Mal de Pierres – From the Land of the Moon – Um Instante de Amor


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Algumas vezes o mais difícil é deixar-se amar. Mal de Pierres nos apresenta uma história contundente que versa sobre sanidade e loucura, amar e ser amado, vigilar e cuidar, conhecer ao outro e a si mesmo. É preciso coragem para ver o mundo como se quer, mesmo que isso seja uma loucura. Mas a maior coragem de todas é ver o mundo como ele é e (apesar ou por causa disso) realmente interessar-se pelos outros que nos rodeiam. Um filme interessante, envolvente, que vai se descortinando aos poucos na nossa frente.

A HISTÓRIA: Em um carro, Gabrielle (Marion Cotillard) organiza os lenços bordados à mão. Tira algumas comidas que ela preparou e dá para o filho, Marc (Victor Quilichini), e para o marido, José Rabascal (Alex Brendemühl). Eles estão viajando pelo interior da França com destino a Lyon, onde Marc fará uma audição em um conservatório. No caminho, Gabrielle coloca uma música clássica no rádio, mas o filho diz que aquele não é o momento. Eles chegam à noite no hotel e, no dia seguinte, seguem para a audição.

No caminho, o taxista tem que parar porque um vidraceiro está entregando uma encomenda. Quando eles finalmente conseguem avançar, Gabrielle pede para eles pararem quando ela vê o nome da Rua Commines. Ela corre até um prédio e vê um sobrenome familiar entre os proprietários: Sr. Sauvage. A partir daí conhecemos a história desta mulher e o porquê dela ter se emocionado tanto por ter encontrado aquele nome no prédio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importante do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mal de Pierres): Gosto de filmes que vão se apresentando aos poucos depois de nos fisgarem com uma isca certeira. Isso acontece com Mal de Pierres. Esta produção inicia a sua jornada nos mostrando uma Gabrielle aparentemente controlada, uma mãe e esposa atenciosa, “normal”, que apenas tem um rompante ao ver ao nome de uma rua que lhe é familiar. Na sequência, como tantos outros filmes, a história volta para o passado para contar mais sobre Gabrielle e sobre as razões da Rua Commines mexer daquela forma com ela.

A partir daí o filme percorre uma narrativa linear. Ainda que esta forma de tratar uma história seja bem conhecida, a forma com que o roteiro de Nicole Garcia e Jacques Fieschi, que tiveram a colaboração de Natalie Carter, é construído, como se fosse cheio de camadas que vão sendo apresentadas aos poucos, faz o espectador ficar interessado por cada nova “fase” da história.

Retomamos a história de Gabrielle em um momento específico. Como o filme começa mostrando ela com marido e filho, Mal de Pierres começa justamente na fase um pouco anterior a ela ficar comprometida com José Rabascal. Daí percebemos que ela não era “muito certa”, ao menos para os padrões da comunidade em que ela vivia e segundo a ótica da família dela. E aí o filme abre uma frente interessante sobre o que é ser “certo” ou ser “errado”.

A volta para o passado nos mostra como Gabrielle era fascinada, obcecada, possivelmente até o ponto do descontrole, pelo professor Jean Claude Tauran (Arthur Igual), que era casado e que tinha uma mulher grávida. Jean Claude não dá bola para os “delírios” apaixonados de Gabrielle, e ela sofre com a rejeição. Claramente a garota tem um desejo sexual considerável, com muitas fantasias eróticas e uma vontade enorme de se jogar em um amor romântico que lhe satisfaça todos os seus desejos e fantasias.

Preocupada com a filha, Adèle (Brigitte Roüan) percebe o olhar interessado de José Rabascal para Gabrielle e corre para tentar “arranjar” que os dois fiquem juntos. Rabascal diz que não tem nada – posses ou recursos – para oferecer por Gabrielle ou para dar segurança para os dois, mas Adèle diz que ele tem uma profissão (ele é pedreiro) e que isso será o suficiente para a nova família dar certo. Adèle também afirma que, diferente do que outros comentam, Gabrielle não é louca.

