Source Code – Contra o Tempo

Como é bom assistir a um roteiro que tem originalidade. Finalmente um filme de ficção científica que não faz um “apanhadão” geral de várias ideias anteriores – sim, sempre que eu posso eu dou esta “cutucada” no fraco Inception. Source Code é destas produções que comprovam que ainda é possível ser original no cinema, mesmo que isso não signifique redescobrir a roda. E nem é preciso. Basta um roteiro que convença, que envolva e interesse do início ao final. E Source Code consegue isso. Sem contar que o filme é protagonizado pelo ótimo Jake Gyllenhaal, bem acompanhado de Michelle Monaghan e Vera Farmiga. Diversão garantida – e com uma boa dose de ideias novas, para nosso alívio.

A HISTÓRIA: Grande cidades, estradas movimentadas e um trem percorre com rapidez alguns trilhos. Um homem dentro do trem acorda relutante. Ele parece perdido. À sua frente, uma mulher agradece por um conselho que ele lhe deu. Um rapaz sentado no mesmo vagão abre uma lata de refrigerante e, em seguida, uma mulher derrama café no sapato do protagonista. A mulher à frente dele lhe chama de Sean, mas ele continua aturdido. Em seguida, um homem reclama do horário e a mulher em frente ao protagonista reclama do ex-namorado que está ligando pela terceira vez naquele dia. Ela avisa que deu aviso prévio, ele fica surpreso, e pouco depois pedem para ver o bilhete de trem dele.  Após ouvir algumas reclamações de passageiros sobre o atraso do trem, ele diz para a mulher que está a sua frente que ele não é a pessoa que ela pensa que é, mas que se chama Colter Stevens (Jake Gyllenhaal), é capitão do Exército e piloto militar em missão no Afeganistão. Ele sai do trem para tomar um ar, e pergunta onde está, quando descobre que o trem parou em Chicago. Ele volta para o vagão e vê, no reflexo da janela, um rosto que não é o seu. No banheiro, confirma a impressão. Pouco depois, ele acorda em uma sala escura e descobre, ao falar com a militar Colleen Goodwin (Vera Farmiga), que está em um missão estranha. Ele tem oito minutos da memória de Sean Fentress (Frédérick De Grandpré) para descobrir quem é o culpado e onde está a bomba que explodiu o trem em que o professor estava junto de Christina Warren (Michelle Monaghan). Se cumprir a sua missão, Stevens poderá evitar um segundo e mais destrutivo ataque terrorista nos Estados Unidos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Source Code): A impressão inicial que eu tive de Source Code não foi das melhores. As cenas que abrem a produção, durante os créditos, são acompanhadas de uma trilha sonora exageradamente dramática. Naquele momento, pensei: “Será que esse filme vai ser um daqueles exageros em que o roteiro vai tentar, a todo momento, pregar peças no espectador? Dai-me paciência se for assim…”. A abertura do filme, parte da trilha sonora de Chris Bacon, está realmente um pouco acima do tom. Mas o exagero não atrapalha o desenrolar da história porque, afinal de contas, ela é muito boa.

Por mais que o filme, como qualquer boa história de suspense, possa dar algumas dicas aqui e ali logo no início, ele não cai em armadilhas comuns como entregar informações demais para o espectador antes da hora ou pregar peças desnecessária para tentar surpreender quem está assistindo. Não. O roteiro de Ben Ripley tem um ritmo perfeito. Ele utiliza, para começar, um artifício bastante conhecido: coloca o espectador na mesma posição “perdida” do protagonista. Assim, a história cria uma identificação entre o personagem principal e quem está assistindo ao filme. Contribui para isso, também, o carisma de Gyllenhaal, um cara que veste perfeitamente a “roupa” de herói comum.

Muito interessante como o roteiro vai ganhando corpo com o tempo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E quem pudesse esperar que uma volta ad infinitum na história, com repetidas incursões de Stevens nos oito minutos de memória preservada de Sean Fentress, pudesse tornar o filme cansativo, vai se surpreender, como eu me surpreendi, nos recursos utilizados pelo roteirista e pelo diretor Duncan Jones para não tornar estes retornos “mais do mesmo”. Inteligentes, eles criaram uma forma do personagem de Stevens retornar sempre com algum elemento novo e, mesmo o que se repetia, não parecer cansativo com ângulos e dinâmicas diferentes de filmagens.

