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Gräns – Border – Fronteira

E se tivéssemos, entre nós, outros seres diferentes da gente? Não estou falando de humanos com características diferentes, mas de seres que não são humanos como nós. Como você agiria? Será que os aceitaríamos como eles são ou tentaríamos “moldá-los” à nossa imagem? Gräns é um filme “diferentão” mas que nos faz pensar sobre o quanto estamos realmente preparados para aceitar e conviver com o que é diferente da gente – ou do padrão. O filme também aborda questões como amor, autoconhecimento, definição da própria identidade e fazer o bem independente da sua origem e das suas características. Inusitado e interessante.

A HISTÓRIA: Sons de gaivotas e de uma embarcação. Perto dela, Tina (Eva Melander) está observando o nascer de mais um dia. Ela pega um grilo e o observa atentamente. Depois, o liberta. Em seu trabalho, Tina essencialmente observa. Muita gente passa por ela e por seu colega, mas ela pede para parar, geralmente, quem tem algo a esconder. Ela para um rapaz com boné e pede para ele lhe passar a sua bolsa. Sem mesmo abri-la, ela sabe que ele tem alguns litros de bebida ali. O rapaz diz que comprou as garrafas, mas ela o adverte que ele é jovem e que é proibido ter tantas bebidas. Tina faz o trabalho dela, mas é insultada com frequência. Essa é a sua história.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gräns): Minha gente, que mês atribulado esse de abril! Tanto é verdade que, vejam só, esse é apenas o segundo texto que eu consigo publicar aqui no blog. Mil desculpas pela ausência e pelo número pequeno de críticas nesse mês. Espero que maio seja melhor. 😉

Desculpas pedidas, vamos ao que interessa: a crítica sobre Gräns. Assisti esse filme há algumas semanas. Como sempre, não tinha lido nada sobre ele antes e, por isso, fui completamente surpreendida por sua história. Muito interessante como o roteiro de Ali Abbasi, Isabella Eklöf e John Ajvide Lindqvist vai nos apresentando esse conto que, ao mesmo tempo, consegue ser bem realista e cheio de fantasia.

Gostei muito da direção de Ali Abbasi. Ele tem um olhar diferenciado para os personagens e, claramente, volta toda a sua atenção para a protagonista. Vemos a realidade sob a ótica de Tina, e isso é algo fundamental para esta história, que é baseada em um conto de John Ajvide Lindqvist. Se você, como eu, não leu nada sobre Gräns antes de assistir ao filme, certamente você ficará surpreso(a) com esse filme.

Dito isso, a partir de agora, vou conversar com você que já assistiu à produção, beleza? (SPOILER – não leia a partir daqui se você não assistiu ao filme). Descobrirmos quem é a personagem de Tina é um dos grandes processos desta produção. E não somos apenas nós que estamos descobrindo quem ela é. A própria Tina está em uma jornada de autodescoberta – na qual ela entra sem esperar ou desejar.

Por isso Gräns tem a força que tem. Primeiro, porque a descoberta sobre a personagem que fazemos é potente através do trabalho da atriz que vivencia Tina,  a ótima Eva Melander. Inicialmente, ao ver o rosto da protagonista, ela me lembrou a história do Homem Elefante. Ou seja, eu apenas achava que ela tinha alguma deformação no rosto. Mas aos poucos, quando percebemos que ela tem o que parece ser um olfato aguçado e uma capacidade extraordinária de “farejar” o medo dos outros, começamos a nos perguntar a origem deste “super poder”.

Para a protagonista de Gräns, até então, ela deveria ser apenas uma mulher “fora do padrão” que cresceu sendo insultada. Mas isso muda quando ela encontra, em um dia normal de trabalho, um sujeito parecido com ela. Ao conhecer Vore (Eero Milonoff), ela fica intrigada com ele. Deseja saber mais sobre ele e o acaba chamando para a propriedade da família.

Até aí, tudo muito “normal”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tina vive com um sujeito “encostado” e um tanto machista, Roland (Jörgen Thorsson). Ela está com ele para não ficar sozinha, mas claramente ela não gosta de ter contato físico com ele. Quando Vore passa a ficar mais próximo dela, ela descobre o porquê de sempre ter se sentido abusada por Roland: ela é um troll. Como Vore. E o interessante dos trolls é que ela, que inicialmente poderia ser vista como uma fêmea, é quem tem o órgão reprodutor que nós consideramos masculino. Ou seja, ela é quem engravida Vore – que, em teoria, seria o “macho”.

