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E o Oscar 2015 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

87th Oscars®, Thursday Set Ups

Olá pessoal, boa noite!

Mais uma vez eu tenho o prazer de acompanhar a entrega do maior prêmio da indústria cinematográfica de Hollywood, o Oscar, junto com vocês.

Este ano, contudo, tenho uma novidade. A partir das 20h30 eu farei uma cobertura em tempo real do tapete vermelho e, depois, da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood no site do jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, aonde trabalho como repórter e colunista de Economia.

Por lá eu vou atualizar muito mais rápido que por aqui. Por isso se você tem pressa e quer participar da cobertura, indico que acompanhe essa cobertura pelo site do jornal, que pode ser acessado por aqui. O canal E! Entertainment começou a programação do Oscar as 15h30 deste domingo, dia 22 de fevereiro, com a contagem regressiva para o tapete vermelho e a premiação.

A receita foi a mesma do ano passado: especulações e palpites sobre as celebridades que vão arrasar este ano no tapete vermelho, se destacando pelos vestidos, ternos e acessórios. Comentaram também a principal queda de braço da noite, na categoria Melhor Filme, que deve ser disputada por Boyhood e Birdman. As bolsas de apostas inglesas colocaram as fichas em Birdman. Para o meu gosto, quem deveria levar é Boyhood. Logo veremos.

Os comentaristas do canal E! também falaram do esquecimento no Oscar de Selma, que foi indicado apenas a Melhor Filme e Melhor Canção – e tem chances apenas na segunda categoria. Dá para entender esse “desprezo” da Academia por causa do ano conturbado que os Estados Unidos viveu desde o último Oscar. Em 2014 o prêmio principal foi para 12 Years a Slave, mas depois vieram as mortes de negros por policiais brancos e a convulsão social que agitou o país do Tio Sam. Agora, realmente, o clima é outro.

Na contagem regressiva o pessoal também falou de combinações de acessórios com diferentes cores de vestidos, lembraram atores e atrizes que se vestiram bem e mal em edições anteriores, e houve até uma predição feita por filhotes caninos – no ano passado o E! apostou no mesmo recurso.

No Oscar 2014 os cãezinhos disponíveis para adoção acertaram ao comer toda a comida do prato com o nome do filme 12 Years a Slave. Este ano, eles não limpara o prato, mas comeram mais o que havia em Boyhood. 😉 Vocês aqui no blog também votaram mais em Boyhood. Logo veremos se todos nós acertamos. Nas premiações pré-Oscar Boyhood e Birdman dividiram os prêmios. Será uma disputa concorrida, tenho certeza.

O tapete vermelho começou a ser transmitido pelo E! às 19h30. Como no ano passado, a chegada começou a ficar interessante depois das 20h.

Pessoal, a dica fica mesmo para vocês acompanharem a cobertura em tempo real no site que eu indiquei ali acima. Por aqui, vou conseguir apenas publicar os ganhadores das diferentes categorias depois.

Agora sim, voltei para cá. 🙂 Espero que vocês tenham me dado o prazer de ter me acompanhado em uma cobertura em tempo real para valer, desta vez. Inclusive com alguma interação. Para quem não viu como foi, dá para acessar o conteúdo neste link.

birdman13No fim das contas, os dois filmes mais indicados este ano, The Grand Budapest Hotel e Birdman, com nove chances cada um, foram também os que mais ganharam estatuetas. Birdman levou quatro, com vantagem por ter abocanhado três das principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Para fechar a conta, levou ainda o Oscar de Melhor Fotografia.

The Grand Budapest Hotel abocanhou quatro prêmios técnicos: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Penteado, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora. Todos merecidos. Em segundo lugar entre os filmes que mais receberam estatuetas, ficou Whiplash, com três prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Todos muito merecidos também.

Meu palpite era que o Oscar 2015 seria pulverizado. Pois bem, fora The Grand Budapest Hotel e Birdman ganhando quatro estatuetas cada e Whiplash levando três, o restante dos prêmios foram pulverizados para nada menos que 10 produções. Cada um ficou com um Oscar cada.

Isso já era previsto que acontecesse com filmes como Still Alice, Selma, Ida e CitizenFour, mas admito que eu esperava um reconhecimento maior para Boyhood. Para mim, junto com Selma, injustiçado já no momento das indicações, Boyhood foi o grande injustiçado da noite. Infelizmente ele ficou passível de ser comparado com filme muito mais fracos como Sniper Americano e The Theory of Everything.

Acabei citando outros premiados acima. Para mim, foi justo Ida ganhar como Melhor Filme em Língua Estrangeira, ainda que Mandariinid tenha mexido mais comigo. Gostei de ver Big Hero 6 desbancar How To Train Your Dragon 2. Não assisti a nenhum dos filmes de animação, mas eu tinha gostado da pegada de Big Hero 6 no trailer que eu assisti. Agora quero conferir o filme. Melhor Documentário não teve jeito, ganhou o favorito CitizenFour.

No saldo geral deste ano, achei a premiação bastante morna. O apresentador Neil Patrick Harris, em especial, foi muito ruim. Não fez rir nem a plateia de americanos que normalmente entende as piadas que pra gente não fazem muito sentido. Achei fraco demais. As apresentações – incluindo uma homenagem estranha protagonizada por Lady Gaga – também careceram de brilho e impacto.

Para salvar um pouco a noite, apresentações bacanas de Adam Levine (que interpretou a canção Lost Stars, do filme Begin Again), Tim McGraw (com a bela canção I’m Not Gonna Miss You, do filme Glen Campbell… I’ll Be Me), Rita Ora (com a canção Grateful, do filme Beyond the Lights) e, principalmente, com a emocionante e que levantou a plateia apresentação de Common e John Legend (da ótima Glory, de Selma). Essas apresentações, especialmente a última, ajudaram a salvar um pouco a noite de espetáculo morno.

Nas categorias dos atores e atrizes, nenhuma surpresa. E algumas injustiças com carreira bem consistentes resolvidas. Levaram estatueta J.K. Simmons, Patricia Arquette, Julianne Moore e Eddie Redmayne. Todos ganhando pela primeira vez. Aliás, este ano, muitos ganharam uma estatueta pela primeira vez. Fiquei especialmente feliz por Julianne Moore que há tempos merecia um Oscar. Justiça também com Simmons e Arquette, que sempre tiveram a coragem de fazer filmes alternativos, e com Redmayne, que teve o papel de sua vida em The Theory of Everything.

Sobre o resultado do Oscar 2015, sem dúvida gostaria que Boyhood tivesse levado mais prêmios, especialmente o de Melhor Filme. Acho ele mais profundo e impactante, inclusive mais fácil de ser lembrado no futuro, que Birdman. Selma e The Imitation Game também mereciam mais destaque. Mas algo é preciso dizer: a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi ousada ao premiar um filme como Birdman.

A produção com roteiro liderado por Alejandro González Iñarritu e dirigida por ele faz uma grande autocrítica ao mainstream. Conta uma história pesada que, apesar de ter alguma fantasia, faz questionamentos bem pesados sobre Hollywood, a Broadway e outros símbolos da cultura dos Estados Unidos. Premiar este filme é um passo a mais na renovação da indústria plasmada em Hollywood. E isso é sempre bacana.

Obrigada a você que me acompanhou na cobertura no site do Notícias do Dia. Espero que no próximo ano possamos continuar juntos, seja por aqui ou por outra plataforma que surgir. Abaixo deixo a lista com todos os premiados. Para saber a minha opinião sobre cada entrega de prêmios, acesse este link – o mesmo divulgado anteriormente. Abraços e até a próxima.

