Capharnaüm – Capernaum – Cafarnaum

A miséria é complicada e triste. Nem tanto a miséria que significa ausência de dinheiro e de oportunidades. Mas a miséria humana. Para esta, dificilmente há cura. Capernaum é um filme duro, que mostra uma boa parte da miséria e da crueldade que existe neste mundão mas com as quais, geralmente, não temos que lidar. Que filme, minha gente! Um verdadeiro soco no estômago. Um filme para ficar na memória por muito tempo. Capernaum arrepia, emociona, nos deixa com o coração na mão. Por tudo isso e muito mais, é um filme imperdível.

A HISTÓRIA: Um garoto, magro, apenas de cueca e camiseta, espera entre duas mesas. Depois, ele têm a boca examinada. O médico diz que por ele não ter mais dentes de leite, ele deve ter entre 12 e 13 anos de idade. Em seguida, vemos a muitas mulheres juntas. Alguém chama por Michelle, filipina. Pergunta qual é o sobrenome dela. Ela responde que é Sedad.

O interlocutor pergunta se ela tem passaporte ou visto de entrada. Michelle diz que está com o chefe dela. Em seguida, ele pergunta por Lama, que confirma que está grávida de sete meses. Ele diz que a Caritas vai procurá-la. A terceira mulher a ser questionada é Tigest Ailo (Yordanos Shiferaw), etíope. Assim começa a história de Zain (Zain Al Rafeea) e de Tigest/Rahil, duas pessoas que vivem na miséria e que são esquecidas pela lei, até que eles acabam presos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Capernaum): Desde antes do Oscar, quando saiu a lista dos filmes indicados e, depois, finalistas à premiação, eu queria assistir a Capernaum. Mas eu não sonhava que veria a um filme tão impactante. Não apenas por sua história, mas pela escolha das imagens e de todo o significado que esta produção nos passa. Um filme raro, sem dúvida.

Antes de falar dele, quero deixar claro que este não é um filme “passatempo”. Quem assistir a essa produção terá que mergulhar em realidades realmente complicadas e que vão deixar marcas no espectador. O filme roteirizado por Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany começa potente e segue assim até o final. Se você está procurando um filme leve, quer algo para “descontrair” você e não ter que pensar muito, passe longe de Capernaum. Agora, se você não tem problemas em encarar de frente problemas que, de fato, existem mundo afora, questões que envolvem o essencial do ser humano, incluindo a sua face mais cruel, esta é uma grande pedida.

O que achei mais impressionante neste filme são as cenas cuidadosamente orquestradas pela diretora Nadine Labaki. Cada imagem é potente, seja ela próxima dos atores ou mostrando a “arquitetura” das cidades a partir de vistas aéreas. Tudo parece impressionar em Capernaum. E o que dizer daquele começo do filme? Impactante, preciso e um belo cartão de visitas do que veremos pela frente. Ah, e como sempre, indico que você assista ao filme sem saber praticamente nada dele antes – esse é o melhor caminho para experimentar ao máximo essa produção.

Nas primeiras cenas de Capernaum vemos a um menino sendo examinado. Ele não fala, mas não pode ser algo bom um médico ter que examiná-lo para dizer a idade que ele tem. Algo de errado aconteceu ali. Depois, vemos a uma mulher muito emocionada, com muitas lágrimas nos olhos, no que parece ser um grupo de refugiados. Essa introdução abre lugar para uma trilha sonora fantástica e uma edição incrível de um grupo de crianças brincando com armas feitas de madeira e pedaços de plástico ou latas.

Vemos na nossa frente um bando de garotos. Eles parecem estar extravasando a sua energia – talvez a sua raiva. A câmera de Nadine Labaki vai se afastando e vemos uma cidade que parece um tanto caótica. Mas a cena seguinte é ainda mais impactante. Vemos a uma criança algemada. Isso não é fácil de ser visto. Sob circunstância alguma. Perto um do outro estão Zain e Tigest, ambos algemados. O que poderia fazer uma criança ser algemada? Que crime ele pode ter praticado?

