Loving

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Duas pessoas se amam para valer, mas elas acabam sendo foras-da-lei por causa disso. Não porque tenham cometido algum crime, mas simplesmente porque elas têm cor de pele diferente. Esta é a história de Loving, um filme singelo e com narrativa linear que nos conta mais um capítulo da vergonhosa história de racismo nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Após um longo silêncio, Mildred (Ruth Negga) diz para Richard (Joel Edgerton) que está grávida. Ele ri e diz “ótimo”. Fica feliz com a notícia, o que alivia a preocupação de Mildred. Corta. Em uma disputa entre dois motoristas, o carro preparado por Richard ganha a disputa. Ele comemora com Mildred e não se importa de destoar do grupo de negros sendo o único branco da turma. Do outro lado da pista, um grupo de brancos, que perdeu a disputa, olha torto para o casal. O preconceito contra eles mal começou a aparecer.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Loving): O que me atraiu neste filme foi a indicação dele ao Oscar de Melhor Atriz para Ruth Negga. Simpatizei com a atriz na entrega do Oscar e senti a necessidade de conferir o seu trabalho nesta produção.

Ruth Negga faz um belo trabalho em Loving, mas achei o desempenho dela tão bom quanto do ator Joel Edgerton, protagonista da produção também. O diretor Jeff Nichols, que também escreveu o roteiro de Loving, acertou a mão ao tentar contar a história o mais fiel possível com a realidade. Porque sim, este é mais um filme desta temporada do Oscar baseado em uma história real.

Diferente até do que tem sido cada vez mais recorrente no cinema de Hollywood, de filmes recheados de histórias fragmentadas e/ou com um bocado de flashbacks, Loving investe em uma história linear. Vejo que esta foi uma boa escolha de Nichols. Apenas senti falta, na história, de saber um pouco como o casal Mildred e Richard se conheceu. Faltou um pouco de romance, para o meu gosto.

Mas algo bacana do filme é o retrato bem realista dos personagens. Mildred era uma mulher simples, assim como Richard era um operário típico dos Estados Unidos. Os atores que os interpretam e o roteiro de Nichols conseguem construir muito bem estes perfis. No geral, Richard é um cara silencioso e muito trabalhador. Ele tem um olhar carregado de amor e de cuidado para Mildred. Ela, que acaba segundo as pontas em casa, se revela uma mulher com consciência racial e de justiça muito interessante.

O casal foi esperto em seguir a ordem judicial por um tempo, indo morar em Washington de favor. Mas quando um dos filhos dele sofre um acidente, Mildred resolve dar um basta para aquela rotina. Ela nunca quis deixar o interior, tipo de vida que ela sempre conheceu. E é assim que eles vivem diversos anos como foras-da-lei e se escondendo não muito longe de onde moram os pais dos protagonistas.

A minha única dúvida é se eles não sofreram mais hostilidades do que aquele episódio de uma “mensagem velada” que Richard recebe no carro dele. Especialmente quando o casal acaba aparecendo mais na imprensa, acho difícil eles não terem sido alvo de mais problemas. Mas o filme não mostrou isso, então há que se respeitar a escolha de Nichols, ainda que eu gostaria de ver ainda mais realidade na tela.

Sobre a história, Loving mostra de forma simples e honesta como a legislação nos Estados Unidos demorou para se libertar dos tempos de escravidão. É um absurdo pensar que duas pessoas simplesmente não poderiam ficar juntas por causa da cor de suas peles. Não tem o mínimo cabimento. Por isso mesmo é ultrajante o comportamento racista do delegado que prende o casal e que penaliza mais a mulher. Não apenas por ela ser mulher, mas especialmente por ser negra, e sem se importar se ela estava grávida – muito pelo contrário.

Impossível não achar aquela sequência absurda. A sorte é que o protagonista era um sujeito simples, mas controlado. Alguém um pouco mais “latino” teria perdido o controle e colocado tudo a perder. De qualquer forma, revoltante o tratamento dado a Mildred e também revoltante a condenação deles. Justamente por esta história precisar ser contada que eu dei a nota abaixo para o filme.

Sobre a interpretação de Ruth Negga, acho que ela se sai muito bem no papel principal. Ela não exagera na interpretação e faz uma entrega muito coerente e que passa legitimidade. Agora, ela merecia uma indicação como Melhor Atriz no Oscar? Francamente, acho que merecia mais que ela estar lá a atriz Amy Adams por seu excelente trabalho em Arrival (com crítica neste link). Mas, em um ano em que Emma Stone ganha a estatueta no lugar de Natalie Portman e Isabelle Huppert, não é possível exigir muita coerência da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, não é mesmo?

No geral, a história de Loving é importante e merece ser conhecida. Só que por não explorar tanto o romance entre os protagonistas ou mesmo a relação deles com outros personagens, a história acaba sendo um tanto burocrática demais. Mas, no geral, vale ser visto, especialmente em casa.

NOTA: 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Da parte técnica do filme, destaque para a direção de fotografia de Adam Stone e para a trilha sonora com bom resgate de época e bem pontual de David Wingo.

