Das Experiment – A Experiência

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O ser humano visto e tratado como cobaia. Das Experiment, filme alemão dirigido por Oliver Hirschbiegel – antes dele filmar o interessante Der Untergang -, esquece a lógica e o bom senso de situações reais para nos apresentar uma história hipótetica curiosa. O que aconteceria se 20 desconhecidos fossem divididos em dois grupos distintos, de guardas e prisioneiros, e fossem colocados em situações de estresse constante? Detalhe: qualquer conflito que possa surgir deve ser solucionado sem o uso da violência. O que poderia ser visto diariamente nas delegacias e presídios de qualquer país acaba virando a realidade de um grupo de homens que resolvem abrir mão de sua liberdade por 14 dias. Uma ficção que funciona em alguns aspectos, mas que em outros deixa bastante a desejar.

A HISTÓRIA: O taxista Tarek Fahd (Moritz Bleibtreu) encontra em um jornal um anúncio que lhe chama a atenção. Nele, um grupo procura voluntários para um experimento de 14 dias. Em troca, cada homem aprovado para o experimento ganhará 4 mil marcos. Pouco depois, ele participa dos testes com os interessados para o projeto e, na saída, procura o jornal para o qual trabalhava, há dois anos, oferecendo uma reportagem a respeito. Ele pretende mostrar que tipo de projeto é esse. Aprovado para o experimento, ele entra, junto com os demais participantes, em um cotidiano estressante que vai revelar a verdadeira natureza de cada um.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Das Experiment): O primeiro elemento do filme que me chamou a atenção foi a trilha sonora assinada por Alexander Bubenheim. Em alguns momentos da história, especialmente quando ela ainda está um pouco “morna”, sua trilha é o principal em cena. Ela marca o ritmo e cria a tensão necessária para o que, em breve, será um estado inevitável de tensão criada por imagens fortes. Muito bom o trabalho dele, assim como do diretor de fotografia veterano Rainer Klausmann. O suíço que completou recentemente, em abril, 60 anos, capricha na qualidade de cenas difíceis, especialmente aquelas filmadas em ambientes externos, de noite, ou no espaço diminuto do confinamento dos presos – onde foi preciso criatividade no uso das câmeras para o trabalho não ficar muito repetitivo.

Os problemas de Das Experiment não estão na parte técnica do filme, tenho que deixar claro. O principal “porém” desta produção está em seu roteiro. O texto adaptado para o cinema por Oliver Hirschbiegel foi escrito por Christoph Darnstädt, Don Bohlinger e Mario Giordano, este último autor também do livro Black Box, que inspirou esta história. Não li a obra original, para ser franca. Então não posso comparar se o filme é fiel ou não aos conceitos que lhe antecedem. Mas independente de ser ou não fiel, Das Experiment se mostra uma produção que irrita um bocado depois que a ação passa.

Enquanto tudo está acontecendo em tela, você já fica um pouco irritado. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, quem na face da terra faria um experimento como aquele sem ter um plano B ou C? Ou seja, quem colocaria 20 homens capazes de tudo em um espaço determinado e não teria nenhuma segurança para o caso de tudo sair do controle? Pois bem, Das Experiment quer nos convencer que os “científicos” Dr. Klaus Thon (Edgar Selge) e Dra. Jutta Grimm (Andrea Sawatzki) eram tão irresponsáveis ao ponto de não se importarem com o que poderia acontecer com seu experimento. Que grandes científicos, não? Como eles podem cogitar em fazer um estudo sério no qual eles tem, verdadeiramente, poucos elementos – e variáveis – controlados? É de fazer rir.

O problema é que o filme não é uma comédia. Se fosse, ainda tudo bem… Mas ele se leva a sério. Tanto que no final ainda fazem aquela tradição “explicação-resumo-do-que-aconteceu-quando-os-malvados-foram-pegos”. Os acertos na direção e na história lá pela metade do filme, como a construção de um clima de tensão até o ponto em que você espera que o pior aconteça com cada um dos personagens, acaba se transformando em um recurso batido e previsível no final. Para mim, o grande problema do filme é mesmo o roteiro, que segue pelo caminho mais fácil de criar dois antagonistas, que devem se degladiar até mostrar quem é o mais forte, e por ignorar uma série de ações lógicas. Nunca um experimento com o investimento que esse tinha – segundo a história – estaria tão relegado ao acaso e aos humores de seus participantes.