Em seguida, descobrimos que todos estão reunidos frente a um juiz porque Zaid, que nunca foi registrado e que teria, segundo um médico, cerca de 12 anos, está acusando os pais. Ele foi condenado a cinco anos por ter esfaqueado “um filho da puta”, segundo as suas palavras, mas agora acusa os pais por ele ter nascido. Não consigo imaginar um começo de filme mais impactante que esse. Mas o mais impressionante desta produção é que não é apenas o seu início que nos impacta, mas todo o seu desenrolar.

O que vemos em cena é muita, muita miséria. Pessoas que vivem de favores, de pequenos crimes e de muito trabalho informal. As crianças não podem ser crianças. Logo que tem tamanho suficiente para carregar peso, elas são colocadas para trabalhar. Os menores, são expostos a situações de risco porque, geralmente, acompanham os irmãos maiores. Capernaum começa com a mãe de Zain, Souad (Kawsar Al Haddad), fazendo o filho comprar remédios com uma prescrição médica em diversos lugares para, depois, envolvê-lo em uma operação de colocar a droga disfarçada em roupas para o irmão mais velho dele, que está preso. E isso é só o começo.

Os pais de Zain, Souad e Selim (Fadi Yosef) estão cercados de filhos e vivem em um local pequeno cedido pelo comerciante Assaad (Nour El Husseini). Em troca do local, os filhos do casal trabalham para Assaad – especialmente Zain. Também está “subentendido” no “contrato” entre eles que, quando a irmã de Zaid, Sahar (Haita “Cedra” Izzam) for grande o suficiente, ela irá se casar com Assaad. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Descobrimos, no final da produção, que esse “grande o suficiente” ocorreu quando ela tinha 11 anos de idade.

Em resumo, Souad e Selim não param de ter filhos, mesmo vivendo em uma condição de miséria. Eles não registram nenhum dos filhos, nem se preocupam em colocá-los na escola. Parece que o único propósito dos filhos do casal é ajudá-los a sobreviver. Com tantos filhos, Souad parece passar os dias em função deles – não para lhe dar carinho, mas para alimentá-los e para dar ordem para os maiores trabalharem. Selim, ninguém sabe o que faz da vida.

Capernaum acompanha, de forma muito inteligente, as crianças. O narrador da história é Zain. Assim, vemos como ele trabalha e é utilizado pelos pais para fazer o que eles desejam. Também acompanhamos o amor que ele tem pelos irmãos, especialmente por Sahar, que é a pessoa mais próxima dele. Quando ela menstrua, Zain procura esconder esse fato para que a garota não seja vendida para Assaad. Mas toda a proteção dele resulta ineficiente.

É de cortar o coração quando Sahar é levada contra a sua vontade e os irmãos são separados. Isso acontece pouco antes de Zain conseguir levar a irmã para uma viagem em busca da avó. Após a irmã ser vendida, Zain resolve fazer a viagem por conta própria. Mas no ônibus, ao encontrar Harout, vestido de Homem Barata (Joseph Jimbazian), que desce em um parque de diversões, Zain muda de ideia e resolve seguir o senhor idoso.

Por causa dessa decisão, somos apresentados a um outro cenário de miséria. Zain acaba conhecendo, durante a sua aventura, Tigest, uma mãe que está ilegal no país e que precisa conseguir bastante dinheiro para arrumar novos papéis e ficar mais tempo sem ser presa ou deportada. A exemplo de Zain e de seus outros irmãos, Tigest também não registrou a filha Yonas (Boluwatife Treasure Bankole). Mas as semelhanças terminam por aí.