Uma outra qualidade do roteiro: ele explica o que está acontecendo de maneira rápida, breve, sem dar muitas voltas ou complicar o que não precisa ser complicado. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Junto com Stevens, vamos descobrindo, pouco a pouco, o que está acontecendo. Sabemos, primeiro, que ele não pode evitar a catástrofe da explosão do trem. E que qualquer tentativa de fazer isso é “irrelevante”, como insiste Goodwin. Com esta informação, o personagem e os espectadores descobrem que ele está acessando sempre a memória de um morto, mas que por uma estranha razão, ele não a acessa como uma gravação de videotape, mas consegue explorar aquela realidade já passada de tempo e espaço para descobrir informações novas.

Além do mistério do trem, que por si só já tornaria a história interessante, há outro mistério paralelo. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Afinal, por que a “capsula” em que Stevens está parece estar sempre com algum problema? Ele está em risco? E se está, porque as pessoas responsáveis pela missão dele não podem ajudá-lo? As respostas para os dois mistérios vão aparecendo aos poucos e simultaneamente, porque o protagonista não está interessado apenas em terminar a missão que deram para ele, mas entender o que aconteceu com ele desde a sua última memória, que era de ser um piloto de helicóptero no Afeganistão. Um pouco por “acidente” e um tanto a contragosto, o cientista Dr. Rutledge (Jeffrey Wright) explica para Stevens, bem an passant, alguns princípios de mecânica quântica. Fala de “cálculos de parábolas”, explica que “há reflexões quando uma luz se apaga”, o efeito halo, que se aplica também ao cérebro humano.

O “campo eletromagnético” do cérebro continuaria a funcionar brevemente mesmo após a morte. (SPOILER – não leia… você sabe). “O circuito continua aberto” e o cérebro consegue manter preservado os últimos oito minutos da memória da pessoa. Estes dois fatores permitem que seja criado o “código fonte”, que explora a sobreposição dos dois fenômenos. Por isso Stevens conseguiria fazer essa viagem no tempo que, na verdade, não é uma viagem no tempo, explica o Dr. Rutledge. Para ele, não seria possível Stevens viver como Fentress além daqueles oito minutos. Nas palavras do cientista, o Código Fonte seria apenas uma “realocação no tempo” que permite que o militar acesse uma “realidade paralela”. Como ele tenta salvar a Christina, mas descobre que ela continua morta “no mundo real”, a única saída para ele parece ser seguir a missão até descobrir o culpado e evitar uma próxima tragédia.

Honestamente fiquei curiosa sobre estes conceitos de mecânica quântica e fui me informar um pouco mais a respeito. Os conceitos são interessantes – falarei deles um pouco mais ali embaixo. Tenho certeza que alguns teóricos vão questionar e talvez torçam o nariz para o desenrolar desta história, mas achei ela interessante. Além dos dois mistérios serem bem explicados, o roteiro de Ripley ainda nos reserva algumas surpresas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Primeiro, achei uma cereja no bolo a “real condição” do nosso herói. Um filme hollywoodiano padrão diria que ele teria alguma chance de sobrevivência por conta própria, certo? Mas não Source Code. Mesmo que não seja o foco principal desta história, ela deixa clara a crítica ao “vale tudo”, a obsessão dos Estados Unidos para proteger o seu povo e, se possível, o restante do mundo – mantendo uma relação de poder que para eles, mais que nada, é economicamente interessante. Em Source Code, o pai de Stevens não autorizou o uso “final” que deram para o seu filho. Pelo contrário, ele foi enganado pelo Exército. O próprio soldado Stevens não teve poder de decisão. E não há uma redenção possível neste cenário – pelo menos não uma que dependa deste Exército, de uma instituição que pode ter ótimas intenções, mas que nem sempre tem os seus métodos justificados por elas.

E além desta “cereja no bolo”, há um outro ponto interessante no final. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Francamente, eu não esperava que Stevens estivesse certo. Quando ele faz a sua última “incursão” no Código Fonte e os oito minutos terminam, para mim só havia duas possibilidades: 1) a história dele ficaria congelada naquele momento do beijo ou 2) ele teria uma “sobrevida” de apenas mais oito minutos – afinal, ele mesmo estava sendo “desligado” e, sei que isso não tem lógica, mas achei que ele poderia ter esta “extensão” de tempo antes de “apagar” de vez. Alguns até podem fazer uma leitura do final religiosa, acreditando que ele foi para o Paraíso – e por isso seguiu ao lado de Christina, de quem ele se apaixonou.

