The Reader – O Leitor

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The Reader era o filme que me faltava para assistir entre os principais que estão concorrendo ao Oscar 2009. Eu já tinha assistido a praticamente todos os outros das categorias principais – com uma outra exceção para confirmar a regra. Mas faltava este… Assisti e gostei, ainda que eu ache ele “inferior” aos demais concorrentes. Ainda assim, admito, é um filme que me fez chorar (pois sim, eu sou destas que chora com alguns filmes). Nem tanto porque ele mostre uma realidade difícil de aguentar – como War/Dance – mas porque se trata de uma história de amor impressionante. E, de quebra, ele ainda aborda uma questão sempre difícil de tratar: o nazismo e suas cicatrizes que parecem incuráveis.

A HISTÓRIA: Michael Berg (Ralph Fiennes) vive em Berlim em 1995. Ele acaba de se despedir de uma mulher com quem passou a noite e começa a se preparar para sair de casa quando olha um trem passando pelo lado de fora da janela. Neste momento, Berg se projeta para o ano de 1958, quando ele (então vivido pelo ator David Kross) passou muito mal um dia voltando da escola para casa. Sem concatenar muito bem aonde estava indo parar, Michael começa a vomitar e se abriga em um lugar do subúrbio de Neustadt, cidade da então Alemanha Ocidental. Logo ele é ajudado por Hanna Schmitz (Kate Winslet), uma mulher com quem ele acaba se relacionando – e que encontraria muitos anos depois, quando estudava advocacia, em um tribunal que julgou antigas participantes nazistas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Reader): Bem escrito e, especialmente, com interpretações potentes de Kate Winslet e do jovem David Kross. Assim se mostra The Reader. O trabalho bem feito do diretor inglês Stephen Daldry e de sua equipe técnica resultou, não por acaso, em cinco indicações do filme para o Oscar. Entre elas, a de melhor filme, atriz, fotografia, direção e roteiro adaptado – ou seja, apenas em categorias principais. Nada mal. Mas o mais curioso é que por este filme Kate Winslet foi indicada como melhor atriz no Oscar, enquanto que ela ganhou vários prêmios por esse papel na categoria de coadjuvantes através de associações de críticos e festivais.

Como comentei lá no início, eu gostei muito do filme. Ele acaba estreitando os laços entre literatura e realidade de uma maneira que eu só vi recentemente outro filme indicado ao Oscar fazer: Atonement. E ainda que ambos tratem de um grande amor e de guerras, eles se mostram produtos do cinema muito distintos. Achei este The Reader muito mais profundo – e ouso dizer, bonito. Achei impressionante o cuidado técnico do filme, desde a fotografia belíssima até a direção inspirada de Daldry.

As sequências no tribunal, em especial, são reveladoras. Afinal, boa parte do que é contado por ali se vê pela ótica do espectador – e, neste caso, não “qualquer espectador”, mas o narrador da história e eterno apaixonado por aquela mulher instigadora e paralelamente misteriosa. E claro que este é apenas um exemplo… as imagens perfeitas das cenas de sexo e de leitura dos amantes elevam o filme a um outro patamar de sensibilidade – que não quer dizer exatamente novo, mas principalmente inspirado em fazer uma releitura pontual de recursos utilizados anteriormente. E conta muito para esse efeito de beleza o trabalho dos atores. Kate Winslet, mais uma vez, dá um show. Assim como em Revolutionary Road – por estes dois papéis ela merece a estatueta.

Mas a atriz encontra um parceiro jovem e acima da média para sua imaturidade cênica: David Kross. Como já aconteceu em outros filmes anteriormente, ele poderia ter sido anulado pela atriz tecnicamente superior que tinha ao lado, mas não… Kross consegue segurar as pontas e fazer um belo trabalho. Os pais dele devem estar orgulhosos. 😉

No mesmo passo em que o filme mostra a paixão avassaladora deste adolescente – Michael tinha, na época, 15 anos – por uma mulher mais velha – Hanna tinha então 36 -, ele conta também os resultados de tal aventura amorosa e, paralelo, o sentimento alemão com fatos até hoje não superados de sua história. Mais precisamente, sobre a dúvida, a convicção, o orgulho e a vergonha que muitos sentiam pelo que eles haviam feito/permitido durante a época do nazismo. Velhas questões são tratadas pelo filme de forma natural e sem chegar a nenhuma conclusão definitiva.

