The Expendables 3 – Os Mercenários 3

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Algumas vezes tudo o que você quer buscando um filme nos cinema é a diversão. Neste sentido, The Expendables 3 entrega tudo o que o espectador espera. Isso me surpreendeu. Admito que não vi aos dois filmes anteriores da grife, e conhecendo bem o talento interpretativo do líder da trupe, Sylvester Stallone, não me atraía antes assistir a esta produção. Mas gostei do que eu vi. Os atores envolvidos, e a lista de astros é grande, claramente se divertiram muito fazendo este filme. E de quebra, eles divertem os espectadores.

A HISTÓRIA: Um trem blindado percorre o cenário de forma veloz. Ele segue em direção à prisão de Denzal, carregado de homens armados. Mas logo aparece o helicóptero pilotado por Barney Ross (Sylvester Stallone) e carregado de Mercenários. No grupo, Lee Christmas (Jason Statham), Gunner Jensen (Dolph Lundgren) e Toll Road (Randy Coutere). Eles pegam pesado contra o trem blindado para resgatar Doc (Wesley Snipes), que após oito anos desaparecido e mantido como prisioneiro, está sendo levado para a prisão. Os inimigos são derrotados e Doc resgatado, mas logo o grupo deverá enfrentar desafios bem maiores.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Expendables 3): Normalmente eu não assistiria a esse filme. Isso porque vocês, caros leitores, devem ter percebido que normalmente eu gosto de filmes mais “humanos”, “filosóficos”, daquele tipo que nos faz aprender algo, seja com a história, seja com nós mesmos ou com aqueles que nos rodeiam. Porque eles nos provocam a reflexão.

Mas a verdade é que eu trabalho em um jornal de Florianópolis e recebi, através da editora do caderno de cultura e variedades, um convite que havia sido mandado para ela ou alguém da editoria. E como ninguém se interessou, e ela sabe que tenho um blog de cinema, me perguntou se eu gostaria. E a resposta foi imediata: sim! Isso porque defendo que todo filme merece ser visto, mesmo se for para você achá-lo ruim, lamentável ou deplorável depois. Houve um tempo em que eu assistia a todos os filmes que entravam em cartaz no cinema, independente do tipo ou qualidade.

Hoje, inclusive por causa deste blog, que me obriga a escrever um texto para cada filme que assisto – como explico na apresentação desta página -, tenho que ser mais seletiva. Bueno, feito esta introdução, devo ser direta como no início deste texto: gostei de ter recebido o convite e de ter assistido a este filme que não faria parte da minha seleção normalmente. The Expendables 3 é um filme direto e que apresenta exatamente tudo aquilo que promete.

Para mim, um filme funciona quando faz exatamente isso. Entrega o que o seu público quer. Quem vai conferir The Expendables 3 conhece bem a capacidade interpretativa de Sylvester Stallone, pai desta trilogia da pancadaria e do tiroteio. Então dá para entender e perdoar toda vez que ele faz um grande esforço para repassar emoção, mas não consegue. Afinal, você já está esperando isso.

O que me surpreendeu, justamente porque não assisti aos dois filmes anteriores, foi o número de grandes nomes envolvidos neste projeto. Além dos tradicionais “mestres” da pancadaria, esta produção tem no elenco o “eternamente-com-cara-de-louco” Mel Gibson, que acho divertido a cada novo filme, e também o astro de alguns dos grandes clássicos do cinema nas últimas décadas e “homem mais sério” Harrison Ford. Eles dão um peso importante para o filme.

A comédia, natural em produções deste gênero nos últimos anos, se apresenta principalmente nas interações entre Stallone e Arnold Schwarzenegger e é concentrada no papel interpretado por Antonio Banderas. Este ator, normalmente envolvido em filmes construídos para ele ser o “amante latino”, surpreende neste filme de ação em um papel verborrágico e cheio de tiração de sarro.

Aliás, esta é uma das características desta produção, junto com as tradicionais cenas de ação. The Expendables 3 é cheio de autorreferências, ironizando outras produções do gênero e a própria expectativa envolvendo os atores veteranos. A fórmula desta terceira parte da trilogia é colocar em oposição os veteranos e uma nova turma, liderada pelo ator Kellan Lutz. Ele, em teoria, é a versão mais nova do personagem de Stallone.

