Lion – Lion: Uma Jornada para Casa

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A força do encontro com as próprias origens. Um drama real que acontece a cada ano com milhares de crianças – ou seria milhões no mundo inteiro? – e que é tratada com suavidade neste Lion. Mesmo quando nos deparamos com uma história triste, é possível encontrar muitas lições nela, assim como a manifestação pura de amor. Tudo isso faz parte deste filme que, apesar de ser bacana, é o mais fraco da temporada pré-Oscar.

A HISTÓRIA: Diversas paisagens que mesclam terra e mar. No final de uma sequência delas, o filme explica que esta produção é baseada em uma história real. Logo vemos a Saroo (Sunny Pawar) maravilhado com um grupo gigantesco de borboletas. No alto de uma montanha, o irmão mais velho dele, Guddu (Abhishek Bharate), chama o irmão. Eles tem uma missão a cumprir.

Os garotos sobem em um trem carregado de carvão e roubam o máximo que eles conseguem carregar. Guardas chamam a atenção deles, e um dos guardas corre ao lado do trem pedindo para eles pularem. Os garotos se divertem quando o trem passa em um túnel. Estamos em Khandwa, na Índia, no ano de 1986. Com o carvão que os garotos roubaram, eles conseguem dois pacotes com leite, que levam para casa, para a mãe deles, Kamla (Priyanka Bose). Este filme conta a história de Saroo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lion): Nesses dias eu estava me perguntando onde estavam os tão conhecidos produtores da The Weinstein Company. Pois bem, resposta imediata nos créditos deste Lion. Isso explica, aliás, como este filme chegou tão longe, indicado a nada menos que seis estatuetas do Oscar.

Para quem não se lembra ou não liga os “nomes às pessoas”, os irmãos Weinstein são dois dos produtores mais fortes e “de peso” de Hollywood. Mais que investir em filmes, eles são craques no lobby de suas produções. Lobby é aquela campanha massiva que inclui favores e presentes para os votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood valorizarem uma produção.

Às vezes esse lobby premia filmes realmente bons, mas nem sempre é assim. Os irmãos Harvey e Bob Weinstein fizeram Quentin Tarantino ser conhecido e emplacaram The Artist, dois bons exemplos. Mas eles também conquistaram, a custo de muito lobby, um Oscar de Melhor Filme para o mediano Shakespeare in Love. Eis um mal exemplo. Enfim, há algum tempo eles não “ditam” as regras do Oscar, e eu estava achando a ausência deles até ver o gigante crédito da companhia neles neste Lion.

Não me entendam mal. Este não é um filme ruim. Ele apenas é mediano. Se não fosse a força dos Weinstein por trás da produção, dificilmente este filme apareceria no Oscar. Descontado Lion na premiação deste ano, realmente falamos de uma safra excepcional na premiação. Lion é o ponto fora da curva nesta boa safra.

O filme, com narrativa linear, conta a história do indiano Saroo, um garoto como qualquer outro da sua idade nos anos 1980. A família dele era pobre, a mãe dos garotos, aparentemente sozinha, cuidava de três filhos, sendo dois deles pequenos – Saroo era o do meio -, tendo como a sua principal fonte de renda o trabalho pesado com pedras. Saroo, a exemplo de tantas crianças da Índia, não tem uma lei para as proteger – ou se existe lei, ela não é cumprida, porque estas crianças trabalham desde cedo.

Lion mostra um pouco da realidade do garoto até que ele se perde do irmão mais velho, Guddu, com quem ele estava sempre grudado. Com sono, Saroo não é capaz de ajudar o irmão em um trabalho noturno. Guddu pede para ele ficar no banco da estação de trem, mas o garoto acaba entrando em um vagão que é fechado e que não para em diversas estações até, finalmente, aceitar passageiros em Calcutá.

O menino, que parece ter cerca de seis anos, está a 1,6 mil quilômetros de casa. Ele cita o lugar em que ele mora, mas não fala bengalês, apenas híndi, e ninguém sabe do lugar do qual ele está falando. Saroo acaba tendo sorte e escapa de duas ciladas, pelo menos, passando a morar na rua e a se virar para conseguir comida. Em um certo dia, ele chama a atenção de um rapaz que com em um café (Riddhi Sen) e que o leva para a polícia.

Lá ele é “fichado”, ganha uma identificação como uma criança perdida, e é levado para um orfanato. Na sequência, ele é atendido pela Mrs. Sood (Deepti Naval), que publica um anúncio no jornal da cidade mas que, claro, não é visto pela família dele – não apenas porque a mãe do garoto é analfabeta e pobre, mas porque eles estão muito distantes de Calcutá.

Sem resposta da família do garoto, ele tem a sorte de ser adotado pelo casal australiano Sue (Nicole Kidman) e John Brierley (David Wenham). Uma das primeiras reflexões que Lion provoca é sobre o improvável da história de Saroo. Infelizmente ele é uma exceção naquela realidade da Índia – e de tantos países em que a pobreza e a desigualdade social não são artigos raros.

Impossível não pensar que para cada Saroo que tem sorte e que “dá certo” na vida porque tem as oportunidades para isso, existem tantas e tantas outras crianças que se dão muito mal e não tem a mesma oportunidade. Sem dúvida alguma é de cortar o coração, e toda a parte que mostra Saroo na sua fase de infância é o que Lion tem de melhor.

Na fase seguinte, há um grande trabalho que vale o investimento de tempo do espectador: o da atriz Nicole Kidman. Ela está ótima no papel da mãe adotiva de Saroo e tem, sem dúvida alguma, os melhores momentos de interpretação do filme – talvez esse seja o melhor trabalho dela deste The Hours. E isso não é pouca coisa. Nicole Kidman merece a sua indicação para o Oscar deste ano. Ela é o ponto forte do filme junto com os atores mirins da produção.

