Zimna Wojna – Cold War – Guerra Fria

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Um filme belíssimo, com uma fotografia incrível, muita música e uma história triste. Cold War mostra a beleza e a profundidade da fotografia preto e branco e valoriza a música como poucos filmes recentes. Mas a história em si não é exatamente inovadora ou surpreendente. Na verdade, tanta beleza contrasta com uma história de um amor impossível que é um bocado previsível. Mas o amantes não querem saber disso, e persistem. Uma história necessária sobre um tempo já ultrapassado – mas sobre o qual, alguns, parecem ter saudade.

A HISTÓRIA: Começa com a câmera focada em uma gaita. Em seguida, a câmera sobe até focar o rosto do homem que está tocando o instrumento. Ele começa a cantar. A canção é sobre uma frustração amorosa. Ao lado dele, um outro músico toca um violino e ajuda a fazer o dueto. Enquanto eles cantam, vemos o frio se plasmando no ar conforme cada palavra é pronunciada. Corta.

Em um furgão, o motorista e empresário Kaczmarek (Borys Szyc) pergunta para Irena (Agata Kulesza) se ela não se preocupa que a música que eles ouviram seja muito “monótona e primitiva”. Ela diz que não, e pergunta o porquê daquela indagação. Kaczmarek diz que de onde ele vem, todos os bêbados cantam daquele jeito. Irena e Wiktor (Tomasz Kot) não se importam com o que o acompanhante deles acha. A missão deles é registrar e resgatar a música típica e cada vez mais esquecida de seu país. A história começa na Polônia em 1949 e segue por diversos anos para adentrar nos bastidores da Guerra Fria.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Cold War): Sim, amigos e amigas do blog, muito tempo passou desde que eu estive por aqui pela última vez. Correria de final de ano, vocês podem imaginar. Primeiro, finaleira do trabalho. Depois, preparativos para o Natal. Mas agora, perto do final do ano, finalmente consigo voltar a escrever uma crítica aqui no blog.

Assisti à Cold War há várias semanas. Antes mesmo da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgar a lista dos nove filmes que avançaram na disputa do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2019 – falo mais sobre isso no final desse texto. Algo que impressiona nesse filme, em primeiríssimo lugar, é a beleza da produção. Esse parece ser o ano das direções de fotografia em preto e branco. Além de Cold War, temos a Roma, outro forte concorrente do Oscar 2019, que também tem uma fotografia em preto e branco.

As escolhas do diretor e roteirista Pawel Pawlikowski, que criou a história de Cold War e escreveu esse roteiro com a ajuda de Janusz Glowacki e Piotr Borkowski, em relação à condução da trama, ao menos em relação às imagens, são perfeitas. Os ângulos das câmeras, a dinâmica das filmagens e, principalmente, a direção de fotografia Lukasz Zal realmente impressionam. Esses são os pontos fortes da produção. Assim como o trabalho dos atores principais, que fazem uma entrega muito coerente com o que a história nos apresenta.

Mas afinal, que história nos conta Pawlikowski? Cold War tem pelo menos duas narrativas centrais. A primeira, envolve a questão que fica mais evidente logo que ocorre o primeiro encontro entre os protagonistas. O professor, compositor e músico Wiktor fica fascinado por Zula (Joanna Kulig) logo que a vê. A garota é muito mais jovem que ele, mas parece saber muito bem o tipo de interesse que ela desperta nos homens – e no seu novo objeto de desejo.

O romance entre o professor e a aluna não demora muito para acontecer. Nesse sentido, o filme lembra um pouco ao clássico Lolita. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Depois, a história entre eles se complica um pouco mais, especialmente quando ele foge do controle que eles sofrem no país conquistado pelos russos enquanto ela decide ficar. Muito mais tarde, eles conseguem se reencontrar e viver em paz e em liberdade por um período, mas a imaturidade de ambos – ou o orgulho, como quiserem – acaba colocando tudo a perder novamente.

Fora a história de amor entre o professor e a sua aluna, Cold War nos conta uma outra história importante. A manipulação que o regime comunista fazia da realidade para conquistar a sua “narrativa perfeita”. Assim, o projeto de resgate da arte folclórica feita com esmero e boas intenções pelos professores e especialistas Wiktor e Irena acaba sendo manipulado pelo burocrata interesseiro Kaczmarek.

