The Bucket List – Antes de Partir

The Bucket List - Antes de Partir 1

Muitos dizem que a única certeza realmente inquestionável na vida de qualquer um é de que todo aquele que nasce um dia vai morrer. Não por acaso se pensa alguma vez na vida – ou muitas vezes – qual é o sentido dela, afinal, não temos todo o tempo do mundo para errar e acertar. E o que você faria “se só te restasse esse dia”, como diria aquela música? O filme The Bucket List trata disto, do que duas pessoas decidem fazer com o tempo que lhes resta. Inicialmente, não sei dizer bem o porquê, eu não estava muito interessada no filme, ainda que nele esteja dois “monstros sagrados” do cinema de Hollywood: Jack Nicholson e Morgan Freeman. Talvez minha resistência em assistir ao filme tenha tido a ver com o seu cartaz, que achei bem brega. Mesmo sem saber bem a razão, mas demorei para assistí-lo. E só fiz isso há alguns dias atrás porque o leitor deste blog, Breno, sugeriu que eu o visse há tempos atrás. Como tenho o desafio de assistir a toda e qualquer sugestão de leitores deste blog – isso mesmo, todas as sugestões! ainda que possa demorar um pouco, como agora – lá fui eu ver a The Bucket List. E devo dizer que adorei! Realmente um grande filme, com um roteiro recheado de boas sacadas e, claro, dois atores que dão um show de interpretação. Ainda que eu ache que seus devidos personagens tenham ficado um pouco estereotipados demais, mas tudo bem… também não dá para pedir perfeição para um roteirista que é bom mas que, cá entre nós, não conseguiu escrever nenhum roteiro até agora que tenha conseguido mais que uma nota 5 no site IMDb.

A HISTÓRIA: No início do filme conhecemos a dois homens com vidas opostas: Carter Chambers (Morgan Freeman), um mecânico que tem família, filhos e netos e que pode ser considerado quase uma “enciclopédia ambulante”, porque domina a história e curiosidades sobre temas tão diversos quanto as pirâmides do Egito ou a invenção do rádio; e a Edward Cole (Jack Nicholson), um empresário que investe pesado na recuperação capitalista de hospitais e que vive uma vida de “bon vivant”, entre várias casas, mulheres, viagens e supérfluos. Esses dois homens jamais se encontrariam se não fosse pela experiência de ficarem muito doentes. Carter e Edward acabam dividindo um mesmo quarto de hospital e, a partir daí, desenvolvem uma amizade inesperada e revolucionária.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que boa parte do texto a seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Bucket List): A idéia de colocar duas realidades opostas juntas graças a uma “contingência da vida” como é a possibilidade de ficar gravemente doente já foi explorada anteriormente. Assim como a “moral da história” de que “o dinheiro não compra felicidade”. Mas o diferente mesmo deste The Bucket List é ver a Morgan Freeman e Jack Nicholson juntos… é a primeira vez que os dois atores (e amigos) contracenam como protagonistas em uma história. E o resultado é delicioso.

Mas antes de falar deles, vamos falar da história em si. Ainda que o filme tenha toda uma carga de “moral” e seja um pouco filosófico – afinal, pergunta sobre o sentido da vida e sobre o que realmente é importante – ele é, acima de tudo, divertido. Nos faz rir, nos faz relaxar e, o que um filme não fazia comigo há algum tempo, até pode nos fazer chorar. E isso tudo assim, naturalmente. O roteiro realmente é muito gostoso, bem escrito, ainda que, como falei antes, simplifique um pouco os dois personagens centrais. Digo isso porque acho que ninguém é totalmente “boçal” como Edward, tão marcado por uma filosofia de “gosto de tudo que o dinheiro pode comprar” – ok, talvez tenha alguém por aí que viva em outro mundo como ele -, assim como não acho que ninguém seja tão “santo” ou correto como Carter, movido apenas por “inquietações” de conhecimento e de filosofia… E mesmo que existam muitas pessoas por aí totalmente boas ou totalmente “mesquinhas”, acho que todos nós mudamos um pouco quando sabemos que vamos morrer logo, não é mesmo? E claro que os dois personagens vão mudando aos poucos mas, no fundo, eles continuam ao mesmo, pelo menos até o quase final. Acho que um pouco mais de variedade nas “nuances” que pintam cada uma das personalidades teria sido interessante. Mas é um detalhe, claro.

