Cold Souls – Almas à Venda

Um filme que começa citando Descartes não pode ser ruim. Ainda mais quando a citação é um grande equívoco e, seu foco, seja a alma humana. Depois desta citação, Cold Souls mergulha nos ensaios de uma peça de teatro. Descartes, ironias sobre a alma e a interpretação de um ator integram este filme que, ao mesmo tempo que exige senso de humor, caminha a passos largos para não agradar ao “grande público”. Afinal, quem quer saber de filosofia, das dores da alma, do grande “mercado de produtos” em que nos convertemos e, de quebra, sobre o fazer artístico artesanal hoje em dia? Poucos, claro. Se você é um destes poucos, provavelmente vai achar este filme, no mínimo, interessante.

A HISTÓRIA: Um ator (Paul Giamatti) está entregue ao seu personagem amargurado, em conflito, desesperado. A câmera se distancia um pouco e percebemos que ele está em um teatro, ensaiando a sua próxima peça. Contaminado pelo personagem, o ator não acredita em seu próprio talento, em sua capacidade para levar até o final o seu trabalho atual. O diretor de teatro (Michael Tucker) deixa claro a sua preocupação com o desempenho do protagonista. Em um certo dia, o agente de Paul, Max, comenta com ele sobre  um artigo na revista The New Yorker que trata de um serviço de “depósito de almas”. Mesmo descrente, Paul busca a empresa que promete aliviar as angústias humanas retirando a alma das pessoas. Nesta empresa, ele acaba conhecendo a misteriosa russa Nina (Dina Korzun).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler apenas aqueles que já assistiram a Cold Souls): Logo no início do filme o diretor de teatro decepcionado com Paul Giamatti diz uma frase que resume como Cold Souls deve ser encarado: “Isso não é uma tragédia. Cadê o seu senso de humor”. Por mais que o filme com direção e roteiro de Sophie Barthes tenha uma grande carga de “seriedade”, ironia e, até podemos dizer, crítica ácida, nada disso é apresentado nestas embalagens. Não. O humor perpassa o filme do início ao fim, exigindo do espectador um senso de humor constante, assim como atenção para os detalhes de uma produção um tanto “tresloucada” que leva até as últimas consequências os aspectos de uma sociedade que tenta comercializar de tudo, colocar valores em caixas que podem ser encontradas em lojas de departamento e que valoriza o “estar bem” e “leve” muito mais do que o conhecimento ou as dificuldades que nos fazem crescer.

Alguns, ao assistirem Cold Souls, certamente irão se lembrar de Being John Malkovich e Adaptation. A ligação entre os filmes nasce pela “brincadeira” com que os três fazem sobre o autoconhecimento, o indivíduo, suas crises e, claro, a figura de um ator conhecido brincando com sua própria imagem. Mas as semelhanças terminam por aí. Cold Souls dá passos interessantes em direções que os filmes de Spike Jonze não haviam seguido. Para começar, a produção de Sophie Barthes coloca em evidência os bastidores de uma peça de teatro. E não qualquer uma, mas a densa obra russa Tio Vânia, de Anton Tchekhov, uma peça existencialista que reflete sobre o que fazemos com o nosso tempo, com nossas relações, com nossa existência.

Neste texto sobre uma montagem da peça feita por Celso Frateschi, destaco a reflexão que Tio Vânia faz sobre questões como as de “qual é a alma do nosso tempo e qual é o tempo de nossas almas?”. O interessante é a forma com que Cold Souls trata estas questões com o mesmo “humor, inteligência, ironia e drama” com que a própria peça Tio Vânia trabalha. Essa característica me faz lembrar o ótimo texto de Michael Cunningham, que posteriormente renderia o filme The Hours, e que “recria” os valores do romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf. Ok, mas vamos deixar de citar referências, porque daí não paro mais. 🙂

Se fizéssemos as perguntas anteriores sobre a “alma do nosso tempo” e o “tempo de nossas almas”, que respostas encontraríamos? Esta é uma das premissas de Cold Souls. E as respostas não são das melhores. Porque uma das almas – para não dizer a única – do nosso tempo é justamente a mercantilização de tudo. Amor, liberdade, paz de espírito, praticamente tudo que pode ser classificado como importante virou, de diferentes maneiras, objetos de consumo (leia-se de compra e venda). A publicidade, a imprensa, as empresas e as pessoas compram e vendem estes conceitos, idéias, sentimentos. Como se eles realmente pudessem ser comercializados. Uma reflexão sobre isto é o que propõe Sophie Barthes. Mas de forma exagerada, cômica, apostando que as críticas e reflexões chegam mais longe através da comédia.