Para mim, este é uma das grandes “sacadas” do roteiro de Nadine Labaki, Jihad Hojeily e Michelle Keserwany, que contaram com a colaboração de Georges Khabbaz e Khaled Mouzanar. Capernaum nos apresentam dois cenários de pura miséria. Tanto a família de Zain quanto Tigest e a filha vivem em realidades em que parece que falta tudo que pode significar segurança, qualidade de vida e dignidade humana.

Falta água encanada, banheiro decente, local confortável para dormir e, muitas vezes, comida. Também faltam registros, documentos básicos que deem ciência para a sociedade que aquelas crianças existem. Consequentemente, elas não tem acesso à saúde ou à educação. Ainda que em uma análise rápida parece que tanto a família de Zain quanto Tigest e Yonas vivam na mesma miséria, com Capernaum aprendemos que existem dois tipos de miséria.

Temos sim a miséria material, toda a falta de recursos que comentei antes e muito mais. Essa miséria pode ser resolvida com uma distribuição de renda mais justa ou com mais oportunidades de estudo e de trabalho para as pessoas. A miséria material pode ser resolvida com a inclusão social. Mas existe a miséria humana, que é muito mais difícil de resolver. Essa miséria é vista na família de Zaid, na falta de consciência, compaixão e amor que os pais dele tem com os seus próprios filhos. O mesmo não pode ser dito da realidade de Tigest e Yonas.

Ainda que Souad diz que ninguém pode julgá-la, e longe de mim fazer isso, mas ela e o marido veem nos filhos sim moeda de troca. Eles não pensam duas vezes em vender a própria filha para Assaad. Para buscar perdão da própria consciência, Selim diz que fez isso para “livrar” a filha da miséria. Ele diz que a culpa é de todos que lhe disseram que, por ele ser um homem, ele deveria ter filhos. Mas ele considera que foi justamente essa decisão, ter casado e ter tido filhos, que lhe “fudeu” a vida.

Curioso como os inescrupulosos e os cruéis, aqueles que machucam os outros e veem nos demais apenas pessoas que eles podem usar para algum proveito próprio, sempre encontram uma desculpa nos “outros”, não? A culpa é sempre do outro, ou da sociedade. Eles nunca percebem a própria responsabilidade. Ninguém colocou uma arma na cabeça de Selim e o obrigou a casar. Ninguém ameaçou Selim e Souad e os obrigou a ter filhos sem parar.

Não me venham com a desculpa de “ah, mas a religião deles diz isso e aquilo”. Me desculpem, mas não importa o que a religião diz. A fim e a cabo, você é responsável pelos seus atos. E você deve sim se perguntar se tem condições de colocar um filho no mundo. E quando digo condições, principalmente as afetivas. Mas também as materiais. Colocar um filho no mundo para que ele não receba amor, afeto, atenção e condições básicas de desenvolvimento, a meu ver, é um crime. Ou, ao menos, um grande, grande erro.

Zain, na altura dos seus 12 anos de idade, mas já tendo visto e sentido mais do que muito adulto que vive 90 anos, está coberto de razão ao dizer que os seus pais deveriam ser proibidos de ter filhos. Eles não deveriam ter esse direito, de gerarem uma vida que depois será jogada na mais profunda miséria – incluindo a pior de todas, de ter pais incapazes de ensinar valores ou algo de bom que seja.

Um grande achado de Capernaum é mostrar que a miséria material não significa, necessariamente, miséria humana. Muito pelo contrário. Tigest, igualmente vivendo em um cenário de grande precariedade, jamais queria abandonar a filha Yonas. Tigest faria tudo para ficar com ela. Quando o “comerciante”, falsificador e traficante de pessoas Aspro (Alaa Chouchnieh) oferece dinheiro para Tigest vender Yonas, ela fica indignada. E mesmo tendo dificuldade de pagar aluguel, levar comida para casa e conseguir o dinheiro exigido por Aspro para ele falsificar os papéis dela, Tigest tem a generosidade de acolher Zain em casa.

