Can You Ever Forgive Me? – Poderia Me Perdoar?

As oportunidades, infelizmente, não são para todos. Gostaríamos que fossem, mas não o são. Can You Ever Forgive Me? nos apresenta uma história cheia de verdade, de pontos críticos, de angústia e de alguma suavidade e beleza espalhado aqui e ali. Por isso mesmo, esse filme é tão próximo, tão “gente como a gente”. Enquanto muitos te dizem não, as tuas contas não param de aumentar. A saída para esse cenário caótico pode ser variada. Nesse filme, temos o talento sendo usado para algo ilegal. Um belo trabalho de Marielle Heller, na direção, e de Nicole Holofcener e Jeff Whitty no roteiro, assim como dos protagonistas Melissa McCarthy e Richard E. Grant.

A HISTÓRIA: Inicia em 1991, em um dia qualquer daquele ano, às 3h30. Lee Israel (Melissa McCarthy) está trabalhando, revisando um documento, acompanhada de uma bebida, quando duas mocinhas passam perto dela e uma delas (Lucy DeVito) comenta que Lee é mais velha que a sua mãe, e que ela se mataria se fizesse o que a outra faz na idade dela. Lee responde, mais para si do que para a garota, que já passou, que ela pode matá-la naquele momento se ela pedir com educação. A cena termina com Lee sendo demitida.

Ela vai para casa, onde encontra algumas moscas mortas sobre o travesseiro. Depois de tirá-las do local, ela se deita. Após descansar, ela alimenta o gato, que não parece ter forme. Naquela noite, ela vai para uma festa na casa de Marjorie (Jane Curtin), agente literária que não parece muito animada com um novo trabalho de Lee. Escritora, Lee vive um momento complicado, no qual ela não consegue fazer a nova obra sair e, ao mesmo tempo, vê as contas acumularem.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a Can You Ever Forgive Me?): Um filme nu e cru, por assim dizer. Can You Ever Forgive Me? não doura a pílula. Muito pelo contrário. Ela nos apresenta uma protagonista ao mesmo tempo interessantíssima e tão pouco explorada pelo cinema.

A direção cuidadosa e focada no ótimo trabalho de Melissa McCarthy e de Richard E. Grant (que dá vida ao escritor Jack Hock, que se torna amigo de Lee) de Marielle Heller é um dos pontos fortes do filme. Ela conduz a trama com suavidade e esmero ao mesmo tempo em que não procura fazer uma direção cheia de “virtuose”. O que agradecemos. Porque uma das melhores qualidades do filme é o roteiro de Nicole Holofcener e de Jeff Whitty.

A dupla, certamente escrevendo um roteiro com base no livro de Lee Israel, nos apresenta uma história sensível e ao mesmo tempo ácida. Mérito da protagonista, que não procura agradar a ninguém. Ela prefere ficar sozinha em um bar e com o seu gato em casa do que ter que elogiar ou fazer média com quem ela acha que não merece. Lee também não tem muita paciência e chama de idiota quem tiver ouvidos para ouvir. Enfim, uma verdadeira peça.

Apenas a personagem, por si mesma, já valeria um filme. Mas Can You Ever Forgive Me? tem muito mais a nos apresentar que uma escritora de 51 anos de idade que não consegue mais emplacar o seu trabalho. Um dos grandes méritos do filme, me parece, é mostrar toda essa parte da sociedade, que não tem oportunidades e nem muito esperanças. Afinal, apesar do sol nascer para todos, todos os dias, nem todos tem o seu lugar ao sol. Essa é a dura realidade, mas que nem sempre o cinema – especialmente made in Hollywood – tem vontade de retratar.

Lee representa várias pessoas que, na vida real, também não tem oportunidade mais de trabalho. Tanto pela idade quanto pelo físico. A protagonista de Can You Ever Forgive Me? tem 51 anos, lançou alguns livros, mas prefere uma área que nunca tem grande sucesso – a das biografias. Além disso, ela não tem o visual de uma modelo – é baixinha e está um pouco acima do peso. Segundo a ex-agente dela, além de tudo isso, Lee não tem um comportamento amigável e nem é muito sociável. Ou seja, ela não “joga o jogo”.