 

  • Melhor Ator Coadjuvante: J.K. Simmons (Whiplash). Outros indicados: Robert Duvall, Ethan Hawke, Edward Norton, Mark Ruffalo.
  • Melhor Figurino: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: Inherent Vice, Into the Woods, Maleficent, Mr. Turner.
  • Melhor Maquiagem e Penteado: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: Foxcatcher, Guardians of the Galaxy.
  • Melhor Curta de Animação: Feast. Outros indicados: The Bigger Picture, The Dam Keeper, Me and My Moulton, A Single Life.
  • Melhor Animação: Big Hero 6. Outros indicados: The Boxtrolls, How to Train Your Dragon 2, Song of the Sea, The Tale of the Princess Kaguya.
  • Melhores Efeitos Visuais: Interstellar. Outros indicados: Dawn of the Planet of the Apes, Captain America: The Winter Soldier, Guardians of the Galaxy, X-Men: Days of Future Past.
  • Melhor Curta Dramático: The Phone Call. Outros indicados: Aya, Boogaloo and Graham, Butter Lamp, Parvaneh.
  • Melhor Curta Documentário: Crisis Hotline: Veterans Press 1. Outros indicados: Joanna, Our Curse, The Reaper, White Earth.
  • Melhor Documentário: CitizenFour. Outros indicados: Finding Vivian Maier, Last Days in Vietnam, The Salt of the Earth, Virunga.
  • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Ida. Outros indicados: Leviathan, Mandariinid, Timbuktu, Relatos Salvajes.
  • Melhor Mixagem de Som: Whiplash. Outros indicados: American Sniper, Birdman, Interstellar, Unbroken.
  • Melhor Edição de Som: American Sniper. Outros indicados: Birdman, The Hobbit: The Battle of the Five Armies, Interstellar, Unbroken.
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood). Outras indicadas: Laura Dern, Keira Knightley, Emma Stone, Meryl Streep.
  • Melhor Fotografia: Birdman. Outros indicados: The Grand Hotel Budapest, Ida, Mr. Turner, Unbroken.
  • Melhor Edição: Whiplash. Outros indicados: American Sniper, Boyhood, The Grand Budapest Hotel, The Imitation Game.
  • Melhor Design de Produção: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Mr. Turner.
  • Melhor Trilha Sonora Original: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: The Imitation Game, Interstellar, Mr. Turner, The Theory of Everything.
  • Melhor Canção Original: Glory (Selma). Outras indicadas: Everything Is Awesome (The Lego Movie), Grateful (Beyound the Lights), I’m Not Gonna Miss You (Glen Campbell… I’ll Be Me), Lost Stars (Begin Again).
  • Melhor Roteiro Adaptado: The Imitation Game. Outros indicados: American Sniper, Inherent Vice, The Theory of Everything, Whiplash.
  • Melhor Roteiro Original: Birdman. Outros indicados: Boyhood, Foxcatcher, The Grand Budapest Hotel, Nightcrawler.
  • Melhor Diretor: Alejandro González Iñarritu (Birdman). Outros indicados: Richard Linklater, Bennett Miller, Wes Anderson, Morten Tyldum.
  • Melhor Atriz: Julianne Moore (Still Alice). Outras indicadas: Marion Cotillard, Felicity Jones, Rosamund Pike, Reese Whiterspoon.
  • Melhor Ator: Eddie Redmayne (The Theory of Everything). Outros indicados: Steve Carell, Bradley Cooper, Benedict Cumberbatch, Michael Keaton.
  • Melhor Filme: Birdman. Outros indicados: American Sniper, Boyhood, The Grand Budapest Hotel, The Imitation Game, Selma, The Theory of Everything, Whiplash.

 

 

 

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CitizenFour – Cidadãoquatro

Vale a pena fazer um trabalho alternativo e que rompe com as regras do jogo para mostrar a verdade por trás dos fatos suavizados pelo mainstream. Tanto isso é verdade que Edward Snowden procurou um blogueiro e uma documentarista alternativos e que vinham fazendo um trabalho sólido de denúncia de abusos do governo dos Estados Unidos para fazer a denúncia que abalou o mundo em 2013. CitizenFour conta os bastidores da boca no trombone de Snowden por uma das duas pessoas escolhidas por ele para falar das espionagens da NSA (National Security Agency, ou Agência de Segurança Nacional): a diretora Laura Poitras.

A HISTÓRIA: Começa com uma explicação da diretora. Ela diz que em 2006 foi colocada em uma lista secreta após ter feito um filme sobre a Guerra do Iraque. Nos anos seguintes, ela foi diversas vezes presa e interrogada nas fronteiras dos Estados Unidos. O filme seguinte dela foi sobre Guantánamo e a guerra contra o terror. Ela comenta que este é o terceiro filme da trilogia sobre a América após o 11/9.

Enquanto vemos a imagem de um túnel escuro com uma luz deslizando pelo teto, ouvimos a diretora narrando um e-mail que recebeu. Nele, um sujeito dizia que era funcionário do governo do mais alto nível da comunidade de inteligência, e que contatar com ela era de alto risco. Sugere que ela tome precauções de segurança antes deles continuarem a conversar. E termina assinando CitizenFour. Na cena seguinte, vemos a Glenn Greenwald no Rio de Janeiro, em sua residência em 2011, entrando ao vivo para falar de um contrassenso do presidente Barack Obama. Em breve, acompanharemos o encontro entre CitizenFour, Greenwald e Laura Poitras em Hong Kong.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a CitizenFour): A única possibilidade de você nunca ter ouvido falar de Edward Snowden é se você viveu dentro de uma bolha no fundo do mar nos últimos dois anos. Desde que a primeira matéria de Gleen Greenwald sobre a espionagem em massa e global do governo dos Estados Unidos veio à tona, foi inevitável não ouvir falar deste assunto e, depois, de Snowden.

Sendo assim, CitizenFour não apresenta um personagem novo. Pelo contrário. O documentário da corajosa e elogiada diretora Laura Poitras explora parte dos nuances deste nome tão conhecido mundo afora nos últimos anos. Ver Snowden “mais de perto” e em momentos tão decisivos, como quando as primeiras matérias foram publicadas e começaram a repercutir, é o que este filme tem de mais interessante.

O jeito de Laura filmar é “naturalista”, ou seja, ela procura ter o mínimo de interferência possível no que está acontecendo. Mas como bem nos ensinou o diretor brasileiro Eduardo Coutinho, não existe documentário sem interferência de quem está por trás da câmera. Então é apenas uma ilusão a ideia que Laura tenta nos passar que ela está de forma “invisível” acompanhando tudo, sem muitas perguntas ou interferências de outros tipos. Isso fica evidente toda vez que Snowden comenta com Greenwald, especialmente, sobre algo que ele tinha conversado com Laura.

A diretora sabe, contudo, narrar uma história sem grandes interferências. Para isso, ela utiliza diferentes recursos. Lê e-mails que recebeu do CitizenFour, intercala cenas dos dias decisivos em que ela e Greenwald conversaram com Snowden, mostra parte do cotidiano de Greenwald, segue com Snowden mesmo quando o ex-advogado e articulista não estava mais no quarto já famoso de Hong Kong, e tempera tudo isso com cenas de outros personagens, como William Binney, um lendário cripto-matemático da NSA, e Ladar Levinson, fundador do serviço de correio eletrônico criptografado LAVABIT.

O filme perde um pouco porque já sabemos muito sobre as denúncias de Snowden, mas ganha pontos pela forma da narrativa de Laura. Ela vai nos situando sobre como tudo aconteceu. O trabalho que ela fez, assim como Gleen Greenwald, acaba atraindo o interesse de Snowden. Se Laura não tivesse feito os documentários My Country, My Country e The Oath e tivesse sido perseguida pelo governo dos Estados Unidos por causa disso, Snowden não a teria procurado após sentir dificuldade de manter um contato seguro com Greenwald.

Por coincidência, ou não, Laura era amiga de Greenwald. No livro “No Place to Hide” (ou “Sem Lugar para se Esconder”), lançado por Greenwald em 2014, ele conta como recebeu e-mails assinados por Cincinnatus, que dizia ter informações importantes, mas que só poderia manter um contato mais aprofundado se o articulista conseguisse uma conexão segura – o que ele não tinha, e de como acabou conhecendo a pessoa com quem ele se correspondeu desde o final de 2012 em poucas ocasiões por intermédio de Laura.

Isso, infelizmente, não fica claro no filme. Este é um problema de CitizenFour. O documentário não situa o espectador sobre a amizade de Greenwald com Laura e muito menos contextualiza um pouco melhor a importância dele para as denúncias envolvendo os exageros praticados pelo governo dos Estados Unidos especialmente após o 11 de Setembro. Esse é um ponto fraco do filme. A falta de contextualização é sempre um problema, especialmente para documentários.

Mas a narrativa sobre como tudo começou e foi se desenvolvendo é perfeita. Ficamos sabendo as razões de Laura ter sido escolhida por Snowden, acompanhamos o primeiro e-mail entre eles e sabemos, por exemplo, que a conversa entre o delator e Greenwald só não avançou por uma falta de segurança na comunicação. A parte mais interessante e de relevância histórica está nos dias em que o trio se encontrou no hotel de Hong Kong.

O primeiro encontro foi no dia 3 de junho de 2013. Durante oito dias Snowden se encontrou com Laura, Greenwald e durante parte deste tempo, com o jornalista investigativo do The Guardian Ewen MacAskill para tentar esmiuçar para eles os documentos ultra secretos que ele estava divulgando, explicar as suas intenções e motivações.

