El Orfanato – O Orfanato

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Sigo com o meu desafio de assistir aos possíveis concorrentes ao Oscar 2008 como melhores filmes estrangeiros – desafio que fiz a mim mesma e que comentei antes aqui no blog. Desta vez assisti a El Orfanato, o filme selecionado pela Espanha para representar o país no maior prêmio da indústria cinematográfica mundial. Antes de prosseguir, quero dizer que é com dor que escrevo esse texto, porque eu tinha escrito uma crítica gigantesca antes e o meu excelentíssimo editor de WordPress deu um sumiço inexplicável para o que eu tinha escrito. Então, ao invés de quebrar o computador ou deixar de escrever algo a respeito de El Orfanato, vou me esforçar para escrever algo e terminar o mais rápido possível. Nem preciso dizer o indignada que fiquei, não é?

Bom, no texto anterior eu comentava que El Orfanato pode ser considerado uma superprodução espanhola. Realmente é um filme que cuida dos detalhes e da qualidade técnica. Não por acaso ele conseguiu arrecadar algo como € 20,4 milhões em pouco mais de um mês, apenas na Espanha, e se tornar o terceiro filme mais assistiu do ano aqui – só perdendo para Piratas do Caribe 3 e Shrek 3. Também é o quarto filme espanhol com melhor bilheteria já registrado – perde apenas para Os Outros, La Gran Aventura de Mortadelo y Filemón e Torrente. Os produtores do filme, em especial a “major” Warner – com subsede na Espanha – estão contentíssimos, é claro. No quesito qualidade o filme realmente pode chegar a ser finalista ao Oscar… agora, para ganhar a cobiçada estatueta El Orfanato precisará de muito lobby e, principalmente, vencer o perfil tradicional de Hollywood.

A HISTÓRIA: A história começa mostrando a pequena Laura brincando com seus amiguinhos do Orfanato Bom Pastor. Em pouco tempo ela terá que se despedir deles, porque será adotada por uma família. O tempo passa e, muitos anos depois, Laura (Belén Rueda) volta para o local junto do marido, Carlos (Fernando Cayo) e do filho Simón (Roger Príncep). O casal está reformando a casa com o objetivo de transformá-la em um abrigo para crianças com dificuldades para se locomover ou com problemas mentais. Mas antes de concretizarem os seus planos, Laura e Carlos devem lidar com a imaginação fértil do filho Simón, com estranhos acontecimentos na casa e com a inesperada e ameaçadora visita de Benigna (Montserrat Carulla). A situação piora quando Simón desaparece.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir contas momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a El Orfanato): Como comentava antes, o filme prima pela qualidade técnica. Realmente o diretor Juan Antonio Bayona e equipe fazem um bom trabalho narrativo utilizando efetivos e pontuais efeitos especiais. Nada é usado em exagero, mas apenas para dar força às cenas. O roteiro de Sergio Sánchez também me pareceu competente, especialmente porque ele faz o que se espera de uma boa história de suspense: começa morno, apresentando os personagens e seu contexto, para em seguida ir em um crescente dramático até o ápice da história. Ainda assim, o filme tem alguns falhos – que comento mais adiante.

As intepretações são competentes, com especial destaque para a participação pequena mas intensa de Geraldine Chaplin como a vidente Aurora. Para mim a sua presença no filme é um dos melhores momentos de El Orfanato. No mais, Belén Rueda, por exemplo, está bem, ainda que algumas vezes me parece que ela está mais preocupada em como vai “aparecer” frente às câmeras do que em realmente “vestir” a pele de sua personagem. Ainda assim, ela tem uma presença magnética em tela e, realmente, é uma mulher muito bonita. O drama da busca por seu filho realmente convence.