Quantas pessoas por aí preferem ser assim do que se venderem para conseguirem pagar as contas? Honestamente? Elas tem o meu respeito. Admiro quem não joga o jogo porque se sente violentado(a) fazendo isso. Admiro pessoas como a Lee que vemos nesse filme, que preferem pensar por conta própria e viver a vida a sua maneira. Mas isso cobra alguns preços, claro – como já dizia Nietzsche com os seus “espíritos livres”.

Can You Ever Forgive Me? mostra como, na medida em que as portas se fecham, as contas não param de se acumular. Porque a vida adulta é feita disso, de várias contas e responsabilidades. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No caso de Lee, mais do que o risco de ser despejada ou de não ter o que comer, o que a motiva a começar a falsificar cartas para conseguir dinheiro é a doença do seu gato. Quando ele passa a não comer direito e ela descobre que a veterinária só vai atendê-la se ela conseguir pagar ao menos metade da dívida, ela sabe que terá que arranjar dinheiro de qualquer maneira – e rápido.

Inicialmente ela vende alguns livros e uma carta que ela tinha na parede da casa e que pertenceu a Katherine Hepburn. Ao vender essa carta é que ela conhece Anna (Dolly Wells), dona de uma livraria. Esse é um dos ambientes preferidos de Lee. Em outro, no bar, ela conhece o escritor gay Jack Hock (Richard E. Grant). Ele, a exemplo dela, também não tem amigos e, por isso, os dois se aproximam. Após conseguir algum dinheiro, Lee volta a fazer pesquisas para o seu novo livro.

Em uma biblioteca, pesquisando sobre Fanny Brice, ela encontra dentro de um livro, um envelope. Dentro dele, duas cartas assinadas por Fanny Brice e direcionadas para Elaine Cohen. O correto, para qualquer pesquisadora séria, seria entregar as cartas para um museu ou para um arquivo público, mas como Lee está precisando de dinheiro, ela fica com as cartas e vende a primeira para Anna. Nesse momento, ela recebe um feedback da correspondência, de que ela era muito “branda”.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Antes de partir para o crime, Lee ainda tenta emplacar um novo projeto. Sem sucesso, ela resolve acrescentar um PS interessante na segunda carta de Fanny Brice. Intelectual e talentosa, Lee conhece muito bem o estilo, a vida e a trajetória de diversos escritores e artistas. Assim, não é difícil para ela criar correspondências que eles poderiam ter escrito. Pouco a pouco ela vai percorrendo todas as livrarias que compram e revendem essas correspondências e, com isso, ela consegue dinheiro para pagar todas as suas contas com folga.

Muitos dizem que a necessidade e a oportunidade fazem o ladrão. Isso parece se aplicar também no caso de Lee. Ela tentou ser honesta, mas não conseguiu. Poderia, claro, ter conseguido um subemprego e ter buscado, com ele, pagar as contas. Mas conhecendo o mundo dos ricos, que pagam uma boa quantia de dinheiro para ficar com um pedaço da intimidade de famosos, ela resolve explorar esse filão e tirar proveito dele com o seu talento.

Não digo que ela fez certo, claro. Mas que oportunidades realmente deram para ela? Parece justo que uma escritora com talento mas que não escreve exatamente o que é sucesso não tenha chance de ganhar dinheiro honestamente com o seu trabalho? O que fazer, no lugar dela, quando o dinheiro termina e as portas se fecham? Can You Ever Forgive Me? nos mostra com bastante propriedade e através de uma protagonista cheia de personalidade que a vida é cruel e injusta, muitas vezes e com várias pessoas.

Ainda assim, e isso eu achei realmente interessante, o filme não fica apenas no drama ou no tom pesado. Há um pouco de comédia, aqui e ali – mas algo inteligente e não forçado -, e também um pouco de romance e de amizade. Porque a vida é feita de tudo isso, não é mesmo? Temos o lado duro a vida para enfrentar, mas também temos amigos, companheirismo, amor e humor para tornar tudo um pouco mais equilibrado.

