Klass – The Class

Chacinas de jovens estudantes provocadas por colegas de escola foram tema de milhares de reportagens mundo afora e de alguns filmes. Os mais conhecidos talvez sejam Bowling for Columbine e Elephant, dirigidos por Michael Moore e Gus Van Sant, respectivamente. Klass vem se juntar a eles ao reconstruir o drama pessoal de dois garotos que passam por diversos maltratos, físicos e psicológicos, protagonizados por colegas de classe.

Com uma direção e uma edição muito boas, esse filme reúne uma série de histórias reais para criar uma chacina que poderia ter acontecido em diversas escolas de qualquer país. Tecnicamente, o filme é perfeito, especialmente planejado para cair no gosto de seu público-alvo – jovem, essencialmente.

O problema é que Klass pode render um tipo de justificativa para os fatos que me parece perigosa. Por isso mesmo, é preciso entender o que o diretor quis dizer com esta produção e, assim, deixar-se levar apenas em parte pelos sentimentos que esta história provoca – o restante tem que ser analizado de forma crítica.

A HISTÓRIA: Joosep (Pärt Uusberg) é o típico adolescente que virou piada da turma. Inteligente, tímido, sensível e considerado “estranho” pelos demais, Joosep é visto como o saco de pancadas perfeito pelo valentão Anders (Lauri Pedaja). Liderados por eles, os garotos – e a maioria das meninas – da turma de Joosep fazem com que ele seja vítima, diariamente, de sessões de tortura física e psicológica.

A situação piora quando Kaspar (Vallo Kirs), um dos garotos que sempre marcou posição contra Joosep, muda sua conduta e passa a apoiar o garoto. Sentindo sua liderança ameaçada, Anders lidera os demais para intensificar as humilhações contra Joosep e, agora, também focando suas ações contra Kaspar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Klass): A primeira característica positiva deste filme fica evidente logo em seus primeiros minutos. Klass prima, do início até o final, por uma edição criativa e veloz.

Mérito do editor Tambet Tasuja. Mas para que o editor conseguisse um bom material para trabalhar, antes foi necessário o trabalho primoroso do diretor e roteirista Ilmar Raag, atualmente o principal nome do cinema produzido na Estônia.

Inspirado por Lars von Trier e influenciado por diretores tão diferentes quanto Ingmar Bergman e Ridley Scott, Raag escreveu um roteiro que buscasse trazer realismo para as histórias sobre crimes que envolvessem escolares. A intenção do realizador foi evitar o “politicamente correto” e revelar, assim, as motivações reais de jovens que resolvem responder à violência com ações ainda piores.

Acredito que esta produção caia como uma luva no gosto do público jovem. Primeiro, pelo que eu já comentei: a edição competente, criativa e veloz. Depois, pela trilha sonora que mistura percussão, música eletrônica e que imprime um tom ainda mais acelerado ao filme.

Mérito do trio formado por Martin Kallasvee, Paul Oja e Timo Steiner que, com essa trilha sonora, acabam sendo fundamentais na função de intensificar a marcação do ritmo da produção articulado pelo roteiro e pela edição. Mas sem dúvida o trabalho dos atores e as linhas da história escrita por Raag devem conquistar o público. Realistas, eles convencem e nos conduzem emocionalmente até o desfecho previsível – mas, ainda assim, impactante.

Dividido em sete partes, carregadas por conceitos e que revelam os sete dias decisivos para a história dos personagens, Klass mostra até que ponto pode chegar a crueldade e a covardia de adolescentes que se sentem intocáveis. É a velha história de “o que você faria se não se sentisse protegido por um grupo”?

Sabemos, seja pelos absurdos cometidos por alguns grupos de torcedores de futebol, seja por atos covardes praticados por skinheads, neonazistas e companhia, que muitas pessoas ganham coragem para praticar ações ultrajantes quando sentem-se protegidas por um coletivo. Lamentável. Pois Klass trata deste tema, mas de vários outros.

Trata, por exemplo, da falta de comunicação efetiva entre o “mundo” de diretores, professores e pais e o “mundo” de jovens e adolescentes. Na história criada por Ilmar Raag, a preocupação da escola e dos familiares dos jovens protagonistas nunca chega a lugar algum. Parece inócua, vazia.

No caso da escola em que estudam Kaspar e Joosep, chega a ser absurda a conduta de sua diretora (Kaie Mihkelson). Ela simplesmente aceita a versão do melhor aluno da turma, Paul (Mikk Mägi), que acusa Kaspar de perseguir Joosep.

No lugar de investigar a fundo o que estava acontecendo naquela classe e, assim, possivelmente evitar o pior, a diretora acaba ameaçando o único garoto que tentava impedir que os absurdos contra Joosep continuassem. Outra professora também ajuda no processo de ridicularizar o saco de pancadas da turma – quando questiona sua postura “contra o consumismo”, por exemplo.

As famílias dos garotos também não conseguem saber de verdade o que está acontecendo. A avó (Leila Säälik) de Kaspar realmente se interessa pelo garoto mas, ainda assim, não consegue manter algum diálogo frutífero com o rapaz. Ainda que a relação deles seja menos explorada do que a dos pais de Joosep com ele, é possível perceber como a avó se distancia do neto quando, por exemplo, desestimula ele a manter um relacionamento com Thea (Paula Solvak).

