Theeb – O Lobo do Deserto

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O que uma pessoa precisa fazer para sobreviver, a tradição e os costumes versus a modernidade e os conflitos. Tudo isso faz parte da história de Theeb, mais um filme cotado para a categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2016. O contexto da história é muito diferente da nossa realidade mas, ainda assim, não é difícil observar os sentimentos e motivações dos personagens. Um filme interessante, ainda que simples demais para uma disputa como o Oscar. Produção dura, Theeb revela aspectos terríveis da raça humana e os efeitos devastadores e não muito óbvios do progresso em algumas partes do mundo.

A HISTÓRIA: Theeb (Jacir Eid Al-Hwietat) observa o símbolo da famílias inscrito em uma pedra que simboliza o local em que seus parentes estão enterrados. Em seguida, Hussein (Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen) chama Theeb para ajudá-lo a dar água para os camelos. O irmão mais velho do jovem lhe ensina não apenas a como retirar água do poço, mas também como Theeb deve fazer para atirar com um rifle.

Depois os dois brincam um pouco antes de voltar para o grupo no acampamento. À noite, enquanto os homens jogam, Hussein percebe a chegada de dois homens. Eles pedem para que alguém da família, conhecida por orientar viajantes, lhes oriente em uma viagem. Hussein aceita o desafio sem saber que esta decisão mudará a história dele e do irmão.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Theeb): O primeiro mérito deste filme é nos apresentar uma cultura muito diferente da nossa e uma história original. Ainda que, para o meu gosto como espectadora, faltou o filme nos orientar um pouco melhor sobre o local e a época desta história. Vou falar do que eu compreendi da produção sem ter essas informações e depois vou situar vocês, meus caros leitores, sobre o tempo e a época em que se passa o filme.

Além de apresentar uma realidade diferente, achei interessante como esse filme tem uma narrativa simples e bons atores. Ainda assim, pela história propriamente dita e por sua dinâmica, acho que ela poderia ser mais direta e curta. Falarei disso várias vezes neste post. Interessante o sentido de honradez e de hospitalidade do povo retratado. E como pede uma história que tem uma criança como protagonista, a curiosidade e a observação são elementos constantes deste filme com direção e roteiro de Naji Abu Nowar – ele contou com a ajuda de Bessel Ghandour para escrever o roteiro.

Para começar, acompanhamos ao protagonista Theeb em fase de aprender os ensinamentos básicos para viver naquela realidade agreste de desertos e busca constante por água. Ele faz parte de uma família conhecida por guiar forasteiros para diferentes partes do país. Ou seja, Theeb descende de uma família de sobreviventes, capazes de enfrentar bandidos e de percorrer longas distâncias por trilhas que eles e alguns poucos conhecem. A introdução rápida de Theeb e do irmão Hussein logo dá espaço para a chegada de dois estranhos.

Neste momento, compreendemos um pouco melhor as frases iniciais da produção. Faz parte da cultura daquele povo nunca negar abrigo para um forasteiro. A hospitalidade é uma parte fundamental daquela sociedade. Quando os estranhos chegam, Hussein corre para, junto com os demais, dar a melhor hospitalidade possível. Algo importante e interessante daquela cultura – quem dera que todos tivessem esse respeito com quem chega de fora. Só que esta hospitalidade pode ser aproveitada por quem não tem uma boa índole para fazer o mal – talvez por isso, com o tempo, esta palavra tenha perdido a sua importância.

Além de estar centrado nos costumes daquele povo, o filme passa um bom tempo em movimento. Na verdade, ele se divide claramente entre movimento e “paralisia”. Contratado pelo inglês Edward (Jack Fox) e por seu empregado e tradutor (Hassan Mutlag Al-Maraiyeh), Hussein guia os dois para um poço em que eles estariam sendo esperados. Curioso e fascinado pelo forasteiro inglês, Theeb dá um jeito de segui-los. Depois, não há mais tempo do garoto voltar para casa – Hussein queria isso, mas o inglês não aceita. Ele tem pressa.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Como dava para esperar, quando eles chegam no local do encontro não há ninguém lhes esperando. A partir daí, o filme vira pura crueldade. Os forasteiros são mortos primeiro. Hussein e Theeb conseguem se esconder, mas como os assaltantes querem levar tudo, inclusive os camelos, o irmão mais velho resiste. Ele sabe que eles terão poucas chances de sobreviver sem os animais. Com a morte de Hussein, Theeb tem que esperar por uma salvação.

A ironia do filme é que a salvação que chega para Theeb é o próprio algoz do irmão. O que ele deve fazer? Por instinto de sobrevivência ele ajuda o criminoso mas, quando tem uma oportunidade, se livra dele. A desculpa do assaltante é que o progresso, plasmado em forma da estrada de ferro, lhe tirou o emprego. Por isso ele mata quem aparecer pela frente para roubar e, assim, sobreviver.

A vilania sempre existiu e sempre vai existir. Assim como a honradez. Mas o que separa uns de outros? Francamente eu não acho que a vingança seja a solução. Muito menos o “olho por olho, dente por dente”. A violência só leva a mais violência e essa história nunca terá fim se este for o caminho escolhido. Acredito que a nossa civilização já avançou depois de diversos séculos e décadas, mas ainda há muita gente que precisa aprender que é preciso buscar alternativas e não o crime ou a violência para que alguns consigam sobreviver.

A vida é feita de escolhas, e eu sempre vou achar que é possível escolher um caminho que não signifique a subjugação de outra pessoa. Verdade que o progresso sempre tem duas faces e que é possível encontrar um lado prejudicado a cada avanço. Mas precisamos encontrar, como sociedade, forma de compensar perdas e de dar oportunidades. Todas as pessoas devem ter condições não apenas de sobreviver, mas de viver. E para isso elas não deveriam matar, roubar ou praticar outros crimes. Acredito que é possível.

