Die Brücke – A Ponte

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Um clássico ambientado na Segunda Guerra Mundial um bocado surpreendente. Primeiro, é preciso prestar atenção na data em que foi lançado Die Brücke: 1959. Depois, é necessário notar que este filme é um produto 100% alemão. Em outras palavras: idealizado e filmado com uma equipe de pessoas que tinham nascido antes ou durante o regime nazista. Ele virou um clássico não apenas por completar, justamente em 2009, 50 anos. Die Brücke se tornou um dos filmes fundamentais sobre a Segunda Guerra Mundial pela forma legítima e sensível com que tratou este tema. Não é nada fácil para as pessoas envolvidas em um conflito contarem uma história contrária ao que presenciaram de forma com que o discurso não fique carregado demais. Pois o diretor Bernhard Wicki, na época com 40 anos, quase conseguiu o tom exato em sua posição contrária à guerra. Digo quase porque hoje, passados 50 anos daquela época em que a Alemanha estava dividida em dois, o libelo pacifista de Wicki continua impressionando por ter sido filmado no berço do nazismo, mas deixa evidente um certo dramalhão que revela o envelhecimento desta produção.

A HISTÓRIA: Uma bomba cai perto de uma ponte que dá acesso a uma pequena cidade do interior da Alemanha. Rapidamente o assunto toma conta de todas as rodas de conversa do local. Para um grupo de jovens estudantes, esse acontecimento é motivo de pressa para sair da escola. Todos querem ver o local em que o artefato militar caiu. Entre os amigos, Jurgen Borchert (Frank Glaubrecht) está especialmente animado, porque espera uma resposta positiva do comandante local para que ele possa se alistar no Exército como voluntário. Depois de ir atrás do comandente e de conseguir o seu alistamento, ele é seguido pelos outros seis amigos. Todos abandonam a escola, suas famílias e sonhos para se lançarem à guerra. Com pena dos garotos inexperientes, o coronel responsável pelo batalhão no qual eles foram alistados resolve poupá-los e, ao invés de enviá-los para a linha de frente do confronto contra os estadunidenses, resolvei colocá-los para defender a ponte que dá acesso a sua cidade natal. Mas uma série de erros faz com que essa missão não seja das mais seguras ou das mais simples.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Die Brücke): Tentei contar o menos possível da história no resumo acima para não estragar as surpresas do filme. A verdade é que esta produção segue uma linha clássica de narrativa dramática, ou seja, vai da apresentação dos personagens centrais até um ápice da ação e do drama. No caso, os primeiros 40 minutos de Die Brücke mostram um pouco do cotidiano e da vida dos sete amigos que vão para a guerra como se essa atitude fosse uma grande aventura. O único que parece convicto em “servir a sua pátria” é o jovem Jurgen Borchert, que procura seguir os passos do pai. Os demais, seguem o mesmo caminho por diferentes razões.

Alguns, para fugir de casa, como é o caso de Karl Horber (Karl Michael Balzer), um garoto com um senso de humor um bocado estranho que acaba ficando chocado quando vê que o pai, viúvo (ou divorciado, não fica claro esse ponto) está tendo um caso com a cabelereira com a qual Karl tem uma fixação. Outros, simplesmente porque não tem suas convicções muito claras, como é o caso de Walter Forst (Michael Hinz), Filho de um político do partido nazista, ele fica revoltado porque a mãe foi mandada para longe dele sem que Walter tivesse tempo de se despedir. De quebra, ele desconfia que o pai mantem um caso com a empregada. Neste cenário sem grandes expectativas, ele resolve seguir os passos dos amigos.