O fato é que o filme começa bem, apresentando cada personagem separadamente para, depois, nos divertir unindo-os em um quarto de hospital. O que acontece quando um cara que nunca chama as pessoas pelo nome certo porque pouco se importa com elas encontra outro que lembra de cada detalhe da história humana que conseguiu aprender, citando nomes, datas e fatos históricos? A chegada de Edward Cole (Nicholson) no quarto em que já está Carter Chambers (Freeman) é algo delicioso. Estamos mais ou menos no minuto 7 do filme quando ganhamos este “cartão de visitas” da interpretação dos dois atores. E isso continua assim, delicioso, até o final. Cínico, teimoso, irônico, Edward dá um show particular em sua chegada. Mas, aos poucos, ele vai tendo a sua “espinha” quebrada pela doença. Impressionante assistir a um ator como Nicholson, aos seus 70 anos de idade, encarnando com tanto ânimo a experiência de raspar o cabelo e viver experimentando o “mais baixo” que um ser humano pode se sentir ao ter que ir ao banheiro a cada minuto e (desculpem os leitores sensíveis) “vomitar as tripas”. Sentir dor, sentir que lhe resta pouco tempo e, principalmente, sentir-se incapaz de fazer qualquer coisa a respeito para conseguir mais tempo de vida é algo que realmente quebra qualquer sensação de “onipotência” ou de “superioridade” que alguém possa alimentar.

Quando Edward tem a cabeça raspada e fala com o seu assistente, Thomas (o ótimo Sean Hayes) sobre Carter como se ele não estivesse ali, sai a primeira grande “sacada” do filme: uma frase que ele diz “citando” ao coronel Kurtz vivido por Marlon Brando no clássico Apocalipse Now, de 1979, é algo perfeito! Melhor sacada e melhor referência impossível. Nesta hora também é muito interessante a escolha de fazer ele “provar um pouco do seu próprio veneno”, obrigando-o a dividir o quarto de um hospital – seu, inclusive – com um estranho para não ficar mal com o pessoal das “relações públicas”, já que em toda ação judicial em que ele teve que defender seu jeito de administrar hospitais ele batia na tecla que era “justo” com todos, não importando quem a pessoa era, ela tinha que dividir um quarto com outro doente. hahahahahahahahaha. Na hora que ele teve que ser hospitalizado, claro, queria que fosse diferente, mas teve “que engolir” sua própria arrogância para “ficar bem” nos negócios.

A experiência destes dois homens estarem com câncer e passarem praticamente pelo mesmo, acaba unindo-os. Ainda mais quando descobrem que tem uma perspectiva de viverem algo como seis meses a um ano. Neste ponto, quando o filme está chegando aos seus 30 minutos, é que surge a lista que dá nome ao filme originalmente. The Bucket List seria algo como “a lista da bota”, feita pelas pessoas com desejos que querem realizar antes de “bater as botas”, em uma tradução muito, mas muito literal. Carter começou a fazer uma lista destas em uma noite, relembrando um exercício que um ex-professor de seu curso de filosofia havia proposto quando ele era jovem. Mas ele acaba deixando a lista de lado, jogando-a fora no quarto do hospital. Só que na manhã seguinte Edward a encontra e começa a acrescentar pontos nela. A partir daí surge a idéia dos dois saírem daquele hospital para realizarem os desejos daquela lista juntos. Carter tem que vencer a resistência da família, enquanto para Edward tudo é muito fácil. Riquíssimo, ele não vê problemas em gastar uma pequena parte da sua fortuna para viver intensamente seus “últimos dias”. E, para um homem “sozinho”, nada melhor que compartilhar estes momentos com outro que está passando pelo mesmo e que, de quebra, torna tudo mais interessante – já que sabe a história por detrás de cada lugar espetacular no mundo.

