The Imaginarium of Doctor Parnassus – O Mundo Imaginário de Dr. Parnassus

Um diretor genial, um elenco estelar, o último trabalho de um ator premiado como Heath Ledger e, ainda assim, The Imaginarium of Doctor Parnassus parece uma obra inacabada. Algo está faltando. Ou muita coisa parece ter ficado no caminho. O mundo extraordinário do personagem título não convence como deveria. Em uma era em que James Cameron busca a perfeição em 3D, o filme de Terry Gilliam parece traços de um amador ou uma caricatura de um iniciante. Mesmo a história, que bebe na já conhecida lenda do “homem que tentou enganar o diabo”, não apresenta nada de novo, não reinventa a fórmula e, mesmo que tudo isso não seja necessário, nem mesmo convencer o filme convence. Falta encantamento e espaço para que o espectador possa explorar a sua imaginação – no filme de Terry Gilliam tudo é explicado demais.

A HISTÓRIA: Em Londres, uma companhia de artistas mambembe  busca público para seu espetáculo The Imaginarium of Doctor Parnassus. O jovem Anton (Andrew Garfield), vestido de Mercúrio, tenta chamar as pessoas que passam, mas ele não consegue atrair ninguém. Exceto por um grupo de jovens que beberam demais e que estão saindo da boate Medusa. Liderados por Martin (Richard Riddell), eles se aproximam do espetáculo, mas apenas Martin resolve perseguir a bela Valentina (Lily Cole), filha do Dr. Parnassus (Christopher Plummer). Tentando escapar do bêbado abusado, Valentina entra no espelho mágico. Lá dentro, Martin se perde em um mundo irreal criado por sua imaginação e estimulado pelo Dr. Parnassus. Em permanente movimento, o espetáculo muda de local e, no caminho, Dr. Parnassus volta a se encontrar com um antigo parceiro de apostas, Mr. Nick (Tom Waits). Perto de perder mais uma delas, Dr. Parnassus joga as cartas do baralho e pressente a chegada de Tony (Heath Ledger), um jovem desmemoriado que irá mudar a vida do grupo para sempre.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Imaginarium of Doctor Parnassus): Respeito muito o trabalho do diretor e roteirista Terry Gilliam. Ele é uma verdadeira lenda. Um dos remanescentes do genial grupo inglês Monty Phyton, Gilliam sobreviveu ao tempo e ainda produziu outros trabalhos independentes incríveis, como Twelve Monkeys e Fear and Loathing in Las Vegas. Prestes a completar 70 anos, contudo, ele deu um palso em falso com esta produção sobre o Dr. Parnassus. Em breve, quando estrear o novo filme de outro gênio dos cinemas, Tim Burton, Alice in Wonderland, ficará ainda mais evidente como Dr. Parnassus parece uma tentativa frustrada ou o trabalho de um amador.

Sem problemas um filme ser “nonsense” ou explorar de maneira descarada a imaginação cheia de simbolismos e lógicas escondidas. Esse não é o problema. A questão é que The Imaginarium of Doctor Parnassus não tem uma história interessante que sustente toda a “viagem” imaginada por Terry Gilliam. E o pior: na fase de alta tecnologia em que estamos, um filme não pode ficar no meio do caminho entre o artesanal e o visual produzido pela alta tecnologia. Em outras palavras, é possível sim produzir ainda obras no melhor estilo de Fellini, em que a imaginação ganha uma tintura quase teatral. O que não convence é quando Gilliam tenta fazer algo que mistura artesanato com alta tecnologia. Isso funcionava na década de 70, nos filmes revolucionários do Monty Phyton, mas agora essa estética parece apenas fora de moda.

Salta aos olhos do público efeitos especiais de quinta ou, sendo gentil, terceira categoria. Cito, explicitamente – entre outras – a sequência em que a imagem do Mr. Nick aparece em um rio de águas turvas que marca a escolha de uma dondoca incentivada por Tony a escolher o “desprendimento”. Se no visual o filme funciona apenas em parte – quando ele é escancaradamente teatral -, no roteiro ele também parece um bocado perdido. Há momentos em que o texto de Terry Gilliam e Charles McKeown consegue aliar intenções com execução, ou seja, que através da direção de Gilliam se torna interessante e convence o espectador. A maioria deles tem a ver com os diálogos entre Mr. Nick e Parnassus e entre Tony e Valentina. No mais, o roteiro de The Imaginarium of Doctor Parnassus é arrastado e previsível, carregado de poucas surpresas e, o que é fatal para um projeto como este, quase nenhum encantamento ou “magia”.