Adotado pelo casal, Saroo se desenvolve bem e tem as melhores oportunidades de estudar e de fazer esportes. Ele tem uma boa vida na Austrália. A história avança 20 anos, quando Saroo sai da casa dos pais para morar sozinho em Melbourne. É lá, interagindo com outros estudantes, que ele começa a questionar as suas origens e o seu passado. Começa a relembrar da mãe, do irmão, e da vida que tinha na Índia.

Esta é uma parte que eu acho mal explicada no roteiro regular de Luke Davies, baseado no livro escrito por Saroo Brierley. Afinal, Saroo ficou 20 anos morando com os novos pais na Austrália e nunca questionou as suas origens, procurou saber mais sobre a família e até buscá-la antes? Verdade que o indivíduo, quando vai morar sozinho, passa a ter outro tipo de “busca de si mesmo” mas, ainda assim, é um pouco estranho esse salto todo na vida do garoto sem nenhuma contextualização sobre as memórias dele antes, não?

Eu achei que o filme deixou esse buraco grande na história e que isso compromete a produção. Ok que eles quisessem saltar bastante tempo na trajetória de Saroo e mostrá-lo já adulto (interpretado então por Dev Patel). Mas então nesta fase adulta ele poderia ter comentado algo sobre como ele lidou com as suas lembranças e a saudade que tinha da família original, não? Para o meu gosto, o roteiro de Luke Davies é o ponto fraco de Lion.

Outra questão que eu acho que Davies não trabalha bem é sobre a “crise existencial” pela qual passa o protagonista desta história. Ok que ele estava dividido entre a necessidade de procurar a família original e a preocupação de não chatear os pais adotivos, mas isso não é exatamente bem explorado pela produção.

Lion acaba desacelerando justamente em uma parte vital, quando o rapaz começa a questionar a vida confortável que ele leva na Austrália e recorda o contraste das experiências que ele teve na Índia. A história acaba se repetindo naquela indecisão dele de realmente buscar as origens, o que não ajuda na narrativa.

O filme não teria perdido nada, pelo contrário, se tivesse cortado um pouco aquela investigação “by Google Earth” e explorado melhor as relações pessoais dele ou partido logo para a procura dele de suas origens. Francamente eu achei que ele não encontraria ninguém quando voltasse para casa, mas ele ainda tem a sorte de rever a mãe.

Lion nos faz pensar, desta forma, em dois elementos fundamentais: a importância de cada um de nós entender com profundidade de onde veio, porque nossas origens acabam moldando muito o que somos; e o quanto a desigualdade de oportunidades é algo injusto e cruel. Saroo acaba tendo uma qualidade de vida e uma série de oportunidades que ele jamais teria se tivesse ficado na Índia. Mas onde ele seria mais feliz? Nunca saberemos.

Mas independente disso, toda criança deveria ser protegida e ter as mesmas oportunidades na vida. Depois o que cada um faria de sua trajetória, seria algo que competiria a cada indivíduo. O cruel e injusto do mundo é que muitas crianças simplesmente não tem oportunidade de se desenvolver e de ter oportunidades na vida. Lion mostra isso de forma muito contundente, ainda que o filme poderia ser melhor planejado e ter um roteiro mais inteligente na segunda parte da produção.

Antes eu comentei sobre o ótimo trabalho de Nicole Kidman. Para mim, ela tem alguns dos melhores diálogos da produção. Particularmente, estou totalmente de acordo com ela de que já existem pessoas suficientes no mundo. O que muitos casais poderiam fazer, a exemplo do que os Brierley desta história fizeram, é adotar algumas das crianças que não tem estrutura familiar e que não terão oportunidades na vida para realmente dar para elas uma outra realidade.

Esta é uma outra boa reflexão que Lion nos propicia, pensar sobre que realidade temos, qual queremos ter e de que forma podemos contribuir para esta mudança. Este é um filme bacana, necessário, pena que não tem a qualidade narrativa que ele poderia ter.

NOTA: 8,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O destaque desta produção são os garotos Sunny Pawar e Abhishek Bharate. Eles se saem muito bem em seus papéis, ainda que o roteiro de Luke Davies não ajude muito os dois ao tentar levar a narrativa um pouco para o “sentimentalismo”. Existe uma linha tênue entre retratar uma história difícil e explorá-la. Lion acaba caindo mais para o segundo lado do que para o primeiro. Mas sempre que os garotos aparecem em cena, o filme ganha.

Na parte da fase adulta do protagonista, quem brilha é Nicole Kidman. Ela nos dá uma lição de amor e de dedicação pela forma igualitária com que ela trata os dois filhos adotivos. Saroo é um exemplo de filho, aparentemente, mas o segundo garoto que o casal adota, Mantosh (Divian Ladwa, vivido por Keshav Jadhav na infância), claramente tem problemas de comportamento. Isso não importa para Sue, que ama e aceita os filhos como eles são e da mesma forma.

Dev Patel está bem em seu papel, mas não faz nada extraordinário – para mim, o personagem de Saroo perde em força quando ele o interpreta, comparando com o trabalho de Sunny Pawar. Nesta fase da história estão bem também David Wenham como o pai dos garotos e Rooney Mara como Lucy, namorada de Saroo. Rooney Mara está novamente encantadora, e convincente, mas o roteiro não lhe ajuda muito. Uma pena.

Além dos atores citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Khushi Solanki em uma super ponta como Shekila quando criança; Tannishtha Chatterjee como Noor, uma mulher que ajuda Saroo quando criança com segundas intenções; Nawazuddin Siddiqui como Rawa, aparentemente um traficante de pessoas; Koushik Sen como o policial que atende Saroo; Pallavi Sharda como Prama, amiga de Saroo que o incentiva a procurar as suas origens; Sachin Joab como Bharat, também amigo de Saroo; Arka Das como Sami, jovem que faz parte do mesmo grupo; e Rohini Kargaiya como Shekila adulta.

Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho de uma série de pessoas. Ainda que, francamente, todos cumpram bem a sua função, apenas o diretor de fotografia Greig Fraser é o que merece uma menção especial. Os demais fazem apenas um trabalho ok. Ainda assim, vale citá-los: Volker Bertelman e Dustin O’Halloran assinam a trilha sonora; Alexandre de Franceschi faz a edição; Chris Kennedy assina o design de produção; Nicki Gardiner e Seema Kashyap assinam a decoração de set; Cappi Ireland, os figurinos; e Erica Brien o departamento de arte.

Sobre os irmãos Weinstein e o seu trabalho forte com o lobby em Hollywood, vale dar uma olhadela nesta matéria da revista Exame.

Lion estreou em setembro no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros 18 festivais pelo mundo. Em sua trajetória até agora, Lion conquistou 26 prêmios e foi indicado a outros 72, incluindo seis indicações ao Oscar 2017.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel no Bafta Awards; para o de Melhor Diretor Estreante para Garth Davis dado pelo Directors Guild of America; oito prêmios como Melhor Filme – a maioria dada pelas audiências de festivais; dois prêmios de Melhor Roteiro Adaptado; quatro prêmios de Melhor Ator Coadjuvante ou de Melhor Ator para Dev Patel; quatro prêmios para Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman; um prêmios de Melhor Fotografia e um prêmio de Melhor Ator para Sunny Pawar.

Lion teria custado US$ 12 milhões, um orçamento até baixo para a complexidade da produção. O filme faturou, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 30,4 milhões e, nos demais países em que já estreou, outros US$ 14,1 milhões. Até o momento a produção faturou pouco mais de US$ 44,5 milhões, ou seja, está trilhando o caminho do lucro – até porque ele custou relativamente pouco para os padrões de Hollywood.

Como a história mesmo conta, Lion foi totalmente rodado na Índia e na Austrália. Entre as cidades em que a produção passou estão a de Kolkata, em West Bengal, na Índia, e as de Hobart, Melbourne, Bruny Island, Cape Hauy e Recherche Bay, todas na Austrália.

Esta foi a estreia de Sunny Pawar no cinema. Torço para que ele consiga ter uma carreira legal. Talento não lhe falta. Falando em estreias, Lion também marca a estreia de Garth Davis entre os longas – antes ele tinha feito o documentário P.I.N.S., o curta Alice e alguns episódios das séries Love My Way e Top of the Lake.

Agora, aquelas curiosidades básicas da produção. A personagem de Rooney Mara não é baseada em uma pessoa específica, mas é a junção de diversas “amigas” do protagonista que o acompanharam em sua longa jornada em busca de seu lugar de origem.

Como a produção mesmo informa, na Índia, todos os anos, 80 mil crianças se perdem de seus país. E um número ainda mais impressionante e de cortar o coração: 11 milhões de crianças vivem nas ruas da Índia. Vocês leram bem? 11 milhões de crianças! Os produtores de Lion criaram a fundação #LionHeart para tentar ajudar estas crianças que vivem nas ruas.

A atriz Nicole Kidman foi escolhida a dedo pela verdadeira Sue Brierley. As duas conversaram sobre o papel em Sydney e imediatamente Nicole e Sue viram que elas tinham algo em comum: as duas amavam os seus filhos naturais e adotivos da mesma forma.

Nada menos que 4 mil meninos fizeram os testes para interpretar Saroo na infância.

O ator Dev Patel considera o roteiro de Lion o melhor que ele já leu.

Na Austrália o filme teve a melhor estreia de um filme independente da história. Entre todos os filmes do país que já estrearam naquele mercado, Lion teve a quinta melhor estreia de todos os tempos.

Esta é uma coprodução da Austrália, dos Estados Unidos e do Reino Unido. Como tem os EUA no meio, Lion atende a uma votação feita aqui no blog há um bocado de tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8 para esta produção, o que é uma avaliação muito boa para os padrões do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 156 críticas positivas e 26 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,3. Me parece, até pelos prêmios que este filme já recebeu, que os espectadores têm sido mais “sensíveis” para a produção do que os críticos. Desta vez, tenho que concordar mais com os críticos. A história de Lion é importante, mas não é muito bem contada e nem é surpreendente. Enfim, poderia ser melhor.

Achei forçado o material de divulgação do filme explorar tanto a imagem de Dev Patel. Por justiça, seria muito mais interessante termos cartazes que dessem destaque para os irmãos quando pequenos. Afinal, a parte mais interessante do filme está com eles. Mas entendo os produtores, preocupados com a bilheteria, por explorarem a imagem do conhecido Dev Patel e da “queridinha” Rooney Mara.

CONCLUSÃO: A mensagem deste filme é importante, e ele tem boas interpretações. Mas entre os indicados deste ano do Oscar este é, sem dúvida, o elo fraco da corrente. Primeiro porque o filme é um bocado arrastado e tem muitos altos e baixos. Depois, porque ele talvez teria funcionado melhor como documentário do que como uma produção dramática.

Falta para esta produção um pouco de conteúdo, de brilho e de emoção, apesar de Lion ter algumas mensagens muito bacanas, especialmente pela forma com que o filme defende a importância da família, da generosidade, da busca por si mesmo e do amor. Vale a pena assistir se você já viu a todos os outros indicados ao Oscar desta safra.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Parece incrível pensar que Lion foi indicado em seis categorias do Oscar. Ok, o filme é bom, mas ele não passa disso. Como eu comentei por aqui antes, a única explicação para este número de indicações é a força dos produtores Harvey e Bob Weinstein. Eles continuam tendo um lobby forte em Hollywood, pelo visto.

