There Will Be Blood – Sangue Negro

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Tem filmes que nascem épicos. No sentido não apenas do tema, mas do tipo de produção, pela qualidade e pela “idéia” de onde querem chegar. There Will Be Blood é um destes exemplos. Ao terminar de assistir ao filme, lembrei de algo que tinha lido antes de vê-lo: que o filme de Paul Thomas Anderson seria um Citizen Kane (Cidadão Kane) moderno. Realmente, a saga do magnata da imprensa retratado com perfeição pelo diretor Orson Welles parece se repetir aqui na pele do magnata do petróleo. Mas as comparações terminam por aí, porque o filme de Paul Thomas Anderson não consegue chegar nem perto da ousadia técnica e de estilo que Orson Welles conseguiu em seu filme de 1941. Ainda assim, There Will Be Blood é um grande filme, especialmente pela marcante e inesquecível interpretação de Daniel Day-Lewis como o ambicioso, trabalhador e enlouquecido Daniel Plainview. Mas ainda que o ator seja o grande nome do filme, existem outros elementos que fazem dele um épico: a direção de fotografia, a trilha sonora, o roteiro cuidadosamente denso e bem trabalhado e, claro, um grupo de atores que segura o espectador do início ao final – com especial destaque para Paul Dano e Dillon Freasier. O filme é um dos favoritos ao Oscar. E o merece ser. Ainda assim, a disputa está acirrada entre ele e No Country for Old Men – com uma certa vantagem para o último, na minha opinião.

A HISTÓRIA: O filme começa com Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) dando duro em uma mina atrás de prata e ouro em 1898. Depois de conseguir encontrar alguma prata, ele sofre um acidente grave. Mas vencendo todas as dificuldades, ele segue para ganhar o seu dinheiro. Poucos anos depois, em 1902, ele lidera um grupo de homens em um poço em busca de petróleo. Ambicioso, Plainview está em plena ascensão. Ele é um caçador de locais em que se pode extrair o precioso líquido negro. Conforme vai encontrando locais para a extração de petróleo, ele vai se tornando um homem conhecido. Depois de negociar com um grupo de proprietários de terra, acompanhado do filho e “sócio” H.W. Plainview (o ótimo garoto Dillon Freasier), ele recebe a visita de Paul Sunday (Paul Dano), o filho do dono de uma fazenda na cidade de Little Boston. Paul pede 500 dólares em troca de informar onde Plainview pode encontrar uma grande fonte de petróleo a baixo custo. Ele comenta que na propriedade de sua família o petróleo “brota da terra” e que seu pai lhe venderia barato as terras, já que ali não se dá para plantar nada e que eles sobrevivem apenas de criar cabras. Daniel viaja com H.W. para o local e realmente encontra o petróleo, tendo que suportar, contudo, uma certa “concorrência” entre a população local com o “messiânico” Eli Sunday (também interpretado por Paul Dano), o filho do dono da propriedade, Abel Sunday (David Willis), que quer construir uma igreja própria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER: aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta trechos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a There Will Be Blood): Como eu disse na introdução deste comentário, There Will Be Blood quer ser um épico. E consegue sê-lo. Ainda assim, ele não pode ser comparado a Citizen Kane. Ele não chega a ter nem a qualidade e nem a ousadia técnica que, na sua época, o filme de Orson Welles teve. Dito isso, posso afirmar que se trata de um grande filme.

Primeira curiosidade: o filme começa arrebatador, com imagens cuidadosamente planejadas e uma trilha sonora marcadamente planejada, e segue assim, apenas com imagens e música, sem falas, por pelo menos 10 minutos. Sim, o primeiro diálogo só aparece depois. Interessante. E logo a primeira fala, claro, é a do nosso “herói” e “anti-herói” ao mesmo tempo, Daniel Plainview. O discurso dele para convencer uma comunidade de fazendeiros a explorar uma possível vertente de petróleo já diz muito do que este homem é ou é capaz de fazer. Seu discurso, baseado na idéia de “família”, comentando que seu filho H.W. Plainview é seu sócio e participa de tudo que ele faz – detalhe: o garoto é uma criança! – já demonstra que tipo de idéia ele quer “vender”. Com o tempo se percebe que isso é apenas mais um discurso cínico que ele utiliza para chegar onde quer.

