Welcome – Bem-Vindo

Depois de assistir a um filme ruim, nada melhor do que ter o privilégio de conferir uma produção simplesmente brilhante. Welcome, um dos mais contundentes libelos ao amor, à liberdade, à fraternidade e ao espírito humano da superação que eu assisti nos últimos tempos, é destes filmes de encher os olhos e elevar o espírito. Certeza também de emoção. Lindo, impactante e ao mesmo tempo capaz de provocar reflexão e crítica, este filme comprova, mais uma vez, a sensibilidade e a qualidade do cinema francês.

A HISTÓRIA: Escutamos a transmissão de uma partida esportiva em uma residência de Londres no dia 13 de fevereiro de 2008. Um mulher cozinha e o telefone toca. Mirko (Murat Subasi) atende e escuta a voz de um amigo que há muito tempo não encontra, Bilal (Firat Ayverdi). Ele está ligando da cidade de Calais, na França, e gostaria de falar com a irmã de Mirko, Mina (Derya Ayverdi), por quem está apaixonado. Como Mina está na escola, Bilal pede para o amigo avisar-lhe que ele tentará chegar à Londres de navio no máximo até o dia seguinte. O rapaz de 17 anos nem sonha todas as dificuldades que terá para tentar entrar ilegalmente no Reino Unido. No final das contas a sua melhor alternativa, ele acredita, será a de aprender a nadar com o professor de natação Simon (Vincent Lindon) e atravessar o Canal da Mancha por sua conta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Welcome): Impressionante como o talento de um diretor e de um quarteto de roteiristas pode transformar um assunto espinhoso e relativamente bastante debatido em um grande filme. Mais que isso, em uma produção que mais que tocar em temas de importância política e social, se converte em um manifesto ao amor, ao espírito humano da superação e da fraternidade.

Welcome é um filme que vai crescendo e se “complicando” pouco a pouco, como se deve. Inicialmente o espectador é apresentado a um rapaz simples que procura apenas falar com a garota de seus sonhos. Mas a realidade é muito mais complexa do que isso. Os roteiristas Philippe Lioret, Emmanuel Courcol e Olivier Adam, com a colaboração de Serge Frydman, vão desvelando gradativamente a história do protagonista. E logo, para dar ainda mais importância a esta história, ele dividirá a cena com outro personagem apaixonante e complexo.

Este é um filme em que todos os personagens são bem desenvolvidos e em que todos os atores conseguem belas interpretações, em um trabalho de entrega que apenas um grande diretor pode orquestrar. Mas, apesar disto, Welcome é uma produção que tem dois protagonistas: Bilal e Simon. O primeiro, vamos descobrir conforme ele se relaciona com o segundo, é um garoto de 17 anos do Curdistão que é considerado um craque do futebol em seu lugar de origem. Como outras pessoas de seu país, ele fugiu de seu território de origem por causa da guerra, para sobreviver, e também para conseguir dinheiro para ajudar sua família.

Mas sua vontade incansável de chegar até Londres tem uma razão muito mais específica: ele quer se casar com Mina, a irmã de um amigo que conheceu ainda no Curdistão. Ele demorou três meses, à pé, para sair do Iraque e chegar até Calais. Sua história fascina o professor de natação Simon que, por sua vez, também passa por um momento pessoal decisivo: ele está em vias de se separar oficialmente de sua mulher, Marion (Audrey Dana). O espectador é apresentado a estes fatos em pouco mais de meia hora de filme. Mas falemos um pouco sobre o que acontece antes.

Bilal, como dezenas de outros imigrantes ilegais na França, enfrenta o frio da noite para conseguir uma comida quente oferecida por voluntários perto do porto local. Não percebemos em um primeiro momento, mas Marion é uma das pessoas que faz esse trabalho voluntário. Em sua primeira noite na cidade, Bilal encontra a Zoran (Selim Akgul), um conhecido de Mossul, sua cidade natal. Sem demora sabemos, junto com o protagonista, que ele precisa pagar caro para um atravessador para deixar Calais e chegar ao Reino Unido.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Com uma narrativa envolvente e uma direção precisa, acompanhamos a aventura angustiante e frustrada dos amigos para tentar mudar de país ilegalmente. Bilal acaba se dando realmente mal, inclusive sendo julgado pela côrte local. Logo assistimos a policiais sendo preconceituosos e, o pior, um juiz. Este é o primeiro grande choque – e crítica – sobre a forma com que os governos europeus vêem os imigrantes ilegais. Eles não devem ter direito a nada, nem ao estudo. Simplesmente não são bem-vindos.

