Margot at the Wedding – Margot e o Casamento

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Eu tenho uma verdadeira admiração pelo trabalho de algumas atrizes. Dentre muitas delas, incluo na lista Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh. E foi por elas que eu assisti a Margot at the Wedding. Depois é que fiquei sabendo que se trata de um filme com direção e roteiro de Noah Baumbach, o homem que impressionou a muitos com o seu The Squid and the Whale (A Lula e a Baleia). Eu assisti ao filme com Jeff Daniels e Laura Linney e gostei do que vi. Quando soube que se tratava do mesmo cérebro por detrás dos dois filmes, entendi muita coisa. Afinal, Margot at the Wedding “sofre” com o mesmo “excesso” de realismo e de franqueza que se percebe em The Squid and the Whale. Mas, para mim, esse novo título é ainda melhor que o anterior. Ou, pelo menos, é diferente. Ainda que guarde várias semelhanças, é claro. Mas de fato gostei mais deste último, com um trabalho incrível das atrizes mencionadas e, para minha surpresa, do ator Jack Black – que prova que pode fazer um trabalho mais denso do que as comédias que estamos acostumados a ver, ainda que seu papel seja um pouco cômico.

A HISTÓRIA: Margot (Nicole Kidman) viaja com o filho Claude (Zane Pais) para o casamento da irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh). As duas não se falam há algum tempo, mas Margot diz que é importante a presença dela e do filho para apoiá-la neste momento. Detalhe: Margot não entende, em nenhum momento, como Pauline irá se casar com um homem como Malcolm (Jack Black), um sujeito sem trabalho definido que já foi músico e que atualmente divide o tempo escrevendo cartas para jornais e revistas e pintando algumas obras. Chegando na casa de Pauline, Margot revela que terá em poucos dias um compromisso profissional, uma conversa em uma livraria com leitores de sua última obra. Aos poucos as diferenças familiares vão aflorando, assim como a relação conflituosa entre Margot e seu marido Jim (John Turturro) e a relação dúbia dela com o também escritor Dick Koosman (Ciarán Hinds).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Margot at the Wedding): Noah Baumbach mostrou, com seu filme anterior, uma peculariedade: o talento para escrever roteiros muito, mas muito bons, e para sacar grandes interpretações de seus atores. Também demonstrou que tem uma mão certeira para “desvelar” os bastidores das famílias com um certo “nível cultural” nos Estados Unidos. E, claro, esta radiografia não se aplica apenas àquele país, mas acho que pode ser plausível em qualquer classe média ou média-alta com um certo “nível” de apreço pela cultura e/ou formada por gente com talento para as artes em qualquer parte do mundo – incluindo no Brasil.

Pois o diretor e roteirista sigue destilando a sua crítica ácida e realista deste tipo de família em Margot at the Wedding. Só que agora o foco sai um pouco do “casal e seus filhos”, ponto central de The Squid and the Whale, e se amplia para uma relação centrada em duas irmãs e suas respectivas famílias. Então aqui também se percebe de maneira muito forte a relação pais e filhos, assim como a decadência da instituição família com a presença sempre “ameaçadora” da infidelidade, mas o foco se amplia para a relação de intimidade, competição, amor e repulsa entre irmãs e, em paralelo, com a vizinhança.

Como no filme anterior de Baumbach, o carro-chefe aqui é realmente o roteiro. Ao invés de um casal de escritores com talento e com ego em conflito, visto em The Squid, aqui a personagem-título é uma escritora de talento que vive uma crise existencial sem se dar conta. Antes de ser confrontada com a realidade, ela se sente na posição de julgar a tudo e a todos. Critica a irmã, o futuro marido, os vizinhos deles, o próprio filho… A metralhadora giratória não poupa ninguém. Gosto de gente sincera, mas Margot chega a ser cruel. Ela não tem, muitas vezes, aquele senso crítico de saber quando ficar calada… não. Ela segue como uma criança que fala absolutamente tudo o que pensa, não importando o quanto isso pode machucar uma outra pessoa por nada, sem nenhuma razão prática ou sentido de “ajuda”. Mas claro, não apenas Margot é assim. O seu filho Claude, criado com o lema de “nada a esconder”, segue a mesma tendência. A verdade é que a maioria dos personagens do filme são assim. Não por acaso você espera, durante toda a história, que alguma merda aconteça a qualquer momento.

