Aquarius

Resistir é preciso. É preciso resistir. Perdi o “timing” de assistir a Aquarius no cinema, mas como não vi nada de muito interessante estreando nesta semana nas telonas da terra brasilis, resolvi retornar no tempo e ver a esta produção tão falada e discutida. É um filme com uma pegada social interessante, ainda que ele pegue “leve” no assunto e não apresente toda aquela coragem que outras escolas de cinema tiveram e tem de abordar temas do gênero. No fim, Aquarius satisfaz ao público que está farto de absurdos e que precisa de ao menos uma vitória para comemorar.

A HISTÓRIA: Fotografias em preto e branco mostram uma cidade que não existe mais. Uma época em que no máximo um grande prédio jogava sombra sobre a praia. Mas o tempo passa, e os prédios se multiplicam na orla. As fotografias saem de cena e começa a primeira parte do filme, “O cabelo de Clara”. Em uma praia, um carro faz manobras enquanto quatro pessoas dentro se divertem. Uma delas é Clara (Barbara Colen), que apresenta uma nova música para o irmão, Antonio, e para as amigas.

Em seguida, eles vão para o apartamento de Clara, onde a família está celebrando a festa de aniversário de 70 anos da tia Lucia (Thaia Perez). O ano é 1980 e a história se passa no Recife. É lá que, décadas depois, Clara terá que enfrentar o risco de ter que deixar a própria casa porque uma construtora tem outros planos para o edifício Aquarius, onde ela, o marido e os filhos viveram grandes momentos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Aquarius): O mundo é cruel e é injusto. Isso é verdade. Quanto antes descobrimos isso, melhor. Ainda assim, há o outro lado da moeda também. O mundo é lindo e é cheio de pequenos milagres cotidianos. Quanto antes nos damos conta disso, menor o nosso risco de desânimo.

Aquarius fala sobre como o poder econômico pode massacrar vidas e sonhos. Histórias como a contada pelo filme são vistas Brasil afora todos os dias. E em outros países também. Construtoras fazem grandes projetos e não tem espaço para negociar com os desejos que não sejam comprados com muito dinheiro. O que eles não sabem é que nem todo mundo está à venda. E são estas mesmas empresas que mandam e desmandam na mídia, dizendo o que deve e o que não deve ser publicado nas páginas dos jornais.

Para tudo nesta vida há exceções, é claro. Há bons jornalistas no mundo e há aqueles que, como a protagonista deste filme, resistem ao massacre do dinheiro. Mas estes são cada vez mais raros, e o público, que não é bobo, percebe. Sim, Clara é vítima de uma grande construtora que só quer saber de construir mais um grande edifício e faturar muito dinheiro com isso. Todos os vizinhos dela são convencidos de saírem de casa e de aceitarem o acordo com a construtora, menos ela.

Claramente Aquarius se debruça sobre a beleza de resistir quando existem bons motivos para isso. Diferente do que alguns acusam clara, de egoísta, vejo que ela é uma mulher que passou por muitas coisas na vida e que agora, em sua fase madura, quer viver em paz na casa em que viveu grande parte da vida – ou a vida inteira, isso não fica totalmente claro na produção. O que sabemos, com certeza, é que foi naquele apartamento em que ela criou os filhos e no qual ela viveu grandes momentos da vida.

Ninguém deveria ter o direito de exigir que uma pessoa abandone o local no qual ela se sente em casa. Onde tem as suas raízes e onde construiu a sua própria noção de identidade. Mas a verdade é que isso foi feito, segue sendo feito e infelizmente ainda será feito com muitas e muitas pessoas neste país. Quem se importa com o que foi feito com os índios no Brasil – e que continua sendo feito? Ou com os quilombolas? Ou com tantas outras pessoas que foram retiradas de suas casas recebendo uma indenização baixa para que o “progresso” de uma obra de infraestrutura fosse construída?

Possivelmente a frequência com que pessoas são obrigadas a deixar as suas casas e as suas coleções de memórias e noção de “pertencimento” para trás seja diária neste imenso país. Infelizmente são poucos que conseguem resistir a isso. Aquarius foca não uma pessoa realmente explorada por uma situação destas, mas uma mulher bem formada, inteligente, relativamente “privilegiada” e que tem recursos para resistir ao que a maioria não tem condições.

