The Irishman – O Irlandês

Estava procurando um filme para colocar na lista de melhores de 2019. Uma produção que eu pudesse chamar de cinema com C maiúsculo. Claro que estou de olho nos possíveis indicados e vencedores do Oscar 2020, já que estamos no início do ano. Até agora, devo admitir, nenhum filme tinha me convencido, realmente. Até agora. Hoje assisti a The Irishman, do grande Martin Scorsese. Sem dúvida alguma, o melhor filme desta temporada. Tenho outros filmes para assistir, mas até o momento, este se mostrou imbatível.

A HISTÓRIA

A câmera desliza por um lar de idosos. Vemos diferentes cenas pelo caminho, como pessoas falando com um padre, outras jogando ou conversando entre si. Até que chegamos a um idoso em uma cadeira de rodas, com óculos escuros e uma bengala encostada na perna. Ele começa a narrar a história. Frank Sheeran (Robert De Niro) conta que achava, quando jovem, que as pessoas que “pintavam casas” eram pintores de residências. Isso quando ele era um dos trabalhadores da sede 107 do Sindicato de Caminhoneiros do Sul da Filadélfia.

Mas isso mudou, ele comenta. Quando ele deixou de ser um simples trabalhador do sindicato, ele começou a “pintar casas” também. Depois de um tiro e o do sangue espirrando na cabeça, entendemos o que ele quer dizer com isso. Em seguida, acompanhamos Frank em uma viagem com Russell Bufalino (Joe Pesci) e as duas esposas deles, Carrie (Kathrine Narducci) e Irene (Stephanie Kurtzuba) até um casamento. No caminho, eles vão fazer várias paradas para “coletar” dinheiro. Esta é a história de Frank e de suas relações com a máfia italiana nos Estados Unidos e com o líder sindicalista Jimmy Hoffa (Al Pacino).

VOLTANDO À CRÍTICA

(SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Irishman): Como comentei acima, estava sedenta por um grande filme. E foi exatamente isso que encontrei em The Irishman. Martin Scorsese, um dos diretores obcecados pela máfia nos Estados Unidos, nos apresenta aqui mais um de seus grandes filmes.

E falo de grande não apenas porque a produção tem quase 3h30 de duração. The Irishman é maravilhoso pela história que nos apresenta, a forma com que a produção é construída, dirigida e, claro, por seus grandes intérpretes. Esse é um filme para adultos. Apresenta uma história envolvente, superinteressante, muito bem narrada, dirigida e com um show de interpretação de seus atores principais. E não estamos falando de qualquer ator em cena.

Não vi as 3h30 do filme passar, praticamente. Honestamente, não senti que o filme é tão longo. O grande mérito disso é do diretor Martin Scorsese, que sabe conduzir The Irishman com muita precisão e talento; assim como do do roteiro de Steven Zaillian, baseado no livro de Charles Brandt; e, claro, pelo excelente trabalho dos grandes Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci. Que sorte a nossa de ver esses três em cena tendo, cada um deles, papéis tão interessantes pela frente!

Só tenho elogios a fazer para esta produção. Honestamente, não vi nenhum defeito no filme. Mesmo sendo tão longo, ele não é enrolado. Em momento algum o roteiro de Zaillian parece encher linguiça ou ser desinteressante. Scorsese dá uma aula de cinema com as mais diferentes técnicas de filmagem. Há grandes planos-sequência, atores falando diretamente para a câmera, sequências rápidas e outras longas que mostram a cidade e o modo de vida da época.

Tudo isso embalado por uma trilha sonora coerente e envolvente. E a história em si? Ela sai do plano de querer contar a história de uma família de mafiosos ou de uma época para focar em um sujeito “comum” que acabou sendo “adotado” pelos mafiosos. Mesmo sendo irlandês, ele acabou se tornando um grande amigo de Russell, braço direito de Angelo Bruno (Harvey Keitel), chefão da máfia italiana na Filadélfia naquele período de tempo – anos 1950 e 1960.