Mas estas seriam apenas algumas de várias manifestações de preconceito e de exclusão social pura e simples vivida por Bilal e pelos outros imigrantes retratados no filme. Ainda assim, e isso é um dos fatores que torna Welcome tão especial, estas manifestações repugnantes e ultrajantes não servem como plataforma para discursos dos personagens. Apenas em um momento, e especificamente para dar profundidade à história – na verdade para demonstrar o abismo que separa a Simon e Marion -, é que a professora e voluntária solta um discurso rápido contra os preconceituosos e os omissos. Mas é algo rápido, totalmente justificado e coerente com o contexto do filme.

Em seguida, entra em cena Simon. Bilal o conhece em uma piscina de Calais aonde ele dá aulas de natação para pessoas de diferentes idades. O jovem curdo não sabe nadar e procura Simon para que ele lhe ensine. Inicialmente, como ocorre com 99% dos franceses, Simon insiste em falar em seu idioma para responder a perguntas feitas em inglês. Mas logo a “resistência” ao estrangeiro cede para dar-lhe informações. Começa, naquele dia, uma aproximação comovente entre homens de idades e realidades muito diferentes.

Uma das grandes qualidades do roteiro de Welcome é que ele vai adentrando na complexidade e na história dos personagens de forma natural – algo que não é prática corrente em Hollywood, por exemplo. Assim, quando Bilal explica para Zoran o porquê de não ter aguentado o saco na cabeça, não sentimos aquilo como um discurso com caráter artificial ou colocado ali para “comover” simplesmente. Quando ele conta que os soldados turcos lhe capturaram em sua saída do Iraque, percebemos a gravidade da situação e nos sentimos contextualizados em sua história, mas sem o caráter pedante de tantos outros filmes “simplórios”. E isto ocorre muitas vezes em Welcome.

Ainda que os temas da perseguição contra os curdos, os conflitos envolvendo povos perseguidos e a crítica política ao tratamento dos imigrantes ilegais na Europa (e em outros países) joguem papéis importantes no filme, eles são apenas o pano de fundo desta produção. O núcleo central da narrativa passa por questões muito mais profundas envolvendo a capacidade humana da superação e a de vivenciar a empatia.

Foi um grande achado do diretor e roteirista Philippe Lioret e de seus colaboradores o paralelo entre as histórias de Simon e Bilal. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um dos pontos que mais me tocou na história foi a forma com que o professor de natação enxergou no jovem enamorado a sua própria chance de redenção. Depois de vivenciar a “derrota” de sua história de amor, Simon buscou ajudar de todas as formas o garoto lutador que não nasceu, como ele, em um país livre e democrático, onde uma pessoa é capaz de se desenvolver plenamente.

Linda e emocionante a relação que acaba se desenvolvendo entre os dois personagens. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Simon adota o rapaz como um filho e procura contribuir para que ele se realize de uma forma que ele não conseguiu. Se junta no complexo personagem do professor uma série de frustrações e a vontade de demonstrar, especialmente para Marion – e para ele próprio -, que sempre é possível dar uma guinada real em nossas vidas e atuar realmente para mudar a vida de pelo menos uma pessoa. Devemos somar a isso a admiração que Simon acaba sentindo por Bilal e, volto a dizer, a projeção que ele faz no rapaz para uma vida que ele não conseguiu realizar.

Bilal, por sua vez, é um garoto obstinado. Nenhum problema ou dificuldade parece ser capaz de fazê-lo esmorecer. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Seu espírito livre não acredita nas previsões da maioria de que é impossível atravessar o Canal da Mancha. Uma das cenas mais comoventes, para mim, é de suas primeiras braçadas na piscina quando Simon está lhe ministrando a primeira aula de natação. Naquele momento eu percebi a entrega do jovem Firat Ayverdi para o papel. E a obstinação do personagem em conseguir o seu objetivo se mantêm firme e vai emocionar o espectador muitas vezes ainda.

Não existe espaço para dúvidas na mente e no coração de Bilal. Algo muito diferente acontece com Simon. Esta diferença entre eles é interessante porque mostra como pessoas que passaram por situações-limite, como pode ser uma guerra ou uma perseguição política, são muito mais capazes de ter claro seus propósitos e conseguirem se superar. Bilal acaba inspirando Simon em um momento em que ele estava se sentindo em conflito. Como em qualquer encontro profundo, os dois personagens se modificam um pouco em sua interação.

