Burn After Reading – Queime Depois de Ler

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Os irmãos cineastas Ethan e Joel Coen não são bem certos da cabeça. Isso eles já comprovaram em mais de um filme de suas carreiras e, novamente, reafirmam esta característica com Burn After Reading. Afinal, hoje em dia, não pode ser muito “certo da cabeça” quem faz um humor ácido, que trata de mortes e da violência como consequências lógicas de uma sociedade desumanizada e que gasta zilhões de dólares a cada ano com espionagem, segurança e formas variadas de controle social. Apenas eles – e alguns outros cineastas atualmente – podem fazer um filme que trate destes temas sem parecerem caricatos ou ridículos. Não. Pelo contrário. Burn After Reading apenas reforça a idéia das pessoas que admiram esta dupla pelo que ela explora visivelmente e, em especial, nas entrelinhas de seus filmes.

A HISTÓRIA: O consultor da CIA Osbourne Cox (John Malkovich) é afastado de seu trabalho e recomendado para um posto “menor” fora da instituição – mas, revoltado com a decisão de seu superior, Palmer Smith (David Rasche), ele resolve dizer adeus definitivamente ao trabalho. Em casa, ele comunica a nova realidade para a mulher, Katie (Tilda Swinton), que fica preocupada com as finanças domésticas. Ao mesmo tempo, farta do marido e querendo assumir o relacionamento com o amante, Harry Pfarrer (George Clooney), ela pensa em pedir o divórcio. Enquanto isso, Osbourne começa a trabalhar em um livro com tons autobiográficos que pretende revelar os bastidores do trabalho de um consultor da CIA. Aconselhada pelo advogado, Katie faz uma cópia dos arquivos do marido que, por acidente, acaba caindo nas mãos de Chad Feldheimer (Brad Pitt) e Linda Litzke (Frances McDormand), empregados de uma academia de ginástica que acabam enxergando no texto de Osbourne Cox uma oportunidade de conseguirem dinheiro.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Burn After Reading): Os irmãos Coen são ótimos no que fazem. Não apenas na direção, com a escolha acertada de planos de câmera exatos e pelo talento de guiar os atores pelos caminhos corretos de suas interpretações, mas sobretudo pelo roteiro que eles costumam lapidar com cuidado em cada linha. Burn After Reading, como muitos filmes da dupla, nos apresenta personagens incríveis jogados em situações igualmente peculiares. Quem mais, hoje em dia, conseguiria justificar tantos palavrões falados por minuto por uma figura como John Malkovich do que os Coen? Ou quem conseguiria pensar em um personagem tão irritante e desastrado para o galã George Clooney do que eles? Difícil dizer quem é o melhor neste elenco de astros afinados que assume a pele de personagens cômicos e, ao mesmo tempo, realisticamente incômodos.

Vamos começar falando de John Malkovich e da neura que circula ao redor dos agentes da CIA. Mesmo mal sofrido pelo personagem de George Clooney, que faz parte dos “federais” – ou, mais precisamente, do “U.S. Marshals Service”, que tem um artigo bem esclarecedor sobre como essa agência funciona aqui. Os dois, Malkovich e Clooney, a sua maneira, interpretam personagens enlouquecidos pela segurança – deles próprios e de suas famílias, mais que nada. Poderíamos classificá-los praticamente como neuróticos. No caso de Osbourne Cox, ele está mais interessado na tranquilidade de sua aposentadoria do que em controlar os carros que passam em sua rua. Mais “pavio curto” que Harry Pfarrer, por outro lado, ele não mede as palavras para desqualificar quem ouse afrontá-lo. Poucas vezes vi um ator como John Malkovich proferir tantos palavrões em tão pouco tempo. hehehehehehehehehe. Perfeito em seu papel descontrolado, ele está para tirar o chapéu neste filme. Curioso perceber que, por mais “valentão” que ele possa ser, Osbourne encontra uma queda-de-braço singular na própria casa, na figura da ambiciosa e um tanto “fria” esposa.

E George Clooney… inicialmente fiquei um pouco nervosa com aquele jeito dele irritante. A cena em que Harry Pfarrer se exibe no jantar oferecido pelos Cox, cuspindo comida enquanto fala, é de rachar o bico. Só por esta cena o ator merece aplausos. Mas depois ainda virá mais… como nos outros filmes em que trabalhou com os Coen, Clooney se revela em Burn After Reading. Se fosse analisar apenas esta intepretação, eu diria que o ator francamente topa tudo, deixa o ego para trás e se coloca na pele do personagem. Pena que não é todos os dias que Clooney se entrega assim a um personagem – ou o problema esteja na falta de papéis desta natureza para ele… vai saber. De qualquer forma, além da cena do jantar, a sequência do pavor dele pela invasão de um homem na casa da amante e a mesma reação no parque ao saber da ligação entre Linda e Chad valem o salário milionário do ator – e o tempo que gastamos por vê-lo neste filme.

Mas além de Malkovich e Clooney, o filme conta com uma outra grande interpretação masculina: Brad Pitt como o desmiolado Chad. Dei muitas risada com ele, porque Pitt está simplesmente incrível e perfeito. Outro ator que deixou o ego de lado para interpretar este papel, e sem cair no erro que seria fácil de cometer em uma interpretação do gênero, que é o do estereótipo. Ele e os outros atores comprovam que existe uma diferença clara entre fazer uma comédia e/ou sátira sobre determinadas “idéias préconcebidas” das pessoas e a prática de simplesmente assumir estas idéias como realidade – ou vestir estereótipos. 

As mulheres desta história são as únicas, digamos, mais “plausíveis”. Pelo menos a ambiciosa personagem de Tilda Swinton. A interpretada por Frances McDormand também é um pouco exagerada, a exemplo dos homens da trama, mas nada que não possa ser visto como um exagero crítico. E Burn After Reading é bastante crítico, meus amigos. A sua maneira, os irmãos Coen abrem a artilharia contra a sociedade das aparências, do culto exagerado ao corpo – e não ao intelecto -, na mesma medida em que metralha instituições de “inteligência” como é o caso da CIA e dos U.S. Marshals. Na ótica divertida e exagerada de Joel e Ethan, o culto ao corpo chega ao extremo de justificar crimes e organizações de “inteligência” servem apenas para alimentar neuroses, manias de perseguição e o gasto de recursos e energias para apagar os incêndios que elas mesmas provocam. Não é todos os dias – e nem qualquer diretor – que nos apresentam questionamentos como estes. Palmas para os Coen!