Bem, conforme a história vai se desenrolando, fica a critério do público “medir” o quanto ela é louca ou não. Mal de Pierres acaba questionando a nossa noção de loucura. Afinal, o que é ser louco? Claro que Gabrielle não tem um comportamento “usual”. Ela tem muitos rompantes e parece só fazer o que lhe dá na telha. Isso surpreende e choca as pessoas, como hoje em dia muitos se sentem incomodados com quem pensa diferente.

A verdade é que Gabrielle é uma garota cheia de desejos e que não costuma se deixar levar pelo que os outros querem ou exigem dela. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Assim, ela até se “deixa” casar com Rabascal, mas afirma que não vai ter relações com ele. De fato eles se casam desta forma e ficam nesta situação por muito tempo. Com isso, descobrimos muito sobre Rabascal. Outro homem teria agido de forma muito pior e radical, mas ele realmente gosta de Gabrielle e sabe respeitar a postura e a posição da mulher.

Gabrielle acaba cedendo, após um longo período, e abre espaço para ter relações com o marido. Mas ela deixa claro que não gosta dele, de verdade, e parece resistir o quanto pode para gostar dele. Quando finalmente é diagnosticada da forma correta – ela tem pedra nos rins, o “mal de pierres” do título -, Gabrielle é internada para receber um tratamento que vai livrá-la daquele sofrimento. Afinal, Rabascal quer um filho, e para que uma gravidez consiga chegar ao fim, Gabrielle precisa tratar o “mal de pierres”.

Inicialmente a protagonista resiste – parece que ela tem medo de enfrentar qualquer mudança em sua vida. Gabrielle está acostumada a sofrer, a ter aquelas crises horríveis de muita dor. Pensar em acabar com aquilo e de ter mais uma grande mudança na vida, que seria ter um filho, a aterroriza. O marido, diferente da família dela, que sempre achou que aquelas dores fossem “fantasias” da garota, não tem dúvidas de que ela deve ser tratada. Desta forma Gabrielle vai para um local remoto onde fica por seis semanas e onde conhece o seu novo “amor”, o tenente André Sauvage (Louis Garrel).

Enquanto está no tratamento, Gabrielle faz amizade com Agostine (Aloïse Sauvage) e perambula por todos os lugares interessada por tudo e por todos. Nestas andanças, contudo, ela fica fascinada mesmo por Sauvage. Como aconteceu com Jean Claude, ela fica fascinada pelo intelecto e pelos conhecimentos de Sauvage. Se apaixona e fantasia um grande amor com ele apenas porque vive de “amor romântico”, aquele tipo de encanto que foge do realismo/da realidade. Não interessa para Gabrielle realmente como são as pessoas pelas quais ela está apaixonada. Ela fantasia e cria em sua cabeça os amores perfeitos que ela imagina que a vão levar de sua vida “medíocre” para uma realidade de êxtase constante.

Realmente alguém que vive deste tipo de amor pode ficar louco(a). Isso acontece com Gabrielle, até que ela tem que se “conformar” com Rabascal quando Sauvage não lhe responde a nenhuma de suas cartas. A partir do nascimento do filho, Marc (interpretado por Ange Black-Bereyziat e por Victor Quilichini), e da vida com Rabascal, Gabrielle parece começar a ter mais contato com a realidade, deixa de fantasiar amores impossíveis e, finalmente, se sente um pouco realizada e aparenta maior normalidade. Ela passa a amar e deixa, um pouco ao menos, que a amem.

Até aí, o filme parece um bocado “normal”, com uma narrativa bem conduzida e ótimas atuações. Mas aí a diretora Nicole Garcia nos presenteia com uma reviravolta interessante perto do final. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Gabrielle descobre, assim como quem assiste à sua história, de que não houve nenhum grande romance entre ela e Sauvage. Realmente quando ele é levado da clínica onde eles se conheceram, ele não retorna mais. O grande arrebatamento entre os dois faz parte apenas das fantasias de uma Gabrielle que tem dificuldade de viver o amor real e que precisava, no fundo, de um tratamento psicológico além do que buscava a livrar das pedras nos rins.