Isso aconteceu, para começar, porque Frank, que havia servido no Exército na Itália, sabia falar italiano. Além disso, ele tinha mostrado inteligência ao começar a desviar algumas peças de carne dos carregamentos que fazia e a vendê-los diretamente para um dos mafiosos da cidade, Skinny Razor (Bobby Cannavale).

Quando ele desviou uma carga inteira e a empresa para a qual ele trabalhava entrou com uma ação contra ele, quem o defendeu foi o advogado do sindicato, Bill Bufalino (Ray Romano). Ele era ninguém menos que o primo de Russell. Além disso, por coincidência, pouco antes de se encontrarem novamente em um bar, quando Frank vê Russell falando com Angelo Bruno, Frank tinha sido ajudado por Russell em um posto de gasolina.

Essas “coincidências” e oportunidades que vão aparecendo para Frank, no sentido de aproximá-lo da máfia italiana, vão sendo abraçadas por ele como chances de crescer e ganhar mais dinheiro. Quando ele é contratado por Whispers DiTullio (Paul Herman) para fazer um “serviço por fora”, para explodir uma lavanderia de judeus, que estaria lhe prejudicando nos negócios, Frank acaba atingindo, sem saber, um dos negócios de Angelo.

Nesse momento, ele é salvo por Russell. Depois do diálogo com Angelo em um restaurante, acompanhado de Russell, Frank comenta que para aquele serviço o mais recomendado é uma arma nova. Com este episódio, ele começa a ser um “pintor de casas”. Na verdade, ele deve a vida para Russell. Por isso, acaba fazendo os mais diferentes serviços para ele.

Na visão de Frank, ele segue na mesma levada da guerra. Ou seja, faz o que é preciso seguindo sempre ordens. Sob a ótica dele, ele faz o que precisa ser feito. A responsabilidade dos crimes e das mortes não é dele. Afinal, ele só está “seguindo ordens”. Para Frank, ele faz o que é necessário para pagar as contas de casa e para manter a família.

O protagonista desta produção, em resumo, é o típico participante da máfia que fez tudo acontecer. Ele executava as ordens e via aqueles crimes, assassinatos, extorsões, violência como uma forma de vida. Um “trabalho” como qualquer outro. Através da história dele, vemos a relação próxima entre a máfia e suas práticas com poderosos. Começando pelos sindicatos de trabalhadores, mas chegando até os políticos e governantes – inclusive do país.

Onde há muito dinheiro, há interesses e há corrupção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A teoria apresentada por The Irishman é que o dinheiro – rios de dinheiro, é preciso dizer – da máfia transpassava por todas as partes. E, o mais interessante, que sindicatos de trabalhadores, como o comandado por Hoffa, ajudava a financiar e a lavar o dinheiro da máfia.

Nessa parte que o filme fica realmente interessante, quando aproxima a máfia de Hoffa e dos sindicatos de trabalhadores – em seguida, da política americana. Muito interessante ver como as cartas eram dadas e como as engrenagens “invisíveis” faziam o seu trabalho.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Nesse sentido, o roteiro de Zaillian segue a teoria que tanto o “desaparecimento” de Hoffa quanto o assassinato dos Kennedy foram orquestrados pela máfia, que estava insatisfeita com a “rebelião” e com as novas ideias de seus ex-parceiros. Até a eleição de Kennedy, na verdade, é atribuída para a máfia – que teria fraudado os resultados.

Há muito tempo se especula sobre isso e, apesar de não terem conseguido comprovar essas acusações até hoje, devemos admitir que estas teorias da conspiração são interessantes – porque fazem sentido. Algo que gostei bastante nesta produção é que ela não tem papas na língua e nem pirotecnia. The Irishman vai direto ao ponto e justifica cada imagem que vemos.

Funciona muito bem, neste filme, por exemplo, como a dinâmica dos fatos é apresentada. Algumas vezes, antes de um atentado feito por Frank, interessa mais os preparativos e o momento em que o protagonista se prepara para o fato do que o crime em si. Um exemplo disso ocorre com o “grand finale” de Hoffa. A cena é rápida, como ocorre na vida real, mas o que vem antes é que nos faz pensar e é o que cria tensão para a trama.