Ainda assim, fica claro que o roteiro de David Hare, baseado no livro de Bernhard Schlink, questiona ao mesmo tempo que procura humanizar os “vilões” e demais alemães desta história. A verdade é que, especialmente perto do final, percebemos que ninguém é tão demoníaco ou tão santo quanto algumas vezes algumas sociedades e/ou grupos procuram simplificar. Os santos têm pés de barro e/ou os demônios são pessoas comuns. Claro que nada justifica algumas atitudes, mas existe uma série de contextualizações que se fazem necessárias.

Pessoalmente, sempre pensei que ninguém na Alemanha durante o regime nazista podia ser totalmente inocente. Ou as pessoas eram ignorantes, e não sabiam o que acontecia (o que eu acho praticamente impossível), ou eram coniventes com o que se fazia durante o regime ou, o pior, apoiavam a exploração humana e o posterior extermínio de segmentos da sociedade. Vou explicar porque eu não acreditava que as pessoas eram ignorantes: será que existia alguém que não soube de alguma prisão ou do envio de algum judeu ou de outra pessoa de um segmento da sociedade desprezado pelos nazistas para certo campo de concentração? Será possível que seu vizinho foi preso e você não quis saber para onde ou o porquê dele ter sido enviado para outro lugar? Por isso mesmo acho impossível as pessoas não terem sido informadas do que acontecia na época. Talvez algumas não soubessem de toda a verdade, mas sabiam de algo. E, para mim, elas se apoiaram na lei da época e não nas questões morais, como bem reflete o professor Rohl (Bruno Ganz).

Aliás, para quem viu Bruno Ganz e se lembrou de Der Untergang, deve ter reconhecido também Alexandra Maria Lara em uma rápida aparição como a jovem Ilana Mather – a garota que sobreviveu a um campo de concentração, contou sua história em um livro e desencadeou o julgamento de Hanna e das outras guardas nazistas que The Reader mostra. Sua presença no filme foi vapt-vupt, mas valeu cada segundo. A menina é realmente encantadora.

Merecem destaque também as presenças do veterano ator Mattias Habich como Peter Berg, pai de Michael; Susanne Lothar como Carla Berg, mãe do jovem; Vijessna Ferkic como Sophie, a garota “nova” que aparece no colégio e que quase vira romance de Michael (se dependera dela, sim); Karoline Herfurth como Marthe, colega e amante de Michael na fase em que ele estudava Direito; Volker Bruch como Dieter Spenz, colega do curso de Direito e responsável por alguns dos principais questionamentos do julgamento das guardas nazistas; e Lena Olin em um papel duplo de Rose e Ilana Mather (este segundo quando ela era adulta, no final dos anos 80).

Aliás, falando em datas… impressionante que quando Michael é chamado a ajudar Hanna, eles se encontram exatos 30 anos depois que tinham se conhecido. (SPOILER – não continue lendo se você ainda não assistiu ao filme). Que história de amor poderia perdurar tanto tempo na distância e na incomunicabilidade? Se bem que eles acabam se comunicando, de uma forma bastante complexa e “torta”, por vários anos… pelo que o filme dá a entender, por exatos 12 anos. Digo que é o que ele dá a entender porque parece que Michael começa a gravar fitas e enviá-las para Hannah em 1976, depois que comunica para a mãe dele que se separou de Gertrud, sua então mulher. E como ele vai visitar a Hannah apenas em 1988, tudo indica que por este tempo ele lhe enviou obras gravadas em fitas – ela era apaixonada pela literatura mas, analfabeta, pedia para os outros lerem para ela – e ela, por sua vez, tentou por vários anos uma resposta dele através de cartas.