Mas descontadas as falhas da história, que tornam ela pouco crível, Das Experiment aborda questões interessantes, como é a eficácia da violência psicológica contra pessoas submetidas à figuras de autoridade. Como bem analisa o Dr. Klaus Thon em um certo ponto do filme, em cinco dias eles conseguiram resultados que tinham esperado atingir em duas semanas. Neste período, eles registraram “submissão à autoridade, violência subliminar e uma completa individualização” dos participantes. Claro que contribuiu bastante para isso o comportamento aloprado do “prisioneiro número 77”, ou seja, do jornalista infiltrado Tarek Fahd. Irresponsável, ele colocou a vida de todos à sua volta em risco para conseguir um “bom material” para a sua reportagem. Algo totalmente antiético e que, no mundo real, jamais seria aceito por publicações sérias.

Uma coisa é o jornalista criar algumas situações para documentar as reações das outras pessoas, outra muito diferente é elevar a tensão e os conflitos até a enésima potência, colocando as pessoas em risco. Irresponsável, imaturo, Fahd foi o oponente desejado pelo desequilibrado Berus (Justus von Dohnanyi), que perdeu o controle ao se sentir com mais poder do que normalmente tinha na sua vida real. O interessante da história foi mostrar que quando as pessoas estão isoladas e são colocadas “umas contra as outras”, reina a regra do individualismo. Poucos presos se importavam em ajudar o outro – o que interessava era salvar a própria pele. Uma regra de ouro para quem quer controlar um grupo – afinal, as pessoas isoladas são mais fáceis de controlar.

Também foi interessante perceber que depois de alguns conflitos no segundo dia, principalmente, guardas e prisioneiros esqueceram totalmente a “camaradagem” que os unia como um único grupo – submetido a um experimento – pouco antes. A perda do “senso de realidade” e o alto grau de “desorientação” também foram percebidos pela Dra. Jutta Grimm. Estes são os pontos interessantes do roteiro, que funciona bem ao construir um clima de tensão e suspense eficaz. O que não convence no filme, como já comentado, é a falta de controle dos cientistas com o seu próprio experimento. Como seria possível conseguir algum resultado sério deste estudo se parte do que os guardas fazia era feito fora do alcance das câmeras que controlavam a ação de seus participantes? E isso aconteceu mais de uma vez na história.

Sem contar a vulnerabilidade dos próprios pesquisadores, que poderiam ser confrontados a praticamente qualquer momento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Outra parte que me irritou um pouco foi aquela em que o guarda Eckert (Timo Dierkes) tenta violentar a Dra. Jutta no exato momento em que Fahd se liberta da câmara escura e consegue rendê-lo. Sem isso, eles jamais conseguiriam empreender uma fuga. Essas “coincidências” tiradas da cartola em qualquer filme me irritam profundamente – parece que os roteiristas não conseguem uma saída melhor do que a mágica.

NOTA: 7,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Ainda acho que fui um bocado genrosa com a nota desse filme. Não sei, mas ele me irritou um bocado de vezes, pelas razões que eu já comentei. Ainda assim, claro está, se trata de uma história bem filmada e com atuações muito boas.

Falando no elenco, os atores que se destacaram, além dos já citados protagonistas Moritz Bleibtreu e Justus von Dohnanyi, foram: o sempre ótimo Christian Berkel como o prisioneiro número 38, conhecido também como Steinhoff, um homem correto que aceitou entrar no experimento para “espioná-lo”; Oliver Stokowski como o prisioneiro 82, chamado também como Schütte, um homem solitário que sonhava em comprar uma Ferrari; Nicki von Tempelhoff como o guarda Kamps, o primeiro a falar da necessidade dos guardas exigirem respeito dos prisioneiros; e Antoine Monot Jr. como o guarda Bosch – o único dividido entre o “dever” e o razoável.

Também merece destaque o trabalho da atriz Maren Eggert como Dora, uma mulher que Tarek Fahd conhece em um acidente de trânsito à noite e que acaba sendo a parte “onírica” desta história. Inicialmente achei a inclusão dela no filme um tanto deslocada e sem sentido, mas depois percebi que ela era a “âncora” que ligava Fahd ao mundo real, impedindo que ele sucumbisse à loucura ou que perdesse totalmente seu norte. A personagem de Dora, desta forma, acabou sendo bastante justificada para a trama – ainda que o seu tom “irreal” tenha sido um tanto exagerado demais. Afinal, ainda que no isolamento as “lembranças” de Dora para Fahd fossem um tanto de “sonho”, muitas vezes os fatos que aconteciam concretamente com a personagem, e que corriam paralelo a realidade de Fahd, pareciam igualmente irreais. O diretor poderia ter cuidado em diferenciar um pouco melhor lembranças e realidade.