Depois desta “viajada” na história, devo comentar que achei a direção de Naji Abu Nowar muito cuidadosa e, na maior parte das vezes, interessante. O diretor busca alguns ângulos diferenciados e sempre focar os detalhes da história. Com isso, o espectador se sente envolvido pela narrativa e, principalmente, pela ótica de Theeb. Neste sentido, o filme funciona. Só achei a produção um pouco longa demais, com um roteiro um bocado previsível e sem novidades, apesar de ser uma história original. Vale ser visto, mas não achei tão marcante quanto outras produções.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Este filme tem algumas qualidades técnicas bem importantes. Para começar, a ótima direção de fotografia de Wolfgang Thaler. Depois, a trilha sonora pontual e bem expressiva de Jerry Lane. A música é um elemento importante do filme já que ele tem muitos silêncios e, em diversos momentos, poucos diálogos. Neste sentido, o trabalho de Lane ajuda a dar dinâmica para a produção.

Pensando um pouco mais sobre esta produção, me ocorreu agora um questionamento. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se o protagonista tivesse deixado o algoz do irmão morrer naturalmente, se ele não o tivesse ajudado, teria sido melhor do que a solução final encontrada por ele? No fim das contas o homem não morreria da mesma forma? Francamente eu acho que há uma diferença entre deixar alguém morrer e dar um tiro nesta pessoa. Na primeira hipótese o garoto teria buscado a própria sobrevivência, fugindo, e não teria sido diretamente responsável pela morte do homem. Mas no segundo caso ele teve responsabilidade direta. Francamente eu teria optado pela primeira solução. O filme sugere que o garoto não conseguiu fugir com o camelo sozinho mas, curiosamente, ele consegue fazer isso após atirar no homem. Dá para entender, mas achei estranho.

Uma justificativa para o que eu acabo de comentar é que Theeb, que sempre estava observando a tudo e a todos, aprendeu a andar com o camelo na última “viagem” que ele fez antes do ato derradeiro. Verdade que estamos sempre aprendendo e que ele poderia ter aprendido a andar com o camelo naquele momento. Mas acho difícil de acreditar nisso – afinal, ele tinha visto tantas vezes antes os irmãos e familiares fazendo isso, por que não aprendeu antes?

Theeb tem um estilo bem realista, mostrando os detalhes da “vida como ela é” daquela sociedade. Por isso mesmo me incomodou um pouco essa história do camelo.

Agora sim, vamos falar um pouco do contexto desta história. Depois de assistir ao filme é que soube que ele é ambientado na província otomana de Hijaz durante a Primeira Guerra Mundial. Pesquisando um pouco mais a respeito dos otomanos é que fiquei sabendo que o Império Otomano chegou ao fim justamente após essa guerra, derrotados pelos ingleses. Aqui há um bom resumo sobre a derrocada dos otomanos.

Sem dúvida alguma o grande mérito deste filme, além de mostrar um momento histórico importante e pouco retratado, é a interpretação do jovem Jacir Eid Al-Hwietat. Ele carrega a história nas costas. Convence e comove com os seus olhares e os demais detalhes de sua interpretação. Um grande achado do diretor, não há dúvida.

Este é apenas o segundo trabalho de Naji Abu Nowar na direção e o seu primeiro longa. Antes de Theeb ele dirigiu a Death of a Boxer, um curta de 2009. Acho que vale seguir acompanhando a trajetória dele.

Theeb foi lançado em setembro de 2014 no Festival de Cinema de Veneza. Depois, o filme participou, ainda, de outros 26 festivais mundo afora. Nesta trajetória ele conquistou nove prêmios e foi indicado a outros 11. Entre os prêmios que recebeu, destaque para os de Melhor Narrativa de Filme e Melhor Filme do Mundo Árabe no Festival de Cinema de Abu Dhabi; o de Melhor Filme de um Novo Diretor no Festival Internacional de Cinema de Beijing; e o de Melhor Diretor no Venice Horizons Award do Festival de Cinema de Veneza.

Para quem gosta de saber aonde as produções são filmadas, Theeb foi totalmente rodado na Jordânia.

Agora, uma curiosidade sobre o filme: o ator que interpreta a Theeb é da mesma tribo de Awda abu Tayeh, uma das lideranças e considerado um herói da revolta árabe contra os otomanos. Awda morava perto de ferrovia Hejaz, que foi invadida pelos turcos perto dos mesmo locais mostrados no filme em 1916.

Theeb é uma palavra árabe que significa “lobo”. Essa expressão representa, entre os balduínos, a masculinidade – ou seja, tudo o que um homem deveria representar em qualidades.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção. Uma avaliação muito boa levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 43 textos positivos e dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,5. Eis uma rara situação de coincidência entre a avaliação de público e crítica.

Pensando um pouco mais sobre o contexto deste filme, especialmente ao saber, depois de assisti-lo, que ele se passa durante a Primeira Guerra Mundial, penso que Theeb vem em boa hora. Quando os conflitos no Oriente Médio parecem não ter fim, vale a pena ver mais um pouco sobre a história desta longa trajetória de conflitos e disputas. E volto a dizer: violência e vingança sempre levam a mais do mesmo. Os conflitos não terão fim se as pessoas não quiserem buscar outra solução para velhas trajetórias de destruição. Infelizmente ainda hoje tantas crianças coo Theeb aprendem a matar e fazem isso sem ao menos entender o porquê.

Este filme é uma coprodução entre Emirados Árabes Unidos, Catar, Jordânia e Reino Unido.