Como o ator que assina a história e o roteiro desta produção não dá ponto sem nó, certamente Stallone está preparando o futuro da grife. Tendo uma turma jovem para encabeçar produções futuras, ele pode “matar” alguns personagens interpretados por seus amigos veteranos na interpretação e, quem sabe, daqui a uns três ou quatro filmes, ele mesmo, Stallone, possa ser morto em combate – deixando o ator responsável apenas pelos roteiros, por exemplo.

O desenrolar da história é super previsível. Ainda assim, há diversas cenas de ação surpreendentes. De tirar o chapéu para os responsáveis pelas coreografias de luta e por toda a equipe envolvida nas explosões e cenas de ação filmadas, além dos efeitos visuais e especiais. Logo cedo o espectador prevê que a nova equipe formada por Barney Ross terá que ser socorrida pelo time antigo, dos veteranos. E mesmo que isso seja evidente, quando o resgate acontece, você não fica decepcionado porque a ação é muito bem planejada.

O embate final entre Barney Ross e Stonebanks (Mel Gibson), antigos parceiros e amigos, só poderia terminar em uma disputa “mano a mano”. O desfecho, novamente, é previsível, mas não havia como esperar nada diferente. Sendo assim, esta produção entrega tudo como “combinado”, trazendo um roteiro com desenrolar conhecido, mas com diversas cenas colecionáveis de perseguição e matança.

De quebra, há momentos verdadeiramente engraçados, muita “gozação” entre os veteranos e um desfile de astros. Dá para perceber que eles estão se divertindo muito ao fazer este filme. E de quebra, eles nos divertem também com uma produção tão despretensiosa. Vale assistir a filmes assim, apenas para relaxar, de tempos em tempos. Aqui não há mensagem ou reflexão alguma, apesar do rápido discurso de que “o governo usa assassinos de aluguel para não parecer um vilão”, ou qualquer coisa do gênero. Esse é o máximo de complexidade que Stallone consegue. O que não é ruim.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Muito falaram sobre uma cópia de The Expendables 3 que teria vazado na internet antes mesmo do filme estrear nos cinemas. Da minha parte, assisti ao filme na telona em uma sessão de pré-estreia, na última quinta-feira. E posso dizer que vale a pena conferir o sonzaço e todos os efeitos especiais e visuais na telona. Após a versão vazar na internet, ouvi alguns comentando que o filme teria tido a bilheteria prejudicada por causa disso. Não acredito. E vou falar o porquê na sequência.

The Expendables 3 teve pré-estreia entre os dias 4 e 11 de agosto nas cidades de Londres, Marbella, Cologne, Paris e Los Angeles. A produção estreou no Líbano no dia 7 de agosto, e no dia 15 nos Estados Unidos. Até ontem, dia 22, o filme tinha arrecadado pouco menos de US$ 22,8 milhões apenas nos Estados Unidos, e mais US$ 21,5 milhões nos demais mercados em que havia estreado. No total, quase US$ 44,3 milhões. Francamente, não acho esses números ruins. O filme deve continuar fazendo bilheteria e chegar, no final, perto dos US$ 80 milhões ou US$ 100 milhões. Acho um bom resultado, levando em conta a fórmula da produção.

Não assisti aos filmes anteriores da grife, mas após sair da sala de cinema, ouvi alguns comentários de quem assistiu a todos esses filmes de que este terceiro é o melhor. Não duvido.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Terry Crews como Caesar, parceiro de Barney Ross e que é atingido de maneira mortal por Stonebanks; Glen Powell como Thorn, o hacker da nova turma de The Expendables; Victor Ortiz como Mars, especialista em armas da nova leva; Ronda Rousey, mulher boa de sopapos e que atua com os anteriores; Kellan Lutz como Smilee, o líder natural da nova turma; Jet Li em quase uma ponta como o apoio de Drummer (Harrison Ford) no momento da ação; e o veterano Robert Davi como Goran Vata, que vai fazer negócios com Stonebanks.

Especialmente engraçada a participação do Schwarze neste filme. Ele aparece quase como a “voz da razão” de Stallone, e muitas vezes brinca com o fato de estar com tédio – como se o protagonista da produção fosse um tanto “mole”, mais que o Schwarze. Engraçado. Mais que a maioria da interpretação exagerada de Banderas – e, por isso mesmo, Stallone acerta ao tirar sarro do ator neste sentido.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,3 para esta produção. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 93 textos negativos e 48 positivos para esta produção, o que lhe garante uma aprovação de apenas 34% e uma nota média 4,9.