Ou seja, aparentemente, os trolls não tem o sexo definido como o dos humanos. A noção de gênero é diferente. Apenas isso já torna Gräns interessante, porque ele subverte justamente o que caracteriza homens e mulheres. Um órgão reprodutor define um ser ou são outras características que o definem? Esta é uma das questões apontadas por esse filme. Mas existem várias outras em jogo. Como a capacidade das sociedades de terem seres diferentes convivendo nos mesmos espaços.

Tina, mesmo antes de descobrir a sua verdadeira origem, se sentia um bocado desprezada e deslocada na sociedade. O quanto isso não ocorre todos os dias ao nosso redor? O quanto você e eu ajudamos para que os diferentes se sintam integrados ou não nos ambientes nos quais circulamos? Gräns nos faz pensar sobre tudo isso. E, com uma boa dose de fantasia, nos faz pensar sobre como reagiríamos caso encontrássemos seres que não fossem 100% humanos. Conseguiríamos ter uma convivência pacífica com eles ou gostaríamos de “moldá-los”? Quantas pessoas, por medo ou desprezo, tentariam exterminá-los?

Quem nos garante que, por evolução natural ou por avanços da ciência e da manipulação genética, daqui algumas décadas ou séculos não teremos realmente “seres humanos” ou seres não tão humanos convivendo nas nossas sociedades? X-Men está aí para nos fazer pensar sobre isso. Gräns também. Teremos convivência pacífica ou complicada quando isso acontecer? Só nós mesmos e as próximas gerações poderão responder a essas perguntas.

Outra questão interessante levantada por Gräns é a noção da identidade. Até conhecer Vore, Tina realmente não sabia quem ela era. Ao conhecer, finalmente, alguém da mesma espécie, Tina fica fascinada. Se apaixona. Se identifica. Sente-se poderosa ao reconhecer-se no outro e, principalmente, ao verificar, nestas semelhanças e diferenças, quem ela própria era de verdade.

Conhecer-se profundamente é algo muito poderoso. Torna as pessoas mais corajosas, mais seguras de si e mais interessantes. Tina passa por esse processo em Gräns. Mas ao fazer isso, ela percebe também que não é tão parecida de Vore quanto ela poderia inicialmente imaginar. Sim, eles são da mesma espécie. Mas as semelhanças terminam por aí. Enquanto Vore quer se vingar dos humanos, Tina gosta deles e não quer matar ou destruir ninguém por fatos que não tem a ver com ela.

A postura de ambos é muito diferente e, conforme Tina vai conhecendo mais Vore, ela percebe isso. Não apenas a história de vida e a educação de Tina foi diferente da recebida por Vore, como a personalidade dela é outra. Ou seja, desta forma, Gräns está nos dizendo que não é apenas a espécie que nos define. As nossas origens contam, da mesma forma que a nossa criação, a educação que recebemos e, principalmente, as escolhas que fazemos durante a nossa trajetória.

Sem dúvida alguma, Gräns é um filme diferentão. Provocador, nos faz pensar em questões importantes sob uma ótima que mistura fantasia e realidade. Será especialmente interessante para quem não tem preconceito de conhecer uma história que foge do comum. Da minha parte, fui surpreendida pela produção. Original e interessante, acima da média.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Tenho todo um processo para escolher os filmes que eu vou assistir a cada semana – quando o mês ajuda e eu consigo ver ao menos um filme por semana. O que, como vocês viram pela baixa atualização do blog, não aconteceu em abril. Procuro sempre por filmes que estão no cinema ou que vão estrear. Também procura assistir ao filmes que são destaque nos principais festivais de cinema ou recuperar alguma produção de algum diretor de quem eu gosto e que eu perdi. E há ainda os filmes clássicos, que procuro assistir para a sessão Um Olhar Para Trás aqui do blog.

Vendo os filmes que iam estrear em abril, nos principais cinemas do Brasil, encontrei esse Gräns. Como sempre, não busquei informação alguma sobre a história do filme antes de assisti-lo. Ele só entrou para a minha lista porque eu vi que ele apresentava várias críticas positivas. Foi bom ter escolhido ele, porque Gräns foge bastante do meu padrão de filmes e do que tenho comentado aqui no blog nos últimos anos. Bom ver a um filme “diferentão” para variar.

