Into the Wild – Na Natureza Selvagem

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Tem filmes que ficam na memória por algum tempo depois que a última filigrana da película passa na frente de nossa retina. Into the Wild, o último trabalho do diretor Sean Penn, é um destes. Terminei de ver o filme faz algumas madrugadas e ele continua ali, aparecendo na memória. Há muitas frases incríveis no roteiro, várias imagens idem. Na verdade, descobri depois, que o filme vai fazendo efeito conforme o tempo passa. E foi depois de uma certa distância temporal das imagens que eu percebi o quanto ele é bonito, o quanto ele trata de alguns assuntos que eu tenho pensado muito ultimamente. Entre eles, o de como vivemos em uma sociedade que dá vontade de escapar, algumas vezes. Mas que, ainda que tenhamos pavor das pessoas que vivem para consumir, são justamente as pessoas (incluindo estas, talvez) que façam a vida ter sentido. Então a verdade é que descobrimos o que o personagem principal de Into the Wild descobre: de que o mais bonito está na Natureza, na nossa capacidade de sobrevivermos por nossa conta, sem supérfluos ou luxos ao nosso redor mas que, paralelo a isso, não é possível viver feliz sem compartilhar o que sabemos e o que vivemos. Into the Wild fala disto e de muito mais.

A HISTÓRIA: Acompanhamos a trajetória de Christopher McCandless (Emile Hirsch) em sua aventura de descoberta pessoal e de busca pela vida fora da sociedade consumista. O filme começa com os pais dele, Billie (Marcia Gay Harden) e Walt (William Hurt) acordando em uma noite depois que ela sonha com o filho “desaparecido”. Em seguida aparece o texto de uma carta escrita por Christopher para o seu amigo Wayne Westerberg (Vince Vaughn), contando de sua chegada a Fairbanks e de como ele estava preparado para ficar um bom tempo longe da civilização. A partir do momento em que ele encontra um “ônibus mágico” abandonado no meio das montanhas, passamos a acompanhar a sua trajetória em retrospectiva, desde que ele se formou na universidade e resolveu abandonar tudo para viver da maneira que acreditava ser a mais correta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte da crítica à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu à Into the Wild): O resumo do filme parece meio infantil, eu sei. Dizer que Into the Wild conta a trajetória de um jovem recém-formado em um caminho de auto-conhecimento, de auto-determinação e de busca por uma vida mais “selvagem”, de contato com a Natureza e de repúdio ao consumismo que vê no berço da sua família parece não resumir ao último trabalho de Sean Penn como diretor. E realmente o filme tem mais conteúdo que isso.

Gostei, sobretudo, da maneira com que a história é contada. Primeiro assistimos a Chris – ou Alexander Supertramp, como ele próprio passa a se chamar – realizando o seu sonho de chegar no Alaska. Depois que ele encontra um ônibus abandonado é que vamos sabendo como ele chegou lá. Então conhecemos o caminho que ele quase segue, depois que termina a faculdade, mas que acaba refutando. E sabemos, por exemplo, que ele abomina as mentiras que os pais contam, assim como o seu padrão de valorizar o dinheiro e não as pessoas ou a vida. E ele resolve tomar outra direção, totalmente contrário ao que todos pensam. E aí o filme fala do “seu próprio nascimento”, da sua “adolescência” como novo ser – agora “criado” por ele mesmo, de sua “família” e, claro, de sua lição de “sabedoria”. É muito bonito acompanhar na vida adulta a evolução de um ser humano em busca da verdade, do amor, da liberdade.

Comentei que depois fui vendo como o filme trata de vários temas que tem me feito pensar ultimamente porque é verdade. Desde que fui para o Brasil por três semanas em dezembro e que passei o Natal com minha família eu comecei a refletir ainda mais sobre o que importa na vida para mim. E vi como estava feliz lá, na casa dos meus pais, observando os pássaros que vivem ao redor da casa, percebendo as nuances de cor do dia, entre outros detalhes da Natureza. Não se compara, claro, a experiência do personagem de Into the Wild porque, ele sim, descobre a força que tinha dentro ao conseguir com seu próprio suor sobreviver em um meio sem nenhum recurso, em uma vida realmente selvagem. Mas eu, na minha pequena experiência em casa, vi que o contato com a Natureza e a convivência com as pessoas mais queridas da tua vida podem ser tudo o que uma pessoa deseja. Interessante.