Termino por aqui, provisoriamente, os comentários sobre esta produção. Assim que possível, falo de outros aspectos do filme. Abraços e até logo!

CONCLUSÃO: O que esperar de um filme como The Expendables 3? Certamente muitas e variadas cenas de ação, incluindo perseguições, tiroteios sem fim e pancadarias “mano a mano”. Pois bem, esta produção apresenta tudo isso e mais um desfile surpreendente de astros. O roteiro tem diversos momentos de ironia, inclusive autorreferencial, com tiradas relacionadas ao estilo dos atores e de filmes do gênero. Para quem procura este formato de filme, é certeza de diversão e entretenimento. Recomendo.

Only Lovers Left Alive – Amantes Eternos

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Interessante como o cinema está sempre nos mostrando que é possível ser inteligente e criativo utilizando elementos já conhecidos. Ou, em outras palavras, que para entregar uma boa obra não é preciso recriar a roda. Basta fazer diferente, ainda que utilizando recursos um tanto desgastados. Only Lovers Left Alive se soma a outros filmes que conseguem exatamente isso.

Com um realizador inteligente à frente do projeto, esta produção revela estilo, uma boa dinâmica e elementos pop certeiros para cair no gosto de alguns públicos. E para você que quer saber sobre esse filmes mas não quer estragar surpresas, recomendo que não leias mais nada além do parágrafo seguinte.

A HISTÓRIA: Um céu estrelado gira lentamente. Depois, mais veloz, até que a imagem se funde em um vinil que começa a tocar. Enquanto a música toca, a câmera gira no mesmo compasso e mostra Eve (Tilda Swinton) em um quarto cercada por livros. Em outro local, o mesmo giro mostra Adam (Tom Hiddleston) deitado em um sofá com uma guitarra sobre o corpo. O fluxo segue entre uns e outros, até que Adam e Eve despertam do transe. Ele vê a chegada de Ian (Anton Yelchin), enquanto ela observa o movimento na rua. Cada um obtém o que necessita, mas não é o suficiente. A história dos dois será narrada neste filme.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Only Lovers Left Alive): O início desta produção é um tanto estranho, mas ao mesmo tempo estimulante. Evidentemente por causa da trilha sonora, mas também pela direção cuidadosamente planejada de Jim Jarmusch. Ele se preocupa no ritmo e na fluência da história, assim como em que cada elemento converse entre si. É como se as imagens tivessem que seguir sempre em um compasso lírico, como a própria música que ajuda a contar a história.

Gostei das sequências iniciais. E quando falo delas, me refiro naquelas que apresentaram os protagonistas e a primeira de várias músicas importantes da história. Jarmusch, que também assina o roteiro, logo se preocupou em nos apresentar o contexto em que vive cada personagem. Importante, especialmente para o futuro da narrativa. Mas mesmo com aquele começo promissor, admito que senti preguiça quando percebi que esta era uma história de vampiros.

Meu primeiro pensamento foi: “Ah, fala sério! Mais uma história de vampiros? Ninguém merece”. Afinal, tanto já foi falado deles. E há clássicos no cinema deste gênero muito difíceis de serem batidos. Perceber que os vampiros estavam no centro da história me tirou um pouco do ânimo. Mas esse foi um ledo engano. Isso porque uma das graças de Only Lovers Left Alive é, justamente, a forma com que o filme brinca com o gênero, seus estereótipos e “tradição”.

E daí volto para o início deste texto. Como é gratificante quando encontramos uma obra que consegue, apesar de tantos filmes anteriores terem tocado naquele tema, apresentar uma roupagem e elementos novos! Isso só comprova que o talento pode sempre tornar uma antiga história, lenda ou mesmo imaginário popular em algo refrescante e que tem uma certa levada moderna.

Claramente Jarmusch se esforçou para conseguir fazer a sua própria história definitiva sobre vampiros. E cá entre nós, eu acho que ele conseguiu. Para mim, que gosto do gênero e tenho ótimas lembranças de clássicos sobre estes personagens que gostam de sangue, Only Lovers Left Alive conseguiu a proeza de entrar na seleta lista de bons filmes do gênero. Destes que merecem ser vistos.

