To Verdener – Worlds Apart

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Tem filmes realmente potentes. Alguns, pelo tema tratado na história. Outros, pela forma, pela capacidade narrativa e pela excelência no uso dos recursos cinematográficos. Outros, ainda, pelo “magnetismo”, pela junção perfeita entre história, interpretação e narrativa. Para mim, To Verdener, o concorrente dinamarquês a uma vaga no Oscar 2009, consegue reunir todos estes quesitos. Fiquei realmente maravilhada com o filme. Este é o segundo título dos pré-candidatos a Melhor Filme Estrangeiro do próximo Oscar que assisto. E ainda que eu saiba que Gomorra é um filme mais potente que este, To Verdener realmente me conquistou. O tema que ele trata é polêmico – mexe com a religião. Mas o filme me conquistou não apenas em contar uma realidade que eu desconhecia – o mesmo mérito de Gomorra – mas, especialmente, pelo carisma de seus atores e pelo trabalho dos roteiristas e do diretor.

A HISTÓRIA: A família de Sara (Rosalinde Mynster) é Testemunha de Jeová. Eles vivem os preceitos da religião à risca, participando semanalmente de suas reuniões congregacionais, pregando em visitas à residências, mantendo-se afastados de tudo que “faz Deus infeliz”. O primeiro problema na família surge quando o pai de Sara, Andreas (Jens Jorn Spottag), admite adultério e a esposa dele, Karen (Sarah Boberg) não aceita o arrependimento dele e resolve se separar. Andreas acaba sendo apoiado pelos filhos, Sara, Elisabeth (Sarah Juel Werner) e August (Jacob Ottensten). Mas o maior problema ainda está por surgir: Sara conhece Teis (Johan Philip Asbaek) em uma festa com a amiga Thea (Catrine Beck) e acaba se apaixonado por ele, o que coloca em risco a sua permanência na comunidade de Testemunhas de Jeová e, por consequência, a sua relação com os familiares.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta os trechos principais do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a To Verdener): O filme é daqueles que vai crescendo conforme o tempo passa. O que é um ponto bastante positivo e nem sempre “óbvio”, já que ultimamente o que se vê muito por aí são filmes com uma “barrigada” no meio (ou seja, uma parte bem desinteressante seguida do “gran finale”) ou muitos altos e baixos na história. Bem, sem falar os filmes que vão ladeira abaixo lá pelas tantas e terminam em total decepção. To Verdener não é nada disso.

O roteiro de Steen Bille e do diretor Niels Arden Oplev segue o Bê-a-bá de qualquer história e vai apresentando a realidade aos poucos. Para a sorte do espectador, não existe nenhum grande “discurso” sobre a realidade das famílias Testemunhas de Jeová. Ok que Sara explica, aqui e ali, sobre a sua religião para Teis e seus pais, mas na maior parte do tempo simplesmente acompanhas o dia-a-dia daquelas pessoas. Imagino o quanto o filme pode chocar as pessoas que seguem a religião retratada… isso se elas terão a permissão para ver o filme, não é? Mas os que assistirem, acredito, verão muito de suas realidades – ou de histórias que escutaram na Igreja – no filme.

Não conheço muito sobre os preceitos dos Testemunha de Jeová. Sei o que a maioria sabe: que eles não permitem a transfusão de sangue e que, por isso, várias pessoas já morreram para respeitar a sua fé. Também sabia que eles acreditam no Armagedom e que apenas serão salvos – ou continuarão vivos pela eternidade – os que acreditam em Jeová. Mas eu não sabia, por exemplo, que as pessoas que não seguem o que os “anciãos” pregam e os preceitos da religião podem ser expulsos e, quando isso acontece, ninguém da “comunidade” pode falar ou ter contato com eles. E isso inclui os seus familiares. Fiquei ainda mais espantada com isso. Isso que eu chamo de levar a religião ao extremo. Em resumo: ou você aceita o que lhe é dito sem questionar ou você é obrigado a ficar longe das pessoas que são a base de sua existência – no caso de Sara, dos pais e dos irmãos. Que tipo de amor e de fé pode aconselhar algo assim?

Também fiquei surpresa ao saber que eles são proibidos de votar e de participar do serviço militar. Também não podem celebrar aniversários (???). Claro que o filme não trata com profundidade todos os temas – não entendi, por exemplo, porque eles são proibidos de votar. Ainda bem, porque a idéia da história não é fazer um discurso contra ou à favor da religião, mas dramatizar uma história real e focar dois pontos, em especial: a família e a busca pela “verdade” típica da juventude.

O primeiro momento importante do filme é quando Andreas admite que foi infiel. Ele manipula de tal maneira as filhas que elas acabam ficando do lado dele – mesmo quando foi ele quem provocou a falta de confiança da mulher. Ele acaba sendo tão covarde que, junto com a mulher, coloca os filhos em uma situação absurda: a de decidir quem deve continuar na casa da família e, consequentemente, com quem eles querem ficar. No fundo, a mãe de Sara tem dúvidas sobre a vida religiosa que está seguindo – mas, sabendo o que acontece com quem deixa o grupo, ela não tem coragem de sair e ser proibida de ter contato com os filhos. (SPOILER – não leia se realmente não viu ao filme). Entendo a atitude dela especialmente pela experiência de ter sido separada do filho mais velho, Jonas (Thomas Knuth-Winterfeldt).