Outra questão que o filme aborda e que é algo que venho pensando faz algum tempo é sobre a aflição que dá essa nossa sociedade consumista. Realmente, eu que sempre fui muito de leitura e de filmes, por exemplo, prefiro mil vezes uma criação artística do que um objeto que pode ser comprado para “agregar valor” ou “status” a minha vida. Acho isso de conseguir “status” com o consumo de produtos de uma estupidez gigante. E sei que isto é, faz tempo, a moeda corrente. Por isso que devo admitir que, às vezes, tenho vontade de mandar essa sociedade pro espaço e ir viver da minha maneira, ainda que pareça uma louca, como o personagem de Chris parecia.

Aliás, algo interessante do filme (só continue lendo se você realmente já viu a Into the Wild): em nenhum momento antes do final você tem certeza se a história daquele rapaz realmente aconteceu ou não. E acho isso muito bacana… não ter uma linha como “baseado em uma história real” no princípio. Assim você vai desejando que essa história tenha acontecido porque, eu acredito, os exemplos reais ensinam. E eu fiquei torcendo para Chris realmente ter feito aquelas descobertas na vida para que sua história inspire outras pessoas a buscarem as suas verdades, a buscarem o que de mais essencial é possível encontrar no caminho. Bacana que esse sujeito realmente existiu.

Merecia um capítulo a parte a trilha sonora de Into the Wild. Que trabalho maravilhoso o de Eddie Vedder neste filme! Ele realmente dá outro nível de beleza e de compreensão da história com suas composições. Lindo! Sempre fui fã do líder do Pearl Jam, mas agora ainda mais. Ele ganhou ontem o Globo de Ouro pela canção Guaranteed e espero que repita o feito no Oscar. Se bem que eu acho que ele terá um grande rival a bater: o italiano Dario Marianelli por sua trilha sonora em Atonement.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme tem a direção e o roteiro assinados pelo ator Sean Penn. Interessante e bacana o trabalho que ele fez tomando como base a obra de Jon Krakauer (interessante este texto sobre outro livro dele, Pela Bandeira do Paraíso). O filme merece a nota acima especialmente pelos detalhes, como as transcrições de cartas de Chris, ou o depoimento de sua irmã como uma das narradoras da história, etc.

Interessante perceber a reação das pessoas em relação ao andarilho Chris. Talvez por ele não ser alcóolatra e não andar bêbado por aí ou talvez por ele ser jovem e bonito, ele consegue ser respeitado pelas pessoas. E bem visto, bem recebido. O que nem sempre acontece com pessoas que decidem viver fora das regras sociais, como andarilhos ou nômades. Na vida real estas pessoas realmente passam por maus bocados. Se bem que isso ocorre mais nas grandes cidades, como o filme também mostra, até um certo ponto. E quando Chris percebe como a cidade sufoca, maltrata e tudo o mais, ele foge para longe, para de volta ao selvagem.

Achei realmente muito legal a história dele, ainda que admita que para um mulher fazer o mesmo seja muito mais difícil. Também achei que a mudança dele foi muito radical. Ok que os pais mentiam e eram consumistas, mas eu sempre acho que um filho deve levar em conta que, por mais que os pais erram, eles tentaram acertar. Ainda que eu o entenda muito bem, acho que não teria coragem de fazer exatamente o mesmo em sua situação. Mas daí também a questão do “nascimento” da pessoa livre, algo que ele só conseguiu se desapegando de todos e de tudo.

Into the Wild foi indicado para 18 prêmios e já ganhou cinco – entre elas a de melhor música para Guaranteed, de Eddie Vedder, no Globo de Ouro; melhor ator para Emile Hirsch no Festival de Cinema de Mill Valley; melhor atuação masculina para Emile Hirsch pelo National Board of Review (associação de críticos norte-americanos); diretor do ano para Sean Penn no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; prêmio do júri para Sean Penn, William Pohland e Art Linson no Festival de Cinema de Roma; e prêmio da audiência como Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Cinema de São Paulo.

