Rester Vertical – Staying Vertical – Na Vertical


 

 

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Eis um filme “muitcho dôido!”. Não que ele seja do tipo psicodélico, mas certamente Rester Vertical foi gerado em uma das seguintes situações: ou o diretor/roteirista estava em uma grande “viagem” regada a drogas ou álcool quando escreveu esta história ou ele vivia uma grande crise de criatividade. Digo isso porque o filme se debruça na vida de um roteirista que não consegue escrever e, para o passar o tempo, resolve dar em cima, fazer sexo ou flertar com quem aparece pela frente. Basicamente isso. No final, você se pergunta qual é a razão mesmo da história. E, aparentemente, ela não tem razão alguma. Ainda que o realizador diga que o sentido dela é realmente mexer com os rótulos. Neste sentido, até pode fazer algum sentido – se nos esforçarmos para achá-lo.

A HISTÓRIA: Em uma estrada estreita cercada de verde, no início de uma reta um jovem rapaz chama a atenção de Léo (Damien Bonnard). Em seguida, ele vê um velho sentado em uma cadeira. Na entrada da casa do velho, Léo dá a volta e retorna com o veículo para falar com Yoan (Basile Meilleurat). Ele pergunta se o jovem nunca pensou em fazer cinema. Yoan diz que não, e Léo insiste se ele não gostaria de fazer uma audição. O rapaz corta o papo e vai andando em direção à casa. O velho, Marcel (Christian Bouillette), cumprimenta Léo quando ele passa. Léo caminha pelos campos olhando por todas as partes. Em certo momento, ele encontra um rebanho de ovelhas e a pastora Marie (India Hair). Eles ficam juntos naquele dia e Léo conhece a família de Marie. A partir deste dia, Léo começa a migrar do interior para a cidade e vice-versa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Rester Vertical): Um filme que é uma grande massagem no ego de qualquer roteirista. Afinal, quem não gostaria de ficar perambulando pelo belo interior da França e volta e meia ir para a cidade ganhando dinheiro pela promessa de um trabalho que realmente não está sendo feito? Parece fácil, não é mesmo? De quebra, entre uma ida e outra vinda, o tal roteirista ainda pode ser considerado a “última bolacha do pacote” já que é praticamente desejado por todos que ele encontra no caminho – especialmente no interior.

Mas antes de falar sobre o que este filme realmente aborda – ou tenta tratar -, vamos falar um pouco sobre o começo de Rester Vertical. Não sei vocês, mas no início eu achei que o protagonista era um produtor e/ou diretor de cinema que estava em busca de novos lugares para filmar e de novos rostos/talentos para aparecer em cena em um filme qualquer. Seria interessante se fosse algo assim, porque seria possível para o diretor e roteirista Alain Guiraudie explorar um pouco mais o “fazer cinema”. Mas não.

O protagonista de Rester Vertical é um roteirista em “crise” – não sabemos o quanto esta crise é existencial ou de talento mesmo – que acaba revisitando o interior francês do qual ele tanto gosta. No início, ele parece interessado em absolutamente tudo. Parece sedento por qualquer tipo de inspiração. Algo interessante neste filme é que ele começa e termina com uma mesma “busca” do tal roteirista/protagonista. Ele quer encontrar um lobo de frente.

Esse lobo pode simbolizar muitas coisas. Para começar, os próprios medos de Léo. Depois, a necessidade dele de se manter sempre “ereto”, corajoso, capaz de enfrentar os próprios medos e o perigo que pode lhe cercar. É como se ele encarasse o perigo de frente e resolvesse vencê-lo com a sua própria bravura e sem mais recursos. O problema é que Léo tem uma visão romântica do lobo, assim como parece ter da própria vida. Sem uma entrega decente há algum tempo, sem posses, ele acha que pode apenas com a “cara e coragem” cuidar de uma criança e de si próprio.

Quando conhece Marie e ela lhe pergunta sobre a casa dele, Léo afirma que não tem casa e que vive entre hotéis e casa de amigos e conhecidos. Para quem tem uma boa conta bancária isso pode não ser problema. Mas não é o caso de Léo. Curioso que no filme inteiro nós não ficamos sabendo de nenhum amigo do roteirista. A única pessoa com quem ele fala, além daquelas do interior que ele fica conhecendo a partir do começo do filme, é o produtor que está esperando o tal roteiro que ele deveria estar escrevendo.

