If Beale Street Could Talk – Se A Rua Beale Falasse

Um dos filmes mais contundentes sobre a discriminação racial e a falta de igualdade de direitos nos Estados Unidos. If Beale Street Could Talk é uma história simples, mas muito bem escrita e com propósitos claros. Além de mostrar, sem meandros, como os negros nos Estados Unidos foram e continuam sendo tratados como seres inferiores, essa produção também foca em uma história de amor poderosa. Sem dúvida alguma, If Beale Street Could Talk tem muitas qualidades. Apesar disso, acho que ele poderia ser um pouco mais curto. Facilmente poderíamos tirar meia hora da produção sem que ela ficasse pior.

A HISTÓRIA: Começa com uma apresentação de James Baldwin sobre a Rua Beale: “A Rua Beale é uma rua em New Orleans onde o meu pai, Louis Armstrong e o jazz nasceram. Cada pessoa negra que nasceu na América nasceu na Rua Beale, nasceu no bairro negro de alguma cidade americana, seja em Jackson, Mississippi, ou no Harlem, New York. A Rua Beale é o nosso legado. Esse romance trata da impossibilidade e da possibilidade, a necessidade absoluta de dar expressão a esse legado. A Rua Beale é barulhenta. Deixo ao leitor a tarefa de discernir o sentido da batida”.

Na primeira sequência, o casal Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James) descem uma escada. Eles caminham de mãos dadas por um lugar tranquilo. Quando chegam próximos da avenida, eles se olham. Tish pergunta se ele está pronto. Fonny diz que ele nunca esteve tão pronto em sua vida. Eles se beijam. Na próxima cena eles se olham através de um vidro, porque Fonny está preso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a If Beale Street Could Talk): Esse é o típico exemplo de uma produção que começa muito, muito bem e que depois acaba diminuindo a sua força com o passar do tempo. O melhor de If Beale Street Could Talk é o seu começo, quando temos uma presença maior do texto de James Baldwin através da narrativa de Tish Rivers. Do meio para o final, o filme acaba ficando um tanto repetitivo com a evolução lenta do caso de Alonzo “Fonny” Hunt.

Isso não tira o mérito da produção, que tem outras qualidades. Além do texto de James Baldwin, presente em seu romance adaptado pelo roteirista e diretor Barry Jenkins, o filme tem como ponto alto o trabalho dos atores envolvidos no projeto. Todos estão muito bem, mas destaco o trabalho de duas atrizes: KiKi Layne como a protagonista e Regina King como Sharon Rivers, a mãe de Tish. Elas roubam a cena cada vez que aparecem, é algo impressionante.

A história começa muito bem, com a problemática do casal Tish e Fonny sendo apresentada de forma franca e direta. Fonny acaba de ser preso, e Tish apresenta a ele, à sua família e a nós, espectadores, a sua gravidez. Isso logo nos primeiros minutos da produção. A expectativa e o drama estão armados porque nós – e nem os personagens –  sabemos ainda por quanto tempo Fonny ficará preso. Todos desejam que ele saia logo da prisão. Afinal, ele foi injustamente acusado de estupro. Mas, como Tish nos fala logo no início de If Beale Street Could Talk, essa história se passa nos Estados Unidos, um país que se acostumou a tratar os negros de forma diferente e desigual.

Então a problemática está toda armada. De forma inteligente, Jenkins equilibra a narrativa no “tempo atual” com o retorno no tempo através de flashbacks para conhecermos melhor a história do relacionamento de Tish e Fonny. Um dos pontos altos do filme é quando a família de Tish convida a família de Fonny para contar-lhes a novidade da gravidez de Tish. Nesse momento, temos um exemplo contundente como o fanatismo envolvendo a “fé” pode provocar mais danos do que trazer soluções.

A reação da mãe de Fonny, a Sra. Hunt (Aunjanue Ellis), ao saber que Tish está grávida do filho, é estarrecedora. Mas tão típica de quem se acha superior aos demais e usa a “fé” como desculpa para a sua própria crueldade e maldade. Eu poderia escrever um tratado sobre isso, mas não vou. De qualquer forma, vale comentar que este é um dos pontos altos do filme, porque nos faz refletir sobre como as pessoas se dividem e rivalizam em momentos em que elas deveriam estar buscando a união e a empatia.

Até esse momento, o filme vai muito bem. Mas depois que a família de Fonny sai do apartamento, seguimos naquela mesma levada de tempo presente e flashbacks que acabam sendo um tanto repetitivos. Acho que o filme poderia ter uma duração ligeiramente menor e que alguns trechos poderiam ser um pouco condensados. Dou como exemplo toda a narrativa envolvendo Fonny e o seu amigo Daniel Carty (Brian Tyree Henry). Certo que é interessante termos a narrativa de Daniel sobre os terrores da prisão e como ele também foi preso injustamente. Mas os encontros e as interações entre os amigos poderiam ter sido resumidos sem prejuízo para a história.