Além daquelas qualidades iniciais já citadas, impressiona a ironia do roteiro de Jarmusch, que brinca com três elementos fundamentais destes personagens seculares, porém com certa mortalidade: a genialidade de quem tem a possibilidade de viver por séculos e acompanhar a história se desdobrar frente aos seus olhos; a admiração da beleza que a criatividade, o talento e a inteligência dos “zumbis” (humanos mortais) pode criar; e a revolta com a falta de evolução dos “zumbis” como espécie.

Os personagens centrais desta história vivem sempre equilibrando o gosto pela beleza, pela arte, pelo gesto de apreciar o que há de mais sublime no mundo, com o tédio e a depressão (principalmente Adam) por não ver a civilização humana avançar tanto quanto poderia. E daí Jarmusch consegue, com muito rock pesado e uma direção cheia de estilo, nos fazer pensar como vampiros. E isso é magnífico!

Como você se sentiria se pudesse viver durante séculos e ver o belo e o medonho que os humanos são capazes de fazer, geração após geração? Eu provavelmente teria que ter ao meu lado um amor “eterno”, como sugere o título do filme para o mercado brasileiro, para dar uma equilibrada no meu humor. Provavelmente eu ficaria no meio termo entre Eve e Adam… ao mesmo tempo em permanente admiração pelo belo, mas também deprimida com tanto desperdício de potencial dos “zumbis”.

Sem desperdiçar recurso em nenhuma cena, Jarmusch adentra na vida deste casal de vampiros, grandes amantes da arte – ela dos livros, ele da música. De forma inteligente, ao escolher estas vertentes artísticas, o cineasta consegue destilar um roteiro com algumas referências literárias e uma trilha sonora de arrepiar – e que merece ser escutada independente do filme. Ao mesmo tempo, ele não se amarra em um filme cheio de referências demais. Pelo contrário.

O roteiro desta produção acerta na mosca em equilibrar as referências interessantes a obras de diferentes períodos e estilos com uma linguagem contemporânea nos diálogos e nas relações dos protagonistas com os demais personagens. Com esta escolha, Jarmusch consegue fazer um filme que respeita a filmografia anterior sobre vampiros – especialmente a dos melhores filmes -, avança na aproximação destes personagens com a gente, os “zumbis” espectadores desta produção, e também no exercício de imaginar como estes seres quase-eternos viveriam hoje, em pleno século XXI.

A história funciona bem, e convence. Ajuda muito também a excelente trilha sonora. Mas para não dizer que tudo é perfeito, algumas vezes o filme perde um pouco o ritmo, como quando a irmã de Eve, Ava (Mia Wasikowska) aparece em cena.

Dá para entender a intenção do realizador, de mostrar como uma geração mais nova de vampiros carece de “modos” e até de princípios. Mas ter apenas uma personagem com essa pegada e ela ser, justamente, “desmiolada”, ajuda a estigmatizar os jovens como figuras sempre sem ponderação ou valores. E sabemos que nem sempre é assim. Há todos os tipos de jovem no mercado, assim como adultos que seguem também diferentes linhas de pensamento e de ação.

Sendo assim, apesar de entender as intenções de Jarmusch com a personagem de Ava, achei um tanto pueril a toada desta personagem. O filme vinha bem até ali, mas perdeu um pouco do interesse com a chegada da garota. Por outro lado, claro, ela tem relevância na narrativa porque insere o elemento surpresa – aquele mesmo que faz você esperar que algo de ruim aconteça a qualquer momento. Por este lado, Ava é interessante. Mas não pelo estereótipo desmiolado.

De qualquer forma, e para resumir, Only Lovers Left Alive acaba surpreendendo pelo lado positivo. Chega com uma ótima direção, um roteiro que equilibra ironia e autorreferências de outras obras (de vampiros ou da arte em geral), uma trilha sonora empolgante, uma direção de fotografia bacana, edição idem e um elenco escolhido a dedo e que funciona muito bem. Por pouco, não é perfeito. Mas, sem dúvida, consegue a difícil tarefa de entrar na lista dos bons exemplares do gênero.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sempre achei a atriz Tilda Swinton única em sua estranheza. Ela é facilmente reconhecida não importa o trabalho em que faça. Figura um bocado andrógina, ela caiu como uma luva como intérprete da personagem Eve. Aliás, não me admira se o cineasta escreveu o papel pensando na atriz. Ela é digna de inspirar uma personagem linda, forte e quase efêmera como aquela.