Além dele, que aparece lá pelas tantas no filme (interpretado por Sébastien Novac), vemos apenas a uma terapeuta, doutora Mirande (Laure Calamy). Todas as outras pessoas do entorno de Léo são aquelas que ele conhece no interior da França. Então cadê os tais amigos e conhecidos dele que o ajudam quando ele precisa? Parece que eles não existem. Léo parece ter uma visão romântica e/ou idealizada dos lobos da mesma forma com que ele tem esse tipo de visão da vida mesma. Ele acha que tudo vai se resolver por inércia e que basta ele insistir em cuidar do próprio filho – não importando se ele tem ou não condições práticas para isso.

Boa parte da história de Léo e de suas interações são meio “sem sentido”. Ele chega nas pessoas sempre com uma expressão de real interesse mas, ao mesmo tempo, ele não parece conseguir realmente se relacionar com ninguém em profundidade. Na primeira investida dele com Yoan achamos que ele estava dando uma cantada no garoto. Na sequência, ele logo fica com Marie. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, ele mostra um grande interesse por um morador de rua da cidade (interpretado por Tangi Belbeoc’h) e por Marcel. Ficamos nos perguntando se ele tem realmente interesse por todos que encontra, de forma despretensiosa, por ser boa gente e atencioso, ou se ele tem segundas intenções.

Talvez um dos sentidos do personagem do Léo nesta história seja nos perguntarmos realmente sobre isso. O quanto o nosso senso de autopreservação e de certa desconfiança das pessoas afeta o nosso olhar sobre elas? Yoan não tem dúvidas de que está recebendo uma cantada de Léo e, por isso, o rechaça do início ao fim. Marcel acredita que Léo tem uma inclinação homossexual e que deseja mais do que uma simples amizade. Lá pelas tantas, o quase sogro de Léo, Jean-Louis (Raphaël Thiéry), dá em cima do roteirista sem rodeios. Léo não cede à investida, não porque ele não queira, mas porque ele não se imagina transando com o avô do filho dele – pelo menos é desta forma com que ele se justifica.

Até pela cena final entre Léo e Marcel concluímos que o roteirista é bissexual. Quando fala do filho, em certo momento, ele comenta que até gosta do fato de Marie não gostar da criança – afinal, ele poderá cuidar do filho sozinho e sem o “inconveniente” de uma mulher. Parece que ele não é tão chegada em mulheres assim. Rester Vertical sugere que ele gosta mais da companhia de homens – de qualquer idade.

Algo que eu achei incrível nesta produção é como Léo faz as vezes do “super” homem sexual. Ele parece exalar sexualidade enquanto caminha. Afinal, ou ele transa com quem aparece pelo caminho (Marie e Marcel), ou dá em cima da pessoa (Yoan e, dependendo da leitura, do morador de rua) ou recebe cantadas dela (Jean-Louis). Para mim, pareceu uma grande desculpa de Alain Guiraudie para mostrar corpos nus, genitálias em close – eu nunca me imaginei vendo um parto natural, e fui obrigada a assistir a cena nesta produção – e uma ou outra cena de sexo.

O personagem de Léo é uma grande massagem no ego de qualquer roteirista – que queira, evidentemente, ser visto como um objeto constante de desejo. Para mim, Rester Vertical é uma grande “viagem” de um realizador que quer mostrar as suas próprias desventuras e/ou fantasias. Pouco além disso. Só não dei uma nota mais baixa para a produção porque, para mim, dá para tirar dela algumas pequenas leituras interessantes. Para começar, ela quebra alguns preconceitos. Os dois mais evidentes são de que nem toda mulher precisa querer ter três filhos e ser louca por eles – vide a falta de apego de Marie pelos filhos, especialmente o recém-nascido – e de que um homem pode sim, se tiver as habilidades e o interesse, cuidar sozinho de seu próprio filho.