Como as relações eram estabelecidas, a apresentação da teia de interesses e a motivação dos diferentes personagens torna The Irishman uma produção muito interessante e acima da média. Um ponto interessante, espalhado pelo filme, é a apresentação dos diferentes mafiosos – nesse momento, a tela é congelada e, além do nome deles, aparecem as informações sobre as suas mortes, com data e a forma com que morreram – muitos deles, assassinados.

O que acho fascinante em The Irishman é que ele não apenas um filme envolvente e com uma história interessante. Ele também nos faz refletir sobre alguns tópicos. Por exemplo, a noção que alguns podem ter de poder e de riqueza. No final, apenas Frank está vivo – todos os demais já morreram. E as pessoas já não lembram direito quem foi Hoffa. Um homem que, na sua época, era tão poderoso… e que, décadas depois, só era lembrado por ter desaparecido – e pouco mais que isso.

Essa questão nos faz refletir sobre a marca que as pessoas podem deixar no mundo. Porque todos vão morrer, mais cedo ou mais tarde. Eles serão lembrados? De que forma? Por quanto tempo? Pessoas que se acham tão poderosas, que “fazem e acontecem”, também vão cair no esquecimento. Em algum momento. The Irishman nos faz refletir sobre a memória, as lembranças, quem parte e quem fica. A “herança” de cada um.

Além de uma história muito bem narrada e que apresenta a influência decisiva que a máfia italiana teve – ou tem, até hoje? – nos Estados Unidos, The Irishman conta com uma direção impecável de Scorsese e com atores impecáveis e maravilhosos em cena. Um verdadeiro presente, um deleite para quem gosta de cinema. Para mim, até o momento, o melhor filme da temporada.

NOTA

10

OBS DE PÉ DE PÁGINA

Todas as técnicas de cinema são vistas nesta produção. Quem quer analisar ângulos, sequências, formas de focar cenas e interpretações, pode pegar The Irishman como um manual de como fazer. Honestamente, não vejo como Martin Scorsese não ser ao menos indicado como Melhor Diretor no Oscar 2020. Ele faz um trabalho exemplar e impecável.

Um grande trabalho como este não pode ser feito sem um grande roteiro. A forma com que The Irishman é narrado, mostrando o protagonista na velhice, relembrando sua própria história, com diversos retornos em diferentes épocas do passado, também é uma aula de como fazer um roteiro. Com diálogos construídos com esmero, representando bem o background e o perfil de cada personagem, somos envolvidos pela história sem percebemos como ela é longa. Outro nome que deveria ser lembrado no Oscar, sem dúvidas.

The Irishman não seria o filme genial que ele é sem outros três nomes: Robert De Niro, Al Pacino e Joe Pesci. Que atores fantásticos! Os três, para mim, no melhor trabalho de suas carreiras que vemos em muito, muito tempo. Um verdadeiro presente vê-los tão bem, valorizando cada diálogo e cada cena de seus personagens. Isso só mostra que eles continuam excelentes, só precisam de textos que valorizem os seus talentos. Fantásticos!

O filme está bastante focado no trabalho de De Niro, claro. Porque ele é o protagonista e o narrador desta história. Mas há muito espaço também para Pacino e Pesci. Eles dominam a narrativa. Mas, além deles, é importante citar alguns outros coadjuvantes que fazem um ótimo trabalho.

Vamos a eles: Harvey Keitel como Angelo Bruno, chefão da máfia na Filadélfia e que aparece em momentos pontuais da produção, mas que tem poucos diálogos no filme; Ray Romano como Bill Bufalino, advogado do sindicato dos trabalhadores e primo de Russell; Bobby Cannavale como Skinny Razor, mafioso para quem Frank começa a trabalhar; Lucy Gallina como a jovem Peggy, filha de Frank que rejeita o pai, e Anna Paquin como Peggy já adulta; Stephen Graham como Tony Pro, apelido de Anthony Provenzano, rival de Hoffa entre os trabalhadores; Jesse Plemons como Chuckie O’Brien, filho de Hoffa; Domenick Lombardozzi como Fat Tony Salerno, um dos mafiosos que não “engolia” Hoffa e foi decisivo para seu final; Gary Basaraba como Fitz, apelido de Frank Fitzsimmons, sucessor de Hoffa que acabou sendo seu rival após a prisão; e Sebastian Maniscalco como Crazy Joe Gallo, mafioso que extrapolou demais e que acabou sendo eliminado por isso.