A tentativa dela de proibir Kaspar de sair de casa ou namorar, evidentemente, acaba sendo um tiro no pé – como a maioria das proibições puras e simples, sem convencimento ou argumentação. Por parte de Joosep, a situação é ainda mais complicada, porque ele se sente um peixe fora d’água na escola e em casa.

A mãe (Tiina Rebane) de Joosep parece ser a única a perceber que seu filho é diferente, especial, sensível. O pai (Margus Prangel), um brucutu que, na escola, deveria seguir os passos de Anders, não entende o filho. Pelo contrário. Ele torna a pressão sobre o garoto pior quando o incentiva a revidar – o que, evidentemente, vai contra a sua natureza. Joosep, provavelmente, vê o exemplo do pai e tenta, com todas as forças, se distanciar dele o mais longe possível.

O problema é que a mãe do garoto, como praticamente todas as mulheres que se casaram com um valentão, não consegue ter voz suficiente para apoiar o filho. E esse filme sugere, desde o princípio, que Joosep tem na casa do pai a oportunidade perfeita de se armar para a previsível vingança.

Falta de comunicação e de ensinar princípios para aquela garotada e, no caso da escola, de responsabilidade sobre o que está acontecendo com aquele grupo de jovens no ambiente escolar resulta no viveiro perfeito para os absurdos que acabam ocorrendo.

O diretor Ilmar Raag não alivia ao mostrar, de forma gradativa, como a vida de Joosep e Kaspar vai se transformando em um inferno. A tensão cresce pouco a pouco até chegarmos ao final… e neste processo, justamente, reside o perigo (e a oportunidade) deste filme.

(SPOILER – não leia se você não assistiu a essa produção). Raag cria um clima de indignação tão grande entre os espectadores que, no momento em que os protagonistas passam a atirar a esmo na lanchonete escolar, praticamente estamos torcendo por eles. A impressão é que seus atos são justificados. E, claro está, que eles não são. O perigo do filme é que muitas pessoas podem assistí-lo, vivenciar a indignação que os atos contra Joosep e Kaspar provocam e não fazerem a crítica necessária sobre o que viram. Por isso, atenção.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Até buscar mais informações sobre Klass, eu tinha dúvidas sobre a questão dele ser “baseado em fatos reais”. Inicialmente pensei que esta produção estava inspirada em uma chacina concreta, como o caso dos filmes de Michael Moore e Gus Van Sant haviam se baseado nas mortes em Columbine. Mas não.

Conforme o diretor e roteirista Ilmar Raag esclarece nesta entrevista (em inglês), ele escreveu o argumento original de Klass e, depois, passou uma temporada conversando com 15 estudantes entre 15 e 18 anos para conhecer suas histórias reais no ambiente escolar. E foi assim, através da vivência destes jovens, que Raag construiu a sua história.

Segundo o diretor, ele e a equipe de produção do filme realizaram duas oficinas com esse grupo de jovens em um local remoto da Estônia. “Eu disse para cada um deles: ‘Talvez você não entrará para o filme mas, por favor, me conte histórias reais de sua escola'”, comenta Raag que acrescenta, ainda, que cada jovem pegou o roteiro e, basicamente, preencheu os espaços em branco com estas histórias reais.

Depois do texto finalizado, o diretor escolheu um grupo de atores jovens e que não eram profissionais para atuar no filme. Durante um mês, aproximadamente, eles ensaiaram as cenas do roteiro. Mas as filmagens propriamente ditas foram feitas em apenas 12 dias.

Tudo por causa do baixo orçamento do projeto – que teria custado US$ 120 mil. A verdade é que o filme tem uma grande qualidade, levando em conta o seu baixíssimo orçamento – mais uma prova de que o cinema não depende apenas de grana.

Para o diretor, o tempo curto que eles tiveram para filmar foi o maior problema da produção. “Ter apenas 12 dias para filmar significa que, com esta velocidade de trabalho, você não tem tempo para pensar no set (de filmagens).

Você apenas executa um plano traçado anteriormente. Então temos um par de cenas que sofre com esta velocidade acelerada”, avalia Raag. Ainda assim, os jovens atores escalados para esta produção surpreenderam ao realizador que, admite, chegou a chorar com alguns momentos de suas interpretações.

A verdade é que todos os atores que aparecem em cena, sejam eles jovens ou adultos, fazem um trabalho competente e que convence. Mas ainda que todos estejam muito bem, Vallo Kirs e Pärt Uusberg (mais o primeiro que o segundo) roubam a cena.

Além deles e dos outros já citados, vale citar os nomes de Riina Ries, que interpreta a Riina, uma das garotas que se diverte com as humilhações impostas a Joosep e que promove, em sua casa, uma festa que termina em confusão; Joonas Paas, que interpreta a Toomas, o braço direito de Anders; e os outros que fazem parte do grupo deles, como é o caso de Kadi Metsla, Triin Tenso, Virgo Ernits, Karl Sakrits, entre outros.

