Chloe – O Preço da Traição

Um filme envolvente, provocante, ousado e, até certo ponto, atrativo. Chloe joga com as palavras e a imagem de forma exata, bem calculada, mas sofre da síndrome de muitas outras produções: derrapa em saídas pouco convincentes perto do final. E o pior: de maneira ligeira e um bocado descuidada. Ainda assim, não deixa de ser um filme interessante por conseguir mexer com certa criatividade em temas como a fidelidade no casamento, crise matrimonial, desejos “proibidos”, bissexualidade e, claro, a libido. Mais conhecido por apresentar uma cena ousada entre as atrizes Julianne Moore e Amanda Seyfried, Chloe tem a sorte de contar com uma direção ajustada e com atores afinados, ainda que seu roteiro deixe a desejar e culmine em um final deplorável.

A HISTÓRIA: Uma garota seminua, de costas para o espectador, sentada em uma cadeira, começa a se vestir. De frente para um espelho envelhecido, ela não parece ter nenhuma pressa. Essa garota começa a dizer que, em sua profissão, as palavras são tão importantes quanto seus atos. Seus gestos lentos, enfocados pela câmera, revelam tanto juventude quanto beleza. Garota de programa, Chloe (Amanda Seyfried) está acostumada a se moldar para cair nos gostos e fantasias de seus clientes. Observada de forma displicente pela médica Catherine Stewart (Julianne Moore), Chloe logo será contratada para colocar à prova a fidelidade do marido de Catherine, o professor universitário David (Liam Neeson).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Chloe): A primeira idéia vendida por este filme é que as aparências enganam. E que frases de efeito podem cair no colo do espectador a qualquer momento. Logo nas primeiras linhas, a protagonista nos fala sobre a força das palavras para seduzir. E serão elas, assim como a atuação de uma perspicaz Amanda Seyfried, que irão mexer com a libido do espectador por boa parte desta história.

Achei curiosas as “apresentações” das duas personagens principais de Chloe. Depois daquela introdução sobre o uso das “palavras” para seduzir, ouvimos Julianne Moore, no papel da ginecologista Catherine Stewart, ensinar que o “orgasmo é apenas uma série de contrações musculares”. Sim, o sexo, o desejo, o prazer e a libido são os temas principais desta história. Ainda que a frase dita por Catherine pareça um tanto “deslocada” – assim como várias outras do roteiro -, sem dúvida ela está ali por uma razão: para justificar a idéia central desta história. Por que, por mais que Chloe pareça um filme ousado, na verdade ele é bastante conservador.

O casal Catherine e David vivem uma típica história de crise conjugal. Sua relação, todos os minutos do filme insistem em reafirmar, esfriou. A forma com que este esfriamento é abordado chega a ser exagerada. Afinal, por mais que eles estejam em um momento glacial, difícil acreditar que não haveria momento algum de aproximação entre eles. Mas ok, tudo deve ser potencializado para que o roteiro de Erin Cressilda Wilson, baseado no texto original de Anne Fontaine para o filme francês Nathalie… (de 2003, estrelado por Emmanuelle Béart e Gérard Depardieu), possa caminhar em terrenos “confortáveis” e extremistas. Segundo Hollywood, um filme bom é aquele que não cria muitas dúvidas na cabeça do espectador.

A era glacial para os Stewart tem a ver com a dificuldade que ambos tem em lidar com o filho adolescente Michael (Max Thieriot). Freud e outros psicanalistas explicariam bem a relação vista na telona envolvendo pai, mãe e filho. Mas deixemos as observações psicológicas para lá desta vez – até porque a idéia de atração/repulsa entre mãe e filho praticamente não é explorada por esta história. O que realmente interessa é a insegurança de Catherine em relação ao marido e o que ela resolve fazer para “resolver” essa angústia crescente alimentada pelas dúvidas da infidelidade.

Por grande parte do filme, a forma com que se desenvolve a aproximação de Chloe de Catherine e, depois, de David, prende e excita o espectador. O uso das palavras é fundamental neste processo – tanto que os momentos em que os atos deixam de ser “narrados” para serem “mostrados” tornam o filme um pouco menos interessante. Como quando lemos um livro, a força da imaginação ao escutar as histórias de Chloe as torna muito mais interessantes do que a visualização pura e “simples” do que está “acontecendo”.

Enquanto Catherine sofre com a indiferença do marido e com as dúvidas cada vez maiores sobre se ela está sendo traída, Michael desafia a autoridade da mãe. Catherine, em outras palavras, parece estar na pior fase da sua vida – se sente rejeitada, desprezada, um verdadeiro lixo que esqueceram de colocar para o caminhão levar. Chloe, muito inteligente, cuida para que o primeiro contato que as duas vão ter, pessoalmente, seja feito de maneira que elas se “reconheçam”. Mesmo com todas as diferenças que as separam, o encontro delas no banheiro revela duas mulheres “tristes” e “desprezadas pelos homens”.

