Marriage Story – História de um Casamento

O amor vira indiferença ou ódio com tanta facilidade que chega a assustar. O que uniu e fascinou pode até ser recordado, mas parece que não faz mais sentido. A vontade de cada um seguir para lado diferentes é maior. Marriage Story é um filme que conta, com muito realismo, a história triste de um casamento que chegou ao fim. Destaque para a interpretação dos protagonistas e, principalmente, para o roteiro, com cada linha escrita com esmero e muita precisão/inspiração.

A HISTÓRIA: Inicia com Nicole (Scarlett Johansson) surgindo em cena. As primeiras falas são de Charlie (Adam Driver), que faz uma declaração de tudo que ele ama na esposa. Para começar, ele ama como ela é atenciosa com os demais. Depois, em como ela sabe conduzir as crises familiares e orientar ele sobre o que fazer.

Do dia-a-dia familiar, ele destaca como ela corta o cabelo de todos, faz chás que nunca toma e esquece de fechar armários e afins. Depois da fala dele, que apresenta muito bem a esposa, mergulhamos na fala de Nicole sobre o marido. O que eles tem em comum? Ambos são amorosos e competitivos. Isso irá determinar bastante sobre como a separação deles será conduzida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Marriage Story): Como é bom encontrar um filme franco, muito bem escrito e com ótimas interpretações! Esse pode ser um bom resumo desta produção, o novo trabalho do diretor e roteirista Noah Baumbach.

Esta produção entra em uma seara sempre delicada: a dos casamentos. Verdade que há uniões que duram a vida inteira e que são um exemplo de que os casamentos podem dar certo. Mas para cada história bem sucedida, quantas outras temos de insucesso? Pesquisei a esse respeito. Segundo esta matéria da Revista Crescer, a cada três casamentos, um termina em divórcio. A proporção não é pequena.

Isso sem contar todas as separações de uniões estáveis que nem acabam indo para os registros. Quantas destas separações ou divórcios terminam mal? Risco dizer que a maioria. Mas por que isso acontece? Marriage Story ajuda a responder a estas perguntas. Algo que achei superinteressante no filme é como Baumbach consegue interpretar muito bem os dois lados da questão. Porque sim, homens e mulheres lidam de forma totalmente diferente com o assunto.

O personagem de Charlie parece estar muito surpreso com tudo que está acontecendo. Enquanto isso, aparentemente, Nicole é quem assume as rédeas da separação – especialmente depois que ela contrata a ótima e combativa advogada Nora Fanshaw (Laura Dern) para representá-la.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Achei fascinante a forma com que o filme começa e se desenrola. Mergulhamos, inicialmente, em uma espécie de declaração de amor que os protagonistas fazem um para o outro. Naquele início, eles estão narrando as qualidades e principais características que fizeram com que eles se apaixonassem. Mas logo depois de ouvirmos o texto de cada um, Nicole afirma que não quer ler o texto que escreveu para Charlie na frente do especialista que está tentando fazer a conciliação entre eles.

Neste momento, temos uma quebra interessante de expectativas na narrativa. Nesse momento, o espectador é impelido a querer saber mais sobre aquele casal que parecia tão feliz, tão apaixonado e que, agora, mal consegue se olhar nos olhos. A história, a partir daí, mostra essa fase de ruptura e de cada um encarar a realidade da separação.

Como manda o figurino – e achei interessante como Noah Baumbach não quis “dourar a pílula” para nenhum dos lados -, Charlie se mostra surpreso com tudo que estava acontecendo porque ele estava autocentrado demais em si mesmo e no seu trabalho como diretor de teatro e pouco atento ou interessado para o que estava acontecendo no próprio casamento ou com a esposa.

Esse “descolamento da realidade” é muito típico dos homens, devo dizer – e me perdoe se você, homem, que está lendo este texto, considera que é diferente da maioria. De fato, existem exceções. Mas a maioria dos homens não conseguem estar atentos a diversos fatores. Não conseguem – talvez pela criação que receberam? – pensar na própria carreira, focar no aspecto profissional e também no pessoal. Dar a devida atenção para o que acontece dentro e fora de casa.

As mulheres em geral, me parece, são multitarefa por essência. Desde cedo, estamos acostumadas a dar conta dos estudos, das brincadeiras, do trabalho doméstico, de pensar no futuro e na família. Não nos focamos apenas no trabalho, mas estamos sempre preocupadas com tudo o mais. Por isso, Nicole é a primeira a se sentir insatisfeita e a buscar uma realidade que pareça fazer mais sentido – enquanto Charlie está achando tudo ótimo enquanto foca apenas no trabalho.

