Atonement – Desejo e Reparação

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O Oscar não é, nem de longe, o melhor critério para se escolher um filme. Como qualquer prêmio de “indústria”, ele segue interesses comerciais e leva muito mais em conta o dinheiro e os interesses de seus “gestores” do que a qualidade dos filmes em si. Ainda assim, volta e meia a premiação mais badalada do cinema no mundo acerta ao premiar realmente filmes que são bons. Por tudo isso é que eu sim me interesso pelo Oscar. Seja para descobrir filmes bons ou para discordar desse “mundinho dinheirista” dos grandes estúdios. Além do fato que ele é um espelho do que outros querem que a gente compre – e é sempre interessante estudar o que os outros querem que a gente ache interessante. Eles acertam. Eles erram. Como nós, eu acredito.

Mas toda essa introdução para dizer que cheguei com muitas expectativas para ver a esse Atonement. Afinal, para muitos críticos de cinema, esse filme é o grande favorito para o próximo Oscar junto com No Country for Old Men e American Gangster. Fiquei muito curiosa, sendo assim, para vê-lo. Admito que gostei do filme, mas que ele fica milhas e milhas distante de American Gangster, na minha opinião. É um filme bacana e tal, nada mais. Realmente não enxerguei nele as qualidades que estão fazendo tantos críticos baixar a cabeça em sinal de reverência.

A HISTÓRIA: Briony Tallis (Saoirse Ronan) é uma garota de 13 anos na Inglaterra de 1935. Ela vive confortavelmente em uma casa gigantesca e prepara uma peça de teatro para ser apresentada em homenagem a chegada do irmão, Leon Tallis (Patrick Kennedy). Enquanto se esforça para terminar a peça e conseguir a atenção dos convidados da família – os gêmeos Pierrot (Felix von Simson) e Jackson (Charlie von Simson), mais a irmã deles, Lola Quincey (Juno Temple) – para ensaiá-la, Briony descobre um possível jogo de atração entre a sua irmã Cecilia (a inglesa Keira Knightley) e o filho do antigo empregado da família, Robbie Turner (o escocês James McAvoy). Apaixonada por Robbie, Briony será injusta com ele acusando-o fasalmente de abusar de Lola, afastando ele da irmã.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Atonement): O filme me fez pensar muito em histórias de época, ao estilo de Razão e Sensibilidade, de Jane Austen, e de outros livros desta escritora inglesa. Claro que, como digo no resumo de Atonement, o filme se passa nos anos anteriores ao começo da Segunda Guerra Mundial e não na Inglaterra do século 18, mas no filme que muitos críticos colocam na lista certeira para o Oscar 2008 se percebe vários elementos de uma história já vista anteriormente. Em especial a questão do abismo entre as classes sociais – ou seja: não interessa quem você é, mas em que berço você nasceu. Essa questão está muito presente no filme, desde o começo, na relação de todos com Robbie e vice-versa. E, claro, o amor entre Robbie e Cecilia afronta uma “ordem” das coisas que é impossível de ser afrontada, ainda que falemos de uma Inglaterra nos anos 30. Acho, na verdade, que mesmo na Inglaterra atual isso é meio inconcebível. E se o problema não é apenas a classe social, entra em jogo outras questões, como raça ou credo.

Mas Atonement parece “mais do mesmo” se for visto apenas por essa ótica. Realmente o filme parece, boa parte do tempo, mais do mesmo… mais uma história de romance proibido que é descoberta (ou quase) e termina mal, dois amantes que são impedidos de se amarem, etc. O bom é que o filme não é só isso. Ele também pode ser visto por uma outra ótica, mais visível depois que se assiste ele quase todo… a ótica de que as histórias e a realidade são percebidas de várias formas. Ou você nunca ouviu que uma história tem sempre dois lados? Eu, por minha parte, sempre digo que uma história não tem apenas dois lados, mas muitos lados. E aí está o desafio do jornalismo em tentar contar alguma história, sabendo sempre que deve escutar vários lados para tentar ser, desta maneira, menos incompleto e injusto – no sentido de não dar voz aos vários ângulos de uma questão.

Sem perder o fio da meada (mas quase): Atonement é interessante no final, quando nos revela não apenas a verdade sobre o que aconteceu com Lola – algo que já se pode deduzir e saber muito antes (eu, pelo menos, já sabia) -, mas, principalmente, nos revela o que Briony queria que fosse verdade e que tivesse acontecido ainda que, neste caso, não passou de criação literária. No fundo, a reflexão final é interessante: afinal, como lidar com uma culpa como a que ela carrega? Talvez a saída seja realmente fantasiar, como ela fez ao princípio, quando tinha 13 anos. O que separa a Briony de 13 anos da Briony prestes a esquecer quem é (a sempre maravilhosa Vanessa Redgrave) é nada mais que criação e arrependimento. Mas algo que une as duas é a fantasia, a criatividade, o gosto pela arte e pelo belo, a vontade de ter presenciado uma realidade diferente.