Lion concorre neste ano nas categorias Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante para Dev Patel (classificação estranha essa, mas não é inédita), Melhor Atriz Coadjuvante para Nicole Kidman, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Trilha Sonora.

Entre os nove filmes indicados na categoria principal do Oscar deste ano, não tenho nenhuma dúvida em afirmar que Lion é o mais fraco concorrente. Sendo assim, claro que chance zero do filme ganhar nesta categoria. Também não vejo nenhuma chance do filme levar em Melhor Ator Coadjuvante – o prêmio deve ir para Mahershala Ali, de Moonlight – ou em Melhor Atriz Coadjuvante.

Apesar de Nicole Kidman ser, provavelmente, a indicação mais justa que o filme recebeu no Oscar 2017, a categoria em que ela concorre deve ser ganha por Viola Davis – que, a exemplo de Patel, poderia, perfeitamente, estar na categoria principal e não na de coadjuvante, já que ambos são os protagonistas nos seus respectivos filmes.

Na categoria de Melhor Roteiro Adaptado, Lion corre totalmente por fora. Não imagino ele tendo qualquer chance contra Moonlight, Fences, Arrival ou Hidden Figures. Todos os quatro são melhores do que ele.

Em Melhor Fotografia e em Melhor Trilha Sonora o favoritíssimo da noite é La La Land, apontado como o filme que será mais premiado na noite do Oscar. Quem corre por fora na primeira categoria é Arrival e Moonlight, enquanto na segunda existe uma mínima chance para Moonlight e Jackie. Ou seja, se o previsto acontecer, Lion sairá da noite do Oscar de mãos vazias. Nesta temporada de grandes filmes concorrendo, não será uma injustiça.

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Hacksaw Ridge – Até o Último Homem

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Quando você defende valores corretos e está convicto sobre eles, não existe cenário agreste ou situação impossível pela frente. Hacksaw Ridge é um filme de guerra como você nunca viu. Por incrível que possa parecer, este é um libelo sobre a não violência e sobre a defesa da vida em meio à carnificina de uma guerra. Mel Gibson nos presenteia com um dos melhores filmes deste gênero de todos os tempos. Isso não é pouca coisa.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que se trata de uma história verdadeira. Muitos mortos no chão. Vários soldados estão sendo borbardeados e caem sobre o solo. Alguns são incendiados. Em meio àquela cena de guerra e morte, uma oração sobre Deus ecoa. Ela está sendo feita por Desmond Doss (Andrew Garfield), soldado que está sendo retirado do campo de batalha ferido. Este filme conta a história dele e do feito impressionante que ele foi capaz de realizar naquele mesmo cenário de destruição.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Hacksaw Ridge): Eu admito logo de cara que este filme me conquistou. Fui fisgada e me emocionei em mais de um momento da produção. Se pensamos nela racionalmente, é claro que os roteiristas Robert Schenkkan e Andrew Knight e que o diretor Mel Gibson recorreram a vários lugares-comum e chavões. Mas você esquece de tudo isso quando vê o exemplo deixado por Desmond Doss.

Como vou falar novamente lá embaixo, na conclusão, este filme será visto e sentido de maneira muito diferente conforme as convicções do espectador. Para quem é ateu, mas acredita na não violência, na paz e na defesa da vida, este filme será uma história interessante descontada toda a parte “religiosa”. Para quem é cristão, como eu, as ações de Desmond Doss ganham outra camada de significado.

Como tantas outras produções, Hacksaw Ridge começa com uma “pílula” da parte final da história, quando Desmond é carregado por outros soldados que procuram salvá-lo no campo de batalhas. Depois deste rápido “lampejo” da parte final da história, o roteiro de Schenkkan e de Knight volta 16 anos no tempo.

Com esta escolha, vemos um pouco da infância de Desmond (quando criança, interpretado por Darcy Bryce), quando ele brincava nas Montanhas Blue Ridge, no Estado da Virgínia, ao lado do irmão Harold, conhecido como Hal (Roman Guerriero na fase infantil). Voltamos para um dia específico e que acabou sendo importante para formar o caráter de Desmond quando adulto.

No dia comum da família Doss que acompanhamos, o pai dos garotos, Tom (Hugo Weaving) bebe e se lamenta para os amigos mortos na guerra ao visitá-los no cemitério. Desmond e Hal acabam brigando, e em um gesto sem pensar, Desmond atinge o irmão com um tijolo. Naquele momento ele percebe que poderia ter matado o irmão, como Caim fez com Abel, e ouve da mãe, Bertha (Rachel Griffiths), que é cristã, que matar alguém é o pior pecado contra Deus. Essa lição marcaria o protagonista da história para sempre.

Na sequência, o roteiro de Hacksaw Ridge pula 15 anos para a frente, ou seja, um ano antes das cenas de guerra que iniciaram a produção. Novamente somos apresentados a fatos determinantes para a vida de Desmond. Quando o protagonista vê um acidente acontecer na rua, ele vai ao socorro do acidentado atingido em uma artéria e o salva ao fazer um torniquete na perna. Ele acompanha o jovem até o hospital, e é lá que ele conhece a enfermeira Dorothy Schutte (Teresa Palmer).

Ele fica imediatamente encantado por ela e começa a flertar com a garota. Quando os dois engatam um namoro, ele pede ajuda para ela porque ele quer saber mais de Medicina. Hal se alista e vai para a guerra, e não demora muito para Desmond seguir o mesmo caminho. Nenhum dos irmãos quer ficar em casa enquanto os seus amigos e conhecidos estão defendendo o país no campo de batalha – mesmo os dois “odiando” o pai alcoólatra e veterano de guerra, eles são inspirados por ele no exemplo de “servir à pátria” e de fazer o que é certo pelo coletivo da nação.