A verdade é que a direção de Sean Penn merece realmente ser indicada a vários prêmios, assim como a atuação do jovem Emile Hirsch. O garoto consegue interpretar Chris com naturalidade e, assim, realmente rouba a cena. Além dos já citados, fazem parte do elenco Jena Malone como a irmã de Chris, Carine; Brian Dierker como Rainey, um hippie casado com Jan Burres (Catherine Keener) – os dois acabam se tornando alguns dos melhores amigos de Chris; Kristen Stewart como a jovem cantora Tracy; e Hal Holbrook como Ron Franz, o viúvo que quase adota a Chris – a parceria dos dois é emocionante.

Into the Wild custou apenas US$ 15 milhões – achei um valor baixo levando em conta todos os locais pelos quais a produção passou para filmar esta história. Somente nos Estados Unidos o filme faturou pouco mais de US$ 17,2 milhões. O bom é que ele se pagou, mas cá entre nós ele têm faturado muito menos do que merece. Infelizmente não é um filme para qualquer um, na minha opinião.

No site IMDb Into the Wild registra a nota 8,1 pelos usuários, enquanto no site Rotten Tomatoes o filme conseguiu 127 críticas positivas e 27 negativas.

Sean Penn terminou de filmar Crossing Over, um filme de Wayne Kramer (de Running Scared ou No Rastro da Bala) sobre imigrantes em Los Angeles. Parece bem interessante. É esperar para ver. Ao lado de Sean Penn estão Harrison Ford, Ray Liotta, Ashley Judd, Cliff Curtis e outros. Enquanto isso, o ator Emile Hirsch logo poderá ser visto no papel de Speed no filme Speed Racer, atualmente em fase de pós-produção. O jovem ator californiano de 22 anos também está no elenco de Milk, o próximo filme de Gus Van Sant que terá no elenco, ainda, Josh Brolin e Sean Penn, entre outros. O garoto tem futuro.

PALPITE PARA O OSCAR: O filme deve receber algumas indicações para o maior prêmio da indústria estadunidense. É certo que serão indicados como melhor filme Atonement, No Country for Old Men e American Gangster. Sobraria duas vagas para o restante dos filmes se engalfinharem. Espero, sinceramente, que uma delas seja para Into the Wild, mas nada é certo. Para essas duas vagas muitos outros estão concorrendo, como Juno, There Will Be Blood, Sweeney Todd, entre outros. Vai ser complicado Into the Wild chegar, ainda que ele mereça, na minha opinião. Aliás, podiam ignorar Atonement e colocá-lo. hehehehehehehehe. Só sonhando. Realmente Atonement é forte candidato a ganhar o Oscar – ainda que eu ache que ele não mereça. Mas enfim. Como ia dizendo, acho que Into the Wild tem potencial para ser indicado como melhor filme, roteiro e diretor, além de uma indicação certa para a música de Eddie Vedder e para a direção de fotografia de Eric Gautier. Pena que a disputa para melhor ator está muito acirrada, porque o jovem Emile Hirsch bem que merecia estar lá.

CONCLUSÃO: Um bonito filme sobre a liberdade de escolha de um indivíduo e sua busca por suas verdades. Trata principalmente da história de um jovem que resolveu viver fora dos padrões sociais e resgatar o contato com a natureza. Também trata de relações familiares, de amizade, de valores pessoais e sociais.

SUGESTÃO DO LEITOR: Me esqueci de comentar aqui antes – uma falha imperdoável – que este filme foi sugerido pelo querido leitor participante deste blog Osmar. Lembro que faz tempo já que ele tinha comentado deste filme, o último de Sean Penn, e que eu disse que estava sedenta por vê-lo, mas que ainda não tinha conseguido. Pois aqui está ele, Osmar. Espero que depois acrescentes teus comentários por aqui também. Aproveito a deixa para dizer aos que acompanham esse blog que eu aceito sim (e muito!) a sugestão de vocês para ver filmes e escrever comentários sobre eles. Só realmente demoro às vezes porque nem sempre consigo vê-los logo, mas tentarei sempre que possível satisfazer os pedidos. Um grande abraço ao Osmar, esse querido participante do blog, e a todos os demais que passam por aqui com frequencia.