Tomam a mesma atitude outros quatro garotos: Klaus Hager (Volker Lechtenbrink), um estudante mediano, mas encantador, que é apaixonado por Franziska (Cordula Trantow); Hans Scholten (Folker Bohnet), o melhor aluno das aulas de inglês da escola e amigo inseparável de Albert Mutz (Fritz Wepper), um garoto que sonha em ser maquinista quando crescer; e Sigi Bernhard (Günther Hoffmann), o garoto mais franzino do grupo. Para desespero e amargura do professor de inglês Sr. Stern (Wolfgang Stumpf), todos eles acabam se alistando e seguindo para uma guerra que, declaradamente, estava no fim – e com mais baixas do que vitórias naquela época. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Apenas nos créditos finais sabemos que a trama se passa em 1945, e que o ataque à ponte em que estavam os garotos ocorre no dia 27 de abril, pouco menos de cinco meses antes do final da guerra

Depois destes 40 minutos de “introdução”, na qual sabemos um pouco sobre cada um dos jovens protagonistas de Die Brücke, a trama focaliza a guerra e seus bastidores. Após um dia de treinamento, o grupo de amigos é acordado do sono na caserna para, junto aos demais veteranos do exército nazista, saber que eles devem partir para a batalha. Diferente de outros filmes da década anterior, os soldados são vistos como pessoas cansadas, com a moral baixa e, parte deles, um bocado mercenários. Pelo roteiro de Bernhard Wicki, Karl-Wilhelm Vivier e Michael Mansfeld, inspirado no livro de Manfred Gregor, os homens fardados do fim da guerra ameaçavam e atiravam antes de ter qualquer prova contra o oponente. E não importava se o alvo fosse inimigo ou alemão. Pelo menos é o que o filme mostra – e acho que, provavelmente, ele tem um bocado de ligação com o que foi a realidade.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). No fim das contas, os garotos acabam defendendo um alvo que será destruído de qualquer forma. Essa é a grande crítica do filme: a inutilidade da guerra. Tantas pessoas morrem para defender alvos que, logo mais, serão vendidos, destruídos, transformados em ítens de intercâmbio ou em montanhas de dinheiro para alguns líderes/políticos. Os jovens, sendo idealistas ou não, acabam servindo apenas como combustível para a fogueira de interesses de outras pessoas. Este argumento e esta idéia ser filmada hoje em dia é perfeitamente comum e recorrente. Mas ter sido filmada na Alemanha perdedora e dividida de 1959, ainda ferida pela ideologia nazista e por todos os erros que aquele regime praticou, foi realmente algo muito corajoso. E para a ironia suprema desta crítica, o primeiro jovem a morrer foi aquele que quis impressionar os amigos mostrando que tinha a coragem de ficar em pé sob fogo aéreo – vontade de impressionar os amigos que motivou muitos jovens daquela época? E o último a morrer foi, justamente, o melhor aluno da aula de inglês da escola, aquele que soube ler um texto romântico antes de se entregar em uma luta inglória.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro elemento que me chamou a atenção em Die Brücke foi a sua trilha sonora. Bastante simples, um bocado repetitiva mas, talvez graças a estes elementos, eficazmente enfática. Ela aparece nos momentos exatos para tornar o clima deste drama de guerra ainda mais carregado de tensão. Mérito do compositor Hans-Martin Majewski.

Filmado em preto-e-branco, este filme conta com uma fotografia que prima pelo realismo. Exceto nas cenas noturnas, nas quais o diretor de fotografia Gerd von Bonin declaradamente preferiu destacar as interpretações dos atores, jogando luz artificial sobre suas expressões e suas interações. Nas filmagens noturnas o contexto da ação é desprezado, diferente do que ocorre nas cenas diurnas, quando Bernhard Wicki e Gerd von Bonin voltam suas lentes com o mesmo interesse para os atores e seu entorno.