É fascinante ouvir Snowden falar sobre o desejo dele que a internet voltasse a ser livre, e que as pessoas tivessem a tranquilidade de serem e pensarem o que elas quisessem sem o medo de que algo de ruim poderia acontecer com elas simplesmente porque um determinado governo não quisesse que elas pensassem de determinada forma ou defendessem certas ideias.

Além de documento histórico, CitizenFour nos mostra um lado diferente de Snowden. Fica claro como ele sabia que o pior poderia acontecer com ele, após ele fazer contato com Greenwald e Laura, mas que ele não se importava com isso. Interessante ver como ele é um sujeito comum, apesar de ter uma inteligência fora do comum. Em certo momento, quando se sentiu mais frágil, ele se olhou no espelho e preocupou-se com a aparência. Como qualquer pessoa faria em algum momento da vida.

Também interessante ver como a reação de Snowden muda com o passar do tempo. No início, ele está tranquilo e bem seguro do que está fazendo. Diz que sabe que o pior pode acontecer com ele, mas está confiante de estar fazendo o que é certo – denunciar a vigilância e espionagem global do governo dos Estados Unidos, com potencial de monitorar todas as comunicações e localização de qualquer pessoa mundo afora. Até que as denúncias começam a aparecer, o assunto ganha repercussão, a namorada dele é encurralada, a família questionada, e ele já não está tão seguro assim.

Bacana essa parte. Afinal, nós temos coragem de fazer o que é necessário, mesmo que o pior aconteça com a gente. Mas quando vemos pessoas próximas sendo ameaçadas, essa segurança inicial é abalada. Nos sentimos responsáveis, culpados, e fragilizados por causa disso. Snowden passa por isso. Mas segue em frente. E é especialmente curioso que após o assunto vir à tona, ele percebe a ameaça real e já não está tão tranquilo sobre o que irá acontecer. O que comprova que uma coisa é idealizarmos uma situação, outra bem diferente é vivenciarmos ela.

Laura nos dá um documento importante não apenas por contribuir na narrativa dos fatos, mas também por mostrar um Snowden que ninguém conhecia. Interessante também como ele fez questão das primeiras notícias darem conta dos fatos e não apresentarem ele, o denunciante. Em mais de uma ocasião ele reforça que ele não era a notícia. Mas em certo momento Greenwald e ele falam sobre ele aparecer, ter a história contada, e de como isso poderia ser uma forma de contar os fatos da maneira correta, inclusive protegendo ele – o que não ocorreria se a revelação da identidade dele fosse feita pelo governo dos Estados Unidos, por exemplo.

Desta forma, CitizenFour nos dá algumas boas lições sobre o poder da informação e do jornalismo. Quando um trabalho é feito de forma séria, comprometida, e com as informações sendo dadas sempre em primeira mão, quem está divulgando estes dados tem o poder na mão. Por mais que as pessoas da NSA e do governo dos Estados Unidos seguiram mentindo por bastante tempo, negando a vigilância feita a nível global, os fatos revelados por Snowden comprovavam o contrário. Ele, um sujeito comum, aliado com Greenwald e outros jornalistas, conseguiu mudar o poder de mãos.

Pela forma com que esta produção é narrada, com um pouco de ajuda da trilha sonora marcante que acompanha a história, CitizenFour parece um filme de espiões. E não deixa de ser. Ainda que Snowden nunca trabalhou para governos “inimigos” dos Estados Unidos, mas apenas quis alertar o mundo sobre a vigilância individual e que acaba com a privacidade das pessoas. Do início ao fim o espectador sente que está acompanhando uma história de espionagem e contra-espionagem.

Bem narrado, este filme ajuda a dar um quadro mais amplo sobre as discussões envolvendo os temas levantados por Snowden – a diretora mostra palestras e audiências sobre o tema que ocorreram paralelamente ao interesse de Snowden de colocar a boca no trombone e pouco depois dele ter feito isso. O Brasil aparece em alguma cenas, tanto por causa da residência de Greenwald no Rio quanto por matérias que foram publicadas por aqui e audiências sobre o tema feitas no Congresso. Laura, claro, sempre está acompanhando Greenwald e Snowden, os personagens centrais desta história.

O problema desta produção, além dela não provocar tanta surpresa ou arrebatamento porque já sabemos boa parte da história, é que a diretora nem sempre contextualiza os personagens para o espectador. Além de não sabermos muito sobre Greenwald, não entendemos muito bem a aparição de outras figuras em cena. Como Jeremy Scahill. Quem acompanha o jornalismo norte-americano sabe quem é Scahill. Especializado em assuntos envolvendo a segurança nacional dos Estados Unidos, Scahill é um jornalista investigativo. Conheci ele por causa do filme Dirty Wars (comentado aqui no blog), que foi indicado como Melhor Documentário no ano passado.

Mas se você não assistiu a Dirty Wars ou acompanha as denúncias de Scahill na imprensa norte-americana, não vai entender nada quando ele aparece em cena em CitizenFour. Descontado este e outros pequenos problemas, o filme é marcante e será lembrado no futuro, com certeza. Especialmente pelo conteúdo – ainda que a forma/narrativa também seja interessante.

O mais incrível, e que fica como mensagem nesta história, é como o governo dos Estados Unidos usou como desculpa a segurança nacional para infringir leis do próprio país e leis de consenso mundial. Utilizando a tecnologia, presente em quase todas as partes, o governo norte-americano tem o potencial de vigiar qualquer pessoa, incluindo você e eu.

O mais grave, contudo, é essa vigilância envolver governantes e empresas estratégicas de diferentes países. Parece argumento de ficção científica, mas é real essa invasão de privacidade. Filme importante e que agrega elementos novos sobre a história de Snowden. Envolvente, documento histórico, só peca um pouco pela contextualização.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro projeto com o qual a diretora Laura Poitras se envolveu foi a série de TV Split Screen, de 1997, quando ela atuou como assistente de direção. Ela atuaria na mesma posição no ano seguinte no documentário Free Tibet, quando ela também se envolveu como produtora associada. Como diretora, o primeiro projeto foi Flag Wars, de 2003, quando Laura atuou como co-diretora. A estreia na direção sozinha foi feita três anos depois, com My Country, My Country, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2007.

Em 2010, Laura lançou o segundo documentário solo: The Oath. Depois, ela participaria com dois episódios na série de TV P.O.V. – os dois fruto dos documentários anteriores, um exibido em 2006 e, o outro, em 2010. Em 2011 e 2013 ela dirigiu dois curtas, O’Say Can You See e Death of a Prisoner, respectivamente. No ano passado foi a vez dela lançar CitizenFour.

Com o documentário sobre Edward Snowden a diretora chega a segunda indicação ao Oscar. As bolsas de apostas inglesas apontam que, desta vez, ela deve ganhar a estatueta dourada. Veremos. Até o momento, a diretora acumula 26 prêmios recebidos e outras 19 indicações.

Um nome me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme: Steven Soderbergh. Ele é um dos produtores executivos do filme. A produção propriamente dita é dividida entre Laura Poitras, Dirk Wilutzky e Mathilde Bonnefoy. Mas é bacana ver Soderbergh como um dos apoiadores do projeto. Por estas e por outras que eu gosto dele.

A direção de fotografia de CitizenFour é feita por Laura Poitras – quase todos os documentários tem o diretor como diretor de fotografia também -, Kirsten Johnson, Trevor Paglen e Katy Scoggin. A edição ficou por conta de Mathilde Bonnefoy.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a NSA, uma introdução pode ser feita por este artigo da Wikipédia. Ao assistir a esse documentário, fiquei pensando: “Não ouvimos mais falar, nos últimos meses, de Snowden. Como ele estará?”. Pois bem, procurando um pouco a respeito, fiquei sabendo que seguem saindo matérias relacionadas com dados que ele divulgou, como esta em que documentos revelados por ele demonstraram que os serviços de informação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha invadiram a rede de computadores da maior fabricante mundial de chip de celulares, a holandesa Gemalto. Essa notícia é de ontem, dia 20 de fevereiro de 2015. Snowden segue “causando”.

Depois de muita confusão sobre o asilo político para Snowden – inclusive foi feita uma campanha para ele ser aceito pelo Brasil -, ele foi recebido pela Rússia, como bem explica o filme de Laura. Mas a autorização dos russos era por um ano. O que aconteceu depois. Segundo esta matéria, o governo russo autorizou Snowden a permanecer por mais três anos abrigado no país. Como essa permissão foi dada em agosto do ano passado, ele tem pouso garantido por lá pelo menos até 2017. Menos mal que o mundo não tem apenas uma nação predominante. Nestas horas, acho bom China e Rússia, além de outros países, conseguirem colocar um pouco de equilíbrio na geopolítica mundial.