Quem fez um bom trabalho nesta produção também foi o editor Hans Funck.

Lançado em 2001, Das Experiment colecionou 13 prêmios e foi indicado ainda a outros 15. Entre os prêmios que recebeu, estão o de melhor ator para Moritz Bleibtreu no Festival Internacional de Cinema de Seattle; o de melhor diretor para Oliver Hirschbiegel no Festival de Cinema de Montreal; os de filme alemão do ano, melhor ator, melhor ator coadjuvante para Justus von Dohnanyi e melhor design de produção no German Film Awards; e os de melhor roteiro, melhor direção de fotografia e melhor direção no Bavarian Film Awards.

Os usuários do site IMDb conferiram uma nota boa para o filme: 7,9. O Rotten Tomatoes, que publica textos de críticos de vários países, abriga 44 críticas positivas e 17 negativas sobre Das Experiment – o que lhe garante uma aprovação de 72%. Coincido com eles na avaliação.

No dia 13 de agosto o ator Moritz Bleibtreu celebra seus 38 anos. Nascido em Munique, ele tem muito que celebrar, realmente. Primeiro, pelo fato de ter estrelado alguns dos principais filmes feitos na Alemanha nos últimos anos. Depois, porque seu horizonte está repleto de trabalho. Neste ano, ele aparecerá em duas produções: Lippels Traum e Soul Kitchen. O segundo título, dirigido pelo ótimo diretor Fatih Akin. Para 2010, está prevista a estréia de cinco projetos com o ator, com destaque para Goethe!, dirigido por Philipp Stölzl; Angel Makers, estrelado por John Hurt e Daniel Brühl; e Jud Süss, com um elenco de estrelas, entre elas, Martina Gedeck e Armin Rohde.

CONCLUSÃO: Um filme bem dirigido e tecnicamente bem acabado que narra os resultados de um experimento um bocado irreal. Dito isso, fica claro que o problema do filme reside em seu roteiro, simplista por um lado, exagerado por outro. Simplista ao resumir os conflitos entre um “mocinho” e um “bandido”. Exagerado ao defender a idéia de que um grupo de cientistas esqueceria a segurança do seu experimento e confiaria em um grupo de “cobaias” que deveria ser controlado por eles. Mas se o roteiro não convence, os atores sim. Todos estão bem, especialmente os protagonistas, assim como o diretor e seu principal colaborador, o diretor de fotografia. A trilha sonora também merece uma menção especial. Para quem gosta de filmes de ficção científica que lidam com a idéia de experimentos humanos, deve interessar. Mas não espere achar nenhuma grande lição ou lógica no fim desta história. Exceto, talvez, de que toda vez que você juntar 20 pessoas diferentes em uma realidade de estresse, dali sairá um ou dois insanos.

SUGESTÕES DE LEITORES: Das Experiment faz parte de uma seleção de filmes alemães que está rolando aqui no blog há alguns meses. Agora, falta pouco para esta lista terminar. Para ser mais precisa, falta apenas um filme. 😉 Lembrando que o cinema alemão foi escolhido para essa série de críticas pelos leitores deste blog, em uma votação através de uma enquete pouco antes do Oscar deste ano. E Das Experiment, mais especificamente, foi um dos vários filmes indicados pelo leitor Leandro Soares. Garoto, mais uma dica bem bacana, viu? Ainda que eu não tenha colocado ele na minha lista de preferidos, mas gostei de tê-lo assistido. Obrigada pela recomendação! E o último filme que vou assistir desta lista também foi indicado por ti. Logo mais, um texto novo por aqui, para encerrar esta jornada pelo cinema alemão.

ATUALIZAÇÃO (8/6): Normalmente eu contraindico os trailers dos filmes que vou comentando por aqui, mas com Das Experiment vou fazer uma menção especial. O trailer do filme, que deixei disponível através do Vodpod, simplesmente mostra as cenas principais desta produção e, de quebra, o final do filme. Então, se vocês pretendem assistir ao filme, ignorem o trailer.

