Good – Um Homem Bom

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De tempos em tempos, uma temática parece dominar uma série de produções no cinema. Uma certa tendência leva diferentes países, diretores, roteiristas e produtores a investirem suas fichas em uma época da nossa história, enfocando certos acontecimentos que foram importantes e que continuam tendo eco na atualidade. Recentemente, a Alemanha da época do nazismo rendeu – e continua rendendo – uma série de produções importantes. Entre elas, a indicada ao Oscar 2009 de Melhor Filme, The Reader. Mas outra produção, infinitamente menos comentada e debatida, deveria merecer a nossa atenção: Good, dirigida pelo austríaco radicado no Brasil, Vicente Amorim. Filme complexo, difícil de ser entendido – mais do que o (também) nada óbvio The Reader -, Good toca de forma sutil algumas chagas que parecem nunca cicatrizar na história da Alemanha. Bem dirigido, com atuações exemplares de Viggo Mortensen e de Jason Isaacs, ele é um destes poucos filmes que explora a fundo o conceito de “bondade” que muitos de nós temos – assim como a nossa idéia de beleza. Não é um filme fácil de entender e, talvez por isso mesmo, ele seja tão interessante.

A HISTÓRIA: O professor John Halder (Viggo Mortensen) é chamado, em abril de 1937, para comparecer à Chancelaria do Führer, em Berlim. Uma obra escrita por ele alguns anos antes chama a atenção do Comitê do Reich para Registro Científico de Doenças Hereditárias Graves. Melhor amigo do psicanalista judeu Maurice (Jason Isaacs), Halder tinha conseguido manter-se distante do avanço do nacional-socialismo alemão, liderado por Adolf Hitler, até aquele momento. Mas a história mostra como os conceitos de Halder foram mudando gradativamente, desde o aparentemente distante maio de 1933, quando ele começou a escrever a obra que chamou a atenção dos nazistas. Agora, em 1937, Halder aceita fazer parte do governo do qual anteriormente fazia piadas – e com sua história, conhecemos um pouco mais sobre o papel que a intelectualidade alemã assumiu naqueles anos de regime nazista.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Good): Fazia tempo que um filme não me provocava o efeito de dúvida que este filme provocou. Como disse anteriormente, Good não é uma produção fácil de ser entendida. Não senhor, não senhora! Tanto que quando terminei de assistí-lo, fiquei pensando sobre o significado do título original e, mais que isso, sobre o papel daquela maldita música clássica que tocava em momentos marcantes para o personagem principal. Caramba, afinal de contas, o que queriam dizer aquelas peças de Mahler jogadas aqui e ali?

As respostas para estas perguntas fui conseguindo pouco a pouco, ao relembrar momentos importantes do filme. E quero deixar claro que vou comentar por aqui sobre as conclusões as quais eu cheguei sozinha, antes mesmo de ler as notas da produção e entrevistas que estão disponíveis em um pressbook que tenho no computador. Até porque, fui descobrir depois, as conclusões as quais eu cheguei são diferentes das intenções, talvez mais simples, das pessoas envolvidas nesta produção.

Primeiramente, vamos falar sobre as interrupções na narrativa com aquelas peças de música clássica. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A primeira impressão que alguém pode ter é que o filme tenta tornar especialmente belos determinados momentos. Mas essa idéia chega a ser quase uma afronta, especialmente com a sequência final do filme. Então, essa alternativa está fora de cogitação. A primeira vez que Halder ouve a Mahler é quando ele é tentado por Anne Hartman (Jodie Whittaker), uma estudante que frequenta as aulas de literatura dele como ouvinte. Maurice ressalta que o compositor era judeu – o que poderia significar que o “fantasma” deste grupo acompanharia, através da música, os momentos em que a moral do protagonista é colocada à prova. Mas, ainda assim, apenas esta conclusão parece não se encaixar.

