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Madeo – Mother – Mother A Busca pela Verdade

Do que uma mãe é capaz para proteger o seu filho? Para alguns, não existe amor maior do que o de mãe. Madeo, novo filme do badalado diretor Bong Joon-ho, explora ao máximo a capacidade do amor materno em um inusitado filme de suspense e investigação policial.

Como no recentemente comentado aqui no blog Chugyeogja, em Madeo a polícia se mostra incapaz de resolver satisfatoriamente qualquer investigação. A impressão que temos é que os coreanos estão perdidos com a sua polícia local. Representante da Coréia na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Madeo respeita a tradição recente da boa safra vinda daquele país em uma história cheia de reviravoltas e drama. Desta vez, em lugar de vários crimes e cenas de violência, há mais emoção em cena.

A HISTÓRIA: Uma mulher caminha por um campo seco. Não sabemos se ela está fugindo ou procurando algo. De repente, ela começa a fazer movimentos compassados, como se dançasse. Ela se emociona e, quando está anoitecendo, coloca a mão dentro de seu casaco, repetindo um gesto que se tornou famoso na figura de Napoleão. Ela estaria louca?

A cena é cortada. A mesma mulher, agora, pica em uma guilhotina ervas medicinais. Dentro de sua loja, ela acompanha com o olhar ao filho, Yoon Do-joon (Won Bin), que brinca com um cachorro do lado de fora. O rapaz, que sofre com uma doença mental, acaba sendo atropelado por um carro. Com o amigo Jin-tae (Jin Goo), Do-joon segue para um campo de golfe com a intenção de “se vingar” dos ricaços que o atropelaram.

Eles acabam parando na delegacia, onde a mãe (Kim Hye-ja) de Do-joon aparece para levar o filho para casa. Na noite seguinte, após esperar o amigo Jin-tae em um bar durante muito tempo, Do-joon segue a Moon Ah-jeong (Moon Hee-ra) no caminho de volta para casa. A garota aparece morta na manhã seguinte e Do-joon é preso sob a acusação de assassinato. Mas a mãe dele, certa de que o filho é inocente, faz de tudo para libertá-lo da prisão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER -aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Madeo): Joon-ho Bong é um sujeito curioso. Ele consegue, como poucos, extrair suspense de situações banais do cotidiano.

O argumento de Madeo é dele, e o roteiro, uma parceria do diretor com Eun-kyo Park. Bong retoma a figura do protagonista “um tanto lento demais”, vista anteriormente no megasucesso Gwoemul. Mas em Madeo, mais do que o personagem de Do-joon e seu problema mental, rouba a cena uma mulher forte, obstinada e que não sabemos, até que ponto, também não sofre com algum distúrbio mental.

Possivelmente muitos irão descordar de mim. Podem enxergar na protagonista do filme apenas a figura de uma mãe superprotetora e desesperada por ter um filho. Mas não sei, por várias revelações que Madeo nos traz sobre o passado e novas atitudes desta mulher, eu tenho dúvidas se ela também não apresenta algum distúrbio psicológico grave.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressão minha ou ela tem mudanças de humor muito repentinas? Talvez ela sofra com um transtorno bipolar… ou, frente a tantos problemas com o filho, ela tenha desenvolvido uma depressão crônica. Ou ainda sejam apenas manifestações da menopausa. 😉

O problema de Do-joon também pode render debates. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns críticos afirmaram que ele sofreria de autismo. Será? Não sou formada na área de psicologia ou psiquiatria, por isso não vou me arriscar a diagnosticá-lo (mas se algum especialista quiser contribuir neste sentido, será bem/vindo(a).

Inicialmente, achei apenas que ele sofria de um certo “retardo mental” mas, lendo um pouco mais a respeito, também acho possível que ele sofra com esquizofrenia ou com uma psicose maníaco-depressiva. Acho estas últimas duas alternativas mais viáveis do que o autismo – afinal, ele não parece tão isolado do mundo assim.

Estas questões psicológicas são importantes para o filme porque explicam, como no caso de Gwoemul, as razões de muitas escolhas dos protagonistas que parecem equivocadas. No caso de Madeo, mãe e filho são extremamente co-dependentes um do outro – ainda que Do-joon tente, pouco a pouco, almejar uma vida um pouco mais independente.