Marion serve de termômetro da história. Especialmente na medida em que revela sua perplexidade frente às mudanças de atitude de Simon. Aqui, o filme faz uma interessante reflexão. (SPOILER – não leia este e o próximo parágrafo se você não assistiu ao filme). Afinal, até que ponto as pessoas estão realmente interessadas em mudar as suas vidas e/ou se entregarem para ajudar alguém necessitado? Simon era o omisso e Marion a corajosa, até o momento em que ele começa a se envolver de maneira muito mais radical que ela e atua, verdadeiramente, para ajudar uma pessoa.

Welcome segue mostrando manifestações de incompreensão e preconceito, a ponto de alguns inclusive insinuarem que o professor poderia estar “explorando” sexualmente o jovem curdo em troca de proteção e ajuda. E como este é um filme francês e não estadunidense – para nossa sorte -, não existe a preocupação em desfechos “felizes” ou irreais. De arrepiar o momento em que o título da produção se justifica – na imagem simbólica do tapete do vizinho preconceituoso que manifesta, ironicamente, a forma de “recepção” dos imigrantes ilegais no país. Assim como verdadeiro, legítimo e emocionante o desfecho da história. Um filme perfeito, sensível e imprescindível.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para um filme ser “perfeito”, para mim, ele deve ter todos os seus diversos elementos funcionando como um relógio, sem descompassos ou desperdícios. Para isso, é preciso um grande roteiro, uma direção perfeita, atuações convincentes, aspectos técnicos como direção de fotografia e trilha sonora condizentes com a história e sua narrativa. Tudo isso (e o restante) funcina com perfeição em Welcome. Destaco, da parte técnica, a trilha sonora maravilhosa de Nicola Piovani e Wojciech Kilar. Delicada, clássica e baseada essencialmente no piano, a trilha do compositor acaba sendo fundamental para a história, criando o clima adequado para cada sequência. Também gostei muito da direção de fotografia de Laurent Dailland.

Como comentei na crítica do filme, Welcome aborda um tema que sempre rende debate (e por mesmo é tão interessante): afinal, o que é mais importante, mudar a vida de uma pessoa ou influenciar a de 100? Esta questão filosófica, na verdade, não tem uma resposta certa ou uma errada. E isso eu descobri com o passar do tempo. Quando comecei a me questionar a respeito e a questionar também pessoas de quem eu gosto, achei que era muito mais importante atuar definitivamente mudando a vida de uma pessoa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como faz Simon em relação à Bilal no filme. Se o professor de natação não tivesse agido como agiu, a realidade de Bilal teria sido outra. Sempre achei que esta ação de auxílio decisivo era mais importante do que a de “influenciar” as pessoas. Mas na verdade acho que isso é apenas uma forma de atuar que compete a cada um. O importante mesmo é que busquemos ajudar no sentido de uma mudança social positiva, seja diretamente sobre a vida de um sujeito ou indiretamente.

Welcome estreou no Festival de Berlim em fevereiro de 2009. De lá para cá, o filme francês participou de pelo menos outros 12 festivais, incluindo o Karlovy Vary, o de Viena e de Dubai. No Brasil, ele estrou nos cinemas em julho do ano passado – depois foi lançado em DVD.

Em sua trajetória pelos festivais e por distintas premiações, Welcome foi conquistando alguns prêmios importantes. Até o momento, ele levou sete para casa – além de ter sido indicado a outros 10. O filme me chamou a atenção por ter se consagrado como o melhor do ano no Prêmio Lumière – um dos principais da França. O diretor Philippe Lioret ainda ganhou o prêmio da audiência no Festival Internacional de Cinema de Warsaw; e o filme levou o prêmio de melhor roteiro e um prêmio especial do júri juvenil no Festival Internacional de Cinema de Gijón. No Festival de Berlim, Welcome conseguiu dois prêmios “secundários” – o Label Europa Cinemas e o prêmio do júri ecumênimo na subcategoria Panorama. Além disso, é muito significativo o fato que a produção concorreu em 10 categorias do Prêmio César deste ano – mas, infelizmente, não ganhou em nenhuma.

Para os interessados em saber mais detalhes do filme, recomendo o site oficial da produção – em francês – que, entre outros “extras”, tem um making off bem interessante de Welcome, assim como a ficha completa da produção.

