pode sentar na mesa, achei que ele já estava lá, encarnando o personagem. Mas não. Ao olhar os créditos do filme, percebi que outros atores interpretaram Benjamin na fase “inicial” da sua vida – quando ele estava no auge da velhice corporal. São eles: Peter Donald Badalamenti II (que vive Benjamin dos anos 1928 até 1931 – quando ele passa pela igreja em que “começa a andar”); Robert Towers (dos anos 1932 a 1934) e Tom Everett (de 1935 a 1937).

A partir de 1937 o personagem de Benjamin, que então teria 19 anos na idade cronológica – e aproximadamente 60 e poucos na idade física – foi vivido por Brad Pitt. Aliás, o ator faz um trabalho soberbo, dos melhores da sua carreira. Pela primeira vez o olhar dele se tornou mais expressivo que seus trejeitos. Por boa parte do filme sua expressão sem palavras é mais importante que seu famoso sorriso. Com este papel o ator conseguiu dar um passo a mais em sua trajetória. Depois, quando o personagem rejuvenesce demais, ele passa a ser interpretado por Spencer Daniels (Benjamin aos 12 anos na idade física); Chandler Canterbury (Benjamin aos 8 anos) e Charles Henry Wyson (Benjamin aos 6 anos).

Cate Blanchett, como sempre, está maravilhosa. Mais uma vez ela comprova porque é uma das grandes atrizes de sua geração e uma das melhores da atualidade. Linda, ela interpreta todas as nuances de sua personagem complexa e cheia de dúvidas. Parece que com Daisy fica realmente comprovado que as mulheres envelhecem com mais dificuldade que os homens. 😉 Deixando a piada de lado, realmente é uma situação complicada para uma mulher ir envelhecendo enquanto o amor de sua vida vai ficando cada vez mais jovem e bonito – até um certo ponto, é claro. Porque, como nada é eterno, nem o retrocesso até a fase de bebê pode ser algo tão positivo quanto parece. Claro que essa parte foi menos explorada do que a velhice de Benjamin… até porque é difícil ver uma situação como aquela – sem contar que seria até irritante ficar acompanhando cada passo para trás daqueles pirralhos.

Além de Cate Blanchett, divina, sua personagem é vivida por outras duas atrizes muito boas. Sempre é ótimo ver a pequena Elle Fanning em cena – ela assume o papel de Daisy quando ela tinha 7 anos. Depois, Madisen Beaty encarna a personagem quando ela tinha 10 anos. A partir da adolescência a personagem passa para as mãos de Cate Blanchett.

Outros atores que valem ser citados pelo ótimo trabalho que fizeram: Jared Harris como o “artista” capitão Mike; Elias Koteas em uma “ponta” como o “Monsieur” Gateau, o homem que construiu um simbólico relógio que contava o tempo ao contrário (uma bonita analogia a história que vamos ouvir e que também nos faz pensar); Paula Gray como Sybil Wagner, uma das primeiras pessoas a ensinar Benjamin sobre a ausência que a morte provoca; e Edith Ivey como Mrs. Maple, a senhora que ensinou o personagem a tocar piano e tantas outras coisas. A verdade é que todos os atores, em papéis micro ou medianos, contribuiram para o êxito do filme.

O filme conseguiu uma boa nota pelos usuários do site IMDb: 8,5. Já os críticos que tem textos selecionados pelo Rotten Tomatoes foram menos generosos com The Curious Case of Benjamin Button do que com outros de seus concorrentes atuais: lhe dedicaram 118 críticas positivas e 46 negativas.

Mas se em notas e críticas positivas o filme está perdendo terreno para os demais, em bilheteria ele está se saindo melhor. Até o dia 2 de janeiro ele já havia arrecadado US$ 79,3 milhões nos Estados Unidos – e a produção ocupava a terceira posição na lista de filmes mais vistos. O “problema” para os produtores é que o filme custou caro – aproximadamente US$ 150 milhões – boa parte, com certeza, gasta em efeitos especiais. Vamos ver se o filme consegue se pagar e lucrar um bocado – certamente conseguirá isso se ganhar os prêmios que almeja.

Ainda não se sabe para quantas categorias do Oscar o filme será indicado, mas para o Globo de Ouro, que muitos consideram um bom termômetro para o Oscar, ele foi indicado a cinco categorias importantes. Entre elas a de melhor filme (subcategoria drama), melhor diretor, melhor ator (Brad Pitt), melhor roteiro e melhor trilha sonora. 