Quando o “camarada” do governo pede que a Mazurka, o projeto cultural liderado por Wiktor e Irena “trabalhem” temas de interesse do regime comunista, como a reforma agrária, a paz mundial e os riscos para que ela aconteça e homenageie o líder do proletariado mundial (na época, Stalin), Irena afirma que estes temas não interessam às pessoas da comunidade rural e que a Mazurka tem como proposta resgatar o folclore legítimo. Mas isso não é prolema para Kaczmarek, que faz o grupo encarnar as músicas que o regime considera como convenientes.

Assim, durante a Guerra Fria, sabemos que os dois lado da disputa – tanto União Soviética/Rússia quanto Estados Unidos – manipulavam as informações e a realidade conforme era mais interessante para cada lado. Curioso que hoje, tanto tempo depois, alguns regimes “democráticos” e líderes de grandes países façam o mesmo – manipulam a verdade conforme o seu próprio interesse. E nem todos parece realmente se importarem com isso.

Nesse sentido, Cold War se revela um filme bastante interessante. Ele nos mostra os bastidores da disputa de poder da época e como o jogo de interesses acontecia. Essa é a parte mais interessante da história. O ir e vir do romance dos protagonistas traz um elemento pessoal e dramático para trama, mas não torna ela realmente mais interessante ou original. Na verdade, apesar dos romances sempre serem interessantes, no caso de Cold War esse elemento apenas enfraquece a produção.

Quem gosta de um sofrido e arrastado romance “clássico”, cheio de idas e vindas, certamente irá discordar de mim. Mas beleza. Como vocês bem sabem, o cinema é algo muito pessoal. Para mim, as pressões e as manipulações da guerra de versões daquela época acaba sendo mais interessante, assim como a parte artística do filme – seja na música, seja na fotografia -, do que o romance dramático e um bocado previsível dos protagonistas. Apesar do roteiro não caprichar tanto na trama entre eles, devo admitir que o trabalho dos atores é excelente.

Os protagonistas vivem uma relação conturbada, um amor que nem sempre pode ser considerado saudável. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Ela morre de ciúmes dele, enquanto ele não sabe lidar muito bem com o fato dos dois estarem juntos em uma Paris cheia de possibilidades. Parece que eles sofrem daquela síndrome clássica de quem “não consegue ser feliz”. Visivelmente eles se amam, mas acredito que ela não foge com ele da primeira vez porque ela não quer ser uma párea. Se for para ela escapar do regime totalitário, que seja por uma via que não pode ser contestada.

Depois que ela faz aquela besteira de voltar, após um breve período de felicidade com o amado em Paris, ele faz a besteira de ir atrás dela. O “destino” deles passa a ser selado a partir dali, já que ele é taxado como traidor – por ter abandonado o país e dado as costas para o regime comunista. Nessa parte, o filme parece fazer realmente sentido em suas duas histórias paralelas, já que partimos do coletivo para o individual e, nesse último aspecto, no romance impossível dos protagonistas, vemos de forma simbólica como a Guerra Fria contribuiu apenas para terminar com o amor. Seja de uma forma particular, seja em um contexto maior e coletivo.

Vendo sob este aspecto, este filme tem muito mais acertos do que erros. E ao fazer esta análise, eu vou aumentar a nota original que estava dando para esta produção – avaliação que estava abaixo de 9. Acho que o filme merece mais do que isso. Especialmente pelo seu começo, com aquela pegada de resgate do folclore original polonês. Um grande acerto de Pawlikowski ao fazer isso, sem dúvida. Um belo filme, recheado de boas intenções.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor Pawel Pawlikowski e o diretor de fotografia Lukasz Zal são responsáveis por algumas cenas e sequências que são uma verdadeira pintura e/ou preciosidade. Essas imagens valem a experiência do filme e a narrativa um tanto “arrastada” de alguns momentos da produção. Os dois também estão sempre valorizando a beleza da protagonista, a sempre ótima Joanna Kulig. Com o holofote adequado, a atriz consegue magnetizar qualquer espectador. Em Cold War ela faz mais um trabalho exemplar.

Sem o charme ou a beleza de sua parceira de cena, Tomasz Kot acaba dando conta do recado por causa de seu talento. Ele encarna muito bem o homem mais maduro que não consegue lidar bem com o furacão com o qual ele está se relacionando. Os dois tem química e fazem uma bela parceria. Algo fundamental em um filme que é bem centrado em seus personagens.