O que moveu a Briony de 13 anos a fazer o que fez pode dividir opiniões. Para mim, no fundo ela foi movida por egoísmo e inveja, mas para outros ela pode ter sido realmente inocente e ter entendido tudo errado. Independente, ela tomou uma atitude que mudou a vida de duas pessoas definitivamente. E o bonito da história é que a sua imaginação posterior, ao contar o que poderia ter acontecido com Cecilia e com Robbie depois que ele foi preso e mandado para a guerra, fez possível uma das realidades possíveis. E se ela não existiu, se não ocorreu de verdade, mas pelo menos em uma certa imaginação e em um certo sentido de fantasia sim que foi viável. Esse ponto do filme, da fantasia em primeiro plano, é o que salva ele de ser apenas um filme mediano. É uma maneira interessante de refletir sobre o que entendemos como realidade e sobre o que queremos com a fantasia. Ainda que tenha esse ponto interessante, o filme está longe de ser excepcional.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Algo que me impressionou no filme é a atenção aos detalhes. Gostei muito, e em especial, da trilha sonora. Para mim, o trabalho do italiano Dario Marianelli na trilha sonora é excepcional – e digno de Oscar (curiosidade: ele também fez a trilha de The Brave One, outro trabalho interessante dele). Aliás, ele foi indicado ao Oscar antes – quem sabe agora ele leva! O cuidado com a direção de fotografia também é muito bom – créditos para o irlandês Seamus McGarvey – merecedor de Oscar também. O roteiro achei competente, especialmente pelas interessantes e instigantes quebras que ele tem, um pouco que tornando tudo um pouco mais “fantasioso”. No conjunto o filme funciona bem, ainda que todas as qualidades técnicas e de elenco parecem estar esperando uma história melhor – hehehehehehe, agora eu fui má!

Falando em história, Atonement tem roteiro do português Christopher Hampton (que ganhou o Oscar pelo filme Ligações Perigosas, de Stephen Frears) mas é uma adaptação da obra do inglês Ian McEwan. Por isso ele talvez tenha essa cara de “novelão”, de literatura mesmo. O diretor inglês Joe Wright faz um trabalho competente, assim como os atores principais – especialmente James McAvoy e Keira Knightley, muito carismáticos nos seus papéis. Falando em Wright… o diretor inglês dirigiu antes a Pride & Prejudice, filme de 2005 estrelado por Keira Knightley e baseado na obra homônima de Jane Austen. É, realmente eu acho que ele é chegado em temas do gênero.

Mas não sei, devo admitir que ao assitir ao filme ficou com aquela sensação de “falta algo”, de “quero mais, mas melhor”. Talvez também porque estava sempre pensando nele como o concorrente do American Gangster – ao qual, eu continuo dizendo, eu rendo homenagens. E, ao meu ver, American Gangsters continua sem concorrentes – se o Oscar for justo, é claro.

Uma curiosidade: o diretor Anthony Minghella faz uma “participação especial” no filme como o entrevistador da escritora Briony velhinha. Interessante.

No site IMDb o filme tem a nota 8,2, enquanto no Rotten Tomatoes ele contabiliza 28 críticas positivas e 3 negativas.

Atonement teria custado US$ 35 milhões. Uma curiosidade: o filme estréia essa semana no circuito comercial dos Estados Unidos, mas passou antes nos cinemas de Emirados Árabes (!!), Turquia, Nova Zelândia, Itália, Finlândia e Inglaterra.

No Brasil o filme estréia em 15 de fevereiro – ainda que tenha sido exibido antes no Festival do Rio em 2 de outubro. Aliás, falando em festivais, Atonement marcou presença em vários deles até agora, incluindo os de Veneza, Toronto, Helsinki, DaKino (na Romênia), entre outros.

O filme é uma co-produção da Inglaterra e da França.

PALPITE PARA O OSCAR: O filme deve receber várias indicações, especialmente em trilha sonora, fotografia e roteiro adaptado. Pode receber também a indicação para melhor filme – segundo os críticos, mais do que pelo que eu acho que ele mereça – e para diretor. Ainda assim, realmente acho que ele não tem chances de ganhar nenhum grande prêmio, especialmente frente a American Gangster.

CONCLUSÃO: Um filme bem feito, bem dirigido e com vários elementos interessantes na narrativa, ainda que pareça ser “mais do mesmo”, que pareça contar mais uma história do abismo entre classes sociais e sobre a incapacidade de um amor frutificar no meio de regras muito estabelecidas. No geral, regular.