Mesmo fazendo parte da mesma família, nem todos tem as mesmas convicções e a mesma fé. O pai, Tom, claramente parece um morto-vivo e indica que já não é capaz de acreditar em nada, muito menos em Deus. A mãe dos garotos é religiosa. Hal parece ser neutro – não há muitas informações sobre ele, na verdade -, enquanto Desmond seguiu os passos da mãe e é bastante religioso.

Realmente parece assustador pensar em alguém indo para uma guerra sem ao menos carregar uma arma sequer para se defender. Afinal, tudo que se espera em um campo de batalha é que você seja atacado. Mas Desmond se recusa a carregar uma arma e, claro, se recusa solenemente a atacar uma pessoa ou matá-la – nem que isso signifique a própria sobrevivência.

Se você parar para pensar, isso sim é ser revolucionário. É marcar uma posição quando todos os outros dizem que isso é impossível e que você não pode fazer aquilo não apenas porque é suicídio, mas especialmente porque você estará passando uma mensagem muito ruim para o restante da tropa. Mesmo após ser preso, Desmond continua defendendo as suas convicções. E, aí entra a primeira surpresa do filme, Desmond só não se dá mal porque o pai, aparentemente “ausente”, intervém.

Em certo momento questionam Desmond: por que ele simplesmente não desiste daquela ideia maluca e vai para casa? Isso acontece quando ele vai para a corte marcial. Ali ele dá o primeiro depoimento contundente. As convicções de Desmond não permitem que ele fique em casa “tocando a vida” enquanto tantos outros homens estão se sacrificando por ele. É uma questão de honra e de lealdade por amigos, pelo irmão e por tantos outros desconhecidos. Ele não consegue apenas “deixar para lá”.

Pois bem, após uma intervenção salutar do pai, Desmond consegue terminar a formação e ir para a guerra sem ter pego em uma arma. Importante dizer que a convicção dele anti-violência tem duas fontes principais: o exemplo violento do pai, que era alcoólatra e batia em todos em casa, dos filhos até a esposa; e aquele exemplo citado antes, de quando o garoto Desmond percebeu que ele próprio tinha a capacidade de matar e que isso era algo muito, muito errado. Sem contar, evidentemente, como ele se inspira no exemplo de Cristo e nos mandamentos fundamentais.

Em determinado momento do filme, no campo de batalha, quando está falando com um dos colegas de farda, Smitty Ryker (Luke Bracey), Desmond também admite que, certa vez, pegou em uma arma para defender a mãe e que chegou a apontá-la para o pai. A partir daquele momento ele prometeu para si mesmo nunca mais pegar em uma arma novamente.

Estes e outros detalhes do filme fazem Hacksaw Ridge ser muito rico em histórias e muito coerente em sua narrativa. Uma pessoa cercada por violência tem a capacidade de escolher entre seguir aquela linha ou mudar completamente, tornando-se uma pessoa da paz. Esse segundo caminho é o que Desmond escolhe. Mas ele não se satisfaz apenas em ter esta conduta na sua vida pessoal. Ele leva esta ética para o campo de batalha. Isso sim, é algo incrível. E que nos demonstra, sem dúvidas, como é possível ter esta atitude pacifista em qualquer lugar e contexto.

Quando o diretor Mel Gibson leva a narrativa para o campo de batalha é que o filme ganha outra dimensão. As cenas recheadas de disparos, explosões, ataques e contra-ataques são impecáveis. O diretor demonstra conhecer bem esta narrativa e vemos um grande cuidado técnico com cada sequência. Mas o que ganha o espectador não são esses recursos já conhecidos. Acho difícil alguém não se emocionar com as cenas de Desmond correndo em meio ao perigo com cada companheiro de farda pelas costas.

Da minha parte, me emocionei logo nas primeiras sequências de Desmond salvando vidas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas ainda que a emoção tenha começado pouco depois dele colocar os primeiros homens daquele batalhão nas costas e correr com eles para tentar salvá-los, sem se importar em quem poderia sobreviver ou não, porque ele acreditava que todos mereciam uma chance, foi na sequência em que Desmond fica sozinho e começa a salvar a todos que ele encontra pela frente, inclusive japoneses “inimigos”, que a emoção corre solta. Ele passou uma noite inteira, sozinho, fazendo isso, rezando a cada minuto e pedindo a Deus mais forças para seguir salvando vidas. Na verdade, toda vez que ele ora pedindo uma resposta e segue em frente ao ouvir um pedido de ajuda, a emoção corre solta. Há uma mensagem mais forte que essa? Acho difícil.

É fácil falar de princípios, de defesa da vida e da paz quando você está seguro e tranquilo na sua casa. Algo bem diferente é defender tudo isso estando sob risco constante de levar um tiro ou de ser implodido em um campo de batalha. Mas Desmond não tem nenhuma dúvida sobre como agir e sobre qual é a sua missão naquele local. Ele não vai matar ninguém. Ele está lá para salvar vidas. Incrível.

Tem gente que sempre usa o lema “uma andorinha só não faz Verão” para justificar que mais pessoas precisam ter interesse em uma ideia para que ela dê certo. Desmond mostra que uma pessoa sozinha pode fazer uma grande, imensa diferença. Ele mostrou mais honra e coragem do que muitos homens que foram para a guerra e apertaram gatilhos, usaram lança-chamas ou jogaram bombas nos inimigos.