Também parece faltar algo na constatação de Maurice de que o amigo escuta essa música quando está perturbado. Mahler serviria como uma anestesia, uma forma de alienar o personagem da realidade. Certo. Ainda assim, parecia que algo estava faltando nesta explicação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apenas um tempo depois do filme ter terminado, tentando buscar sentido nesta trilha sonora que parecia “invadir” o filme e interromper a narrativa sem uma explicação justa, é que eu acho que consegui compreender. Lembrando de um comentário de Helen (Anastasia Hille), ex-mulher de Halder, tudo pareceu se encaixar.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando o filme passa um pouco de uma hora, e Halder acaba de enterrar a sua mãe (Gemma Jones), ele comenta com Helen que acredita que a falecida não tenha sido grata o suficiente com ela. E aí Helen solta uma das frases emblemáticas do filme, dizendo como, muitas vezes, tocava música no piano que tinha em casa a todo o volume para não escutar os gritos da ex-sogra. Voilà! Acredito que Mahler aparece em cena para demonstrar esta necessidade de Halder e de todos os intelectuais da época, pelo menos aqueles que apoiaram Hitler, em silenciar a própria consciência. Permitindo que uma música irreal tocasse a todo volume, eles ignoravam os absurdos que eram feitos pelo regime nazista. Muitos buscavam em diferentes manifestações artísticas a beleza que deveria cegá-los e ensurdecê-los, impedindo que eles pudessem ouvir os gritos daqueles que sofriam o pior castigo daquele regime. A música que ouvimos quer mostrar essa escolha voluntária dos intelectuais e de tanta “gente de bem” de serem surdos por um longo período – e de ignorarem o quanto seus próprios atos contribuíram para aqueles absurdos.

Acredito que, com esta leitura, encontrei uma das principais e mais importantes críticas do filme. Mas o mais fácil, me parece, é que as pessoas terminem de assistir a Good e não entendam este e outros questionamentos de seu roteiro. Esta produção, como tantas outras, pode ser vista de uma maneira bastante “rasa” – e isso não é culpa do espectador mas, na maioria das vezes, dos próprios realizadores, que deixam a maior parte da história em um nível muito raso de interpretação. Para alguns, Good narra apenas a história “ordinária” de um professor universitário que vai mudando sua conduta como resposta ao que acontece ao seu redor. Ele é praticamente “levado” a tomar determinadas atitudes. Certo, se você acredita que as pessoas são produtos (apenas) das circunstâncias. Mas algo me diz que o título do filme, Good, não está ali por acaso.

Afinal, qual é o conceito de bem ou de bom nesta história? Como é possível reconhecer o bem no meio de tantos atos absurdos? Certamente não encontramos esta definição no caminho escolhido pelo protagonista. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E não deixa de ser bastante incômoda a cena em que a mãe de Halder olha para ele e faz uma declaração de amor para o filho, dizendo que ele é um bom menino, justamente no momento em que ele a esta abandonando. Cruel, eu diria. Assim como várias outras cenas do filme. Este mesmo bom menino é o que vira as costas para o melhor amigo, a mãe, a ex-mulher e os filhos, para se lançar em uma vida de falso prestígio entre os nazistas e de redescoberta amorosa com a ex-aluna. Esta crítica a corrupção moral daquela época é um dos pontos fortes do filme. Mas não é o único.

Outra leitura para o título desta produção tem como base algumas frases da personagem Anne, lá pelo início do filme – mais precisamente, pelo minuto 24 da produção. Neste trecho da história, Anne defende a idéia de que bastam umas “pessoas boas” para dar a direção correta para o regime nazista. Segundo ela, intelectuais corretos como Halder não devem ficar à margem do novo regime. As pessoas que tem algo para contribuir devem aderir ao governo e auxiliar para que tudo vá pelo caminho certo. Santa ingenuidade – ou pura estratégia de quem busca a ascensão a qualquer custo. Com Good fica ainda mais claro como a idéia de “boas intenções” é apenas uma desculpa para os maiores absurdos. Os fins, meus caros, não justificam os meios. Nem com os nazistas, nem com os atuais governos populistas que, no fim das contas, querem apenas se manter no poder até o infinito.

Por estas e por tantas outras idéias corajosas – e perigosas – escritas quase nas entrelinhas, o roteiro de Good, escrito por John Wrathall, baseado na peça de C.P. Taylor, merece aplausos. Ainda que, eu admita, a dificuldade em entender tudo o que suas linhas querem dizer, não torna o filme tão acessível quanto seria necessário. Tanto “obscurantismo” na apresentação de suas idéias torna o filme próximo do desperdício. Mas com um pouco de esforço, vale a pena se debruçar sobre esta que é uma das mais interessantes reflexões sobre aqueles dias do regime nazista. Junto com The Reader, Good é um dos filmes mais interessantes da última leva sobre este tema.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Poucas pessoas falaram do trabalho do diretor Vicente Amorim com este filme. O austríaco com “alma” brasileira, filho do diplomata Celso Amorim, inexplicavelmente vem sendo ignorado pela crítica brasileira. Seu filme anterior, o simpático O Caminho das Nuvens, já tinha sido bastante desprezado. Agora, Good. Acho que Amorim faz um trabalho competente nos dois filmes. Nesta produção inglesa e alemã com Viggo Mortensen, ele acerta em uma condução clássica da história, previlegiando a interpretação dos atores. Certo que ele não ousa em enquadramentos ou no ritmo do filme – não é um entusiasta das inovações como Fernando Meirelles. Mas, pelo estilo da história, sua escolha pelo tradicional se justifica. Vicente Amorim, para resumir, não faz pirotecnia, apenas executa bem a sua função. Cada um, com seu estilo.