Mas a mãe de Do-joon quis tanto ter o filho que foi capaz de ingerir ervas para ajudar-lhe a engravidar e, depois que ele nasceu, fazer de tudo para protegê-lo deste “mundo vil”. (Ainda que, como a personagem de Medeia, ela tenha pensado/tentado acabar com a vida de seu rebento quando criança).

Aliás, mais uma vez, pela ótica do diretor, vivemos em uma sociedade que não respeita as diferenças e que tem, até que se prove o contrário, uma grande aversão aos “retardatários”, aos que não podem se destacar por sua inteligência, poder ou talento.

Do-joon e sua mãe são vistos, não apenas pelos policiais, pelo advogado ou pelos professores que aparecem no filme como “gente de segunda categoria”. Em geral, até mesmo o “amigo” de Do-joon, Jin-tae, parece considerá-los dignos de piadas e de desrespeito. A sociedade, vista pelo diretor, é um celeiro de exclusão, de atos bárbaros e egoístas.

Madeo surpreende por nos contar uma história de investigação policial muito diferente dos padrões. Para começar, a protagonista e “detetive” deste roteiro é uma mulher simples, com pouca cultura e pobre. A protagonista “corta um dobrado” para cuidar do filho e sobreviver. Além de vender ervas, ela pratica a acumputura de forma ilegal. E estas suas agulhas… rendem alguns momentos de tensão no filme.

Voltando ao que eu dizia, Bong tem a arte de exprimir tensão e suspense das situações mais simples. Seja através das agulhas de Hye-ja, do uso de uma pequena guilhotina ou na queda de uma garrafa de água, as lentes do diretor sempre estão a postos para exprimir os detalhes de momentos e expressões cruciais.

Em Madeo, como na maioria dos filmes de suspense e/ou terror recentes da filmografia coreana, predominam também as reviravoltas do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Honestamente, no início, eu pensei: “Do-joon ter recomeçado a andar depois de terem jogado aquela imensa pedra não quer dizer nada. Ele pode ter dado meia volta e matado a menina”.

Mas, francamente, a atuação de Kim Hye-ja é tão convincente, assim como o permanente estado de ausência da realidade com alguns rompantes de extrema lucidez de seu filho que fui sendo levada pelo roteiro.

Acreditei na versão de ambos de que o rapaz era inocente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, fui fisgada pelas quatro grandes surpresas da reta final desta produção. Primeiro, a descoberta do verdadeiro criminoso pela mãe de Do-joon. Depois, a manobra desesperada, que resulta em um novo crime, para encobrir a verdade; a culpa de permitir que um inocente respondesse pela morte de Moon Hee-ra e, finalmente, a queda da última máscara.

A partir da visita da protagonista ao catador de lixo o filme ganha em suspense, velocidade e força. E, para ser franca, fiquei muito surpresa com as reviravoltas da história… quando o espectador pensa que tudo terminou, que as surpresas terminaram, aparecem novos golpes. Para mim, o maior deles foi quando a mãer de Do-joon permitiu que JP fosse preso pela morte de Hee-ra.

(SPOILER – não leia… você sabe). Com estas reviravoltas finais, Madeo muda totalmente de sentido. A mãe dedicada e capaz de fazer tudo pelo filho, a virtual segunda “vítima” desta história – depois do “inocente” Do-joon acaba se revelando, na verdade, a grande culpada pelo drama e pelos crimes do roteiro. O assassinato de Hee-ra passa pela educação que a mãe deu para o filho, ensinando-o a revidar sempre que fosse agredido.

Aliás, eis em Madeo uma prova de que a violência nunca é a melhor resposta contra a ignorância ou o desrespeito. Depois, o homicídio do catador de lixo é provocado diretamente pela protagonista. Sem contar o absurdo de permitir que outra pessoa respondesse pelo crime inicial.