Apostando na “alma do nosso tempo” como a do mercado regulando tudo – de valores, sentimentos, até pessoas – Cold Souls mostra um tipo de negócio que aposta na frase de Descartes. De que nossa alma está escondida em uma pequena parte do nosso cérebro. Se ela pode ser identificada, pode ser extirpada. E aí começa a comédia. “Você sente que sua alma está lhe incomodando, lhe deixando pesado(a)? Pois bem, utilize os nossos serviços e se livre de sua alma.” Vamos combinar que essa ironia é das finas! E o mais bacana do filme é que os interessados não apenas podem se livrar de suas almas “pesadas” mas, caso se sentirem “muito vazios” sem alma alguma, podem adotar a de uma outra pessoa por um tempo. 🙂

A ironia disto chega a pontos extremos quando oferecem para Paul Giamatti a alma de um “poeta ou ator” russo. Quem sabe, assim, ele não consegue mergulhar com muito mais profundidade em Tio Vânia? hahahahahahaha. Brilhante. A idéia do “mercador de almas” ou do “homem que vende a sua alma ao diabo para conseguir um favor” passam pela lembrança, ainda que o filme não toque, em momento algum, em questões religiosas. Não é preciso. Sua intenção não é tratar das questões do “Céu”, mas olhar com atenção para as terrenas.

Além das reflexões e ironias anteriores, Cold Souls tem tempo para refletir sobre as desigualdades que existem em um tempo em que o mercado domina as pessoas. Desta maneira, é  possível perceber uma diferença gigantesca entre uma ponta do negócio, aquela das pessoas que tem dinheiro para gastar no caríssimo serviço de “depósito de almas”, e aquelas que estão na outra ponta do negócio, ou seja, as que vendem as suas almas a custos baixos para sobreviver. Eis o drama de Cold Souls. E ele não é leve – ainda que nunca seja abordado com grandes discursos ou comoção. Mas incomoda, certamente, todas as vezes que Nina aparece buscando, na colapsada Rússia, pessoas que, por necessidade, entregam suas almas para exploradores.

Como todo negócio absurdo, este do “depósito de almas” tem os seus furos e seus “efeitos colaterais”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ficar sem a própria alma, Paul Giamatti e outros clientes do serviço vão descobrir, tem os seus “problemas”. A pessoa passa, digamos assim, a não sentir nada. Está leve, claro, mas se torna incapaz de sentir amor, tesão, qualquer “coisa que se sinta”, como diria certa música. A saída? Alugar uma outra alma – por que você não vai querer a sua alma “pesada” de volta, não é mesmo? E daí vem outro aspecto curioso e, eu diria, o mais bonito do filme: “adotar” a alma de outra pessoa não é tão simples quanto encher uma caixa de sapatos de papéis. Não.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A “mula” Nina, por exemplo, está praticamente incapacitada de obter a sua alma de volta. Não apenas porque ela não tem recursos para isso. Mas porque – e aí está a beleza desta idéia -, ao carregar tantas almas para cima e para baixo (leia-se da “pobre” Rússia para o “rico” Estados Unidos), ela foi ocupando o espaço que era da sua com a dos outros. Porque quando você assume a alma de outra pessoa e depois se livra dela, fica com uma pequena parte contigo. Que bonito! Isso acontece nos encontros da vida. Quando duas pessoas se encontram, se identificam, conhecem uma a alma da outra, ao partir elas não saem apenas com o que tinham antes, mas com um bocado do que a outra pessoa tinha/tem. Desta forma, Cold Souls termina de uma maneira poética, bonita, com dois “estranhos” se identificando porque souberam partilhar suas almas – Nina, literalmente, transportou a alma do ator; Giamatti, figurativamente, porque conheceu a Nina.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Paul Giamatti é um sujeito de sorte. Ele teve algumas produções, em sua carreira, feitas sob medida para que ele mostrasse o seu talento como intérprete. Cold Souls é uma destas. O filme inteiro é feito para ele brilhar. Afinal, na órbita de seu personagem é que todos os outros intérpretes giram. Tragicômico, angustiado, divertido, Paul Giamatti caminha com suavidade pelos diferentes estágios da produção. Sem dúvida mais um grande trabalho deste ator com 29 prêmios no currículo.