Admito que isso me incomodou um pouco. Acho que para este filme ser realmente social, ele poderia ter focado tantos outros perfis de pessoas subjugadas pelo dinheiro. Não faltam exemplos no Brasil. Mas dá para entender a escolha do diretor e roteirista Kleber Mendonça Filho. No fim das contas, e vamos entender isso só no final, ele precisava de uma personagem que pudesse apresentar resistência de fato e, mais que isso, uma desforra que o público tanto anseia.

Por tudo isso, a grande revolução que este país há muito anseia e nunca vai alcançar – infelizmente – só aconteceria de uma maneira: com educação massiva de sua população. E quando falo educação, não estou me referindo ao básico, mas sim a uma educação inclusiva, de cidadania, humanista e que também daria as ferramentas para qualquer cidadão entender o básico das leis, de seus direitos e de como administrar a própria vida (incluindo aí as finanças). Porque se todos tivessem estas informações, e não apenas alguns “privilegiados” como Clara (na fase “atual” vivida por Sonia Braga), sem dúvida teríamos outro país.

Desta forma, achei Aquarius um tanto “leve”. Desde que a história de Clara se desenhou e vimos que a questão do interesse econômico da construtora seria algo determinante, francamente eu fiquei esperando o pior. A partir daí, pensei em várias ações que os inescrupulosos poderiam ter a respeito da “resistente” protagonista. No fim das contas e levando em conta o que vemos por aí, Clara até teve uma certa “sorte”.

No mundo real, infelizmente, executivos inescrupulosos tem atitudes até piores do que as tomadas por Diego (Humberto Carrão). Com isso, evidentemente, não estou defendendo ele. Pelo contrário. Mas achei que Kleber Mendonça Filho pegou leve nas ações e reações da história. Talvez porque, mais do que tratar de uma questão social, ele queria fazer uma homenagem para Sonia Braga. Dar um papel para a atriz que não tivesse apenas a crítica social, mas especialmente a reflexão sobre o amadurecimento, a passagem do tempo e as suas cobranças e liberdades. Neste ponto o filme funciona bem, ainda que seja um tanto previsível.

Este filme me fez lembrar de outro que trata sobre a noção de casa e de interesses econômicos/sociais prevalecendo sobre o interesse particular/individual. Para quem gostou de Aquarius, recomendo assistir ao francês Home (comentado por aqui). Para o meu gosto, um filme mais contundente e mais bem acabado que a produção brasileira tão comentada. Sem contar que sempre me lembro de outra produção brasileira que trata muito bem sobre a noção de lar e de pertencimento, que se chama Os Narradores de Javé – assisti ao filme antes de criar o blog, por isso não há uma crítica dele por aqui, mas super recomendo, ainda que eu ainda prefira Home. Mas dá para assistir aos dois sem problemas. 😉

Com isso, finalizo a crítica dizendo que sim, gostei de Aquarius, mas acho que o filme fez mais barulho do que deveria. Sim, Kleber Mendonça Filho tem todo o direito de ser panfletário e de ter as suas opiniões ouvidas e alabadas, mas acho que este filme ganhou mais cartaz do que ele receberia se apenas a produção e não todo o cenário político e panfletário fosse levado em conta. É um bom filme, bem realizado e com uma grande atriz como protagonista. Mas há filmes melhores que tratam do mesmo assunto.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: As críticas de Kleber Mendonça Filho e do elenco de Aquarius sobre o “golpe” realizado no Brasil – outra forma de encarar o impeachment de Dilma Rousseff – marcaram as opiniões sobre esta produção. O estilo de disputa Fla-Flu que dividiu o país sobre a questão Dilma Rousseff contaminou também as opiniões sobre Aquarius. Este debate voltou à tona quando os defensores do filme viram ele ser preterido por Pequeno Segredo (comentado aqui) para o Oscar.

No fim das contas, foi até bom eu ter assistido a Aquarius apenas agora. O clima de Fla-Flu já passou um pouco, e agora posso falar sobre esta produção sem ser influenciada por ele. Como eu disse antes, Kleber Mendonça Filho e as demais pessoas envolvidas neste projeto tem toda a liberdade e é assim que deve ser para terem a posição política que quiserem.