Citei, acima, apenas os principais coadjuvantes. Mas a lista é enorme. Muitos atores bons foram escalados para papéis secundários e, outros, apenas para aparecer em cena como mafiosos importantes que acabaram sendo mortos depois – principalmente nos anos 1980.

Entre os aspectos técnicos do filme, o grande destaque é a excelente direção de Martin Scorsese. Ele torna cada cena interessante. Valoriza o trabalho dos grandes atores que tem pela frente, dá o ritmo certo para cada sequência – algumas vezes, planos longos, outras vezes, planos dinâmicos ou que acompanham o protagonista com calma antes dele ter um grande ato. Além dele, claro, temos que destacar o excelente roteiro de Zaillian, que mergulha naquela época, na vida do protagonista e esmiúça as relações da máfia durante três décadas de forma exemplar. Só um grande roteiro para fazer um filme de 3h30 não parecer que tem tudo isso de duração.

Outros aspectos técnicos que merecem aplauso é a excelente edição de Thelma Schoonmaker; a direção de fotografia também impecável de Rodrigo Prieto; a trilha sonora envolvente e muito perspicaz de Robbie Robertson; o design de produção de Bob Shaw; a direção de arte de Laura Ballinger e J. Mark Harrington; a decoração de set de Regina Graves; e os figurinos de Christopher Peterson e Sandy Powell.

Além deles, excelente o trabalho das dezenas de personagens responsáveis pelo Departamento de Maquiagem, pelo Departamento de Arte e pelos Efeitos Visuais. Todos eles fizeram um trabalho impecável envolvendo as diferentes épocas dos atores – inclusive com um trabalho de rejuvenescimento incrível – e também a ambientação da história.

The Irishman estreou em setembro no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria, ainda, de outros 15 festivais de cinema em diversos países. Nos cinemas, no circuito comercial, o filme estreou em novembro em Los Angeles e em países como Itália, Reino Unido e Irlanda. Na internet, por ser uma produção da Netflix, o filme estreou em novembro.

Aliás, deixem comentar. A Netflix já tinha mudado a forma com que boa parte da população passou a consumir filmes e séries. Tinha também entrado nas premiações, não apenas do Oscar, mas de outros festivais de cinema, principalmente com documentários. Mas, neste ano, me parece, ela vai entrar para valer nas premiações vencendo com cinema de alta qualidade. Muito bacana termos uma força como a deles – e, cada vez mais, acredito, de outros serviços de streaming, como Amazon, Hulu, entre outros – rejuvenescendo a indústria do cinema.

Pelas regras das premiações, os serviços de streaming devem estrear nas salas de cinema as produções que eles querem ver premiadas. O problema é que estas estreias são feitas de forma limitada. Ou seja, grandes filmes, como esse The Irishman, vão acabar sendo vistos mais dentro da casa das pessoas do que na telona.

Todo formato é válido, é claro, mas acho que as pessoas deveriam ter chance de ver essas produções mais nos cinemas. Afinal, este ambiente deve seguir sendo valorizado, não esquecido. A experiência em uma sala de cinema é totalmente diferente. Bacana os streaming entrarem no jogo, mas deveriam ter uma distribuição maior de seus filmes no circuito de cinemas também.

Até o momento, The Irishman ganhou 44 prêmios e foi indicado a outros 234. Vejam esses números! Que impressionante. Vou repetir: ganhou 44 prêmios e foi indicados a mais 234 prêmios. Uau! Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme e Melhor Roteiro Adaptado do National Board of Review.

Também vale comentar que The Irishman foi indicado em cinco categorias do Globo de Ouro 2020: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor para Martin Scorsese, Melhor Roteiro para Steven Zaillian, e Melhor Ator Coadjuvante para Al Pacino e para Joe Pesci. Francamente, achei um absurdo o Globo de Ouro não ter indicado Robert De Niro como Melhor Ator – Drama. Ele deveria ter sido indicado. Espero que o Oscar corrija esse erro.