Uma questão levantada por Klass é um bocado assustadora: até que ponto o levante de Kaspar contra os seus colegas de classe ajudou ou prejudicou a Joosep? Aí está um ponto de reflexão importante do filme. Afinal, não basta reagir contra as injustiças e os absurdos. É preciso saber como fazer isso sem que tudo seja colocado a perder.

A verdade é que as soluções estão mais próximas de uma ação racional do que de uma ação passional. Eis um belo ensinamento de Klass.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como o roteiro sugere, lá pelas tantas, Joosep tinha armas em casa mas nunca tinha pensado em utilizá-las –  até que Kaspar joga esta idéia para ele. Tudo o que Joosep queria era terminar os seus estudos e sair de perto daquela gente que lhe fazia mal. Mas a covardia e a violência de seus colegas contra ele e Kaspar chegaram a tal ponto que, motivado pela idéia do “amigo”, ele resolveu atuar. A dura verdade é que sem os “atos heróicos” de Kaspar, dificilmente esta história teria chegado tão longe.

Algo que incomoda neste filme é que as tais “brincadeiras” com Joosep vão perdendo o rumo de uma maneira absurda, até chegarem ao ponto das piores práticas de tortura e violência. Se o grupo de estudantes tivesse 10 anos de idade ou menos, até poderíamos discutir sobre a falta de educação ou aconselhamento de pais e professores.

Mas, francamente, tendo a idade que eles tinham – de aproximadamente 16 anos, em média -, seus atos devem ser classificados como criminosos. Nada mais, nada menos. Anders e companhia eram delinquentes socialmente aceitos.

Gostei do trecho da entrevista anteriormente citada em que Ilmar Raag comenta sobre os filmes que abordam a violência no ambiente estudantil.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). “Você não pode (ou não deveria) fazer um filme sobre a violência sem tentar, honestamente, explicar as razões desta violência. Então, essa produção é a história na qual você praticamente pode pensar que os garotos que atiram em seus colegas são os mocinhos e as vítimas infelizes (desta história). E quando isso acontece o filme faz pensar sobre a manipulação mais uma vez”. Genial, não?

Além da entrevista para Jason Whyte comentada, destaco este texto (também em inglês) sobre o filme.

A qualidade das imagens deste filme devem muito ao trabalho do diretor de fotografia Kristjan-Jaak Nuudi.

Em sua trajetória, essa produção recebeu quatro prêmios – dois no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary e dois no Festival Internacional de Cinema de Warsaw. O filme ainda foi indicado como o representante da Estônia na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2008.

Com o sucesso deste filme foi anunciada uma série para a televisão que, originalmente, deveria ir ao ar no outono de 2009.

Klass conseguiu a nota 8,2 na avaliação dos usuários do site IMDb.

CONCLUSÃO: Um dos filmes mais realista sobre crimes praticados em escolas por alguns de seus estudantes. Bem dirigido e com uma edição impecável, Klass foi planejado para agradar especialmente ao público jovem. Este filme é protagonizado por um grupo de atores não-profissionais que surpreende e embalado por uma trilha sonora envolvente.

Depois de apresentar o argumento de seu novo filme para uma turma de 15 adolescentes, o diretor e roteirista estoniano Ilmar Raag conseguiu, destes jovens, histórias reais sobre acossos, torturas e diferentes formas de violência física e psicológica praticados no ambiente escolar. Com este material o diretor nos conta uma história com a qual é impossível ficar indiferente. Espero, honestamente, que esta produção consiga o objetivo de seu idealizador, que é o de criar debate sobre esse tipo de violência nas escolas, na busca por soluções para o problema e, ainda, que o filme provoque uma reflexão sobre o poder do cinema e das demais mídias em manipular emoções e ideologias.

SUGESTÕES DE LEITORES: Cheguei até esta produção superinteressante – melhor que Elephant, de Gus Van Sant, por exemplo – através da sugestão do Rodrigo, querido leitor deste blog, que indicou o filme em março deste ano. Grande Rodrigo!! Muito boa a tua dica, hein? Gostei muito do filme. Ele realmente nos provoca indignação e desconforto, em um primeiro momento e, depois, reflexão.

Hoje mesmo a imprensa brasileira divulgou o caso de uma adolescente que foi espancada por duas colegas em Brasília. A menina foi agredida de forma covarde por duas garotas – uma parece que a segurava enquanto a outra batia na vítima – porque, tempos atrás, teria defendido uma colega. Que absurdo!

E a verdade é que diariamente parte da garotada resolve cair para este lado que considero criminoso. Então, mais do que nunca, um filme como esse deveria ser visto e debatido – inclusive em salas de aula. Obrigada, mais uma vez, Rodrigo, por esta dica. E volte aqui mais vezes – andas sumido!

P.S.: E só para registrar: hoje o Crítica (non)sense da 7Arte completa 2 anos de vida! Viva!!! Queria agradecer a todos vocês que fazem deste blog um espaço dinâmico e de troca de idéias. Com este texto de Klass, chego a 201 críticas neste período. Vida longa ao CND7A!! 😉