A mãe, no fim das contas, é a grande vilã desta história – algo totalmente impensável, no início. Esta grande reviravolta na história e na “alma” do filme só comprova o talento de Joon-ho Bong como contador de histórias. Ele merece a fama que tem.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A interpretação de Kim Hye-ja é simplesmente inebriante. A atriz rouba a cena sempre que aparece na frente das lentes de Bong Joon-ho. Ela mostra, na medida certa, determinação, fragilidade e loucura. Um desempenho que merecia, sem dúvida, alguns prêmios.

Como geralmente acontece no caso dos filmes coreanos, Madeo teve um orçamento relativamente baixo – pelo menos para os padrões hollywoodianos: US$ 5 milhões. Certamente, pelo sucesso que o diretor Bong Joon-ho tem em seu país de origem e em toda a Ásia, o filme deve conseguir um bom lucro.

Além de ter sido indicado para o próximo Oscar, Madeo concorre na categoria de Melhor Filme do Festival de Cinema de Mar del Plata, que começou a ser celebrado no último sábado e segue até o dia 15 na Argentina. Antes, Madeo estreou em outro festival, o de Cannes, em maio deste ano. O filme participou ainda de nove outros festivais pelo mundo – inclusive as últimas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Crítica e público demonstram que estão gostando de Madeo. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação importante de 93%.

Para quem não entendeu a minha piada lá encima sobre Napoleão, quero relembrar que o poderoso governante ficou conhecido, através de um quadro, por uma pose ereta na qual ele mantinha uma de suas mãos dentro do casaco, na altura do estômago. Neste texto curto do site da Mundo Estranho eles trazem algumas explicações para a pose no quadro do pintor Jacques-Louis David.

Na cobertura de Cannes, a crítica Maggie Lee escreveu este texto para a Hollywood Reporter sobre Madeo. Interessante quando ela comenta que Bong Joon-ho confirma o seu talento prodigioso em subverter qualquer gênero para que ele sirva para “sua própria visão idiossincrática”.

Para Lee, Madeo marca um trabalho muito mais autoral do diretor – se comparado ao comercial Gwoemul -, o que deve resultar em algum sucesso de público e, especialmente, um importante respaldo da crítica. E ela está certa. Madeo tem menos apelo popular porque se mostra muito mais complexo do que o grande êxito anterior de Joon-ho. Curioso também que Lee classifica Madeo como um filme com um “roteiro de detetitive habilmente traçado que é acelerado como um thriller de suspense de Hitchcock”.

Gostei, no texto de Maggie Lee, especialmente dos trechos em que ela analisa a técnica de Bong Joon-ho neste seu último filme. A crítica comenta, por exemplo, como os longos closes da expressão da protagonista servem tanto para “hipnotizar como para enervar” o espectador.

Em outros momentos, comenta Lee, as lentes do diretor mostram aquela mãe em campos infinitos ou em quadros com montanhas enevoadas, o que tornaria a sua personagem praticamente uma mancha na paisagem. Isso revelaria, simultaneamente, a insignificância e a ligação daquela mãe com a Natureza. Bem analisado.

Lee ressalta ainda que em nenhuma cena são enquadradas mais do que duas pessoas, e que o uso de uma paleta de cores primárias com o predomínio de um “triste esfumaçado azul e de um vermelho enferrujado petulante” criam um modo sustentado de “claustrofobia e desconforto”. Maravilhosa a crítica, para resumir.

Outro crítico, Derek Elley, da revista Variety, classificou como injusta a ausência de Madeo entre os competidores de Cannes. Neste texto, Elley destaca como Joon-ho Bong subverte os filmes sobre mães do cinema asiático, deixando para trás a idéia de produções onde predomina a “fortaleza feminina, a devoção de irmãos e a sacarina”.

O crítico também revela que, para o público coreano, Madeo subverte em outro sentido: ao modificar, radicalmente, a figura da atriz Kim Hye-ja, uma “lenda doméstica” construída durante 30 anos no sentido de interpretar mães amorosas(especialmente em papéis para a TV).

O crítico da Variety destaca o trabalho do elenco, chamando o elenco de um time de “craques”. E ele está certo. Além da já citada/elogiada Kim Hye-ja, se destacam nesta história o “ídolo teen irreconhecível”, na opinião dos críticos, Won Bin. Ele consegue uma interpretação natural e que foge da caricatura através do inconstante personagem de Yoon Do-joon.