ATUALIZAÇÃO (17/06): Na correria para ver a outros filmes e, especialmente, para não perder os meus prazos no meu trabalho de investigação do doutorado, admito que fui um pouco preguiçosa em encontrar mais informações sobre a obra original escrita por Mario Giordano que inspirou este filme. Mas o comentário do bom leitor Leandro Soares me provocou a ir buscar mais informações. Nesta busca, encontrei três textos interessantes e esclarecedores. Acho que é importante falar deles por aqui.

Tanto o livro de Giordano quanto o filme Das Experiment são levemente baseados em um fato real, um experimento científico comandado por Philip Zimbardo em 1971 na Universidade de Stanford. Esses experimentos ficaram conhecidos como “Stanford Prison Experiment”. Mas, como os três textos que vou citar afirmam, tanto o livro quanto o filme exploram uma série de fatos que não aconteceram na vida real.

Esta resenha do Cultura Útil comenta que o filme extrapola os fatos que aconteceram em 1971, colocando a história em um outro patamar, diferente daquele vivido em Stanford, já que naquela ocasião os experimentos foram interrompidos “quando começaram os primeiros sinais de descontrole”. Na verdade, o “Stanford Prison Experiment” foi interrompido no sexto dia – quando eram previstas duas semanas -, sem que houvesse qualquer morte ou tentativa de estupro. Mas disso falaremos em seguida.

Este texto do site Omelete vai na mesma direção do anterior, afirmando que Das Experiment extrapola o que aconteceu na vida real com a proposta de “verificar o que aconteceria se o processo não fosse cancelado antes de começar a dar errado”. Ou seja: confirma que o filme é uma grande ficção, levemente baseada em fatos reais. O que não é um problema, por si só, ainda mais que o filme não usa o recurso de autoreferir-se como “baseado em fatos reais”. Um acerto, na minha opinião, já que tão pouco de seu roteiro é, verdadeiramente, realista.

Mas o principal texto que eu queria comentar é este, publicado no site “Monitor of Psychology” – o texto está em inglês. Nele, o então presidente da APA (American Psychological Association), Philip Zimbardo, critica o filme Das Experiment. Ele ressalta que o filme pode confundir as pessoas, fazendo-as acreditar que seu experimento, com alunos da Stanford em 1971, teria ocorrido daquela maneira – alucinada e descontrolada, eu devo comentar. Zimbardo nega que tenham ocorrido crimes como aqueles mostrados no filme e questiona o fato de Giordano fazer uma obra de ficção sobre aqueles fatos. Quem não quiser ler o texto inteiro, porque ele é um pouco longo, recomendo especialmente a leitura a partir do quarto parágrafo da parte intitulada “What really happened”.

Zimbardo afirma que a primeira metade do filme – e provavelmente parte do livro de Giordano – se aproxima bastante do que realmente ocorreu no estudo comandado por ele em Stanford. Efetivamente os guardas passaram a desenvolver um comportamento sádico, torturando alguns presos e colocando-os em posições vexatórias. Mas as semelhanças terminam por aí, porque o experimento em Stanford foi interrompido antes que as coisas saissem do controle. E foi justamente aí, a falta de controle dos pesquisadores e científicos com seu trabalho, o ponto que mais me incomodou em Das Experiment. Simplesmente não me convenceu.

Sendo uma obra de ficção, o filme não precisa, realmente, condizer com a realidade. Ainda mais porque ele não alardea, em momento algum, ser “baseado em fatos reais” – ainda bem! Mas sabendo que Black Box e Das Experiment tiveram esse “fundo” real, fica ainda mais evidente que ambos preferiram exagerar e escolheram o caminho mais fácil para isso. Mais do que nunca, digo que o filme não me convenceu.

No trecho “At what point fiction?” do artigo, eles comentam que Zimbardo questionou Das Experiment quando ele foi lançado em San Francisco. Na época, tanto o ator Moritz Bleibtreu quanto Giordano afirmaram que seus trabalhos eram obras de ficção e que o público saberia diferenciar isso dos fatos que realmente aconteceram anteriormente. Giordano, em especial, ressaltou que seu livro e, por consequencia, seu roteiro, eram obras de ficção inspiradas em diferentes eventos, entre eles os de Stanford e o de Stanley Milgram.

Pessoalmente, continuo achando Das Experiment um tiro pela culatra, porque ele pode fazer as pessoas acreditarem, de forma errada, que estudos científicos do gênero permitiriam absurdos como os vistos em tela. E isso seria impossível – pelo menos em se tratando de estudos sérios, realmente científicos.

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