Esse precipício de percepções entre os dois é um dos principais fatores do desastre que acaba sendo o divórcio no qual eles entram. Isso e a ânsia de “vale tudo” assustadora que os advogados de cada parte coloca em cena. Quem já esteve em um tribunal, no julgamento de algum crime, sabe bem como os advogados trabalham. Algumas vezes a vítima acaba sendo a culpada – ou quase isso.

Entendo o papel dos advogados e que eles devem sempre procurar o melhor para os seus clientes. No caso de Nora, que defende os interesses de Nicole, e de Jay Marotta (Ray Liotta), que acaba defendendo os interesses de Charlie depois que o diretor de teatro dispensa o advogado mais experiente e “soft” Bert Spitz (Alan Alda), ambos usam armas pesadas para atacar cada parte.

Eles chegam a mentir? Não exatamente. Mas a verdade, todos nós sabemos, pode ser manipulada e interpretada de formas diferentes conforme o interesse que está em jogo. A artilharia utilizada e a técnica de cada “falha” ou “deslize” ser usada como uma arma, no entanto, é complicada de assistir. Eu diria que isso e a forma com que Charlie e Nicole passam a “se odiar” no processo é a parte mais complicada da produção. Mas algo tão real, ao mesmo tempo…

Por isso mesmo achei Marriage Story um filme muito bem construído e desenvolvido. Importante ter uma produção destas para nos fazer pensar como o amor pode virar ódio de forma tão “rápida e simples”. Ainda que sabemos, claro, que nada foi tão rápido e que uma separação nunca é simples.

Mas o que explica, afinal, toda aquela mudança de amor para ódio e/ou indiferença? Enquanto Charlie estava vivendo o seu próprio mundo e estava desligado da realidade que acontecia dentro de casa, Nicole estava acumulando insatisfações. Estar em uma relação na qual apenas o outro acaba dando as cartas e na qual você não é ouvido é ultrajante, angustiante e, claro, não termina bem.

A frustração acumulada leva à morte do amor – ou quase isso – e a uma vontade de fuga inevitável. Alguns, claro, decidem passar o resto da vida sendo infelizes. Ou jogam toda a sua necessidade de realização nos filhos. Outros, ainda, acabam apenas se anulando – para, no futuro, descobrirem o quanto deixaram de ser o que gostariam. Mas há quem não aceite isso.

Esse foi o caso de Nicole. Que, por mais que ainda amasse – ou gostasse, ao menos – de Charlie, e por mais que achasse importante ter o filho Henry (Azhy Robertson) crescendo tendo pai e mãe próximos, não quis se anular para o resto da vida. Ela desejava – e há tempos – fazer uma carreira por conta própria e ficar mais próxima da mãe, Sandra (Julie Hagerty) e da irmã Cassie (Merritt Wever).

As famosas “diferenças irreconciliáveis” – tão usadas nos contratos de separação dos famosos – aconteceram quando Nicole queria voltar para Los Angeles, onde morava a família, mesmo que por uma temporada, e Charlie, ano após ano, dava diversas justificativas para eles ficarem em Nova York. Isso, somado a todas as vezes em que Nicole não se sentia ouvida ou acolhida, levou a uma situação de fuga dela que acabou se consolidando no divórcio.

Muitos vão dizer que Nicole agiu como uma “vaca” contratando uma advogada combativa como Nora para defendê-la – e seguindo sua cartilha, como na questão de visitar vários escritórios de advogados para que Charlie não conseguisse um bom defensor em Los Angeles.

Depois da sequência angustiante dos advogado frente ao juiz, quando Nicole procura Charlie para eles conversarem e tentarem um acordo – e quando somos “brindados” por mais uma sequência angustiante e que mostra o quanto feio uma relação pode terminar -, entendemos um pouco melhor o lado dos dois. Naquele momento, em meio a uma discussão horrível, quando Charlie diz para Nicole que ela está “ganhando”, ela revela o cerne da questão dos seus atos: ela já perdeu.

Para os homens isso pode ser complicado de entender, mas para as mulheres é muito mais difícil lidar com um sonho desfeito. Talvez pelo fato das mulheres serem, geralmente, mais românticas, ou por se apegarem mais à família – e eles, na maioria, ao menos, mais à carreira -, parece que é sempre mais difícil para elas encararem uma separação. Mesmo quando elas é que decidem fazer isso.

