Michael Clayton – Conduta de Risco

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Eu gosto do Sr. George Clooney, especialmente depois de Syriana e de Boa Noite, e Boa Sorte. E foi por causa dele que fui atrás deste Michael Clayton. Não sabia nada do filme, nem mesmo que ele era dirigido e escrito por Tony Gilroy, o homem por trás da trilogia de Jason Bourne. Michael Clayton, fui descobrir depois, na verdade é a estréia do roteirista Tony Gilroy na direção. E ele faz um bom trabalho. Ainda que eu tenha algumas ressalvas para o filme, ele é um competente trabalho do diretor e de seus atores.

A HISTÓRIA: Toda vez que importantes clientes de uma firma de advocacia em Nova York tem problemas, são chamadas pessoas como Michael Clayton (George Clooney). Ele é o “manager”, o homem que administra crises e resolve problemas. Alguns dizem que ele faz “milagres” porque antecipa problemas e agravantes de situações já complicadas e os resolve da melhor maneira. Sempre aproveitando as brechas da lei. Em uma noite ele é chamado para resolver mais um caso destes e depois, na saída, tem o carro destruído por uma bomba. Em seguida, a história volta quatro meses no tempo, quando Clayton tem que lidar com uma crise sem precedentes em sua companhia. A firma de advogados para a qual ele trabalha está prestes a conseguir um importante acordo em um processo milionário contra a U/North, uma empresa importante do ramo de insumos agrícolas que contaminou a água de muitas famílias de uma pequena cidade muitos anos antes. Tudo está sob controle até que o advogado Arthur Edens (Tom Wilkinson) tem uma crise em uma audiência e provoca um escândalo, sabotando o caso que está sendo defendido e ameaçando divulgar detalhes do processo que podem acabar com a U/North e com a firma de advocacia. Clayton é chamado para administrar essa crise, mas a situação foge do seu controle.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que o texto a seguir contêm partes importantes do filme, por isso recomendo que só continue lendo quem já assistiu a Michael Clayton): O filme é um interessante suspense sobre a máfia existente entre grandes companhias e firmas de advocacia conceituadas. Todos sabem como as grandes firmas de advocacia conseguem as suas fortunas, não é mesmo? Pois fazendo cumprir a lei e defendendo o interesse das vítimas é que não. Eles sempre conseguem tirar, de uma maneira ou de outra, proveito para as grandes companhias. E os cidadãos comuns que se lasquem! Pois o filme conta justamente uma história de ficção sobre até que extremos uma firma destas pode chegar para preservar os seus “segredos” e defender o interesse de seus clientes – e, mais que tudo, de si mesmos. E o filme conta também, claro, como as grandes corporações conseguem garantir que a verdade não apareça em casos como o que o filme conta, de contaminação de recursos naturais.

Só pela premissa que comentei antes, o filme já vale a pena. Afinal, não é sempre que Hollywood resolve mexer em vespeiros como este. Mas a maneira com que a saída “alternativa” para o problema é escolhida por Karen Crowder (Tilda Swinton, perfeita em seu papel), a conselheira da firma de advocacia Kenner, Bach & Ledeen, me pareceu um pouco “forçada”. Afinal, não seria mais fácil dar um “sumiço” em Arthur Edens de outra maneira? Talvez lhe “sequestrando” simplesmente, fazendo ele sumir do mapa e lhe pagando uma passagem só de ida para um país longínquo e perdido no mapa até que a situação se resolvesse? E depois do que fazem com ele, o que resolvem fazer com Clayton parece ainda mais exagerado. De qualquer forma, o que ocorre e da maneira que ocorre rende uma troca de diálogos final de tirar o chapéu. O que Clayton diz para Crowder sobre a “saída mais simples” para o problema é simplesmente perfeito!

O filme tem uma boa “quebra” de ritmo no início, quando a história volta quatro meses no tempo para sabermos o que está acontecendo com Michael Clayton. Afinal, porque alguém explodiria o carro de um cara como ele? Depois deste ponto a história volta a ser contada linearmente e de maneira interessante. Afinal, não é nada fácil tornar quase um suspense uma história de intriga empresarial que poderia se tornar muito, muito chata. Mas o roteirista e diretor Tony Gilroy prova mesmo que sabe contar uma história. Fora um ou outro exagero estratégico dos envolvidos na história – especialmente da personagem de Karen Crowder – o filme é perfeito. Recomendado para quem gosta de histórias sobre os lados podres do poder, dar corporações e das grandes firmas de advocacia. Agora, se você não curte um filme “sério” deste tipo, passe longe. Não vai gostar… certeza que vai achar um pouco “aborrecido”. Ainda que não seja. Mas, para mim, ainda está abaixo da qualidade de Syriana e de Boa Noite, e Boa Sorte.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Os atores principais do filme estão muito bem. Com especial destaque para George Clooney e Tom Wilkinson – para mim é a melhor interpretação dele depois de Entre Quatro Paredes. Outros nomes que fazem parte do elenco, além da já citada Tilda Swinton, são: Sydney Pollack (como Marty Bach, um dos sócios da firma de advocacia), Michael O´Keefe (como Barry Grissom, um dos advogados da firma), Merritt Wever (como Anna, a vítima que passa a ser defendida por Arthur Edens) e Robert Prescott (como Mr. Verne, o homem que cumpre as ordens de Karen Crowder).

Um dos pontos interessantes do filme é que ele não santifica a Arthur Edens. Por um tempo somos levados, como a Michael Clayton, a pensar que o homem está louco. Mas depois, quando sabemos que ele está tendo, na verdade, a primeira crise de sinceridade de sua carreira, o roteiro deixa em dúvida as reais razões que lhe motivaram a fazer isso. Vejamos: mais para o final do filme, quando Clayton finalmente fala com Anna, ficamos na dúvida, pelo que ela nos conta do que lhe disse Arthur, de quais eram as reais intenções dele. Será que ele estava fazendo o que estava fazendo – pagar passagem de primeira classe para ela e tudo o mais – porque só lhe queria ajudar ou por que esperava que ela pudesse ser um novo amor? Sim, essa dúvida fica no ar, especialmente pela reação de Arthur quando Clayton lhe diz que foi a própria Anna que havia lhe “entregado” para a firma de advocacia. A reação dele é um pouco estranha, assim como as passagens em que ele fala com Anna… parece que lhe está cortejando. Pode ser que sim, ou pode ser que ele era um “bondoso” que teve uma crise de consciência perto de terminar um importante acordo e resolveu contar a verdade. De qualquer forma, fica a dúvida. O que é mais um ponto positivo do roteiro, porque o autor não quis “santificar” o personagem.

Para variar, gostei muito do cartaz do filme. Nada mais acertado para esse filme do que a frase “a verdade precisa ser ajustada”. Duplo sentido inteligente.

Michael Clayton custou aproximadamente US$ 25 milhões e arrecadou, em três semanas em cartaz nos Estados Unidos, US$ 21,6 milhões. A produção deve pagar-se facilmente. Ainda mais porque, até o dia 19 de outubro, seguia em quarto lugar no ranking dos filmes mais vistos. Ainda que perde para as comédias da vez – The Game Plan, com US$ 69,2 milhões, e Why Did I Get Married? (que está mais para “drama” ou “romance” do que para comédia, mas tudo bem), com US$ 39 milhões.

O filme, com nota 7,8 no site IMDb, ainda não tem estréia prevista no Brasil.