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além das estrelas do filme já citadas, que ocupam grande parte do interesse dos diretores, vale citar o papel secundário vivido pelo ótimo ator Richard Jenkins. Nesta história ele interpreta a Ted Treffon, o chefe apaixonado de Linda e supervisor de Chad na academia. Nesta história ele não tem o protagonismo de The Visitor, por isso ele acaba meio que “desaparecendo” atrás dos atores principais – ainda que ele tenha pelo menos um grande momento nesta história, quando confronta a Osbourne Cox.

Outros atores que participam em papéis secundários: Elizabeth Marvel como Sandy Pfarrer; J.K. Simmons como o superior de Palmer Smith na CIA; Olek Krupa como o russo Krapotkin; e J. R. Horne como o advogado contratado por Katie Cox para o divórcio.

Para quem gostou da fotografia do filme – que é bem feita, mas nada excepcional -, o responsável por ela é Emmanuel Lubezki. A trilha sonora leva a assinatura de Carter Burwell, e a edição, dos irmãos Coen. 

Burn After Reading recebeu a nota 7,3 dos usuários do site IMDb. Achei baixa. Merecia mais – prova disso é a nota que eu dei para o filme. 😉 Certo que não precisava tanto, mas acho que pelo menos um 8,5 ele merecia. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes dedicaram 161 avaliações positivas e 47 negativas para a produção – o que lhe garantiu uma aprovação de 77%. Melhor que o IMDb.

Para constar: o filme é uma co-produção Estados Unidos, Inglaterra e França. 

Em sua trajetória, Burn After Reading concorreu a nove prêmios – incluindo dois Globos de Ouro -, mas não ganhou nenhum deles.

De bilheteria ele foi bem, obrigado. Mas não tão bem quanto algumas pessoas deveriam imaginar… afinal, esse foi o filme seguinte dos premiados com o Oscar imãos Coen. Mas ele se pagou, pelo menos. Burn After Reading teria custado aproximadamente US$37 milhões e faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 60,3 milhões. 

hahahahahahhahahahahahahaha. Agora que reparei um detalhe de um dos cartazes do filme… “Intelligence is relative”. Melhor impossível, vai. Grande sacada – e com duplo sentido, como o filme pede.

CONCLUSÃO: Uma comédia bastante cínica e crítica dos irmãos Ethan e Joel Coen que não poupa ninguém em um raio de quilômetros que abrange agentes secretos da CIA e agências afim e enlouquecidos por academias de ginástica. Diretores, roteiristas e editores desta história lançada depois do quatro vezes premiado com o Oscar No Country for Old Men, os irmãos Coen volta a brincar com os estereótipos vigentes na sociedade sobre diferentes personagens para contar uma história de traição e de disputa, onde o sexo, o dinheiro e o jogo pelo poder dominam o cenário apesar das aparências de futilidade. Uma produção que garante algumas boas risadas ao mesmo tempo em que joga pitadas de ácido em alguns dos produtos mais importantes do atual Estados Unidos da América. Receitado para quem enxerga o que vê e um pouco mais.

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Barfuss

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Um filme pode começar bem, muito bem. Um plano-sequência perfeitamente filmado e que capta os pés descalços de uma moça – o que, saberemos depois, simboliza sua necessidade por liberdade e revela a estranha realidade vivida por ela até então. Barfuss tem uma direção de fotografia belíssima e uma trilha sonora muito acertada, assim como um casal de protagonistas bastante carismáticos – e belos. Mas… existe um imenso mas nesta história, e ele se chama roteiro. Mas poderia ser confundido também com direção. A verdade é que estes dois últimos elementos tornam uma história que poderia ser inovadora e bacana em algo muito parecido a um videoclipe e/ou uma história romântica exagerada no tom. 

A HISTÓRIA: Leila (Johanna Wokalek) vive em uma instituição para doentes mentais. Tímida e assustada, ela se mantêm calada nas sessões coletivas coordenadas pela médica Blöchinger (Imogen Kogge). Por seu lado, Nick Keller (Til Schweiger) é o típico ovelha negra da família… demitido de todos os empregos nos últimos anos e parecendo sem rumo, ele é empurrado para a vaga de servente na instituição em que Leila está internada. Esta será a sua última oportunidade, deixa claro o assistente social (que lhe atende. Nick se sai muito mal no primeiro dia de trabalho, mas acaba salvando a vida de Leila, que a partir daí passa a seguir o rapaz recentemente demitido.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Barfuss): O melhor do filme, para mim, é a direção de fotografia de Christof Wahl. Todas as cenas estão embebidas em lentes em tom pastéis e/ou alaranjados, o que torna o filme, ao mesmo tempo, acolhedor e um pouco “envelhecido”. Alguns podem entender como uma “aura irreal” que acompanha a história do iníco até o final – o que eu acho bastante coerente com o roteiro um bocado flutuante. De qualquer forma, para os planos de câmera escolhidos pelo diretor, roteirista e ator Til Schweiger, a direção de fotografia funciona a perfeição.

Aliás, devo admitir que demorou para cair a minha ficha sobre os “cabeças” deste filme. Só agora, ao escrever esta crítica, que reparei que o protagonista bonitão é, também, o diretor e roteirista. Huuuummmmm… Til Schweiger ganhou uns pontos comigo quando eu me dei conta disso. E não porque ele tenha feito um roteiro bacanérrimo. Pelo contrário. O texto escrito por ele, ao lado de Jahn Preuss, Nika von Altenstadt e Stephen Zotnowski é o ponto fraco de Barfuss. E a direção, exceto algumas cenas bastante inspiradas, também não é nada primorosa. Na verdade, o tom “a la videoclipe” do filme é um dos pontos que mais me irritou. Achei a verve pop de Barfuss desnecessária e pobre. A premissa do filme merecia outra levada – e um roteiro poderia ser um pouquino melhor também. Mas a cada dia me convenço mais de que vários roteiristas trabalhando em um mesmo filme, em praticamente todos os casos, resulta em um filme estranho – algumas vezes mal costurado, outras vezes apenas pobre de espírito.