CONCLUSÃO: “O homem é o lobo do homem”, escreveu o filósofo Thomas Hobbes. Essa foi a primeira ideia que veio na minha cabeça após assistir a Theeb. Segundo Hobbes, todos os homens nascem iguais, mas se não houver um contrato para equilibrar os diferentes interesses, a tendência é que estes mesmos homens lutem e matem em nome da sobrevivência ou de possuir o que lhes interessa.

Neste sentido, Theeb mostra a essência destas ideias, além de revelar o efeito nocivo do progresso que uma ferrovia trouxe para uma região. Sempre alguém ganha e alguém perde. Mas é especialmente duro quando isso afeta a uma criança – afinal, ela simboliza a esperança de um futuro melhor. Filme com uma narrativa simples e com uma história que nos apresenta uma realidade bem diferente da nossa. Interessante, mas nada que realmente impressione. Poderia, tranquilamente, ser um curta.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Este é terceiro filme dos nove que avançaram na disputa na categoria de Melhor Filme em Língua Estrangeira do próximo Oscar que eu assisti. Entre os três que assisti (os anteriores podem ser conferidos neste link e neste outro), sem dúvidas, este é o mais simples. Francamente, é o que eu menos gostei. Tudo bem que a história faz refletir e que é bem contada, mas eu acho que o roteiro poderia ter rendido um curta e não um longa. Achei a narrativa um pouco arrastada demais. Ainda considero Mustang o favorito, pelo menos entre os três. Logo mais saberemos quem avança e quem fica pelo caminho. Mas não vejo muitas chances para este filme.

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Im Labyrinth des Schweigens – Labyrinth of Lies – Labirinto de Mentiras

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A Alemanha não tem medo de olhar para o próprio passado e seus erros. Mas nem sempre isso foi assim. Im Labyrinth des Schweigens nos conta a história de pessoas e fatos que ajudaram a mudar este cenário. Um filme importante e que ajuda, ao lado de outros mais contundentes, a contar os fatos que aconteceram após o fim da Segunda Guerra Mundial. Mesmo bem conduzido e com bons atores, é um filme bem tradicional e que não apresenta inovações – lembrando sempre que elas não são fundamentais, mas bem-vindas. Nesta corrida para o Oscar 2016 é uma produção que vale ser vista, mas que não deve ter muitas chances de ganhar a estatueta.

A HISTÓRIA: Frankfurt, 1958. O sinal de uma escola bate para o intervalo e as crianças correm para brincar de bola e de elástico. Elas cantam em homenagem ao país em que nasceram e vivem. Três professores falam sobre os jovens indisciplinados e problemáticos, enquanto Simon Kirsch (Johannes Krisch) caminha do lado de fora. Um dos professores se oferece para acender o cigarro dele. Quando ele aceita, recebe um choque.

Na Promotoria Geral de Frankfurt, Johann Radmann (Alexander Fehling) ensaia no banheiro para o momento em que pegar casos maiores – novato, ele está cuidando apenas de delitos de trânsito. Em breve os caminhos de Kirsch e de Radmann irão se cruzar e mudar não apenas o destino do jovem promotor, mas a ideia que a Alemanha faz de si mesma.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Im Labyrinth des Schweigens): Volta e meia nos encontramos com um filme que trata sobre os bastidores da Segunda Guerra Mundial pela ótica dos alemães. Além das produções daquele país, normalmente, terem qualidade, acho admirável o fato do cinema alemão não ter medo de tratar de assuntos duros e que podem ser vistos, por alguns nacionalistas extremos, como contrários ao país.

Im Labyrinth des Schweigens é mais um filme que acrescentar alguns grãos de informação e de conhecimento sobre a Alemanha do pós-guerra. Mas diferente de outras produções, este filme fala da busca de um promotor pela verdade e pela justiça, ainda que ela já começasse a ser tardia. O protagonista desta produção vê na denúncia de Kirsch sobre um ex-militar nazista que esteve em Auschwitz e que está dando aula em um colégio – algo proibido – uma maneira de entrar, finalmente, em um caso relevante e importante.

Até então, e aí entra a motivação pessoal do protagonista, ele tinha sido escalado apenas para casos para “iniciantes”, ou seja, disputas envolvendo causas de trânsito. Ainda que todos da promotoria já tinham passado por aquilo, Radmann tinha pressa. Apesar desta motivação pessoal e de carreira, as principais molas propulsoras de Radmann para investigar o ex-militar nazista, Lehrer Alois Schulz (Hartmut Volle), eram os valores aprendidos do pai desaparecido.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O roteiro do diretor Giulio Ricciarelli, escrito junto com Elisabeth Bartel, autora da história original, e com ajuda de Amelie Syberberg, conta uma história linear que parte do encontro de Kirsch com o antigo algoz e segue até o início do julgamento dos nazistas que viviam como pessoas comuns na Alemanha do pós-guerra. Do início até o final Radmann encontra diferentes obstáculos e mentiras de quase todas as partes para conseguir levar o tema adiante.

Do lado dele estão o jornalista Thomas Gnielka (André Szymanski), que leva a denúncia de Kirsch até a promotoria, e o Procurador-geral Fritz Bauer (Gert Voss), judeu que sabe bem como diversos nazistas seguem entranhados no serviço público. Como pede um filme que busca seguir a “cartilha do sucesso”, Im Labyrinth des Schweigens descola uma figura feminina forte para dar aquele toque de “romance” na história.

Logo no início da trama Radmann tem um encontro no tribunal com Marlene Wondrak (Friederike Becht), acusada de uma infração de trânsito. O encontro é interessante e bem escrito, porque ele não apenas dá o tom da tensão entre os personagens como revela parte do caráter de Radmann. Apesar da moça dizer que não tem condições de pagar pela infração integralmente e do juiz sugerir que ela pagasse apenas o que podia, Radmann afirma que a lei não prevê isso e que a lei deve ser cumprida. No fim das contas ela fica devendo para ele – a deixa perfeita para eles terem um segundo encontro.