A música e a fotografia roubam a cena nessa produção. A segunda, como comentei em mais de uma ocasião, é obra de Lukasz Zal. A segunda, a música, leva a assinatura, ao menos nos arranjos, de Marcin Masecki. Ele conta com um timaço que é responsável pelo Departamento de Música. Vale citá-los: Anna Bilicka, Piotr Domagalski, Maurycy Idzikowski, Piotr Knop, Luis Nubiola, Maciej Pawlowski e Jerzy Rogiewicz.

Gostei muito da direção de Pawel Pawlikowski. Ele constrói o filme, ao menos no apelo visual, com esmero e perfeição. Apenas o seu roteiro, a meu ver, começa muito bem e depois cai em um certo “lugar-comum” com o romance cheio de auto-sabotagem dos protagonistas. Ainda assim, ele faz um belo trabalho.

O filme é focado muito no talento e no trabalho de dois atores: Joanna Kulig e Tomasz Kot. Eles fazem uma bela parceria, como comentei antes, e conseguem convencer aos espectadores com perfeição. Além deles, vale citar o belo trabalho de Borys Szyc como Kaczmarek, o empresário manipulador (e um bocado canalha por se aproveitar de Zula) do grupo folclórico; Agata Kulesza como a idealizadora do grupo, Irena, que acaba pulando fora quando vê o seu projeto ser manipulado para favorecer aos interesses do regime comunista; Cédric Kahn como Michel, o diretor que acaba se aproveitando também de Zula; e Jeanne Balibar como Juliette, a poetisa e escritora que engata um romance com Wiktor antes de Zula voltar à cena.

Entre os aspectos técnicos do filme, além dos elementos já comentados, vale destacar o belo trabalho de Jaroslaw Kaminski na edição; de Benoît Barouh, Marcel Slawinski e de Katarzyna Sobanska-Strzalkowska no design de produção; e de Ola Staszko nos figurinos.

Interessante como esta produção mostra as mudanças dos personagens e do contexto cultural e político da Guerra Fria entre o final dos anos 1940 e até os anos 1960. A falta de esperança que resume a reta final da produção pode ser encarada como uma certa crítica aos efeitos que aquela época provocaram nas pessoas e no mundo. De fazer pensar.

Cold War estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Até novembro, o filme participaria, ainda, de outros 36 festivais de cinema em diferentes partes do mundo. Nessa trajetória, o filme ganhou 21 prêmios e foi indicado a outros 54. Números impressionantes. E que revelam a força desta produção. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Diretor para Pawel Pawlikowski no Festival de Cinema de Cannes; para o de Melhor Editor Europeu, Melhor Atriz Europeia para Joanna Kulig, Melhor Diretor Europeu, Melhor Roteirista Europeu e Melhor Filme Europeu conferidos no European Film Awards; o de Melhor Filme no FIPRESCI Prize do Festival de Cinema de Estocolmo; e o de Melhor Filme em Língua Estrangeira segundo a National Board of Review.

Agora, vale comentar uma ou duas curiosidades sobre Cold War. No final da produção, o diretor e roteirista Pawel Pawlikowski dedica o filme aos pais dele. Segundo as notas de produção do filme, o relacionamento “turbulento” dos protagonistas do filme foi inspirado na história real dos pais do diretor. Os pais de Pawlikowski se separaram e voltaram a se unir várias vezes, inclusive mudando de países em diversas ocasiões entre essas idas e vindas no romance. Curioso.

Cold War foi o primeiro filme falado em polonês a ser exibido na competição oficial do Festival de Cinema de Cannes desde o ano de 1990. Quando foi exibido no festival, o filme foi ovacionado por 18 minutos.

Dois dos personagens centras da trama foram inspirados em outras pessoas reais. Mais especificamente nos criadores, na vida real, do mundialmente famoso grupo de dança folclórica polonesa Zespól Piesni i Tanca Mazowsze. Os criadores desse grupo, Tadeusz Sygietynski e Mira Ziminska se casaram e, depois da Segunda Guerra Mundial, percorreram o interior da Polônia para buscar jovens talentos no canto e na dança. No filme, contudo, os criadores do grupo folclórico não eram casados – apenas eram parceiros de trabalho.

Depois de ter pensado nos protagonistas de Cold War, Pawlikowski buscou uma maneira de uni-los. E foi aí que surgiu a ideia dele “homenagear”, mesmo que livremente, ao grupo de dança folclórica polonês. A música, assim, passou a ser uma boa “desculpa” para unir aos personagens. Curioso que a história “nasceu” desta forma. Para mim, a homenagem ao grupo folclórico é o grande acerto desta produção – e o seu diferencial.