Provavelmente os fãs de Heath Ledger vão discordar de mim, mas nem da interpretação do ator eu gostei. Desde a primeira fala dele até a sua última nesta produção o astro me pareceu caricato. Ok, seu personagem pedia um tom um pouco exagerado de interpretação. Mas, ainda assim… ele não parecia, simplesmente, ele mesmo. Sem saber quando os outros atores iriam entrar em cena e a razão que seria dada no roteiro para isto – me recuso a ler textos sobre as produções que assisto antes de assistí-las -, Heath Ledger me parecia mais com Johnny Depp do que com Heath Ledger. Cheguei a respirar aliviada quando o próprio Depp entrou em cena – agora sim, rosto e interpretação estavam casando perfeitamente. Uma triste despedida para um ator tão talentoso quanto Ledger. A verdade é que seria melhor, para seus fãs, lembrarem do ator em outros de seus trabalhos.

Ainda que Christopher Plummer defenda bravamente o seu personagem de Dr. Parnassus, o nome deste filme é o de Tom Waits. O músico e ator simplesmente rouba a cena toda vez que aparece. Seu personagem, também, é o melhor desenvolvido do roteiro. Suas aparições e uma ou outra sequencia envolvendo Valentina – como as cenas em que ela está viajando com sua trupe e Gilliam aproveita para mostrar o lado itinerante do grupo e Londres durante a noite – valem o tempo gasto com a produção. Vale citar ainda o trabalho do ator Verne Troyer como Percy, fiel companheiro do Dr. Parnassus.

A reflexão sobre a capacidade das pessoas atualmente se sentirem maravilhadas pelo “mistério”, pela imaginação ou pelos contadores de história é interessante. Certamente o Diabo teria atualmente, em uma era do consumismo e dos valores facilmente intercambiáveis, muito mais chances de ganhar uma aposta do que o homem sábio e crente. Ainda assim, tanto tempo e tantos recursos para tratar desta velha história me parecem um desperdício. Nem sempre grandes nomes acertam em todos seus projetos. Por tudo isso, devo dizer que a nota abaixo está relacionada com o respeito que eu tenho à carreira de Terry Gilliam, porque o filme propriamente dito merecia muito menos. Talvez um 6. Infelizmente a imaginação e a ousadia do diretor e roteirista, desta vez, ficaram abaixo da média do mercado.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Assistindo a The Imaginarium of Doctor Parnassus, fiquei com saudade do Dr. Caligari, personagem clássico lançado em 1920 pelo filme Das Cabinet des Dr. Caligari – que ganharia outras versões posteriormente. Naquela produção – e em outros do gênero – sim havia mistério, uma permanente sombra de perigo/morte e o convite provocativo para que o espectador imaginasse o que estava acontecendo. Em The Imaginarium of Doctor Parnassus tudo é explícito demais – e um bocado “fake” ou mesmo “kitsch”. Não combina muito com o final da primeira década do século 21 ou mesmo com a carreira inovadora de Terry Gilliam.

Como a maioria ou todos devem saber, Heath Ledger morreu enquanto o filme ainda estava sendo rodado. Com a morte do ator, a produção acabou sendo suspensa por alguns meses. A sorte de Terry Gilliam é que as cenas filmadas com Ledger permitiram que o trabalho do ator pudesse ser complementado com as atuações de Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. A aparição de cada um dos três casa perfeitamente com a premissa de que algumas pessoas podem mudar seus aspectos quando entram no “mundo imaginário” incentivado/criado pelo Dr. Parnassus. Parte do roteiro de The Imaginarium of Doctor Parnassus, contudo, teve que ser reescrito para que a história pudesse se adequar com a ausência de Ledger.

Uma curiosidade ainda sobre esta participação dos três astros para complementar o trabalho de Heath Ledger: segundo o site IMDb, eles doaram os cachês que receberam por seus trabalhos para Matilda, filha de Ledger, como forma de garantir-lhe um futuro mais seguro. Um belo gesto, sem dúvida.