Mas o grande mérito do filme, além da história bem contada, são as interpretações. Especialmente da protagonista, vivida pela talentosíssima e carismática atriz Rosalinde Mynster. A garota realmente rouba a cena. Interpreta todos os nuances da personagem com suavidade e de maneira natural. E olha que o papel dela não é nada fácil. Afinal, ela está dividida entre a fé e a emoção, entre o que aprendeu desde o berço e o que está descobrindo por conta própria ao ter contato independente com o mundo. Ela faz um dueto realmente afinado com o ator Johan Philip Asbaek, que também tem carisma. Além deles, o ator Jens Jorn Spottag dá uma lição de competência. Na verdade, todos os atores em cena estão muito bem.

Fiquei especialmente chocada com a mudança que Sara acaba fazendo na própria vida. Toda a dissimulação orquestrada por ela – com a ajuda do irmão mais velho – para simular que ela estava vivendo com a mãe e não com Teis. (SPOILER – Não leia se não assistiu ao filme). Mas chega um momento em que ela percebe que não vai conseguir ficar com ele, porque a pressão sobre o casal é muito grande… o surpreendente, contudo, é que ela não volta atrás, como o irmão mais velho, mas decide enfrentar o mundo sozinha. Realmente ela teve muita coragem e, mais que isso, muita maturidade para tomar esta atitude. Ainda que, admito, eu gostaria de ver ela dando certo com o Teis – afinal, eles ficaram tão bem juntos. 😉

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que muitos vão olhar para esta nota e dizer: “Mas então ela achou To Verdener melhor que Gomorra?”. Bem, sei que Gomorra é um filme muito mais pesado e inovador que este To Verdener, mas acho os dois muito corajosos – cada um a seu estilo e com sua temática. E a verdade é que para mim é inevitável dizer que simpatizei mais com este filme dinamarquês do que com o italiano. Sei lá, mas nesta comparação eu acho que vou ser mais “tradicionalista” – me incomodou um pouco, para ser franca, o tom “ficção-documentário” de Gomorra e a crueza de suas imagens. Não pela violência em cena, mas pelo tom de quase “amadorismo”. Também acho que é um filme mais difícil de ser “acompanhado” do que este To Verdener, que tem narrativa bem simples e bem feita.

Falando do sucesso do filme enquanto narrativa, faltou falar antes do trabalho do diretor Niels Arden Oplev. Ele realmente consegue, como maestro desta obra, orquestrar muito bem os atores e, com a ajuda do diretor de fotografia Lars Vestergaard, conseguir algumas cenas muito bonitas plasticamente.

Além dos atores já citados, queria destacar o trabalho de Anders W. Berthelsen como John, um dos principais “anciãos” da congregação retratada. Impressionante o trabalho dele.

Falando em impressionante, algo que achei bastante curioso: o quanto os Testemunhas de Jeová são desconfiados a respeito de seus membros e, especialmente, das pessoas que tentam se aproximar deles. Prova disto é a maneira com que Teis é recebido pelas pessoas quando ele tenta entrar na congregação.

Segundo as notas de produção do filme, o diretor Niels Arden Oplev se graduou na Escola Nacional de Cinema da Dinamarca em 1989 – ele tem 47 anos. A estréia de Oplev como diretor ocorreu com o curta-metragem Nogen, de 1992. Em 1996 ele filmou Portland, um drama estrelado porAnders W. Berthelsen (a parceria dos dois é antiga). Com Portland ele chegou até o Festival de Berlim. Seu segundo filme, Fukssvansen, de 2001 (também com Berthelsen), foi consagrado pelo festival de cinema dinamarquês.

Niels Arden Oplev também dirigiu séries televisivas consagradas, como Rejseholdet (ou Unit One) e Ornen: En Krimi-odyssé (ou The Eagle) – ambas premiadas com o Emmy. O último filme dele antes de To Verdener, Drommen, de 2006, foi o filme mais assistido em seu país naquele ano e recebeu, de quebra, o Urso de Cristal no Festival de Berlim – além de outros 15 prêmios. E, para variar, Berthelsen estava na produção. Nada mal a quantidade de prêmios do diretor, hein? Mas o mais bacana é que ele vai trabalhar agora no primeiro filme da trilogia baseada na obra The Millenium do escritor Stieg Larsson. Fiquem de olho nele! O homem vai longe.

O filme deixa claro, do crédito inicial até o final, que é baseado em uma história real. Mas eu não sabia que ele tinha sido inspirado em um artigo de jornal que contava a história de Tabita, uma adolescente de 17 anos que resolveu quebrar com as tradições dos Testemunhas de Jeová ao escolher o amor e a liberdade no lugar dos preceitos de sua religião.