Esse segundo encontro não é provocado pela dívida, mas por Gnielka. Além de servir de tempero para o filme, o romance entre os personagens tira um pouco do peso da história que é, em essência, investigativa. Pouco a pouco Radmann vai vencendo as resistências para não apenas ouvir as vítimas, mas para tentar o mais difícil: reunir provas do envolvimento dos acusados que faziam parte do regime nazista em homicídios – em 1958 os demais crimes praticados durante a Segunda Guerra Mundial já tinham prescrevido na Alemanha.

Outros desafios dele eram, após ouvir as testemunhas dos crimes e conseguir algumas provas do envolvimento dos nazistas com homicídios, conseguir localizar os acusados e obter uma ordem de prisão para eles. A resistência de policiais e outros agentes públicos para as investigações lideradas por Radmann era enorme. Para eles, o promotor “novato” era um “traidor” da pátria. Isso porque o que tinha sido feito durante a guerra era justificável. “Afinal, estas são coisas que acontecem durante uma guerra”.

Mas todos nós sabemos, e só tempos depois – inclusive por investigações como esta liderada por Radmann -, que o que aconteceu nos campos de concentração nazista nunca deve ser encarado como um fato normal de guerra. Foram crimes contra a humanidade – e inúmeras pessoas, especialmente judeus, além de perseguidos de outras origens. Neste quesito, acho que o filme poderia ser um pouco mais contundente nos relatos das vítimas – apenas parte da fala da primeira testemunha aparece na produção.

O roteiro, ao escolher o caminho de acompanhar sempre os passos de Radmann, faz uma homenagem para ele e para os outros nomes responsáveis pela investigação que resultou no julgamento de 19 ex-oficiais nazistas – dos quais 17 foram condenados. A escolha foi positiva, mas senti falta de ouvir mais das vítimas. A direção de Ricciarelli também é bastante acomodada.

(SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Na busca pela verdade, Radmann descobre que dois de seus “heróis” também estiveram envolvidos com os nazistas – o pai dele e o amigo Gnielka. Com isso ele descobre algo importante, ainda que bastante básico: não existem heróis. Ou todos os santos tem pé de barro. Além de perceber que não existem, exatamente, “bandidos” e “heróis”, com a ajuda de Gnielka e de Bauer ele entende que o principal não é buscar ou encontrar uns e outros.

O trabalho dele é justificado pela busca da verdade – o que é sempre válido – e por dar voz para pessoas que não tinham vez na sociedade alemã conformada com o esquecimento e com a justificação do injustificável. Ele coloca a dor e o drama das vítimas e a vergonha de muitos alemães no holofote e não deixa, com este ato, a história absurda dos campos de concentração ser esquecida. Obriga os alemães, especialmente as novas gerações, a debater temas que eles gostariam de esquecer ou que nem conheciam.

Por um breve período o Radmann decepcionado perde o foco do que estava fazendo. Tem uma crise de valores e pensa que não sabe mais o que é certo e errado. Em alguns momentos da nossa vida até podemos duvidar do que estamos fazendo, mas algo não muda: existe sim certo e errado. E quem tem valores sabe a diferença entre um e outro. Por mais decepcionados ou cansados que um dia possamos estar, nunca devemos esquecer isso. Nem mesmo que uma boa batalha, pelas causas e pessoas certas, sempre merece ser acampada.

Radmann acaba percebendo isso e voltando atrás. Volta a assumir a causa e leva ela até o final. Ao lado dele, no difícil trabalho de investigação e de preparação para o julgamento, estão também o promotor Otto Haller (Johann von Bülow) e a secretária Schmittchen (Hansi Jochmann). Aliás, muito bacana a forma com que a história valoriza o trabalho desta secretária – que simboliza, como tantos alemães, o choque de saber toda a verdade sobre alguns de seus conterrâneos.

No fim das contas, é muito melhor trabalhar com apoio e chegar a resultados positivos compartilhando o mérito com mais gente. Sem dúvida alguma o trabalho de Radmann e dos demais mudou a forma como a Alemanha passou a ver a Segunda Guerra Mundial. O tema já foi muito tratado, mas parece ainda não ter sido esgotado. Enquanto outros filmes falam com propriedade sobre o período da guerra, outros abordam as condições da sociedade alemã antes e depois dos conflitos. Im Labyrinth des Schweigens não é um filme excepcional e nem está perto de ser perfeito, mas ele contribui para entendermos melhor o que aconteceu no país após a guerra.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Dá para entender, mas nem por isso não deixa de ser impressionante a forma com que os alemães correram para esquecer e tentar levar uma “vida normal” após a Segunda Guerra Mundial. Os envolvidos diretamente no conflito que não tinham sido julgados e que estavam livres simplesmente tocavam a vida como se não tivessem participado de atos criminosos absurdos. Acho impressionante porque sabemos bem as cicatrizes que as guerras provocam nas pessoas – muitas não conseguem superar o que viveram em um conflito. E mesmo estando do lado dos “vencedores”.

Todos os atores envolvidos neste filme fazem um bom trabalho. Ainda que ninguém tenha, realmente, me chamado a atenção. Isso porque, na maioria das vezes, os atores pareciam estar fazendo um trabalho teatral. Ninguém chegou a me comover. Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho de Robert Hunger-Bühler como o promotor-chefe Walter Friedberg. Ele tentou, em diferentes ocasiões, desestimular Radmann de seguir com a investigação. No fundo, Friedberg encarnava o “espírito” da época dos alemães que queriam, essencialmente, esquecer o que tinha acontecido e não falar mais nada a respeito. Os demais coadjuvantes fazem o seu papel, mas sem nenhum destaque.

