Ben Is Back – O Retorno de Ben

As mães, aquelas com M maiúsculo (que, acredito, são a maioria), são capazes do que há de melhor na humanidade. O amor delas não tem limite, não tem fim. Elas não desistem, não esmorecem, não deixam nunca de esperar que os seus filhos fiquem bem, sejam felizes. Ben Is Back fala de uma dessas mães. E fala de um tema que é fundamental, ainda mais nos dias de hoje: como as pessoas e as famílias lidam com os seus vícios? Quem cai nessa sempre vai sair queimado ou chamuscado, como mínimo. Nada é simples, nesse universo, e Ben Is Back trata disso com muita sabedoria e de forma interessante.

A HISTÓRIA: Em uma cidade tranquila, em um cenário com neve, dentro de uma Igreja, um coral ensaia. Na plateia, uma mãe orgulhosa, Holly Burns (Julia Roberts). Entre os cantores, Ivy (Kathryn Newton), não se contêm ao ver a mãe e sorri. Holly pede ela se manter firme, com postura. Crianças entram pela lateral. Correm de perto do grupo Lacey (Mia Fowler) e Liam (Jakari Fraser), filhos de Holly e integrantes do grupo que vai encenar a apresentação de Natal. Enquanto eles estão lá, um rapaz chega na casa trancada e com vigilância. Em breve, ao voltar para casa, Holly terá uma grande surpresa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Ben Is Back): O primeiro atrativo para mim nesse filme foram os atores envolvidos na produção. Admito que eu sou fã da Julia Roberts. Adoro o trabalho dela, como ela se entrega em cada papel. E como outras mulheres/atrizes que eu admiro, como Julianne Moore, eu acho que ela fica melhor a cada ano que passa.

Além dela, outro atrativo de Ben Is Back era ver Julia Roberts em cena com Lucas Hedges. Um ator que merece ser visto e acompanhado. Um jovem talento que vem acertando nas suas escolhas. Mas o que mais me surpreendeu nesse filme foi a honestidade do roteiro e do trabalho do diretor Peter Hedges. Ben Is Back surpreende por seu tom realista e honesto. A franqueza é um de seus elementos principais.

O tema do filme é pesado. Mas eu não sabia nada sobre a história antes de começar a assistir a Ben Is Back – o  que, como vocês bem sabem, é o que eu sempre indico e é como eu faço em relação aos filmes. (SPOILER – não leia se você não assistiu a esse filme ainda). Esta produção mergulha à fundo na questão do vício nas drogas. E tudo sob a perspectiva de uma mãe e de uma família que precisa lidar com esse problema. Também temos uma visão privilegiada da ótica do garoto que sofre com o vício e que não consegue se livrar realmente dele.

Acho incrível como o roteiro de Peter Hedges mostra todo o caldeirão de elementos e de emoções que cercam uma situação como essa. Sem filtros e com muita franqueza, o que sempre tem um excelente efeito no cinema. Hedges não enfeita ou embeleza a pílula. Devemos agradecer por isso. Ben Is Back tem a qualidade que tem justamente por essa franqueza e pelo diretor explorar muito bem o efeito abrangente que o vício pode trazer para uma família e uma comunidade inteira.

Para passar toda a verdade do roteiro de Hedges, o diretor conta com excelentes atores. Nesse sentido, claro, destaque para os protagonistas. Julia Roberts e Lucas Hedges estão ótimos em seus papéis. Em ótimos desempenhos – acredito que dos melhores que eles apresentaram nos últimos tempos. Mas os atores coadjuvantes também estão muito bem. O ritmo do filme é intenso e emocional desde o início e até o final. Não há momentos de “barriga” ou de tédio. Algo importante para Ben Is Back também.

O roteiro tem uma forte carga dramática mas, como acontece com toda família, também tem os seus momentos de leveza e engraçados. Em resumo, um dos maiores destaques da produção é o texto de Hedges. O filme acerta também nos momentos de tensão e de suspense. Não tem como você esperar que a história termine bem, em muitos momentos, mas mesmo quando ela parece terminar como você temia, isso não deixa de surpreender.