Aliás, sua obstinação por tornar-se rico é impressionante. A ambição é um dos temas principais do filme. Mas não é apenas Daniel Plainview que possui ambição. O seu por um tempo “rival” e, depois, “aliado”, Eli Sunday também é motivado por uma ambição gigantesca. No caso de Daniel, o que lhe move é a vontade de ser rico, poderoso, invencível – ainda que ele tenha um certo “mérito” nisso, porque sempre deu duro para chegar onde quis (pena que apenas parte foi mérito, e o resto, manipulação de pessoas). Enquanto pelo lado de Eli a ambição se percebe no desejo de ser inquestionável, de ser um líder espiritual que move as pessoas cegamente. A moeda de Eli é a fé alheia, de pessoas simples e crentes. Os dois se utilizam de discursos muito bem montados – ainda que rivais – para mover “rebanhos” e para se tornarem poderosos. O interessante é que Eli, a princípio, parece querer apenas atenção, parece apenas ser “importante”. Mas depois se percebe que ele também quer poder e dinheiro. A corrupção humana também é um tema forte no filme, assim como a disputa entre as forças do dinheiro e da religião.

Como falei antes também – adoro me repetir! -, Daniel Day-Lewis é o nome do filme. Ele realmente está genial. Mas existem outros nomes importantes na produção. Me impressionou o trabalho do jovem Paul Dano. Este estadunidense nascido na cidade de Wilton, no Estado de Connecticut, e com atualmente 23 anos, faz um trabalho perfeito como os irmãos gêmeos Paul e Eli. Aliás, por algum tempo o filme nos deixa na dúvida se de verdade se trata de duas pessoas diferentes ou de um único garoto dissimulado que se fez passar por duas pessoas. Depois se acaba sabendo que se trata de dois irmãos realmente. Outro ator que me impressionou por sua atuação foi o garoto Dillon Freasier. Ele interpreta o filho do ambicioso Daniel Plainview na época mais marcante e definitória do filme. Por uma boa parte da história ele não tem falas, e justamente aí que ele se sai extremamente bem. Além destes atores, destaco a participação, ainda que pequena do ator Ciarán Hinds como Fletcher Hamilton, o amigo e ajudante de Daniel Plainview.

Nos quesitos técnicos o filme funciona muito bem. Trilha sonora do inglês Jonny Greenwood maravilhosa, direção de fotografia de Robert Elswit perfeita (antes deste filme ele já tinha sido indicado ao Oscar por seu trabalho em Good Night, and Good Luck), edição de Dylan Tichenor muito bem feita e planejada. Pessoalmente, fazia tempo que eu queria ver um filme de Paul Thomas Anderson de qualidade. Não escondo que adoro Magnólia – acho que está na minha lista de filmes preferidos de todos os tempos. E depois de assistí-lo, fui atrás do que o diretor tinha feito antes e, claro, esperei o que ele faria depois. E tudo que vi foi lixo. Daí pensei: “Bem, mais um diretor que só fez um filme decente na vida e o resto nada!”. Até esse There Will Be Blood. Com esse filme, novamente, Paul Thomas Anderson demonstra que é um grande diretor e roteirista, ainda que eu ache que lhe faltou ousadia nesta história. Acho, realmente, que ele poderia ter feito algo melhor, com técnica mais apurada ou ousada. Até um certo ponto o seu estilo me lembrou um pouco o “naturalismo” de parte do Cinema Novo brasileiro, com planos que me lembraram um pouco Glauber Rocha, por exemplo. Mas isso, para mim, é passado. Ou, melhor, pode ser um presente ou futuro, mas com novos elementos para acrescentar. Se não, parece mais do mesmo e não algo original. Faltou mais ousadia para o filme realmente me conquistar.

NOTA: 9,8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Uma outra curiosidade: dei para este filme a mesma nota que para No Country for Old Men. Ambos filmes me conquistaram, mas nos dois eu vi elementos que faltaram ou problemas. Nenhum deles é perfeito, redondo.

Falando em problemas, um detalhe sobre a interpretação de Daniel Day-Lewis: para não dizer que ela é perfeita, eu reparei em uma falha. Depois da cena inicial do filme, em que vemos Daniel Plainview sofrendo um grave acidente, ele volta e meia aparece mancando com a perna que ele quebrou em sua queda. Muito bem. O problema é que o ator, algumas vezes, se esquece de mancar… Um exemplo? Quando o filho dele volta para casa, depois de ter ficado um tempo fora por ordens do pai, ele briga com Daniel. Nesta cena o ator “esquece” de mancar, por exemplo. É um detalhe, eu sei. Algo que não tira nem um pouco o mérito de Daniel Day-Lewis e nem o seu direito de ganhar o Oscar.