Para mim, um dos grandes momentos do filme é quando Michael pergunta para Hanna se ela pensa muito no passado e procura saber o que ela aprendeu naqueles anos todos na prisão. (SPOILER – não leia se você não quiser estragar um grande momento do filme). Ela, maravilhosamente interpretada por Kate Winslet, contesta que aprendeu a ler neste tempo. Genial! O que ele ou as outras pessoas esperavam? Afinal, para Hanna, ela fez o que tinha que fazer em sua época. Nada mais, nada menos. E se depois ela foi condenada por isso, paciência… iria cumprir a sua pena com resignação. Se vê que naquela mulher não existia culpa e nem dúvida. E sua personagem comprova que uma pessoa capaz de impedir que 300 pessoas escapassem de um incêndio é a mesma que ajuda um garoto desconhecido que está passando mal a chegar em sua casa. Verdadeiramente não existem anjos ou demônios, apenas humanos e suas circunstâncias.

NOTA: 9,2. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para quem gostou da fotografia do filme, vale citar que ela é assinada por Roger Deakins e por Chris Menges. Outro fator importante, a trilha sonora, é de autoria de Nico Muhly. E a edição, que ajuda ao diretor a contar esta história de maneira tão regular, foi feita por Claire Simpson.

Aliás, falando em regularidade do filme… The Reader não deixa a peteca cair em momento algum. E, ainda assim, sua história é dividida claramente em três períodos: a do romance entre Michael e Hanna; a do julgamento de Hanna e do “amadurecimento” de Michael e; por fim, do reencontro/desencontro dos dois. E no meio entre estes três momentos lineares existe uma série de cortes da vida atual de Michael, vivido na fase adulta pelo ótimo Ralph Fiennes. Como um legítimo alemão ele vai se dando conta da sua incapacidade em demonstrar sentimentos e, como disse à própria filha, de revelar sobre si mesmo. Mas o final do filme mostra esperança, uma certa redenção do personagem.

Até o momento The Reader ganhou cinco prêmios e concorreu a outros 19. Entre os que levou para casa estão, principalmente, prêmios para Kate Winslet (quatro dos cinco, incluindo o Globo de Ouro como atriz coadjuvante) e David Kross (que levou para casa o Sierra Award, dado para jovens talentos, no prêmio da Associação de Críticos de Cinema de Las Vegas).

O desempenho do filme, comercialmente falando, foi baixo até agora. Afinal, ele teria custado aproximadamente US$ 32 milhões para os produtores e faturou, nos Estados Unidos, até o dia 25 de janeiro, pouco mais de US$ 9,6 milhões. Pouco, muito pouco. Quem sabe alguma estatueta do Oscar possa melhorar seu faturamento futuro.

The Reader se passa todo na Alemanha. E foi lá, realmente, que o filme foi praticamente todo rodado. Para quem gostou das paisagens, vale citar que a produção foi rodada nas cidades de Berlim, Colônia, Görlitz (na Saxônia), Luckau (em Brandenburg), Sächsische Schweiz (também Saxônia) e, saindo da Alemanha, em Lublin (Polônia).

Muito curiosa a permanente analogia entre romances/literatura e a vida real dos personagens que aparecem na tela… especialmente quando o professor de Michael diz que  o segredo é o centro do romance ocidental. Realmente muitas pessoas carregam segredos nesta história – e tentam lidar com eles de diferentes maneiras. E isso faz de The Reader um grande romance – fiquei curiosa pela obra que lhe inspirou, Der Vorleser, de Bernhard Schlink. Segundo descobri lendo as notas de produção do filme, o livro de Schlink foi publicado pela primeira vez em 1955 e, posteriormente, traduzido para 40 idiomas. Ele se tornou também o primeiro livro publicado originalmente na língua alemã a alcançar o topo da lista de publicações mais vendidas do The New York Times.