Jin Goo faz o papel de viril da história, protagonizando algumas das sequências mais tensas de Madeo. Merecem menção ainda Yoon Je-moon, que intepreta o investigador policial Je-moon; Jeon Mi-seon como Mi-seon, uma das vizinhas da protagonista que frequenta suas sessões de acupuntura e que, sem querer, acaba dando uma pista importante para a investigação da mãe de Do-joon; Lee Yeong-seok que, mesmo aparecendo pouco, faz um trabalho muito sensível como um catador de lixo; e Cheon Woo-hee, que interpreta Mi-na, a namorada de Jin-tae que fascina também a Do-joon.

Da parte técnica do filme, merecem destaque o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (chamado também de “alex”), a trilha sonora de Lee Byeong-woo, a edição de Moon Sae-kyoung e a edição de som de Choi Tae-young (seu trabalho tem uma importância fundamental para o filme).

Algo que achei interessante neste filme é como ele consegue misturar o “antigo e o moderno” no cotidiano dos sul-coreanos. Madeo se passa em um pequeno vilarejo onde convivem pessoas como a protagonista, que mantêm costumes milenares, como o uso de ervas e a aplicação da acumputura para resolver problemas de saúde, e estudantes como Moon Ah-jeong.

A turma desta última era um celeiro de ousadia e contravenções. Sua amiga, Hyung-teo (Lee Mi-do) se “especializou” em alterar celulares para convertê-los em “câmeras de espiãs”. Outros estudantes, como Kkang-ma (Jeong Yeong-gi) ou Ddung-ddung (Ko Gyoo-pil) se divertiam com a ideia de explorar sexualmente meninas fragilizadas, não pensando duas vezes em usar a violência para encobrir os seus deslizes.

Uma nova geração que, por isso e muito mais, se mostra o oposto daquela da protagonista – e o curioso é que Madeo apenas esboça o choque cultural entre estas realidades.

Para os interessados no site oficial do filme, por enquanto só estão disponíveis as versões em coreano e japonês. Se alguém puder entender algo… 😉

Para escrever esta crítica, foi fundamental para mim a consulta ao banco de dados de filmes coreanos Hancinema. Muito bom o site, aliás. Recomendo.

CONCLUSÃO: A nova investida do badalado diretor coreano Joon-ho Bong demonstra como ele se especializou em subverter gêneros e conceitos estabelecidos. O realizador brinca com a figura de dois atores conhecidos na Coréia do Sul ao levá-los a assumir papéis muito diferentes do que o público está habituado.

Misturando drama e suspense policial, Madeo segue a trilha de roteiros bem costurados e cheios de reviravoltas da safra recente do cinema coreano. Com interpretações impecáveis e uma direção inspirada, este filme desconstrói as relações de dependência entre mãe e filho, alternando o entendimento entre loucura e sanidade.

Impecável tecnicamente e surpreendente no enredo, Madeo ainda aborda a ineficácia da polícia e a falta de respeito da sociedade com os que fogem de seus padrões ideais. Um filme de respeito, com alguma dose de violência e algumas surpresas que podem provocar indignação.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Representante da Coréia na disputa para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a próxima edição do Oscar, Madeo dificilmente conseguirá uma vaga entre os finalistas. Digo isso não porque ele não mereça. Mas é que o estilo e a ousadia de Joon-ho Bong não me parecem adequados para os padrões dos votantes da Academia.

Posso estar enganada, claro. Kim Hye-ja e o roteiro de Bong mereciam uma indicação. Como isso é praticamente impossível de acontecer, pelo menos o filme poderia ficar entre os cinco selecionados na categoria de produção estrangeira. O problema é o que o Oscar tende a selecionar filmes menos “obscuros” ou, vendo por outra ótica, mais “comerciais”.

Madeo foge destes padrões. Mesmo merecendo estar entre os cinco – pelo menos por enquanto, analisando os filmes que já assisti e que concorrem a uma vaga nesta categoria -, para mim, ele ficará de fora da disputa.