E falando em prêmios, There Will Be Blood acumula, até o momento, nada menos que 31 prêmios e 33 nomeações – incluindo oito para o Oscar. A maioria dos prêmios que ele ganhou foi de associações de críticos. E entre os premiados estão o ator Daniel Day-Lewis (quase uma unanimidade), o diretor Paul Thomas Anderson e o filme.

Para quem não sabe, There Will Be Blood é baseado em um livro do escritor Upton Sinclair. Encontrei aqui uma breve biografia sobre ele. Mas é importante frisar que o filme é “livremente” inspirado na obra, ou seja, There Will Be Blood não pretende ser nada fiel ao texto original de Sinclair. Apenas utiliza boa parte das suas idéias, mas não obedece nem a sequencia da narrativa e nem segue todos os detalhes. Para quem lê espanhol, encontrei aqui um texto interessante sobre a obra original.

O filme mantêm prestígio entre público e crítica. Exemplo disso é a nota 8,9 que There Will Be Blood preserva no site IMDb e as 143 críticas positivas e apenas 15 negativas que o filme recebeu de comentaristas que tem seus textos linkados pelo site Rotten Tomatoes.

Para quem, como eu, gosta de saber sobre as locações dos filmes, There Will Be Blood foi filmado nas cidades de Marfa, no Texas; Santa Clarita e Los Angeles, na Califórnia; e no lago El Mirage Dry, na Califórnia também.

O filme, que teria custado aproximadamente US$ 25 milhões, não foi tão bem nas bilheterias quanto os produtores gostariam. Em pouco menos de um mês ele arrecadou, nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 8,6 milhões.

Agora no dia 7 de fevereiro o filme participará do Festival de Berlin. No Brasil ele tem data de estréia para 15 de fevereiro – data em que ele chega à maioria dos países.

PALPITE PARA O OSCAR: Acho que o filme têm reais chances de ganhar vários prêmios. Para mim é certo que Daniel Day-Lewis ganhará o Oscar de melhor ator – o único que pode ganhar dele, mas acho que dificilmente, é Johnny Depp por seu papel em Sweeney Todd. Nenhum dos outros concorrentes tem chance ou performance tão boa quanto a de Day-Lewis para vencer dele, na minha opinião. Ele pode levar a estatueta como melhor filme, ainda que eu ache que tem mais chances nesta categoria No Country for Old Men (meu voto) ou Atonement (que tem mais lobby que qualidade). Paul Thomas Anderson pode também ganhar como diretor, ainda que eu ache que os irmãos Coen (meu voto) ou o diretor Julian Schnabel tem mais chances de ganhar. Na categoria de roteiro adaptado ele têm fortes concorrentes a bater, especialmente Atonement e No Country for Old Men. Para mim, Atonement deve levar na categoria de roteiro. O filme concorre em direção de fotografia, um páreo duro em que deve ganhar de Atonement (neste quesito o filme é muito bom) e de The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford. Em direção de arte There Will Be Blood terá uma disputa acirrada com American Gangster, Atonement, The Golden Compass (meu voto) e Sweeney Todd – todos muito bons. Em edição ele concorre com Into the Wild (que tem uma edição muito boa) e The Bourne Ultimatum (meu voto). Em edição de som ele terá que bater a The Bourne Ultimatum (meu voto atual) e Transformers (para mim, quem deve ganhar). Para resumir: ele pode ganhar muitos prêmios ou, também, sair quase de mãos abanando. Tudo vai depender do humor dos membros da Academia.

CONCLUSÃO: Um épico sobre ambição, luta pelo poder e pelo controle de corações e mentes nos Estados Unidos do início do século 20. O filme conta a ascensão do magnata do petróleo Daniel Plainview, assim como parte da história do crescimento do país com base na exploração do líquido negro que até hoje domina o mundo. Interessante reflexão sobre a busca do poder e da relação entre dinheiro e religião – além do “aparente” embate entre o capitalismo e a fé. Outro tema interessante é o de manipulação das pessoas e da importância (ou não) da família para uma pessoa.