Achei interessante o trabalho do diretor e roteirista Ali Abbasi. Gräns é apenas o segundo longa-metragem dele. Abbasi estreou como diretor com o curta Officer Relaxing After Duty, em 2008, e fez outro curta, M for Markus antes de estrear nos longas com Shelley, em 2016. Fiquei curiosa para ver a Shelley e para acompanhar mais de perto esse diretor. Ele me parece bastante promissor.

Além de apresentar um roteiro e uma direção competente e envolvente, Gräns conta com um elenco pequeno e com um trabalho diferenciado. Destaque, claro, para a protagonista Eva Melander. Ela tem pela frente um papel desafiador, mas se entrega de corpo e alma para ele. Muito bom o trabalho de seu principal companheiro de cena, Eero Milonoff. Ambos estão muito bem e sustentam o filme.

Depois dos protagonistas, há alguns coadjuvantes que fazem um bom trabalho. Vale destacar, nesse sentido, o trabalho de Jörgen Thorsson como Roland, o namorado de Tina e que mora com ela até que ela o expulsa de casa; Sten Ljunggren como o pai de Tina; Ann Petrén como Agneta, policial que chama Tina para ajudar em uma investigação; Josefin Neldén como Esther, e Tomas Ahnstrand como Stefan, casal que tem um filho que vira alvo de Vore e que são amigos de Tina.

Entre os aspectos técnicos do filme, vale destacar a direção de fotografia de Nadim Carlsen; a trilha sonora bastante pontual e um tanto sinistra de Christoffer Berg e Martin Dirkov; a edição de Olivia Neergaard-Holm e Anders Skov; o design de produção de Frida Hoas; os figurinos de Elsa Fischer; a ótima maquiagem feita por uma equipe de 22 profissionais; e o trabalho fundamental da equipe de 39 profissionais envolvidos com os Efeitos Visuais do filme.

Gräns estreou em maio de 2018 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, a produção participou, ainda, de outros 34 festivais em diversos países. Nessa sua trajetória, o filme ganhou 16 prêmios e foi indicado a outros 24, inclusive uma indicação ao Oscar de Melhor Maquiagem e Cabelo. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Un Certain Regard Award dado para Ali Abbasi no Festival de Cinema de Cannes; Melhor Filme de um Diretor Emergente no Festival de Cinema de Munique; e para os prêmios de Melhor Filme, Melhor Som, Melhor Atriz para Eva Melander, Melhor Ator Coadjuvante para Eero Milonoff, Melhor Maquiagem e Melhores Efeitos Visuais no Guldbagge Awards, considerado o Oscar do cinema sueco.

Essa produção foi a escolhida pela Suécia para representar o país na categoria Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar. Mas Gräns não chegou até a lista dos finalistas ao prêmio.

O diretor Ali Abbasi disse que foi inspirado por vários escritores latino-americanos conhecidos por suas obras de realismo mágico, como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Roberto Bolaño para fazer Gräns.

Fui procurar mais informações sobre os trolls. Segundo esse artigo da Wikipédia, os trolls são criaturas antropomórficas imaginárias do folclore escandinavo. E aí temos uma curiosidade interessante sobre uma característica deles em Gräns: a ideia deles serem “perseguidos pelos raios” e de terem medo dos trovões faz relação aos tempos pagãos da Escandinávia, quando o deus do trovão, Thor, caçava gigantes e os matava com um golpe do seu martelo, ou seja, com um relâmpago. No folclore posterior, diversas criaturas “do mal”, como lobisomens e trolls, viviam com medo dos trovões.

Para o diretor e roteirista Ali Abbasi, Gräns não é um filme de “nós contra eles”, e sim a história de uma pessoa que pode escolher a sua própria identidade e que faz isso.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 109 críticas positivas e apenas quatro negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96% e uma nota média de 7,88. O site Metacritic apresenta um “metascore” 75 para Gräns, fruto de 23 críticas positivas e de duas medianas.

De acordo com o site Box Office Mojo, Gräns arrecadou quase US$ 772 mil nos cinemas americanos. Bilheteria baixa e, certamente, fruto de poucos cinemas que exibiram o filme – além dele ser bem alternativo e estrangeiro, o que nunca atrai muito o público americano.