Barfuss é um destes filmes com grande potencial. Tecnicamente bem feito e com uma história que poderia render uma grande produção, ele acaba ficando menor do que o esperado. Fatores que me incomodaram (além dos já citados): algumas “caras e bocas” dos protagonistas, que parecem estar se preocupando mais com o efeito da beleza deles do que com a interpretação. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Um exemplo categórico é a sequencia em que Nick é preso. Os closes dele e de Leila, ambos estampando expressões forçadas, lembra um filme de quinta ou uma propaganda de algum produto qualquer. O roteiro, por sua vez, meio que “descamba” depois que Leila foge do hospício. Quem acreditaria, realmente, que Nick levaria a garota até o casamento do irmão, Viktor (Steffen Wink) com sua ex-namorada, Janine (Alexandra Neldel). Ainda que ele quisesse provocar “ciúme” ou qualquer coisa parecida na ex ou no irmão, para isso ele se valeria de uma garota que ele não conhece e que é desequilibrada? Difícel engolir, não?

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas mais difícil de aceitar ainda é a “crise” que ele tem na frente de vários executivos e do padrasto, Heinrich Keller (Michael Mendl), e a declaração que ele faz de que os dias que passou com Leila foram os “melhores da sua vida”. Certo. Então ele viveu vários anos com a ex-namorada que agora se casou com Viktor, teve outras mulheres várias e, justamente com a “louquinha-que-não-usa-sapatos” ele vive os melhores dias de sua vida? Detalhe: em uma viagem com cenas muito bonitas, devo admitir, mas que também se mostra bastante desastrosa. Tudo bem de Leila, que nunca tinha tido um namorado e que por 19 anos ficou prisioneira da própria mãe, falar isso, que teve “os melhores dias” de sua vida ao lado de Nick. Mas ele dizer o mesmo? Ah, não, me desculpem românticos de plantão, mas não dá para engolir. E tudo isso fez o filme perder pontos comigo, porque eu acho que ele não precisa dessa “exagerada” no roteiro, nem de um tom pop-videoclípito permanente para convencer. Menos, como quase sempre, teria valido mais.

Mas fora estes detalhes importantes, o filme é bacaninha. Tem um bom ritmo, belas cenas, um casal de protagonistas bastante simpático e um final, para não desmerecer o restante da história, absurdo e exagerado. (SPOILER – não leia, repito, se você ainda não assistiu ao filme). Em que país do mundo as pessoas fazem compras jogando direto no carrinho legumes e demais produtos que precisam ser pesados? Nenhum, né, meus amigos. Pois é… então Til Schweiger ou um dos outros roteiristas achou engraçada a piada do ovo mas, para mim, ela foi apenas idiota. Menos, meus amigos, menos…

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Agora, independente dos vários defeitos que eu apontei neste filme, algo é preciso admitir: os atores ganham o espectador pelo sorriso. Pelo menos eu, que sou apaixonada por sorrisos, fiquei encantada com Til Schweiger e Johanna Wokalek. 

Gostei de duas participações meio que “especiais” nesta produção – ou, em outras palavras, duas pontas de atores importantes no cenário de filmes alemães: Jürgen Vogel interpretando o “chefe” de Nick no manicômio; e Armin Rohde como Penner. Além deles, gostei da interpretação de Nadja Tiller como a mãe de Nick e de Viktor – ainda que, como a maioria dos personagens desta história, ela também se mostrou compreensiva demais, em um tom bastante irreal. Os rapazes devem gostar da provocadora Sarah Sommer, interpretada por Janine Kunze, uma atriz realmente muito bonita – mas “competitiva” demais nesta história.

Anteriormente eu comentei que Barfuss foi escrito por quatro pessoas, incluindo o diretor. Mas um dos roteiristas, Stephen Zotnowski foi quem teve a idéia original do filme – sobre a qual foi construído o roteiro.

Além da direção de fotografia inspirada, o filme se mostra interessante pela trilha sonora assinada por Max Berghaus, Stefan Hansen e Dirk Reichardt. O tom “modernete” do filme fica por conta de nomes como Dido, com sua “Don’t Leave Home”; Madrugada com “Electric”, e Leonard Cohen com a potente canção “Hallelujah”, interpretada por Ray Garvey.

Imagino que o galã e diretor Til Schweiger deve ter sonhado algumas noites com aquela “reviravolta” e correria automobilística protagonizada por ele… 😉

Na sua época – o filme foi lançado em 2005 -, Barfuss recebeu dois prêmios e foi indicado a outros três. Entre os que levou para casa estão um “Bambi” do Bambi Awards para Til Schweiger e o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Alexandra Neldel no austríaco Undine Awards.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para o filme. No Rotten Tomatoes existem apenas dois textos para “Barefoot” – título no mercado internacional -, ambos positivos. 

CONCLUSÃO: Um filme bastante absurdo sobre uma garota que ficou isolada do mundo por 19 anos e um rapaz que não se encaixa nos padrões sociais de homem bem-sucedido. Estes dois “patinhos feios” se encontram e vivem situações impossíveis na vida real, mas que rendem algumas cenas muito bonitas e alguma piada interessante. Exagerado no tom, Barfuss vale pelos intérpretes (que, na maior parte do tempo, estão bem), pela direção de fotografia e pela trilha sonora. Mas exageradamente no estilo videoclipe, deve ser visto como tal, ou seja, para passar o tempo com uma historinha bonitinha. Nada demais.