Pawlikowski e a atriz Joanna Kulig tiveram a atriz Lauren Bacall em mente para construírem a personagem Zula – especialmente na apresentação de seus diálogos mais cortantes e sarcásticos.

Procurei saber um pouco mais sobre Pawel Pawlikowski. O seu nome não me parecia estranho. Buscando sobre ele aqui no blog, descobri que eu já assisti a outros de seus filmes: Ida (comentado por aqui). Esse outro filme, também com uma fotografia maravilhosa em preto e branco, achei mais original e porreta. Ainda que ela não foi a protagonista de Ida, mas Joanna Kulig também está na outra produção – que, vejam que coincidência, foi também a última que rendeu uma crítica no blog em um determinado ano, no caso, em 2014. Curiosamente, Cold War é o primeiro trabalho de Pawlikowski na direção desde Ida. Ou seja, estou acompanhando ele bem desde então. 😉

Pawlikowski, é importante dizer, não é um diretor que lança muitos filmes. Desde 1987, ele dirigiu um episódio de uma série de documentários para a TV, quatro documentários feitos para a TV, um curta documentário para a TV e seis filmes longa-metragem para os cinemas – sendo Cold War o de número 6. A boa nova é que ele já está em pré-produção de seu novo filme, Limonov. Acho que o nome dele merece ser acompanhado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 107 textos positivos e nove textos negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 93% e uma nota média de 8,2. Especialmente o nível das notas dos dois sites chama a atenção por estarem acima da média. O site Metacritic apresenta um “metascore” de 91 para o filme (fruto de 32 críticas positivas), assim como o selo “Metacritic Must-see” (ou seja, a recomendação do site para que o filme seja visto). Ou seja, Cold War caiu no gosto dos críticos e do público.

De acordo com o site Box Office Mojo, Cold War teve um desempenho pífio nas bilheterias dos Estados Unidos: cerca de US$ 99 mil. Ou seja, até o momento, esse foi um filme essencialmente de festivais. Veremos se ele terá poder de “barganha” para chegar forte ao Oscar – para ganhar, me refiro, porque ele deve ser indicado entre os cinco finalistas.

CONCLUSÃO: Um filme sobre arte, amor e as limitações para estes dois elementos quando a política e os jogos de poder entram em cena. A maior qualidade de Cold War é resgatar a cultura do interior, das pessoas comuns e a sua poesia propositalmente relegada ao esquecimento. Um belo filme, pelo cuidado que o diretor tem com a fotografia, o trabalho dos atores e, em especial, o registro de pessoas comuns da Polônia.

O único porém da produção é que ela realmente não surpreende na narrativa, já que trata-se de uma história de amor impossível tanto por conta da perseguição política que alguns sofreram na Polônia comunista quanto pela falta de sintonia entre os personagens centrais. Como tantas histórias de amor, eles não souberam lidar com os seus próprios sentimentos e expectativas, e quando isso surge no filme, a história fica um tanto “comum”. Apesar disso, é um belo filme, sem dúvidas. Especialmente por seu visual e pelo resgate cultural que faz da cultura polonesa.

PALPITES PARA O OSCAR 2019: No dia 17 de dezembro a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood divulgou uma lista mais curta de filmes “finalistas” em nove categorias do Oscar 2019. Uma das categorias contempladas com a “lista curta” de indicados foi a de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Cold War está entre os nove filmes que avançaram na disputa nesta categoria.

Junto com Cold War estão Birds of Passage; The Guilty; Never Look Away; Shoplifters; Ayka; Capernaum; Roma e Burning. Destes, assisti apenas a The Guilty (comentado por aqui) e a Burning (com crítica neste link). Me parece que Roma, Capernaum e Never Look Away são fortes concorrentes. Assim, em teoria, sobrariam apenas duas vagas para os demais filmes. Uma destas vagas deverá ser de Cold War. Mais que nada, pela beleza da produção – nem tanto pela força da história.

Para mim, não seria uma surpresa Cold War chegar até os cinco finalistas ao prêmio nesta categoria. Na verdade, acredito que ele tem méritos para chegar lá. Agora, ele levar a estatueta… entre os filmes que eu assisti, continuo preferindo a The Guilty. O próximo da lista, que vou assistir – já dou spoiler para vocês – será Roma que, para muitos, é o favoritíssimo nessa categoria no Oscar 2019. Veremos. Acho que Cold War chega entre os finalistas, mas dificilmente levará o prêmio. Ainda que a Academia ama um filme sobre guerra, não é mesmo? Veremos…

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