Achei curiosa a crítica do filme à “intelligentsia” alemã daquela época. Uma intelligentsia que, como explica a definição deste artigo, nunca se concretizou em sua definição exata. Afinal, os personagens retratados em Good e representados por John Halder, nunca assumiram o papel de militância contra o regime opressivo que se consolidava naquela época. Quem conseguiu fugir daquele país, conseguiu manter uma postura crítica. Mas muitos se juntaram ao regime nazista e anularam a sua posição como parte da intelligentsia da época. Uma lástima – mas que precisa ser retratada.

Viggo Mortensen tem uma grande interpretação neste filme. Ele consegue o tom exato de um personagem complexo, que perfeitamente poderia cair na simplificação de um “traidor” em outras mãos. Mas pela interpretação de Mortensen, John Halder ganha contornos contraditórios, variáveis, que em alguns momentos chegam a despertar piedade, em outros, raiva e desprezo. Humano, demasiado humano. Interessante. Também merecem aplausos o trabalho de Jason Isaacs que, ainda que tenha com Maurice um papel mais “fácil” e constante, consegue emocionar em muitos momentos – e sem cair no estereótipo do judeu alemão daquela época.

Merece ser citado ainda o trabalho do ator Mark Strong como o comandante Bouhler, presidente do Comitê de Censura do partido nacional-socialista, responsável por trazer Halder para perto do regime nazista; de Steven Mackintosh como Freddie, um major que acaba “alistando” o professor universitário para a Schutzstaffel de Hitler – mais conhecida como SS; Steven Elder em uma rápida aparição como Eichmann, que foi nomeado chefe da Seção de Assuntos Judeus no Departamento de Segurança de Hitler; e Adrian Schiller como Goebbels.

Para os interessados na parte técnica do filme, a direção de fotografia é assinada por Andrew Dunn; a trilha sonora é de Simon Lacey e a edição, de John Wilson. Estes e os outros profissionais envolvidos no filme fazem um trabalho competente, mas nada fora do comum. Talvez apenas o trabalho da figurinista húngara Györgyi Szakács mereça uma menção especial. A pesquisa que ela fez, de época, ficou realmente perfeita – equilibrando o antigo com o tom “contemporâneo” desejado pelo diretor e pelos produtores.

Uma curiosidade: Good foi todo filmado em Budapeste, na Hungria.

A produção dirigida por Vicente Amorim não foi bem na avaliação do público e da crítica. Ela conseguiu apenas a nota 6,6 pela votação dos usuários do site IMDb. E teve um desempenho ainda pior entre os críticos, que publicaram 43 críticas negativas e apenas 21 positivas para o filme no Rotten Tomatoes – o que lhe deu uma aprovação de 33%.

As notas de produção do filme comentam que Good se “serve do declínio moral de um homem para contar o destino de toda uma nação”. O texto ainda afirma que a obra narra como um homem bom, que passa por problemas pessoais e profissionais, acaba percorrendo o caminho “fácil” de conseguir recompensas depois de prestar pequenos favores. Interessante que neste material repassado para a imprensa espanhola, Amorim é descrito como um “aclamado diretor brasileiro”.

Good estreou no Festival de Toronto do ano passado. O filme teria custado aproximadamente US$ 15 milhões.

A obra que originou Good estreou no Donmar Warehouse de Londres em 1981, com um elenco encabeçado por Alan Howard. O texto de C.P. Taylor foi escolhido pela National Review como uma das “100 melhores obras do século” (passado, é claro). Depois do sucesso entre o público londrino, Good estreou na Broadway em 1982. Curioso que esta peça foi a última de uma obra de quase 70 textos escritos por Taylor, que morreu aos 52 anos de idade apenas uma semana depois da estréia de Good em Londres. Na época, a revista Time afirmou que Good era “um pesadelo de um antiherói sonâmbulo”.