Como eu dizia, o roteiro é competente, ainda que ele “force uma barra” no final. (REALMENTE NÃO LEIAM DAQUI POR DIANTE SE NÃO VIRAM AO FILME). Ninguém me convence, afinal, da maneira com que Simón foi morto. Vejamos: se ele tivesse morrido na gruta perto do mar ou se tivesse, por exemplo, caído em um “poço no jardim”, eu até poderia aceitar. Mas ele “desaparecer” em um porão na casa dos pais, sendo procurado por meses e meses, e ninguém ter se dado conta? Primeiro, acho difícil eles não procurarem o garoto naquele local – afinal, procuraram em todos os cantos da casa e em diferentes cidades e estados. Depois, mesmo que eles “desconhecessem” o porão, alguém vai me convencer que o menino, passando sede e fome, não chamaria por ajuda? E, chamando por ajuda, não seria escutado? Então, realmente, o desfecho é de matar. Também acho que o fato da mãe ter matado o filho acidentalmente e, depois, ter se matado para “acompanhá-lo” não é o tipo de história que a Academia premiaria. Cá entre nós, acho que o nosso representante brasileiro tem muito mais chances que El Orfanato – ainda que não tenha a força do lobby de uma Warner a seu favor.

O diretor Juan Antonio Bayona, como eu disse antes, faz um bom trabalho. Gostei, especialmente, da sequencia em que ele “acompanha” Laura na cadeira-de-rodas em busca de seu filho, pelo corredor da casa. Ele realmente tem algumas sequencias de câmera bem interessantes, ainda que dirija um filme que lembre muito a tantos outros sobre “casas assombradas” e “espíritos que não descansam depois de sofreram mortes violentas e/ou injustas”. O diferencial de seu filme, talvez, seja o fato de misturar elementos “tão batidos” com uma releitura de Peter Pan, de fantasia e da vontade de ser “jovem para sempre” – o que, no caso das crianças, passa pela morte.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dei a nota 8,5 para o filme em respeito ao 9 que tinha dado antes a XXY – que achei um filme mais sensível e mais interessante que El Orfanato. Ainda que a produção espanhola tenha muitas e muitas qualidades técnicas, é claro. Como entretenimento, é um filme competente.

No site IMDb, meu banco de dados preferido de cinema na net, El Orfanato ganhou a nota 7,8. Por outro lado, os críticos do site Rotten Tomatoes conferiram 13 críticas positivas para o filme e 5 negativas. El Orfanato ainda não chegou aos cinemas norte-americanos – por isso também o “baixo” interesse da crítica a seu respeito. Ele apenas estreou no dia 29 de setembro no Festival de Cinema de Nova York. Nos cinemas comerciais ele estréia apenas no dia 28 de dezembro, e ainda com poucas cópias, nos cinemas estadunidenses.

Para quem gostou das locações do filme, comento que ele foi filmado na costa de Llanes, perto de Oviedo, Astúrias, e também em Barcelona.

O filme é uma co-produção da Espanha e do México.

PALPITE PARA O OSCAR: Pela qualidade técnica do filme e pelo poder de barganha da Warner El Orfanato pode chegar a ser selecionado como um dos finalistas para o Oscar. Ainda assim, acho difícil que ele ganhe o prêmio, especialmente porque segue uma temática que não é uma das preferidas da Academia.

CONCLUSÃO: Como suspense é um filme que passa por bom entretenimento, especialmente porque cuida dos detalhes técnicos e porque tem uma boa direção. Tenta ser uma mescla de terror com fantasia, o que pode ser interessante e, ao mesmo tempo, perigoso – ou poético, depende do ponto de vista.

ATUALIZAÇÃO (SPOILER – aviso que o texto à seguir conta a última versão sobre o final do filme, por isso recomendo que não continue a ler quem ainda não assistiu a El Orfanato): Como falei lá embaixo, nos meus comentários, eu tenho que admitir que errei. Escrevo esta atualização só agora porque, finalmente, consegui rever o filme. E agora, assistindo novamente ao final dele, devo concordar com os leitores deste blog André Feltrin, Rogério Silva, Lucas Rosa e Bean. Como todos eles disseram nos comentários ali embaixo também – muito obrigada a todos e cada um de vocês! -, Simón morreu logo após entrar no porão. Na primeira vez que vi ao filme me confundi com a hora em que Laura encontra o “espírito” de Simón longe da escada e não reparei, depois, quando ela encontra o cadáver do filho, de que ele está logo abaixo do lugar em que o corrimão da escada está quebrado. Revendo o filme ficou claro, ao menos para mim, que ele morreu ao cair e que, por isso, não pôde pedir socorro e, consequentemente, ser ouvido pelos pais. Com isso, Laura não foi a “culpada” por ter trancado o menino e por ter matado o próprio filho, como eu tinha entendido, mas trancando a saída ela apenas evitou dele ter sido encontrado antes.