Mas eu prefiro seguir com a lógica do próprio filme (SPOILER – não leia… bem você já sabe): Stevens e Christina continuaram vivos porque ele impediu que o trem explodisse e salvou o mundo em uma realidade paralela, como a mecânica quântica propõe. Das outras vezes, ele não seguiu vivo porque ou o trem explodiu, ou ele caiu nos trilhos ou levou tiros. Mas na vez em que ele caiu nos trilhos, por exemplo, naquela realidade paralela, é bem provável que Christina continuou viva. Tema para debates. Mas algo considero indiscutível: o filme tem uma história bem amarrada, interessante e envolvente, com uma direção que consegue manter um bom ritmo do início ao fim e um grupo de atores que vestem a camisa e convencem. Na parte técnica, tudo funciona bem. Então é um filme praticamente perfeito. Apenas detalhes não me deixam dar a nota máxima para ele. Entre outros, achei que na primeira sequência do Código Fonte ficou subentendido demais o possível culpado, assim como achei desnecessária aquela “charada” perto do final, com a longa sequência de ação congelada. Ok, foi interessante a cena, tecnicamente falando. Mas a pequena “armadilha” não fazia falta. Mas o filme é praticamente irretocável. O que, convenhamos, em uma produção do gênero, é difícil de acontecer.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vários filmes já trataram sobre viagens no tempo ou sobre realidades paralelas. Sobre este último tema, talvez um dos mais conhecidos – e cultuados, com muitos méritos – seja The Butterfly Effect. Mas mesmo tendo sido precedido por vários filmes interessantes que versam sobre alguns conceitos da mecânica e da física quântica, Source Code não derrapa nos lugares-comum e nem faz uma “releitura” do que foi feito antes. Algo difícil e, por isso mesmo, louvável. Tão diferente de Inception e sua “colagem” de outros filmes. Me perdoem os “fanáticos” por Inception, mas quem acompanha este blog há mais tempo sabe que eu tenho vários motivos para não ter “babado” sobre a produção dirigida por Christopher Nolan.

Gosto de diretores que fazem o seu trabalho e que não se imaginam os melhores realizadores de filme do mundo. Prepotência é o caminho mais rápido para um tiro no próprio pé. Por isso é interessante esse inglês Duncan Jones, um sujeito jovem, que logo mais – no dia 30 de maio – completará 40 anos. Ele ficou conhecido – e foi bastante elogiado – por Moon que, infelizmente, ainda não assisti. Antes, ele havia dirigido apenas um curta, Whistle. Agora, admito, fiquei interessada em seguir esta figura. Jones é um diretor que merece ser acompanhado.

Todos os atores de Source Code estão muito bem. Jake Gyllenhaal e Michelle Monaghan fazem um dueto interessante, divertido, e que responde a cada situação de uma maneira bastante convincente e leve. Méritos do roteiro, claro, mas também da sintonia dos intérpretes. Vera Farmiga dá mais uma demonstração de grande preparo e repertório técnico. Mesmo “contracenando” boa parte do tempo com uma tela e um microfone, ela passa todos os sentimentos que precisa passar com exatidão. Além deles, vale citar o trabalho do coadjuvante Michael Arden como Derek Frost.

Apesar do exagero da sequência dos créditos iniciais, é preciso admitir que a trilha sonora de Chris Bacon faz um trabalho competente de ajudar o filme a manter um ritmo interessante do início ao final. A direção de fotografia de Don Burgess também merece palmas, porque ele conseguiu solucionar algumas questões técnicas bastante complicadas de forma criativa. Para isso, ele contou com a ajuda fundamental do departamento de efeitos especiais comandado por Suzanne Simard, com uma equipe de 10 profissionais, e com a gigantesca equipe que trabalhou com os efeitos visuais. Nada menos que 160 profissionais contribuíram para que o espectador fosse inserido naqueles episódios de destruição e de ação tensa. Sem dúvida este filme sai na frente para o Oscar do próximo ano nestas categorias técnicas. Claro que é muito cedo para saber se ele terá chances, mas ele é um pré-candidato, sem dúvidas. Outro que faz um ótimo trabalho é o editor Paul Hirsch.

Source Code trata, rapidamente, de vários conceitos diferentes. O personagem do Dr. Rutledge cita a mecânica quântica, o efeito halo, cálculos de parábolas, entre outros. Fui procurar mais informações sobre cada um deles, inclusive para lembrar o que eu li, há bastante tempo atrás, sobre os conceitos de mecânica e física quântica. Com certeza há pessoas muito mais informadas, estudiosos bem mais preparados do que eu para falar a este respeito. Mas o que eu acho essencial citar é que, conforme explica este texto de forma bastante simplificada, pela Teoria dos Mundos proposta por Hugh Everett, existem vários universos que existem de forma simultânea, e que cada resultado diferente de uma situação cria um novo universo. Mas estes universos são inacessíveis uns aos outros. O texto do Jonathan Quartuccio faz um grande apanhado dos principais conceitos da mecânica quântica, por isso achei interessante citá-lo.

