My Blueberry Nights – Um Beijo Roubado


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Grandes diretores espalhados pelo mundo já foram tentados a fazer carreira em Hollywood. Alguns se deram muito bem – o maior exemplo acredito ainda ser Hitchcock -, outros nem tanto (digam o que disserem, mas Walter Salles não fez a melhor estréia possível com seu Dark Water, ainda que eu não tenha achado o filme de todo ruim). Desta vez quem teve esta oportunidade foi o diretor chinês Kar Wai Wong, muito venerado por filmes como Fa Yeung Nin Wa (In the Mood for Love ou Amor à Flor da Pele), Chung Hing Sam Iam (Chungking Express ou Amores Expressos) e 2046 (para citar alguns). A estréia dele em Hollywood se chama My Blueberry Nights e conta com atuações de Norah Jones, Jude Law, David Strathairn, Natalie Portman e Rachel Weisz. O bacana do filme é que ele preserva algumas das principais características do diretor, ainda que se trata de um filme com toques hollywoodianos. No final, assistimos a várias histórias de amor, de rompimentos, de reencontros, de descobertas e de sobrevivência (ou morte) contadas com a digital de Kar Wai Wong, com vários planos se sobreexposição de planos diretos, de cores, de “sentidos”, em uma interessante dedicação para contar histórias nos detalhes, com paciência e delicadeza. É um romance diferente do usual de Hollywood, o que lhe faz ganhar pontos. Mas, ao mesmo tempo, sofre de algunas pequenas ciladas que não deixam que seja um filme arrebatador.

A HISTÓRIA: Jeremy (Jude Law) é dono de um bar em Nova York. Ele coleciona chaves de clientes que partem para longe ou que tem os seus corações partidos por desilusões amorosas. Neste último exemplo se encaixa Elizabeth (Norah Jones), uma garota que aparece em uma noite acreditando que seu namorado tem outra mulher. Conversando com Jeremy, ela logo descobre que está certa e, ao caminhar até a casa dele, o vê com outra. Elizabeth volta para o bar de Jeremy e passa a noite ali, comendo uma “torta rejeitada” por todos os clientes, bebendo e dormindo no balcão. Depois desta noite ela sai pela porta, como tantas pessoas na vida de Jeremy, sem promessas de volta.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir narra momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a My Blueberry Nights): O excesso de cores, os planos longos e próximos dos atores, as quebras de narrativas “acidentais”, tudo isso faz parte do tipo de cinema feito por Kar Wai Wong. Muitos já contaram histórias de desilusões amorosas, de recomeços e tudo o mais, mas poucos são os que contam essas histórias de maneira diferente. Pois o diretor chinês faz isso em My Blueberry Nights.

Eu gostei do filme. Ele abriu a edição 60 do Festival de Cannes, em 2007. Pelo que eu vi, a maioria dos críticos torceu o nariz para ele. My Blueberry Nights também concorreu ao principal prêmio do festival, mas não ganhou (quem levou a estatueta foi o já comentado neste blog 4 Luni, 3 Saptamani si 2 Zile). Realmente ele não tinha forças para ganhar, ainda que se trate de um filme competente. Mais que tudo, ele tem um grande apreço pelas imagens e conta, sem dúvida, com um dos mais bonitos (e desenhados) beijos do cinema.

O interessante do filme é a escolha da personagem principal. Ao invés de simplesmente encher a cara em noites seguidas ou de ficar em casa chorando, Elizabeth resolve esquecer o que considerava o “amor de sua vida” fazendo uma viagem pelo interior dos Estados Unidos. Ela parte como se não tivesse mais vida própria e passa pelas cidades buscando empregos simples, especialmente em restaurantes e bares. No caminho, vai encontrando outras histórias de amor e de perda e, assim, acaba entendendo a sua própria história. Vê o quadro em perspectiva. Seu exemplo deveria ser seguido por muita gente que sempre acredita que seus problemas são os maiores do mundo.

O bacana da história é justamente isso. A vontade da personagem principal em suprir a perda e enfrentar a dor conhecendo pessoas e suas histórias. Desta maneira ela encontra a Arnie (David Strathairn), um policial que todas as noites enche a cara para esquecer a ex-mulher Sue Lynne (Rachel Weisz), que o abandonou para viver outros amores na cidade de Memphis, no Tennessee. Elizabeth convive com Arnie em uma mescla de identificação, pena e medo. A história dele parece ter sido tragicamente desenhada. Rachel Weisz está belíssima e rouba cada minuto em que está em cena. David Strathairn mostra porque é um grande ator e imprime o tom exato de sua dor e falta de perspectiva em cada fala.

Depois que a história de Arnie e Sue Lynne se resolve, Elizabeth viaja novamente. Ela não fica estática no mesmo emprego e no mesmo lugar, como faz Jeremy. Ela ainda precisa viajar e descobrir outras verdades por aí. Assim ela começa a trabalhar em um cassino, onde conhece a Leslie (Natalie Portman), uma elegante e aparentemente rica mulher que vive entre as mesas de poker. Depois de perder todo o dinheiro que tinha, Leslie faz uma proposta para Elizabeth: ela lhe deixa os pouco mais de US$ 2 mil que tem economizados para comprar um carro para que Leslie volte às mesas de poker e, se ela perder, dá a Elizabeth o seu carrão conversível. Depois de perder, Leslie “dá” o carro para Elizabeth, mas pede uma carona até Las Vegas, onde ela irá encontrar um homem que pode lhe dar dinheiro e propiciar sua volta às mesas de jogos.