Muitos homens não se importam de viver de aparências ou de fingir que está tudo bem. Afinal, eles tem outras prioridades… e podem, como mostra mesmo Charlie, encontrar diversão fora de casa. Para as mulheres, isso também é possível, evidentemente. Mas nem todas querem encarar essa mentira. Como há homens também que não topam esse desafio, é claro.

Marriage Story nos revela, no fundo, como as relações são complexas e como é difícil conciliar diferentes interesses, aspirações e desejos. Daquela introdução que cada protagonista faz do outro, algo me chamou a atenção: os dois são competitivos. Para um casamento dar certo, os dois lados precisam ceder, precisam deixar de fazer o que desejam muitas vezes.

Quando há pouco espaço para isso, tudo fica mais complicado. E as pessoas não estão erradas em buscar a sua individualidade. Mas o que elas devem se perguntar, quando identificam isso, é o seguinte: posso, buscando a minha individualidade, também dividir uma vida com alguém que vai buscar o mesmo?

Algo que achei muito interessante neste filme é que ele mostra, sem rodeios, o fundo do poço no qual um casal pode chegar em um processo de divórcio combativo. No final, a disputa acaba ficando feia e cobrando um preço grande – tanto psicológico quanto financeiro – das duas partes. Mas algo bacana no filme é que ele mostra também o que acontece depois.

Com o cabo-de-guerra vencido, com a disputa feia concluída, o tempo faz o seu trabalho. Quanto mais o tempo passa, menores as queixas, as insatisfações e o rancor ficam. Se as pessoas permitirem isso, é claro. A frustração da relação desfeita não vai desaparecer, mas ela pode ser reduzida a um tamanho que não machuque mais. E a vida está aí para nos apresentar novas e diversas possibilidades. Basta as pessoas abaixarem um pouco as armas e seguirem em frente. É possível.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O roteiro é o grande destaque desta produção. Linhas muito bem escritas e que revelam os extremos de uma relação na sua fase de ocaso. Apesar do roteiro ser muito bom, devo admitir que me incomodei um pouco com os estereótipos todos que este filme aborda. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Verdade que muitas vezes os homens são “perdidos” como Charlie e que as mulheres facilmente viram as costas para histórias fracassadas, como acontece com Nicole, mas acho que há uma complexidade maior do que aquela, não é mesmo?

O filme se explica pelo didatismo com que trabalha o tema. Mas, talvez, apesar da importância desse didatismo, ele poderia mostrar um pouco mais das nuances e das complexidades do assunto e não apenas abraçar o lugar-comum de uma separação mal resolvida, não? Por isso dei a nota acima. Porque acho Marriage Story muito bem construído e com ótimas interpretações, mas um tanto restrito demais aos lugares-comum e estereótipos.

Certamente este filme será visto com perspectivas muito diferentes entre homens e mulheres. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Isso é natural. Realmente nós vemos o mundo e a realidade de formas diferentes. Mulheres conseguem, geralmente, ter mais empatia com outras mulheres do que com os homens. A forma de pensar e de sentir é distinta. E vice-versa. Apesar disso, Marriage Story é uma boa oportunidade de cada um fazer o exercício de enxergar a realidade sob a ótica oposta. Isso é um ganho desta produção.

Se você fizer isso, sendo homem, poderá ver que Nicole não é uma “vaca” vingativa ou que deseja tirar o máximo possível do marido. Poderá perceber que ela deseja ter uma vida próxima da família e ter o máximo de contato com o filho – o que, convenhamos, é direito de uma mãe. Se você é mulher, poderá ver que, apesar de seus deslizes – e não foram poucos -, Charlie não é um monstro ou um cara apenas egoísta. De fato, até o divórcio bater na sua porta, ele achava que era feliz, que tinha uma família linda e que estava “tudo bem” no trabalho e na sua carreira.

Marriage Story ajuda, assim, cada um a entender a perspectiva do outro. Assim como as suas limitações, desejos, expectativas e frustrações. Quando um casamento termina, geralmente, ninguém quer facilitar a vida de ninguém. Charlie, que queria evitar os advogados e o tribunal, certamente queria que tudo terminasse como ele queria. Nicole se protegeu disso e usou a lei a seu favor para garantir o máximo de direitos que poderia usufruir. No fundo, nenhum estava errado. Ou certo.