O filme trata de muitos temas, mas um me chamou a atenção em especial: de como podemos ser, ao mesmo tempo, tão próximos e tão estranhos de pessoas que amamos. No caso de Margot e da irmã Pauline, elas dividem uma série de vivências, segredos e mantêm um elo de ligação que apenas podemos nutrir com irmãos ou com amigos com quem crescemos juntos. É uma espécie de comunicação e de “sentir” que não precisa de palavras. Mas, ao mesmo tempo, elas viveram histórias e passaram por situações diferentes e que não foram compartilhadas entre as duas. O resultado é que estas experiências e sensações diferentes as separam, porque ajudaram a formá-las de maneira distinta, da mesma forma que as situações que elas compartilharam e que criaram o elo que as une. O interessante deste tema é que o mesmo acontece com todas as pessoas deste mundo, incluindo eu e você. Temos pessoas que amamos muito e com quem compartilhos uma intimidade e uma “sintonia” incrível e, ainda assim, somos estranhos em vários sentidos para estas mesmas pessoas. Isso porque compatilhamos muitas coisas, mas outras não. Outras são impossíveis de compartilhar, praticamente. E neste espaço sem compartir é que pode ser criado uma série de sentimentos de descompasso. Como no caso de Margot e de Pauline, em que não sabemos até que ponto existe a vontade de proteger ou de competir, até onde vai o amor ou o ódio, a verdade ou a mentira.

Uma das primeiras – de muitas – cenas fortes e interessantes do filme é quando Claude caminha até a parte que separa os vagões do trem em que viaja com a mãe e começa a gritar. Essa vontade de gritar, de extravasar uma angústia reprimida, poderá ser sentida depois em quase todos os personagens. Pelo menos nos centrais: Margot, Pauline e Malcolm. É a velha história da briga entre a sinceridade e o jogo social de manter-se controlado. Todos são muito sinceros no filme, chegando, como eu disse antes, até ao ponto de serem algumas vezes cruéis – especialmente Margot. Mas, ao mesmo tempo, aos poucos vamos vendo como todos também dissimulam o que sentem, disfarçam, jogam “o jogo” que se espera que as pessoas joguem na sociedade.

Outro tema importante no filme é a dificuldade das pessoas em manter relações de dependência ou “para a vida inteira”. Margot sofre com isso, intensamente. E vamos percebendo aos poucos, especialmente com a pergunta de Dick na livraria. No final, ela gostaria de fazer o que vimos antes em The Hours… O bacana é que o filme não cai no óbvio, mesmo aí, e nos mostra que uma coisa é certa: sempre, sempre mesmo, nós temos escolhas.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como comentei lá no início, me impressionou com a interpretação de Jack Black. Para muitos ele talvez esteja fazendo o de sempre: o papel de um “loser” (perdedor) um pouco cômico. Mas para mim ele atingiu um outro nível de interpretação neste filme. Achei que ele sim mantêm o estilo loser-paranóico-engraçado que já fez antes, mas com uma dose maior de inconstância e de realismo, sem ser tão estereotipado como em outros filmes. Gostei.

Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh estão escandalosamente naturais e perfeitas em seus papéis. Acho que são duas grandes intepretações, merecedoras de prêmios. Falando nisso, até agora Margot at the Wedding foi indicado a seis prêmios, mas não ganhou nenhum. Duas indicações foram para o filme. As outra quatro para o elenco – sendo duas para Jennifer Jason Leigh, uma para Nicole Kidman e a outra para todo o grupo de atores.