Dos filmes que estão concorrendo nas categorias principais do Oscar deste ano, acredito que The Reader seja o que tem registrado as menores notas de público e entre os críticos. Os usuários do site IMDb lhe conferiram a nota 7,9, enquanto que os críticos que tem textos arquivados no Rotten Tomatoes dedicaram 94 críticas positivas e expressivas 64 negativas para o filme. Seus concorrentes conseguiram opiniões melhores. Não sei se isso se deve aos temas polêmicos que o filme trata ou realmente porque as pessoas acharam ele apenas mediano.

Só bem depois fui me dar conta que o diretor de The Reader é o mesmo de The Hours, um dos meus filmes favoritos… muita coisa se explica agora. Especialmente o cuidado do diretor com a obra original e nos detalhes da narrativa. E para não fugir do terreno de “adaptar grandes livros para o cinema”, o diretor está preparando The Amazing Adventures of Kavalier & Clay, baseado no best-seller romance de Michael Chabon (também roteirista) que foi vencedor de um prêmio Pulitzer. Nada mal… The Reader, só para constar, é o primeiro filme para os cinemas de Daldry em seis anos – seu primeiro depois de The Hours. No meio ele produziu, em 2003, Cinema16: British Short Films, para a TV. 

Ainda que o filme trate claramente do sentimento de “culpa” da geração que surgiu na Alemanha pós-Segunda Guerra Mundial, The Reader é, na opinião de seu diretor, um filme sobre a “verdade e a reconciliação”. Segundo o autor do livro que inspirou The Reader, seu romance conta a história “sobre a chamada segunda geração, aqueles sortudos que nasceram mais tarde (depois da guerra)”. “Tivemos uma infância ingênua – até que, em um certo momento, nos demos conta do que nossos pais, padres e professores haviam feito. Quando amas a alguém que fez parte de algo terrível, se produz um conflito…”

A título de curiosidade: segundo as notas de produção do filme, a SS tinha aproximadamente 900 mil participantes em 1943. A rede alemã de trens empregava mais de 1 milhão de pessoas, e muitos trabalhariam nas linhas de trem que transportavam prisioneiros judeus. Quando acabou a guerra em 1945, um consenso dos aliados concluiu que todos os alemães compartilhavam uma parte da culpa, não apenas pela guerra, mas também pelas atrocidades dos nazistas. Foi então que se falou de “culpa coletiva” ou da “responsabilidade coletiva” – termos usados pelos Estados Unidos e pela Inglaterra.

E sim, o filme é recheado de cenas de nu e de sexo… para constar (e avisar aos espíritos “pudicos”).

CONCLUSÃO: Um filme sensível sobre temas polêmicos, entre eles o envolvimento amoroso de um adolescente de 15 anos e de uma mulher com o dobro de sua idade, além da culpa que circunda os alemães após o fim da Segunda Guerra Mundial. Dirigido pelo mesmo diretor e com texto do roteirista do anterior The Hours, esta produção se mostra mais uma vez cuidadosa com a história original (uma das obras mais importantes da literatura moderna alemã) e com a valorização do trabalho dos atores. Não é um filme fácil de ser assistido, até porque trata de muitos temas potentes em paralelo – e de forma quase banal – mas talvez justamente por isso ele seja tão interessante. Vale a pena também por mostrar uma Kate Winslet e um jovem ator alemão (David Kross) em interpretações perfeitas.

PALPITE PARA O OSCAR: Como comentei antes, The Reader conseguiu a proeza de ser indicado em cinco das principais categorias do Oscar 2009. Ficou de fora apenas da disputa por melhor ator. No demais, está dentro. Um grande feito para os produtores e diretores de cinema Sydney Pollack e Anthony Minghella, envolvidos neste projeto desde o início e mortos em 2008, antes de ver o filme chegar tão longe.

Pessoalmente, acredito que The Reader tem poucas chances de levar os prêmios aos quais está concorrendo para casa. Na categoria melhor filme, certamente, ele será subjugado por Slumdog Millionaire ou, como minha segunda aposta, The Curious Case of Benjamin Button. Na categoria de melhor diretor eu também não vejo muitas chances para Stephen Daldry. Acredito que levam vantagem na disputa Danny Boyle e David Fincher (pelos filmes anteriormente comentados).