O mesmo eu vejo em relação ao romance de Tish e Fonny. Algumas sequências poderiam ter sido suprimidas sem maiores problemas. Também acho que a viagem de Sharon Rivers atrás da pessoa que acusou Fonny, Victoria Rogers (Emily Rios) poderia ter aparecido antes na história. Em resumo, If Beale Street Could Talk poderia ter entre 20 e 30 minutos a menos de duração. Isso faria bem para a produção.

Mas, no geral, o filme é muito bem narrado, apresenta uma história envolvente e interessante que perde um pouco de força no meio da narrativa mas que tem alguns grandes momentos. O destaque vai para o texto de Baldwin, geralmente bem trabalhado por Jenkins, e para o trabalho dos atores, que estão muito bem em seus papéis. Todos, sem exceção. É um filme necessário, especialmente pela franqueza com que ele trata o tema da injustiça contra os negros nos Estados Unidos. Algo histórico e que continua acontecendo. Infelizmente.

Além da questão racial, que é algo fundamental nesta produção, algo que gostei em If Beale Street Could Talk é como, no fundo, esta é uma história de amor. Tish simboliza toda a abnegação e determinação de uma mulher que ama. Lembrando trechos da Bíblia, podemos dizer que esta produção resgata todo aquele conceito de que o amor é paciente, de que ele suporta tudo e espera tudo. Como falo na conclusão, inclusive. 😉

Sim, esse filme nos mostra a essência do amor. Não aquele construído sobre falsos preceitos, mas aquele verdadeiro, de uma pessoa que conhece a outra em sua profundidade. Nesses parâmetros, a espera é difícil, mas é suportável. Porque Tish e Fonny, apesar do vidro e das grades, nunca se separaram. Estando juntos, mesmo que não o tempo todo, eles conseguiram suportar a injustiça e o desprezo. Apenas o amor é capaz disso. Nesse sentido, este é um belo filme. Porque nos conta uma história necessária, bela e também inspiradora.

NOTA: 8,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme não deixa claro quando essa história se passa. Mas procurando saber um pouco mais sobre a produção, descobri que a história de If Beale Street Could Talk se passa nos anos 1960. Infelizmente, naquela época, sem a tecnologia que temos hoje de câmeras espalhadas pelas ruas, em lojas e equipamentos de monitoramento, realmente a palavra de um policial que queria ferrar um negro podia valer mais que os fatos. Alguns reclamam do estilo “big brother” em que vivemos atualmente, mas é melhor assim do que antes, quando a perseguição contra uma pessoa podia ser viabilizada porque o ônus da prova é de quem é acusado.

Certo que Fonny estava apenas com a namorada e um amigo ex-presidiário na hora em que o crime de Victoria foi praticado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas nem Tish, a família deles ou o advogado Hayward (Finn Wittrock) poderiam ter conseguido alguma outra testemunha que tivesse visto Fonny entrando em casa e não saindo de lá ou alguém no local em que os fatos aconteceram com Victoria para dizer que um negro não saiu correndo em direção à Rua Beale depois do crime? Eles também poderia ter conseguido testemunhas para expor o preconceito do policial, não? Acho que alguns pontos faltaram ser explorados por essa história.

A grande surpresa desse filme, para mim, nem foi o ótimo trabalho de Regina King como Sharon Rivers, mãe de Tish. Depois dela ganhar todos os prêmios da temporada, inclusive o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, eu já esperava que ela tivesse grandes momentos em If Beale Street Could Talk. Mas quem me surpreendeu pelo excelente trabalho foi KiKi Layne como Tish. Não lembro de ter visto a atriz em outro trabalho, então ela foi uma revelação para mim. Pela característica do filme, como ela é a narradora e também pelo fato do personagem de Stephan James estar preso, é KiKi Layne que aparece na maior parte das cenas. E ela dá um show. Faz uma parceria ótima com James.

Pelo que eu vi, KiKi Layne tem uma trajetória realmente recente. Ela estreou em 2015 no curta Veracity. Depois, ela fez um trabalho na série Chicago Med e estrelou um filme televisivo chamado Untitled Lena Waithe Project antes de estrelar If Beale Street Could Talk. Ou seja, ela praticamente estreia nessa produção. Logo, a veremos em vários outros filmes, começando por Native Son e Captive State, duas produções de 2019 já finalizadas. Acho que vale ficar de olho nela.