O roteiro de Ricciarelli, Bartel e Syberberg cumpre o seu papel, ainda que não inove em momento algum. O mesmo pode ser dito da direção de Ricciarelli, que fica muito próximo do protagonista, em especial, mas que não aposta em ângulos de câmara diferenciados, em edição mais ágil ou em outros recursos narrativos como flashbacks. Da parte técnica do filme, vale comentar o bom trabalho dos diretores de fotografia Martin Langer e Roman Osin e dos responsáveis pela trilha sonora Sebastian Pille e Niki Reiser.

Por ser um filme de época, também funcionam bem uma série de elementos essenciais para produções deste tipo, como a direção de arte de Manfred Döring; a decoração de set Janina Jaensch; os figurinos de Aenne Plaumann e o departamento de arte de Sophie Pruzsinszky.

Im Labyrinth des Schweigens estreou em setembro de 2014 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria ainda por outros nove festivais mundo afora. Nesta trajetória, a produção recebeu quatro prêmios e foi indicado a outros 13. Entre os prêmios que recebeu estão o de Melhor Filme segundo a escolha do público do Festival Internacional de Cinema de Atenas; o de Melhor Ator para Alexander Fehling no Prêmio de Cinema Bavariano; e os prêmios de escolha da audiência e a Menção Especial do Júri do Festival de Cinema Europeu Les Arcs.

Agora, algumas curiosidades sobre Im Labyrinth des Schweigens: de acordo com as notas de produção do fime, ele é baseado na vida de Fritz Bauer, procurador-geral de Frankfurt, e de três promotores que foram fundamentais para a realização do “julgamento de Auschwitz” de 1963. Achei isso interessante porque, além de Bauer, aparece com destaque à frente do julgamento apenas Radmann e Haller. Fiquei me perguntando aonde foi parar o terceiro promotor…

Por uma boa parte do filme Radmann está obcecado com Mengele. Outro filme aborda a vida do médico nazista na Argentina e trata, um pouco, da missão para capturá-lo no país latino: El Médico Alemán (a crítica do blog sobre ele pode conferida aqui). É uma produção interessante, especialmente por mostrar a histórica pela ótica dos argentinos. Outro filme aborda a realidade alemã no pós-guerra: Lore (comentado aqui no blog). Francamente, achei esta outra produção melhor e mais impactante – porque provoca mais os espectadores e faz pensar com maior intensidade que Im Labyrinth des Schweigens. Recomendo Lore, para quem ainda não viu.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,3 para Im Labyrinth des Schweigens. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes escreveram 39 textos positivos e 13 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,6. Ainda que o filme seja bastante “óbvio”, acho que público e crítica foram um pouco duros demais com a produção. Acho que ela tem o seu valor, especialmente histórico. Ainda que, como cinema, seja um bocado fraquinho.

Apesar de ter avançado como um dos nove filmes que seguem na disputa pelas cinco vagas na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira, Im Labyrinth des Schweigens não chegou entre os finalistas na mesma disputa do Globo de Ouro 2016. Talvez seja um indicativo para o Oscar – ainda que, todos sabemos, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood seja mais “sensível” ao tema do Holocausto.

CONCLUSÃO: Como todos os outros filmes alemães que se debruçam sobre o nazismo e a Segunda Guerra Mundial e tudo que compreendeu aquele período, Im Labyrinth des Schweigens é uma produção importante. Ela enfoca o trabalho de pessoas corajosas que não aceitaram o esquecimento e a ignorância e preferiram trazer os crimes de guerra e contra a humanidade para os holofotes.

Ao invés de viverem uma vida de aparências e “feliz” eles decidiram dar voz para as vítimas. Um grande exemplo para qualquer país e que inspira a cada um de nós que, sempre, podemos optar pela verdade ou pela ilusão. Apesar de ser um filme importante, ele tem uma narrativa bem tradicional e não chega a “incomodar” ou provocar como poderia.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Este é apenas o segundo dos nove filmes que avançaram na disputa por uma vaga na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2016. Comparando ele com Mustang, comentado aqui no blog, francamente vejo uma vantagem clara do representante francês na disputa.

A temática de Im Labyrinth des Schweigens agrada aos votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, é verdade. Há muitos judeus e descendentes de judeus entre os votantes e eles costumam votar a favor de filmes que tratam da verdade sobre Auschwitz e tudo o mais que cerca a Segunda Guerra Mundial. Dito isso, talvez o filme que representa a Alemanha consiga uma vaga entre os finalistas ao prêmio, mas acho difícil ele levar a estatueta.

Isso porque, como eu disse antes, ele é um filme pouco ousado. Apesar de bem narrado, ele não inova na direção, no roteiro ou em qualquer outra parte. Lhe falta também, a meu ver, um pouco de força narrativa. Comparado com Mustang, que é bem mais provocador e interessante, este filme se revela ainda mais “comedido”. Vale assistir a Im Labyrinth des Schweigens, isto está claro. Mas meu voto, até agora, iria para Mustang. Acredito que os votantes da Academia também prefeririam ao filme francês.

Mustang – Cinco Graças

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A liberdade é o maior bem que alguém pode almejar, buscar e preservar. Ter o direito de escolher quem se quer ser e o que se quer fazer pode parecer algo simples, mas não é. Prova disso temos todos os dias, de diferentes formas e com pessoas distintas. Você realmente é e faz o que você gostaria de fazer? Poucos são os corajosos realmente livres. Mustang, mais uma pérola do cinema francês, fala justamente sobre isso. Sobre a coragem de buscar a própria liberdade e sobre a desgraça que algumas culturas provocam ao obrigar algumas pessoas a abrir mão dela. Um filme incrível e que faz mexer com os nervos de qualquer um – especialmente das mulheres.