Gräns é uma coprodução da Suécia com a Dinamarca.

CONCLUSÃO: Uma fantasia que nos faz pensar um bocado sobre “o outro” e sobre nós mesmos. O quanto a nossa sociedade e nós, como indivíduos, estamos preparados para aceitar o que é diferente? Gräns explora esta questão, assim como a sensação de um indivíduo pertencer a um grupo ou local, a definição de identidade e outras questões importantes em qualquer tempo. Produção que vai se revelando pouco a pouco e nos surpreendendo na mesma medida. Bastante original, Gräns vale especialmente para quem gosta de narrativas diferenciadas e nada óbvias.

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The Mule – A Mula

Ficar “velho” não é mole não. Todos acham bacana quem chega aos 90 ou aos 100 anos de idade, mas quem chega lá não tem apenas motivos para sorrir. Ainda assim, sempre é bacana viver bastante. Afinal, se ganha mais tempo para amar, perdoar, ser amado e ser perdoado. Sobre tudo isso é que esse The Mule trata. Um filme bastante honesto e que nos presenteia com mais um filme dirigido e estrelado pelo grande, pelo mestre Clint Eastwood. A história em si não apresenta grandes achados, mas a interpretação de Eastwood é quase um testamento que ele nos deixam. Um presente, para falar a verdade.

A HISTÓRIA: Uma linda plantação de amarílis. Vemos a diferentes tipos de flores em uma propriedade em Peoria, no Estado de Illinois, em 2005. Dentro de uma estufa, Earl Stone (Clint Eastwood) colhe uma flor. Ele escuta um funcionário chegando, José (Cesar De León), e brinca com ele que, do jeito que ele dirige, ele parece querer ser deportado. Em seguida, Earl chega na convenção anual de produtores de amarílis. Ele presenteia Helen (Jackie Prucha) com uma flor e cumprimenta as pessoas do evento.

Earl será premiado naquela noite, quando prefere passar tempo com os amigos do que ir no casamento da filha, Iris (Alison Eastwood). Depois de 12 anos, Earl tem que deixar a casa, por causa de uma ação de despejo, porque viu o negócio de venda de flores ser derrotado pela internet. Ao comparecer na festa de noivado da neta, Ginny (Taissa Farmiga), Earl conhece um amigo dela, Rico (Victor Rasuk) que lhe convida para continuar dirigindo pelas estradas do país e ganhar uma grana com isso.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Mule): Eu não vou mentir para vocês. Eu tenho uma grande, expressiva “quedinha” por Clint Eastwood. Admiro tanto esse diretor e ator que eu não consigo não gostar de algo que ele faça. Assim, claro, eu já tenho uma visão contaminada e otimista sobre The Mule apenas pelo fato dele dirigir e protagonizar este filme.

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Claro que a nota abaixo tem muito a ver com essa minha admiração por ele. Inicialmente, eu daria uma nota um pouco mais baixa, mas aquele final do filme… A forma com que The Mule acaba parecendo um testamento de Clint Eastwood, me fez aumentar a avaliação da produção. Eastwood merece toda a nossa admiração por seguir produzindo, dirigindo e atuando mesmo após tantas décadas de dedicação e de trabalho no cinema.

Para vocês terem uma ideia, o primeiro trabalho de Eastwood como ator foi em 1955. Ou seja, ele tem 64 anos de trabalho nessa área. Como diretor, ele estreou em 1971, ou seja, tem 48 anos de carreira e segue na labuta. Um sujeito admirável e impressionante, sem dúvidas. Mas vamos falar deste último filme dele, The Mule.

A produção em si não é muito surpreendente ou marcante. Grande parte do filme acompanha as “desventuras” do protagonista viajando do Texas para Illinois. O roteiro de Nick Schenk, baseado no artigo The Sinaloa Cartel’s 90-Year Old Drug Mule de Sam Dolnick publicado na New York Times Magazine, procura equilibrar um pouco de drama com uma trama policial e pitadas de comédia aqui e ali.

Como era de se esperar, Clint Eastwood faz um ótimo trabalho na direção e como intérprete. Acreditamos perfeitamente naquele personagem que ele nos apresenta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um senhor de 90 anos de idade que por ter viajado pela maior parte do país vendendo suas mudas de amarílis sem nunca ter recebido uma multa acaba sendo alvo de um dos cartéis de drogas mexicanos. Ele “simplesmente” faz o transporte de mercadorias que lhe pedem e, em troca, ganha uma boa quantidade de dinheiro por cada viagem.