Ainda que Cold Souls é um filme centrado na interpretação de Paul Giamatti, esta produção abriga alguns atores importantes em papéis secundários. O primeiro a se destacar, da lista, é David Strathairn como Dr. Flintstein, o homem responsável por guardar a alma do protagonista – e de quem mais se interessar pelos serviços da empresa para a qual ele trabalha. Lauren Ambrose, conhecida pela série Sex Feet Under, interpreta a Stephanie, a secretária e recepcionista da empresa de Dr. Flinststein. Emily Watson interpreta a Claire, esposa de Giamatti, em um papel muito pequeno e quase “sem importância” na história. Fechando a lista de papéis e intérpretes mais importantes, vale citar Armand Schultz como Astrov, o russo responsável por enviar almas ilegalmente para os Estados Unidos, e sua namorada, Sveta, interpretada por Katheryn Winnick.

O casal Astrov e Sveta, aliás, rende pelo menos uma bela ironia neste filme. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu a Cold Souls). Lindíssima, aspirante a atriz, Sveta acredita que irá melhorar a sua “performance” se conseguir a alma de um importante ator dos Estados Unidos. Seu sonho é ter a alma de um Al Pacino, Kevin Spacey, George Clooney, Robert Redford, entre outros. Mas nenhuma mulher. hahahahahahaha. Que maldade! 🙂 Interessante também a forma com que ela passa a agir quando acredita que está com a alma de um destes… no melhor estilo efeito placebo, Sveta se sente muito mais capaz de atuar do que antes. Curiosos os efeitos que a autosugestão podem provocar nas pessoas.

A direção de Sophie Barthes é envolvente e precisa. A diretora francesa sabe a hora exata de distanciar ou aproximar a sua câmera dos personagens. Vale destacar ainda a direção de fotografia essencialmente luminosa de Andrij Parekh e a trilha sonora ajustada de Dickon Hinchliffe. Na parte dos laboratórios nos Estados Unidos e o contraste com a realidade russa, foi fundamental o trabalho do design de produção de Beth Mickle e a direção de arte de Michael Ahern.

Especialmente cômico o momento em que Giamatti descobre que a sua alma está sendo usado por Sveta para interpretar uma personagem em uma novela (“one fantastic soap”, como disse Astrov). hahahahahahahaha. Quando ele diz que sua alma pode ser arruinada por algo assim, sou obrigada a concordar, pensando em muitas novelas do Brasil e de outros países, que de tão ruins chegam a doer na alma – do cidadão comum, imagina de quem tem algum talento interpretativo. 🙂

Gostei da atriz Dina Korzun. Ela é muito segura de seu papel e mostra bastante suavidade na interpretação. Ainda que, muitas vezes, não consegui deixar de pensar que ela seria perfeita no filme Blade Runner. hehehehehehe.

Cold Souls estreou em janeiro do ano passado no Festival de Sundance. Depois, em maio, ele foi comercializado no mercado paralelo ao Festival de Cannes. Até o final do ano, participou ainda de outros 15 festivais, incluindo os do Rio e de São Paulo. Nesta sua trajetória, conseguiu um prêmio – melhor ator para Paul Giamatti no Festival Karlovy Vary – e foi nomeado ainda a outros sete prêmios.

Para quem ficou curioso, este filme foi filmado em Nova York e em São Petersburgo, na Rússia.

