In The Valley of Elah – No Vale das Sombras

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Eu gosto de filmes corajosos. De roteiros que não se limitam a contar uma história, mas também a fazer crítica ou a nos fazer refletir sobre questões importantes. Ok, nem sempre temos “paciência” para ver filmes “pesados”, intensos, questionadores. Algumas vezes nosso espírito pede mesmo uma comédia despretensiosa, uma história de amor (ainda que óbvia demais), um suspense ou terror de arrepiar ou um filme de ação que nos deixa “colados” na telona. Mas nenhum destes é o caso de In The Valley of Elah. Aqui o diretor Paul Haggis caprichou no roteiro e na direção para fazer uma importante crítica da Guerra do Iraque – ainda que a história tenha a ver com a primeira Guerra do Golfo – e, mais que isso, uma marcante crítica ao modo de vida dos Estados Unidos e aos problemas que uma guerra causa na essência das pessoas, das famílias e de um país. Pena que o filme parece não ter tido o lobby suficiente para chegar a ser indicado ao Globo de Ouro – e provavelmente ao Oscar.

A HISTÓRIA: O sargento Hank Deerfield (Tommy Lee Jones) recebe uma chamada do Exército em que perguntam de seu filho, o soldado Mike Deerfield (Jonathan Tucker). Hank responde que Mike está na Guerra do Iraque, mas se surpreende ao saber que ele voltou para casa. Inconformado com a notícia – afinal, como o filho pode ter voltado para casa e não ter falado com ele ou a mulher, Joan (Susan Sarandon)? -, ele decide viajar até a base militar em que o filho estava para saber de perto o que está acontecendo. Logo ele percebe que Mike está desaparecido. Em busca da verdade sobre o que aconteceu com ele, Hank pede ajuda da detetive Emily Sanders (Charlize Theron).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta fatos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a In The Valley of Elah): A cada aparição de um ator no filme eu tinha cada vez mais claro que se tratava de um belo projeto. Afinal, não é por acaso que atores interessantes como Susan Sarandon, Jason Patric, James Franco, Josh Brolin e Brent Briscoe, só para citar alguns, estão no filme praticamente em “pontas”, papéis secundários. E claro, não seria um filme qualquer que chamaria a atenção de Tommy Lee Jones e de Charlize Theron. Os dois, aliás, estão fantásticos em seus papéis. Para mim, mereceriam ser indicados a vários prêmios – ainda que não os ganhassem.

Mas voltando a história em si. Achei muito interessante como o roteiro do diretor Paul Haggis – baseado em uma história criada por ele próprio junto com Mark Boal – nos “enreda” em uma investigação policial um pouco fora do comum, deixando em “segundo plano” a questão familiar e de corrupção “da alma” provocada pela guerra (seja ela qual for). Claro que o segundo plano escrevi entre aspas porque eu realmente acho que as críticas e reflexões que o filme faz sobre estes temas nunca deixam de estar nos holofotes, ainda que não pareça ser a mola propulsora principal.

Sendo assim, é muito interessante acompanhar o desenrolar da investigação, passando de uma possível deserção de Mike até a confirmação de seu assassinato. A partir deste ponto, entramos em um jogo de tentar descobrir, junto com os personagens principais, os culpados. E como diz o cartaz do filme, as vezes o pior não é descobrir a verdade, mas encará-la. A parte final do filme realmente foi muito bem escrita. Hank descobre não apenas o lado “podre” da instituição que ele tanto prezava e admirava – a ponto de dedicar sua vida a ela -, mas descobre, principalmente, o quão podre está o sistema que mantêm e corrompe os soldados enviados para a guerra, assim como a podridão dentro de seu próprio cesto – e os erros que ele nunca poderá corrigir.

Só um ator como Tommy Lee Jones poderia interpretar tão bem esse pai que descobre tarde demais a verdade a respeito de seu filho, de si mesmo e dos valores pelos quais sempre lutou. A simbologia da bandeira invertida, para mim, foi a mais bonita a respeito da bandeira dos Estados Unidos nos últimos tempos. Realmente, aquele país precisa divulgar para o mundo que precisa de ajuda, que precisa que organismos externos entrem no país para salvar as pessoas racionais que ainda vivem lá do caos completo. E a crise a que me refiro se passa pela crise de consciências, do bom senso, nada de econômica ou algo do tipo.

Toda a narrativa de como Mike foi morto e das “brincadeiras” que os soldados faziam – inclusive a vítima – durante a guerra é de arrepiar. Depois a descoberta do pai do soldado sobre o momento em que o filho “perdeu a inocência” também é muito forte. Um filme realmente bonito, inteligente e com belíssimos trabalhos de roteiro, direção e atuações. Um conjunto que funciona.

Ah, e o que falta agora mesmo é o envio de ajuda internacional para tomar os Estados Unidos de assalto e restabelecer o bom senso naquele país. Algo que não existe por lá atualmente.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: In the Valley of Elah é o primeiro trabalho do diretor canadense Paul Haggis depois de Crash, filme ganhador do Oscar em 2006. Um belo roteiro depois de ter escrito Crash e a história de Letters from Iwo Jima (Cartas de Iwo Jima).

O filme rendeu o prêmio SIGNIS no Festival de Veneza deste ano e foi indicado a outros três prêmios – mas não ganhou mais nenhum. Como não foi indicado aos principais prêmios da crítica dos Estados Unidos e nem ao Globo de Ouro, dificilmente chegará ao Oscar.

No site IMDb, In the Valley of Elah registra a nota 7,7 dos usuários, enquanto que pelo site Rotten Tomatoes ele recebeu 89 críticas positivas e 40 negativas (um número relativamente grande para o meu gosto, mas fazer o que, nem sempre concordo com os críticos).

O filme foi rodado no Marrocos e nos Estados de Tennessee e Novo México, nos Estados Unidos.

O ator Josh Brolin teve um 2007 realmente incrível. Além de participar deste filme, ele trabalhou em American Gangster, No Country for Old Men e, ainda, em Planet Terror (ainda que este último não seja, na minha opinião, uma grande referência).

O filme foi mal nas bilheterias dos Estados Unidos. No período de 16 de setembro a 9 de dezembro ele faturou pouco mais de US$ 6,7 milhões – muito pouco para os padrões do país, um indício da razão de porque o filme não tem lobby suficiente para o Oscar.

PALPITE PARA O OSCAR: Como comentei antes, acho que o filme não terá forças para chegar a ser indicado ao Oscar. Digo isso levando em consideração que ele foi esquecido pelo Globo de Ouro e pelos principais prêmios da crítica nos Estados Unidos. Ainda assim, mesmo que eu ache que o lobby não faça ele chegar lá, para mim ele merecia ser indicado para filme (no lugar de Atonement, por exemplo), roteiro, direção e ator (Tommy Lee Jones). Como filme, acho ele melhor que Atonement, um quase certo candidato ao Oscar. Infelizmente parece que minha torcida será um verdadeiro “tiro n´água”, porque In The Valley of Elah não deve sair do lugar.

CONCLUSÃO: Um filme competente na crítica ao modelo estadunidense de “fazer justiça” em suas relações internacionais, desvelando principalmente a crise de valores da sociedade norte-americana e os efeitos da guerra na estrutura das famílias e na vida de jovens combatentes. Um belo roteiro, com grandes atuações dos atores principais, pontas de nomes importantes e uma direção precisa.