A história nos faz pensar sobre como a vida é complicada e injusta com a maioria – acredito que seja a maioria – dos idosos mundo afora. Geralmente eles não tem uma boa aposentadoria e não tem mais oportunidades de trabalho ou de colocação no mercado. Muitos, a exemplo de Earl, acabaram vendo o seu próprio negócio definhar com o surgimento da internet – e eles não se adaptaram a essa nova era.

Assim, “do nada”, surge uma oportunidade dele seguir fazendo o que ele gostava – viajar pelas estradas do país – e ainda ganhar uma quantidade de dinheiro que ele nunca tinha visto na vida. Ao menos não em tão pouco tempo. No final da vida, despejado de casa e cobrado pela família por nunca ter estado presente, podemos realmente julgar Earl? Veterano da guerra da Coreia, ele percebe que a sociedade atual não dá bola para caras como ele. Então por que não se sentir útil e fazendo o que deseja pela última vez?

Algo que achei interessante nesse filme é a forma com que o roteiro de Schenk humaniza o personagem. Earl é um sujeito “velha guarda” que se adapta muito bem aos novos tempos. Claro que ele nunca se entende muito bem com o celular – e isso é normal e bastante comum entre quem não nasceu com essa tecnologia ao lado -, mas no restante das situações ele se adapta muito bem. Earl não tem problemas com os imigrantes, muito pelo contrário.

Enquanto vemos alguns moradores do interior dos Estados Unidos olhando com desconfiança para mexicanos, Earl se dá muito bem com eles – antes, quando era um produtor de amarílis e empregava mexicanos como funcionários e, depois, quando trabalha com eles no tráfico de drogas. Depois, o protagonista de The Mule lida muito bem com grupos de “sapatas” motoqueiras, quando as encontra no caminho, e com uma família de negros quando para para ajudar-lhes na estrada.

Claro que ele erra no politicamente correto e usa palavras que não são bacanas para se referir a todas essas pessoas. Mas isso não faz dele um sujeito preconceituoso. Esse ponto é interessante porque mais do que prestar atenção no que alguém fala e nas palavras que usa é importante observarmos como ela age. Isso sempre vai se sobrepor.

Mas voltando para The Mule. O filme, no fundo, é um ir e vir nas viagens de Earl e, em paralelo, o movimento que a polícia faz para melhorar os seus índices de combate às drogas. O detetive Colin Bates (Bradley Cooper) lidera, junto com o detetive Treviño (Michael Peña), uma operação para desmantelar os cartéis de drogas mexicanos. Enquanto vemos Earl avançando nas graças do chefe do tráfico mexicano Laton (Andy Garcia), vemos o trabalho de Colin e Treviño, sob a supervisão e comando do agente especial interpretado por Laurence Fishburne, avançar.

A história, contada de forma linear, tem muito espaço para destrinchar a rotina de Earl e a sua relação conflituosa com a família formada pela ex-mulher Mary (Dianne Wiest), pela filha Iris e pela neta Ginny. Earl se sente culpado por não ter dado toda a atenção para a família que ela merecia ao mesmo tempo que sabe que a sua natureza era a de “curtir a vida” e fazer as coisas “à sua maneira”.

Com o dinheiro que ganha como “mula”, Earl prova isso ao ajudar a família ao mesmo tempo que compra uma caminhonete nova, recupera a propriedade perdida por dívidas e curte a vida comendo bem a cada viagem e curtindo com algumas mulheres jovens e bonitas. A parte do filme centrada em Earl e na sua família funciona muito bem, enquanto que a narrativa centrada no México e no cartel parece um tanto “deslocada”.

O personagem de Julio (Ignacio Serricchio) é um exemplo disso. Ele parece bastante “forçado” na narrativa. Se o propósito dele era o de mostrar que o cartel não é mole ao mesmo tempo em que também tem o seu caráter humano, acho que esse propósito ficou um tanto forçado. A narrativa de perseguição “gato e rato” do filme é previsível e tem um desfecho nada surpreendente. A parte mais interessante da produção é justamente o foco no protagonista, mostrando que alguém com 90 anos de idade ainda pode fazer muito – não apenas trabalhar, mas também curtir a vida e fazer as pazes com a própria família.