Além dos protagonistas já citados e que são os grandes responsáveis pela qualidade do filme, vale citar o bom trabalho dos coadjuvantes Chris Greene como Percy, o amigo mais próximo de Richard; Sharon Blackwood como Lola, mãe do protagonista; Christopher Mann como Theoliver, pai de Mildred; Marton Csokas como o sheriff Brooks; Bill Camp como o advogado Frank Beazley; David Jensen como o juiz Bazile; Jevin Crochrell e Brenan Young interpretam Sidney, primeiro filho do casal de protagonistas; Jordan Williams Jr. e Dalyn Cleckley interpretam Donald, o segundo filho deles; Georgia Crawford e Quinn McPherson interpretam Peggy, a caçula do casal; Nick Kroll interpreta ao advogado Bernie Cohen, figura fundamental na causa dos protagonistas; Jon Bass interpreta ao advogado Phil Hirschkop; e Michael Shannon faz uma ponta como o fotógrafo da Life Grey Villet.

Este é apenas o quinto filme dirigido por Jeff Nichols. Ele estreou em 2007 com Shotgun Stories e, no ano passado, lançou Midnight Special. O diretor de 38 anos de idade já tem 21 prêmios no currículo. Dirigido por ele, antes de Loving, eu assisti a Mud (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 185 críticas positivas e 23 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,6.

Loving teria custado cerca de US$ 9 milhões e faturado, apenas nos cinemas dos Estados Unidos, pouco mais de US$ 7,7 milhões. Ou seja, até o momento, o filme está dando prejuízo.

Este filme, que até o momento tem 21 prêmios, é uma coprodução do Reino Unido com os Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Uma história importante para a evolução dos Estados Unidos e que é contada de maneira muito franca e singela. Uma das qualidades do filme é que ele não exagera em suas tintas e nem no sentimentalismo. Loving conta a saga do casal que foi proibido de ficar junto e que conseguiu permanecer unido apesar da lei e de diversas pessoas serem contra. Boa história, com atores afinados, bela fotografia, Loving só não tem força para entrar na lista das produções inesquecíveis.

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Manifesto sobre um novo blog

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Boa noite, meus caros e estimados amigos e amigas deste blog.

Hoje, dia 28 de fevereiro de 2017, faltando exatamente seis meses para o blog Crítica (non)Sense da 7Arte completar 10 anos de existência, resolvo escrever e lançar um manifesto sobre um novo blog.

Para isso, gostaria de voltar um pouquinho nas origens deste espaço. Quando eu criei o blog eu estava morando fora do país e cursando um doutorado. Sentia a necessidade não apenas de voltar a escrever sobre cinema, algo que eu fazia antes como jornalista, mas também de experimentar aquela “novidade” dos blogs e da criação coletiva de conteúdos.

Pois bem, muito tempo passou desde então. Voltei para o Brasil, retornei a carreira de jornalista, e novas demandas surgiram no período. Mas não é apenas por isso que eu resolvi mudar este espaço.

Quando criei o blog, há nove anos e meio, a ideia dele era publicar algumas impressões sobre os filmes que eu ia assistindo, compartilhá-las em um ambiente aberto como a internet e interagir com as pessoas.

No início, vários leitores – espero que muitos deles ainda continuem visitando esta página – começaram a me incentivar a escrever mais. Isso porque os meus primeiros textos – e vocês podem confirmar isso acessando o primeiro mês de publicações – não eram tão extensos. Mas, com o tempo, e bastante por causa do incentivo dos leitores, fui fazendo textos cada vez mais longos.

Por causa disso, vocês podem imaginar, cada post com textos longos leva muito tempo para ser feito. Sinto hoje uma necessidade de rever isso. Também sinto a falta de conversar mais com vocês, de trocar mais ideias e de buscar filmes que vocês me indicam no caminho. Retomar a nossa interação.

Por tudo isso e porque realmente sinto a necessidade de dedicar mais tempo para outras atividades, inclusive seguir com a minha formação, resolvi rever as publicações do blog. Ah sim, e outra motivação para esta mudança é que eu pretendo publicar com mais frequência por aqui, procurando assistir a mais filmes, até para aproveitar os presentes do Cinespaço do Beiramar Shopping de Florianópolis e do Paradigma CineArte que me presentearam com cartões de fidelidade.

Desde o ano passado eu aproveitei pouco os cartões, mas quero corrigir isso neste ano em que o blog completa uma década. Assim sendo, a partir de agora eu vou publicar textos extensos apenas sobre filmes que peçam por isso.

Ou seja, na maioria das vezes eu vou publicar por aqui textos mais curtos, objetivos. Apenas grandes filmes ou produções que sejam um tanto “confusas” e que exijam textos maiores terão posts mais generosos. Espero que vocês entendam este manifesto e continuem visitando o blog. Assim como espero poder, pouco a pouco, colocar a conversa com todos vocês em dia.

A partir do próximo post vocês já vão acompanhar o blog com esta nova proposta. Espero que vocês gostem. Obrigada a cada um de vocês que visita este espaço e ajuda ele a seguir vivo. Um grande abraço e vida longa para o Crítica (non)Sense da 7Arte!