SUGESTÕES DE LEITORES: Ainda na minha “cruzada” por assistir bons filmes alemães, cheguei a Barfuss através da indicação do leitor Leandro Soares. Este filme foi melhor que o anterior, hein? Melhor que Mein Führer… mas ainda está abaixo dos outros títulos alemães que vi recentemente. Ainda assim, gostei de ter visto. Pelas características que eu citei acima. O próximo da lista – e prometo que não vou demorar muito para terminar com ela – será um filme mais antiguinho, de um dos grandes diretores do cinema alemão. Logo mais falo se o homem acertou a mão ou exagerou na dose. Devo assistir ainda, no máximo, nove títulos alemães, e daí vou partir para a lista de filmes que fui deixando para trás (incluindo outras sugestões de leitores). Vários abraços para quem está acompanhando esta saga alemã. 😉

Be Kind Rewind – Rebobine, Por Favor

 

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Por ironia, assisti duas comédias em seguida. A primeira, comentada há pouco, filmada na Alemanha. E esta segunda, Be Kind Rewind, com direção e roteiro de Michael Gondry, um dos franceses mais badalados de Hollywood – especialmente desde que filmou Eternal Sunshine of the Spotless Mind. Novamente Gondry acerta a mão ao dosificar as piadas em meio a uma forma de direção que funciona, equilibrando inovações narrativas e valorizando o trabalho dos atores. Para alguns, Be Kind Rewind pode ser visto como uma grande homenagem ao cinema como arte e ao antigo jeito de curtir os filmes – levando para a frente das telas uma videolocadora que ainda aluga fitas VHS e que não se importa em preservar em seu acervo filmes que praticamente não tem saída. 

A HISTÓRIA: Elroy Fletcher (Danny Glover) é o proprietário da videolocadora Be Kind Rewind onde, segundo suas histórias, teria vivido o ídolo do jazz Thomas “Gordo” Waller. Localizada na esquina de um antigo prédio, alvo da prefeitura para um projeto de modernização do bairro, a videolocadora é freqüentada por poucos clientes e por Jerry Gerber (Jack Black). Jerry é o melhor amigo de Mike (Mos Def), que cresceu trabalhando para Fletcher na videolocadora e que acaba ficando responsável pelo negócio quando o patrão sai de viagem. Por acidente, Jerry acaba apagando todas as fitas de vídeo da locadora. Para não serem descobertos, Mike e Jerry começam a fazer suas próprias versões dos filmes, o que acaba virando, posteriormente, uma alternativa para que eles não tenham que deixar o prédio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Be Kind Rewind): A grande qualidade de Be Kind Rewind é a sua criatividade. Quem imaginou um louco como Jerry Gerber sendo eletrocutado em uma tentativa de sabotagem e, depois, apagando todas as fitas de vídeo da locadora cuidada pelo amigo Mike? Demais!!! E melhor ainda a “saída” para o problema… uma nova versão dos filmes para “enganar” as pessoas. Claro que ninguém é idiota e eles percebem que os autores dos filmes são os amigos Mike e Jerry que, aqui outra surpresa, se tornam os ídolos da galera. Muito boa a idéia do diretor e roteirista.

Achei o filme, por tudo isso, uma grande homenagem ao cinema e ao que os filmes nos provocavam antigamente. Sem ser saudosista, Michael Gondry brinca com o prazer que era buscar uma videolocadora antigamente, percorrer as filas das fitas VHS e encontrar alguma produção clássica ou menos conhecida – diferente das locadoras padronizadas de hoje, que tem dezenas de filmes “blockbuster” para alugar e pouquíssimas produções que não sejam de fácil saída no mercado. Como bem constata Fletcher em sua “pesquisa de mercado”, os empregados das locadoras de hoje em dia não precisam entender sobre filmes, ter conhecimento específico. Basta saberem localizar as seções na locadora e cuidar para que o cliente alugue o que ele deseja – nem que para isso seja preciso apenas fazer uma pesquisa no computador da locadora. 

Pode parecer besteira, mas perdi bastante do interesse em ir ao cinema depois que eles todos migraram para shopping centers e para grandes complexos de negócios. Tenho saudades dos cinemas que existiam em prédios específicos, que passavam filmes comerciais mas que, também, exibiam produções não tão óbvias. Mas enfim… temos que nos adequar ao que existe hoje em dia – e nem que essa adaptação passe por transformar nossa casa em cinema e, finalmente, escolher o que queremos ver.

Mas Be Kind Rewind não homenageia apenas aos velhos negócios que apostavam no amor de seus donos e empregados pelo cinema. O filme também mostra a importância do envolvimento das pessoas nas filmagens de uma produção. Literalmente com “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”, Jerry, Mike e Alma (Melonie Diaz) vão convencendo as pessoas a participarem de seus filmes – que acabam virando a nova sensação da cidade. Com uma criatividade e uma memória para lembrar dos filmes – aos quais eles não podem rever antes de fazerem suas “versões” – que beira ao absurdo, eles vão refazendo alguns dos filmes mais famosos da história do cinema. Não importa o gênero e nem o orçamento que resultou na qualidade dos originais. Todos eles rendem uma versão toda especial e que acaba tendo bastante procura entre os espectadores.

Bem filmado e com atores que fazem um trabalho bastante competente, Be Kind Rewind é carismático e, para os amantes do cinema, uma comédia curiosa. Pena que o filme tenha “adaptações” apenas de filmes estadunidenses – não vi nenhuma refilmagem de filmes europeus ou latinos, por exemplo. Mas ok, se entendem as razões para isso… se o filme quer ser reconhecido pelo grande público, ele deve fazer referências a filmes conhecidos mundialmente – e não existe berço melhor para isto do que Hollywood. 

O que me irritou um pouco no filme foi Jack Black e sua eterna interpretação do mesmo personagem. Não importa o filme em que ele esteja, a impressão que eu tenho é que ele está interpretando sempre uma única persona. Enfim… mas ele está engraçado, como sempre – ou seja, nada excepcional. Agora, o bom mesmo foi ver a Danny Glover e a Mia Farrow em cena. Ela interpreta Miss Falewicz, uma antiga amiga de Fletcher que vira a guardiã da videolocadora enquanto o amigo está fora. Gostei destes dois veteranos em papéis que, aparentemente, fizeram eles viverem bons momentos.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para mim, foi inevitável não lembrar do tempo da faculdade, quando eu cheguei a acompanhar um grande amigo, o Fernando, dirigindo alguns de seus curtas. Na época, também criamos um projeto que incentivava as pessoas a criarem seus roteiros e fazerem curtas… foi bem bacana. E a verdade é que para filmar produções bacanas não é preciso muito mais do que criatividade, uma boa idéia na cabeça e vontade de sair filmando. Por esse lado, o filme trouxe boas recordações. Sem contar os clássicos do cinema que ele vai “parodiando/homenageando” no caminho.