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Madeo – Mother – A Busca pela Verdade

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Do que uma mãe é capaz para proteger o seu filho? Para alguns, não existe amor maior do que o de mãe. Madeo, novo filme do badalado diretor Bong Joon-ho, explora ao máximo a capacidade do amor materno em um inusitado filme de suspense e investigação policial. Como no recentemente comentado aqui no blog Chugyeogja, em Madeo a polícia se mostra incapaz de resolver satisfatoriamente qualquer investigação. A impressão que temos é que os coreanos estão perdidos com a sua polícia local. Representante da Coréia na disputa por uma vaga na categoria de melhor filme estrangeiro no próximo Oscar, Madeo respeita a tradição recente da boa safra vinda daquele país em uma história cheia de reviravoltas e drama. Desta vez, em lugar de vários crimes e cenas de violência, há mais emoção em cena.

A HISTÓRIA: Uma mulher caminha por um campo seco. Não sabemos se ela está fugindo ou procurando algo. De repente, ela começa a fazer movimentos compassados, como se dançasse. Ela se emociona e, quando está anoitecendo, coloca a mão dentro de seu casaco, repetindo um gesto que se tornou famoso na figura de Napoleão. Ela estaria louca? A cena é cortada. A mesma mulher, agora, pica em uma guilhotina ervas medicinais. Dentro de sua loja, ela acompanha com o olhar ao filho, Yoon Do-joon (Won Bin), que brinca com um cachorro do lado de fora. O rapaz, que sofre com uma doença mental, acaba sendo atropelado por um carro. Com o amigo Jin-tae (Jin Goo), Do-joon segue para um campo de golfe com a intenção de “se vingar” dos ricaços que o atropelaram. Eles acabam parando na delegacia, onde a mãe (Kim Hye-ja) de Do-joon aparece para levar o filho para casa. Na noite seguinte, após esperar o amigo Jin-tae em um bar durante muito tempo, Do-joon segue a Moon Ah-jeong (Moon Hee-ra) no caminho de volta para casa. A garota aparece morta na manhã seguinte e Do-joon é preso sob a acusação de assassinato. Mas a mãe dele, certa de que o filho é inocente, faz de tudo para libertá-lo da prisão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER -aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Madeo): Joon-ho Bong é um sujeito curioso. Ele consegue, como poucos, extrair suspense de situações banais do cotidiano. O argumento de Madeo é dele, e o roteiro, uma parceria do diretor com Eun-kyo Park. Bong retoma a figura do protagonista “um tanto lento demais”, vista anteriormente no megasucesso Gwoemul. Mas em Madeo, mais do que o personagem de Do-joon e seu problema mental, rouba a cena uma mulher forte, obstinada e que não sabemos, até que ponto, também não sofre com algum distúrbio mental.

Possivelmente muitos irão descordar de mim. Podem enxergar na protagonista do filme apenas a figura de uma mãe superprotetora e desesperada por ter um filho. Mas não sei, por várias revelações que Madeo nos traz sobre o passado e novas atitudes desta mulher, eu tenho dúvidas se ela também não apresenta algum distúrbio psicológico grave. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). É impressão minha ou ela tem mudanças de humor muito repentinas? Talvez ela sofra com um transtorno bipolar… ou, frente a tantos problemas com o filho, ela tenha desenvolvido uma depressão crônica. Ou ainda sejam apenas manifestações da menopausa. 😉

O problema de Do-joon também pode render debates. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alguns críticos afirmaram que ele sofreria de autismo. Será? Não sou formada na área de psicologia ou psiquiatria, por isso não vou me arriscar a diagnosticá-lo (mas se algum especialista quiser contribuir neste sentido, será bem/vindo(a). Inicialmente, achei apenas que ele sofria de um certo “retardo mental” mas, lendo um pouco mais a respeito, também acho possível que ele sofra com esquizofrenia ou com uma psicose maníaco-depressiva. Acho estas últimas duas alternativas mais viáveis do que o autismo – afinal, ele não parece tão isolado do mundo assim.