Bem na reta final da produção Gabrielle descobre toda a verdade e, finalmente, consegue olhar com atenção para Rabascal. Ele sempre a amou e aceitou todos os delírios e inconstâncias da mulher enquanto ela não lhe dava amor porque ele não era um “intelectual”. Rabascal era um espanhol que fugiu de seu país por causa da guerra. Era um sujeito simples, trabalhador, muito diferente do ideal de romance de Gabrielle. Mas no final ela aprende a admirar o marido, a olhar para ele sem fantasias, mas com carinho e amor. Ela finalmente deixa ele a amar de verdade e, consequentemente, consegue entregar para ele o seu amor. Um belo final para um filme com algumas camadas muito interessantes.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta não é uma produção brilhante. Daquelas que quando nos pedem uma indicação de um grande filme, o nome da produção logo nos vem à mente. Mas desta última safra de filmes em cartaz nos cinemas, sem dúvida, Mal de Pierres é um dos títulos que vale conferir e indicar. Especialmente se você gosta de produções sobre o gênero humano e as relações entre pessoas e sociedade. Porque esta produção fala de amor, de expectativas, de aceitação e de autodescoberta. Uma produção simples, mas muito honesta e sensível. Vale conferir.

Além de um roteiro bem construído, baseado na obra de Milena Agus, Mal de Pierres tem uma direção cuidadosa e bem planejada de Nicole Garcia. Ela consegue valorizar as ótimas interpretações de seu elenco, especialmente de Marion Cotillard, ao mesmo tempo em que valoriza as belíssimas paisagens francesas e os entornos onde Gabrielle cresceu e onde foi viver após casar com Rabascal. Com olhar atento aos detalhes, Nicole Garcia nos apresenta um filme interessante e que tem diversos grandes momentos de construção dramática que fisga o espectador e o mantém atento o tempo todo.

Marion Cotillard… o que dizer sobre ela? Sempre gostei da atriz. Para mim, é uma das grandes de sua geração na França. Neste filme ela mostrar todo o seu talento com uma personagem que lhe ajuda a dar um show. Gabrielle tem diversos rompantes, caprichos e uma mudança durante a história realmente interessante. Elementos perfeitos para uma grande atriz como Marion Cotillard dar um show. Sem dúvida alguma este é um de seus grandes trabalhos. A atriz se entregou à personagem como poucas conseguiriam e isso faz o filme ter a verdade que ele tem.

Além de Marion Cotillard, que é, de longe, o grande destaque da produção, vale também comentar alguns outros trabalhos muito, muito bons. Junto com Marion, o destaque desta produção é Alex Brendemühl. O personagem dele é do tipo “quieto”, mas ele tem uma presença marcante em cena. Passa, a exemplo de Cotillard, muita verdade em cada gesto e em cada palavra que fala. Além dele, vale comentar o bom trabalho de Louis Garrel como André Sauvage; de Brigitte Roüan como a mãe de Gabrielle; e de Aloïse Sauvage como Agostine, uma das funcionárias do spa e que se torna amiga de Gabrielle.

Outros atores que tem um certo destaque nesta produção, apesar do trabalho deles realmente não ser de grande destaque, são Victorie Du Bois como Jeannine, irmã de Gabrielle; Daniel Para como Martin, pai de Gabrielle e de Jeannine; Ange Black-Bereyziat e Victor Quilichini como os filhos de Gabrielle aos sete e aos 14 anos, respectivamente; e Arthur Igual como o professor Jean Claude.

O filme tem uma série de qualidades técnicas. Para começar, a excelente e linda direção de fotografia de Christophe Beaucarne. Depois, a marcante e bastante expressiva trilha sonora clássica de Daniel Pemberton. Também vale comentar a boa edição de Simon Jacquet; o design de produção de Arnaud de Moleron; a direção de arte de Sandrine Jarron; a decoração de set de Cécile Deleu; e os figurinos de Catherine Leterrier.