O filme se saiu bem na avaliação dos usuários do site IMDb: conseguiu a nota 7,1. Como sempre acontece com os filmes estrangeiros, fui consultar o site Rotten Tomatoes sem muitas esperanças de encontrar várias críticas a respeito de To Verdener, mas para a minha surpresa, não encontrei texto algum. Isso já dá uma “palhinha” das chances do filme no Oscar, não é mesmo? Se nem os críticos sabem a respeito dele… Por outro lado, gostei das discussões a respeito dele em comunidades de religiosos – ou seria de “ex-Testemunhas de Jeová” – como esta.

Pontos fortes do filme: o momento da “confissão” de Sara com os “anciãos” e o diálogo final dela com o pai. Realmente, magistral o debate sobre o “egoísmo”, não? Pessoalmente, adorei.

O filme estreou no Festival de Berlim deste ano e ganhou o Prêmio Signis no Festival Internacional de Cinema de Tróia, promovido na cidade de Setúbal, em Portugal. Pouco conhecido o prêmio este, o que faz o filme perder força para chegar ao Oscar.

Algo que me impactou muito no filme foi a força da personagem de Sara. Afinal, ela quebrou com todos os preceitos e dogmas por ela aprendidos até então, se separando de tudo e de todos. Isso que eu chamo de uma libertação total – e raríssima de acontecer.

Outro ponto curioso do filme: o eterno “perdão” dos dissidentes. Quer dizer que a pessoa pode cometer o erro que for que, se afirmar que está arrependida, pode voltar a ser aceita como se nada tivesse acontecido? E os que questionam algo ou querem saber além do que é pregado pela sua Igreja devem ser afastados do convívio comunitário? Curioso, não?

O único ponto forçado do filme, para mim, foi o antagonismo dos pais de Teis com a realidade Sara. Afinal, eles precisavam ser ateus e confrontar tanto a garota? Nem tanto o pai, mais a mãe do garoto. Achei os comentários dela normalmente um bocado violentos e preconceituosos com a religião de Sara – como quando comenta que eles são uma “seita”. Independente de concordar ou não com eles, mas achei um pouco pesada a atitude dela.

Achei curioso também o “movimento desesperado” de Sara para “equilibrar” a sua certeza na fé depois de ter sido tão profundamente abalada pela paixão por Teis. Me refiro ao momento em que ela decide ser missionária – incluindo seu curto discurso em uma convenção anual com centenas de pessoas. Era uma maneira dela de seguir em algo que, no fundo, ela não acreditava mais – mas que tentava seguir para não se separar de sua família.

Rosalinde Mynster deve ter herdado o seu talento… ela é filha dos atores Karen-Lise Mynster e Soren Spanning (ambos já haviam trabalhado com Niels Arden Oplev em suas séries).

Dizem que a religião Testemunhas de Jeová foi uma das mais perseguidas do século 20… que coisa louca, não? Afinal, independente de se acreditar ou não no que eles dizem e pregam, mas eles não são piores do que outras religiões para serem perseguidos.

CONCLUSÃO: Um filme polêmico sobre os bastidores da vida dos Testemunhas de Jeová. Bem equilibrado na narrativa, ele se baseia na história real de uma jovem de 17 anos que se viu dividida entre a vida na comunidade em que foi criada e a vontade de relacionar-se com um garoto que não era de sua congregação. Com atuações realmente inspiradas e uma direção cuidadosa, o filme vai crescendo com o tempo e se mostra naturalmente humano e cheio de coragem.

PALPITE PARA O OSCAR 2009: Dificilmente To Verdener chegará a figurar entre os cinco indicados para o prêmio. Primeiro, porque não parece estar sendo muito assistido pela crítica nos Estados Unidos. Depois, porque ele não vêm “fortificado” por prêmios em festivais internacionais, diferente de seus concorrentes Gomorra, Entre Les Murs, e outros. Também acho difícil o Oscar ter coragem de indicar e, principalmente, premiar um filme que “critica” uma religião – ainda que, na verdade, To Verdener não faz nenhuma crítica escancarada, apenas retrata uma realidade que se critica por si mesma. De qualquer forma, pessoalmente, acho que o filme deveria chegar a ser indicado… mas, na prática, acredito que isso não vai acontecer. Por gosto pessoal, quase prefiro ele que Gomorra – ainda que o filme italiano seja muito mais complexo, duro e melhor escrito que To Verdener.

ATUALIZAÇÃO (em 4/1/2009): Para quem leu esse texto antes e agora viu que eu baixei a nota dele, vou me justificar: depois que eu assisti a Milk e resolvi dar para ele a note 9,5, pensei que outros filmes comentados aqui antes estavam supervalorizados, como este To Verdener. Por isso resolvi dar uma nota que eu achei mais justa para ele e os demais filmes que haviam ganho uma nota bem elevada nos últimos tempos.