Vi este filme sem colocar as posições deles ou a minha em conta. Realmente avaliei a obra. Aquarius é um bom filme. Bem escrito, no geral, com alguns momentos muito bons, mas um tanto “suave” demais para o meu gosto. Assisti a outras obras sobre temas parecidos e que foram mais competentes na mensagem e na execução e sem terem feito tanto “barulho”. Por isso mesmo citei duas de várias que atendem a este meu comentário porque estas produções realmente merecem ser conferidas.

Sim, Aquarius tem uma história mais “original” que Pequeno Segredo. Coloquei original entre aspas porque a essência do que a produção nos conta, na verdade, já foi explorada por outras produções – de dentro e de fora do Brasil. É preciso assistir a mais filmes para ter esta contextualização melhor acabada. Pequeno Segredo tem uma história que pode ser entendida em qualquer parte e que trata de questões universais – família, acolhimento, amor, etc.

Aquarius também trata de temas universais, mas com um “sotaque” muito maior. Francamente, assim como Pequeno Segredo não teve chances no Oscar, acho que Aquarius também não teria. Ao menos em um ano como este, com grandes produções na disputa. Para ambos faltou um pouco mais de qualidade para realmente terem alguma chance mais forte na premiação de Hollywood.

A grande qualidade de Aquarius, sem dúvida, é a interpretação de Sonia Braga. Ela dá um show nos melhores momentos da produção – quando ela confronta Diego e diz para ele, com todas as letras, que ele ser abastado não significa que ele tem caráter e na sequência final da produção. Sem dúvida alguma Sonia Braga vale o ingresso. No mais, o roteiro de Kleber Mendonça Filho me pareceu bastante irregular. Tem alguns bons momentos, como os dois citados, em especial, mas tem também vários outros momentos de “vida ordinária” que pouco acrescentam para a produção, como várias sequências de Clara com os seus familiares – eu cortaria algumas cenas que parecem um tanto “penduricalhos”.

Para quem é jornalista, como eu, certamente a conversa de Clara com um colega de profissão é outro grande momento do filme. Ela está tentando descobrir um pouco mais sobre a construtora que está lhe aterrorizando, especialmente buscando mais informações sobre Diego, quando o colega comenta que a tal empresa tem muito “poder” no jornal e no mercado porque é uma grande anunciante. Ela fica atrás apenas dos recursos para publicidade do governo do Estado, do governo municipal e de uma construtora.

Momento muito interessante porque é isso realmente o que acontece em muitos e muitos jornais, onde os recursos públicos e de um punhado de empresas determina, muitas vezes, que cobertura estas publicações fazem ou poderão fazer sobre os acontecimentos locais. Infelizmente o interesse público, que deveria ser a principal preocupação de jornalistas e dos meios de comunicação, nestas situações é enterrado pelo poder econômico. Infelizmente.

Aquarius tem toda a sua narrativa focada em Clara. Tanto que os três “capítulos” da produção trabalham sobre três “temas” relacionados a ela. Primeiro, os cabelos de Clara. Depois, o amor e o câncer da protagonista. Cada um destes temas representa muito mais do que o sentido de cada palavra, é claro.

Uma “brincadeira” que ajuda o público também a pensar sobre a definição da personagem que, diferente do que muitos gostam de enxergar, como alguém colocado na caixinha “tia”, ou “mãe”, ou “privilegiada”, ou “mulher de meia idade avançando para a melhor idade”, é bem mais complexa do que qualquer caixinha destas. Pela narrativa ser concentrada na protagonista, claro que o filme é feito para Sonia Braga brilhar. E ela brilha. Está em um grande momento. Mas, além dela, vale comentar o bom trabalho de alguns coadjuvantes. A história mesmo dá mais espaço para poucos deles.