Alguns podem achar incrível, mas o filme concorreu a dois prêmios: Melhor Filme no Golden Trailer do prêmio homônimo e Melhor Ator no prêmio Black Reel – mas, no fim das contas, não ganhou nenhum dos dois.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 6,6 para Be Kind Rewind. Quase um empate técnico com a opinião dos críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes: eles dedicaram 82 críticas positivas para o filme, contra 39 críticas negativas (o que lhe garante uma aprovação de 68%).

Achei curioso que a atriz Kirsten Dunst estava negociando o papel de Alma, mas acabou pulando fora do projeto do dia para a noite… acho que ela teria se dado bem com aquela personagem. 

Na questão de faturamento, o filme não foi bem. A produção, que teria custado aproximadamente US$ 20 milhões faturou, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 11,1 milhões. Certamente ficou beeeeeem abaixo do esperado pelos produtores. 

Pessoalmente, adorei o termo “sweded” para designar uma “obra feita por encomenda”… algo vindo da Suécia só podia ser artístico, não é mesmo? hehehehehehehehe. Essa foi uma sacada genial. Agora, algo que eu não sabia é que este termo surgiu graças a decisão do governo da Suécia em permitir o livre intercâmbio de arquivos pela internet – o que anda na contracorrente de todas as linhas de “perseguição” à pirataria mundo afora. 

Além dos atores já citados, vale a pena comentar os desempenhos de Irv Gooch como Wilson, um mecânico que acaba virando integrante fundamental nas filmagens “suecadas” dos amigos em apuros; Sigourney Weaver em uma superponta como Ms. Lawson, a mulher que preserva os direitos autorais das grandes companhias e destrói o trabalho do pessoal da Be Kind Rewind; e Chandler Parker como Craig, o sobrinho “perigoso-maloqueiro” de Miss Falewicz.

Da parte técnica do filme, gostei especialmente do trabalho complicadinho da diretora de fotografia Ellen Kuras e da edição equilibrada de Jeff Buchanan. A trilha sonora de Jean-Michel Bernard também merece ser citada.

Certo que o filme pode ser meio sem graça em alguns momentos, mas há de se convir de que ele aproveita uma época genial para ser lançado. Acredito que nunca antes foi tão fácil para as pessoas, com celulares, câmeras de foto e de vídeo baratas e que filmam com qualidade, fazerem suas próprias versões “toscas” de filmes conhecidos. E a prova disto está no Youtube ou em outros sites do gênero. Dizem, inclusive, que Be Kind Rewind reacendeu um hábito que já existia nestes sites, de serem “lançadas” versões caseiras de alguns filmes de Hollywood. Boa sacada do diretor a respeito.

Falando em sacadas, gostei também do título do filme… não sei se todos que lêem este blog são do tempo da fita VHS, mas era engraçado ouvir, às vezes, as reclamações dos proprietários de algumas videolocadoras que ficavam indignados com as pessoas que não rebobinavam os filmes. O problema chegou a tal nível que, lá pelas tantas, eles começaram a cobrar multas de quem não rebobinava. hehehehehehe. Divertidos aqueles tempos. E eu confesso: tenho um verdadeiro acervo de fitas VHS em casa. Eu gosto delas – ainda que faz tempo que não veja a nenhuma. 😉

CONCLUSÃO: Um filme divertido sobre dois amigos que se deparam com um grande pepino nas mãos: manterem o negócio de uma videolocadora sem nenhum filme que preste no acervo. A solução para o problema deles é das mais criativas – e rende momentos de puro deleite para os fãs do cinema, com a “releitura” de alguns dos filmes mais bacanas e/ou famosos produzidos em Hollywood. Belo roteiro que esbarra, algumas vezes, na repetição e em interpretações um tanto “preguiçosas” – como a de Jack Black, que parece interpretar o mesmo personagem filme após filme. Mas no geral, achei uma boa diversão – superior às comédias que tenho visto ultimamente.

Mein Führer: Die Wirklich Wahrste Wahrheit Über Adolf Hitler

 

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Eu gosto de filmes de comédia, ainda que eles não sejam o meu forte. Por indicação, cheguei até Mein Führer: Die Wirklich Wahrste Warheit über Adolf Hitler. A produção é uma paródia do 3º Reich e, principalmente, da figura de Adolf Hitler. Até um certo ponto, me pareceu interessante – especialmente no que se refere ao cuidado da produção, com o envolvimento de centenas de figurantes e com uma reconstrução de época importante para a história bastante esmeirada. Mas a qualidades terminam por aí… o protagonista (que não é Hitler, mas Adolf Grünbaum) faz um trabalho muito bom, respeitável, mas os demais atores e, principalmente, o roteiro, são por demais maniqueístas e sofrem de um humor escrachado que roça o lado infantil do espectador. Achei bastante fraquinho, para resumir.

A HISTÓRIA: Dr. Joseph Goebbels (Sylvester Groth) está preocupado com o seu Führer. Em dezembro de 1944, ele tira da cartola um plano ousado que envolve a aproximação de um judeu, o professor Adolf Israel Grünbaum (Ulrich Mühe), com Adolf Hitler (Helge Schneider). A idéia é que Grünbaum retome a energia dos discursos do Führer de 1939 para, novamente, incendiar os alemães – fragilizados com uma guerra que começa a cobrar um preço grande das cidades daquele país.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mein Führer): O filme começa bem. A abertura que mostra Hitler desfilando no dia 1º de janeiro de 1945 até o momento de seu discurso e a apresentação de Adolf Grünbaum – a primeira parte, resgate de filmes originais, a segunda, encenação – foi bastante acertada. Mas a partir daí o filme cai de qualidade. A retirada do judeu que vira alvo de um plano mirabolante de Goebbels se mostra razoável, especialmente na piada sobre a exigência dos famosos formulários para justificar cada uma das ações mais significativas envolvendo o prisioneiro.