A produção não foi bem nas bilheterias. Apenas nos Estados Unidos ela arrecadou, até novembro de 2009, pouco mais de US$ 903 mil. Pouco, muito pouco para um filme deste porte – porque, ainda que tenha “cara” de independente, ele certamente consumiu uma grande quantidade de dinheiro por envolver os nomes que ele envolve, no elenco e na produção, e por ter sido filmado parte em Nova York e parte na Rússia.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,6 para o filme. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram um pouco mais generosos: dedicaram 81 críticas positivas e apenas 27 negativas para a produção, o que lhe garantiu uma aprovação de 75% (ainda que a nota média também tenha sido baixa: 6,4).

O crítico Roger Moore, do Orlando Sentinel, escreveu neste texto que Cold Souls é um Eternal Sunshine of the Spotless Mind filtrado por uma visão da Rússia. “Ele é cômico, sim, mas taciturno e pensativo, também, uma valsa de inverno sobre representação, o comércio ilegal e a metafísica”, escreveu Moore. O crítico destaca a entrega de Giamatti e as cenas de inverno em St. Petersburg – cenas estas que, segundo Moore, tem uma beleza brutal da era pós-industrial soviética. Para ele, Cold Souls é uma inteligente e obscura comédia sobre a psique russa e o esforço de um norte-americano em entrar nela. Diria que esta é uma forma de enxergar, ainda que um tanto “limitada”. De qualquer forma, Moore deu quatro de cinco estrelas possíveis para o filme.

Neste outro texto, a crítica Christy Lemire, da Associated Press, começa dizendo que as pessoas estão preocupadas demais com a importância da alma, a ponto dela ser tema de uma série de programas de Oprah Winfrey (hahahahahaha). E afirma que Cold Souls trabalha com uma premissa absurda, mas de forma inspirada. Como eu observei anteriormente, Lemire também comenta que Cold Souls explora algumas questões sobre identidade, memória e realidade que se mostraram bem frequentes nos roteiros de Charlie Kaufman. “David Strathairn é friamente divertido como o inexpressivo Dr. Flintstein, que administra o local (depósito de almas) que se parece com um spa diurno concebido por Stanley Kubrick”, escreveu Lemire. Achei perfeita esta leitura. 🙂

Destaco o momento do texto em que Lemire comenta que o “excesso de resíduos” de Nina a deixa tão confusa, sobre a sua própria identidade, quanto Giamatti está com a sua. A crítica destaca ainda a atuação de Katheryn Winnick e a “fotografia de sonho” de Andrij Parekh, destacando as cenas em St. Petersburg que são, ao mesmo tempo, “leves e desoladas”. Lemire ainda comenta que os temas e as imagens de Cold Souls tornam o filme um “pouco lento”, ainda que seja “revigorante” o fato de que o filme faz as pessoas realmente pensarem.

CONCLUSÃO: Um filme divertido, extremamente irônico e, ao mesmo tempo, crítico e com certa carga dramática. Cold Souls aposta em situações absurdas para tratar da “alma do nosso tempo”. Em outras palavras, questiona a vocação das nossas sociedades – cada vez mais padronizadas – em mercantilizar a tudo e a todos. Seguindo uma premissa de Descartes, de que a alma seria apenas uma “pequena glândula” no nosso cérebro, o filme joga com a idéia de um serviço de negócios baseado na alma – mas sem lidar, para isso, com conceitos religiosos. Bem dirigido e com todo o espaço para uma grande atuação de Paul Giamatti, Cold Souls é uma destas histórias que provoca risada franca para quem tem senso de humor. E reflexão para aqueles que estão atentos a certos “desvios” tão próprios de nosso tempo. Mesmo tendo a ironia e a crítica como pilares principais, o filme ainda tem espaço para uma bonita reflexão sobre os encontros que a vida propicia. Encontros estes que possibilitam que “troquemos” nossas almas de forma simbólica. Criativo, irônico e capaz de valorizar o trabalho artístico (especialmente o teatro), Cold Souls é destas produções recomendadas (talvez não para todos, mas para muitos).