Envolvente, Ben Is Back nos faz refletir e nos colocar no lugar dos personagens. Isso é fundamental em uma produção que trata da dependência das drogas. Afinal, ainda estamos muito cercados de julgamentos e de preconceitos sobre esse assunto. Mas esse filme estimula as pessoas a terem empatia, a ver que todos sofrem com uma situação como essa. Não apenas a família de Ben, neste caso, mas ele próprio.

O que eu mais gostei no filme é como ficamos centrados em duas visões muito diferentes nessa história. Por um lado, o lado amoroso e generoso da mãe. De fato, apenas as mães com M maiúsculo podem entender toda a generosidade e a doação que é tão típico das mães. É algo impressionante, maravilhoso e exemplar. Outras pessoas, que não são mães, podem se colocar no lugar delas e aprender com elas. Admirá-las.

A outra ótica muito bem explorada nesse filme é a de Ben. Outro lado fascinante da história. O garoto, como descobrimos no decorrer do filme, começou a ficar viciado após se machucar esquiando e receber “painkillers” (analgésicos fortes) de um médico. Segundo Holly, mãe de Ben, quando o médico Dr. Crane (Jack Davidson) começou a aumentar a dosagem de painkillers, foi aí que o filho dela começou a ficar viciado.

Isso é algo interessante em Ben Is Back. O alerta de que, às vezes, pessoas “confiáveis” e que deveriam ter cuidado com os jovens, como médicos e professores, podem ajudá-los a se afundar. Isso é visto não apenas na falta de compromisso e de ética do médico que receita painkillers viciantes para Ben, quando ele era jovem, mas também o professor Mr. Richman (Henry Stram), que Ben vai visitar, ao procurar o cachorro da família, e que era fornecedor de drogas/medicamentos para o garoto.

A verdade é que a tentação e a queda estão próximas de crianças e de jovens a todo o momento. Os pais podem orientar bem os seus filhos para as tentações e para os problemas que podem acontecer caso eles optarem por alguns caminhos tortos, mas nenhuma mãe ou pai pode realmente evitar que o pior aconteça. Eles podem torcer, orientar e até rezar. Mas, no final das contas, as escolhas sempre serão de seus filhos – que, além de tudo, são indivíduos independentes e que pensam e sentem por sua própria conta.

Ben Is Back explora muito bem esse sentimento de preocupação e de comprometimento que os pais tem com os seus filhos. Holly está preocupada e deseja cuidar de cada um de seus filhos, mas sabe que deve lutar e não desistir de Ben, em especial. O marido dela, Neal Beeby (Courtney B. Vance), está mais preocupado com os seus próprios filhos, Lacey e Liam. Claramente ele está preocupado com a “influência negativa” e com o risco que a proximidade de Ben pode ter em relação a eles.

O quanto ele está errado? Natural que os pais procurem proteger e defender os seus filhos. Assim, natural que Neal se preocupe com a presença de Ben. Mas realmente é justo e ajuda o jovem que está buscando se recuperar toda a desconfiança e “pé atrás” que Neal e até Holly têm em relação ao jovem? Talvez não ajude ele, mas faz parte do processo. Afinal, como Ben mesmo diz para a mãe, em certa parte do filme, ele é especialista em mentir, em enganar e em dissimular para conseguir o que deseja. E, muitas vezes, o que fala mais alto é o vício.

Outro elemento importante que vemos em cena é a questão da culpa e a dificuldade que o protagonista tem de se perdoar. Esses talvez sejam os principais desafios e empecilhos para que alguém que é viciado consiga se livrar do vício. Ben não se perdoa por todo o sofrimento, dor e problemas que ele causou para a sua família, especialmente para a sua mãe. Ele também se sente culpado pela morte da filha de Beth Conyers (Rachel Bay Jones). Mais que um viciado, Ben se tornou traficante e levou várias pessoas para o vício também.