Estas questões psicológicas são importantes para o filme porque explicam, como no caso de Gwoemul, as razões de muitas escolhas dos protagonistas que parecem equivocadas. No caso de Madeo, mãe e filho são extremamente co-dependentes um do outro – ainda que Do-joon tente, pouco a pouco, almejar uma vida um pouco mais independente. Mas a mãe de Do-joon quis tanto ter o filho que foi capaz de ingerir ervas para ajudar-lhe a engravidar e, depois que ele nasceu, fazer de tudo para protegê-lo deste “mundo vil”. (Ainda que, como a personagem de Medeia, ela tenha pensado/tentado acabar com a vida de seu rebento quando criança).

Aliás, mais uma vez, pela ótica do diretor, vivemos em uma sociedade que não respeita as diferenças e que tem, até que se prove o contrário, uma grande aversão aos “retardatários”, aos que não podem se destacar por sua inteligência, poder ou talento. Do-joon e sua mãe são vistos, não apenas pelos policiais, pelo advogado ou pelos professores que aparecem no filme como “gente de segunda categoria”. Em geral, até mesmo o “amigo” de Do-joon, Jin-tae, parece considerá-los dignos de piadas e de desrespeito. A sociedade, vista pelo diretor, é um celeiro de exclusão, de atos bárbaros e egoístas.

Madeo surpreende por nos contar uma história de investigação policial muito diferente dos padrões. Para começar, a protagonista e “detetive” deste roteiro é uma mulher simples, com pouca cultura e pobre. A protagonista “corta um dobrado” para cuidar do filho e sobreviver. Além de vender ervas, ela pratica a acumputura de forma ilegal. E estas suas agulhas… rendem alguns momentos de tensão no filme. Voltando ao que eu dizia, Bong tem a arte de exprimir tensão e suspense das situações mais simples. Seja através das agulhas de Hye-ja, do uso de uma pequena guilhotina ou na queda de uma garrafa de água, as lentes do diretor sempre estão a postos para exprimir os detalhes de momentos e expressões cruciais.

Em Madeo, como na maioria dos filmes de suspense e/ou terror recentes da filmografia coreana, predominam também as reviravoltas do roteiro. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Honestamente, no início, eu pensei: “Do-joon ter recomeçado a andar depois de terem jogado aquela imensa pedra não quer dizer nada. Ele pode ter dado meia volta e matado a menina”. Mas, francamente, a atuação de Kim Hye-ja é tão convincente, assim como o permanente estado de ausência da realidade com alguns rompantes de extrema lucidez de seu filho que fui sendo levada pelo roteiro.

Acreditei na versão de ambos de que o rapaz era inocente. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, fui fisgada pelas quatro grandes surpresas da reta final desta produção. Primeiro, a descoberta do verdadeiro criminoso pela mãe de Do-joon. Depois, a manobra desesperada, que resulta em um novo crime, para encobrir a verdade; a culpa de permitir que um inocente respondesse pela morte de Moon Hee-ra e, finalmente, a queda da última máscara. A partir da visita da protagonista ao catador de lixo o filme ganha em suspense, velocidade e força. E, para ser franca, fiquei muito surpresa com as reviravoltas da história… quando o espectador pensa que tudo terminou, que as surpresas terminaram, aparecem novos golpes. Para mim, o maior deles foi quando a mãer de Do-joon permitiu que JP fosse preso pela morte de Hee-ra.

(SPOILER – não leia… você sabe). Com estas reviravoltas finais, Madeo muda totalmente de sentido. A mãe dedicada e capaz de fazer tudo pelo filho, a virtual segunda “vítima” desta história – depois do “inocente” Do-joon acaba se revelando, na verdade, a grande culpada pelo drama e pelos crimes do roteiro. O assassinato de Hee-ra passa pela educação que a mãe deu para o filho, ensinando-o a revidar sempre que fosse agredido. Aliás, eis em Madeo uma prova de que a violência nunca é a melhor resposta contra a ignorância ou o desrespeito. Depois, o homicídio do catador de lixo é provocado diretamente pela protagonista. Sem contar o absurdo de permitir que outra pessoa respondesse pelo crime inicial. A mãe, no fim das contas, é a grande vilã desta história – algo totalmente impensável, no início. Esta grande reviravolta na história e na “alma” do filme só comprova o talento de Joon-ho Bong como contador de histórias. Ele merece a fama que tem.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A interpretação de Kim Hye-ja é simplesmente inebriante. A atriz rouba a cena sempre que aparece na frente das lentes de Bong Joon-ho. Ela mostra, na medida certa, determinação, fragilidade e loucura. Um desempenho que merecia, sem dúvida, alguns prêmios.