Um tempo depois de ter assistido a Hacksaw Ridge, que achei muito inspirador, me lembrei de outro filme que mostra como uma única andorinha pode fazer uma grande diferença e salvar muitas vidas. Me lembrei de Schindler’s List, a história de outro homem que foi capaz de salvar muitas vidas. A exemplo de Desmond, Oskar Schindler teve a oportunidade de salvar pessoas e não se eximiu desta responsabilidade.

É inacreditável o que Desmond foi capaz de fazer. O exemplo dele foi tão inspirador que ele teve que entrar no campo de batalha novamente logo após ter passado uma noite salvando vidas sozinho. Os soldados que iam entrar em ação queriam ele por perto, como se ele fosse um tipo de “amuleto” ou alguém “protegido por Deus”. Neste momento Hacksaw Ridge mostra como um exemplo pode inspirar tantas pessoas. E é isso que Jesus continua fazendo até hoje.

Quando Desmond entra no campo de batalha novamente, é sábado, justamente o dia em que ele dizia que não poderia “trabalhar” por causa de sua fé. Mas ele sente que tem aquela missão para cumprir e, de fato, com o ânimo do exemplo dele, o batalhão vence a batalha e conquista Hacksaw. Desmond é ferido e consegue ser resgatado, e nos minutos finais do filme vemos a cenas reais do militar que foi condecorado por salvar 75 vidas. Certamente Mel Gibson quis colocar aquelas cenas no final para justificar alguns momentos mais “controversos” da produção.

Os roteiristas e o diretor constroem este filme de forma muito inteligente. Conhecemos as origens e o entorno familiar e social do protagonista, elementos que ajudaram a moldar o seu caráter. Os valores dele e a visão de mundo que ele constrói pelas experiências pelas quais ele passa são fundamentais para explicar a sua postura diferenciada no campo de batalha.

Depois de fazer esta contextualização essencial do personagem, entramos na ação propriamente dita. Nesta etapa, vemos o pior da guerra, toda a crueldade dos japoneses kamikazes e também dos soldados americanos, e um contra-exemplo dado por Desmond. Ele é o contraponto de tudo aquilo e serve de exemplo atualmente, nestes dias tão conturbados que vivemos no Brasil e no mundo, de que é possível buscar um caminho diferente.

Desmond nos lembra que sempre podemos escolher a paz e a defesa da vida, mesmo que todos ao nosso redor pareçam estar defendendo a violência e o conflito com a justificativa de que esta é a única saída. Nunca existe apenas uma saída. Desmond nos lembra que sempre temos a capacidade de escolher e que mesmo que a escolha faça todos pensarem que nós somos loucos ou “bobos”, ela vale a pena quando é feita com convicção.

Hacksaw Ridge também nos lembra que ninguém tem o direito de dizer para o outro o que ele deve fazer se isso vai contra o que ele acredita ser o melhor. Um belo e contundente filme. Um dos melhores filmes de guerra que já foram feitos para o meu gosto. Entra na lista de produções inesquecíveis e inspiradoras. Para quem é religioso, este filme também mostra como cada cristão pode ser o sal da Terra e servir de luz para os seus irmãos. Deus opera milagre através das pessoas que estão afinadas com ele, eu não tenho dúvidas disso. Desmond só conseguiu fazer tudo o que fez confiando muito em Deus e que ele lhe protegeria para cumprir a sua missão.

Ainda que Hacksaw Ridge tenha uma defesa da fé do protagonista inevitável, ele não precisa ser visto apenas sob esta ótica religiosa. Pode ser visto apenas como um filme de um homem com princípios diferentes dos de uma guerra. Mais uma grande produção desta safra especial do Oscar. Há muito tempo não se via filmes tão bons na disputa.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Grande escolha dos produtores e do diretor Mel Gibson por Andrew Garfield como protagonista. Ele realmente tem o porte e o perfil adequado para o personagem de Desmond Doss. Afinal, o Desmond verdadeiro era magro e tido como um sujeito “fraco” para os padrões do Exército. Era um “cara comum” que foi capaz de um feito extraordinário. Garfield está muito bem no papel e merece, sem dúvida, ser indicado ao Oscar.

Logo depois de assistir a este filme eu pensei em dar a nota máxima para ele. Mas aí pensei um pouco melhor e teve um ou dois pontos que me “incomodaram” um pouco na história. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Apesar dele ser baseado em fatos reais e eu achar que boa parte do que vemos no filme realmente aconteceu, tem partes que me pareceram um tanto “exageradas”. Primeiro, o filme é declaradamente pró-EUA. Ou seja, os japoneses são tratados como super cruéis e carniceiros,mas certamente esta visão também era a que o outro lado tinha dos americanos.

A simplificação dos japoneses e a sequência em que Desmond ajuda um inimigo e que é “poupado” por ele me pareceram um pouco equivocadas. Também me incomodou um pouquinho o tom de “protegidos por Deus” na segunda batalha em Hacksaw, quando eles vencem os japoneses. Desnecessário, afinal, Deus jamais estará do lado de alguém que faz guerra – uns vencem e outros perdem apesar de Deus. Também me incomodou um pouquinho a cena de “endeusamento” de Desmond, ou de torná-lo praticamente um “anjo” quando ele está sendo resgatado. Mas estes são detalhes em um filme com mensagem, no geral, bacana e importante.

Hacksaw Ridge é um filme declaradamente de um personagem. Ainda que tenhamos vários nomes interessantes em cena, esta produção é toda construída para valorizar a história de Desmond Doss. Andrew Garfield brilha no papel, neste que pode ser, até o momento, o filme da vida do ator. Ele tem uma presença, um carisma e uma postura otimista que é típica de quem está “repleto do Espírito Santo”, e por isso ele convence tanto no papel de Desmond. Mas além dele, tem outros atores importantes e que fazem bem o seu trabalho.