Antes eu falei, basicamente, da história e de suas qualidades. Mas acabei não esclarecendo o que eu quis dizer com o comentário de que o filme acabou envelhecendo um pouco neste 50 anos que nos separam de sua estréia. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, que fica evidente a falta de recursos da equipe técnica para elaborar uma sequência de ataques dos norte-americanos contra os rapazes que defendem a ponte mais convincente. Acredito que aquela parte do filme pode desagradar a muitos fãs do gênero – especialmente se levarmos em consideração que antes de 1959 já haviam sido produzidos vários filmes de guerra com sequências de batalhas muito melhor acabadas, como é o caso dos clássicos Paths of Glory (1957) e All Quiet on the Western Front (1930).

Outro elemento que vai contra Die Brücke é o seu “dramalhão”, ou seja, algumas cenas de drama um tanto simplórias e até um tanto “exageradas” ou em um tom acima do que seria adequado. O que lhe deixa muito atrás de outros clássicos do gênero anteriores a ele e muito mais “maduros”, como é o caso de The Bridge on the River Kwai (1957) ou Stalag 17 (1953).

Apesar destas ressalvas que eu tenho com o filme, é preciso levar em conta que ele foi filmado na Alemanha Ocidental e lançado como representante de um país então dividido. E, como falei na introdução deste texto, a data de 1959 foi importante para a Alemanha, como se pode observar lendo estes dois textos (texto 1 e texto 2) da Deutsche Welle. Para resumir: aquele foi o ano em que as potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial se reuniram para debater e buscar um acordo, por três meses, naquela que foi uma das maiores crises da Guerra Fria. Em pauta, o futuro da Alemanha e a situação de Berlim, disputada pela União Soviética e pelos demais países – especialmente os Estados Unidos. Depois de trocas de ameaças e de ultimatos, nada foi decidido – o que levou a construção do muro de Berlim tempos depois. Então neste cenário de conflito e de disputa pelo território alemão foi filmado Die Brücke, um filme declaradamente pacifista e contrário aos absurdos do poder e da guerra.

Gostei do que afirmou o pesquisador Jorge Roldan, curador de um retrospectiva sobre o cinema alemão promovida em 2002, neste texto publicado pelo Caderno 2 do Estado de S. Paulo: “Em geral se conhece bem o cinema alemão dos anos 20 e 30, época do expressionismo. Depois, volta-se a falar dele com o novo cinema que surge nas décadas de 60 e 70 quando nomes como Fassbinder, Wenders e Herzog tornam-se familiares”. No meio, segundo o Roldan, existe um período obscuro para a maioria das pessoas que conhecem o cinema alemão no Brasil. Período esse que corresponde ao cinema feito na Alemanha antes da Segunda Guerra, durante e depois dela, com o país dividido entre ocidental e oriental. Entre os vários filmes que fizeram parte da mostra há sete anos, estava Die Brücke. Os outros títulos citados na reportagem merecem uma conferida – prometo fazer isso em um futuro a médio prazo.

Um aspecto importante do filme, que não comentei antes, é a importância que a história dá para a amizade entre os protagonistas. Esse valor, junto com a importância da família, se mostram mais importantes que o patriotismo ou o sentimento de “dever”. Afinal, como comentei anteriormente, a maioria dos garotos decide ir para a guerra como apoio aos demais – assim como pelo “gosto pela aventura” -, muito mais do que por um sentimento de que seu país deve sair vencedor da guerra. A valorização destes elementos, amizade e família, acaba perdendo para a brutalidade e a ignorância do conflito – o que resume a crítica do filme.

Die Brücke foi o filme que marcou definitivamente a carreira do austríaco radicado na Alemanha Bernhard Wicki. Depois deste filme, o diretor, que também trabalhava como ator, foi convidado para trabalhar em Hollywood. Na meca do cinema mundial, dirigiu dois filmes: The Visit, de 1964, com Ingrid Bergman e Anthony Quinn; e Morituri, de 1965, com Marlon Brando e Yul Brynner. Antes, participou da superprodução The Longest Day, de 1962, dirigindo as cenas do filme que se passavam na Alemanha.