Achei curiosa – e acertada – uma escolha de David Fincher: por narrar uma história tão fantástica, o diretor escolheu justamente o caminho de uma narrativa realista. Pode parecer contraditório isso, mas a definição de Fincher para o seu trabalho nas notas de produção do filme nunca foi tão exata. Ao invés de enveredar para o caminho de “esta é uma história fantástica”, cheia de exageros, ele levou o filme, o seu “olhar de diretor” para o caminho do mais legítimo possível, tentando mostrar a vida daqueles personagens como ela seria na prática, cuidando do visual, da caracterização das cenas e dos personagens em cada detalhe. O resultado é que realmente a história fantástica acaba sendo crível.

Um dos momentos – de vários – que realmente me marcou foi quando Benjamin volta para casa e nota algo que eu também notei: quando uma pessoa fica um bom tempo longe de casa e finalmente volta para lá, percebe quase tudo igual, sem grandes mudanças – especialmente a respeito das pessoas -, e acaba descobrindo que quem mudou foi ele. Quem muda, não há dúvidas, é a pessoa que saiu e viveu uma série de experiências que ninguém mais sabe, que ninguém mais viveu. E sempre existe um choque entre aquele que mudou e aquele que não mudou – mas no filme o sempre sábio Benjamin parece ter passado bem pela situação, assumindo sua postura costumaz: de silêncio e observação.

A verdade é que me pareceu que ele foi um homem bem solitário, mantendo em um diário diálogos que ele não conseguia manter com mais ninguém. Por mais que sua mãe adotiva fosse boa, existia um abismo de compreensão entre eles. Por mais que Daisy fosse o amor de sua vida, ela não parecia estar disposta sempre a ouví-lo ou entendê-lo. Ele teve uma vida longa, inusitada e solitária. Talvez seja a vida que todos nós tenhamos. E acho que um pouco desta idéia está em uma das conversas entre Benjamin e Ngunda Oti (Rampai Mohadi), o viajante errante que acaba levando o velho/novo Benjamin para a sua primeira grande aventura – o que ele classificou como o melhor dia de sua vida até então. Oti disse a Benjamin que as pessoas diferentes passam boa parte de suas vidas completamente sozinhas… e que as pessoas comuns também, só que elas ainda passam suas vidas com medo. Me parece uma verdade cada vez mais fácil de acreditar, porque nos momentos derradeiros ou mais inspirados as pessoas parecem realmente estar sempre sozinhas.

No material dos produtores achei especialmente interessante a parte da pesquisa da figurinista Jacqueline West. Ela comenta que todas as roupas utilizadas nas diferentes épocas do filme foram escolhidas como “trajes do momento”, ainda que estilizados. Para sua pesquisa, por exemplo, ela se inspirou em impressionistas como Caillebotte, Edouard Manet, Toulouse Lautrec, Courbet… grandes nomes, realmente, dos quais eu já tive o prazer de ver algumas obras pessoalmente. Realmente incríveis.

Achei bacana também as referências distintas radicalmente para cada personagem. A mãe adotiva de Benjamin, Queenie, teve suas roupas inspiradas no material dos fotógrafos das WPA e FSA, agências do governo americano da época da Grande Depressão criadas para criar empregos urbanos e rurais. Enquanto isso, a inspiração para a sempre moderna Daisy na época de sua emancipação foram roupas com referência a George Balanchine, coreógrafo pioneiro, e sua mulher, Tanaquil LeClercq. A linguagem corporal e os movimentos que consagraram LeClercq também inspiraram Cate Blanchett em seu trabalho de intérprete.

O vestido vermelho de Daisy, utilizado em uma das sequencias mais bonitas do filme – momento inspirado do diretor David Fincher – foi inspirado nos desenhos de Claire McCardell, uma das maiores designers dos Estados Unidos nos anos 1940/50, a quem é creditada a invenção do American Look. Já as roupas utilizadas por Benjamin tiveram como referência ícones do cinema de diferentes décadas, como Gary Cooper nos anos 1940; Marlon Brandon nos anos 1950; e Steve McQueen nos anos 1960.

The Curious Case of Benjamin Button ganhou três prêmios até agora, além de ter (ou estar sendo) indicado a outros 19 – entre eles os cinco Globos de Ouro já comentados por aqui. Os prêmios que ele já levou para casa, até agora, foram: melhor atriz coadjuvante para Taraji P. Henson conferido pela Associação de Críticos de Cinema de Austin; e melhor diretor e melhor roteiro pela National Board of Review.

Um detalhe: o filme tem quase três horas de duração e não parece arrastado. Pontos para ele.

