The Visitor – O Visitante

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Existe uma diferença grande entre ver um filme que todos estão comentando, uma produção bastante premiada ou elogiada, e um filme sem grande “propaganda” sobre ele. No caso do primeiro, a surpresa e a satisfação podem vir naturalmente, confirmando “o que se esperava” – quando o filme realmente tem qualidade para o gosto de quem o está assistindo. No caso do segundo, parece que o efeito do filme acaba sendo ainda maior, porque existe o imprevisto – não se esperava nada ou muita coisa e “voilà”. É como se você encontrasse uma pequena pérola no lugar mais inusitado. Existe, neste caso, a força de uma “descoberta” pessoal, praticamente. O filme The Visitor é uma produção deste segundo tipo, porque acaba se revelando como uma pérola encontrada no meio de outras bolas brancas sem valor. Um filme menos comentado que outros e que, talvez por isso mesmo, ele acabe surpreendendo tanto por suas qualidades. 

A HISTÓRIA: O professor Walter Vale (Richard Jenkins) recebe Barbara (Marian Seldes), uma professora de piano particular, em casa. Esta é a sua quarta tentativa em começar a aprender a tocar piano, o instrumento que era a especialidade de sua mulher e que, normalmente, tem grande importância na música clássica, que é uma de suas grandes paixões. Mas, mais uma vez, ele se sente frustrado. Logo mais, sua frustração aumentará quando ele se vê obrigado a aceitar o convite de participar de uma conferência, em Nova York, apresentando um estudo do qual é co-autor apenas no papel – afinal, o trabalho leva seu nome mas foi todo produzido por uma colega universitária. Quando chega no apartamento que não frequenta há muito tempo, em Nova York, Walter se depara com o casal de imigrantes ilegais Tarek Khalil (Haaz Sleiman) e Zainab (Danai Jekesai Gurira), que alugaram o lugar através de um amigo que lhes enganou. Desse encontro de mundos tão diferentes acaba nascendo uma curiosa relação.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Visitor): Cheguei a The Visitor por causa da indicação de Richard Jenkins ao Oscar na categoria de melhor ator. Antes de assistir ao filme, eu tinha ficado um pouco chateada por ele ter “tomado” um posto que podia ter sido de Clint Eastwood (por seu desempenho em Gran Torino). Mas bobagem. Jenkins realmente merece estar lá, como um dos convidados de honra da próxima premiação da Academia

Quando ele apareceu no filme, logo nos primeiros minutos, eu pensei: “Já vi esse ator… mas sempre em papéis secundários”. Realmente, lembro dele de muitos outros filmes, mas não recordo de tê-lo visto como protagonista. E aqui, em The Visitor, ele comprova que o diretor e roteirista Thomas McCarthy acertou em cheio em colocá-lo no papel principal do filme. Ele está simplesmente perfeito, em uma interpretação visceral e que torna seu personagem total e completamente crível. O que não é algo exatamente fácil. Afinal, quem acreditaria que um professor universitário conceituado, que anda “trabalhando” em seu quarto livro, acobertaria e, especialmente, “adotaria” dois imigrantes ilegais em seu Estados Unidos querido? Sua história pode parecer absurda, mas nas mãos de Jenkins ela se torna perfeitamente possível. E lindíssima.

The Visitor toca em alguns temas que me interessam em especial. Um deles é a capacidade de algumas pessoas – não de todas – em se reinventar. Pessoalmente, essa pergunta de “e depois que eu tiver chegado ao lugar em que eu queria, o que virá?”, sempre me pareceu uma boa pergunta. Sei que The Visitor é apenas um filme, uma obra ficcional (como todos os outros filmes), mas nele vi algo que questiono também. Afinal, Vale é um professor universitário que dá a mesma matéria na universidade há 20 anos e que não vê mais sentido ou prazer algum no que faz há muito tempo. Eu estou estudando um doutorado, e quando terminá-lo, meu caminho natural será uma carreira acadêmica. Ok, mas e se lá pelas tantas eu descobrir que não era isso? Meus “20 anos de escola”, como diria certa música, terão me servido para que? Acho que terão me levado longe apenas para que eu pense em outro caminho se isso for necessário. 