Esse filme nos apresenta tudo isso com bastante franqueza e naturalidade. Não é todo dia que vemos isso pela frente, então temos que agradecer. Roteiro inteligente, ótimos atores em cena e uma direção cuidadosa e que foca nos pontos mais importantes para que a história seja bem contada. Não precisamos mais.

Só não considero o filme perfeito porque acho que faltou um pouco de trabalho para caracterizar a atriz Melissa McCarthy como uma pessoa com 51 anos de idade – em diversos momentos vemos que ela não pode ter essa idade. Além disso, acho que algumas idas dela aqui e ali para vender as cartas poderiam ter sido poupadas, até porque elas não agregam grande informação nova para a história.

Como a história é contada sob a ótica de Lee, senti falta de saber um pouco mais sobre a investigação do FBI, que acabou levando à ela, e sobre como ela se virou para, depois de ser pega, sobreviver sem a falsificação das cartas e antes de lançar o livro sobre a sua história no crime. Esses detalhes contam alguns pontos negativos para a produção. Mas são apenas detalhes. Em geral, este é mais um belo filme apresentado pelo Oscar 2019.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A figuraça da protagonista de Can You Ever Forgive Me? prefere gatos do que pessoas. Ao menos na maioria das ocasiões. Eu não posso dizer que ela está errada. Muitas pessoas, de fato, são intratáveis e intragáveis. São boçais, preconceituosas, cruéis… para dizer o mínimo. Como gostar de pessoas assim? Alguém gosta delas, de fato? Elas gostam de alguém, verdadeiramente?

Há muito mais perguntas do que respostas, sobre isso eu não tenho dúvidas. Mas como diria os The Beatles, todos precisam de amor. Talvez se trabalharmos nisso, se expusermos mais essa ideia, não possamos, pouco a pouco, tornar as pessoas, em geral, tão bacanas quanto os gatos? 😉

Can You Ever Forgive Me? tem outro aspecto interessante. Ele nos mostrar essa coisa maluca do colecionismo de itens privados de pessoas famosas. Sim, muita gente não se importa com a origem dessas cartas e correspondências, com a ética envolvendo você comprar algo que deveria ser privado. Eles se importam só com o fato da carta ser legítima. O resto, não importa. Oras, cá entre nós, essas pessoas mereceram ser enganadas por Lee. Quem não tem ética não deveria exigir ética dos demais, não é mesmo? Mas, aparentemente, a lei protege alguns e condena outros. Então é isso que temos.

Eu não acompanho muito o trabalho da Melissa McCarthy, mas ouvi falar que, até Can You Ever Forgive Me? ela tinha feito, basicamente, comédias. Olha, acho que ela pode apostar em papéis mais sérios. Ela se saiu muito bem no papel mais complexo de Lee Israel. A atriz tem talento e consegue convencer muito bem em um papel que equilibra o humor e o drama. A parceria dela com Richard E. Grant, que está muito bem no papel de Jack Hock, é um dos trunfos desta produção.

Lee Israel começa, meio que sem querer, a sua caminhada criminosa. Mas existe um ponto realmente relevante desta trajetória. Um divisor de águas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, para valorizar uma das cartas que ela achou por acidente, ela faz um pequeno PS. Depois, utilizando todo o seu conhecimento dos famosos e o seu talento como escritora, ela ganha dinheiro às custas dos ricos que compram aquelas correspondências. Mas o divisor de águas acontece quando Jack Hock lhe dá a ideia de, na impossibilidade de seguir vendendo cartas falsas, ela começar a roubar as verdadeiras. Aí, realmente, ela vai até o fundo do poço. Afinal, ela não está ganhando dinheiro de ricos que não tem ética por comprar correspondências privadas de famosos. Ela está roubando documentos de locais que preservam essas correspondências por causa do interesse público. Algo muito mais grave, portanto.

Dos aspectos técnicos desta produção, vale comentar a direção atenta e cuidadosa de Marielle Heller, que mantêm a câmera sempre próxima dos atores; o roteiro muito bem equilibrado e sagaz de Nicole Holofcener e Jeff Whitty; a direção de fotografia de Brandon Trost; a edição de Anne McCabe; a trilha sonora de Nate Heller; o design de produção de Stephen H. Carter; a direção de arte de Marci Mudd; a decoração de set de Sarah E. McMillan e os figurinos de Arjun Bhasin.