A melhor chance do filme está mesmo com Kate Winslet. Para mim, ela é a grande favorita. Ainda que eu não tenha conseguido ver ao filme com Anne Hathaway, acredito que a disputa pela estatueta dourada estará mesmo entre Kate Winslet e Meryl Streep – com minha preferência indo para a primeira. O duelo é dos bons, mas acho que a atriz de uma geração mais nova merece o prêmio por ter tido um ano excepcional. Na disputa por melhor roteiro adaptado The Reader novamente se confronta com os outros grandes filmes do ano e, mais uma vez, acredito que vá perder. Ainda voto por Slumdog, seguido de Benjamin Button e por Doubt – estes dois últimos empatados.

A última categoria em que The Reader está concorrendo é em melhor fotografia. Aqui ele tem alguma chance também, sendo seus grandes adversários Slumdog, Benjamin Button e Changeling. Veremos… nesta categoria realmente o mérito está bem dividido e fica difícil apontar um favorito. Resumindo a ópera: a grande chance do filme para ser premiado é mesmo o de Kate Winslet como melhor atriz.

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Curtas de animação indicados ao Oscar 2009 – Avaliação

A exemplo do que eu fiz na edição anterior do Oscar, este ano também me interessei por buscar os curtas de animação que foram selecionados pela Academia como os melhores do ano. Infelizmente não consegui assistir a todos – mas mesmo os que eu não consegui assistir na íntegra, deu para ter uma idéia da qualidade deles através de uns “clipes” encontrados no Youtube, por exemplo. A seguir, você fica sabendo a minha impressão sobre cada um deles e, claro, meus favoritos para o prêmio este ano:

maisonenpetit1La Maison en Petit Cubes: curta dirigido pelo japonês Kunio Kato que conta  a história de um avô que vive em uma casa em permanente construção. Pelo que se pode ver no clipe encontrado no Youtube, o trabalho de Kato parece ser bem interessante. O estilo dos traços e do colorido do filme me lembra aqueles desenhos antigos, bem antigos… A história também é curiosa. Afinal, ao mesmo tempo que mostra uma casa sendo construída aos poucos, para evitar a inundação da água que sobe constantemente, ela trata de algo imutável: o passado do vozinho e as memórias que preserva com carinho da família. O curta, de 12 minutos, ganhou uma série de prêmios pelos festivais pelos quais já passou. Entre eles, ele levou o Grande Prêmio Cinanima 2008 (Festival Internacional de Cinema de Animação); Melhor Roteiro no Anima Mundi do ano passado; Melhor Animação no Concorto 2008, entre outros. O site oficial da produção, todo em japonês, pode ser consultado neste link. Por sua qualidade técnica e pelo roteiro, que realmente parecem interessantes – e a direção sensível de Kato – acredito que ele deve ser um dos favoritos ao Oscar.

Lavatory – Lovestory: simplesmente encantadlavatory1or. Este curta está inteiro disponível neste link do Youtube. Lavatory – Lovestory (ou originalmente Ubornaya istoriya – Iyubovnaya istoriya) conta a história de um romance inusitado que acaba surgindo no banheiro masculino do que parece ser uma estação de trem ou um aeroporto – só percebemos que é um lugar de grande fluxo de gente, muitos em circulação e/ou viajando. Talvez um dos lugares mais estranhos onde eu já vi alguém se declarar para outro alguém… 😉 Artisticamente é um curta simples, com traços no velho estilo riscos pretos sobre fundo branco, até que surge o colorido das flores deixadas para a mulher que cuida do banheiro. Ela, aliás, passa os dias na mesma rotina: lendo jornais cheios de histórias de amor e/ou com casais e esperando a hora de dar uma pausa para lanchar, guardando em uma gaveta as moedas deixadas pelos homens que entram no banheiro público. Neste momento de pausa, ela olha para todos aqueles homens que passam por ali e que nem olham para ela. Mas um dia, depois de limpar o banheiro, como sempre, ela é surpreendida por uma declaração em forma de flores deixadas no vidrinho onde normalmente só são colocadas moedas. Uma história criativa e muito bem contada, dirigida pelo russo Konstantin Bronzit. Simpática, sem diálogos e com um trilha sonora fundamental. Gostei muito, especialmente porque mostra como se pode contar uma bela história sem muitos artifícios. Perde na qualidade artística dos desenhos, da animação propriamente dita, mas ganha na originalidade. Tem 10 minutos de duração. Talvez ele seria meu voto – espero que ele esteja entre os três favoritos.