Quando alguém entra nessa, pode ter a sorte de superar e sobreviver. Mas quantos ficam pelo caminho? Quantos morrem por causa de seu vício? Apesar de aparecer pouco no filme, Beth tem uma das cenas mais importantes da história quando Holly vai procurá-la pedindo ajuda.

Beth diz claramente uma grande verdade: Holly não poderá salvar Ben, por mais que ela tente. Talvez ele consiga sair do fundo do poço, se tiver muita força de vontade, se conseguir se perdoar – e aos demais – e se tiver um pouco de sorte. Mas ninguém salva ninguém, e é importante que isso esteja colocado de forma tão clara e franca nesta produção. Ainda assim, como Beth diz, Holly precisa tentar até o final. Isso é algo muito de mãezona.

Sorte de todos aqueles que tem uma excelente mãe. Elas fazem toda a diferença na vida das pessoas e, consequentemente, da sociedade. Ben Is Back faz uma bela homenagem para uma destas mães e se debruça com muita propriedade em um grande drama que temos na sociedade atualmente.

A vida é feita de vários problemas, frustrações e tentações. Alguns tem sorte de passar por tudo isso e ter uma vida longa. Outros, infelizmente, ficam pelo caminho. Ninguém deve se sentir culpado por isso, mas sermos solidários e termos compaixão pelas pessoas que tem mais dificuldade de passar por estas questões. Ben Is Back é um belo exemplo sobre isso.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não falei antes, mas a personagem de Ivy Burns (Kathryn Newton) também é bastante interessante. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ela faz a “irmã clássica” de um garoto que tem problema com os vícios. Ela é toda “certinha”, quase perfeita. Por isso, tem dificuldades de lidar com o irmão “encrenqueiro”. Inicialmente, ela não gosta e resiste à presença de Ben no Natal. Afinal, ele já “estragou” outros Natais e ela está “cheia” disso. Mas, depois, Ben “quebra” a resistência da irmã e ela resgata o amor que sente por ele. Da raiva/resistência inicial, a personagem passa para a acolhida e para a compaixão, até que a casa é invadida por um funcionário de um traficante para quem Ben trabalhava e Ivy passa ter medo do que pode acontecer. Ainda assim, claramente ela se importa com o irmão, e isso é muito “a vida como ela é”.

Praticamente todos os personagens de Ben Is Back são um pouco egoístas e um pouco generosos. Como a gente mesmo. Isso que eu achei mais bacana no roteiro de Peter Hedges. Cada um de nós, assim como os personagens do filme, não somos apenas “bons” ou “maus”. Até podemos nos esforçar em acertarmos mais do que errarmos, mas ninguém consegue acertar sempre. Quanto antes nos tocarmos disso, melhor seremos capaz de olharmos para os outros com a mesma compreensão. Sermos mais empáticos e generosos, portanto.

Falei bastante sobre isso já, mas sem dúvida alguma dois destaques de Ben Is Back são o roteiro e a direção de Peter Hedges. Ele faz um belo trabalho na construção da história, construindo diálogos e sequências que convencem e que prendem a nossa atenção. Tudo nesse filme faz sentido. Não há sobras ou exageros. Isso não é tão fácil de achar, por isso agradecemos pelo roteiro desta produção. Ele também faz um trabalho, na direção, que foca nos atores, no talento deles e na forma com que eles abraçam os personagens. Ainda assim, ele não esquece o entorno da cidade em que eles vivem. Isso dá propriedade e profundidade para a produção.

Entre os atores, o destaque fica para o excelente trabalho de Julia Roberts e de Lucas Hedges. Os dois se entregam para os seus personagens de forma exemplar. Convencem em cada linha de diálogo e em cada cena. Também estão muito bem os coadjuvantes Kathryn Newton, como Ivy, irmã de Ben; Courtney B. Vance como Neal, segundo marido de Holly; Rachel Bay Jones como Beth, mãe de uma amiga de Ben que morreu por causa do vício das drogas; David Zaldivar como Spencer “Spider” Webbs, amigo de infância de Ben e viciado em drogas também; Mia Fowler como Lacey Burns-Beeby e Jakari Fraser como Liam Burns-Beeby.

