Promises – Promessas de um Novo Mundo

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Ando meio viciada em documentários ultimamente. Não que antes não assistisse a eles mas, realmente, nos últimos tempos ando cavando vários para assistir. Antes tinha sempre em mente Edifício Master e Ônibus 174, além dos filmes de Michael Moore, Super Size Me e similares, mas nos últimos tempos tenho ampliado o meu repertório.

Além do mais, para relaxar da correria do trabalho e do doutorado, ando vendo mais filmes que antes… e tenho intercalado filmes que baixei faz tempo e ainda não vi – tenho algumas pilhas de CD me esperando – e outros que ando baixando e que são novos “no mercado”.

Um desses que eu baixei faz tempo e ainda não tinha visto é esse Promises – ou Promessas de um Novo Mundo, na tradução para o Brasil. Que filme, meus caros! Super mega hiper recomendado. Até morar em Madrid, eu nunca tinha tido contato realmente com árabes. Aqui, trabalhando direto com o público na pizzaria, volta e meia encontro muçulmanos, judeus, palestinos, enfim… Desde então tenho observado mais sua maneira de ser, como as mulheres se portam em relação aos homens, aos filhos, e vice-versa… como os filhos respeitam os pais, como os homens tratam as mulheres. Enfim, já vi muitas reações e me interesso muito mais pelo tema do que antes.

Mas mesmo para as pessoas que estão anos-luz de árabes, israelenses, palestinos ou judeus, recomendo esse filme. Sempre quis entender essa infindável luta de uns contra os outros… já li sobre o que passa em Israel, sobre palestinos e israelenses, mas sempre pareceu um mundo tão distante. Até que, faz um ano já, estive na mesquita de Córdoba, considerada a segunda mais importante do mundo, e pensei a respeito ainda mais. Assim como com esses contatos diretos com os árabes através do trabalho. E aí que agora, finalmente, vejo esse Promises.

A HISTÓRIA: O documentário dos diretores B.Z. Goldberg (americano-israelense), Carlos Bolado (mexicano) e Justine Shapiro (sul-africana) procura contar um pouco da vida, dos sonhos e das diferenças entre os diversos povos que dividem espaço em Israel e Jerusalém através da ótica de suas crianças. Assim é que chegamos a conhecer a vida dos gêmeos israelenses e judeus Yarko e Daniel, ou do muçulmano Mahmoud, que vive na Cidade Velha. Também somos apresentados ao judeu ultra-ortodoxo Shlomo; aos refugiados palestinos Sanabel e Faraj; assim como ao judeu de extrema direita Moishe. Todas as crianças, antes do epílogo, tem entre nove e 13 anos.

VOLTANDO À CRÍTICA: Como o resumo do documentário diz, através da lente dos diretores de Promises somos apresentados ao que, no jornalismo, se diz como “os variados lados da questão” ou diferentes ângulos de um mesmo fato. O filme vai crescendo conforme os diretores vão contando a vida das crianças e, mais que isso, vão se aproximando de temas delicados e de um ponto-chave da questão: o que elas esperam do futuro, como pensam que será resolvido o problema em que estão imersas – ou seja, como será resolvido o problema da falta de diálogo entre seus povos? Pois é justamente o desenrolar desta questão e a resposta a perguntas tão simples e tão complexas quanto se é possível um diálogo ou um povo realmente conhecer ou conviver com o outro, que vai fazendo o documentário chegar ao ponto que chega.

Sem estragar surpresas, devo dizer que me impressiona que todos tenham as respostas, mas quase ninguém consegue de verdade tomar a vida em suas próprias mãos e promover a mudança necessária da realidade. Especialmente emocionante o ponto do encontro entre palestinos e israelenses… Chegamos a sonhar com um futuro possível em que os povos realmente eliminem as barreiras e resolvam conviver juntos. Mas dois anos passam desde aquelas cenas e os novos depoimentos das crianças só confirmam o que se vê seis anos depois do lançamento do documentário e, por fatal coincidência, do atentado contra as torres do World Trade Center: todos jogam a responsabilidade de mudar algo em suas vidas e, especialmente, a respeito desses conflitos na mão de outras pessoas. Ou seja: na prática, quem realmente pode mudar a situação, que é cada um dos envolvidos, não faz nada para que isso aconteça. Ou, como diz um dos gêmeos do filme, acabam se preocupando mais com suas vidas – o que ninguém pode condenar, ao mesmo tempo – do que em resolver esse conflito. No fundo, eu entendo. Mas, ainda assim, é duro assistir a um documentário como este e não ver uma mudança real em um futuro próximo.

E fica uma pergunta no ar: se amanhã todas as barreiras fossem abertas e as pessoas pudessem ir e vir do território de Jerusalém, a guerra terminaria realmente? Talvez não, mas ao menos as pessoas poderiam, finalmente, se conhecer e perceber que são mais parecidas, muito mais parecidas do que diferentes.

Só espero que as crianças de lá continuem sonhando.

NOTA: 9,7. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fiquei especialmente tocada por Faraj e por Sanabel, que estão em campos de refugiados. Nem tanto (ou só) porque estão ali, expulsos do que seus pais chamam de suas terras, mas principalmente porque eles tem uma profundidade de olhar que impressiona. Parece que tem 100 anos de experiência em corpos de crianças. Impressionante. E isso porque o filme se passa antes do atentado a Nova York, que piorou em muito a opinião de grande parte do mundo para os conflitos no Oriente Médio – e, mais que em relação aos conflitos, em relação as pessoas que vivem ali.

No IMDb o filme apresenta uma nota 8,6. Está bem, apesar que eu acho que merecia mais. Vi também, pelo site, que o filme conseguiu arrecadar pouco mais de US$ 243,7 mil nos Estados Unidos… ou seja, a exemplo de Corporation, que falo mais abaixo, não chegou aos pés dos “blockbusters” de Michael Moore, por exemplo. O que prova que nem sempre o que tem qualidade é visto e que, no fim das contas, publicidade realmente é a alma do negócio. Mas ok, se mais pessoas virem o filme assim, com propaganda boca-a-boca (como estou fazendo aqui), tanto melhor. Promises merece.

O filme foi indicado ao Oscar 2002 na categoria Melhor Documentário, mas perdeu para a produção francesa Un Coupable Idéal – Um Culpado Ideal, que conta a história do adolescente negro Brenton Butler, acusado de assassinato em 2000. O filme de Jean-Xavier de Lestrade que bateu a Promises desmonta a investigação feita às pressas e o circo da mídia sobre o caso que quase termina com a vida do adolescente.