Do núcleo familiar do protagonista, vale destacar o belo trabalho de Hugo Weaving como o ex-veterano de guerra e patriarca da família Tom Doss; o coerente e sensível trabalho de Rachel Griffiths como a pacífica e amorosa mãe Bertha Doss; e o da talentosa atriz Teresa Palmer em um dueto importante com Andrew Garfield como a namorada e depois esposa dele, a enfermeira Dorothy Schutte. Também vale citar o bom trabalho de Nathaniel Buzolic como Hal Doss – ainda que o papel dele seja micro.

Do núcleo do exército, sem dúvida merecem aplausos os atores Sam Worthington como o capitão Glover; Vince Vaughn lembrando um pouco o capitão do clássico de Kubrick neste filme como o sargento Howell; e Luke Bracey brilha como Smitty Ryker. Todos eles tem em comum desprezarem Desmond no início, mas depois se renderem à bravura e ao exemplo dele.

Como em todo filme de guerra, é complicado ligar “o nome à pessoa”. Quando Desmond chega no treinamento militar, rapidamente um grupo de soldados se apresentam para ele. Mas é difícil, depois, você identificar este ou aquele no campo de batalha. Ainda assim, vale citar o nome de alguns atores que, mesmo sendo coadjuvantes, recebem um certo destaque na história nesta tentativa dos roteiristas em “humanizar” os soldados: Firass Dirani como Vito Rinnelli; Michael Sheasby como Tex Lewis; Luke Pegler como Hollywood Zane; Ben Mingay como Grease Nolan; Nico Cortez como Wal Kirzinski, apelidado de “Chefe”; e Goran D. Kleut como o “esquisitão” Ghoul.

Além deste grupo de atores que dão vida a jovens soldados, vale destacar alguns atores veteranos em pequenos papéis no filme, como Richard Roxburgh como o coronel Stelzer; Robert Morgan em uma participação contundente como o coronel Sangston; e Philip Quast como o juiz que sabe ser justo quando Desmond decide se defender na corte marcial.

Tecnicamente falando, o filme é irretocável. Não vi nenhum problema em parte alguma. Diversos talentos ajudaram este filme a ele ter a qualidade que vemos em cena. Para começar, a envolvente, emocional e um tanto época trilha sonora de Rupert Gregson-Williams que, sem dúvida alguma, ajuda bastante a história nas cenas de batalha.

Outros profissionais que dão um show em suas respectivas funções são o diretor de fotografia Simon Duggan; o editor John Gilbert; os 16 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; os 23 profissionais envolvidos no departamento de arte; os 21 profissionais que fazem um trabalho fundamental e perfeito no departamento de som; os 10 profissionais responsáveis pelos efeitos especiais; os 30 profissionais responsáveis pelos efeitos visuais; além do design de produção de Barry Robinson; a direção de arte de Jacinta Leong e de Mark Robins; e os figurinos de Lizzy Gardiner.

Hacksaw Ridge estreou em setembro de 2016 no Festival de Cinema de Veneza. Foi o único festival em que a produção participou. Apesar disso, ela já contabiliza 38 prêmios e foi indicado a outros 79, incluindo seis indicações ao Oscar. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de melhor elenco em um filme de ação dado pelo Screen Actors Guild Awards; quatro prêmios para Mel Gibson como Melhor Diretor; três prêmios de Melhor Filme, Melhor Filme de Ação ou Melhor Filme Estrangeiro; cinco prêmios de Melhor Ator para Andrew Garfield; e seis prêmios de Melhor Edição.

Esta produção teria custado cerca de US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 66,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 97,7 milhões. No total, faturou US$ 164,2 milhões, o que o coloca na trajetória de obter lucro.

Hacksaw Ridge foi totalmente rodado na Austrália, em locais como os estúdios Fox em Sydney; no cemitério Centennal Park, em Eastern Suburbs, também em Sydney; no Newington Amory, que serviu de locação para o Fort Jackson, e que fica no Sydney Olympic Park; e em cidades como Richmond (cenas da Igreja e do cinema) e Camden.

Este filme é uma coprodução da Austrália e dos Estados Unidos. Como este segundo país foi o mais votado em uma das enquetes feitas aqui no blog, ele entra para a lista de produções que atendem às votações feitas aqui.

Agora, para finalizar, algumas curiosidades sobre a produção. Sempre que perguntavam para Desmond Doss quantas pessoas ele tinha ajudado a salvar, ele dizia que aproximadamente 50. No entanto, testemunhas daqueles dias disseram que foi mais perto de 100. Para chegar a um meio-termo, eles chegaram ao número de 75.

De acordo com o diretor Mel Gibson, o filho de Desmond Doss, Desmond Jr., participou da escolha do elenco e ficou emocionado com a forma com que Andrew Garfield interpretou com fidelidade o pai dele.

As notas de produção dizem que Desmond Doss foi o único soldado que serviu na linha de frente sem portar uma arma. Na Segunda Guerra Mundial, nas guerras da Coreia e do Vietnã, os militares que eram da Igreja Adventista do Sétimo Dia eram classificados como 1A-O, o que significava que eles estavam dispostos a servir, mas que não portariam uma arma em combate. Havia um grupo similar, chamado Society of Friends (Quaker) que se voluntariou desta forma na Primeira Guerra Mundial.

O produtor Hal B. Wallis tinha tentado comprar a história de Desmond Doss nos anos 1950, imaginando o ator Audie Murphy como o protagonista. Mas Desmond não tinha interesse em que a sua história se transformasse em um filme de Hollywood. Bem, como o filme mesmo nos informa, ele morreu em 2006… abrindo então a oportunidade para que os realizadores finalmente levassem a sua história para os cinemas.

As cenas de batalha demoraram 19 dias para serem filmadas.