A verdade é que tanto Raquel Weisz quanto Natalie Portman são as beldades da história. Em uma visível metáfora em relação à torta de “Blueberry”, Norah Jones parece um “patinho feio”, um pedaço de torta sempre deixado pelos clientes do bar de Jeremy. Ela realmente não tem nada a ver com a beleza das personagens das outras duas atrizes. Mas, mais que isso, me incomodou um pouco a sua falta de “jogo de cintura” como atriz. Claro, ela é uma cantora, não uma atriz profissional. E, por mais que faça bem o seu papel, ela parece sempre estar um ou mais níveis abaixo das atrizes profissionais.

Mas voltando para a história: o bacana da trajetória de Elizabeth é que ela faz tudo ao contrário. Pelo menos do que é o padrão atualmente estabelecido. Ela não fica chorando ou enchendo a cara, como eu já havia dito. Ao invés disso, ela viaja e experimenta recomeçar sempre do zero no local em que vai morar. Enquanto isso, aproveita para aprender com os exemplos ao seu redor. Observa. Sente os cheiros, os sabores. Trabalha muito para não lembrar do ex que lhe traiu. E, além e mais que tudo, escreve cartas para Jeremy, lhe narrando detalhes e descobertas desta sua “road trip”. Ele, claro, vai se apaixonando por ela a cada carta, esperando seu retorno. Fica louco, tenta encontrá-la. Esta é, por tudo isso, uma grande história de amor à moda antiga, quando o interesse pelas pessoas crescia pelo que elas escreviam, por sua sinceridade em narrar o que pensavam e sentiam.

Tecnicamente falando o filme é bem feito, com escolhas muito marcadas – e já comentadas anteriormente. A busca constante do diretor pela intimidade, pelos detalhes normalmente esquecidos das situações, é muito bacana. Esse clima intimista é uma das suas marcas registradas. Gostei de ver isso em uma produção hollywoodiana. Os atores também estão bem, ainda que quem roube a cena seja realmente Rachel Weisz, David Strathairn e Natalie Portman (ainda que está última me faça lembrar demais a sua Alice em Closer).

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: My Blueberry Nights custou aproximadamente US$ 10 milhões. Ele participou dos festivais de Cannes, Hamburgo, Valladolid (Espanha), Munique e Thessaloniki (na Grécia) em 2007. Não ganhou nenhum prêmio. Depois de estreiar no circuito comercial com poucas cópias no Canadá e na Finlândia, ele estreou no final de novembro de 2007 na França. Nos Estados Unidos ele só estréia, também com número limitado de cópias, em fevereiro deste ano. Me parece que é um filme que será um bocado “alternativo” desde o começo, com poucas cópias circulando e pouca divulgação de mídia. Pelo jeito já nasce “cult”.

O filme realmente foi todo filmado nos Estados Unidos. Entre as cidades escolhidas pelo diretor estão Caliente, Ely, Las Vegas e McGill, todas no Estado de Nevada; Los Angeles, na California; Memphis, no Tennessee; e Nova York.

No site IMDb o filme conseguiu a nota 7,3 de seus usuários, enquanto no Rotten Tomatoes ele registra 7 críticas positivas e 4 negativas – realmente poucos críticos parecem ter visto este filme ou, pelo menos, escrito sobre ele.

O diretor Kar Wai Wong também escreveu o roteiro do filme – com a ajuda de Lawrence Block. A idéia original é do próprio Kar Wai Wong.

Ainda que eu tenha gostado do filme e tudo, ele me parece “forçado” em dois aspectos: pela personagem de Elizabeth (ou seria a interpretação de Norah Jones?), que me parece sempre meio “improvável”; assim como a relação dela com Jeremy que, apesar de linda, me parece também um pouco surreal. Afinal, nada até a primeira carta parece fazer com que os dois mantenham contato. E ainda assim essa história acontece. Também achei que a interpretação de Natalie Portman lembrou demais a sua personagem de Closer… isso foi algo que me incomodou um pouco. No mais, o filme realmente é muito bacana. Uma história de amor um pouco fora dos padrões – o que eu gosto de ver.

Como todos já devem saber, Elizabeth foi a estréia da cantora Norah Jones no cinema. Para a interpretação dela eu daria um 7 ou 8.

Algo interessante da história, para mim, é a marcação de tempo e de lugar meio ao estilo de um “roteiro”. Também gostei que os cartazes do filme seguem o estilo do mesmo – escolhi o menos interessante para publicar aqui porque o outro, do beijo, tira a graça da cena para ela ser vista durante a narração da história.

Este filme é uma co-produção dos países de Hong Kong, China e França.

CONCLUSÃO: Um interessante filme sobre amores, desilusões, perdas e recomeços. Marca a estréia da cantora Norah Jones como atriz e do diretor chinês Kar Wai Wong em Hollywood. Vale a pena pelo cuidado técnico do diretor e por sua forma característica de narrar uma história. Um filme bem cuidado e interessante nos detalhes.

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7 comentários em “My Blueberry Nights – Um Beijo Roubado

  1. E lindo e norah e perfeita simples sem muitos atrativos mas ela como a torta. Esperei cinco anos para assistir, mas a foto do beijo ja estava nos meus quadros dos favoritos.

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    1. Olá Marcia!

      Tudo certo?

      Muito bacana o filme, não é mesmo? Também gostei muito. Como você disseste, ele é lindo. Com imagens verdadeiramente perfeitas. E Norah está muito bem – grata surpresa.

      Interessante como algumas vezes a gente deixa um filme na lista para assistir, admira o cartaz, o elenco, etc., mas acabamos demorando para concretizar o nosso desejo, não é mesmo? Acontece comigo também. Tenho alguns filmes de vários anos atrás em uma lista que parece cada vez mais difícil de concretizar… mas não desisto. 🙂

      Obrigada pela tua visita e pelo teu comentário. E volte por aqui mais vezes, inclusive para falar de outros filmes que tenhas gostado.

      Abraços e inté!

      Curtir

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