Deste grupo, destaco o bom trabalho de Humberto Carrão como Diego, o neto do dono da construtora Bonfim, Geraldo (Fernando Teixeira). Os dois interpretam com precisão pessoas da vida real com as mesmas características. Também se saem muito bem a atriz Zoraide Coleto, que interpreta a empregada de Clara, Ladjane; o ator Irandhir Santos, que interpreta o salva-vidas/bombeiro Roberval; Maeve Jinkings como Ana Paula, filha mais velha e um tanto “dinheirista” da protagonista; Buda Lira como Antonio, irmão de Clara; Paula de Renor como Fátima, mulher de Antonio e amiga de Clara; Daniel Porpino em um papel duplo como Adalberto, marido de Clara nos anos 1980, e como Rodrigo, um dos filhos do casal; Germano Melo como Martin, em uma ponta como o outro filho de Clara; Pedro Queiroz como Tomás, sobrinho que Clara considera como um filho; Carla Ribas como Cleide, amiga e advogada de Clara; e Julia Bernat como Julia, nova namorada de Tomás. Todos estão muito bem, ainda que muitos em papéis bastante pequenos, quase pontas.

Da parte técnica do filme, vale destacar a direção de fotografia de Pedro Sotero e de Fabricio Tadeu; a edição cuidadosa de Eduardo Serrano; o design de produção de Juliano Dornelles e de Thales Junqueira; e os figurinos de Rita Azevedo. Ah sim, e a trilha sonora é um elemento fundamental de Aquarius, praticamente um personagem da história. Palmas aí para os 10 profissionais envolvidos no Departamento de Música da produção.

Aquarius teria custado R$ 2,5 milhões. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de US$ 285,9 mil, ou seja, foi visto por poucos, mas a grande carreira da produção foi feita mesmo nos festivais mundo afora e no Brasil. Apenas no mercado interno o filme teria feito pouco mais de R$ 3,4 milhões.

Falando na carreira da produção em festivais, Aquarius ganhou 19 prêmios e foi indicado a outros 21. Entre os prêmios que conquistou, destaque para o de Melhor Atriz para Sonia Braga e o Prêmio Especial do Júri para Kleber Mendonça Filho no Festival Internacional de Cinema Latino de Biarritz, na Espanha; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Cartagena; para o de Melhor Filme dado pelo Círculo de Críticos de Cinema de Dublin; para o de Melhor Filme em Língua Estrangeira dado pelo Sindicato dos Críticos de Cinema Francês; para o de Melhor Filme no Fipresci Prize do Festival de Cinema de Havana; para o de Melhor Filme segundo a audiência e o de Melhor Atriz para Sônia Braga no Festival de Cinema Mar del Plata; para o de Melhor Filme no Festival de Cinema de Sydney; e para o “Directors to Watch” para Kleber Mendonça Filho no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Como a história mesmo sugere, Aquarius foi totalmente rodado na cidade de Recife, Pernambuco, cidade natal do diretor e local que ele costuma retratar em suas produções. Do diretor eu já tinha assistido ao bem elogiado O Som ao Redor (com crítica neste link).

A trilha sonora de Aquarius é outro ponto forte da produção. Um verdadeiro deleite para quem gosta de música brasileira e de outras latitudes. Entre outros nomes, há músicas de Taiguara, Queen, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Roberto Carlos e Heitor Villa-Lobos.

Aquarius é uma coprodução do Brasil e da França. Como há algum tempo vocês votaram aqui no blog pedindo alguns filmes realizados no Brasil, esta crítica atende a este pedido e entra na tag específica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 90 crítica positivas e apenas três negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 97% e uma nota média de 8,2. Este é um raro exemplo de filme brasileiro que consegue conquistar mais os críticos do que o público – e obtém uma nota maior do primeiro grupo do que do segundo.

CONCLUSÃO: Um filme necessário, assim como tantos outros do “novíssimo” cinema brasileiro. Aquarius fala sobre absurdos que acontecem no dia a dia de grandes cidades, pontos mais frágeis mas não únicos da exploração do capital sobre as pessoas. O diretor Kleber Mendonça Filho segue em sua levada de tratar das distorções sociais e tem alguns grandes momentos nesta produção.

Ainda assim, achei ela um tanto longa demais e um tanto “suave” demais na comparação com o que realmente acontece à nossa volta. Outros diretores, provavelmente fora do Brasil, seriam um pouco mais contundentes. Ainda assim, dá para entender a intenção do filme em dar um pouco de “prazer” para as audiências, tão carentes de histórias de desforra. Entendo tudo isso, mas esperava um pouco mais desta produção.