Por falar nos intérpretes deste filme, acredito que Only Lovers Left Alive me apresentou, pela primeira vez, todo o potencial do ator Tom Hiddleston. Ele está perfeito como Adam, par bem afinado de Swinton nesta produção. De longe, sua melhor interpretação da qual eu tenho lembrança. Os dois embalam a história e são o mais interessante do filme, sem dúvida.

Ainda que vale a pena citar o bom trabalho de Anton Yelchin como Ian, o mais próximo de amigo “zumbi” que Adam tem e uma espécie de “faz-tudo” para o protagonista; o veterano John Hurt como o interessante, ainda que em papel pequeno, Marlowe – aquele que acaba revelando a fragilidade dos vampiros; e Mia Wasikowska na personagem mais fraca da produção, Ava. A atriz está muito bem, mas é o papel dela mesmo que carece de densidade. Em papéis menores, mas que também tem o seu charme e relevância, estão Jeffrey Wright como o Dr. Watson, fornecedor do sangue para Adam; e Slimane Dazi como Bilal, o braço direito de Marlowe.

Algumas cenas são verdadeiramente belas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Uma delas, a despedida emocionada de Bilal quando o mestre dele parte. Bacana a forma com que Eve, mesmo enlutada, se compadece da dor do “zumbi” que sofre verdadeiramente com a perda. E essa relação entre os vampiros, sábios após observar com paciência e sensibilidade única o passar do tempo, e os “zumbis” que tropeçam e acertas em seus respectivos caminhares, é o que torna o filme ainda mais interessante.

Da parte técnica do filme, primeiro é preciso tirar o chapéu pelas ótimas escolhas na direção e no roteiro de Jim Jarmusch. Ele realmente forja cada cena com cuidado, cuidando para que os elementos conversem entre si e, desta forma, para que o filme tenha ritmo e flua como uma música bem orquestrada. Depois, fundamental a trilha sonora digna de ser colecionada de Carter Logan e Jozef van Wissem. Eu que gosto de um rock pesado, achei perfeita a escolha do repertório. E tenho certeza que os músicos, em especial, vão ficar arrepiados com os instrumentos que Adam vai colecionando.

Junto com a direção de Jarmusch, funciona muito bem a direção de fotografia de Yorick Le Saux. Ainda que ele não tenha nenhum achado que torne este o elemento forte do filme, já que as escolhas de ângulos e de ritmo de narrativa de Jarmusch é o que tornam o filme diferenciado. Para ajudá-lo nesta tarefa, vale destacar o excepcional trabalho de edição de Affonso Gonçalves. Também gostei do design de produção de Marco Bittner Rosser; da direção de arte de Anja Fromm e Anu Schwartz; e, e esse elemento é outro que se destaca sobre os outros nesta produção, os refinados e muito contemporâneos figurinos de Bina Daigeler.

Only Lovers Left Alive estreou em maio de 2013 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participou de outros 26 festivais. Uau! Um número impressionante, sem dúvidas. Nesta trajetória, a produção abocanhou três prêmios e foi indicada a outros seis. O mais relevante, entre os recebidos, foi o Prêmio Especial do Júri para Jim Jarmusch dado no Sitges – Festival Internacional de Cinema da Catalunha.

Esta produção teria custado cerca de US$ 7 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco menos de US$ 1,86 milhão. Pouco, o que é uma pena. Mas dá para entender porque esta é a típica produção sem um grande nome no elenco – pelo menos destes óbvios, que lotam as salas independente do que façam – e que não teve a distribuição massiva de outros filmes. Mas acredito que a propaganda boca-a-boca deve fazer o filme ser mais visto e, talvez, se pagar.

Only Lovers Left Alive foi rodado em três países diferentes: Alemanha, Estados Unidos e Marrocos. As cenas no clube de rock foram feitas em Hamburgo. Também houve cenas rodadas no estúdio MMC, em Colônia; em uma mansão de Detroit (utilizada como a casa de Adam); e em Tânger, no Marrocos. Ou seja, para a história, as duas cidades mais importantes da trama, Detroit e Tânger, de fato são utilizadas pelos produtores. Isso ajuda para embarcar o espectador na história.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para Only Lovers Left Alive. Uma ótima avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 129 textos positivos e 22 negativos para a produção, o que lhe garante 85% de aprovação e uma nota média 7,3. Números muito bons também.

