The Hangover – Se Beber, Não Case

Sempre que um filme vira um fenômeno inesperado nos Estados Unidos, um bichinho da curiosidade se manifesta em mim. Não resisto. Por mais que tudo indique que tal produção deve ser uma bomba – ou, pelo menos, algo fraquinho, com idéias batidíssimas tentando ganhar uma roupagem nova. Esse é o caso de The Hangover, um filme que virou sensação nas terras do Tio Sam e em tantos outros mercados mundo afora. O problema é que, exceto por algum suspense e uma ou duas piadas engraçadinhas jogadas aqui e ali, este é o típico filme morno, que não provoca gargalhadas e nem resiste na memória por muito tempo. Em outras palavras: muito barulho por nada. O último filme do gênero que eu assisti foi Superbad (comentado aqui), um fenômeno em 2007 – e que, francamente, achei mais criativo e engraçado que este The Hangover.

A HISTÓRIA: Tracy Garner (Sasha Barrese) está desesperada porque faltam cinco horas para seu casamento e o noivo, Doug Billings (Justin Bartha) ainda não voltou da despedida de solteiro. Phil Wenneck (Bradley Cooper), um dos amigos que viajou com Doug para Las Vegas, liga para Tracy para comunicar-lhe que o casamento não deve sair porque o noivo está desaparecido. A partir deste momento, voltamos dois dias na história para saber o que aconteceu com Doug e seus três companheiros de viagem: Phil, Stu Price (Ed Helms) e Alan Garner (Zach Galifianakis).

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Hangover): Algo eu tenho que admitir: esta produção começa com o pé direito. Primeiro, pelo suspense: afinal, que diabos aconteceu com Doug para que um de seus amigos, machucado, ligue para a noiva dele informando que o casamento não deverá ocorrer? Depois que a trilha sonora, assinada por Christophe Beck é um prato cheio para cair no gosto do público, resgatando músicas que martelaram nas rádios há pouco tempo – como Who Let the Dogs Out, de Baha Men, ou Yeah! de Usher Raymond, Ludacris e Lil’Jon. O problema do filme é que ele vai bem até o momento de sua segunda quebra narrativa – depois disso, The Hangover vira uma historinha linear previsível, cheia de estereótipos e de piadas pouco engraçadas.

Honestamente, se analisarmos The Hangover junto com Superbad, só posso concluir uma coisa com estes dois super fenômenos de bilheteria ianque: o público estadunidense adora um roteiro que resgata estereótipos, tira sarro de minorias (raciais, sexuais ou o que for) e que repete fórmulas. Mas como disse antes, o início de The Hangover até que convence. Um acerto do roteiro de Jon Lucas e Scott Moore é o de promover duas reviravoltas na história. The Hangover começa praticamente pelo final – com os últimos preparativos para o casamento de Doug e Tracy. A partir daí, voltamos dois dias no tempo, quando o futuro genro de Sid Garner (Jeffrey Tambor) recebe do pai de Tracy um carrão para viajar até Las Vegas.

A história passa a ser linear até que o quarteto de amigos brinda pelo casamento de Doug no topo do Caesars Palace e, novamente, o roteiro passa por uma quebra narrativa. A sequência seguinte mostra a manhã pós-farra de três dos quatro amigos – Doug sumiu. Sem lembrar de nada da noite e madrugada anterior, Phil, Stu e Alan encontram um tigre e um bebê no quarto do hotel e, em busca de respostas para o que aconteceu, começam a refazer parte dos passos da despedida de solteiro de Doug. O trio corre contra o tempo para consertar seus erros e encontrar o noivo a tempo para que o casamento aconteça.

Eu estava preparada para dar muitas risadas com este filme mas, francamente, The Hangover não me convenceu. Nem para rir ele serve. Quer dizer, ele talvez agrade às pessoas que acham engraçadas as piadas envolvendo um bebê ou um chefe da máfia chinesa “afeminado”. Para mim, esse tipo de piada é um recurso lamentável, ridículo, sem graça alguma. Mas paciência… sei que há gosto para tudo. De qualquer forma, gostei dos atores principais do filme – especialmente de Bradley Cooper. Também aprovei a direção de Todd Phillips, que consegue extrair um bom ritmo da história através de diferentes recursos de câmera. E a trilha sonora, é claro, possivelmente o que há de melhor em The Hangover.

