The Air I Breathe – Ligados pelo Crime

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O filme parecia interessante por vários aspectos. Começando pelo título – algo como “O Ar que eu Respiro” -, seguindo pelo elenco (fantástico, diga-se!) e terminando pelo pôster. Quando vi uma arma com uma borboleta, pensei: “Hummmmm, que interessante antítese entre a violência e a liberdade…”. Então comecei a assistir a The Air I Breathe e logo me deparei com Forest Whitaker em uma vida ferrada, sem perspectivas, mas que muitos veriam como uma “vida padrão”. Em teoria ele tem tudo para ser feliz: trabalho, casa… mas, ainda assim, ele não quer esta vida. O começo é promissor. Nesta primeira parte, denominada “Happiness” (Felicidade), vemos pouco disto em cena… afinal, nada mais contraditório para a cena dele com uma arma na mão. Mas o problema é que o filme começa promissor, mas vai se mostrando vazio… algumas vezes, bem “fake” (falso), um tanto descompassado entre o que pretende ser e o que realmente consegue.

A HISTÓRIA: O filme conta quatro histórias que se entrelaçam. A primeira parte se chama Happiness/Felicidade, e conta a história de um bancário farto da sua vida “padrão” (Forest Whitaker) mas que, para muitos, tem uma “vida feliz”: com trabalho, dinheiro, perspectivas de futuro. Mas no fundo ele vê sua realidade como um grande vazio. Em seu trabalho ele acaba conhecendo um homem com muita sorte nos investimentos, na bolsa, um homem que sempre acerta em tudo – como se pudesse ver o futuro (Brendan Fraser). Depois da parte da Felicidade, assistimos o segundo trecho, “Pleasure”/Prazer, centrado justamente neste homem bom nos investimentos. Descobrimos que ele realmente consegue ver o futuro e que ele trabalha para Fingers/Dedos (Andy Garcia), um mafioso habituado a lidar com apostas, proteção de estabelecimentos comerciais, dinheiro, dívidas e violência. Logo Fingers e seu “capanga” que vê o futuro terão seus interesses postos em conflito quando aparece em cena uma ascendente estrela pop (Sarah Michelle Gellar). A história dela começa a ser contada com maior “profundidade” na terceira parte do filme, denominada “Sorrow”/Tristeza. Nesta parte que ficamos sabendo do passado trágido da jovem artista que acaba virando “moeda” de troca de seu agente com dívidas. O bancário vivido por Whitaker, o capataz do mafioso e a artista pop buscam, cada um a sua maneira, mudar as suas vidas, enfrentar o destino e alcançar a liberdade. A última parte do filme, denominada “Love”/Amor, conta a história de um médico (Kevin Bacon) devotado a salvar vidas, decidido, que rompe com o que parecia inevitável para mudar a história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Air I Breathe): Inicialmente o site IMDb me enganou… ali eles colocam o nome dos quatro atores principais como Happiness, Pleasure, Sorrow e Love. Na verdade, buscando mais informações, descobri que em momento algum o diretor do filme ou os roteiristas colocam estes nomes nos personagens. Na verdade, cada um destes atores interpreta pessoas “inominadas”, sem nome. Exceto por Trista, o nome da artista, nenhum dos outros é chamado pelo nome. E detalhe: sabemos que o nome dela é falso. Ou seja: os roteiristas cuidaram de não colocar em nenhum deles um nome – talvez para significar que eles podem ser qualquer um de nós. Mas o fato é que os “sentimentos” Felicidade, Prazer, Tristeza e Amor estão ali para demarcar rupturas na narrativa, mas não para definir personalidades.