Aliás, este é um ponto forte do filme. Viajamos, junto com Carter e Edward, por alguns dos lugares mais bacanas do planeta. Vemos as pirâmides do Egito, o Taj Mahal, as Muralhas da China, o Serengeti, as montanhas do Himalaia, a África, a França… Mas o primeiro desejo que eles realizam é o de pular de paraquedas… que sequência ótima! Bem, na verdade todas as sequências a partir daí são maravilhosas, com um show de interpretação de Freeman e de Nicholson. O primeiro parecendo um “dândi” todo o tempo, e o outro sarcástico a cada cena. Uma maravilha! E o melhor é que, em toda a sua aventura, os dois não desviam dos temas principais ou da realidade. Pelo contrário… falam com humor sobre suas mortes, sobre a preferência em serem cremados ou enterrados e, sobre uma pirâmide no Egito, Carter relembra as duas perguntas que os egípcios acreditavam que os deuses lhes fariam quando morressem e tentassem entrar no céu… “Você já encontrou felicidade na sua vida?” e “Sua vida levou felicidade à outras pessoas?”. Parecem perguntas simples, é claro, mas não são…

Bem, sem estragar mais surpresas, mas o fato é que o filme mostra como o dinheiro pode sim permitir que duas pessoas possam vivenciar experiências incríveis mas, ainda assim e, principalmente, mostra que isso não é o suficiente. Tanto que, lá pelas tantas, os dois se separam. Cada um volta a viver a sua vida normal, mas com outra ótica… Carter regressa à casa e aproveita os momentos com sua família como nunca antes, enquanto Edward retoma suas reuniões de negócios com outra forma de enxergar a tudo. São as mesmas pessoas, mas diferentes. Ainda que as surpresas realmente ainda não terminaram para Carter, em um final realmente emocionante e bonito.

Agora um detalhe: o filme tem, pelo menos, dois grandes erros. E os dois, para mim, causados por uma falta de atenção do diretor Rob Reiner. (SPOILER – realmente não leia o resto deste parágrafo se não quiser ter alguma surpresa estragada). O primeiro erro de continuidade ocorre na corrida de carros entre Carter e Edward. Quando o primeiro “corta” o segundo na pista, cruzando pela sua frente, percebemos um grave erro… afinal, quando os dois estão conversando antes deste “corte”, quando Carter está desafiando Edward, ele está na pista de baixo, ou seja, na parte “menor” da pista, enquanto que Edward está acima, mais perto do muro e das grades, onde a pista é “mais larga”. Pouco depois, sem nenhum dos dois mudarem de pista, Carter aparece na pista de cima e corta a frente de Edward, que estaria na pista de baio. Erro de sequência. Provavelmente eles filmaram a cena mais de uma vez e, na hora de editá-la, cortaram alguma manobra que podia ter ocorrido antes e que explicaria a troca de posição dos dois, deixando Carter na pista de cima e, assim, permitindo que ele cortasse a Edward. Outro erro feio no filme, mas este não sei se só da direção ou também do roteiro, tem a ver com a “bucket list”. Quando Carter tenta levar Edward para fazer as pazes com a sua filha, o segundo se irrita e acaba fazendo picadinho da famosa lista… mas depois, quando Carter está hospitalizado mais uma vez, ele tira da bolsa a tal lista intacta… sem nem um “durex” ou alguma fita juntando os pedacinhos (o que poderia dar um pouco de lógica para a cena e não deixá-la como um erro no filme). Mas não, um close na lista mostra ela lá, bonitinha, como nova. E antes que alguém pergunte se ele não pode ter feito outra lista, reproduzindo a antiga, digo que não. Porque o mesmo close mostra as duas caligrafias diferentes de Carter e Edward… ou seja, a lista que foi estraçalhada antes agora aparece inteirinha, como mágica. Um erro bobo, como o anterior, mas um erro grande. Nada que desmereça o filme, claro, mas que acaba tirando alguns pontinhos dele na minha avaliação.

O fato é que The Bucket List é um grande filme, divertido, com grandes sacadas e interpretações maravilhosas. Tem um bom roteiro assinado por Justin Zackham e uma direção equilibrada de Rob Reiner – ainda que se percebem muitas e muitas cenas de cromaqui em várias parte do filme – especialmente no Taj Mahal e em outros locais que os dois visitam. Cromaqui, só para relembrar, é aquele fundo (geralmente azul) que eles colocam no estúdio para filmar a interação dos atores e, depois, inserir atrás a paisagem ou o “contexto” da cena, levando a parte dramática para um lugar em que ela realmente não aconteceu. Achei que o cromaqui rolou solto nesse filme e que, algumas vezes, infelizmente, ele fica muito claro. Uma pena. Também tira alguns pontos da produção. Mas em todo o demais ela é perfeita.