Da minha parte, como comentei antes, fiquei especialmente comovida com o final. Quando o personagem de Clint Eastwood ressalta a mensagem de que o que importa mesmo é a família e não o trabalho ou a carreira e que alguém pode comprar tudo, menos o bem mais precioso que existe, que é o tempo, não parece que seja Earl que esteja dizendo tudo isso, e sim o próprio Clint. Não tem como não se emocionar com isso.

Por outro lado, algo perto do final do filme me incomodou um pouco. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Em sua última viagem para o cartel, quando ganhou um ultimato para não atrasar e não sair da sua rota, Earl acaba fazendo tudo isso ao optar acompanhar os últimos momentos de Mary. Até aí, tudo bem. Ele desviar da rota e quebrar as regras não é problema. Agora alguém quer me convencer que realmente o cartel entregaria tanta droga para alguém sem colocar um rastreador no carro ou não ter investigado antes onde moravam os familiares dele? Entendo a forçada de barra para os propósitos do roteirista, mas achei isso difícil de acreditar.

Toda vez que um filme ignora o óbvio para justificar a sua narrativa, acho que a produção perde alguns pontos. Honestamente, esse filme não mereceria mais do que uma nota 8 – e isso porque temos Clint Eastwood em cena. Mas aquele final estilo “testamento” do diretor/ator me fez aumentar um pouco a nota da produção. The Mule é um filme mediano, mas para os fãs de Eastwood, sempre valera a pena vê-lo em cena.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Claro que envelhecer e ter a chance de chegar aos 90 ou aos 100 anos de idade é algo muito bacana. Uma benção. Mas nem todos chegam nessa idade bem como Clint Eastwood. Muitos tem vários problemas de saúde e precisam de cuidados permanentes. E mesmo os que envelhecem bem, geralmente, não tem as condições de Eastwood de continuar fazendo o que amam e de continuar trabalhando. Está na hora das nossas sociedades começarem a ver a velhice como um processo positivo e natural e a integrar mais os idosos em todas as atividades da sociedade, sem desprezar as pessoas depois de uma certa altura da vida.

Como não amar Clint Eastwood? Adorei as cenas em que ele se diverte dirigindo, cantando e “sassaricando”. Muito bacana também os momentos em que ele contracena com mexicanos e com a veterana Dianne Wiest. Ainda que ela pareça bastante “apagada” na história se comparamos a sua atuação com a de Clint.

Falando em atuações, achei o trabalho de Clint excelente. Ele está perfeito naquele personagem, vivendo um sujeito um pouco mais velho do que ele atualmente. Os outros atores fazem um bom trabalho, mas ninguém tem um grande destaque nesta produção. Todos parecem, me desculpem o termo, mas um pouco “anestesiados”. Eu não destacaria ninguém, em especial. Mas vou citar alguns nomes que fizeram parte desta produção.

Interessante como além de Clint, temos alguns atores de destaque nesta produção. Pessoas que estão em alta, como Bradley Cooper, ou outros que são reconhecidos por suas carreiras e por terem apresentado ótimos trabalhos em outras produções. Vale comentar o bom trabalho de Alison Eastwood como Iris; de Kinsley Isla Dillon como a jovem Ginny; de Dianne Wiest como Mary; de Taissa Farmiga como Ginny adulta; de Robert LaSardo como Emilio, líder do grupo que entrega as drogas para Earl; Laurence Fishburne como o líder do grupo de combate ao tráfico; Bradley Cooper como Colin; Michael Peña como Treviño; Eugene Cordero como Luis Rocha, o informante do cartel que acaba sendo fundamental para as ações de Colin e Treviño; Andy Garcia como Laton, chefe do cartel no México; Clifton Collins Jr. como Gustavo, funcionário de Laton que acaba lhe dando um golpe; e Ignacio Serricchio como Julio, um dos homens de confiança de Laton.

Além deles, vale citar outros nomes que fazem o trabalho de coadjuvante – quase em pontas no filme: Richard Herd como Tim Kennedy, colega de Earl no cultivo de amarílis; Victor Rasuk como Rico, amigo de Ginny que coloca Earl no negócio do tráfico; Alan Heckner como o policial do Texas que para Earl; Paul Lincoln Alayo como Sal, um dos traficantes que trabalham com Earl; Dylan Kussman como o Sheriff que interpela Earl e os mexicanos que estão com ele; Manny Montana como Axl, um dos homens de Gustavo; Lobo Sebastian como Lobo, outro capanga de Gustavo; e Derek Russo como o grandão que bate na máquina de gelo e que é detido no lugar de Earl no motel que está sendo vigiado por Colin e Treviño.