CONCLUSÃO: Histórias de vampiros estão mais que batidas no cinema. Basta olhar para o histórico de produções lançadas nos últimos 100 anos para saber que muito já foi falado sobre eles. E mesmo assim, o diretor e roteirista Jim Jarmusch consegue nos entregar uma obra fresca e interessante sobre estes personagens tão “desgastados”. Isso, para mim, é a essência do cinema. Recriar o que é interessante, trazendo elementos novos para o que já pareceria batido, assim como a capacidade que outros têm de contar histórias totalmente novas.

Only Lovers Left Alive acerta na mosca na ironia, na ode à arte e ao amor, e na aposta decisiva na trilha sonora e em um estilo de direção que leva a assinatura do realizador. Divertido, instigante, renovador do gênero. Vale ser visto, especialmente se você gosta de ironias e de repensar velhos personagens que estão entranhados no imaginário popular.

One Chance – Apenas Uma Chance

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Os programas musicais proliferaram nos últimos anos, e alguns demonstraram ser um verdadeiro deleite para quem gosta da boa música. Um dos talentos revelado por um destes programas, o Britains’s Got Talent, virou febre no Reino Unido e ganhou notoriedade. A história deste talento, Paul Potts, é contada no filme One Chance. A produção segue o humor inglês clássico e garante boas risadas. Envolvente, o filme é um bom passatempo.

A HISTÓRIA: Um grupo de garotos canta no coral da Igreja. Um deles se sobressai no gogó muito mais que os outros. Ele se dedica tanto que acaba desmaiando. Ao entrar no hospital, com nove anos de idade, Paul Pott (Christopher Bull aos 9, Ewan Austin aos 14, James Corden na vida adulta) parece ter rompido um tímpano. Acompanhando o menino, os pais dele, Yvonne (Julie Walters) e Roland (Colm Meaney).

A história começa em Port Talbot, cidade de Wales, em 1985. As vistas da cidade mostram como lá predomina o trabalho em fábricas. Na narração, Paul conta que sempre quis cantar, e que a mãe lhe dizia que ele tinha voz para a ópera. Mas logo no início fica claro que ele vive sofrendo bullying (perseguição de um bando de valentões da escola). Ainda assim, ele segue o sonho e chega muito mais longe que o esperado.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a One Chance): Há pessoas que são “zoadas” a vida inteira. E mesmo assim, não desistem dos próprios sonhos. Esta é a parte bonita e que inspira deste filme.

Afinal, One Chance mostra claramente como o protagonista Paul Pott foi zoado a vida inteira – seja pelo nome, parecido com o do carrasco do Camboja, Pol Pot, seja por ele sempre ser gordinho ou, e principalmente, porque ele era o “estranho” que gostava de cantar ópera.

Mas o bacana do filme é que ele mostra como Paul Pott venceu todo o preconceito, dentro e fora de casa – o pai dele, Roland, teve dificuldade em aceitar aquele filho “estranho” -, e seguiu o próprio sonho. E como essa obstinação nunca é simples, ele passou por uma série de dificuldades no caminho. Sem inovar na história, até porque ela é quase um “conto de fadas” de um ganhador de um programa musical, o filme ganha o espectador pelo humor.

O roteiro de Justin Zackham destila o melhor estilo do humor inglês, com tiradas ótimas e muito humor atualmente considerado “politicamente incorreto”. Para os ingleses não é problema tirar sarro de aspectos físicos das pessoas – incluindo gordinhos – e nem dos estereótipos. O filme dirigido por David Frankel funciona por causa disso e também pelo trabalho dos atores, com destaque para o carisma e a sintonia dos protagonistas – James Corden e Alexandra Roach.

A linha narrativa de One Chance é clássica e linear, começando com Paul ainda criança e já soltando a voz no coral da Igreja, e acompanhando ele um pouco mais crescido, e ainda sendo perseguido, até chegar à vida adulta. Inevitável não lembrar de Billy Elliot assistindo a esta nova produção.

O filme de Stephen Daldry mergulha na história de um garoto que foi zoado, repreendido e que teve que enfrentar diversas barreiras para seguir a vocação e o sonho de fazer balé. O mesmo acontece com o protagonista de One Chance em relação à música erudita. Bacana ver a mais uma produção que segue a boa linha do filme de Daldry.

Desta forma, e sendo breve porque estou com pouco tempo para escrever esta crítica, posso afirmar que One Chance é um filme sem inovação, que segue a narrativa linear clássica, mas que tem graça pela narrativa com humor inglês e pelo talento dos intérpretes. E para quem gosta de música ou de programas de TV que valorizam este tipo de talento, esta produção tem um interesse especial, porque há uma boa trilha sonora durante todo o filme. Vale a pena.