Como geralmente acontece no caso dos filmes coreanos, Madeo teve um orçamento relativamente baixo – pelo menos para os padrões hollywoodianos: US$ 5 milhões. Certamente, pelo sucesso que o diretor Bong Joon-ho tem em seu país de origem e em toda a Ásia, o filme deve conseguir um bom lucro.

Além de ter sido indicado para o próximo Oscar, Madeo concorre na categoria de Melhor Filme do Festival de Cinema de Mar del Plata, que começou a ser celebrado no último sábado e segue até o dia 15 na Argentina. Antes, Madeo estreou em outro festival, o de Cannes, em maio deste ano. O filme participou ainda de nove outros festivais pelo mundo – inclusive as últimas edições do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Crítica e público demonstram que estão gostando de Madeo. Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para o filme, enquanto que os críticos que tem textos linkados no site Rotten Tomatoes dedicaram 13 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação importante de 93%.

Para quem não entendeu a minha piada lá encima sobre Napoleão, quero relembrar que o poderoso governante ficou conhecido, através de um quadro, por uma pose ereta na qual ele mantinha uma de suas mãos dentro do casaco, na altura do estômago. Neste texto curto do site da Mundo Estranho eles trazem algumas explicações para a pose no quadro do pintor Jacques-Louis David.

Na cobertura de Cannes, a crítica Maggie Lee escreveu este texto para a Hollywood Reporter sobre Madeo. Interessante quando ela comenta que Bong Joon-ho confirma o seu talento prodigioso em subverter qualquer gênero para que ele sirva para “sua própria visão idiossincrática”. Para Lee, Madeo marca um trabalho muito mais autoral do diretor – se comparado ao comercial Gwoemul -, o que deve resultar em algum sucesso de público e, especialmente, um importante respaldo da crítica. E ela está certa. Madeo tem menos apelo popular porque se mostra muito mais complexo do que o grande êxito anterior de Joon-ho. Curioso também que Lee classifica Madeo como um filme com um “roteiro de detetitive habilmente traçado que é acelerado como um thriller de suspense de Hitchcock”.

Gostei, no texto de Maggie Lee, especialmente dos trechos em que ela analisa a técnica de Bong Joon-ho neste seu último filme. A crítica comenta, por exemplo, como os longos closes da expressão da protagonista servem tanto para “hipnotizar como para enervar” o espectador. Em outros momentos, comenta Lee, as lentes do diretor mostram aquela mãe em campos infinitos ou em quadros com montanhas enevoadas, o que tornaria a sua personagem praticamente uma mancha na paisagem. Isso revelaria, simultaneamente, a insignificância e a ligação daquela mãe com a Natureza. Bem analisado. Lee ressalta ainda que em nenhuma cena são enquadradas mais do que duas pessoas, e que o uso de uma paleta de cores primárias com o predomínio de um “triste esfumaçado azul e de um vermelho enferrujado petulante” criam um modo sustentado de “claustrofobia e desconforto”. Maravilhosa a crítica, para resumir.

Outro crítico, Derek Elley, da revista Variety, classificou como injusta a ausência de Madeo entre os competidores de Cannes. Neste texto, Elley destaca como Joon-ho Bong subverte os filmes sobre mães do cinema asiático, deixando para trás a idéia de produções onde predomina a “fortaleza feminina, a devoção de irmãos e a sacarina”. O crítico também revela que, para o público coreano, Madeo subverte em outro sentido: ao modificar, radicalmente, a figura da atriz Kim Hye-ja, uma “lenda doméstica” construída durante 30 anos no sentido de interpretar mães amorosas(especialmente em papéis para a TV).