Da parte técnica do filme, o único item maior de destaque é a direção segura e eficiente de Clint Eastwood – um diretor que entende muito bem da “ciência” por trás das câmeras. O roteiro de Nick Schenk é apenas mediano. Além destes aspectos, vale citar o bom trabalho de Yves Bélanger na direção de fotografia; a trilha sonora bastante pontual e “sentimental” de Arturo Sandoval; a competente edição de Joel Cox; o design de produção de Kevin Ishioka; a direção de arte de Rory Bruen e Julien Pougnier; a decoração de set de Ronald R. Reiss; e os figurinos de Deborah Hopper.

The Mule é dedicado a Pierre Rissient e a Richard Schickel. Fui procurar um pouco mais sobre eles e vi que Pierre Rissient era francês, nascido em Paris em 1936. Ele trabalhou como diretor assistente e morreu em maio de 2018 aos 81 anos. Entre outros trabalhos, ele foi diretor assistente de Jean-Luc Godard no clássico À Bout de Souffle (Acossado, no Brasil). Richard Schickel, natural do Wisconsin, nos Estados Unidos, atuou como produtor, diretor e roteirista. Ele nasceu em 1933 e faleceu em fevereiro de 2017. Ele produziu, dirigiu e escreveu o roteiro de diversos filmes sobre nomes do cinema, inclusive focando no trabalho de Eastwood.

The Mule estreou em dezembro de 2018 em uma première em Los Angeles. Até o momento, o filme não participou de nenhum festival de cinema e não ganhou nenhum prêmio.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. The Mule é inspirado na história de Leo Sharp, um veterano da Segunda Guerra Mundial que e tornou a “mula” de drogas mais antiga e prolífica do mundo para o Cartel de Sinaloa, um dos mais conhecidos do México.

Para o personagem de Earl, o figurinista queria que diversas roupas tivessem o aspecto de desgastadas. Por isso foram resgatados trajes utilizados por Clint Eastwood em outros filmes, como Gran Torino (comentado aqui no blog), True Crime e In the Line of Fire.

Fiquei curiosa para saber sobre a vida “sentimental” de Clint Eastwood. Afinal, o seu personagem fala tanto de família, não é mesmo? 😉 Clint foi casado pela primeira vez com Margaret Neville Johnson, com quem ele esteve junto entre 1953 e 1984. Com ela, Clint teve dois filhos. Em 1996 ele se casou com Dina Eastwood, com quem ele teve uma filha e com quem ele ficou casado até 2014. Eles se divorciaram naquele ano.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 122 críticas positivas e 52 negativas para esta produção – o que garante para The Mule uma aprovação de 70% e uma nota média de 6,11. O site Metacritic, por sua vez, apresenta um “metascore” 58 para esta produção, fruto de 19 críticas positivas, 15 medianas e três negativas.

Clint Eastwood ainda chama muita atenção nos cinemas. Isso é o que demonstra o site Box Office Mojo. The Mule, produção que teria custado cerca de US$ 50 milhões, teria faturado pouco mais de US$ 103,8 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e mais US$ 65,1 milhões nos cinemas de outros mercados. No total, o filme faturou cerca de US$ 168,9 milhões. Um belo resultado para um filme interessante, mas que não é excepcional.

The Mule é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso o filme passa a figurar na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog. 😉

CONCLUSÃO: The Mule, em si, não nos apresenta uma história realmente impressionante. Mas o filme nos emociona porque parece que Clint Eastwood está nos deixando o seu testamento. E as maiores mensagens que ele quer nos passar é que a família é o que realmente interessa (ou o amor, em outras palavras) e que você até pode comprar tudo, menos o tempo. Sabendo que no dia 31 de maio o diretor vai completar 89 anos, parece que a fala de seu personagem é a dele próprio. Como não se emocionar com isso? O filme vale por Clint, como tudo que ele faz. Não é uma produção brilhante, mas ela é sensível e tem a sua mensagem. Se você é fã dele, não pode perder.