A HISTÓRIA: Começa com uma menina comentando como elas estavam tranquilas e de como tudo mudou tão rápido. As primeiras cenas mostram Lale (Günes Sensoy) se despedindo da professora, Dilek (Bahar Kerimoglu), que deixou com ela o seu novo endereço. Esperando Lale estão as suas quatro irmãs mais velhas. Aos invés de irem para casa com a van escolar, as meninas resolvem aproveitar o dia bonito e ir à pé, brincando com meninos no caminho. Ao chegar em casa, elas são duramente repreendidas pela avó, porque a comunidade estava comentando que elas não tinham tido um comportamento correto. Este é apenas o começo do calvário das meninas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Mustang): Como defensora das mulheres e do direito delas de terem as mesmas oportunidades que os homens, independente da origem, da classe social ou da religião, fiquei mexida com esse filme. Por todo o conjunto da obra. Todos nós sabemos que existem culturas e sociedades mais cruéis – me recuso a chamar de tradicionais – que outras, mas poucas vezes vi um filme tratar da questão feminina de forma tão direta e franca quanto este.

Sem contar que Mustang vai ao extremo, o que sempre ajuda a mexer com os brios dos espectadores. As cinco irmãs que tinham uma vida feliz, iam à escola e tinham uma certa liberdade acabam perdendo tudo isso por causa de alguns minutos de diversão na praia. Elas passam a ser um problema para a família. A avó delas (Nihal G. Koldas) é pressionada por todos os lados para tomar uma atitude. Depois que os filhos dela morreram, ela cuidou das cinco meninas sozinha. Mas agora, depois dos boatos cruéis na comunidade, ela cede à pressão do filho Erol (Ayberk Pekcan).

As meninas devem casar o mais rápido possível – antes que elas se “desviem”. No início, tudo o que é considerado “subversivo” é confiscado. Na sequência, as mais velhas são levadas ao médico para que ele dê um certificado de virgindade. Pode existir algo mais absurdo? A palavra e o comportamento das meninas não vale nada. Elas são como mercadorias, que devem ser negociadas o mais rápido possível para render um “retorno” adequado. Depois destes primeiros passos, as meninas ficam trancadas em casa e passam a receber todas as aulas possíveis que, virtualmente, podem ajudá-las a se tornarem “boas esposas”.

Essas aulas, claro, giram em torno do “cuidado do lar”. Aprendem a cozinhar, a fazer uma colcha, a costurar e a tudo o mais que pode significar cuidar do futuro marido. O roteiro, por tudo isso, é potente em si mesmo. Mas o texto da diretora Deniz Gamze Ergüven escrito junto com Alice Winocour se diferencia não apenas pela força da história, mas principalmente pela forma com que ela é contada.

Narrado por Lale, o filme está sempre muito próximo das meninas. Desta forma, o espectador vivencia junto com elas não apenas a clausura, mas também a liberdade e alegria dos momentos de brincadeira entre as irmãs, a inocência que é corrompida pela neurose da comunidade e da família para que elas “não se desvirtuem” e a descoberta da própria sexualidade e de seus próprios desejos pouco a pouco.

Esta é uma clássica produção sobre a perda da inocência, em todos os sentidos. Mas não é apenas isso. E aí está a principal beleza de Mustang. Este filme magistralmente escrito e dirigido por Ergüven é um libelo à liberdade. Um dos valores mais defendidos e propagados pela França. Sem entrar na seara da religião, mas não por acaso Deus deu a cada um de nós o presente da escolha. Nada na nossa vida está totalmente “escrito”. Temos sempre a liberdade de escolher um caminho ou outro.

Pouco a pouco as irmãs vão arregaçando a manguinhas e tentando viver um pouco a vida apesar da clausura. Como resposta a uma ou outra fuga descoberta, aumenta o controle e a restrição da casa – que, no fim das contas, como bem observa a protagonista, realmente é transformada em prisão. Ao mesmo tempo em que angustia a realidade das cinco irmãs, cada vez mais restrita, é encorajadora e edificante a determinação de Lale.

Enquanto ela vai entendendo – ou tentando entender – a loucura dos adultos, ela não aceita o destino que querem lhe impor como inevitável. Depois de serem “mostradas” na comunidade, as irmãs mais velhas acabam casando. Sonay (Ilayda Akdogan), a mais velha das cinco, que já tinha um namorado, acaba tendo a sorte de casar com ele. Selma (Tugba Sunguroglu), a segunda mais velha, casa no mesmo dia com um sujeito que ela conhecia só de vista.

O que acontece com Selma logo após a noite de núpcias é indignante. Como tantos outros fatos mostrados neste filme – e que, segundo esta entrevista com a diretora de Mustang, são baseados em histórias reais que ela ouviu e que se passaram na Turquia, além dele ter também um pouco de aroma “autobiográfico” da diretora em alguns aspectos. Ela mesmo teve um pouco da vivência de Lale – por isso, talvez, tanta legitimidade não apenas do roteiro, mas especialmente da interpretação de cada pessoa do elenco.

Depois do casamento das duas mais velhas, as outras irmãs encaram o casamento arranjado com um destino quase imutável. Mas sempre, e essa bandeira é uma força intrínseca desta produção, existe a possibilidade de uma pessoa fazer as próprias escolhas. Mesmo que as condições para isso sejam tão adversas quanto as mostradas neste filme. O que acontece com as três irmãs mais novas apenas demonstra a desgraça que culturas que subjugam as mulheres e forçam elas a fazerem algo contra a sua vontade pode causar.