O problema começa quando Grünbaum encontra Hitler e os dois começam a se relacionar. Ainda que o ator que interprete o chefe supremo do nazismo seja muito bom, sua caracterização exagerada não esconde a intenção do diretor e roteirista, Dani Levy, em querer ridicularizar aquela figura histórica. Talvez para alguns o recurso funcione, mas para mim, pareceu apenas ridículo. A parte cômica da ridicularização não me atingiu, apenas a outra parte… 😉

Toda a côrte que circula ao redor de Hitler e que acompanha aqueles cinco dias de trabalho do ator tomou, na minha opinião, muito tempo do filme para quase nada. Certo que o diretor/roteirista queria mostrar que Hitler não era o único que mandava por ali e etcétera e tal, mas tanto “controle” nos bastidores acabou não levando a lugar algum, praticamente. Eu cortaria praticamente metade das cenas em que aparecem aqueles militares e ministros de primeira grandeza do regime nazista. E o maniqueísmo chega até a família de Grünbaum, que se mostra bastante valente nos discursos e pouco efetiva na prática – o que segue uma idéia pré-concebida de que os judeus são pouco combativos. 

Enfim… um filme que pretende ser uma grande comédia de erros sobre o sistema nazista, especialmente no que se refere a época de seu crepúsculo, mas que acaba se resumindo a uma série de idéias bastante exploradas sobre os “problemas” familiares e sexuais de Hitler e demais conceitos que tornam os personagens simplórios e pouco complexos. E essa série de idéias acaba sendo repetida pelo roteiro até que elas virem praticamente verdades. Dani Levy explora bastante os “complexos” de Hitler, como a violência da qual ele teria sido vítima quando era criança, provocada por um pai que sempre lhe agrediria – e por uma mãe conivente.

O ditador é mostrado ainda como um homem que tem um certo complexo de perseguição, achando que a qualquer momento ele pode ser vítima de um golpe. A parte de “frustração” amorosa é pouco mostrada, mas quando Hitler aparece com Eva Braun (Katja Riemann) na única sequencia do filme em que os dois aparecem juntos, ele se mostra incapaz de ter uma ereção. Certo. Até chega o “humor” do roteirista. Mas se descontamos essa necessidade gritante de Levy em ridicularizar a Hitler – não entendi, até agora, muito o porquê – o que, convenhamos, é o principal do filme, sobra pouca coisa. Mas o que sobra é a parte da “técnica dramática” de Grünbaum, que desenvolve conceitos interessantes para o “ator” trabalhar com seus sentimentos primários na hora de “encarnar um personagem”. Esta parte do filme vale a pena, assim como a “reconstituição” de uma Berlim destroçada no final da guerra. Mas isso é tudo. O restante é apenas um lixo travestido de comédia.

NOTA: 6.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O grande nome do filme, não há dúvida, é o ator Ulrich Mühe, que ficou conhecido por seu papel no ótimo Das Leben der Anderen. Depois de Mein Führer, o ator contracenou em apenas mais dois filmes e em uma série de TV antes de falecer, no dia 22 de julho de 2007. Grande ator, ele me pareceu o único a não cair em uma interpretação maniqueísta ou simplória neste filme. Para infelicidade dos amantes do cinema, Ulrich Mühe foi vítima de um câncer de estômago que o matou jovem, aos 54 anos de idade.

Além dos atores já citados, vale comentar as atuações de Adriana Altaras como Elsa Grünbaum; Stefan Kurt como Albert Speer; Ulrich Noethen como Heinrich Himmler; Lambert Hamel como Obergruppenführer Rattenhuber; Udo Kroschwald como Martin Bormann; e Ilja Richter como Kurt Gerheim.

Os usuários do site IMDb deram uma nota baixa para o filme: 5,5. Talvez eu empatasse com eles na avaliação. 😉 No Rotten Tomatoes existe apenas uma crítica para o filme, e ela é negativa.

A única “sacada” inteligente do filme ocorre quando o amigo de Adolf Grünbaum comenta que eles deveriam encenar a peça Othelo, de William Shakeaspeare, quando eles se encontrassem após a (falsa) libertação dos prisioneiros do campo de concentração onde estavam há poucos dias. A mensagem é clara, porque Othelo trata, basicamente, da fraqueza humana e da ira – a mensagem foi o suficiente para Grünbaum saber que estava sendo enganado.

Em sua trajetória, Mein Führer foi indicado a três prêmios, saindo vencedor de um deles: o de melhor ator para Ulrich Noethen no prêmio da German Film Critics Association

CONCLUSÃO: Uma comédia que mistura o escracho com o drama sobre um plano mirabolante que teria aproximado um famoso ator judeu de Adolf Hitler. Pela reconstrução de época, o filme se mostra bastante competente. Mas o problema está no roteiro e na direção um tanto preguiçosos, que se resumem a tirar sarro de Hitler e de alguns de seus homens de primeira grandeza no comando. Talvez ele pareça engraçado com suas piadas pueris para muita gente, mas para mim, elas não fizeram nem cócegas. Pareceram, apenas, insultantes a uma figura histórica já bastante combatida. Nada mais. Ainda assim, talvez valha ser visto por se tratar de uma das últimas interpretações do grande ator Ulrich Mühe.

SUGESTÕES DE LEITORES: Dentro da série de filmes da Alemanha que estou vendo, motivada pelo resultado da primeira enquete deste blog, assisti a este por indicação do Leandro Soares, que recomendou uma série de filmes bem bacanas. Bem, Leandro, este primeiro eu não gostei muito, mas tenho certeza que tem outros que você indicou e que vou assistindo aos poucos dos quais vou gostar mais. Ainda assim, obrigada pela indicação – ele não estava na minha lista de filmes para ver até então -, especialmente porque pude ver, mais uma vez, Ulrich Mühe em cena.

The Duchess – A Duquesa

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Filmes de época, normalmente, são bacanas. Porque sinalizam um grande investimento – de recurso e de talentos – em reconstruir um tempo que ficou no passado e porque, claro, revelam uma parte da história que nos trouxe até aqui. Sempre acho curioso ver como “vivíamos” tempos atrás – sejam séculos ou décadas. Então, em teoria, filmes assim me agradam – ainda que, admito, eu não sofra de nenhuma fixação que me faça correr atrás de cada título do gênero. Mas acho bacana, no geral. Só que talvez por ter assistido a tantos filmes considerados “de época” até hoje eu, atualmente, exija algo mais. Um pouco mais de qualidade ou de criatividade, pelo menos. E sei lá, acho que ainda tenho na lembrança o comentado por aqui The Other Boleyn Girl… Só sei que assisti a este The Duchess e gostei, certo… mas não cai de amores pelo filme de jeito maneira.