Depois também fiquei sabendo que o diretor e roteirista Jieho Lee se inspirou em um antigo provérbio chinês que diz que a vida está dividida entre estes quatro sentimentos. Não por acaso ele coloca, no início do filme, a frase do teólogo libertário e abolicionista Henry Ward Beecher: “Nenhuma emoção, tal como uma onda, consegue manter por muito tempo a sua forma individual”. Uma coisa é certa: The Air I Breathe quer bater muito na tecla de que todas as pessoas estão conectadas – seria a razão do “ar que eu respiro” do título? – e que cada “modo de viver” influi no do outro.
O filme escrito por Lee e Bob DeRosa tem várias sequências muito boas, assim como sacadas inteligentes. Mas também tem muitos “espaços vazios” de sentido, com boas frases jogadas no meio de uma série de afirmações dispensáveis. Como eu disse lá no início, ele realmente começa muito bem, promissor, mas depois termina com um grande “e daí?”. No fim das contas, dois dos nossos quatro personagens principais morrem e dois sobrevivem. Não entendi muito bem porque, em um filme em que nenhum dos quatro personagens principais tem um nome conhecido, existe tanta curiosidade sobre o verdadeiro nome de Tristan. E daí se ela se chama Patrícia, Isabela ou Joana? Ok, talvez seja uma maneira do diretor dizer que o nome é uma das nossas principais identidades e que descobrir o verdadeiro “nome das coisas” é a melhor maneira de conhecer a sua verdadeira essência – fazendo referência a Fernando Pessoa.

Mas vamos falar de acertos do filme: gostei de cada um dos “retrocessos” na vida dos personagens principais. Tecnicamente falando, o filme é muito bom. Especialmente pela fotografia cuidadosa de Walt Lloyd e da edição feita por Robert Hoffman. Eu diria que a fotografia e a edição, assim como a trilha sonora original de Marcelo Zarvos são os pontos altos do filme. Os atores também estão bem, no geral, ainda que, muitas vezes, eles pareçam muito caricaturais. Nenhum deles me convenceu de todo. Mas eu acho também que o roteiro contribuiu com isso, com algumas falas e algumas cenas desnecessárias ou “forçadas”.

O diretor faz um bom trabalho, ainda que a cena em que o médico salva a jovem artista pop tenha sido muito, mas muito “fake”. Alguém realmente acredita que uma pessoa normal falaria o que ele fala para ela, com aquela tranquilidade, se segurando com apenas um braço e sustentando o peso de um outro corpo com apenas o braço que sobrou? Aaaaaaaahhhhhhhh, por favor! O filme estava sendo tão “realista” até ali – com destaque para aquela ótima cena da moto na fuga super bem filmada do bancário. O diretor nova-iorquino (sim, ele é estadunidense… e eu pensando que, pelo nome, ele fosse chinês! hehehehehehe) realmente tem grande potencial. Só espero que ele capriche um pouco mais no roteiro do próximo projeto ou, talvez, pegue um bom trabalho de outro roteirista pela frente.

No fim das contas, fiquei pensando sobre a arma com uma borboleta na ponta… se a borboleta simboliza liberdade e a “mudança” de um estágio de “feiura para beleza”, como mesmo comenta o personagem de Whitaker no início, porque ela está pousada sobre a arma? Será que o filme, por tudo que ele mostra, quer dizer que a transformação e a liberdade só podem surgir como resultado da violência? Ou ele seria uma ode ao conceito que de toda a violência que existe no mundo será transformada em beleza? Eu diria que esse pensamento, de que a beleza ou a transformação ou a liberdade serão frutos da violência é um tanto quanto assustador e perigoso. Eu acho que a borboleta existe antes da arma e continuará existindo – se não acabarmos com todas as espécies antes – depois que todas as armas forem jogadas fora.

NOTA: 6,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além dos atores já citados, participam do filme ainda Julie Delpy como Gina, o último amor do médico; Clark Gregg como Henry, o marido de Gina; Emile Hirsch como Tony, o sobrinho “descerebrado” e aloprado de Fingers; Taylor Nichols como o pai da jovem artista pop; e Victor Rivers como Eddie, um dos capatazes maus de Fingers.