Margot at the Wedding custou US$ 10 milhões e arrecadou, até 31 de janeiro, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 1,9 milhões. Algo baixo, muito baixo, especialmente pelos atores conhecidos que fazem parte do elenco e pelo diretor, que ficou meio que “queridinho” no meio depois de The Squid.

Para quem, como eu, gosta de saber das locações dos filmes, comento que Margot foi todo filmado no Estado de Nova York, em diferentes locais, como o Bronx e Long Island.

Gostei muito da direção de fotografia assinada pelo nova-iorquino Harris Savides.

O garoto que interpreta Claude, Zane Pais, faz aqui a sua estréia nos cinemas. E o faz muito bem! Ainda que em um papel muito menor, está bem a atriz Flora Cross como Ingrid, a filha de Pauline que anda em uma fase de descoberta sexual e de curiosidade por possíveis gays que a rodeiam. Merece citação também Halley Feiffer como Maisy Koosman, a filha de Dick que trabalha como babá esperádica de Ingrid na casa de Pauline e Malcolm. Interessante como toda vez que ela aparece no filme ela literalmente rouba a cena.

Uma curiosidade: o diretor Baumbach é casado com a atriz Jennifer Jason Leigh. Eu não sabia disso até ver uma foto deles com as mãos dadas na divulgação do filme. hahahahahahahahaha. Os dois se casaram em setembro de 2005, mas estavam juntos há quatro anos antes da cerimônia oficial.

No site IMDb o filme registra a baixa nota 6,4, enquanto no Rotten Tomatoes ele acumula 79 críticas positivas e 74 positivas. Parece que realmente é um filme que agrada as pessoas na mesma medida que as desagrada. hahahahahahaha

Outro tema que eu achei interessante do filme (NÃO LEIA se você não assistiu a Margot ainda): como pessoas talentosas como Margot, muito seguras de si, que buscam a sinceridade e a transparência constantemente, podem ser tão cínicas e tão inconstantes. Ao mesmo tempo em que ela critica a irmã por não contar a filha e ao noivo que ela está grávida, ela é incapaz de falar para o filho que está prestes a deixar o marido para ficar com o amante. Como alguém pode ser tão hipócrita. E, ao mesmo tempo, eu diria, tão humana? Afinal, ela é a prova de quem somos cada um de nós para apontar para o outro e criticá-lo, já que temos os mesmos defeitos ou, se não os mesmos, outros distintos. Ela é ótima para apontar os defeitos alheios, mas age muito mal quando tem que aceitar os seus próprios. Interessante. Para refletir. Outro ponto que achei interessante foi o que ela se cobra muito e cobra dos demais também, assim como o fato dela ter a consciência de que está perdendo a sua humanidade, algumas vezes – como na sequência do cão atropelado. Mas, no fundo, ela não sabe o que fazer com tudo isso, porque está dividida, está perdida. Uma interessante crônica sobre algumas crises que afetam a tantas pessoas na nossa sociedade atual.

Levando em conta as notas no IMDb e no Rotten Tomatoes eu acho que será o típico filme que não irá agradar, MESMO, a gregos e troianos. Pelo contrário. Parece que será o típico filme do “ame ou deixe-o”. No meu caso, estou para o lado dos que gostaram.

Ainda assim, tenho que admitir que o filme tem algumas cenas infames. Por isso dei a nota que dei para ele… entre elas, menciono a de Malcolm analisando os seus órgãos genitais e fazendo comentários deles na frente do espelho e o momento em que Pauline faz cocô nas calças… realmente são duas cenas e algumas frases no roteiro que eu achei por demais escatológicas.

CONCLUSÃO: Filme potente e que alguns podem considerar muito cínico ou forte sobre algumas questões muito comuns na nossa sociedade pós-moderna, como a difícil relação entre pais e filhos, entre dependência emocional/afetiva e a busca da independência, entre a prática do “jogo social” e o que alguns buscam praticar como “sinceridade extrema”. Bem dirigido e com um roteiro interessante, tem grandes interpretações do seu elenco, em especial de Nicole Kidman e Jennifer Jason Leigh.