O trabalho de adaptação de Good para os cinemas começou naquele distante anos 1980, quando a produtora Miriam Segal, na época uma estudante universitária, ficou maravilhada com o que viu. Mas ela conseguiria comprar os direitos da obra apenas em 2003, e demorou outros quatro anos para conseguir negociá-la e chegar até uma equipe adequada para o projeto. O ator Jason Isaacs, apaixonado pela peça e amigo da produtora, já havia se comprometido com o filme muito antes dele ser viabilizado.

Curioso que o ator Viggo Mortensen também era um antigo admirador da obra de C.P. Taylor. “Há 25 anos, quando eu começava minha carreira profissional, eu estava em Londres para fazer uma prova e conseguir o que deveria ser o meu segundo papel. Eles não me deram aquele papel, mas eu aproveitei para ver uma peça de teatro, e era Good, com Alan Howard, que me impressionou muito. Quando tive a oportunidade de interpretar o papel no cinema, pareceu interessante para mim fechar esse círculo aberto há um quarto de século”, comentou o ator no material de divulgação do filme.

Segundo esse mesmo material, a adaptação do teatro para o cinema foi bastante complicada. “Vi a obra em Londres. Ela era muito teatral, usava todos os recursos que oferece um cenário. Os atores começavam a cantar de golpe e havia grandes saltos no tempo”, comenta o roteirista John Wrathall. No teatro, por exemplo, o protagonista se dirigia diretamente ao público, um recurso que foi cortado na adaptação da peça para o cinema. “O desafio consistia em dramatizar o que acontece na cabeça do personagem sem que ele se dirija diretamente ao espectador”, comentou o roteirista. Acho que ele consegue isso, mas apenas em parte. Se bem que, francamente, prefiro a maneira com que o filme foi feito do que imaginar o protagonista a todo momento olhando para a câmera e “divagando” conosco.

O diretor Vicente Amorim comenta, neste material de divulgação do filme, que ele foi inspirado pelos filmes Il Conformista, do italiano Bernardo Bertolucci, e por Mephisto, do húngaro István Szabó. Seguindo o exemplo destes dois filmes, Amorim teria enfatizado os “elementos visuais, a decoração, o vestuário e a iluminação para ressaltar que se trata de uma história simbólica, uma parábola sobre a consciência, os atos e suas consequências”. O próprio diretor teria dito que “Good é um olhar muito particular sobre a vida de um homem, através do qual se conta uma história universal”.

Propositalmente a equipe técnica do filme escolheu um tom um tanto “contemporâneo” para Good, ainda que ele se trate de uma produção de época. A exemplo do filme de Bertolucci, que usa a claridade da arquitetura da era fascista para descrever a dicotomia entre as elevadas ambições do protagonista e sua baixeza moral, Good se apóia no “gosto de Hitler pelo estilo neoclássico para ressaltar a dupla personalidade de toda uma sociedade. As linhas limpas das superfícies de mármore e pedra escondem uma alma corrupta”, esclarece o material de divulgação do filme.

Achei interessante a leitura da produtora Miriam Segal sobre o significado desta obra: “C.P. Taylor queria encontrar uma metáfora da consciência e ilustrar a idéia de que vivemos sem explorar e nem entender o que existe ao nosso redor. As necessidades pessoais são as que nos empurram. E, como se pode ver em Good, se nos afastamos do comportamento dos outros, criamos uma sociedade sem coração, sem compaixão, na qual podem ser feitas coisas terríveis”.

Não sabia, até ler um resumo da trajetória de Viggo Mortensen, que o ator tinha nascido em Nova York e morado, antes de regressar para sua terra natal e estudar teatro, na Venezuela, Argentina e Dinamarca. Interessante. Assim como é interessante que ele também é poeta, fotógrafo e pintor. Isso que eu chamo de partidão. 😉

O ator Jason Isaacs ressalta a importância de que seu papel não cai no lugar-comum do “judeu vítima” perseguido durante o regime nazista. E ressalta que Good é um filme que faz pensar. “Ele nos obriga a refletir sobre como somos, se não nos traímos, se somos “bons” atualmente. É muito difícil, realmente difícil, sermos a pessoa que desejamos ser no mundo atual. Qualquer ajuda, pode ser boa”.

Amorim fala, em sua entrevista divulgada para a imprensa, de pontos importantes para o filme. Como a submissão do protagonista ao partido nazista: “Pedem que ele escreva um informe sobre a eutanásia e, posteriormente, percebemos de que ele não deveria ter feito isso. Mas se alguém se coloca no lugar de Halder, a verdade é que se acredita que ele não tem escolha. Esta será a primeira decisão que leva a outra, a dele se unir ao partido nazista, e que o faz se converter não apenas em um fiscal do programa de eutanásia, mas também dos campos de concentração. Dito desta maneira, parece uma grande mudança, de professor de literatura a fiscal de campos de concentração, mas se qualquer um se coloca na história, no filme, inclusive isso se torna compreensível. E é isso o que dá medo. Sabemos que ele não escolheu bem. Mas dentro da história, cada uma das suas decisões é aceitável, o que nos faz examinar as decisões que tomamos na nossa própria vida”.