O filme que lançou Wicki para a fama mundial ganhou 13 prêmios e ainda foi indicado ao Oscar de 1960 na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Mas Die Brücke perdeu o Oscar para a produção francesa Orfeu Negro, dirigida por Marcel Camus e estrelada pelo gaúcho (sim, o brasileiro nascido no Rio Grande do Sul) Breno Mello. Entre os prêmios que Die Brücke levou para casa aquele ano estão o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro; os prêmios de melhor diretor, melhor trilha sonora, melhor atriz coadjuvante e melhor atriz coadjuvante mirim do German Film Awards, assim como o “Golden Bowl” daquele ano na premiação.

Falando em atores coadjuvantes, vale citar a interpretação de outros atores que eu não citei anteriormente: Günter Pfitzmann como Heilmann, o oficial que fica responsável pelos garotos quando eles são designados para “proteger” a ponte; a premiada Edith Schultze-Westrum como a mãe de Bernhard, a senhora que luta para que o filho não vá para a guerra – seu desespero realmente foi o que mais comoveu entre os familiares; Ruth Hausmeister como Mrs. Mutz, mãe de Albert; Eva Vaitl como Mrs. Borchert, mãe de Jurgen; Hans Elwenspoek como Mr. Forst, pai de Walter; e Klaus Hellmold como Mr. Horber, pai de Karl.

Importante não confundir este filme com o movimento de mesmo nome que começou o expressionismo na Alemanha há mais de 100 anos. Die Brücke era o nome do grupo artístico fundado em Dresden em 1905 que combatia o modelo artístico “de salão wilhelminiano” que dominava na época. Nenhuma relação, sendo assim, com o filme de 1959. Os interessados no movimento expressionista, encontrei aqui um texto bem explicativo.

Die Brücke registra a nota 7,9 na avaliação dos usuários do site IMDb.

E atenção: cuidado para não confundirem este Die Brücke, lançado em 1959, com outro filme homônimo – mas que dizem que tem uma história muito diferente – datado de 1949.

CONCLUSÃO: Um clássico dos filmes sobre a Segunda Guerra Mundial produzido na Alemanha há exatos 50 anos, equilibra no tom certo a vida pessoal de jovens combatentes e a brutalidade dos conflitos. Um bocado ousado para a época, quando a Alemanha estava sendo disputada pelas potências da Guerra Fria, este filme explora a idéia da “calma antes da tormenta”, representada pela amizade e pela valorização das famílias dos adolescentes que vão para a guerra, na mesma proporção que defende a idéia da insignifcância dos propósitos da guerra. Bem filmada, mas com algumas cenas de ação um tanto “toscas” mesmo para a época, Die Brücke é uma produção filmada em preto-e-branco que valoriza o cenário do interior alemão e os sentimentos de patriotismo e medo que prevaleciam em 1945, perto do fim da guerra e época em que o filme ocorre. Vale ser visto como documento histórico, mas com poucas exceções, não deve emocionar tanto quanto na época – ele envelheceu com o tempo.

SUGESTÕES DE LEITORES: Com Die Brücke, mais um filme indicado pelo querido leitor deste blog, Leandro Soares, encerro minha sequência de filmes alemães assistidos a pedido de vocês. Relembrando que o cinema produzido na Alemanha foi o vencedor de uma enquete feita aqui no blog no início deste ano, antes da premiação do Oscar. Como estamos na metade de 2009, acho que é a hora de terminar com estas análises. Agora, volto a assistir produções de diferentes países como uma roleta russa. 😉 Sem muita lógica ou ordem… conforme vão aparecendo as oportunidades e conforme as circunstâncias. Ainda assim, volto a repetir: tenho ainda vários filmes sugeridos por vocês, meus bons leitores, para assistir. E vou colocando a tarefa em dia, pouco a pouco. Essa é uma promessa! Leandro, mais uma vez obrigada por tuas sugestões e dicas. Os outros filmes que comentaste – e que ainda não assisti – vou comentando conforme possível, ok? Inté…

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