Quais nomes foram fundamentais nas discussões mundo afora nos últimos anos? Para mim, além de Edward Snowden, só mesmo o Papa Francisco. Pois bem, aparentemente os dois vão concorrer ao Nobel da Paz em 2015. Pelo menos é isso o que sinaliza esta reportagem. Se isso realmente for confirmado, vai ser interessante a definição sobre qual dos dois teve mais importância para a Paz mundo afora. O que vocês acham? Se eu tivesse que votar, eu teria sérias dúvidas em quem votar.

CitizenFour estreou em outubro de 2014 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros 10 festivais e eventos relacionados com filmes documentários. Nesta trajetória a produção recebeu 39 prêmios e outras 19 indicações – incluindo a indicação de Melhor Documentário no Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o BAFTA de Melhor Documentário; para o prêmio de melhor direção em documentário dado pelo Directors Guild of America; para o prêmio de Melhor Filme dado pela Associação Internacional de Documentaristas; para o prêmio de Melhor Filme de Não-Ficção dado pelo Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos; e para o prêmio de “cineasta que faz a diferença” no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Esta produção foi rodada em Hong Kong, em Berlim, Bruxelas, Londres, Rio de Janeiro, Moscou e nos Estados Unidos. Ou seja, Laura Poitras deu uma boa volta ao mundo para fazer este documentário. E ela migra de um local para o outro com muita suavidade.

Agora, uma curiosidade relacionada com Edward Snowden: ele será interpretado pelo ator Joseph Gordon Levitt na cinebiografia que será dirigida por Oliver Stone – outro diretor com posições políticas bem claras. O que eu admiro.

Não encontrei informações sobre os custos de CitizenFour, mas sim sobre o resultado dele nas bilheterias. De acordo com o site Box Office Mojo, este filme conseguiu pouco mais de US$ 2,6 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 202,3 mil no restante dos mercados em que já estreou.

Na verdade, o filme estreou de forma limitada (em poucos cinemas) nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá e na Austrália, e entrou em cartaz em poucos países, como Alemanha, Dinamarca e Áustria. Ou seja: ele ainda precisa estrear na maioria dos lugares. Isso explica a bilheteria ainda baixa. CitizenFour tem previsão de estrear em março na França e na Espanha. Não há previsão ainda para o Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme de Laura Poitras. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 textos positivos e apenas três negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,3 – o nível da aprovação e a nota são ótimos levando em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução da Alemanha com os Estados Unidos. Sendo assim, ele entra na lista de produções pedidas por vocês, caros leitores, aqui no blog.

CONCLUSÃO: A história que Edward Snowden contou, todos conhecem. Mas parte dos bastidores dos contatos dele com os porta-vozes da novidade que ele veio trazer, de que o governo dos Estados Unidos através da NSA armazena informações da comunicação de pessoas do mundo inteiro, incluindo aí líderes de outros países, é apresentada neste CitizenFour. A outra parte da história pode ser conferida no livro de Gleen Greenwald.

Este documentário acerta ao nos mostrar os bastidores de parte das negociações e das entrevistas, assim como ajuda a desmistificar a figura séria de Snowden. Mas ele não chega a arrebatar, ou a nos revelar fatos muito surpreendentes sobre o personagem central. É bom, mas não é excepcional, apesar de ser um documento importante e que fecha uma trilogia da diretora.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Nas bolsas de apostas do Reino Unido, não tem para ninguém. CitizenFour é, disparado, o favorito para ganhar a estatueta dourada na categoria Melhor Documentário este ano. Os mesmos apostadores dão como certa a vitória de Birdman (comentado aqui) como Melhor Filme. Caso eles estejam certos nestas duas categorias, o Oscar vai dar passos largos no caminho da ousadia.

Começando por Birdman: o filme de Iñarritu atira para todos os lados ao fazer uma crítica geral ao mainstream. O filme ataca do cinemão norte-americano – simbolizado pelos filmes de heróis – até a Broadway e a parada de sucessos musical dos Estados Unidos. Ser nove vezes indicado ao Oscar este ano já era um grande feito para o filme. Se ele sair com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor, o feito terá sido memorável.

CitizenFour vai na mesma direção. Primeiro porque o filme trata como herói um dos maiores inimigos dos Estados Unidos dos últimos anos. Edward Snowden escancarou a vigilância dos cidadãos dos Estados Unidos e do resto do mundo, virando um dos principais assuntos de 2013.

Se ganhar como Melhor Documentário, este filme não apenas consagrará ainda mais Snowden, mas também a diretora Laura Poitras que fez outras duas produções corajosas sobre a América após o 11/9. Por tudo isso, acredito que seria justo o filme ganhar. Isso iria coroar o trabalho corajoso da diretora e também a ousadia de Snowden.

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CitizenFour

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Vale a pena fazer um trabalho alternativo e que rompe com as regras do jogo para mostrar a verdade por trás dos fatos suavizados pelo mainstream. Tanto isso é verdade que Edward Snowden procurou um blogueiro e uma documentarista alternativos e que vinham fazendo um trabalho sólido de denúncia de abusos do governo dos Estados Unidos para fazer a denúncia que abalou o mundo em 2013. CitizenFour conta os bastidores da boca no trombone de Snowden por uma das duas pessoas escolhidas por ele para falar das espionagens da NSA (National Security Agency, ou Agência de Segurança Nacional): a diretora Laura Poitras.

A HISTÓRIA: Começa com uma explicação da diretora. Ela diz que em 2006 foi colocada em uma lista secreta após ter feito um filme sobre a Guerra do Iraque. Nos anos seguintes, ela foi diversas vezes presa e interrogada nas fronteiras dos Estados Unidos. O filme seguinte dela foi sobre Guantánamo e a guerra contra o terror. Ela comenta que este é o terceiro filme da trilogia sobre a América após o 11/9.

Enquanto vemos a imagem de um túnel escuro com uma luz deslizando pelo teto, ouvimos a diretora narrando um e-mail que recebeu. Nele, um sujeito dizia que era funcionário do governo do mais alto nível da comunidade de inteligência, e que contatar com ela era de alto risco. Sugere que ela tome precauções de segurança antes deles continuarem a conversar. E termina assinando CitizenFour. Na cena seguinte, vemos a Glenn Greenwald no Rio de Janeiro, em sua residência em 2011, entrando ao vivo para falar de um contrassenso do presidente Barack Obama. Em breve, acompanharemos o encontro entre CitizenFour, Greenwald e Laura Poitras em Hong Kong.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a CitizenFour): A única possibilidade de você nunca ter ouvido falar de Edward Snowden é se você viveu dentro de uma bolha no fundo do mar nos últimos dois anos. Desde que a primeira matéria de Gleen Greenwald sobre a espionagem em massa e global do governo dos Estados Unidos veio à tona, foi inevitável não ouvir falar deste assunto e, depois, de Snowden.

Sendo assim, CitizenFour não apresenta um personagem novo. Pelo contrário. O documentário da corajosa e elogiada diretora Laura Poitras explora parte dos nuances deste nome tão conhecido mundo afora nos últimos anos. Ver Snowden “mais de perto” e em momentos tão decisivos, como quando as primeiras matérias foram publicadas e começaram a repercutir, é o que este filme tem de mais interessante.

O jeito de Laura filmar é “naturalista”, ou seja, ela procura ter o mínimo de interferência possível no que está acontecendo. Mas como bem nos ensinou o diretor brasileiro Eduardo Coutinho, não existe documentário sem interferência de quem está por trás da câmera. Então é apenas uma ilusão a ideia que Laura tenta nos passar que ela está de forma “invisível” acompanhando tudo, sem muitas perguntas ou interferências de outros tipos. Isso fica evidente toda vez que Snowden comenta com Greenwald, especialmente, sobre algo que ele tinha conversado com Laura.

A diretora sabe, contudo, narrar uma história sem grandes interferências. Para isso, ela utiliza diferentes recursos. Lê e-mails que recebeu do CitizenFour, intercala cenas dos dias decisivos em que ela e Greenwald conversaram com Snowden, mostra parte do cotidiano de Greenwald, segue com Snowden mesmo quando o ex-advogado e articulista não estava mais no quarto já famoso de Hong Kong, e tempera tudo isso com cenas de outros personagens, como William Binney, um lendário cripto-matemático da NSA, e Ladar Levinson, fundador do serviço de correio eletrônico criptografado LAVABIT.