Acho que muitas mulheres não querem ter filhos e, como Marie, se sentem “estranhas” – para dizer o mínimo – quando acabam fazendo o que parte da sociedade acha correto (conhecer um homem e ter um filho com ele). O resultado que vemos por aí, inclusive fora das telas do cinema, é que muitas mulheres não se sentem realmente amorosas ou realizadas com os filhos que tiveram para satisfazer a outras prerrogativas que não o próprio desejo sincero delas mesmas. Depois, achei interessante que Léo tinha um “espírito” de paizão, apesar de fugir deste estereótipo, e que ele faz questão de encarar o desafio de cuidar sozinho do filho que teve com Marie. Alguns homens são perfeitamente capazes de fazer isso.

O final do filme também me pareceu interessante. Digamos que “redimiu” um pouco do recheio “viajandão” da produção. Se pensarmos no final casado com o início da produção e com a “postura” de Léo com a vida, faz todo o sentido. Uma das mensagens que podemos tirar de Rester Vertical é que é preciso encarar os nossos “lobos” internos/externos com altivez, com a cabeça erguida e com coragem, sem demonstrar medo.

É como a própria história da humanidade, que venceu os seus predadores/inimigos com esta mesma postura. Sim, é preciso ter altivez para encarar todos os perigos, mas nunca podemos esquecer que, às vezes, esse perigo anda em matilha. Léo vive em uma fantasia quando acredita que basta se manter “ereto” para encarar não apenas um, mas vários lobos. Ele está perdido, e logo vai descobrir sobre isso. Para sobrevivermos, precisamos mais do que altivez e coragem. É necessário inteligência para conhecer o perigo e os inimigos, humildade para conhecer os seus próprios limites e estratégia para resolver os conflitos da melhor forma possível. O protagonista desta produção, infelizmente, sabe pouco sobre tudo isso.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Existe uma mensagem curiosa neste filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Uma possibilidade de leitura do que Alain Guiraudie nos apresenta é aquela velha história de que “todos são gays ou, se ainda não são, um dia vão descobrir que podem vir a ser”. Pelo menos é isso o que parece estar sugerido nos comportamentos de Yoan, Jean-Louis e Marcel. Os dois últimos foram casados, o primeiro teve uma filha, mas ambos acabam buscando Léo como parceiro sexual.

Yoan não cede às cantadas do roteirista, mas Marcel vive o chamando de “bichinha” e dizendo que ele foi atrás de “paus maiores”. Ainda que ele se relacione com Marie no final, ficamos em dúvida realmente se Yoan era, a exemplo de Léo, bissexual ou não – e mesmo Léo, ao invés de ser bi, poderia ser um homossexual que resolve “encarar” Marie para ter um filho, apenas. Acho sim que muitas pessoas são homossexuais ou bissexuais – e verdade que várias delas “escondem” isso -, mas a generalização de Rester Vertical me pareceu, a exemplo do protagonista, um tanto “romântica” e/ou inocente demais. Um tanto pueril. O mundo tem mais matizes do que apenas estas cores e há sim muita gente que não tem toda esta “inclinação” de “experimentar” em algum momento da vida. Nem todos encarariam o “Léo última bolacha do pacote”.

Para o meu gosto, o roteiro de Rester Vertical é o ponto fraco da produção. O início e o fim me pareceram mais interessante que o miolo. Parece que, a exemplo do personagem de Léo, Alain Guiraudie também passou por uma “crise criativa” e não sabia muito bem o que fazer com a história. Acho que a história de Rester Vertical derrapa aqui e ali até engrenar perto do final. A direção de Guiraudie também me pareceu regular, procurando valorizar o trabalho dos atores, mas com alguma sequências um tanto desleixadas – como quando Léo caminha pelos campos ou em algumas sequências nos veículos que aparecem em cena.

Entre os atores em cena, o destaque vai mesmo para Damien Bonnard. Ele faz um bom trabalho dentro do perfil que foi construído para o personagem dele. Convence com o seu olhar atencioso e sensível. Uma bela interpretação. Os outros atores em cena me pareceram em um nível um pouco inferior. Alguns, um tanto amadores. Os que tem destaque na produção “giram em torno” de Léo, com maior importância para India Hair, Christian Bouillette, Raphaël Thiéry e Basile Meilleurat – nesta ordem de relevância. Fora Damien Bonnard, nenhum grande destaque – talvez para Christian Bouillette.