Agora, um comentário importante: as escolhas do protagonista de Good devem servir de alerta para todas as pessoas que fizeram ou fazem algo inovador na sociedade. Como aprendi em algumas aulas do meu doutorado, um científico, seja da área de conhecimento que for, deve ter muito clara a responsabilidade por aquilo que investiga, por suas pesquisas e descobertas. Afinal, qualquer idéia nova ou interessante pode ser usada de forma equivocada, como bem nos exemplifica este filme. Cada pessoa deveria ter consciência de suas responsabilidades, sejam cientistas, pesquisadores, jornalistas, políticos ou quem mais for.

Vicente Amorim também fala, no material para a imprensa, do papel da música em Good: “No filme, Halder tem visões, alucinações, vê coisas, como se queira chamar. Na verdade, seu subconsciente tenta despertar-lhe para que ele veja o que está acontecendo ao seu redor. Mas ele não desperta. A música que ele escuta são canções de Mahler interpretadas por personagens do filme. São um modo bastante original de se questionar algumas perguntas para Halder e, de quebra, para o público. No final, com a última canção, Halder e o espectador deveriam ter uma revelação. Isso é o que eu espero. Então eles entenderão porque deveriam ter escutado antes, mas não o fizeram. Acredito que isto é uma das coisas que mais originalidade traz para o filme”. (SPOILER – não leia se você não assistiu a Good). Levando em conta esse comentário do diretor, percebi que a música tem uma função muito mais “teatral” do que eu tinha notado antes. Acabei achando outros sentidos para as músicas de Mahler que, pelo visto, tinham uma função muito mais simples: a de marcar pontos da história que deveriam servir como marco para o protagonista e para nós, espectadores. Marcos de situações importantes que deveriam ter exigido mais atenção e mais reflexão. O “é real” do final é como se, pela primeira vez, Halder e os espectadores percebessem o fundo do poço em que a Alemanha havia chegado. Mas isso é algo que todos nós já sabíamos muito antes.

Assim como Die Welle, The Reader e outros filmes, Good tenta se inserir entre as produções que procuram refletir sobre como aquela realidade do nazismo e de suas idéias podem se repetir hoje em dia. Amorim ressalta essa intenção: “Good se passa na Alemanha dos anos 30, mas eu não acredito… Bem, espero que o espectador, ao ver este filme, não volte atrás no tempo. Espero que ele sinta que aquilo está ocorrendo atualmente. E isto não se consegue sendo moderno de forma abusiva, contemporânea, e sim destacando a modernidade da época através do desenho artístico e da fotografia, mas sobretudo pela relevância atual de sua história. Ela podia estar ocorrendo hoje. Em nenhum momento quisemos escondê-la em uma infinidade de detalhes de época porque isso parecia que iria enterrar e esconder a sua importância aos olhos do público moderno. Além disso, não temos desculpa para fazer algo assim, já que a Alemanha dos anos 30 era incrivelmente moderna, muito próxima do que vivemos atualmente. Me refiro a tudo, não apenas a história, mas visual, artística  e emocionalmente”.

CONCLUSÃO: Good é um filme que pode (ou não) ser entendido de maneiras diferentes. Ele caminha, como outros filmes recentes, no terreno do debate moral sobre uma época e, principalmente, sobre as pessoas que contribuiram para que ela acontecesse. E mais, ele tenta nos alertar de como aqueles fatos poderiam, perfeitamente, se repetir hoje em dia. Esta produção funciona em muitos aspectos mas, infelizmente, não deixa muito acessível para o espectador comum muitas de suas mensagens. Com boas atuações e uma direção correta do austríaco-brasileiro Vicente Amorim, Good pode ser visto sem medo – mas é preciso levar em conta que ele não é um filme arrebatador. Sem grandes discursos inflamados, ele se mostra mais uma narrativa do acúmulo trágico que escolhas erradas podem fazer na vida de uma pessoa e, principalmente, em uma sociedade. Os homens bons não tem voz para direcionar nada e nem ninguém para o caminho do bem quando eles próprios perdem a noção do que isso significa. Apenas por essa reflexão o filme, que pode parecer um pouco entediante para alguns, vale a pena.

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