oktapodi1Octapodi: uma aventura das grandes vivida por um casal de polvos. Sem díalogos, o curta (Oktapodi, no original) com três minutos de duração acaba reproduzindo de maneira divertida idéias de filmes de perseguição. Mas no lugar de um espião ou de uma corrida polícia-contra-ladrões, Octapodi mostra o resgate de um dos polvos pelo outro, depois que seu “amor” é levado do feliz aquário em que eles viviam por um obstinado motorista – que, provavelmente, levará seu companheiro para um restaurante chique da cidade. Dirigido pela equipe dos franceses Emud Mokhberi e Thierry Marchand, se resume a uma sequência de resgate – acho quase inevitável não lembrar de Procurando Nemo. 😉 Mas, claro, é um filme divertido, bem feito, mas com qualidade atualmente considerada quase comum (digital). O curta está disponível neste link do Youtube. Vale uma conferida. Ainda que eu considere ele como uma produção que está correndo por fora na disputa – diria que é quase impossível que ele seja premiado.

thiswayup1This Way Up: novamente um dos curtas que não se encontra inteiro na internet. Mas este link do Youtube permite que vejamos uma parte dele. Esta produção inglesa dirigida por Adam Foulkes e Alan Smith com oito minutos de duração conta a história de dois coveiros que passam por uma experiência única quando vão enterrar uma velha senhora. Pelo que se vê do “trailer” do curta disponível, pai e filho acabam passando por uma experiência um bocado aterradora e sobrenatural, como um “purgatório animado”. A produção inglesa ganhou pelo menos quatro prêmios até agora, incluindo o prêmio da audiência como melhor curta de animação no Festival de Curtas de Palm Springs; e o prêmio da audiência no Festival Internacional de Animação de Ottawa. O filme usa a técnica de animação em 3D. Para quem procura mais informações, neste link está o site do curta. Pessoalmente, adorei os traços dos ingleses. Acredito que seja um dos trabalhos mais cuidadosos, artisticamente falando, da disputa. Talvez esteja entre os três favoritos.

presto1Presto: certamente o curta de animação mais conhecido pelo grande público na disputa. E a razão para isso é muito simples: Presto foi exibido antes do filme Wall-E nos cinemas e foi incluído no DVD e na versão Blue-ray daquela produção. Dirigido Doug Sweetland pela Pixar Animation Studios, este curta de pouco mais de 5 minutos está disponível inteiro neste link do Youtube. A produção conta a história da relação entre um mágico e seu coelho-parceiro de espetáculo. O clima entre eles esquenta quando o mágico quer fazer um velho truque de ilusionismo com o coelho que, por sua vez, apenas pede para ser alimentado. Ao invés de receber a cenoura, ele acaba sendo torturado pelo mágico, que tem pressa de terminar o espetáculo, o que acaba acarretando uma série de pequenos desastres em forma de vingança do coelho. Divertido, bem feito – como é típico da Pixar -, é um curta bacana mas que, para mim, estaria correndo por fora da disputa. E uma curiosidade: o curta é uma homenagem da produtora aos desenhos do Pernalonga e de Tom & Jerry.

CONCLUSÃO e/ou PALPITE PARA O OSCAR: Vendo três dos curtas inteiros e dois deles apenas através de “trailers”, posso dizer que a disputa estaria entre La Maison en Petits Cubes, Lavatory – Lovestory e This Way Up, talvez com uma pequena vantagem do primeiro e do terceiro. Presto e Oktapodi estariam correndo por fora. Pessoalmente, gostei muito de Lavatory – Lovestory (nem tanto pela técnica, mas pela narrativa e pela criatividade da produção).