The Imaginarium of Doctor Parnassus faz várias referências à peça Esperando Godot (no original, En Attendant Godot), de Samuel Beckett. As mais evidentes seriam o terno e o chapéu utilizados por Mr. Nick e a cena em que Jude Law aparece com uma corda no pescoço.

O ator Dominic Cooper teria feito os testes para o papel de Anton. Talvez ele tivesse se saído melhor que o relativamente “cru” Andrew Garfield.

Os produtores de The Imaginarium of Doctor Parnassus dizem que Heath Ledger improvisou grande parte de suas cenas cômicas. Certo. Mas, ainda assim, sua performance está abaixo de outras de sua filmografia recente. Sinto muito para os fãs.

The Imaginarium of Doctor Parnassus estreou no Festival de Cannes em maio de 2009. Depois do festival francês, o filme participou ainda de outros 17 festivais. Nesta longa tragetória, a produção capitaneada por Terry Gilliam recebeu apenas um prêmio – e cinco nomeações. Isso reflete, meus caros, o quanto o filme agradou aos especialistas no assunto. O único prêmio recebido pela produção foi o de melhor figurino para Monique Prudhomme no Satellite Awards. O trabalho dela é bom, mas inferior ao de outras produções recentes. Vale dizer ainda que Dr. Parnassus está concorrendo a dois Oscar – um deles, o de figurino.

Este novo filme de Terry Gilliam custou uma pequena fortuna: US$ 30 milhões. Justifica-se, claro, pelos nomes de boa parte de seu elenco e, principalmente, pelos custos de uma produção que envolve muitos efeitos especiais (ainda que a maioria deles ruins) e um grande trabalho de design de produção, figurinos e edição de arte. Nos Estados Unidos, mesmo com o “marketing” de ter sido o último filme de Heath Ledger, The Imaginarium of Doctor Parnassus teve um desempenho um tanto fraco. Ele arrecadou, até o dia 7 de fevereiro deste ano, pouco mais de US$ 6,7 milhões nas bilheterias. No Reino Unido, até novembro de 2009, foram 3,2 milhões de libras. Ele ainda está longe de dar lucro.

Co-produzido pelo Reino Unido, pelo Canadá e pela França, The Imaginarium of Doctor Parnassus foi filmado nos dois primeiros países citados.

O visual de algumas cenas deste filme, assim como boa parte da caracterização da personagem de Valentina me lembraram várias das obras do famoso pintor El Bosco – recomendo uma olhadela em alguns de seus quadros no Museo Nacional del Prado, como El Jardín de las Delicias.

Na parte técnica, não achei nenhum trabalho excepcional. Ainda assim, para os curiosos, vale citar os trabalhos de Nicola Pecorini na direção de fotografia; o de Mick Audsley na edição; o de Anastasia Masaro no design de produção; o de Dan Hermansen e Denis Schnegg na direção de arte; o de Caroline Smith e Shane Vieau na decoração de set; o de Ailbhe Lemass coordenando a equipe responsável pela maquiagem e o de Jeff Danna e Mychael Danna na trilha sonora.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para o filme. Uma nota muito boa, devo dizer, levando em conta o resultado final da produção. Os críticos que tem seus textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, dedicaram 110 textos positivos e 56 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 66%.

Um dos críticos que gostaram de The Imaginarium of Doctor Parnassus foi Ty Burr, do The Boston Globe. Ele escreveu neste texto que o novo filme de Terry Gilliam “é uma bagunça”, algo que o realizador vem fazendo durante os anos. Burr comenta que ele foi conquistado pelos “caprichos desorganizados” do diretor. Gostei quando ele comenta sobre o trabalho corajoso de Ledger, afirmando que ele se joga no papel de Tony com “inteligência e inventividade inconstante”. O crítico ressalta ainda como as cenas do “universo interior” do espetáculo do Dr. Parnassus revelam o orçamento enxuto do filme, ainda que o resultado lembre uma colha de retalhos das animações do Monty Phyton. Burr ainda enaltece o trabalho de Troyer, que interpreta o “pessimista da trupe” e afirma que Imaginarium trata da “possibilidade da magia no mundo moderno”.