No caso de Vale, ele não apenas deixou de ver sentido e ter prazer no que faz. Ele gostaria de fazer algo totalmente diferente. Seu desejo é experimentar algo menos racional, menos “intelectual” e mais visceral, muito mais intuitivo, que é a música. Interessante isso também, porque em 2008, levada bastante pela vontade de experimentar o que amigos muito especiais estavam experimentando em Madrid, me aventurei a cantar em um coral de música brasileira. E a experiência foi excepcional. Percebi, realmente, que a música, quando você a experimenta e não apenas a “contempla” (porque isso eu já vinha fazendo há muito tempo), é libertadora. Amplia realmente nossas percepções, sentidos. Mexe com nosso corpo, mente, melhora nosso bem estar e, de quebra, nos permite que nos conheçamos muito mais. Walter Vale segue intuitivamente este caminho e realmente vai descobrindo uma pessoa que ele desconhecia… um outro Walter Vale, muito mais ousado e corajoso. Ele reencontra a paixão.

Os dois temas anteriores eu acho muito importantes porque acredito que as pessoas acabam se acomodando na vida, lá pelas tantas, uma ou mais vezes em sua trajetória. Algumas, claro, podem se acomodar em um trabalho ou em uma maneira específica de ser, sem se jogar em terrenos novos, porque estão felizes e satisfeitas com o que fazem. Beleza. Agora, quando isso não acontece, quando o que a pessoa faz já não satisfaz como deveria, acho que o grande desafio é o que vemos Walter Vale fazendo… o de buscar outras direções que possibilitem o resgate do prazer de estar vivo. Caminhos sempre existem, o que faz falta é o movimento de se jogar em uma busca por eles.

Bem, os temas anteriores são alguns dos tratados pelo filme. Talvez os menos “óbvios”. Porque no fundo The Visitor é uma grande história sobre estas buscas de oportunidade e de prazer na vida mas, principalmente, é um filme sobre a imigração nos Estados Unidos depois dos atentados de 11 de setembro. Toda a história de Tarek, Zainab e da mãe do músico, Mouna Khalil (a ótima atriz Hiam Abbass) são perfeitamente possíveis nos Estados Unidos e na Europa atuais. Desde o casal ter sido enganado por um “amigo” deles, que lhes alugou um apartamento que não era dele, até o tratamento que Tarek recebe pelos agentes da imigração. Tudo é muito, mas muito verossímel. E na corrente oposta à postura do governo dos Estados Unidos no trato destas “pessoas ilegais” está a generosidade e a atenção de Walter Vale com o jovem casal. Existe esperança quando as pessoas resolvem mudar seus comportamentos… através delas é possível uma mudança social. Pena que poucas pessoas se dêem conta disso.

Impressionante como ele, que não vê mais graça nenhuma em seu trabalho e em sua vida cotidiana, se abraça naquela história de amor e de juventude vivida por Tarek e Zainab. Parece que ele vê nos dois tudo o que gostaria para si… e que se ele ajudá-los, talvez possa ajudar a si mesmo. O que realmente acontece. Dizem que quando duas pessoas interessantes se encontram, nenhuma delas consegue sair deste encontro iguais como antes. Acredito que nenhum dos quatro personagens principais saiu dos encontros que tiveram sem se modificarem bastante. E isso é ótimo quando significa um pouco mais de compreensão de uma realidade diferente e também um pouco de experimentação desta outra forma de viver.