Agora, vamos citar algumas curiosidades sobre esta produção. Dizem que, antes de aceitar o papel de Russell Bufalino, o ator Joe Pesci recusou sair da aposentadoria diversas vezes. Alguns dizem que ele chegou a recusar o papel 50 vezes. Mas acabou aceitando. Para a nossa sorte. Ele está realmente incrível.

Para o ator Al Pacino, fazer The Irishman foi como voltar no tempo. Ele disse que o processo de filmagens da produção fez ele recordar dos filmes que fez nos anos 1970. Vale comentar, nesse contexto, que esta produção é a primeira vez em que Pacino trabalha com Scorsese.

Segundo o site IMDb, The Irishman é o filme mais longo dirigido por Scorsese e o filme mais longo a ser lançado em 20 anos. Realmente corajoso da Netflix e dos realizadores desta produção fazerem um filme com esta complexidade e duração. Admito que assisti a produção em uma mesma tarde, apenas com algumas pausas aqui e ali para resolver algo. Mas jogo rápido.

“Eu ouvi falar que você pinta casas” foram as primeiras palavras que Hoffa falaram para Frank. Essa frase, junto com “Eu também faço o meu próprio trabalho de carpintaria” significa que o profissional tanto é bom em fazer o trabalho sujo quanto em fazer uma boa limpeza para não deixar provas ou rastros.

The Irishman foi filmado em 106 dias. O maior cronograma de filmagens da carreira de Scorsese. De Niro comentou que esta produção representa “negócios inacabados” entre o ator e o diretor. Comentário curioso, eu diria. Mas se Scorsese devia um grande filme para o amigo e ator De Niro, sem dúvida ele pagou a sua dívida com esta produção.

De acordo com Scorsese, nenhum estúdio de Hollywood estava interessado em mais um filme dele sobre a máfia e que contasse com De Niro no elenco. Por isso, conforme o diretor, apenas um visionário como Ted Sarandos, CEO da Netflix, para fazer uma produção como esta sair do papel. Sorte nossa, sem dúvidas.

Segundo De Niro, inicialmente Scorsese o convidou para fazer um filme sobre um matador de aluguel envelhecido. Para se preparar para este papel, De Niro leu o livro The Irishman. O ator gostou tanto da obra que convenceu Scorsese que eles deveriam contar essa história.

O lançamento do filme nos cinemas foi complicado por causa da regra da Netflix de que suas produções devem ser colocadas à disposição dos assinantes na internet 30 dias depois delas estrearem nos cinemas. A maioria das grandes redes de cinema nos Estados Unidos e na Europa trabalham com pelo menos 90 dias de exibição para que os filmes rendam o que elas desejam. Como este não era o caso, o filme acabou sendo exibido, em muitos países, apenas em cinemas independentes e em redes de “cinema de arte”, como a rede Curzon, no Reino Unido.

Como retratado no filme, de fato Robert De Niro e Joe Pesci falam bem o italiano.

Inicialmente o filme contou com recursos da Paramount Pictures, da Media Asia (que comprou os direitos de distribuição para a China) e da STX Entertainment. Mas depois que o orçamento do filme foi estimado em mais de US$ 100 milhões, a Paramount pulou fora e o projeto foi assumido pela Netflix.

Em um determinado momento, The Irishman chegou a ser planejado como um filme em duas partes. Que bom que mudaram de ideia. Preferi assistir a história toda em uma única produção.

A tecnologia utilizada no filme permitiu que os atores interpretassem os seus personagens sem terem que se preocupar com as idades que eles teriam na narrativa. Ou seja, ao invés de usarem quilos de maquiagem ou próteses, eles apenas interpretaram os seus personagens e tiveram as idades correspondentes garantidas pelos efeitos especiais. A tecnologia a favor da arte, mais uma vez.