Falando em Fingers, fazia tempo que eu não assistia a Andy Garcia em cena. Pena que ele caiu justamente em um papel tão estereotipado. Algumas vezes ele chega a ser até irritante. Por outro lado Julie Delpy está muito bem. Emile Hirsch, coitado, caiu em um papel horrível… ainda assim, é sempre bom vê-lo em cena. Acaba sendo engraçada a sua interpretação como o descerebrado Tony – tão contrastante com o seu Alexander Supertramp de Into the Wild!!! Brendan Fraser está bem, consegue uma interpretação realista e equilibrada. Forest Whitaker, como sempre, ótimo – ainda que eu tenha achado meio que um “deslize” a sua sequência com o Fingers e a última com o “capataz” que vê o futuro. Sarah Michelle Gelar também está muito bem, ainda que a sequencia da morte do seu novo amor tenha sido também bem “fake”. Kevin Bacon, como eu disse antes, é o que melhor convence, ainda que a sequência em que ele salva a artista pop tenha sido ridícula. Mas tudo bem, a culpa não foi dele. hehehehehehehe

O filme estreou nos Estados Unidos no dia 27 de janeiro e faturou, no lançamento, pouco mais de US$ 19,4 mil – algo insignificante mas, convenhamos, compreensível para uma estréia em apenas sete salas.

A trajetória do filme está sendo, inicialmente, em festivais. Ele participou em abril do ano passado do festival de Tribeca, nos Estados Unidos; depois, em maio, esteve no mercado do Festival de Cannes – onde os filmes tentam ser bem comercializados; e, em dezembro, participou do Noir in Festival, na Itália. O interessante é que, desde fevereiro deste ano ele está sendo lançado, em alguns mercados, já em DVD. Tudo indica que ele chegará apenas neste formato no Brasil. Pelo visto é o típico “filme independente” que será conhecido só na propaganda boca-a-boca. O curioso é que o filme é uma produção da NALA Films com o Paul Schiff Productions. Ok que o último só produziu antes a You Are Here, um filme desconhecido, assim como Numb – este com Matthew Perry. Mas NALA Films foi responsável por pelo menos um filme mais conhecido: In the Valley of Elah – ok que co-responsável, ao lado de outros estúdios pequenos e com a Warner como distribuidora. Ainda assim acho que a NALA Films poderia ter conseguido mais “vitrine” para este The Air I Breathe, especialmente pelo elenco que aparece em tela.

Uma curiosidade, para quem gosta de saber de locações: The Air I Breathe foi todo filmado na Cidade do México.

Algo que só agora me dei conta: no cartaz do filme não colocaram a foto do Kevin Bacon, um dos quatro personagens centrais da história… no lugar dele, aparece Andy Garcia. Ok que este ator deve, em teoria, atrair mais pessoas que o Kevin Bacon, mas o ator que interpreta o médico merecia, por sua interpretação, estar no lugar de Garcia.

Como eu disse antes, a história seria baseada em um antigo provérbio chinês que diz que a vida está dividida em quatro pedras angulares: felicidade, prazer, tristeza e amor. Ah, ok… então a história nos mostra estas diferentes “pedras angulares” representadas por quatro modos de vida diferentes… mas no final, qual é o ponto? Qual é a mensagem? Afinal, um filme cheio de tantos “significados” não pode ter nenhuma grande conclusão, não é mesmo? E o que eu vi foi justamente isso, uma série de histórias entrelaçadas com toques de violência e busca de realidades diferentes que, no fundo, não chegam a lugar algum. Ou melhor: duas mortes, uma fuga e uma continuação da rotina. Nada mais, nada menos. Acho que é o típico caso de “muito barulho por nada”. Agora, se você ignorar toda a pretensão do filme, pode até achar um passatempo… na melhor das hipóteses, vai. Também vale pelos atores, é claro.

No site IMDb o filme conseguiu uma nota 8 dos usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra três críticas positivas e 18 negativas.

O filme é uma co-produção Estados Unidos e México.

CONCLUSÃO: Um filme com um grande elenco em cena, muito bom tecnicamente falando – especialmente na direção de fotografia, edição e trilha sonora – mas que, infelizmente, sofre com um roteiro fraco. Para mim, mais um exemplo de filme pretensioso, ou seja, que tenta ser mais do que realmente é… em outras palavras: ele tem boas intenções e um bom pano de fundo, mas não chega a dizer ao que veio. Não convence. Como passatempo, contudo, pode interessar. Mas não busque grandes sentidos na história porque, pelo que parece, ela realmente não os tem.