O filme perde um pouco porque já sabemos muito sobre as denúncias de Snowden, mas ganha pontos pela forma da narrativa de Laura. Ela vai nos situando sobre como tudo aconteceu. O trabalho que ela fez, assim como Gleen Greenwald, acaba atraindo o interesse de Snowden. Se Laura não tivesse feito os documentários My Country, My Country e The Oath e tivesse sido perseguida pelo governo dos Estados Unidos por causa disso, Snowden não a teria procurado após sentir dificuldade de manter um contato seguro com Greenwald.

Por coincidência, ou não, Laura era amiga de Greenwald. No livro “No Place to Hide” (ou “Sem Lugar para se Esconder”), lançado por Greenwald em 2014, ele conta como recebeu e-mails assinados por Cincinnatus, que dizia ter informações importantes, mas que só poderia manter um contato mais aprofundado se o articulista conseguisse uma conexão segura – o que ele não tinha, e de como acabou conhecendo a pessoa com quem ele se correspondeu desde o final de 2012 em poucas ocasiões por intermédio de Laura.

Isso, infelizmente, não fica claro no filme. Este é um problema de CitizenFour. O documentário não situa o espectador sobre a amizade de Greenwald com Laura e muito menos contextualiza um pouco melhor a importância dele para as denúncias envolvendo os exageros praticados pelo governo dos Estados Unidos especialmente após o 11 de Setembro. Esse é um ponto fraco do filme. A falta de contextualização é sempre um problema, especialmente para documentários.

Mas a narrativa sobre como tudo começou e foi se desenvolvendo é perfeita. Ficamos sabendo as razões de Laura ter sido escolhida por Snowden, acompanhamos o primeiro e-mail entre eles e sabemos, por exemplo, que a conversa entre o delator e Greenwald só não avançou por uma falta de segurança na comunicação. A parte mais interessante e de relevância histórica está nos dias em que o trio se encontrou no hotel de Hong Kong.

O primeiro encontro foi no dia 3 de junho de 2013. Durante oito dias Snowden se encontrou com Laura, Greenwald e durante parte deste tempo, com o jornalista investigativo do The Guardian Ewen MacAskill para tentar esmiuçar para eles os documentos ultra secretos que ele estava divulgando, explicar as suas intenções e motivações.

É fascinante ouvir Snowden falar sobre o desejo dele que a internet voltasse a ser livre, e que as pessoas tivessem a tranquilidade de serem e pensarem o que elas quisessem sem o medo de que algo de ruim poderia acontecer com elas simplesmente porque um determinado governo não quisesse que elas pensassem de determinada forma ou defendessem certas ideias.

Além de documento histórico, CitizenFour nos mostra um lado diferente de Snowden. Fica claro como ele sabia que o pior poderia acontecer com ele, após ele fazer contato com Greenwald e Laura, mas que ele não se importava com isso. Interessante ver como ele é um sujeito comum, apesar de ter uma inteligência fora do comum. Em certo momento, quando se sentiu mais frágil, ele se olhou no espelho e preocupou-se com a aparência. Como qualquer pessoa faria em algum momento da vida.

Também interessante ver como a reação de Snowden muda com o passar do tempo. No início, ele está tranquilo e bem seguro do que está fazendo. Diz que sabe que o pior pode acontecer com ele, mas está confiante de estar fazendo o que é certo – denunciar a vigilância e espionagem global do governo dos Estados Unidos, com potencial de monitorar todas as comunicações e localização de qualquer pessoa mundo afora. Até que as denúncias começam a aparecer, o assunto ganha repercussão, a namorada dele é encurralada, a família questionada, e ele já não está tão seguro assim.

Bacana essa parte. Afinal, nós temos coragem de fazer o que é necessário, mesmo que o pior aconteça com a gente. Mas quando vemos pessoas próximas sendo ameaçadas, essa segurança inicial é abalada. Nos sentimos responsáveis, culpados, e fragilizados por causa disso. Snowden passa por isso. Mas segue em frente. E é especialmente curioso que após o assunto vir à tona, ele percebe a ameaça real e já não está tão tranquilo sobre o que irá acontecer. O que comprova que uma coisa é idealizarmos uma situação, outra bem diferente é vivenciarmos ela.

Laura nos dá um documento importante não apenas por contribuir na narrativa dos fatos, mas também por mostrar um Snowden que ninguém conhecia. Interessante também como ele fez questão das primeiras notícias darem conta dos fatos e não apresentarem ele, o denunciante. Em mais de uma ocasião ele reforça que ele não era a notícia. Mas em certo momento Greenwald e ele falam sobre ele aparecer, ter a história contada, e de como isso poderia ser uma forma de contar os fatos da maneira correta, inclusive protegendo ele – o que não ocorreria se a revelação da identidade dele fosse feita pelo governo dos Estados Unidos, por exemplo.

Desta forma, CitizenFour nos dá algumas boas lições sobre o poder da informação e do jornalismo. Quando um trabalho é feito de forma séria, comprometida, e com as informações sendo dadas sempre em primeira mão, quem está divulgando estes dados tem o poder na mão. Por mais que as pessoas da NSA e do governo dos Estados Unidos seguiram mentindo por bastante tempo, negando a vigilância feita a nível global, os fatos revelados por Snowden comprovavam o contrário. Ele, um sujeito comum, aliado com Greenwald e outros jornalistas, conseguiu mudar o poder de mãos.

Pela forma com que esta produção é narrada, com um pouco de ajuda da trilha sonora marcante que acompanha a história, CitizenFour parece um filme de espiões. E não deixa de ser. Ainda que Snowden nunca trabalhou para governos “inimigos” dos Estados Unidos, mas apenas quis alertar o mundo sobre a vigilância individual e que acaba com a privacidade das pessoas. Do início ao fim o espectador sente que está acompanhando uma história de espionagem e contra-espionagem.

Bem narrado, este filme ajuda a dar um quadro mais amplo sobre as discussões envolvendo os temas levantados por Snowden – a diretora mostra palestras e audiências sobre o tema que ocorreram paralelamente ao interesse de Snowden de colocar a boca no trombone e pouco depois dele ter feito isso. O Brasil aparece em alguma cenas, tanto por causa da residência de Greenwald no Rio quanto por matérias que foram publicadas por aqui e audiências sobre o tema feitas no Congresso. Laura, claro, sempre está acompanhando Greenwald e Snowden, os personagens centrais desta história.

O problema desta produção, além dela não provocar tanta surpresa ou arrebatamento porque já sabemos boa parte da história, é que a diretora nem sempre contextualiza os personagens para o espectador. Além de não sabermos muito sobre Greenwald, não entendemos muito bem a aparição de outras figuras em cena. Como Jeremy Scahill. Quem acompanha o jornalismo norte-americano sabe quem é Scahill. Especializado em assuntos envolvendo a segurança nacional dos Estados Unidos, Scahill é um jornalista investigativo. Conheci ele por causa do filme Dirty Wars (comentado aqui no blog), que foi indicado como Melhor Documentário no ano passado.

Mas se você não assistiu a Dirty Wars ou acompanha as denúncias de Scahill na imprensa norte-americana, não vai entender nada quando ele aparece em cena em CitizenFour. Descontado este e outros pequenos problemas, o filme é marcante e será lembrado no futuro, com certeza. Especialmente pelo conteúdo – ainda que a forma/narrativa também seja interessante.

O mais incrível, e que fica como mensagem nesta história, é como o governo dos Estados Unidos usou como desculpa a segurança nacional para infringir leis do próprio país e leis de consenso mundial. Utilizando a tecnologia, presente em quase todas as partes, o governo norte-americano tem o potencial de vigiar qualquer pessoa, incluindo você e eu.

O mais grave, contudo, é essa vigilância envolver governantes e empresas estratégicas de diferentes países. Parece argumento de ficção científica, mas é real essa invasão de privacidade. Filme importante e que agrega elementos novos sobre a história de Snowden. Envolvente, documento histórico, só peca um pouco pela contextualização.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro projeto com o qual a diretora Laura Poitras se envolveu foi a série de TV Split Screen, de 1997, quando ela atuou como assistente de direção. Ela atuaria na mesma posição no ano seguinte no documentário Free Tibet, quando ela também se envolveu como produtora associada. Como diretora, o primeiro projeto foi Flag Wars, de 2003, quando Laura atuou como co-diretora. A estreia na direção sozinha foi feita três anos depois, com My Country, My Country, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2007.