Esses são os coadjuvantes que tem uma relevância maior na história, mas vale citar também o trabalho de Alexandra Park como Cara K., uma garota que Ben e Holly encontram em um encontro de adictos e que era cliente de Ben quando ele era traficante; Michael Esper como Clayton, traficante que “sequestra” o cachorro da família de Ben; Tim Guinee como Phil, outro participante do grupo que está tentando ficar longe das drogas; Kristin Griffith como Mrs. Crane, esposa do médico que é confrontado por Holly no shopping; Jeff Auer como o pai de Maggie, a garota que morre após ter sido viciada por intermédio de Ben; e Henry Stram como o antigo professor de História de Ben, Mr. Richman.

Da parte técnica do filme, vale destacar o trabalho de Stuart Dryburgh na direção de fotografia e de Ian Blume na edição. Além deles, cito o bom trabalho de Dickon Hinchliffe na trilha sonora; de Ford Wheeler no design de produção; de Andy Eklund na direção de arte; de Chryss Hionis na decoração de set; e de Melissa Toth nos figurinos.

Ben Is Back estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou de outros nove festivais em diversos países. Nessa trajetória, o filme ganhou um prêmio e foi indicado a outros oito. O único prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Performance de um Ator com 23 anos ou Menos, concedido para Lucas Hedges pelo Los Angeles Online Film Critics Society Awards.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Quando estava desenvolvendo o filme, o diretor e roteirista Peter Hedges não estava pensando em escalar o filho, Lucas Hedges, para o papel principal. O diretor tinha feito uma lista de atores que ele estava considerando para o papel, mas foi Julia Roberts que insistiu para que Lucas Hedges fizesse o papel após assisti-lo em Manchester by the Sea (comentado aqui no blog).

Antes de começarem a filmar Ben Is Back, os atores Lucas Hedges e Kathryn Newton passaram o feriado de Ação de Graças como convidados na casa da atriz Julia Roberts. Eles fizeram parte da mesa de convidados da atriz, que reuniu 22 pessoas. Uma maneira interessante deles se integrarem antes do início das filmagens.

A escolha do Natal para ambientar a história de Ben Is Back foi para tornar o filme mais emocional, é claro. Mas isso fez com que a equipe tivesse alguns desafios. Todos enfrentaram condições climáticas bem complicada em um dos piores invernos que Nova York e Yonkers, cidades em que o filme foi rodado, já viveram. Julia Roberts, que mora há 18 anos em Nova York, disse que nunca experimentou um inverno tão complicado quanto aquele de quando eles fizeram Ben Is Back.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 155 críticas positivas e 36 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 81% e uma nota média de 6,85. O site Metacritic apresenta um “metascore” 66 para Ben Is Back, fruto de 28 críticas positivas e de 11 medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Ben Is Back faturou pouco mais de US$ 3,7 milhões nos Estados Unidos. Um resultado baixo, especialmente se pensamos que o filme é estrelado pelos atores Julia Roberts e Lucas Hedges, bem conhecidos do público. Acho que o filme deixou a desejar nas bilheterias.

Ben Is Back é uma produção 100% dos Estados Unidos. Como esse país foi o mais votado em uma enquete aqui no blog, esse filme passa a fazer parte da lista de produções que atenderam a essa votação. 😉

CONCLUSÃO: Um filme que não é simples. E que bom que Ben Is Back é assim. Por ser duro mas humano, demasiado humano (como diria Nietzsche), Ben Is Back é necessário. Nos mostra uma realidade complicada, que é vivida por muitas famílias. Mais que nada, é preciso compaixão. E admirar mães como a protagonista desta história, que não desisti nunca de resgatar e ajudar o seu próprio filho. Em outras palavras, não desiste nunca de amar. Quem cai no vício deveria achar uma saída, mas isso nem sempre acontece. A culpa e a dificuldade em se perdoar são dois dos principais impedimentos. Ben Is Back trata do tema com profundidade e compaixão. Uma bela produção, que merece ser vista, comentada e compartilhada.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

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