Verdade que ela aproveita a chegada do garoto para ele ajudar a cuidar da sua filha. Mas, em troca disso, ela lhe dá abrigo e comida. Claramente Tigest se sacrifica por amor. Palavra essa que parece não fazer parte do vocabulário ou da realidade dos pais de Zain. Então a miséria material pode ser contornada, mas a miséria humana… essa é muito complicada de ser tratada ou resolvida. Zain, mesmo tendo crescido em uma casa tão disfuncional, é um garoto sensível, carinhoso e responsável.

O filme, que já vinha sendo complicado até então, ganha uma outra carga de dramaticidade quando Tigest é presa. Zain, sozinho para cuidar de Yonas, tenta ao máximo ficar e cuidar da menina. Mas para um garoto como ele, sozinho em um local no qual ele não conhece praticamente ninguém, essa vontade se torna praticamente impossível. É de cortar o coração quando Zain deixa Yonas para ver se alguém se apresenta para cuidar da menina, mas ninguém faz isso. Ignoram completamente a criança e Zain acaba deixando ela com Aspro.

Mas ele não faz isso sem ficar com o coração partido. Momentos difíceis do filme, sem dúvida. Sonhando em deixar o país e tudo o mais para trás, Zain volta para casa atrás de seus documentos. Daí ocorre o desespero que faz ele cometer o crime que o leva a ser condenado. Zain não precisa nem saber exatamente o que aconteceu. Mas ele sabe perfeitamente quem é o culpado.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Sim, Assaad foi o culpado direto pela morte de Sahar, mas tiveram a sua parcela de culpa os pais da menina. Ela poderia ter sobrevivido a vários estupros – porque evidentemente não foi outra coisa que ela teve com Assaad – e a uma gravidez aos 11 anos de idade? Poderia. Mas como ela, muitas meninas que são “vendidas” por seus pais com essa idade, pouco menos ou pouco mais, acabam morrendo por causa dos estupros e da gravidez em idade tão baixa. Um verdadeiro absurdo.

Pode parecer incrível, mas depois de tanta crueldade, de tanta miséria e de tantos absurdos, podemos dizer que Capernaum tem um final feliz. Aspro é preso e as pessoas que ele mantinha em cativeiro foram resgatadas. Inclusive Yonas. Assim, Tigest consegue se reencontrar com a sua filha, e Zain consegue, finalmente, ter uma identidade. No fim, ambos, mesmo com todos os desafios que eles terão pela frente, ganham perspectivas. Isso é, sem dúvida, um final feliz para essa história. Um filme incrível, portanto. Dos melhores que eu assisti nesse ano, até o momento.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Nadine Labaki, diretora deste filme, é mais conhecida por seu trabalho como atriz. Ela tem 14 trabalhos como intérprete e quatro como diretora. Mas fiquei tão impressionada com o roteiro e a direção dela nesse Capernaum que eu penso e assistir aos outros filmes que ela dirigiu. Ela estreou como diretor em 2007 com o filme Sukkar Banat, que recebeu cinco prêmios. Depois, em 2011, ela dirigiu Et Maintenant on Va Où?, que recebeu oito prêmios. O terceiro trabalho dela na direção foi o segmento “O Milagre”, no filme Rio, Eu Te Amor. Acho que ela merece ser acompanhada. Eu vou atrás dos filmes anteriores dela, com certeza.

Impressionante o trabalho de Nadine Labaki tanto na direção quanto no roteiro. Ela esteve sempre atenta ao excelente trabalho dos atores, além de focar muito bem a realidade em que eles viviam. Parece até que estamos assistindo a um documentário e não a uma produção que segue um roteiro. Essa sensação é fruto de um ritmo muito bem planejado pela realizadora, que acerta em cada escolha e em cada detalhe da produção que nos envolve, nos angustia e nos emociona.