A HISTÓRIA: O Duque de Devonshire (Ralph Fiennes) está buscando uma jovem mulher para lhe dar um herdeiro. Visitando Lady Spencer (Charlotte Rampling) ele se decide pela filha da aristocrata, Georgiana (Keira Knightley). A garota fica empolgada, ainda que, pouco antes, estivesse em um de seus jogos com conotação um tanto amorosa com Charles Grey (Dominic Cooper) e demais integrantes da aristocracia inglesa. Transformada em Duquesa, Georgiana percebe que o marido é rude e nada interessado nela ou nas filhas que o casa vai tendo. Afinal, o “contrato matrimonial” deles previa um garoto, um herdeiro. Para complicar a situação, a Duquesa convida para sua casa Bess Foster (Hayley Atwell), uma aristocrata que foi abandonada pelo marido e que acaba se tornando amiga de Georgiana em uma festa. 

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Duchess): Toda vez que um filme começa com “baseado em uma história real” eu fico com o pezinho atrás. Sei lá… para mim isso é uma senha dos produtores para tentar emocionar as pessoas mais do que o necessário logo de cara. Afinal, cada acontecimento “terrível” que aconteça acaba se tornando muito mais forte porque “realmente aconteceu”. Isso é bem relativo, porque sabemos que a maioria dos filmes “baseados em histórias reais” mudam um pouco essa tal de história real. Então prefiro as produções que não falam isso logo no início, mas no final, por exemplo, como é o caso de Into the Wild.

Então The Duchess começa com essa informação, de que é um filme “baseado em uma história real”. Certo. A partir daí, mergulhamos em parte dos bastidores da vida da aristocracia inglesa do século XVIII, incluindo políticos que circulam ao redor do Duque de Devonshire (neste link existe uma história desta rama familiar). A história é meio óbvia (pelo menos para quem já assistiu a alguns filmes do gênero): existe os interesses dos monarcas e a subjugação das mulheres – ou, em outras palavras, uma diferença brutal entre os direitos de uns e outros; a necessidade proeminente da realeza em continuar com o nome de sua família ou, para resumir, a obrigação da mulher em gerar um filho homem; disputas pelo poder, frieza no trato humano, e demais efeitos que são gerados por estes elementos. Ah, claro que existem traições do monarca e um amor impossível e verdadeiro em jogo. Enfim, aquelas história que estamos tão acostumados a ver.

Para ser franca, o único “acerto”, por assim, dizer, do roteiro de Jeffrey Hatcher, Anders Thomas Jensen e do diretor Saul Dibb foi mostrar um pouco da vida fora da côrte. Acabamos por assistir, ainda que como pano-de-fundo da história, a idolatria do povo daquele época para com os monarcas – seria uma prévia da atual fascinação das pessoas por estrelas de Hollywood, “heróis” dos esportes e celebridades em geral? – e, o que foi mais interessante, parte da criação teatral e dos bastidores políticos da época. Pena que estes três elementos, fascínio do povão pela monarquia, esforço criativo dos autores teatrais e os laços que uniam políticos e monarcas seja tratado de forma tão ligeira pelo filme. Para mim, estes pontos poderiam ter feito da produção algo melhor. Mas enfim…

Vale citar que os três roteiristas se basearam na obra “Georgina, Duchess of Devonshire”, escrita por Amanda Foreman. Aliás, achei curiosa a polêmica que esta autora causou na Inglaterra. Segundo este texto no blog Recanto das Palavras, ela teria posado nua, tampando suas partes “íntimas” com exemplares do livro de Georgina, como uma forma de autopromoção que foi condenada por colegas biógrafos. Vendo a foto, eu diria que o gesto dela foi, no mínimo, ridículo – e despropositado, vamos! Afinal, não seria mais fácil ela posar diretamente para a Playboy? Não precisaria, para isto, ter feito um doutorado ou ter pesquisado para escrever um livro. 🙂

Ainda que eu tenha achado o filme fraquinho, ele é muito bem feito, claro. Tem uma direção de fotografia, figurinos e direção de arte impecáveis. Como 99,9% dos filmes de época, convenhamos. 😉 Ainda assim, vale citar o trabalho do húngaro Gyula Pados na fotografia, de Michael O’Connor nos figurinos e de Karen Wakefield na direção de arte. O’Connor, aliás, ganhou merecidamente o Oscar deste ano por seu trabalho. Ainda assim, de todos os elementos técnicos, o que eu acho que verdadeiramente se  vê em evidência por sua qualidade (além dos figurinos) é a trilha sonora, assinada por Rachel Portman. Achei ela belíssima, além de um elemento importantíssimo para a história – como deve ser uma trilha sonora. Grande trabalho de Portman.

No mais, os atores estão bem. Keira Knightley é (e está) belíssima. E dá conta do recado, com bastante coerência. Ralph Fiennes, Charlotte Rampling e Dominic Cooper também fazem seus papéis de forma ajustada. Para mim, se destacou mais que eles – em um empate com Keira Knightley – a atriz Hayley Atwell. As duas chegam um passo à frente de seus colegas de cena, ainda que ninguém faça nada excepcional. Ouvi em alguma parte burburinhos de pessoas que acreditavam que Ralph Fiennes merecia uma indicação ao Oscar pelo seu desempenho como o Duque deste filme. Não acho. Ele está bem, mas não para receber um prêmio – e nem ser indicado ao Oscar.

Sobre a história, convenhamos que era mais que previsível que Georgina se casasse com um duque nada amoroso, mais chegado em ser bacana com as amantes do que ela – afinal, ela era sua mulher, feita para procriar e não para ter ou dar prazer – e mais afetuoso com os cães do que com pessoas. Neste cenário, até que ela soube se fazer bastante presente, em uma época em que a mulher não tinha voz e nem voto. Em tempos modernos, ela seria o que muitos chamam de uma “mulher à frente do seu tempo”. Quer dizer, até certa medida. Porque ela leva para casa uma mulher que certamente viraria amante do marido – e, por mais que o filme sugira o contrário, tenho minhas dúvidas se ela não fez isso propositalmente para ser menos “procurada” na cama pelo duque. Então, honestamente, não sei até que ponto ela realmente gostava do amante e queria viver uma vida alternativa com ele. Talvez a Duquesa soubesse de seu poder e gostasse dos seus seguidores mais do que de uma liberdade idealizada. 