CONCLUSÃO: Um conto fantástico sobre um homem que nasce velho e morre criança narrado da forma mais realística possível. Um grande filme tecnicamente falando e que toca em questões fundamentais da vida e da morte, passando por diferentes nuances da fragilidade e da bravura humana. Como quase todos os filmes que contam a “trajetória de uma vida”, esta produção também quer valorizar as histórias humanas encontradas no caminho, tentando exprimir em suas duas horas e 46 minutos de filme alguns dos grandes aprendizados de uma existência. O resultado é um filme bem acabado tecnicamente falando e com várias mensagens interessantes pelo caminho, chegando bem perto de se tornar “filosofia barata” e sentimental, mas sem chegar a cair neste erro. O diretor soube conduzir a história bem perto do abismo, algumas vezes, mas evitou a sua queda. O resultado é um filme de primeiro, uma fábula inspirada em Mark Twain e F. Scott Fitzgerald. Acima da média.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Acho que com The Curious Case of Benjamin Button encontrei o grande concorrente do próximo Oscar. O filme tem todos os elementos que encantam à Academia. E o melhor (para eles): o filme não faz homenagem alguma ao modo de fazer cinema que está fora do “mercado” que eles gostam de valorizar. Diferente de Slumdog Millionaire, francamente inspirado em Bollywood. Não. Benjamin Button é pura Hollywood. Algo perfeito para ser premiado pelos interesses da Academia. E o melhor: se o filme for o grande vencedor da noite, não será uma completa injustiça.

Acho que com os comentários acima os leitores deste blog já sabem minha preferência: continua achando Slumdog melhor que Benjamin Button. Mas acho que realmente David Fincher tem mais chances de ganhar as estatuetas do que Danny Boyle (ainda que eu ache que o segundo merece ganhar mais que o primeiro). Afinal, nada melhor para a Academia que valorizar a Hollywood. The Curious Case of Benjamin Button deve ser indicado na maioria das categorias. Vejo ele sendo finalistas para melhor filme, diretor, ator, roteiro adaptado, figurino, maquiagem e possivelmente ainda para melhor atriz, atriz coadjuvante (Tilda Swinton merecia uma indicação), direção de arte, efeito visual, direção de fotografia e trilha sonora. Se for indicado em todas as categorias que tem chance, ele contabilizará 12 indicações.

Se a Academia resolver que ele será o filme da vez, ele poderá embolsar realmente as estatuetas de melhor filme, diretor, ator, roteiro adaptado, figurino e maquiagem. Mas, para isso, ele terá que deixar para trás filmes importantes como Slumdog Millionaire, Gran Torino (que talvez nem chegue a ser indicado, o que será uma pena), Frost/Nixon e Milk; Brad Pitt terá que tirar a estatueta das mãos de Sean Penn e Frank Langella (considerados favoritos); David Fincher terá que derrubar nomes que são “queridinhos” pela Academia, como Ron Howard; entre outras acrobacias. Mas sim, é possível. E dos filmes que vi até agora, se Slumdog realmente for perder para alguém, que seja para Benjamin Button.

Se as profecias se concretizarem, o casal Brad Pitt e Angelina Jolie estarão concorrendo a uma estatueta cada um no próximo Oscar. Será interessante ver a badalação das câmeras com os dois. Sei que a lista é grande para as candidatas a melhor atriz, mas eu gostaria de ver a Cate Blanchett mais uma vez por lá – ainda que ela tenha praticamente chances zero de ganhar desta vez. Se ela for indicada este ano, será a sua sexta indicação ao prêmio – ela ganhou em uma das outras cinco indicações, por seu papel de coadjuvante em The Aviator.

ATUALIZAÇÃO (05/05/2009): Ai gente, vão me desculpar, mas eu fui obrigada a baixar a nota desse filme. Fiquei “de cara” com um vídeo que eu vi que demonstra, por A+B que o roteirista Eric Roth se “autoplagiou” com este Benjamin Button. Aliás, achei ótimo o título da sátira do vídeo: “The Curious Case of Forrest Gump”. As semelhanças são demais para serem apenas “um acaso”. Ok que os dois filmes são baseados em obras diferentes – Forrest Gump em um livro, Benjamin Button em um conto, mas ainda assim… o roteirista podia pelo menos ter inovado um pouquinho, não? Especialmente em Benjamin Button, já que ele tinha apenas uma “idéia” sobre a qual poderia trabalhar. O conto no qual o roteiro se baseia é muito mais “aberto” a idéia e inovações do que o livro de Forrest Gump. Fiquei de cara e não gostei. Agora, mais do que nunca, prefiro Slumdog Millionaire – já preferia antes, mas agora ainda com mais argumentos. 😉