NOTA: 9 8,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Caros leitores, vocês já devem ter percebido que o meu tempo ficou mais escasso. Mas quero ver se a partir desta próxima semana eu consigo deixar esta página mais atualizada. Este filme, assisti há duas semanas, mas só agora consegui escrever este texto rápido sobre ele. Veremos se da próxima vez sobra mais tempo. Obrigada para você que segue me visitando por aqui.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,7 para One Chance. Uma boa avaliação, levando em conta a média do site. Os críticos que tem os textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 23 textos positivos e 11 negativos para a produção – garantindo aprovação de 68% e nota média de 5,5.

Quem não acompanhou a trajetória do Paul Potts original mas, como eu, ficou curioso(a) para saber como o “original” se apresentou no início do programa, neste vídeo no YouTube é possível matar a curiosidade. E neste outro link do site os finalistas do programa e o anúncio do vencedor. 🙂

Em outro momento falo dos destaques da ficha técnica da produção. Até mais! Agora consegui um tempinho, então vou falar sobre os aspectos técnicos do filme que me chamaram a atenção. Como dito anteriormente, a principal qualidade do filme é o humor inglês do roteiro de Justin Zackham. Esta característica chama mais a atenção que a direção de David Frankel, já que o realizador não ousa na linguagem em momento algum – diferente de outros nomes do cinema inglês que tem inovado na narrativa nos últimos anos.

Mesmo sem ousar, um acerto de Frankel é aproximar a câmera sempre dos atores. É assim que os intérpretes ganham destaque com entregas convincentes – especialmente o inglês James Corden, que está perto de completar 36 anos – no próximo dia 22 – e que tem 47 trabalhos no currículo como ator. Um nome a ser acompanhado e que vale ser visto em outras produções. Corden está bem acompanhado na produção, tendo como “pais” na trama os veteranos Julie Walters e Colm Meaney e a interessante Alexandra Roach, com 20 trabalhos no currículo.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Florian Ballhaus, que sabe diferenciar bem os tempos narrativos da produção utilizando lentes diferenciadas e também, junto com o diretor Frankel, valoriza alguns dos belos cenários pelos quais a trama passa – especialmente Veneza.

Importante também a condução da trilha sonora de Theodore Shapiro, assim como a edição de Wendy Greene Bricmont.

One Chance estreou em setembro de 2013 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme passaria ainda por outros sete festivais. Nesta trajetória ele recebeu um prêmio e foi indicado a outros quatro – incluindo o Globo de Ouro de Melhor Canção Original para Jack Antonoff e Taylor Swift pela música Sweeter than Fiction. O único prêmio que ele recebeu foi o dado pela audiência para David Frankel no Festival Internacional de Cinema de Chicago.

Do elenco de apoio, merece uma menção a atriz Valeria Bilello como Alessandra, com quem Paul faz um dueto em Veneza; e Mackenzie Crook como Braddon, o melhor amigo do protagonista e chefe dele na loja que vende celulares. Stanley Townsend se esforça como Luciano Pavarotti, ídolo supremo de Paul, mas a versão acaba ficando caricatura demais.

One Chance foi rodado quase totalmente no Reino Unido – em locais como Londres, Wales e Surrey -, mas teve algumas sequências produzidas também em Veneza.

Na trilha sonora, peças clássicas de Wolfgang Amadeus Mozart, Giacomo Puccini, Ruggero Leoncavallo, Frederick Chopin e Giuseppe Verdi. Mas predomina, sem dúvida, entre estes compositores, o trabalho de Puccini.

CONCLUSÃO: O cinema inglês normalmente vale o ingresso pelo estilo do roteiro e do humor típico daquela cultura. One Chance confirma a regra. O filme rende algumas boas risadas, ainda que a maioria delas seja bem previsível. Mas o roteiro e os atores principais conseguem envolver bem o espectador em uma história que lembra muito outro filme: Billy Elliot. Enquanto no filme de Stephen Daldry o nosso “herói inusitado” era um garoto que queria fazer balé a qualquer custo, aqui o “peixinho fora do aquário” e/ou pária social é um rapaz gordinho que quer cantar ópera. Os dois filmes são envolventes, contagiam e dão bom exemplo do prêmio que pode vir com a obstinação e o talento. Divertido.