Além do roteiro e da direção de Can You Ever Forgive Me?, os grandes méritos do filme estão no trabalho dos protagonistas, Melissa McCarthy e Richard E. Grant, que apresentam uma bela sintonia e um dueto exemplar. Além deles, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Dolly Wells, como Anna, uma das pessoas que compraram as cartas de Lee e que se aproximou dela como amiga/possível romance; Jane Curtin como Marjorie, ex-agente de Lee; Stephen Spinella como Paul, outro comprador das cartas de Lee; Christian Navarro como Kurt, um rapaz que se relaciona com Jack Hock; Marc Evan Jackson como Lloyd, advogado que defende Lee no tribunal; Shae D’lyn como Nell, outra pessoa que compra as cartas da protagonista; Anna Deavere Smith como Elaine, a ex-namorada de Lee; Joanna Adler como Arlene, mais uma pessoa enganada pelas cartas de Lee; e Mary B. McCann como a juíza que julga o caso de Lee.

Can You Ever Forgive Me? estreou em setembro de 2018 no Festival de Cinema de Telluride. Depois, o filme participou, ainda, de outros 13 festivais de cinema em diversos países – incluindo os de Toronto, Londres, Mar del Plata e Torino. Em sua trajetória, o filme conquistou 48 prêmios e foi indicado a outros 85 – incluindo três indicações ao Oscar 2019 (Melhor Atriz para Melissa McCarthy; Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant e Melhor Roteiro Adaptado) e duas indicações ao Globo de Ouro (Melhor Atriz – Drama para Melissa McCarthy e Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant).

Entre os prêmios que recebeu, destaque para os 24 prêmios de Melhor Ator Coadjuvante para Richard E. Grant; para os 9 de Melhor Roteiro e para os 9 prêmios de Melhor Atriz para Melissa McCarthy. Por outro lado, o filme saiu de mãos vazias do Oscar e do Globo de Ouro. Não que os atores não mereciam, mas realmente eles tiveram pela frente, neste ano, ótimos intérpretes em grande fase.

Vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. Apesar de interpretar a um alcoólatra nessa produção, o ator Richard E. Grant é alérgico ao álcool.

Essa é a primeira vez que Melissa McCarthy interpreta a uma personagem real.

Algo que aparece no final do filme, na verdade, não aconteceu. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na verdade, Lee Israel e Jack Hock nunca mais se encontraram pessoalmente ou falaram por telefone depois que o FBI prendeu Hock por agir como cúmplice de Lee. Poucos meses antes de Hock morrer por complicações da AIDS, Lee o viu na sala de espera de uma clínica médica em Manhattan destinada a atender pessoas pobres. Segundo a autobiografia de Lee, que inspirou o filme, ela teve vontade de “tropeçar” em Hock depois que ele se levantou da cadeira, mas acabou não fazendo isso. Hock não chegou a vê-la.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 266 críticas positivas e apenas seis negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 98%. O site Metacritic apresenta um “metascore” 87 para Can You Ever Forgive Me?, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana – além do selo “Metacritic Must-see”.

De acordo com o site Box Office Mojo, Can You Ever Forgive Me? faturou US$ 8,77 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é uma quantia desprezível, mas acho que o filme merecia ter faturado mais.

Can You Ever Forgive Me? é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por causa disso, esse filme passa a fazer parte da lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: Quem sempre teve dinheiro ou oportunidades na vida “facilmente” julga aqueles que não tiveram o mesmo. Can You Ever Forgive Me? nos apresenta a história de uma mulher que tem talento e que luta para trabalhar como escritora, mas que não consegue mais oportunidades ou emprego. Como qualquer pessoa comum, independente do seu talento, ela tem contas para pagar. Então o que fazer? Ela tem uma saída engenhosa para o seu problema. Isso não a impede de ser descoberta. Um filme duro, que nos faz refletir sobre a falta de oportunidades e as injustiças das nossas sociedades desiguais. Ao mesmo tempo, ele nos mostra a graça, a alegria, a amizade e a esperança que podem surgir e serem preservadas mesmo em cenários agrestes. Um belo filme.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

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