Filme impactante, poderoso e muito bem conduzido pela diretora Deniz Gamze Ergüven, Mustang é mais uma produção inesquecível do cinema francês. Indicado pelo país para o próximo Oscar, ele merece estar na lista dos nove filmes que seguem na disputa por uma das cinco vagas finais da premiação.

Todas as culturas devem ser respeitas e compreendidas, mas quando uma tradição subjuga alguma parte da sociedade, ela deveria ser automaticamente discutida e revista. Neste caso, o elo fraco são as mulheres – que seguem sendo subjugadas em diferentes países e culturas. Mas poderia ser outro o alvo do absurdo. Neste sentido, o cinema contribui muito com o debate. Sempre, claro, que as pessoas estejam abertas a ele.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Que filme fantástico! Achei ele perfeito não apenas pelo roteiro e pela excelente condução da diretora Deniz Gamze Ergüven que, claramente, privilegia a ótica das cinco irmãs, mas também pela interpretação de cada uma das meninas e do elenco de apoio. Não existe um elo fraco na interpretação ou na entrega dos atores. E o melhor de tudo: todos apresentam um trabalho muito natural, nada forçado. O que apenas ajuda no convencimento da história e na consequente reação do público.

As cinco atrizes que interpretam as irmãs estão fantásticas. E como todas são lindas! Além de demonstraram muita personalidade. Francamente bato palmas para o trabalho de Ilayda Akdogan, que interpreta Sonay; Tugba Sunguroglu, que dá vida a Selma; Elit Iscan, que interpreta Ece; Doga Zeynep Doguslu, que vive Nur; e, principalmente, a ótima Günes Sensoy, que interpreta a caçula e mais independente das irmãs Lale.

As filhas mais novas, aliás, são as que sofrem mais com a imposição. Para os jovens, normalmente, é mais difícil aceitar um destino infalível – eles são livres e querem continuar assim. Além disso, acredito, pesa contra elas a experiência de terem visto as irmãs mais velhas casando – uma por sua própria vontade, a outra, não.

Além das atrizes já citadas, da mais velha para a mais nova entre as irmãs, vale destacar o trabalho de outros atores importantes para esta história. Para começar, a avó das meninas, interpretada por Nihal G. Koldas. Ela equilibra bem o afeto de avó pelas meninas e a “carga” de, ao ser responsável por elas, dar um “destino adequado” para as cinco. Está muito bem em seu papel também o ator Ayberk Pekcan, que interpreta ao tio das meninas, Erol – parte fundamental para a vida delas ter tido uma guinada radical. Outra figura fundamental na história é Yasin, o entregador muito bem interpretado por Burak Yigit – um sopro de solidariedade e de humanidade em uma história tão dura.

Por falar em história dura, há uma parte apenas sugerida neste filme que me chamou a atenção. (SPOILER – não leia se você não assistiu a este filme). Em pelo menos dois momentos a protagonista Lale observa o tio Erol entrando no quarto das irmãs. Não fica totalmente claro, mas a impressão que eu tive é que ele estava abusando de Nur – não a ponto de tirar a virgindade da meninas. Isso não é problema, porque os homens de lá sabem como “aproveitar” das meninas sem ter que tirar delas a “garantia” de um bom casamento. Um fato que ajuda a reforçar essa impressão do abuso praticado pelo tio contra Nur é que a menina, mesmo não sendo logo alvo de um casamento, acaba tendo esse processo “apressado” pela avó depois que ela tem uma discussão com o filho.

Se esta minha impressão está correta, ela apenas demonstra a hipocrisia de culturas e de pessoas que se dizem detentoras da “moral e dos bons costumes”. Nada daquela obsessão por casar as meninas logo e tudo o mais que fazia parte daquele contexto tornava alguém mais correto ou “santo”. Ninguém deveria ser obrigado a casar, até porque esta não é a única vida possível. Quanto mais a neurose sobre isso é alimentada, mais comportamentos equivocados são alimentados.

Da parte técnica do filme, além da excelente direção de Deniz Gamze Ergüven, sempre focada no trabalho dos atores e na vida “comum” dos personagens, vale destacar a bela direção de fotografia de David Chizallet e de Ersin Gok e a pontual e muito bonita trilha sonora de Warren Ellis. A música aparece nas horas certas e apenas para destacar ainda mais momentos importantes para a produção. Nos demais momentos, conta muito o som ambiental captado e trabalhado pela equipe do diretor de som Damien Guillaume.

Além dos pontos citados no parágrafo anterior, vale comentar o bom trabalho da direção de arte de Serdar Yemisci e os figurinos de Selin Sozen. Todos trabalham em função do filme e da história, dando ainda mais legitimidade para ela.

Particularmente, gostei muito do título original do filme, Mustang, que faz referência para os cavalos desta raça – sinônimo de beleza e de liberdade. Por outro lado, não gostei nada do título para o Brasil – Cinco Graças. Imagino que o título traduzido faça referência às cinco irmãs… ainda assim, achei desnecessária essa mudança que considero para pior.

Mustang estreou no Festival de Cinema de Cannes no dia 19 de maio. Depois, o filme passaria, ainda, por outros 18 festivais. Nesta trajetória ele acumulou 20 prêmios e foi indicado a outros 17, incluindo a indicação para o Globo de Ouro 2016 como Melhor Filme em Língua Estrangeira.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Label Europa Cinemas no Festival de Cannes; para o de Melhor Narrativa de Filme em Língua Estrangeira na escolha do público do Festival Internacional de Cinema de Chicago; para o Prêmio Art Cinema no Festival de Cinema de Hamburgo; para o Grande Prêmio e para o prêmio de Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Odessa; para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Atriz (dado para as atrizes que interpretam as cinco irmãs) no Festival de Cinema de Saravejo; para o de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Estocolmo; para quatro prêmios como Melhor Filme e um de Melhor Novo Diretor no Festival Internacional de Cinema de Valladolid; e para o Freedom of Expression Award do National Board of Review.