Hacksaw Ridge foi aplaudido de pé durante nove minutos e 48 segundos na estreia no Festival de Cinema de Veneza – o próprio Mel Gibson cronometrou este tempo.

Além de salvar 75 homens, Desmond Doss teria tratado outros 55 que puderam sair do campo de batalha sozinhos.

A Bíblia que Desmond levava sempre consigo realmente foi perdida no campo de batalha e só foi recuperada depois que ele foi levado para casa para tratar de seus ferimentos. A divisão da qual ele fazia parte, depois de capturar Hacksaw, passou algum tempo procurando a Bíblia até que a conseguiram localizar.

Esta produção levou 59 dias para ser filmada.

O filme marca a estreia de Milo Gibson, filho do diretor Mel Gibson – ele faz o papel de Lucky Ford, um dos soldados do batalhão de Doss.

James Horner tinha sido contratado para fazer a trilha sonora de Hacksaw Ridge, mas com a morte prematura e repentina do premiado compositor, entrou em cena John Debney. Mas o trabalho dele foi rejeitado e aí assumiu o posto Rupert Gregson-Williams.

Impressionante uma parte da história real de Desmond. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ele não foi ferido e resgatado na conquista de Hacksaw. Na verdade ele foi ferido algumas semanas depois na Campanha Okinawa durante um ataque noturno perto de Shuri. Ele foi ferido nas pernas por uma granada e teve que esperar cinco horas até que os maqueiros pudessem alcançá-lo. Neste tempo, ele tratou de suas próprias feridas como pôde.

Quando ele estava sendo levado por três maqueiros, eles foram atacados por um tanque japonês. Doss se arrastou para fora da maca para que outro soldado em situação mais grave que a dele fosse atendido primeiro. Enquanto ele esperava a maca retornar, ele foi baleado por um franco-atirador, o que causou uma fratura no braço de Desmond. Para tratá-la, ele próprio improvisou uma tala usando a parte de um rifle.

Desmond então rastejou cerca de 274 metros para uma estação de socorro em que ele pôde ser atendido. Estes e outros detalhes da história de Desmond foram deixados de fora do filme porque o diretor Mel Gibson achou que o público não acreditaria neles. Acho que ele tem razão. A história de Desmond é incrível demais para reles mortais acreditarem com toda a facilidade que deveriam sem estarem lá para presenciar os fatos.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para Hacksaw Ridge, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 191 críticas positivas e 30 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 7,2. Neste caso, estou mais do lado do público que vota no IMDb do que dos críticos que foram um tanto “duros” com a produção. Talvez tenha incomodado os críticos o tom religioso do filme, mas este era um elemento importante para o protagonista da história e não tinha como ser negado na produção. Para os padrões do site IMDb a nota de Hacksaw Ridge é muito boa.

CONCLUSÃO: O testemunho de uma pessoa através de seu exemplo vale mais do que mil discursos. Esse filme será visto de maneira muito diferente dependendo se o espectador acredita ou não em Deus. Mas, independente disso, Hacksaw Ridge é um grande testemunho de que é possível se manter fiel à si mesmo e ao que se acreditar ser certo mesmo que todas as pessoas ao redor e as condições que o cerca lhe disser o contrário.

Para o meu gosto, volto a afirmar: Hacksaw Ridge é um dos grandes filmes sobre guerra de todos os tempos. Ele mostra a crueldade de um campo de batalha mas vai muito além disso. Resgata uma história impressionante de bravura e de defesa da vida em um local em que o elemento mais constante e certo é o da morte. Bem conduzido, o filme começa morno, previsível, mas depois acerta o espectador direto na emoção. Mais uma das belas surpresas desta temporada do Oscar 2017. Altamente recomendado.

PALPITES PARA O OSCAR 2017: Hacksaw Ridge está concorrendo em seis categorias do prêmio máximo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Ele disputa a estatueta dourada nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor para Mel Gibson, Melhor Ator para Andrew Garfield, Melhor Edição para John Gilbert, Melhor Mixagem de Som e Melhor Edição de Som.

Em um ano “normal” do Oscar, Hacksaw Ridge talvez fosse o favorito na categoria Melhor Filme. Mas este não é um ano normal da premiação. A Academia está visivelmente querendo defender os seus valores e a si mesma e, por isso, deve premiar La La Land, um filme bom, mas que definitivamente não é o melhor do ano.

Consequentemente, se Hollywood quer consagrar La La Land, é praticamente certo que Mel Gibson vai perder a disputa para Damien Chazelle. E mesmo que aconteça uma zebra e Chazelle não vença, a estatueta deve ir para outro nome, para Barry Jenkins, de Moonlight. Na categoria Melhor Ator, a disputa está entre Denzel Washington (meu voto) e Casey Affleck.

Então as chances que restam para Hacksaw Ridge estão nas categorias técnicas. Como La La Land é o favoritíssimo para papar quase tudo na noite de entrega do Oscar, é o filme de Chazelle que tem a preferência para levar o Oscar de Melhor Edição – ainda que eu prefira o trabalho feito em Hacksaw Ridge.

O mesmo se pode dizer em Melhor Mixagem de Som, onde nas bolsas de apostas La La Land leva vantagem. A única categoria em que Hacksaw Ridge está liderando é na de Melhor Edição de Som. Francamente, acho que ele poderia levar tranquilamente nas três categorias técnicas. Acho o trabalho das equipes de Hacksaw Ridge mais contundentes nas três categorias do que as equipes de La La Land. Mas, novamente, este parece ser o ano do musical, então talvez Hacksaw Ridge saia com duas, uma ou nenhuma estatueta deste Oscar. Qualquer um destes cenários não será surpreendente. Uma pena. O filme merecia mais reconhecimento.