O que este filme nos faz pensar é se não haveria uma forma menos traumática de resolver tudo aquilo. Charlie era um bom pai, mas durante o divórcio ele mal conseguia passar um tempo com o filho – e mesmo quando tinham tempo para ficar juntos, a relação parecia complicada. O quanto os pais estão preparados para realmente respeitar a vontade do filho? Rapidamente Henry ganhou o afeto não apenas da mãe e da sua família, mas também se adaptou à cidade. Charlie teve que lidar rapidamente com uma forma de vida diferente da sua e que ele não gostava.

Para mim, nesta história, a única forma de tudo ser resolvido através de conciliação e sem disputa feroz envolvendo advogados seria se Charlie não quisesse sempre “ganhar uma disputa”. Ele e Nicole realmente tinha diferenças irreconciliáveis e ela, de forma inteligente, soube se defender para não perder mais do que desejava – ou do que lhe era importante.

Quando um casal está bem, já é difícil chegar a um consenso do que é bom para todos. Agora imagine quando esse casal está se divorciando e não vê a hora de acabarem com tudo… Natural que cada um queira defender a sua trincheira, mas é uma pena que, neste momento, se esqueça as qualidades do outro ou as razões que fizeram eles começarem a relação.

Também é triste como, rapidamente, não apenas o amor entre o casal parece ter desaparecido, mas também o afeto que existia entre as pessoas da família e o cônjuge que está se separando. O abandono é brutal. Mas faz parte da equação de separações tumultuadas, cheias de frustração e arrependimentos.

Esse filme me fez lembrar a frase quem um chefe me disse certa vez: “Você quer conhecer realmente uma pessoa? Então a demita ou se separe dela”. Verdade. Muitas pessoas se revelam nestes momentos. Nem todos lidam bem com o término ou sabem cair de pé. Alguns caem atirando. Mas Marriage Story, além de nos contar uma história triste sobre isso, também nos faz refletir se é preciso que termine desta forma – ou se existem outras possibilidades para o fim.

Além do ótimo roteiro de Baumbach, devo ressaltar o trabalho excepcional dos atores. Scarlett Johansson mesmo… para mim, este é o melhor ou um dos seus melhores papéis. Sem dúvida alguma, o ponto alto da carreira da atriz. Ela está divina em todos os momentos do filme – seja nas partes emotivas, naquelas em que ela está começando a se recuperar ou nas cenas de dança ou com o filho. Perfeita! Adam Driver também está muito bem. Mas ele demora mais que sua parceira de cena para ter um grande momento na produção – para mim, o ponto alto dele é quando ele canta no bar.

De qualquer forma, tanto Scarlett quanto Adam estão ótimos. E eles tem, como parceiros de cena, alguns nomes interessantes – e que também fazem um ótimo trabalho em papéis menores. Destaque especial para Laura Dern como Nora e para Ray Liotta como Jay. Ambos estão ótimo como advogados competitivos e que levam seus casos até as últimas consequências.

Fazem um belo trabalho, também, Alan Alda como Bert Spitz, advogado experiente e que prefere mais o diálogo que a técnica da rasteira no seu trabalho cotidiano; Azhy Robertson como Henry, filho de Charlie e Nicole que lida bem com uma situação angustiante de separação dos pais; Julie Hagerty muito bem como Sandra, mãe de Nicole – e que gostava do genro até tudo começar a desandar e a família ir, lentamente, se afastando dele; e Merrit Wever está ótima como a irmã parceira da protagonista, Cassie.

Além deles, vale ter o trabalho citado os atores Wallace Shawn em uma ponta como Frank, ator veterano da trupe teatral de Charlie; Brooke Bloom como Mary Ann, contra-regra de Charlie que dá uma “apimentada” no drama familiar; e Robert Smiegel como o mediador que não tem sucesso no trabalho com os protagonistas.

Noah Baumbach dirigiu e escreveu o roteiro de Marriage Story. Além disso, ele também foi um dos produtores do filme, ao lado de David Heyman. Esta produção, juntamente com outras desta safra 2019, mostra a maturidade da Netflix. O serviço de streaming não produz apenas ótimas séries e documentários como, agora, concorre com os grandes e tradicionais estúdios de Hollywood com excelentes produções de filmes. Muito bacana ver essa diversidade e amadurecimento. Quanto mais fontes de criação para o cinema, melhor.