The Visitor fala de todos esses temas e acaba sendo importante e ao mesmo tempo convincente do início ao fim. Para mim, foi uma das grandes surpresas dos últimos tempos, especialmente porque poucas pessoas falaram dele – diferente de The Curious Case of Benjamin Button ou Slumdog Millionaire, dois filmes para os quais andei dando nota máxima recentemente.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A transformação de Vale depois de ter conhecido o apaixonado músico Tarek é impressionante e emocionante. As cenas em que ele “ousou” tocar seu instrumento de percussão em locais públicos são de arrepiar. Realmente momentos lindos.

Algo que achei curioso também – e que ficou nas entrelinhas do roteiro: o “receio” de Zainab em se relacionar com Walter Vale. Inicialmente pensei que o “pé atrás” dela em relação a ele passasse pelo medo de que ele denunciasse o casal para a imigração – afinal, eles tinham acabado de viver uma experiência ruim de uma pessoa que lhes havia enganado. Mas, no fundo, ela tinha “resistência” em ficar sozinha com Vale, entre outras coisas, porque ela era uma “boa muçulmana”, como definiu Tarek. Ou seja: mesmo sendo uma “muçulmana moderna” (que não levava mais o véu e se permitia ir a lugares públicos que seriam proibidos para as muçulmanas), ela preservava ainda alguns comportamentos de sua religião, como o de não se sentir confortável estando com um homem que não fosse seu marido (no caso, namorado) em “casa”. Por sua vez, Tarek e sua mãe, Mouna, eram muçulmanes muito mais liberais.

Dos filmes indicados ao Oscar este ano, The Visitor é um dos menos conhecidos e, também, um dos menos badalados em prêmios – o que pode levar as pessoas a acreditarem que ele se trata de um “filme menor”, o que eu realmente não acho. Até o momento esta produção ganhou nove prêmios e foi indicado a outros nove. Entre os prêmios que ela ganhou, se destaca o de melhor ator e de melhor roteiro original conferidos, respectivamente, para Richard Jenkins e Thomas McCarthy no Satellite Awards; o “Spotlight Award” (que seria algo como “prêmio holofote”, conferido a “descobertas do cinema”) da National Board of Review para Richard Jenkins; o prêmio Silver St. George do Festival Internacional de Cinema de Moscou dado para Richard Jenkins (escolhido como melhor ator); entre outros. 

The Visitor têm conseguido uma opinião melhor dos críticos que escrevem para jornais e sites do que do público que opina no IMDb. Basta comparar os números do Rotten Tomatoes e do IMDb: no primeiro site, que abriga textos de críticos de cinema, foram publicadas 94 críticas positivos e apenas nove negativas para o filme (o que o leva a uma aprovação de 91%); enquanto que os usuários do IMDb lhe deram apenas a nota 7,9.

Fiquei bem interessada no trabalho do diretor e do roteirista Thomas McCarthy. Procurando mais informações sobre ele, descobri que ele “migrou” para a função de diretor – porque, até 2003, quando escreveu e dirigiu o filme The Station Agent, ele seguia apenas a carreira de ator televisivo e de cinema. Quando tiver oportunidade, quero ver a estréia dele na direção. Seu segundo trabalho, este The Visitor, me pareceu “de veras” incrível.

The Visitor conseguiu uma bilheteria relativamente modesta até agora nos Estados Unidos: pouco mais de US$ 9,4 milhões entre abril e outubro de 2008. O segundo país em bilheteria foi a França, onde se arrecadou pouco mais de US$ 1,7 milhão e, depois, na Itália, com US$ 1,6 milhão.

Vale citar o trabalho competente de algumas pessoas da equipe técnica: do diretor de fotografia Oliver Bokelberg (que realmente faz um trabalho cuidadoso e essencial); do editor Tom McArdie (que ajuda o diretor e a contar essa história de maneira precisa, no ritmo certo); e de Jan A. P. Kaczmarek na trilha sonora.

E algo fundamental neste filme: a “química” entre os protagonistas. Realmente é algo que acaba tornando o roteiro inicialmente interessante do diretor ainda mais potente.

