The Life Before Her Eyes – Sem Medo de Morrer

The Life Before Her Eyes - Sem Medo de Morrer 1

O Estados Unidos sofre com algumas chagas. Se a Alemanha insiste em lembrar os crimes nazistas, o Estados Unidos parece sempre querer relembrar os seus assassinos em série e/ou demais loucos que acabam matando gente inocente. Dentro deste “universo”, acho incrível como rendem novos casos e histórias os assassinatos em colégios, escolas ou universidades daquele país – como o de Columbine, talvez o mais conhecido caso ocorrido nos últimos anos. Pois é sobre um caso destes que gira a história de The Life Before Her Eyes. Até assistir ao filme eu não tinha me dado conta que ele é o novo trabalho do diretor ucraniano Vadim Perelman, responsável anteriormente pelo interessante House of Sand and Fog (Casa de Areia e Névoa). Neste seu segundo filme ele volta a tratar da perda e da violência de uma maneira um bocado fora dos padrões – ainda que, para mim, desta vez ele não tenha conseguido um efeito tão interessante.

A HISTÓRIA: Acompanhamos dois momentos na vida de Diana McFee (Uma Thurman): quando ela era uma colegial (interpretada por Evan Rachel Wood) um tanto popular e rebelde; e adulta, como mãe de família e esposa de Paul McFee (Brett Cullen). Na adolescência, Diana está buscando sua independência, assim como o que pretende fazer da vida após o colégio, enquanto alimenta uma forte relação de amizade com Maureen (Eva Amurri) e começa a descobrir a sua sexualidade. A vida das amigas muda radicalmente no dia em que Michael Patrick (John Magaro), um colegial como elas, chega na escola matando quem ele encontra pela frente. A partir daí a história faz várias voltas para contar o que aconteceu com Diana.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta trechos importantes de The Life Before Her Eyes, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme): Tiros em Columbine, documentário-panfleto do diretor Michael Moore, talvez seja o filme mais conhecido sobre um massacre em uma escola dos Estados Unidos. Mas além dele existem outras produções que tratam do tema, como Elefante, filme de Gus Van Sant que ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 2003. O único fio que une estes filmes com The Life Before Her Eyes é que todos tratam de massacres em escolas. Mas as semelhanças terminam aí.

O novo filme estrelado por Uma Thurman pretende ir além do massacre propriamente dito e busca explorar o que seria a vida de uma sobrevivente de um acontecimento trágico como este. Algo interessante é que desde os primeiros segundos, com o bonito jogo de cores e flores da parte dos créditos iniciais, o filme se apresenta como uma narrativa um tanto irreal, de sonho.

(NÃO LEIA se não assistiu o filme). E depois esse sentido de irrealidade vai se ampliando até que descobrimos, quase no final, que o que parece ser a realidade de Diana não é nada mais nada menos que o seu “purgatório”, a idéia que ela teve de um futuro que poderia ter acontecido e que nunca poderá se concretizar. Essa reviravolta no filme – que sempre deu a entender que a sobrevivente do banheiro teria sido Diana – realmente é curiosa, mas achei que existe um excessivo jogo de vai-e-vem no roteiro que acaba cansando um pouco. Talvez até essa “eterna volta” a cena anterior ao tiro fatal de Michael Patrick faça parte do “purgatório” em que está metida Diana.

Existem, claro, várias interpretações para o filme. (NÃO leia se não assistiu a The Life Before Her Eyes). A idéia de que existe uma “realidade” inventada, uma projeção no futuro depois que morremos, pode ser entendida apenas como um estado da consciência – ao qual não saberíamos se duraria muito ou pouco tempo, quizás segundos depois da morte -, ou mesmo como a realidade em que um espírito passa a habitar depois que seu corpo não tem mais vida. Eu vi a projeção de uma vida futura de Diana quase como seu purgatório, afinal, ela não vivia exatamente uma vida feliz com o marido e a filha, e sim uma realidade de culpa e permanente sentido de “cobrança” – assumindo praticamente a idéia de vida “perfeita” da amiga Maureen, sem ter conseguido sair da cidadezinha em que não queria morar. Então tudo que ela nos conta é confuso e nebuloso porque está baseado em sua memória e percepção – o que vamos descobrindo que se altera conforme ela faz o esforço de entender aquele massacre e de repassar a sua própria vida.