Entre os aspectos técnicos do filme, destaco a direção de fotografia de Claire Mathon, que sabe valorizar bem o interior francês; a edição de Jean-Christophe Hym; e o design de produção de Toma Baqueni.

Rester Vertical estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois, o filme passou por outros 22 festivais em diferentes países. Nesta trajetória, a produção conquistou quatro prêmios e foi indicada a outros oito. Os prêmios que recebeu foram o de Melhor Filme dado no International Cinephile Society Awards; de Ator Mais Promissor para Damien Bonnard no Prêmio Lumiere; Melhor Filme Não-USA no Online Film Critics Society Awards; e Melhor Diretor para Alain Guiraudie no Festival de Cinema Europeu de Sevilha.

Esta produção, 100% francesa, foi totalmente rodada na França. Entre os locais das filmagens estão Marais Poitevin, Brest, Causse Méjean, Sévérac-le-Château e Coulon. Cito as cidades caso alguém queira fazer um tour pelo interior francês. 😉

Procurei saber mais sobre Alain Guiraudie já que este filme me pareceu realmente diferenciado. Podemos gostar ou não do que vemos em cena, mas algo é inegável: o diretor tem estilo. Procurando, encontrei este texto interessante de Eric Kohn, da IndieWire. Kohn comenta como, em quase 30 anos, Guiraudie desenvolveu uma filmografia “ousada e transgressora” sobre as dificuldades para a definição da identidade sexual moderna. Apesar deste tempo todo de desenvolvimento desta linha de cinema, Guiraudie recebeu mais atenção quando ganhou o prêmio de Melhor Diretor em Cannes pelo filme Stranger by the Lake.

Na avaliação de Kohn, com toda a visibilidade que teve por causa de Stranger by the Lake, Guiraudie poderia ter feito um filme mais “mainstream” na sequência mas, ao invés disso, ele apresentou uma produção ainda mais audacioso – se referindo a Rester Vertical. No texto da IndieWire é citado que Guiraudie quis fazer com Rester Vertical uma mistura de “David Lynch com Luis Buñuel” – ele não é nada modesto, não? Sobre o personagem de Léo, o diretor afirma que foi proposital a ambiguidade da definição dele na história: “Você realmente não sabe se Léo é homossexual, bissexual ou heterossexual”. Guiraudie comenta que um rótulo ou outro não se aplica ao personagem em Rester Vertical – diferente dos personagens gays de Stranger by the Lake.

Guiraudie afirma que gosta de jogar com a realidade misturada com o sonho – pensando desta forma, fica um pouco mais fácil entender as “viagens” de Rester Vertical. O diretor também comentou que vê o seu futuro na “comédia de humor negro”. Apesar do meu primeiro contato com o trabalho dele não ter sido altamente satisfatório, acho que vale acompanhar o diretor em suas próximas peripécias. Afinal, fazer algo que desagrade a vários, mas com um pouco de talento, sempre pode valer a experiência. Vejamos o que virá por aí na sequência.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 29 críticas positivas e 12 negativas para Rester Vertical – o que lhe dá uma aprovação de 71% e uma nota média de 6,1. Minha avaliação coincide um pouco com ambos – inicialmente eu dei 6 para o filme e, depois de avaliá-lo melhor, cheguei ao 6,5. Realmente é por aí.

CONCLUSÃO: Um filme meio que sem pé e sem cabeça. Rester Vertical parece uma grande desculpa para o diretor e roteirista Alain Guiraudie mostrar corpos nus, genitálias e uma e outra cena de sexo. No mais, temos algumas cenas bucólicas do interior, cenas esparsas na cidade e diversas sequências aparentemente sem sentido aqui e ali. O protagonista desta produção parece um cara sensível, atencioso, mas na verdade ele está um bocado perdido. Assim como o filme. Para o meu gosto, Rester Vertical é um filme um tanto pretensioso, um tanto esquisito. Preferia ter apostado as fichas em outro filme.

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