Parece que realmente The Visitor é o grande trabalho de Richard Jenkins, 61 anos – logo mais, em maio, 62 anos – em muito tempo. O ator, que vêm trabalhando para a TV e para o cinema desde 1974, recebeu seis prêmios e foi indicado a outros seis em sua carreira até agora. Mas esta é a primeira vez que ele chega ao Oscar, por exemplo. E a verdade é que antes de receber prêmios e indicações por The Visitor, ele tinha sido indicado em apenas outras duas ocasiões: em 2002, junto com o demais elenco da série televisiva Six Feet Under, no Screen Actors Guild Awards; e antes, em 1997, no Independent Spirit Awards, por seu papel de coadjuvante em Flirting with Disaster.

Realmente emocionante os momentos em que Tarek ensina Walter a tocar o tambor africano… e, principalmente, a mudança que vai ocorrendo com o professor universitário através da música – uma experiência de liberdade e de satisfação que só um grande ator poderia nos passar de forma tão perfeita.

Uma curiosidade sobre o filme que eu vi no site dele: Walter Vale é um professor universitário de 62 anos – praticamente a idade real do ator que o interpreta – que vive em Connecticut, onde dá aula de Economia em uma universidade local. Tarek e de Zainab são, originalmente, naturais da Síria e do Senegal, respectivamente. Aliás, a sequencia em que Zainab atende uma “riquinha” que não sabe nada sobre onde fica Senegal ou qualquer outro lugar, é de matar. Muito boa! Revela um desconhecimento padrão dos estadunidenses (e também dos europeus) sobre algo que não seja seus próprios quintais.

Outro ponto interessante do filme foi que a história mostrou o circuito dos bares de jazz em Nova York e, de quebra, a experiência dos músicos que tocam no Central Park – e nos metrôs da cidade. Isso é algo muito interessante, porque em toda grande cidade realmente se percebe uma grande oferta de música de qualidade. Em Madrid, por exemplo, existe gente muito boa tocando em estações do metrô e em bares de jazz e de outros estilos musicais em ruas do Centro histórico, próximas de “la Puerta del Sol”. Aos domingos, especialmente na primavera e no verão, também é muito frequente vários músicos de diferentes nacionalidades – incluindo muitos africanos – tocarem no Parque Retiro, o principal de Madrid. É verdadeiramente interessante e impressionante. Recomendo para quem um dia for para aquela cidade.

CONCLUSÃO: Uma história de um encontro inusitado entre um professor universitário frustrado e um casal de imigrantes ilegais apaixonados entre si e por sua vida artística. O que poderia ser um encontro desastroso se torna uma oportunidade de reconhecimento e admiração do “diferente”. Um filme bem contado, no qual a história vai “deslizando” de forma simpática e bem ritmada até o final. Se trata de uma história difícil sobre a impossibilidade de algumas pessoas em realmente ter oportunidade na vida, sendo proibidas de viver em um país como os Estados Unidos, mas também se trata de uma história sobre a redescoberta do lugar no mundo e do prazer na vida do protagonista. Com ótimas atuações, é um filme contagiante e ao mesmo tempo crítico que vale a pena ser descoberto.

PALPITE PARA O OSCAR: The Visitor conseguiu chegar na festa mais badalada do cinema dos Estados Unidos mesmo sendo uma produção “alternativa”. Isso nunca é pouca coisa – The Visitor e Frozen River conseguiram este feito. Como eu disse antes, eu tinha ficado um pouco “decepcionada” por Clint Eastwood não estar entre os indicados como melhor ator, mas agora devo admitir que os melhores do ano foram selecionados para estar entre os cinco indicados. Richard Jenkins mereceu estar lá da mesma forma que Melissa Leo por Frozen River. Eles são os “fracos” da disputa porque, afinal, não têm tanto lobby quanto os demais. Francamente acho que Jenkins não deve levar a estatueta para casa – algo que deve ocorrer com Sean Penn ou Mickey Rourke, que parecem serem os favoritos – ainda que eu prefira Penn, Brad Pitt ou Jenkins antes que Rourke.

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