Os usuários do site IMDb deram uma nota boa para Welcome: 7,7. Mas os críticos foram mais contundentes na aprovação que deram para o filme. O site Rotten Tomatoes abriga 12 críticas positivas e apenas uma negativa para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 92%.

Entre as críticas positivas, destaco esta publicada pela revista Empire. O texto, que não é assinado, dá o veredicto de que Welcome é “realista no tom”, mas um pouco “melodramático” na essência. O texto afirma ainda que este é um filme “atraente”, especialmente por causa das atuações do elenco. A crítica Wendy Ide, do Times Online, escreveu aqui que, ainda que Welcome trate de um tema bastante explorado por outros diretores, sua história “traz um novo ângulo” da realidade. Ela define Welcome como uma produção de “compaixão e humanidade” e afirma que, enquanto ela não cai no clichê, se destaca pela interpretação dos dois protagonistas.

Como as críticas são bastante curtas, vou citar outras fontes. 😉 Xan Brooks, do The Guardian, classificou neste texto Welcome como um “conto sincero ambientado em uma Calais moderna”. Para o crítico, o que mantêm o filme sobre a superfície são as performances afiadas dos seus atores juntamente com um “pungente docu-retrato” da vida junto ao cais e aos estaleiros. Para finalizar, cito este texto de Allan Hunter do Daily Express. O crítico também destaca a capacidade envolvente do filme, o ótimo desempenho de seus intérpretes e um “ataque efetivo” contra a hostilidade da França a respeito dos imigrantes em suas cidades.

Não sei vocês, mas eu fiquei curiosa para saber um pouco mais sobre a realidade no Curdistão. Para os interessados, achei este texto da Wikipédia a respeito do país. Descobri, consultando este material, que o Curdistão é uma região de 500 mil quilômetros quadrados distribuída entre a Turquia, o Iraque, a Síria, a Armênia e o Azerbeijão. Segundo o texto, atualmente os curdos são a mais numerosa “etnia sem Estado no mundo” – eles são aproximadamente 26 milhões de pessoas. Mossul, a cidade originária do personagem de Bilal, é uma das maiores do Curdistão. Recomendo ainda este texto da Aventuras na História sobre os conflitos envolvendo os curdos – incluindo genocídios e uma luta por independência que parece não ter fim – e este outro, de autoria de Ana Isabel Mineiro, publicada no blog Alma de Viajante. Muito interessante, ambos. Recomendo.

Sobre a travessia do Canal da Mancha encontrei este texto bastante esclarecedor publicado no blog Viagens & Imagens. Descobri, através dele, que realmente o trecho mais curto para a travessia do Canal é feito através das cidades de Calais (na França) e Dover (no Reino Unido). A extensão que separa pelo mar estas duas cidades é a de 30 quilômetros. Segundo o mesmo texto, a primeira travessia à nado deste trecho foi feita em 1875.

Curioso que Welcome acabou virando um “acontecimento social” na França. Segundo esta matéria do Estadão, o filme de Philippe Lioret criou um debate tão grande em seu país de origem que acabou provocando revisões políticas. A história motivou um pronunciamento do Ministro da Imigração, Eric Besson, e uma resposta por escrito, publicada no jornal Le Monde, pelo cineasta. O Partido Socialista, por sua vez, redigiu um projeto de lei batizado de Welcome com o objetivo de derrubar o chamado “delito da solidariedade”. Este “delito” prevê que franceses que ajudarem e/ou abrigarem imigrantes ilegais sejam multados em 30 mil euros e presos por um período de até cinco anos. Curioso como o cinema pode, algumas vezes, ajudar no processo de mudanças sociais – ou, pelo menos, criar debates importantes.

CONCLUSÃO: Um filme essencialmente humanista sobre um rapaz obcecado por se encontrar com a garota da sua vida. Mas longe de ser uma história “feliz da Disney”, Welcome é um drama denso e realista que se debruça em questões políticas e sociais. Em seu caldeirão de referências entra em cena preconceitos étnicos, perseguições políticas e uma política de imigração cruel pelo lado político. Pelo lado “humanitário”, o filme explora questões como fraternidade, amizade, capacidade de superação e empatia. Uma história filmada com muito esmero e cuidado pelo diretor Philippe Lioret – um dos responsáveis também pelo roteiro – e com atuações deslumbrantes, perfeitas. Emocionante, crítico e inspirador ao mesmo tempo, é destas produções arrepiantes que lançam um novo olhar sobre uma questão um tanto “batida”. Vale a pena especialmente por seu caráter humanista e reflexivo.