Julianne Moore convence como uma mulher naturalmente direta que, ao sentir-se estranhamente insegura, revela medo e insegurança na hora de contratar uma garota de programa para testar o marido. Amanda Seyfried, por sua vez, rouba a cena como uma garota experiente e conhecedora do “gênero humano” na mesma medida em que sabe destilar “inocência” e vulnerabilidade sempre que necessário. Em outras palavras, ela está perfeita. Até certo ponto, Chloe faz lembrar a The Girlfriend Experience, de Steven Soderbergh – pelo menos no quesito de mostrar um pouco da vida “real” de uma garota de programa.

Assim o filme segue bem no caminho de provocar e instigar o espectador. Nos conduz a todos pelas mãos em um caminho um tanto óbvio e convincente – quer dizer, até que a “racional” Catherine resolve dar o “troco” no marido “traidor” justamente com Chloe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Certo que mulheres com o orgulho ferido, muitas vezes, resolvem partir para o revide puro e simples. Mas a forma com que Catherine decide dividir uma cama com Chloe, digamos assim, ficou um tanto quanto forçada demais. Mas ok, talvez ela quisesse realmente experimentar uma via diferente, mais do que simplesmente “dar o troco” para o maridão. De qualquer forma, a sequência entre as duas ficou realmente quente. Depois deste ponto, contudo, o filme resolve adotar uma política de reviravoltas seguidas que acabam por decepcionar, muito mais que por surpreender, o espectador.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas para mim não foi surpresa alguma a descoberta de que David, na verdade, era fiel. E que todas aquelas histórias de Chloe eram mentira. Até aí, tudo bem. Ainda que a forma com que a história foi contada para que a desconfiança sobre ele fosse potencializada já demonstrava um bocado de exagero e certa “forçada” de barra – desnecessário, vamos combinar. Um pouco mais de sutileza e “dúvida” teria feito bem ao filme. Mas o pior mesmo foi a justificativa para as mentiras de Chloe. Perto do final, tudo o que ela fez fica resumido a uma obsessão da garota por Catherine. Obsessão essa bastante difícil de acreditar – ou, em outras palavras, pouco sugerida pela história.

Vejamos: quem observava quem, antes do primeiro encontro entre as duas? Aparentemente, Catherine estava ciente da existência de Chloe, mas não o contrário – pelo menos o filme não mostra isso em parte alguma. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Então Chloe é destas garotas que se “apaixonam” à primeira vista e que, rapidamente, ficam obcecadas. Vocês acreditam nisso, de verdade? Porque então não sei como ela sobreviveu tanto tempo… afinal, pela quantidade de pessoas que ela conhecia cotidianamente, por causa de sua profissão, ela deveria se apaixonar perdidamente com bastante frequência. E virar uma louca obcecada, manipuladora e extremista rapidamente. Não, acho bem difícil acreditar em uma história assim. Essa “descambada” no final, transformando toda a atração e interesse de Chloe por Catherine em “loucura” e obsessão, estragam o filme. Sem contar a sua escolha por “reviravoltas” repentinas e pouco convincentes, assim como um final “trágico” bastante dispensável (e, mais uma vez, pouco crível). Uma verdadeira pena.

NOTA: 7,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Chloe é dirigido por Atom Egoyan, o egípcio com moral no Exterior que filmou, anteriormente, a produções premiadas como Adoration, Ararat, entre outras. Ele faz um trabalho interessante, mais uma vez, especialmente em seu cuidado com os detalhes e, a todo o momento, em exprimir ao máximo o encantamento e a sensualidade das atrizes principais. Ainda assim, faltou um pouco mais de aposta no “sex appeal” do ator Liam Neeson. Ainda que para muitas ele possa parecer sempre atraente, em Chloe, definitivamente, ele não tem seus “predicados” tão explorados quanto os das atrizes Julianne Moore e Amanda Seyfried. E o jovem Max Thieriot, coitado… fica léguas distante do conceito de alguém provocador da libido alheia.

Da parte técnica do filme, gostei muito da direção de fotografia de Paul Sarossy, antigo colaborador de Egoyan. Ele faz um trabalho limpo, bastante claro, que ressalta a luminosidade e a beleza dos protagonistas. A trilha sonora assinada por Mychael Danna, por outro lado, peca por estar, quase todo o tempo, um tom acima do ideal. Em vários trechos do filme ela chega a cansar pelo exagero.

No quesito bilheteria, Chloe foi um fracasso. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 11 milhões, arrecadou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 3 milhões até o dia 30 de maio. Pouco mais de um quarto do que deveria para, pelo menos, se pagar. Muito ruim.

Na opinião do público e da crítica o filme também não foi bem. Os usuários do site IMDb que, normalmente, são bastante generosos, deram a nota 6,6 para Chloe. Os críticos que tem seus textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram ainda mais duros com a produção: dedicaram 67 críticas positivas e 60 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 53% – e uma nota média de 5,8.