Recomendo também a leitura deste texto assinado pelo professor Luiz Gazzola. Ele explica, por exemplo, que a física quântica “ensina que a maior parte do universo está vazia. A matéria na verdade não possui substância. (…) Devemos, pois, pensar cada vez mais em possibilidades. Tudo é possibilidade subconsciente. Podemos transformar o meio em que vivemos. (…) Num universo onde a maior parte é vazio, a coisa mais sólida que pode existir é um pensamento.” Ele não fala muito de realidades paralelas mas, como pode-se perceber pelo resumo acima, ele trata sobre o potencial de cada indivíduo em moldar a própria realidade. O que serve para explicar Source Code também. Há ainda este outro texto, escrito em espanhol, que afirma: “todas as vertentes de um projeto/vida estão extra-dimensionadas em realidades paralelas que chamamos de multimodais, e algumas destas possibilidades podem entrar em colapso no plano terrestre em qualquer instante”. Um bocado assustador, não? 🙂 A verdade é que existem diferentes interpretações sobre os conceitos da mecânica e física quântica, por isso não pode ser considerado absurdo o que é proposto no filme – se é que alguém se importe com isso.

Ainda sobre conceitos interessantes, vale citar este texto sobre a teoria das supercordas, que afirma que existem 11 dimensões: três de natureza espacial, uma temporal e sete recurvadas, “as quais incorporam também massa atômica e carga elétrica, entre outras características. Estas outras esferas não seriam visíveis, como sugerem os estudiosos desta teoria, por não captarem a luz, essencial para que possamos ver e conhecer”. Seguindo esta lógica, as ações como vemos em determinado momento do filme não poderiam ocorrer em alguma outra realidade paralela. Longa discussão, imagino. 🙂 Finalmente, acho interessante indicar este texto sobre o efeito halo que, aparentemente, não tem nada a ver com mecânica ou física quântica. O efeito halo é “considerado o mais sério e o mais difundido de todos os erros de avaliação”. Seria uma piada do roteirista a respeito da própria história – ou melhor, da leitura do personagem do Dr. Rutledge? É de se pensar…

Uma curiosidade do filme: o Beleaguered Castle citado na produção foi inspirado em um jogo de paciência. Li que a série de TV Quantum Leap, de 1989, tem uma premissa parecida com Source Code. Como não assisti a essa série, não posso confirmar e nem negar. Mas fica a dica para quem quiser conferir. 🙂

Source Code estreou no dia 11 de março no desconhecido Southwest Film Festival, nos Estados Unidos. Depois ele participou do Beaune Film Festival, na França, e na Mostra de Valência, na Espanha. Entrou em cartaz no circuito comercial de quatro países no dia 31 de março e, no dia seguinte, estreou em outros cinco países, incluíndo os Estados Unidos. Até o dia 15 de maio, a produção, que custou aproximadamente US$ 32 milhões, arrecadou pouco mais de US$ 52,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Certamente ela vai lucrar mais que o dobro do custo, o que é um excelente resultado.

O filme também foi bem na avaliação de público e crítica. Os usuários do site IMDb deram a nota 7,7 para o filme, um bom conceito para os padrões do site. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, contudo, foram mais generosos: eles dedicaram 196 críticas positivas e apenas 20 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 91% e uma nota média de 7,5.

CONCLUSÃO: Suspense, tensão, mistério, ciência e drama em um mesmo pacote. Adicione a estes ingredientes um roteiro com uma ótima carga de originalidade, uma direção que não deixa a peteca cair, atores afinados e efeitos especiais/visuais irretocáveis. A mistura de tudo isso resulta em Source Code, um dos melhores filmes que mistura ficção científica e ação dos últimos tempos. Esqueça Inception e a salada mista que ele faz de filmes anteriores. Com Source Code, finalmente, alguma criatividade surge em cena. Certo que a ideia de brincar com conceitos de mecânica quântica não é exatamente nova, mas o diferencial é a forma com que o roteirista Ben Ripley e o ótimo diretor Duncan Jones fazem isso. E o interessante que, além de todos os ingredientes citados anteriormente, esta produção ainda tem espaço para a emoção, para “acertos de contas”, para uma leve critica ao “fim justificam os meios” do Exército dos Estados Unidos e para a saudável autocrítica de que não sabemos tudo – e que mesmo a ciência mais avançada ainda tem muito que aprender. Mas um detalhe importante: tudo isso sem sufocar ou parecer “pretensioso” demais. Source Code é um filme direto, honesto, simples e complexo ao mesmo tempo. E que, apesar de tudo isso, consegue o seu objetivo principal: entreter. De tirar o chapéu, pois.