Mal de Pierres estreou no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2016. Depois, o filme passou por outros sete festivais em diversos países. Nesta trajetória a produção acumulou 13 indicações a prêmios, mas não conseguiu emplacar em nenhum lugar.

Agora, algumas curiosidades sobre a produção. Mal de Pierres foi aplaudido durante sete minutos no final de sua exibição no Festival de Cannes. Realmente, o filme impressiona. Por todas as suas qualidades e por sua proposta interessante de discussão de diversos temas.

Como eu comentei antes, o título original em francês, “Mal de Pierres”, teria uma tradução simples de “mal das pedras”. Ele faz referência às “pedras nos rins” que é a doença que a protagonista da produção tem. Já o título que o filme recebeu nos Estados Unidos, “From the Land of the Moon”, que traduzindo de forma simples significa “vinda do mundo da lua”, é inspirado em um trecho do romance que inspirou esta produção e que afirma que “durante toda a vida tinham dito dela que ela era como alguém vindo do mundo da lua” – referindo-se à Gabrielle.

No romance que inspirou este filme, aliás, a história se desenvolve toda na Sardenha, região conhecida da Itália. No filme, contudo, grande parte da produção se passa na cidade costeira francesa de La Ciotat, em Provence e em Lyon, ambos na França, e nos Alpes suíços (parte do tratamento da protagonista). Interessante saber que a história original se passa na Itália e não na França porque realmente existem muitos trechos que nos remetem muito à Itália. Um exemplo é o casamento de Gabrielle e José Rabascal.

Esta produção marca a volta de Marion Cotillard para o cinema francês após quatro anos – o primeiro filme dela feito na França após De Rouille et D’Os.

Nicole Garcia tem uma longa carreira como atriz, com nada menos que 84 trabalhos no currículo, mas nos últimos 30 anos ela uma vez ou outra se aventura na direção também. O trabalho dela de estreia nesta função foi com o curta 15 Août, em 1986. O primeiro longa veio em 1990, Un Week-End Sur Deux. Desde 2002 ela teve três longas indicados à Palma de Ouro em Cannes, mas nunca ganhou o prêmio – ao menos até agora. Os prêmios que ela recebeu, até o momento, foram todos como atriz.

Mal de Pierres foi rodado na cidade suíça de Davos; nas cidades francesas de Lyon, Provence-Alpes-Côte d’Azur, Valensole, Puimoisson, Brunet, Céreste, Aix-les-Bains, Moustiers-Sainte-Marie, La Ciotat, Lourmarin e Paris; e na cidade de Villaluenga del Rosario, em Cádiz, na Espanha (cena final). Um filme bem “viajado”, pois. 😉

Este filme é uma coprodução da França, da Bélgica e do Canadá.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 19 críticas negativas e apenas oito positivas para o filme, fazendo com que Mal de Pierres tivesse um nível de aprovação de apenas 30%. A nota média dada para a produção segundo o Rotten Tomatoes foi de 4,5. Normalmente eu não assisto a um filme que receba nota tão baixa deste site, mas admito que eu quis assistir a Mal de Pierres por causa de Marion Cotillard. E não me arrependo.

CONCLUSÃO: Um grande trabalho da atriz Marion Cotillard. Me arrisco a dizer que este é um de seus melhores trabalhos. A atriz vive com muita vontade e esmero uma personagem complexa e interessante. Mal de Pierres é um filme que nos mostra, com uma narrativa muito bem pensada, como todos tem o direito de amar e de ser amados. Mesmo aqueles que são considerados “incapazes” de fazer isso – ou, na maioria das vezes, aqueles que são incompreendidos. Com um roteiro envolvente e que sabe surpreender no momento mais adequado, Mal de Pierres se revela uma bela surpresa. Vale conferir pelo roteiro, por Marion Cotillard e pelo seu interessante parceiro de cena, o ator Alex Brendemühl.

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