O crítico da Variety destaca o trabalho do elenco, chamando o elenco de um time de “craques”. E ele está certo. Além da já citada/elogiada Kim Hye-ja, se destacam nesta história o “ídolo teen irreconhecível”, na opinião dos críticos, Won Bin. Ele consegue uma interpretação natural e que foge da caricatura através do inconstante personagem de Yoon Do-joon. Jin Goo faz o papel de viril da história, protagonizando algumas das sequências mais tensas de Madeo. Merecem menção ainda Yoon Je-moon, que intepreta o investigador policial Je-moon; Jeon Mi-seon como Mi-seon, uma das vizinhas da protagonista que frequenta suas sessões de acupuntura e que, sem querer, acaba dando uma pista importante para a investigação da mãe de Do-joon; Lee Yeong-seok que, mesmo aparecendo pouco, faz um trabalho muito sensível como um catador de lixo; e Cheon Woo-hee, que interpreta Mi-na, a namorada de Jin-tae que fascina também a Do-joon.

Da parte técnica do filme, merecem destaque o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo (chamado também de “alex”), a trilha sonora de Lee Byeong-woo, a edição de Moon Sae-kyoung e a edição de som de Choi Tae-young (seu trabalho tem uma importância fundamental para o filme).

Algo que achei interessante neste filme é como ele consegue misturar o “antigo e o moderno” no cotidiano dos sul-coreanos. Madeo se passa em um pequeno vilarejo onde convivem pessoas como a protagonista, que mantêm costumes milenares, como o uso de ervas e a aplicação da acumputura para resolver problemas de saúde, e estudantes como Moon Ah-jeong. A turma desta última era um celeiro de ousadia e contravenções. Sua amiga, Hyung-teo (Lee Mi-do) se “especializou” em alterar celulares para convertê-los em “câmeras de espiãs”. Outros estudantes, como Kkang-ma (Jeong Yeong-gi) ou Ddung-ddung (Ko Gyoo-pil) se divertiam com a idéia de explorar sexualmente meninas fragilizadas, não pensando duas vezes em usar a violência para encobrir os seus deslizes. Uma nova geração que, por isso e muito mais, se mostra o oposto daquela da protagonista – e o curioso é que Madeo apenas esboça o choque cultural entre estas realidades.

Para os interessados no site oficial do filme, por enquanto só estão disponíveis as versões em coreano e japonês. Se alguém puder entender algo… 😉

Para escrever esta crítica, foi fundamental para mim a consulta ao banco de dados de filmes coreanos Hancinema. Muito bom o site, aliás. Recomendo.

CONCLUSÃO: A nova investida do badalado diretor coreano Joon-ho Bong demonstra como ele se especializou em subverter gêneros e conceitos estabelecidos. O realizador brinca com a figura de dois atores conhecidos na Coréia do Sul ao levá-los a assumir papéis muito diferentes do que o público está habituado. Misturando drama e suspense policial, Madeo segue a trilha de roteiros bem costurados e cheios de reviravoltas da safra recente do cinema coreano. Com interpretações impecáveis e uma direção inspirada, este filme desconstrói as relações de dependência entre mãe e filho, alternando o entendimento entre loucura e sanidade. Impecável tecnicamente e surpreendente no enredo, Madeo ainda aborda a ineficácia da polícia e a falta de respeito da sociedade com os que fogem de seus padrões ideais. Um filme de respeito, com alguma dose de violência e algumas surpresas que podem provocar indignação.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Representante da Coréia na disputa para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro para a próxima edição do Oscar, Madeo dificilmente conseguirá uma vaga entre os finalistas. Digo isso não porque ele não mereça. Mas é que o estilo e a ousadia de Joon-ho Bong não me parecem adequados para os padrões dos votantes da Academia. Posso estar enganada, claro. Kim Hye-ja e o roteiro de Bong mereciam uma indicação. Como isso é praticamente impossível de acontecer, pelo menos o filme poderia ficar entre os cinco selecionados na categoria de produção estrangeira. O problema é o que o Oscar tende a selecionar filmes menos “obscuros” ou, vendo por outra ótica, mais “comerciais”. Madeo foge destes padrões. Mesmo merecendo estar entre os cinco – pelo menos por enquanto, analisando os filmes que já assisti e que concorrem a uma vaga nesta categoria -, para mim, ele ficará de fora da disputa.