Em 2010, Laura lançou o segundo documentário solo: The Oath. Depois, ela participaria com dois episódios na série de TV P.O.V. – os dois fruto dos documentários anteriores, um exibido em 2006 e, o outro, em 2010. Em 2011 e 2013 ela dirigiu dois curtas, O’Say Can You See e Death of a Prisoner, respectivamente. No ano passado foi a vez dela lançar CitizenFour.

Com o documentário sobre Edward Snowden a diretora chega a segunda indicação ao Oscar. As bolsas de apostas inglesas apontam que, desta vez, ela deve ganhar a estatueta dourada. Veremos. Até o momento, a diretora acumula 26 prêmios recebidos e outras 19 indicações.

Um nome me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme: Steven Soderbergh. Ele é um dos produtores executivos do filme. A produção propriamente dita é dividida entre Laura Poitras, Dirk Wilutzky e Mathilde Bonnefoy. Mas é bacana ver Soderbergh como um dos apoiadores do projeto. Por estas e por outras que eu gosto dele.

A direção de fotografia de CitizenFour é feita por Laura Poitras – quase todos os documentários tem o diretor como diretor de fotografia também -, Kirsten Johnson, Trevor Paglen e Katy Scoggin. A edição ficou por conta de Mathilde Bonnefoy.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a NSA, uma introdução pode ser feita por este artigo da Wikipédia. Ao assistir a esse documentário, fiquei pensando: “Não ouvimos mais falar, nos últimos meses, de Snowden. Como ele estará?”. Pois bem, procurando um pouco a respeito, fiquei sabendo que seguem saindo matérias relacionadas com dados que ele divulgou, como esta em que documentos revelados por ele demonstraram que os serviços de informação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha invadiram a rede de computadores da maior fabricante mundial de chip de celulares, a holandesa Gemalto. Essa notícia é de ontem, dia 20 de fevereiro de 2015. Snowden segue “causando”.

Depois de muita confusão sobre o asilo político para Snowden – inclusive foi feita uma campanha para ele ser aceito pelo Brasil -, ele foi recebido pela Rússia, como bem explica o filme de Laura. Mas a autorização dos russos era por um ano. O que aconteceu depois. Segundo esta matéria, o governo russo autorizou Snowden a permanecer por mais três anos abrigado no país. Como essa permissão foi dada em agosto do ano passado, ele tem pouso garantido por lá pelo menos até 2017. Menos mal que o mundo não tem apenas uma nação predominante. Nestas horas, acho bom China e Rússia, além de outros países, conseguirem colocar um pouco de equilíbrio na geopolítica mundial.

Quais nomes foram fundamentais nas discussões mundo afora nos últimos anos? Para mim, além de Edward Snowden, só mesmo o Papa Francisco. Pois bem, aparentemente os dois vão concorrer ao Nobel da Paz em 2015. Pelo menos é isso o que sinaliza esta reportagem. Se isso realmente for confirmado, vai ser interessante a definição sobre qual dos dois teve mais importância para a Paz mundo afora. O que vocês acham? Se eu tivesse que votar, eu teria sérias dúvidas em quem votar.

CitizenFour estreou em outubro de 2014 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros 10 festivais e eventos relacionados com filmes documentários. Nesta trajetória a produção recebeu 39 prêmios e outras 19 indicações – incluindo a indicação de Melhor Documentário no Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o BAFTA de Melhor Documentário; para o prêmio de melhor direção em documentário dado pelo Directors Guild of America; para o prêmio de Melhor Filme dado pela Associação Internacional de Documentaristas; para o prêmio de Melhor Filme de Não-Ficção dado pelo Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos; e para o prêmio de “cineasta que faz a diferença” no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Esta produção foi rodada em Hong Kong, em Berlim, Bruxelas, Londres, Rio de Janeiro, Moscou e nos Estados Unidos. Ou seja, Laura Poitras deu uma boa volta ao mundo para fazer este documentário. E ela migra de um local para o outro com muita suavidade.

Agora, uma curiosidade relacionada com Edward Snowden: ele será interpretado pelo ator Joseph Gordon Levitt na cinebiografia que será dirigida por Oliver Stone – outro diretor com posições políticas bem claras. O que eu admiro.

Não encontrei informações sobre os custos de CitizenFour, mas sim sobre o resultado dele nas bilheterias. De acordo com o site Box Office Mojo, este filme conseguiu pouco mais de US$ 2,6 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 202,3 mil no restante dos mercados em que já estreou.

Na verdade, o filme estreou de forma limitada (em poucos cinemas) nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá e na Austrália, e entrou em cartaz em poucos países, como Alemanha, Dinamarca e Áustria. Ou seja: ele ainda precisa estrear na maioria dos lugares. Isso explica a bilheteria ainda baixa. CitizenFour tem previsão de estrear em março na França e na Espanha. Não há previsão ainda para o Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme de Laura Poitras. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 textos positivos e apenas três negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,3 – o nível da aprovação e a nota são ótimos levando em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução da Alemanha com os Estados Unidos. Sendo assim, ele entra na lista de produções pedidas por vocês, caros leitores, aqui no blog.

CONCLUSÃO: A história que Edward Snowden contou, todos conhecem. Mas parte dos bastidores dos contatos dele com os porta-vozes da novidade que ele veio trazer, de que o governo dos Estados Unidos através da NSA armazena informações da comunicação de pessoas do mundo inteiro, incluindo aí líderes de outros países, é apresentada neste CitizenFour. A outra parte da história pode ser conferida no livro de Gleen Greenwald.

Este documentário acerta ao nos mostrar os bastidores de parte das negociações e das entrevistas, assim como ajuda a desmistificar a figura séria de Snowden. Mas ele não chega a arrebatar, ou a nos revelar fatos muito surpreendentes sobre o personagem central. É bom, mas não é excepcional, apesar de ser um documento importante e que fecha uma trilogia da diretora.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Nas bolsas de apostas do Reino Unido, não tem para ninguém. CitizenFour é, disparado, o favorito para ganhar a estatueta dourada na categoria Melhor Documentário este ano. Os mesmos apostadores dão como certa a vitória de Birdman (comentado aqui) como Melhor Filme. Caso eles estejam certos nestas duas categorias, o Oscar vai dar passos largos no caminho da ousadia.

Começando por Birdman: o filme de Iñarritu atira para todos os lados ao fazer uma crítica geral ao mainstream. O filme ataca do cinemão norte-americano – simbolizado pelos filmes de heróis – até a Broadway e a parada de sucessos musical dos Estados Unidos. Ser nove vezes indicado ao Oscar este ano já era um grande feito para o filme. Se ele sair com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor, o feito terá sido memorável.

CitizenFour vai na mesma direção. Primeiro porque o filme trata como herói um dos maiores inimigos dos Estados Unidos dos últimos anos. Edward Snowden escancarou a vigilância dos cidadãos dos Estados Unidos e do resto do mundo, virando um dos principais assuntos de 2013.

Se ganhar como Melhor Documentário, este filme não apenas consagrará ainda mais Snowden, mas também a diretora Laura Poitras que fez outras duas produções corajosas sobre a América após o 11/9. Por tudo isso, acredito que seria justo o filme ganhar. Isso iria coroar o trabalho corajoso da diretora e também a ousadia de Snowden.

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Mandariinid – Tangerines – Tangerinas

Como comentei recentemente por aqui, um filme para ser bom não precisa ser longo. E o mais importante de tudo: pode ser bem simples. Mandariinid é uma produção muito simples, que gira sobre uma proposta interessante: o que pode acontecer quando dois inimigos mortais são “obrigados” a conviver sob o mesmo teto e sob a regra de não se matarem lá dentro? A tensão e a aproximação entre eles é inevitável, e o resultado desta proposta é muito interessante. Um filme simples, curto, e excelente ao revelar-se um grande libelo pela vida e pela paz.

A HISTÓRIA: Começa explicando que aldeias estonianas foram formadas na Abecásia na segunda metade do século 19. A guerra entre Geórgia e Abecásia começou em 1992, alterando a vida dos moradores estonianos. A maioria deles decidiu voltar para a sua terra natal. Isso esvazio as aldeias, aonde poucos resistiram à debandada. Uma destas pessoas é Ivo (o ótimo Lembit Ulfsak), que trabalha em caixas para armazenar e transportar tangerinas, cultivadas por ele e, principalmente, pelo vizinho e amigo Margus (Elmo Nüganen). Mas a vida tranquila dos vizinhos será modificada com a chegada de Ahmed (Giorgi Nakashidze) e a aproximação da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mandariinid): Que filme maravilhoso! Esse é o primeiro comentário que quero deixar claro por aqui. Focado em poucos personagens e no trabalho de ótimos atores, com um roteiro preciso e bem construído pelo diretor e roteirista Zaza Urushadze.