E antes que me esqueça de falar sobre isso (mais uma vez, porque esta é a segunda atualização do texto): achei especialmente emblemática a cena em que o Duque olha para os filhos, brincando no jardim do palácio da família, e comenta de como seria bom ter aquela liberdade. Para mim, essa cena quer dizer muita coisa. Imagino que ele pensou o mesmo de Georgina, quando a viu pela janela “brincando” com damas e cavalheiros da nobreza, e sentiu um bocado de inveja daquilo. Na impossibilidade de viver algo assim, ele quis ter parte daquilo para ele – uma juventude que ele não tinha mais. E, de quebra, ele cuidou de terminar com a liberdade e aquele prazer de jogar que a esposa tinha até então. Egoísta e ridículo, ainda que igualmente vítima de um sistema de castas e de poder absurdo e que não deveria existir em tempos modernos – mas que ainda é preservado em locais como Espanha e Inglaterra, onde perdura a monarquia.

NOTA: 6,5. 

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Como acontece com muitos filmes de época, especialmente sobre a nobreza, os personagens em tela aparecem um bocado “suavizados”. Afinal, aparentemente, “vende mais” ou dá melhor ibope as boas e velhas histórias de amor do que uma produção que tente tocar um pouco mais fundo nos bastidores da nobreza. No caso de Georgina, por exemplo, existe uma teoria de que ela seria bem mais “liberal” do que a imagem que aparece no filme. Envolvida com artistas e políticos – influente por isso e por seu estilo, que verdadeiramente inspirava as mulheres na época -, ela foi tema de muitos pintores e desenhistas da época. Um deles, Thomas Rowlandson, segundo este artigo da Wikipedia, teria desenhado uma sátira da Duquesa em que ela trocava beijos por votos nas eleições de 1784, com a finalidade de eleger Charles James Fox – que viria a se seu amante. Possivelmente ela fosse mais classuda e, ao mesmo tempo, mais “libertina” do que a imagem que o diretor Saul Dibb nos apresenta em The Duchess.

O diretor, aliás, é um bocado “novato”. The Duchess é o seu segundo filme nos cinemas. Ele dirigiu em 2004 a Bullet Boy, um drama inglês sobre a bandidagem na Londres moderna. Além de Bullet Boy, ele se envolveu, até agora, em dois projetos para a TV. Nada mais. 

Até agora, a produção ganhou quatro prêmios – incluindo o Oscar mencionado para o figurino – e recebeu outras 14 indicações. Todos os prêmios que recebeu, sem exceção, foram para o trabalho de Michael O’Connor. 

Os usuários do site IMDb foram um pouco mais generosos do que eu com o filme… lhe dedicaram a nota 7. Os críticos que tem textos publicados no Rotten Tomatoes, por sua vez, publicaram 92 críticas positivas e 62 negativas para a produção, o que lhe garantiu 60% de aprovação. Totalmente sem querer, mas acabei ficando no meio termo entre público e crítica. hehehehehehehehe. Pior que, logo que terminei de ver o filme, veio a nota 7 ou 6,5 na minha cabeça, mas preferi a segunda ao relembrar a avaliação que eu tinha feito de The Other Boleyn Girl. Não tenho dúvidas que gostei mais daquele filme do que deste – assim como apreciei mais o trabalho de Natalie Portman do que de Keira Knightley, ainda que a segunda tenha uma presença muito maior em termos de “realeza” e, quem sabe, de beleza mesmo. Mas o que me interessa é o talento.

The Duchess é uma co-produção entre Inglaterra, Itália e França.

Mas para não dizer que o filme é completamente previsível, admito que me surpreendi um pouco com a reação do Duque lá pelas tantas. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Afinal, não era todo nobre da época que admitia uma traição. Acredito que o mais previsível seria esperar que ele matasse o oponente ou a mulher, para ficar com a amante, mas não… William Cavendish até aceita que Georgiana tenha uma filha bastarda do amante. Incrível, eu diria. Mais um sinal de que a mulher deveria ser muito porreta naquela época – para ter tanta moral de se manter viva mesmo com essa “pisada na bola”. No fundo, acho que ela deveria merecer uma interpretação menos calcada na beleza e mais na perspicácia – quem sabe uma Cate Blanchett ou outra atriz desta envergadura?

E não sei se toda a mulher teria a resposta certeira que teve Georgiana. Não sou mãe ainda, admito que isso possa afetar meu julgamento… mas será mesmo que eu preferiria abrir mão do amor da minha vida para ficar em uma história infeliz por causa de meus três filhos? Provavelmente sim, mas não sei… é um preço bem alto para se pagar. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Também achei a “química” entre Knightley e Atwell forte desde a primeira vez que elas se encontram. Até aquela cena no quarto. Daí pensei: “Uau, vamos partir para algo novo! Uma relação bissexual durante a inglaterra de três séculos atrás…”. Mas que nada! Foi apenas uma sugestão besta no meio do filme. Que pena. 😉

Agora, fiquei especialmente indignada ao pesquisar um trailer do filme para colocar aqui no blog quando encontrei uma versão de trailer que foi veiculada na Inglaterra para promover o filme. Neste trailer – que me recusei a linkar por aqui, é claro -, os produtores comparam a “heroína” de The Duchess com a Lady Di… ah, me poupem, vai!!! A que ponto chegamos…

CONCLUSÃO: Um filme bem acabado sobre a aristocracia inglesa do século XVIII. Como praticamente todos os filmes do gênero, ele apresenta uma fotografia, um figurino, uma direção de arte e uma trilha sonora perfeitos e primorosos, mas sofre com pouca inventividade. Deixa de ousar, como muitos filmes sobre aquele cenário, apresentando a mesma história de subjugação feminina, abusos de poder, traições e jogos de interesses. Poderia ter se aprofundado mais em outros aspectos da história da duquesa, como seu envolvimento com a jogatina, os artistas e os políticos da época. Resumindo, é bem feito, tem atuações convincentes, mas deixa a desejar no roteiro e em uma exploração mais aprofundada dos personagens. Deve cair bem no gosto dos fãs dos atores e atrizes.