O filme, em resumo, nos conta algo que outros já disseram antes – mas de outra forma: que não adianta ter muito dinheiro e não saber o que “realmente” é importante na vida, que é o amor, fazer bem a outras pessoas e etc. Mas que também não adianta só seguir um bom caminho e fazer o bem sem olhar a quem… é preciso se divertir, aproveitar. Nesta parte sim que o dinheiro interessa, porque ele possibilita provar alguns dos sabores, sensações e conhecer lugares realmente incríveis, paraísos que todas as pessoas do mundo deveriam ter o direito de conhecer. Mas isso, claro, não é tudo. A verdade é que todas as pessoas deveriam ter um encontro como estes dois tiveram, unindo o melhor do coração, do sentimento, da simplicidade com o melhor que o dinheiro, o humor e o gosto por coisas boas podem nos propiciar. Deveria ser um direito universal para todas as pessoas isso. Infelizmente não é.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme teria custado algo em torno de US$ 45 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 91,4 milhões. Ou seja: se pagou tranquilamente. Mas algo que também fica fácil com Nicholson e Freeman dividindo a cena, não é mesmo? O filme merece, realmente. No Brasil, Antes de Partir acumulou uma bilheteria que superou já os R$ 5 milhões em um mês estando em cartaz.

No site IMDb ele recebeu a nota 7,7 dos usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele acumula 57 críticas positivas e 84 negativas.

Segundo o material de divulgação do filme distribuído pela Warner, o diretor Rob Reiner precisou ler só 10 páginas do roteiro para dizer que estava dentro do projeto. Depois é que os produtores foram conseguindo os atores e transformar a história em algo real. O curioso é que Jack Nicholson participou do processo de “construção dos diálogos” nas semanas anteriores a filmagem realmente começar. Ele e Reiner trabalharam muito juntos modificando diálogos e tornando a história mais interessante. O roteirista comentou, por sua parte, que escreveu o roteiro inicialmente pensando em um Carter interpretado por Morgan Freeman. Além de ver o seu sonho realizado, com certeza ele saiu ganhando, e muito, ao ter Nicholson e Reiner no projeto.

Algo curioso é que Nicholson e Reiner já tinham trabalhado juntos antes, no filme A Few Good Men (Questão de Honra, de 1992), mas Morgan Freeman e Nicholson ainda não… e Freeman disse que “Se nós estamos falando de lista de desejo, trabalhar ao lado de Jack Nicholson certamente seria um item na minha”. Que fofo!!

Vale ainda citar a atuação de Beverly Todd como Virginia Chambers, a mulher de Carter; de Rob Morrow como o Dr. Hollins; Alfonso Freeman, filho de Morgan, como Roger Chambers, seu filho na ficção também; Rowena King como Angelica, a mulher que “tenta” a Carter; a encantadora Taylor Ann Thompson como a neta de Edward; e Jennifer Defrancisco como sua filha, Emily.

O roteirista Justin Zackham, como eu disse antes, só escreveu roteiros de filmes pouco conhecidos e nada admirados. Vejamos: seu primeiro trabalho foi Caught in the Act, de 1999… o filme tem a nota 5 no IMDb. O segundo texto dele, Going Greek, de 2001, tem um cartaz horripilante – um dos piores que vi nos últimos tempos – e a nota 4,6 no IMDb. Depois veio a produção The Fastest Man in the World, de 2002, feita para a TV, que tem uma nota espantosa: 2,8! Uau!!! Fico até com medo de ver algum filme deste… nunca se sabe o efeito que um filme ruim pode ter em uma pessoa. hehehehehehehehehe

CONCLUSÃO: Um filme divertido e tocante sobre dois homens que viveram muito e que aproveitaram bem as suas vidas, cada um a sua maneira mas que, quando descobrem que lhes restam pouco tempo de vida, percebem que deixaram de fazer muitas coisas que gostariam e “correm contra o tempo” para realizá-las. Conta com duas grandes interpretações de Jack Nicholson e de Morgan Freeman, além de uma direção e um roteiro competentes. Diversão garantida.

SUGESTÃO DO LEITOR: Este filme, como comentei antes, foi sugerido pelo Breno. Obrigado, garoto! Adorei o filme sim, como podes te percebido. hehehehehehe. Agora tens que vir aqui e dar a tua opinião sobre o que achaste desta produção! Aproveito também para dizer que sempre anoto os filmes que vocês, meus bons leitores, comentam… e que, mais cedo ou mais tarde, os assistirei e os comentarei por aqui.