Como eu disse lá no início, Urushadze parte de uma premissa simples e muito interessante: o que aconteceria se dois inimigos mortais fossem reunidos frente a frente em uma mesa, sem a possibilidade matarem um ao outro? Ora, a resposta é evidente: eles teriam que vencer as próprias resistência e começarem a dialogar. Como bem apresenta Mandariinid, inicialmente a troca entre os dois se resume a farpas e provocações.

Mas para intermediar o conflito, temos o genial Ivo. Um homem com olhar atento, muita sabedoria e que sabe tratar as pessoas da forma justa, na medida certa para que elas o respeitem e para que saibam que ele as respeita. Aliás, a honra e o respeito são dois elementos fundamentais nas relações estabelecidas nesta história. De forma muito acertada, Urushadze decide fazer a história crescer lentamente.

Primeiro, ele dedica aquelas linhas iniciais para situar o espectador no cenário do filme. A produção se passa na Abecásia, região no Caucásio, entre a Ásia e a Europa, que fez parte da extinta União Soviética. A Abecásia é uma república autônoma em busca de independência da Geórgia, que fica ao Sul da Abecásia. É ali que, segundo o diretor, desde o século 19, vivem estonianos em aldeias.

De acordo com este texto da Wikipédia, com o fima da União Soviética em 1991, as tensões étnicas entre abecásios e georgianos cresceram com os movimentos de independência da república da Geórgia. A guerra civil matou milhares de pessoas em 1992 e 1993, até que foi declarado cessar-fogo em 1994. Sem o problema ser resolvido completamente, os conflitos retornaram no local nos anos 2000.

Pois bem, depois daquela breve introdução do problema na Abecásia, Urushadze nos apresenta o protagonista do filme, Ivo, tendo a rotina tranquila interrompida pelo cenário de guerra do país. O mercenário da Chechênia que é pago para lutar ao lado dos abecácios Ahmed pede comida para ele e o seu amigo e companheiro de armas. Não há negociação, e o primeiro pensamento que eu tenho é de “que bom que aquele homem vive ali sozinho e não tem nenhuma mulher em casa”. Sabemos como as guerras são cruéis.

A dupla de chechenos fica pouco tempo na casa de Ivo. Quando eles vão embora, ele não volta para a produção de caixas. Ivo procura o amigo Margus, produtor de tangerinas, e aí se apresenta o segundo drama da história: a luta dos dois vizinhos para continuar com a tradição do plantio e colheita de tangerinas. Os pés estão carregados de frutas, e os dois acham uma pena desperdiçar tudo aquilo. Mas eles tem pouco tempo para colher tudo e transportar a mercadoria – e, para isso, eles contam com a ajuda de homens que estão na luta armada e que prometeram trabalhar para eles por alguns dias.

Em pouco tempo o roteiro de Urushadze nos apresenta dois dramas que, ao mesmo tempo, são muito particulares daquela região do mundo e, também, bastante universais. Afinal, quantos países já contabilizaram guerras e conflitos em sua história? E quantos lugares tem práticas de busca de renda e de preservação das tradições e/ou culturas como aquele simples plantio de tangerinas mostrado no filme?

Não demora muito tempo para que Ivo seja retirado da tranquilidade novamente. E desta vez os fatos vão mudar a rotina dele definitivamente. Ahmed e o amigo entram em conflito com um grupo de georgianos. Aparentemente, apenas Ahmed sobrevive. Mas na hora de enterrar os mortos, Ivo e Margus encontram um georgiano sobrevivente: Niko (Misha Meskhi). Humanista e defensor da vida, Ivo não pensa duas vezes em fazer de tudo para salvar Niko.

Ele não se importa em abrigar sob o mesmo teto os dois inimigos mortais. Pelo contrário. Pelo seu olhar e risada contida, muitas vezes parece que ele acredita que aquela fatalidade foi perfeita. Ele pede para Ahmed que não mate o inimigo sob o seu teto, e o checheno dá a sua palavra. Niko está muito ferido para tentar qualquer vingança. E assim os dois inimigos começam a conviver. No início, chega a ser hilário o conflito entre os dois. Eles parecem duas crianças brigando para saber quem tem direito à terra, quem sabe lutar melhor ou quem é menos ignorante.

A birra um tanto infantil me parece bem calculada por Urushadze. Afinal, toda a guerra é baseada em disputas deste gênero, de quem chegou primeiro ou de quem tem mais direito à propriedade do que o outro. No fim das contas, e Ivo demonstra isso diariamente, sob a compreensão progressiva de Ahmed e Niko, pouco importa quem acredita ter mais direito que o outro. Todos são iguais e merecem viver. Esta é uma das grandes mensagens deste filme. Mas não é a única.

Depois da lição envolvendo os dois inimigos mortais, que pouco a pouco vão notando que não tem reais razões para se odiarem e desejarem a morte um do outro, o filme tem nova reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na reta final da produção, um grupo de militares pró-independência da Abecásia chegam na propriedade e questionam a origem de Ahmed. Ele diz que é checheno, mas eles não acreditam no que ele fala. Em poucos minutos ocorrem duas mortes.

Elas comprovam e ensinam dois importantes valores: primeiro, que a guerra não poupa ninguém e tira amigos de todos os lados; e segundo, que ela termina com os sonhos e talentos de jovens promissores. Pouco antes, sabemos um pouco mais sobre Niko. Apenas para ver que tipo de pessoa daria a vida para defender os seus protetores. Não importa o quanto uma luta seja justa, ou correta, ela nunca vai nos levar a algo positivo porque significará mortes, perdas irreparáveis.

Para fechar a narrativa, Ivo ainda tem um último gesto maravilhoso. Ficamos sabendo um pouco mais sobre ele, sua perda irreparável e, com isso, o espectador fica ainda mais maravilhado com o gesto de homenagem final para um jovem talento que ele ajudou a salvar, mas que foi morto por uma guerra sem justificativa.

Como ele bem defende nos minutos finais da produção, pouco importa se a pessoa morta era abecasiana, georgiana ou chechena. Ela era filha de alguém e um indivíduo que poderia ter contribuído muito para uma comunidade. A guerra é sempre uma lástima. Essa é a principal mensagem de Mandariinid, um filme simples e fantástico justamente por isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme não precisa ter um grande elenco, mas é fundamental ter ótimos atores em cena. Pessoas comprometidas com o trabalho e com passar cada pequeno aspecto da personalidade e das reações de seus personagens para o espectador. É isso o que comprova Mandariinid. A produção tem claramente quatro atores como destaque. Os demais, fazem apenas pontas. Por isso mesmo, o primeiro destaque desta produção são os atores Lembit Ulfsak, com especial atenção, porque ele é o protagonista; seguido de Giorgi Nakashidze, Misha Meskhi e Elmo Nüganen.

Outro elemento importante nesta produção é a marcante e muito presente trilha sonora de Niaz Diasamidze. O trabalho dele é vigoroso e nos remete para a tradição daquela região. Outro elemento importante e que funciona bem é a direção de fotografia de Rein Kotov. Ainda que o filme não saia das propriedades de Ivo e Margus, o cuidado com os contrastes e as cores daquele local valoriza as cenas que o espectador confere atentamente. Também muito competente e acertada a edição de Alexander Kuranov.

A equipe é pequena, e todos os envolvidos fazem um bom trabalho. Mas além dos elementos citados acima, acredito que outro elemento fundamental para esta história seja o som. Um bom trabalho do trio Harmo Kallaste, Valter Jakovlev e Ranno Tislar.

Mandariinid estreou em outubro de 2013 no Festival de Cinema de Varsóvia. Depois, o filme participaria ainda de sete festivais – o último deles o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, em janeiro deste ano. Estranhamente ele não participou de nenhum dos grandes festivais. Nesta trajetória, a produção ganhou 10 prêmios e foi indicada a outros sete, incluindo a indicação para Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para uma menção honrosa na categoria de Melhor Filme no Festival de Cinema de Jerusalém, e para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Varsóvia.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Mandariinid foi filmado na cidade de Guria, na Geórgia.

O diretor Zaza Urushadze tem apenas cinco títulos no currículos. Todos longas. A estreia dele como diretor foi feita em 1989 com o filme Mattvis Vints Mamam Miatova. Depois, ele só voltaria a lançar um novo longa em 1998: Ak Tendeba. Fiquei com vontade de assistir aos filmes anteriores do diretor. Natural da Geórgia, em outubro ele completa 50 anos.