NOTA: 5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pelo roteiro e pelas “piadas”, possivelmente este filme mereceria uma nota ainda menor. Mas acho que ela merece um cinco, pelo menos, pelo trabalho competente de Phillips e do diretor de fotografia Lawrence Sher. Graças a eles, Las Vegas parece mais atrativa do que nunca. Também gostei, como disse antes, dos atores que encabeçam o elenco. Além dos já citados, destaco a presença de Heather Graham, belíssima, como Jade (a dançarina que acaba se casando com Stu em sua noite de loucuras).

Mike Tyson faz uma participação especial em The Hangover – o ex-pugilista chega até a cantar. Achei a participação dele engraçada de tão tosca.

Este filme teria custado US$ 35 milhões e arrecadado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 268 milhões. Um lucro espantaso! Fora dos States, até o dia 27 de junho, The Hangover teria arrecadado mais US$ 201 milhões.

Achei curioso o título que o filme recebeu na Espanha: “Resacón en Las Vegas”. 😉 Resacón é como uma ressaca gigante de bebedeira. Convenhamos que um título bem mais condizente com o filme que “Se Beber, Não Case”, como ele passou a ser chamado no Brasil. E uma curiosidade: “The Hangover” significa, literalmente, “A Ressaca”.

Um dos fatores que acredito terem ajudado The Hangover na conhecida propaganda boca-a-boca foi o de que sua história pode ser facilmente entendida e, principalmente, identificada pelo público – especialmente o masculino. Afinal, quem nunca fez besteiras em uma noitada qualquer? Quem nunca exagerou na bebida – ou conheceu alguém que tenha feito isso? E, claro, o momento de passagem para os homens da vida de solteiro para a “vida adulta” de casado sempre rende piadas.

E um detalhe sobre a história (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme): como diabos os amigos de Doug reconheceram o colchão do amigo pendurado na estátua do Caesars Palace? Ele não parecia a qualquer outro? Bem, talvez vocês argumentem que eles concluíram que o colchão era de Doug porque, afinal, não apenas o amigo deles tinha sumido do quarto de hotel, mas também o colchão de sua cama. Ok, até “forçando um pouco a barra” podemos aceitar essa explicação. Mas daí vem outra pergunta: Doug não teria aproveitado que uma equipe subiu até o topo do hotel para tirar o colchão e, finalmente, sair dali? Afinal, ele estava se queimando no sol… mas não, um grupo de pessoas sobe até lá e nem o Doug e nem estas pessoas fazem com que ele saia do local. Sinistro! Esta parte do roteiro não me convenceu – ainda que, claro está, se não fosse por este “deslize”, o restante das confusões não teriam acontecido e este filme não existiria. 😉

Para os que gostam de saber o nome das pessoas envolvidas na parte técnica de cada projeto, destaco ainda o trabalho da editora Debra Neil-Fisher.

Atores secundários que acabam tendo um certo destaque em The Hangover: Ken Jeong como Mr. Chow, o mafioso chinês que acaba sendo enganado pelos amigos em noite de despedida de solteiro; Rachael Harris como Melissa, a namorada autoritária de Stu; Mike Epps como o Doug “negro”, vendedor de drogas que acaba sendo confundido com o noivo de Tracy; Matt Walsh como o Dr. Valsh, que atendeu Phil no hospital; e Jernard Burks como Leonard, o braço direito de Mike Tyson.

The Hangover registra uma nota bastante decente para o gosto dos usuários do site IMDb: 8,1. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente acompanham esta nota: no site estão registrados 150 textos positivos e 42 negativos para esta produção (o que lhe garante uma aprovação de 78%).

Até o momento, The Hangover foi indicado a cinco prêmios – todos no Teen Choice Awards – mas, no final, não levou nenhum deles para casa.

Achei interessante que o site IMDb divulga como site oficial do ator Justin Bartha o seu Twitter – vale dar uma conferida.

CONCLUSÃO: Mais um filme da série “faremos-você-rir-com-piadas-idiotas-e-tirando-sarro-de-quem-aparecer-pelo-caminho”. Fenômeno das bilheterias nos Estados Unidos e em outros mercados pelo mundo, The Hangover deve ter caído no gosto popular porque é facilmente reconhecido como uma história “plausível sobre uma grande bebedeira”. Mas, francamente, ele é menos engraçado do que poderia ser. Fazendo piadas com personagens como um bebê, uma stripper, um lerdo alternativo e um chinês mafioso afeminado, este filme é daqueles sucessos de bilheteria fácil e que não convence. Honestamente, ele deveria entrar para o pacote de “filmes-para-ver-quando-não-houver-nada-melhor-para-fazer”. Algum divertimento e alguma risada ele até que arranca… para não dizer que The Hangover é um completo desperdício.