Além do roteiro e das interpretações dos principais atores envolvidos nesta produção, vale destacar alguns aspectos técnicos do filme. Em especial, neste sentido, a trilha sonora de Randy Newman. Também vale citar o bom trabalho de Jennifer Lame na edição; de Robbie Ryan na direção de fotografia; de Jade Healy no design de produção; de Mark Bridges nos figurinos; de Andrew Hull e Joshua Petersen na direção de arte; e de Lizzie Boyle, Nicki Ritchie e Adam Willis na decoração de set.

Antes eu falei de estereótipos. E tem um, que aparece neste filme, que para mim é especialmente digno de fazer o sangue ferver. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Quando Charlie justifica a traição que fez com Mary Ann alegando para Nicole que eles não transavam há algum tempo, eu queria dizer para ele deixar de ser um verme. Homens, nunca justifiquem os seus atos colocando a culpa na vítima. Nunca!

A mulher foi traída, teve a sua confiança quebrada. E ainda assim você quer culpar ela? Ah, me poupe! Seja digno uma vez na vida e admita o seu erro, sua falha. Você traiu porque quis, nem mais, nem menos. Ninguém te pediu para trair. Então assuma sua responsabilidade!

Outra parte interessante do filme é quando Nora fala sobre a sociedade machista que aceita que um pai seja falho mas não aceita, jamais, que uma mãe seja humana – e falha. Acho que precisamos pensar e falar sobre isso. Mães podem falhar sim, não apenas os pais. E devem ser perdoadas por isso. Antes de serem mães, elas são mulheres. Tem desejos, necessidades, qualidades e defeitos. Não passam a ser perfeitas apenas porque se tornaram mães. Este para mim é um dos pontos altos do filme – e não tem a ver com ser ou não feminista, mas com encarar a realidade e discuti-la.

Marriage Story estreou em agosto no Festival de Cinema de Veneza. Depois, até novembro, o filme participou de uma sequência de 31 festivais de cinema em diversos países. Nos cinemas, de forma limitada, em apenas algumas salas, ele estreou em novembro. Até que, em dezembro, ele foi lançado na internet pela Netflix. Interessante essa forma de divulgação e de distribuição. Achei bacana.

Agora, vale falar sobre algumas curiosidades sobre esta produção. O elenco contribuiu com suas experiências pessoais para o roteiro de Marriage Story. Noah Baumbach, Scarlett Johansson e Laura Dern passaram por divórcios. Adam Driver é filho de um casal que se divorciou. Então eles já tinham visto, na prática, parte do que significa passar por essa experiência.

Segundo Baumbach, o filme é bastante inspirado na sua experiência pessoal. Ele bebeu bastante da fonte do divórcio que experimentou junto com Jennifer Jason Leigh, de quem ele se separou em 2013. Por outro lado, a personagem de Laura Dern no filme é baseada, mas de forma vaga, em uma advogada de Los Angeles que representou tanto Laura Dern quanto Scarlett Johansson quando elas se divorciaram.

Adam Driver, Scarlett Johansson e Laura Dern foram chamados para fazer o filme antes do roteiro estar pronto. Assim, eles puderem contribuir com o material final, ajudando Baumbach a construir os personagens dele de forma colaborativa.

Quando Noah Baumbach se aproximou de Scarlett Johansson para convidá-la para fazer Marriage Story, a atriz estava, sem ele saber, passando pelo seu segundo divórcio. Ela foi casada com Ryan Reynolds entre 2008 e 2011 e com Romain Dauriac entre 2014 e 2017.

Foi uma ideia de Adam Driver que seu personagem no filme fosse um diretor de teatro.

O tema do teatro se reflete no design de produção e na arquitetura do filme. Charlie e Nicole têm no apartamento de Nova York um arco de proscênio (espaço do palco que fica à frente do cenário, avançando desde a boca de cena até a plateia) e, na casa da mãe de Nicole, os personagens entram e saem de salas que se interconectam com a cozinha, como um bastidor em relação ao palco principal. Durante seu monólogo, Nicole entra e sai das salas e, da mesma forma, se desenvolve a cena da briga entre Nicole e Charlie quando ela tenta conversar com ele após a audiência com o juiz. Interessante.