Chloe estreou em setembro de 2009 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, passou pelos festivais de San Sebastian, Vancouver, Santa Barbara, entre outros. Mas, como é meio óbvio, não ganhou prêmio em lugar algum.

Falando em Toronto, esta produção foi toda filmada naquela cidade canadense.

Para o crítico Liam Lacey, do The Globe and Mail, Chloe poderia ser classificado como “lixo artístico”. Lacey escreveu: “Este é um thriller erótico com tons fortes, criado com estilo e algumas cenas emocionalmente cruas, visando um efeito que é agradavelmente enervante, para não dizer totalmente excitante”. Importante as observações que o crítico faz sobre o trabalho de Egoyan, afirmando que este é o seu projeto mais comercial até o momento, assim como o primeiro filme que ele dirige sem que tenha um roteiro seu como guia.

Achei interessante quando o crítico afirma que Catherine é um “tipo diferente de profissional do sexo” – após referir-se a Chloe como a “profissional” clássica do gênero. Realmente, as duas personagens lidam com o sexo de maneira profissional – ainda que, claro está, utilizando conhecimentos e “ferramentas” muito diferentes para ganhar dinheiro. Achei interessante como Lacey resume a primeira metade do filme, afirmando que a “crueza emocional” de Julianne Moore, assim como o “enigma” da personagem de Chloe seguram bem a história, tornando-a crível. Ele afirma que a “empatia e a tensão” sentidas pelo espectador fazem com que a gente se pergunte se estamos frente a um filme como The Girlfriend Experince ou Fatal Attraction. Boa! 🙂 O crítico finaliza – e acredito que toda a torcida de futebol do mundo deve concordar – dizendo que para um filme “tão inteligente” (pelo menos até a metade), Chloe tem um final muito ruim. Lacey disse que esperava mais do filme e da personagem de Chloe – aos quais chama, categoricamente, de “charlatões”.

Neste texto, o crítico Bill Goodykoontz, do The Arizona Republic, comenta que o filme se mostra interessante durante três quartos de sua duração, mas que no final, ele descamba em direção a um estilo de Fatal Attraction. Ele ressalta o talento e o trabalho das atrizes principais, assim como a escolha do diretor por filmar uma cena, pelo menos, com bastante carga erótica. Para Goodykoontz, a culpa e a confusão que resultam daquela cena são sentidas como verdadeiras por causa do trabalho do diretor e das atrizes. O crítico comenta que o ator Liam Neeson faz pouco em cena – mas lembra que, justamente quando estava filmando Chloe, ele perdeu a esposa, a também atriz Natasha Richardson, em um acidente. No final, Goodykoontz afirma que o problema mesmo foi a história, que terminou de uma forma ridícula.

Encerrando a lista de citações de outros críticos, destaco este texto de David Edelstein, da New York Magazine. Antes de mais nada, gostei do título do artigo dele: “Are you kidding me?!” (ou seja, “Você está brincando comigo?!”, que eu acho que é a pergunta que todos se fazem com o final do filme, hehehehehehehe). Edelstein começa escrevendo: “Poucos filmes se desenvolvem de forma tão obviamente e desconcertadamente errada quanto Chloe, ainda que sua primeira hora seja um potente melodrama em que uma boa, super controlada narração contenha o tema da obsessão incontrolável como uma camisa de força”.

O texto de Edelstein é realmente muito bom – eu recomendo sua leitura. O crítico adentra nas carências e “sentimentos” dos personagens, destacando os contrastes apresentados pela história. Ele ressalta, por exemplo, o talento do diretor Egoyan para “mediar” os seus personagens, ressaltando sempre as formas nas quais eles são enquadrados e, assim, revelar como cada pessoa está isolada uma da outra e do “mundo sem alma moderno”. Como o crítico muito bem observa, Egoyan é um especialista em pessoas e seus isolamentos, mas é menos “seguro de si” quando tem que tratar da forma com que elas se conectam. Isso fica transparente neste filme.

CONCLUSÃO: Um filme menor do que ele poderia ser. Chloe se aprofunda nos desejos humanos, na sexualidade mutante (para alguns) e, especialmente, nos ciúmes e na crise conjugal de um casal, mas acaba descambando para soluções difíceis de acreditar. Provavelmente ele irá provocar indignação em nove a cada dez espectadores. Por isso, se você quiser se arriscar a vê-lo, esteja preparado(a) para um desenrolar de história provocativo, fundado no bom uso de palavras, mas que termina em um baile de “surpresas” que apenas decepcionam. Também é importante dizer que esta produção tem pelo menos uma cena de sexo “ousada” envolvendo as protagonistas. No mais, é um filme bem dirigido e que acerta a mão ao dar o devido valor para as palavras nos jogos de sedução. Assim como uma produção com duas interpretações femininas precisas. Algum acerto ele tem – apesar do final ridículo e decepcionante.