A cada filme que eu vejo neste ano e que tinha uma chance de ganhar o Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, mais eu fico indignada com a decisão da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Não vejo problema deles quererem bajular e mega premiar o diretor Alfonso Cuarón. Mas é simplesmente injusto um filme como Roma ganhar de uma produção como Capernaum ou como Shoplifters (comentado aqui). Simplesmente injusto. Esses dois filmes, a exemplo de Cold War (com crítica neste link), são muito mais interessantes e inovadores do que Roma. Me desculpem os filmes de Cuarón, mas é isso que eu penso.

Além de uma direção inspirada e de um roteiro magistral, Capernaum se destaca por sua direção de fotografia, assinada por Christopher Aoun; pela excelente edição de Konstantin Bock e Laure Gardette; e pela maravilhosa trilha sonora de Khaled Mouzanar. A trilha sonora, por si só, é uma peça de arte. Colocada em momentos precisos, ela ajuda a contar essa história e a fazer os espectadores mergulharem nela.

Da parte técnica do filme, vale comentar também o bom trabalho de Hussein Baydoun no design de produção; de Toufic Khreich como diretor assistente; de Nizar Nassar na direção de arte; e da equipe de Ghina El Hachem no Departamento de Casting. Perfeito o trabalho que foi feito com o elenco, boa parte dele formado por crianças.

Todo o elenco está ótimo, aliás. Mas é inevitável não destacar o trabalho de algumas das crianças, com destaque para Zain Al Rafeea como Zain; de Boluwatife Treasure Bankole como Yonas; e de Haita “Cedra” Izzam como Sahar. Alguns adultos também merecem aplausos, especialmente Yordanos Shiferaw como Tigest/Rahil. Outros que merecem ser citados por fazerem um belo trabalho são Kawsar Al Haddad como Souad; Fadi Yousef como Selim; Alaa Chouchnieh como Aspro; Nadine Labaki como Nadine, advogada de Zain; Elias Khoury como o juiz; Nour El Husseini como Assaad; Joseph Jimbazian como o Homem Barata/Harout; Farah Hasno como Maysoun, a menina que ajuda Zain a abrir um refrigerante e se torna uma “amiga” dele na cidade.

Capernaum estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até março de 2019, o filme participou, ainda, de outros 31 festivais de cinema e mostras em diversos países. Nessa trajetória, o filme colecionou 26 prêmios e foi indicado a outros 36, incluindo uma indicação ao Oscar 2019 de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para três conferidos pelo Festival de Cinema de Cannes: o Prêmio do Júri para Nadine Labaki, o Prêmio do Júri Ecumênico para a diretora e o Prix de la Citoyenneté para Nadine Labaki e Mooz Films. A produção também ganhou os prêmios de Melhor Filme e Melhor Ficção Estrangeira no Festival Internacional de Cinema de São Paulo. Vale citar ainda 12 prêmios recebidos como Melhor Filme e 3 recebidos por Melhor Jovem Ator/Melhor Ator/Melhor Estreia para Zain Al Rafeea. O filme e o garoto realmente mereceram.

Agora, vale citar algumas curiosidades sobre esta produção. O menino que interpreta Zain, Zain Al Rafeea é, na verdade, um refugiado sírio. Ele viveu no Líbano por oito anos e tinha 12 quando interpretou Zain em Capernaum. A escolha do nome do personagem no filme foi feita após a escolha de Zain para interpretar o protagonista.

Todos os atores que fazem parte de Capernaum são pessoas que tem histórias parecidas com a dos personagens que aparecem no filme. Assim, a vida de Zain se assemelha, até certo ponto, à do seu personagem, assim como a de Rahil/Tigest, que era uma “indocumentada”. Para escrever o papel da mãe de Zain, Nadine Labaki se inspirou em uma mulher que ela conheceu, que tinha 16 filhos em condições semelhantes ao dos personagens de Capernaum. Seis dos filhos dessa mulher morreram, e vários outros estão em orfanatos por falta de cuidados dos pais.