Esta é mais uma produção que comprova como um grande filme não precisa custar muito. Mustang teria custado 1,3 milhão de euros. Baixo orçamento, mas que nos presentou com uma história incrível. Para cada grande “blockbuster” de Hollywood muitos filmes como este poderiam ser realizados. Francamente, prefiro este segundo perfil.

Mustang foi totalmente rodado na Turquia, aonde a história é ambientada. Entre as cidades mostradas no filme estão Inebolu e Abana, assim como Istambul. Apesar de ser uma coprodução entre Turquia, França, Catar e Alemanha, esta produção é a representante da França no Oscar 2016. Isso porque boa parte dos recursos e do apoio para ela ter saído do papel foram dados pela França – o filme não existiria se fosse pela Turquia, evidentemente.

Enquanto Mustang está concorrendo no Globo de Ouro e tem grandes chances de estar entre os cinco indicados no próximo Oscar – ele avançou junto com outros oito filmes na disputa -, o representante da Turquia, Sivas, ficou fora da disputa. O que apenas comprova que grandes premiações, aonde lobby e outros questões contam, sempre servem para revelar grandes filmes mais independentes e corajosos, especialmente em termos de produções de língua estrangeira e documentários. Não por acaso iniciou com Mustang a minha “corrida” pelo Oscar 2016. Essa premiação sempre vale ser acompanhada – assim como as outras principais do cinema.

Antes de Mustang, Deniz Gamze Ergüven havia dirigido apenas a dois curtas: Mon Trajet Préfére, em 2006, e Bir Damla Su (Une Goutte D’eau), também em 2006. Ela escreveu o roteiro dos três. Nascida na Turquia, a diretora é radicada na França. Vale a pena ler esta matéria e entrevista com a diretora feita pela Vogue na qual ela conta não apenas um pouco de sua história, mas também das fontes para Mustang. Ergüven merece aplausos só pelo fato de querer tratar de um assunto tão espinhoso como a mulher na Turquia – resgatando suas próprias raízes.

Mustang está concorrendo com El Club, Le Tout Nouveau Testament, Miekkailija e Saul Fia como Melhor Filme em Língua Estrangeira do Globo de Ouro 2016. Depois de divulgar os 81 países que estavam concorrendo a uma vaga na mesma categoria no Oscar 2016, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood listou as nove produções que seguem na disputa por uma das cinco vagas finais. Além de Mustang, representante da França, estão concorrendo Le Tout Nouveau Testament (Bélgica), El Abrazo de la Serpiente (Colômbia), Krigen (Dinamarca), Miekkailija (Finlândia), Labyrinth of Lies (Alemanha), Saul Fia (Hungria), Viva (Irlanda) e Theeb (Jordânia). Falta conferir a todos para depois dar a opinião final sobre esta categoria do Oscar.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,6 para Mustang – uma boa avaliação se levarmos em conta o padrão de notas do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 31 avaliações positivas e apenas uma negativa para Mustang, o que garante para o filme a aprovação de 97% e uma nota média de 8,2.

Em dezembro, no dia 11, terminei o meu doutorado na Faculdade de Ciências da Informação da Universidade Complutense de Madri, na Espanha. Agora, meus bons amigos e leitores fieis deste blog, terei muito mais tempo para ver a filmes e comentá-los por aqui. Esta é uma das minhas intenções para 2016 e para o finalzinho deste ano. Com Mustang, como comentei antes, iniciou a minha “temporada” de avaliações para o Oscar 2016. Espero que vocês gostem e comentem. Pouco a pouco vou respondendo a todos vocês. Obrigada pela paciência e para parceria neste tempo todo. Um abraço grande para cada um@ de vocês e que 2016 seja incrível para todos vocês!

CONCLUSÃO: Mustang parece ser, na parte inicial, um filme singelo. Mas ele é tudo menos isso. Com uma narrativa crescente e que para alguns pode beirar o absurdo – mas que não é, na verdade e infelizmente -, esta produção vai ganhando o espectador aos poucos. Até que estamos arrebatados pelas atrizes e pela narrativa. Neste momento, impossível não torcer pela protagonista e sua irmã.

Impossível não sonhar com mais mulheres que possam tomar as suas próprias decisões. Independente do país ou da cultura na qual nasceram – e sem poder escolher isto, ao menos. Não é preciso ser feminista para gostar deste filme. Basta colocar-se no lugar do outro e arriscar-se a entender que cada pessoa deveria ser dona de seu próprio destino. Com um elenco afinadíssimo e um roteiro que mede a dose exata de drama, comédia e emoção a cada minuto, Mustang é uma verdadeira preciosidade. Vale ser visto e recomendado.

PALPITE PARA O OSCAR 2016: Este é apenas o primeiro dos nove filmes em língua estrangeira que avançaram para a seleção do próximo Oscar que eu assisti. Claro que falta ver aos demais mas, desde já, eu não acharia nada injusto Mustang ganhar a tão cobiçada estatueta dourada. Este filme é um libelo à liberdade, especialmente a feminina. Corajoso, toca em temas importantes para a Turquia e para vários outros países aonde, infelizmente, as pessoas não podem ser realmente livres muitas vezes.

Bem dirigido, com um roteiro que cresce nos momentos certos, Mustang tem na interpretação dos atores um de seus principais trunfos. Funciona bem, do início até o fim. Para quem está começando agora a ver os filmes que tem chances no próximo Oscar, esta foi uma bela estreia. Atualizarei este palpite mais para frente, depois de assistir aos demais e de termos todos acesso a lista dos cinco finalistas à premiação. Mas, desde já, e como comentei na conclusão, recomendo. E ele merece o Oscar.