A cena da briga entre Charlie e Nicole levou dois dias de gravações e teve cerca de 50 tomadas. Por outro lado, a sequência em que Adam Driver canta Being Alive, de Stephen Sondheim, foi gravada uma única vez e com ele cantando ao vivo. O monólogo de Scarlett Johansson também foi gravado apenas uma vez.

Até o momento, Marriage Story recebeu 78 prêmios e foi indicado a outros 172. Números impressionantes, devemos admitir. Pensem: 78 prêmios já recebidos e 172 indicações… uau! Faz parte destas indicações a participação do filme em seis categorias do Globo de Ouro 2020. A saber: Melhor Filme – Drama, Melhor Roteiro para Noah Baumbach, Melhor Atriz – Drama para Scarlett Johansson, Melhor Ator – Drama para Adam Driver, Melhor Atriz Coadjuvante para Laura Dern e Melhor Trilha Sonora para Randy Newman. Francamente? Muito merecida cada uma destas indicações.

Acredito que o filme tem grandes chances de ser indicado em todas essas categorias no Oscar também. Melhor Atriz, Melhor Roteiro e Melhor Filme, certamente. Nas demais categorias ele também tem grandes chances de ser indicado. Ganhar… bem, isso é mais difícil. Tenho que assistir aos outros concorrentes ainda, mas eu diria, neste momento, que talvez Scarlett Johansson tenha boas chances.

O diretor Noah Baumbach estreou no ofício em 1995 com Kicking and Screaming. Depois de lançar mais dois filmes e um curta, o diretor teve um certo destaque em 2005 com The Squid and the Whale. Dele, buscando aqui no blog, encontrei apenas a crítica de Margot at the Wedding, filme lançado em 2007. Ele foi bem badalado por Frances Ha, mas acabei perdendo o filme. Pelo que eu vi, ele gosta do ator Adam Sandler – eles fizeram vários filmes juntos. Mas pelo trabalho nesse Marriage Story, acho que é um diretor que vale ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para Marriage Story, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 307 críticas positivas e 15 negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 95% e uma nota média de 8,93.

O site Metacritic apresenta para este filme um “metascore” de 93, fruto de 53 críticas positivas. É um pouco raro um filme conseguir esta unanimidade de críticas favoráveis. Interessante. Isso faz com que esta produção realmente tenha chances de ganhar uma ou duas estatuetas no Oscar – pelo menos.

Segundo o site IMDb, Marriage Story teria custado cerca de US$ 18,6 milhões – certamente, boa parte para pagar o elenco. Como o filme teve uma estreia restrita nos cinema, segundo o site Box Office Mojo, esta produção teria faturado pouco mais de US$ 299,7 mil nas bilheterias nos países em que estreou – não há dados sobre o desempenho do filme nos Estados Unidos.

Este filme é uma coprodução dos Estados Unidos com o Reino Unido.

CONCLUSÃO: Um roteiro impecável, uma direção cuidadosa e um trabalho de atores de tirar o chapéu. Marriage Story marca um momento importante na carreira de Scarlett Johansson, em especial, assim como de Adam Driver. Eles estão divinos em cena. A história em si impressiona pela franqueza com que nos mostra como uma relação pode terminar de forma desgastante e mal.

O amor maior do mundo pode virar um martírio e uma disputa feia. Marriage Story é um dos filmes mais contundentes sobre este tema. Por sua condução e pelo trabalho do elenco, deve ser bem indicado ao Oscar 2020. Ganhar… isso será mais difícil. Considero uma bela produção, mas não uma das mais marcantes do ano. Ainda assim, certamente merece ser visto pelo conjunto da obra e por suas diversas qualidades.

PALPITES PARA O OSCAR 2020: Como comentei antes, acho que este filme deve emplacar 6 indicações ou mais no próximo Oscar. Não será surpreendente se ele emplacar nas mesmas categorias do Globo de Ouro, praticamente. Ou seja, Melhor Filme, Melhor Roteiro Original, Melhor Atriz, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Trilha Sonora.

Dependendo do bom humor dos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, o filme pode emplacar ainda nas categorias de Melhor Diretor e Melhor Ator Coadjuvante para Ray Liotta. Meu palpite, contudo, é que ele fique com as mesmas indicações do Globo de Ouro. E as chances do filme ganhar? Acho que Scarlett Johansson tem boas chances como Melhor Atriz, assim como Noah Baumbach como Melhor Roteiro Original. Melhor Filme… preciso assistir a outros para opinar, mas acho que ele corre por fora nesta categoria.