Capernaum é uma ficção baseada em elementos e fatos que Nadine Labaki realmente viu enquanto fazia o trabalho de pesquisa de campo para esta produção. De acordo com a diretora e roteirista, nada no filme foi fantasiado ou imaginado. Pelo contrário, ela gosta de enfatizar, tudo que vemos em cena é resultado do que a diretora/roteirista observou em visita a bairros desfavorecidos, em centros de detenção e prisões juvenis onde ela foi sozinha. Ou seja, o que a gente só pensava ser possível, vendo o filme, se confirma como a mais pura realidade.

Esse mundão é muito grande e muito desigual. E há muita miséria material e humana por aí sim. Ainda que a gente normalmente não conviva com ela, mas não dá para ignorar de que ela existe. Capernaum nos mostra bem isso.

As filmagens de Capernaum duraram seis meses e resultaram em 12 horas de filme. O trabalho de edição, para condensar tudo isso em cerca de duas horas, demoraram dois anos.

Capernaum recebeu uma ovação de 15 minutos após a sua estreia no Festival de Cinema de Cannes. Se eu estivesse lá, certamente aplaudiria também.

Muitos dos atores escolhidos para Capernaum estrearam no cinema com o filme. Nadine Labaki disse que isso era necessário para que ela visse uma “verdadeira luta” na telona. Realmente cada um deles passa muita verdade nos seus papeis.

Capernaum significa “caos”, em árabe. O nome também faz alusão a uma cidade bíblica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,4 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 131 críticas positivas e 16 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 7,83. As duas notas bem acima da média que costumamos ver nesses sites. O Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 75 para Capernaum, fruto de 27 críticas positivas, cinco medianas e uma negativa.

De acordo com o site Box Office Mojo, Capernaum faturou US$ 1,57 milhão nos Estados Unidos. Não existe informação sobre o resultado do filme em outros mercados.

Capernaum é uma coprodução do Líbano, da França e dos Estados Unidos. Ele teria custado cerca de US$ 4 milhões.

CONCLUSÃO: Pensem em um filme punk. Destes que vai criar desconforto e que vai te deixar “mal” por um tempo. Ainda assim, Capernaum é um filme que, podemos dizer, tem um final feliz. Mas com tudo nessa vida, o que importa é a trajetória, o caminho e o que ele nos ensina. Um filme duro, mas muito necessário. A miséria material não é uma escolha, mas a miséria humana sim. Importar-se com o outro ou ser indiferente, exceto se você sofre de algum transtorno mental, é uma escolha. Crianças deveriam ter o direito de serem crianças. Mas nem sempre é isso que acontece. Mas elas tem muito a nos ensinar. Um filme incrível, potente e imperdível. Um dos melhores do ano.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

1 Resposta

  1. Marcus

    Olá! sua resenha me inspirou a falar/ escrever sobre esse filme que assisti tem alguns meses.

    A arte não tem limites, o cinema sendo sua sétima forma tem Capernaum um filme exemplar que extrapola quase todas experiências sensoriais possíveis. Você sente o cheiro da rua, da comida, você sente a fome de Yonas, a esperança da Tigest, o desespero e medo de Sahar, e a solidão e coragem de Zain.
    A miséria como você descreveu vai além das questões econômicas e materiais, convivemos diariamente com a miséria humana e desprezo pelos iguais: crianças abandonadas nas ruas, idosos esquecidos em asilos, pessoas com transtornos mentais descartadas em sanatórios, etc. Seres humanos que não tem a sorte ou privilegio de serem vistos ou tratados como tal. Coisa que por incrível que pareça a própria sétima arte colaborou, com suas historias de mocinhos e bandidos, deformando culturalmente povos e nações, ajudando a difundir a ideia de seres/ sociedades mais perfeitas que outras.
    Mas Capernaum apesar de tudo, ele também dá esperança. O caminho é longo e o processo é lento.
    Grande abraço!

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