Na verdade, por tudo isso que comentei, achei um filme bem interessante. Mas tem várias coisas nele que me incomodaram um pouco. Primeiro, o que eu tinha comentado antes: achei um pouco cansativo aquele frequente vai-e-vem da história para a cena do banheiro com as duas amigas e o assassino. Ok que isso se justifica pela “tomada de consciência” da personagem, mas ainda assim cansou um pouco. Depois achei um tanto desnecessária para a história uma “sutil” porém constante sugestão de um interesse sexual entre Diana e Maureen. Não sei se apenas eu percebi isso e, na verdade, a idéia de “atração” entre as personagens não ser algo planejado pelo roteirista, Emil Stern – baseado no livro de Laura Kasischke -, mas se foi planejado, sinceramente, achei desnecessário.

No fundo é um filme interessante, especialmente pela reviravolta no roteiro, mas ele termina sem, na verdade, ter convencido de todo. Achei que mais para a parte final do filme o roteirista e o diretor “correram” para tornar a história mais acelerada e contar rapidamente tudo o que queriam – do aborto até o desvelo do que realmente ocorreu naquele banheiro do colégio. Assim, o filme não mantêm um ritmo constante e acaba sofrendo por um pouco de atropelo. Os atores em geral estão bem nos seus papéis, com destaque para as jovens Diana e Maureen – especialmente para Eva Amurri, que me surpreendeu por seu carisma. Evan Rachel Wood acaba “levando” o filme, já que a maior parte da interpretação fica com ela – pelo menos a maior parte da “complexidade” da personagem principal acaba caindo no seu colo. Uma Thurman está bem até a parte final, quando a tal “correria” no roteiro acaba prejudicando um pouco a sua interpretação. Os demais atores realmente são secundários, inclusive a simpática garotinha Gabrielle Brennan, que interpreta Emma McFee, filha de Diana e Paul.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O filme não custou muito para os padrões de Hollywood: US$ 8 milhões. Ainda assim, até agora, teve um desempenho pífio nas bilheterias dos Estados Unidos: de abril até junho ele arrecadou pouco mais de US$ 303 mil. Um dos motivos é que o filme nunca passou de 48 salas de exibição – na maior parte das semanas ele não chegou a ser exibido nem em 10 cinemas. Pelo visto a distribuidora não apostou nele, seja pelo número de cópias (baixa) ou pela campanha publicitária. Em teoria o filme tem um tema para ser bem procurado nos Estados Unidos – ainda que a narrativa possa desagradar a muita gente. Afinal, é um filme mais focado na existência de uma pessoa do que no massacre puramente dito.

A nota que eu dei para o filme leva em conta o trabalho competente do diretor, mas acaba sendo baixa porque achei o roteiro um tanto fraco e confuso – e na maior parte do tempo as interpretações também não me convenceram ou emocionaram. A idéia de explorar a vida de pessoas que sofreram com um massacre como este, um tanto “comuns” nos Estados Unidos é interessante e foge um pouco do que foi feito até agora, mas achei que a narrativa fragmentada acaba cansando e fazendo as pessoas se perderem um pouco – assim como a constante dúvida se o que estamos vendo é o que aconteceu ou uma fantasia da narradora. Falando nos massacres, achei em dois textos – este e este – um material interessante a respeito (que fala, por exemplo, que naquele país ocorreram nos últimos 10 anos pelo menos 10 casos em que mais de cinco pessoas foram feridas em tiroteiros em colégios ou universidades.

Os usuários do site IMDb confereriram a nota 6,8 para o filme, enquanto que os críticos que têm textos publicados no Rotten Tomatoes foram mais duros com The Life Before Her Eyes: 52 textos são negativos e apenas 18 se mostram positivos a produção.

Uma curiosidade: o filme foi todo rodado em Connecticut, especialmente na escola Sheridan e com alguma cena na Universidade de Yale.

Ainda que o filme acabou não conseguindo o efeito que eu acho que ele poderia ter conseguido, o que acho interessante é que o diretor continua trabalhando em um crítica ao “american way of life”, ou seja, ao estilo de vida dos Estados Unidos. Acho importante que alguns cérebros pensantes continuem fazendo isso.

Além do diretor e do roteirista, já citados, acho importante comentar o trabalho competente do diretor de fotografia polonês Pawel Edelman e da trilha sonora do veterano James Horner.

CONCLUSÃO: Um filme com potencial e muitas qualidades técnicas – especialmente de direção e de fotografia  – mas que acaba derrapando em alguns excessos de roteiro e em uma constante ida-e-volta no tempo presente e passado que acaba cansando. Não deixa de ser curioso para ser assistido, ainda mais porque tenta contar de maneira diferente a experiência de um massacre em uma escola dos Estados Unidos, mas acaba ficando abaixo do que poderia de fato ser. Na verdade, é praticamente dispensável.