Se pararmos para pensar, a personagem de Peggy no filme tem uma relevância curiosa. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Desde que Frank dá uma surra e esmaga a mão do comerciante que tinha brigado com ela, Peggy sabe o que seu pai faz. Mesmo sem falar, ela é uma espécie de “consciência moral” para ele, alguém que lhe diz, pelo olhar, que o que ele está fazendo para “sustentar a família” não é válido e nem certo. Muitas vezes os filhos fazem isso com os pais, de fato.

Vejam que interessante a questão da construção visual do filme. Scorsese queria que The Irishman tivesse o visual de um “filme de memória”, quase um filme caseiro – mas sem o tremor e a granulação de uma câmera de 8mm. Para conseguir essas características, o diretor de fotografia Rodrigo Prieto usou quatro visuais diferentes para marcar as diferentes épocas da história: visual Kodachrome nos anos 1950; visual Ektachrome nos anos 1960; camada de prata para marcar os anos 1970 e uma imitação do processo de retenção de prata ENR com aparência mais sem saturação dos anos 1980 até hoje. Apenas as cenas dos “dias atuais” utilizaram câmeras de filme normais, já que nesta fase era preciso apenas um pouco de maquiagem nos atores.

Esse filme me fez questionar: qual é a importância da máfia hoje nos Estados Unidos? Sim, porque muitos personagens que vemos em cena morreram de forma natural ou assassinados nos anos 1980. Outros foram presos. Mas a máfia dificilmente desparece completamente. Pois bem, busquei algumas informações e encontrei esta matéria da Folha de S. Paulo sobre a morte de um chefe mafioso de Nova York em 2019 e esta outra matéria, do G1, sobre uma operação que prendeu mafiosos nos Estados Unidos e na Itália também no ano passado.

Para quem se interessa pelo tema máfia, recomendo esse texto da Wikipédia sobre a Cosa Nostra Americana e este outro, do UOL, sobre as três maiores máfias italianas.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 389 críticas positivas e 16 negativas, o que garante para The Irishman uma aprovação de 96% e uma nota média de 8,81.

O site Metacritic apresenta um “metascore” de 94 para esta produção, fruto de 55 críticas positivas. É raro vermos um filme apenas com críticas positivas no site. De acordo com o site IMDb, The Irishman teria custado cerca de US$ 159 milhões. Conforme o site Box Office Mojo, a produção faturou cerca de US$ 944,7 mil nos mercados em que estreou nos cinemas. Fico me perguntando, para a Netflix, se é vantajoso investir em um filme deste porte… apenas pelos prêmios?

The Irishman é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO

Mais um grande filme do Sr. Scorsese sobre a máfia. Mas não apenas isso. The Irishman nos conta uma história que mostra as relações perigosas entre o crime nos Estados Unidos e o poder. Envolve diferentes redes – inclusive a dos que deveriam representar os trabalhadores, os líderes dos sindicatos – em uma trama envolvente e que não parece ter as 3h30 que o filme possui. Uma aula de cinema de Scorsese, com um ótimo roteiro sustentando a narrativa e um trio de atores dos sonhos: Robert DeNiro, Al Pacino e Joe Pesci. Até o momento, para mim, o melhor filme da temporada.

PALPITES PARA O OSCAR 2020

Acredito que The Irishman será o filme com o maior número de indicações na próxima premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Além de ser indicado em diversas categorias, acredito que o filme tenha chances de receber a alguns destes prêmios – quem sabe, inclusive, alguns dos principais.

Hoje, calculo que The Irishman tem boas chances de ser indicado nas seguintes categorias: Melhor Filme; Melhor Diretor para Martin Scorsese; Melhor Roteiro Adaptado para Steven Zaillian; Melhor Ator para Robert De Niro; Melhor Ator Coadjuvante para Al Pacino e, quem sabe, Joe Pesci; Melhores Efeitos Visuais; Melhor Figurino; Melhor Edição; Melhor Direção de Fotografia; e Melhor Design de Produção.

Acho que ele tem chances nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Edição, Melhor Direção de Fotografia e Melhor Design de Produção. A conferir. Pode não emplacar em algumas destas categorias e surpreender em algumas das outras. Ainda falta assistir a vários concorrentes. Só poderei dar palpite mais sobre chances mais reais do filme após isso.