O crítico Peter Howell, do Toronto Star, comentou neste texto que mesmo que o ator Heath Ledger não tivesse morrido antes das filmagens terminarem, dificilmente The Imaginarium of Doctor Parnassus teria sobrevivido às “várias indulgências” de Terry Gilliam. “Parnassus continua com o velho hábito de Gilliam em sabotar o próprio trabalho ao empilhar imagens desenfreadas sem levar em conta o desenvolvimento dos personagens ou em contar histórias”, escreveu Howell. Ele foi duro com o diretor, mas devo admitir que, pelo menos com este filme – e alguns outros de Gilliam – ele está certo. Achei especialmente “porreta” o momento em que o crítico comenta que o esforço dos atores que interpretam Tony foi em vão e que apesar de Dr. Parnassus ser descrito como “um conto de moralidade fantástico, ele é realmente uma bagunça fantástica que começa com um lembrete macabro – embora acidental – da morte de Ledger”. No final de seu texto, o crítico afirma que mesmo o resgate de recursos utilizados na época do Monty Phyton não são suficientes para reanimar o filme.

O conhecido crítico Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu neste texto que The Imaginarium pode ser visto como uma versão secundária da própria vida de seu diretor, Terry Gilliam. Ele seria o homem que tenta atrair as “pessoas para as suas fantasias, em um cenário extravagante e exagerado, com fumaça e espelhos, o que, depois de tudo, é sua verdadeira natureza”. Ebert elogia o trabalho feito com a computação gráfica do filme, dizendo que algumas visões do diretor se materializam de forma “maravilhosa”. Concordo que parte do trabalho ficou interessante, mas há uma grande parte realmente ruim. Parece até que não assistimos ao mesmo filme.

Ebert acredita que Heath Ledger seria o guia do público para os diferentes mundos fantásticos do filme. Mas ele afirma que Terry Gilliam, “aparentemente”, terminou de filmar as cenas externas, onde aparecia a Londres moderna, para depois filmar as demais cenas em estúdio. Enquanto isso, Ledger voltou para Nova York e, como todos sabem, foi encontrado morto em seu apartamento. Para o crítico, Depp se parece mais com Ledger, mas “é um fato triste” que Farrell roube o papel. “O meu problema com os filmes de Gilliam é a falta de roteiro discernível. Eu não preciso seguir o ABC, ação 1-2-3, mas aprecio bastante ter alguma noção das regras próprias do filme”, escreveu ainda Ebert. O crítico finaliza recomendando que o espectador tente viver cada momento do filme, sem pensar em sua memória a longo prazo, para tentar aproveitá-lo.

CONCLUSÃO: Mais conhecido por ter sido o último trabalho do ator Heath Ledger, The Imaginarium of Doctor Parnassus é um dos filmes mais fracos da carreira do diretor Terry Gilliam. Remanescente do genial Monty Phyton, Gilliam faz aqui um de seus filmes mais vazios e fracos inclusive na proposta visual. Há elementos que lembram os antigos filmes do Monty Phyton, mas há também uma busca por um sentido artístico e de moral que não se concretiza. Reformulando a velha história do homem que tenta enganar o Diabo, o diretor e roteirista consegue, no máximo, homenagear os artistas itinerantes. Mas ele não dá, infelizmente, um passo no sentido de contar uma história original ou que tenha muito pé ou cabeça. Mesmo Heath Ledger, que teve seu trabalho complementado pelo dos atores Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell, não está em seu melhor momento. Um verdadeiro desperdício de talentos em um filme mal construído desde o princípio, cheio de personagens fracos e efeitos ruins.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The Imaginarium of Doctor Parnassus surpreendentemente está concorrendo a dois Oscar este ano. Não que o filme não tenha qualidades. Mas, francamente, ele não merece Oscar algum. De qualquer forma, vale citar que Dr. Parnassus está concorrendo nas categorias Melhor Direção de Arte e Melhor Figurino. Na primeira, como comentei neste texto em que falo dos candidatos nas 24 categorias da premiação, Avatar leva vantagem. E mesmo que o filme dirigido por James Cameron não leve a estatueta dourada, acredito que o trabalho feito em Nine ou The Young Victoria sejam superiores ao de Dr. Parnassus. Na categoria de Melhor Figurino, prefiro o resultado de Bright Star, comentado recentemente. Ainda que, volto a afirmar, The Young Victoria tem grandes chances de levar o Oscar nesta categoria. Resumindo: para mim, The Imaginarium of Doctor Parnassus sairá de mãos vazias deste Oscar. Na melhor das hipóteses, Heath Ledger será homenageado na noite de premiação. E olha lá – levando em conta o papelão que a família dele protagonizou no ano passado.