Além de KiKi Layne e de Regina King, que se destacam nas suas interpretações, vale comentar o belo trabalho de Stephan James como Fonny; de Colman Domingo como Joseph Rivers, pai de Tish; de Teyonah Parris quase em uma ponta como Ernestine, irmã mais velha de Tish; de Michael Beach também em quase uma ponta como Frank Hunt, pai de Fonny; de Aunjanue Ellis em uma interpretação potente de apenas uma sequência como a mãe de Fonny; de Ebony Obsidian e Dominique Thorne como Adrianne e Sheila, respectivamente, irmãs de Fonny; de Diego Luna também em uma ponta como Pedrocito, amigo de Fonny; de Finn Wittrock como Hayward, advogado contratado para defender Fonny; de Ed Skrein como o policial Bell, que resolve se vingar de Fonny acusando-o de um crime que ele não cometeu; de Emily Rios como Victoria Rogers, a mulher que acusa Fonny; de Dave Franco como Levy, o primeiro sujeito que trata Tish e Fonny como pessoas normais; de Brian Tyree Henry como Daniel Carty, amigo de Fonny e que está com ele quando o crime de Victoria acontece; e de Kaden Byrd como Alonzo Jr, filho do casal. Todos estão bem em seus papéis, sejam eles pequenos ou um pouco maiores do que algumas cenas.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a ótima direção de fotografia de James Laxton e a trilha de sonora com uma pegada forte de jazz e muito presente durante a produção de Nicholas Britell. Também vale comentar a edição competente de Joi McMillon e Nat Sanders; o design de produção de Mark Friedberg; a direção de arte de Robert Pyzocha, Oliver Rivas Madera e Jessica Shorten; a decoração de set de Devynne Lauchner e Kris Moran e os figurinos de Caroline Eselin.

If Beale Street Could Talk estreou em setembro de 2018 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participou, até março de 2019, de outros 13 festivais de cinema em diversos países. Na sua trajetória, o filme dirigido por Barry Jenkins ganhou 87 prêmios – incluindo o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante para Regina King – e foi indicado a outros 151 prêmios. Números impressionantes, realmente.

Além de ganhar o Oscar como Melhor Atriz Coadjuvante, Regina King ganhou o Globo de Ouro na mesma categoria, assim como 39 outros prêmios de Melhor Atriz Coadjuvante – impressionante! Destaque também para 8 prêmios de Melhor Filme, 3 prêmios de Melhor Diretor para Barry Jenkins, 13 prêmios de Melhor Trilha Sonora, 9 prêmios de Melhor Roteiro Adaptado e 2 de Melhor Atriz ou Melhor Performance para KiKi Layne. O filme foi indicado, no Oscar, ainda, para os prêmios de Melhor Trilha Sonora e Melhor Roteiro Adaptado.

Cliques de fotógrafos como Gordon Parks, Jack Garofalo e Paul Fusco foram fundamentais para que o diretor e o diretor de fotografia conseguissem restaurar o clima do final dos anos 1960 e do início dos anos 1970 de Nova York. As fotografias das prisões da cidade feitas por Bruce Davidson também foram usadas como referência. Para acertar na luz, Jenkins e o diretor de fotografia James Laxton analisaram o trabalho de Roy DeCarava. “Queríamos traduzir a linguagem de Baldwin e a energia limpa do Harlem também no visual e na fotografia”, comentaram os realizadores.

O primeiro trailer de If Beale Street Could Talk foi lançado no dia 2 de agosto de 2018, no aniversário de 94 anos do escritor James Baldwin.

If Beale Street Could Talk é dedicado para James Baldwin, que é o escritor preferido do diretor e roteirista Barry Jenkins. Publicado em 1974, o filme tinha rendido, antes, uma adaptação feita por Robert Guédiguian e lançada em 1998.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para If Beale Street Could Talk, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 289 críticas positivas e 17 negativas para o filme – o que lhe garante uma aprovação de 94% e uma nota média de 8,62. O site Metacritic apresenta um “metascore” 87 para o filme, fruto de 52 críticas positivas e de 1 mediana – o site ainda apresenta o selo “Metacritic Must-see” para If Beale Street Could Talk.

De acordo com o site Box Office Mojo, If Beale Street Could Talk faturou US$ 14,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Não é um super resultado, mas também não está mal.

If Beale Street Could Talk é uma produção 100% dos Estados Unidos, por isso esse filme passa a figurar na lista de produções que atendem à uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: O filme começa muito bem e tem trechos realmente preciosos. Ao mesmo tempo, If Beale Street Could Talk acaba sendo um tanto lento e longo demais. Apesar disso, achei a história bonita, muito bem conduzida e com ótimas atuações. Os maiores acertos do filme envolvem o seu discurso, bastante sincero sobre o preconceito racial que atinge negros de forma cruel e desumana nos Estados Unidos – e em outras partes, certamente. Está na hora de falarmos sobre isso com franqueza e de pararmos de fugir do assunto. Além disso, If Beale Street Could Talk nos mostra, de forma muito franca e honesta, como o amor tudo suporta, tudo espera. Ele é forte, ele resiste, ele perdura. Quando é verdadeiro. Um belo filme, com mensagens importantes e muito bem apresentadas.

Sobre Alessandra

Jornalista com doutorado pelo curso de Comunicación, Cambio Social y Desarrollo da Universidad Complutense de Madrid, sou uma apaixonada pelo cinema. Em outras palavras, uma cinéfila inveterada. Também tenho Twitter, conta no Facebook, Polldaddy, Youtube, entre outros sites e recursos online. Tenho 20 anos de experiência como jornalista e hoje trabalho com inbound marketing em Florianópolis (SC), Brasil.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.