Giorgi Nakashidze, que interpreta ao checheno Ahmed, na verdade é georgiano – nacionalidade que ele é pago para matar no filme. Essa foi a única curiosidade desta produção que eu encontrei para comentar aqui.

Para quem quiser saber mais sobre a Abecásia, recomendo este texto da Wikipédia e também esta notícia publicada na revista Exame que registra um acordo firmado pela Rússia com a Abecásia no final de 2014. Como o segundo texto deixa bem claro, a região da Abecásia se separou da Geórgia “mas não teve a sua independência reconhecida internacionalmente”. Enquanto isso, os conflitos continuam. O que faz com que Mandariinid seja um filme ainda mais corajoso – afinal, além de ser um libelo pela paz e contra qualquer guerra, ele ainda fala de um assunto bastante atual e que mexe com muitos brios atualmente.

Não encontrei informações sobre o custo de Mandariinid, mas imagino que ele tenha sido baixo – especialmente se comparado com o padrão de Hollywood. Também não vi notícias sobre a bilheteria do filme, mas para ele ser tão pouco falado, certamente foi pouco assistido nos Estados Unidos e em países importantes para a crítica de cinema.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção. Uma ótima, estupenda avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente ignoraram este filme até aqui. O site abriga apenas quatro críticas – todas positivas, o que daria uma aprovação para o filme de 100%. Essa quase ausência de críticas também reforça a minha observação acima, de que esta produção acabou sendo prejudicada porque quase não foi vista – ela teve uma distribuição restrita, aparentemente.

CONCLUSÃO: O essencial sobre a guerra, as divergências entre as pessoas, a busca pela paz e pelo entendimento está neste filme. Todos esses assuntos parecem ser complicados demais para serem resumidos em menos de 1h30 de uma produção, correto? Mas eis mais um ensinamento maravilhoso de Mandariinid: tudo pode ser simplificado até o essencial. Este filme é o contrário de Birdman e, para o meu gosto, mereceria muito mais evidência do que o filme de Inãrritu. Mas como o mundo não é justo e Hollywood está preocupada com os seus próprios filmes, teremos muito mais gente assistindo a Birdman do que a Mandariinid. O que é uma pena. Ainda assim, se puder, por favor, não evite esse filme. Ele é grandioso em sua simplicidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Representante do pouco conhecido no Brasil país Estônia, Mandariinid revela como uma história sem complicações e que aposta em uma boa ideia pode ser potente. Infelizmente pouco falado no Oscar 2015, para o qual os holofotes estão sendo direcionados para Ida (comentado aqui) e para Leviathan (com crítica neste link), este filme mexeu mais comigo que os outros dois.

Mas a verdade é que Mandariinid corre por fora na disputa, assim como Relatos Salvajes e Timbuktu. Pelo menos é isso o que sinalizam os burburinhos e as notícias de bastidores da premiação. Surpresas sempre podem acontecer, é verdade, ainda mais em uma categoria aonde a pressão dos grandes estúdios costuma influenciar menos. Mas acho difícil esse filme, o melhor da categoria para mim até agora, levar a estatueta.

De qualquer forma, muito boas e acima da média as três produções que concorrem a Melhor Filme em Língua Estrangeira que eu assisti até agora. O que apenas comprova que esta categoria, colocada em segundo plano no Oscar, sempre é uma das melhores e que tem todos os indicados dignos de serem vistos. Este é mais um grande ano nesta categoria. E ainda que Mandariinid ganhar seria uma grata surpresa, ainda acho que os favoritos são Leviathan e Ida – o primeiro com apelo de crítica à Rússia, e o segundo, aos crimes contra os judeus (grupo que tem grande peso nos Estados Unidos e, consequentemente, em Hollywood).

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Mandariinid – Tangerines

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Como comentei recentemente por aqui, um filme para ser bom não precisa ser longo. E o mais importante de tudo: pode ser bem simples. Mandariinid é uma produção muito simples, que gira sobre uma proposta interessante: o que pode acontecer quando dois inimigos mortais são “obrigados” a conviver sob o mesmo teto e sob a regra de não se matarem lá dentro? A tensão e a aproximação entre eles é inevitável, e o resultado desta proposta é muito interessante. Um filme simples, curto, e excelente ao revelar-se um grande libelo pela vida e pela paz.

A HISTÓRIA: Começa explicando que aldeias estonianas foram formadas na Abecásia na segunda metade do século 19. A guerra entre Geórgia e Abecásia começou em 1992, alterando a vida dos moradores estonianos. A maioria deles decidiu voltar para a sua terra natal. Isso esvazio as aldeias, aonde poucos resistiram à debandada. Uma destas pessoas é Ivo (o ótimo Lembit Ulfsak), que trabalha em caixas para armazenar e transportar tangerinas, cultivadas por ele e, principalmente, pelo vizinho e amigo Margus (Elmo Nüganen). Mas a vida tranquila dos vizinhos será modificada com a chegada de Ahmed (Giorgi Nakashidze) e a aproximação da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mandariinid): Que filme maravilhoso! Esse é o primeiro comentário que quero deixar claro por aqui. Focado em poucos personagens e no trabalho de ótimos atores, com um roteiro preciso e bem construído pelo diretor e roteirista Zaza Urushadze.

Como eu disse lá no início, Urushadze parte de uma premissa simples e muito interessante: o que aconteceria se dois inimigos mortais fossem reunidos frente a frente em uma mesa, sem a possibilidade matarem um ao outro? Ora, a resposta é evidente: eles teriam que vencer as próprias resistência e começarem a dialogar. Como bem apresenta Mandariinid, inicialmente a troca entre os dois se resume a farpas e provocações.

Mas para intermediar o conflito, temos o genial Ivo. Um homem com olhar atento, muita sabedoria e que sabe tratar as pessoas da forma justa, na medida certa para que elas o respeitem e para que saibam que ele as respeita. Aliás, a honra e o respeito são dois elementos fundamentais nas relações estabelecidas nesta história. De forma muito acertada, Urushadze decide fazer a história crescer lentamente.

Primeiro, ele dedica aquelas linhas iniciais para situar o espectador no cenário do filme. A produção se passa na Abecásia, região no Caucásio, entre a Ásia e a Europa, que fez parte da extinta União Soviética. A Abecásia é uma república autônoma em busca de independência da Geórgia, que fica ao Sul da Abecásia. É ali que, segundo o diretor, desde o século 19, vivem estonianos em aldeias.

De acordo com este texto da Wikipédia, com o fima da União Soviética em 1991, as tensões étnicas entre abecásios e georgianos cresceram com os movimentos de independência da república da Geórgia. A guerra civil matou milhares de pessoas em 1992 e 1993, até que foi declarado cessar-fogo em 1994. Sem o problema ser resolvido completamente, os conflitos retornaram no local nos anos 2000.

Pois bem, depois daquela breve introdução do problema na Abecásia, Urushadze nos apresenta o protagonista do filme, Ivo, tendo a rotina tranquila interrompida pelo cenário de guerra do país. O mercenário da Chechênia que é pago para lutar ao lado dos abecácios Ahmed pede comida para ele e o seu amigo e companheiro de armas. Não há negociação, e o primeiro pensamento que eu tenho é de “que bom que aquele homem vive ali sozinho e não tem nenhuma mulher em casa”. Sabemos como as guerras são cruéis.

A dupla de chechenos fica pouco tempo na casa de Ivo. Quando eles vão embora, ele não volta para a produção de caixas. Ivo procura o amigo Margus, produtor de tangerinas, e aí se apresenta o segundo drama da história: a luta dos dois vizinhos para continuar com a tradição do plantio e colheita de tangerinas. Os pés estão carregados de frutas, e os dois acham uma pena desperdiçar tudo aquilo. Mas eles tem pouco tempo para colher tudo e transportar a mercadoria – e, para isso, eles contam com a ajuda de homens que estão na luta armada e que prometeram trabalhar para eles por alguns dias.

Em pouco tempo o roteiro de Urushadze nos apresenta dois dramas que, ao mesmo tempo, são muito particulares daquela região do mundo e, também, bastante universais. Afinal, quantos países já contabilizaram guerras e conflitos em sua história? E quantos lugares tem práticas de busca de renda e de preservação das tradições e/ou culturas como aquele simples plantio de tangerinas mostrado no filme?

Não demora muito tempo para que Ivo seja retirado da tranquilidade novamente. E desta vez os fatos vão mudar a rotina dele definitivamente. Ahmed e o amigo entram em conflito com um grupo de georgianos. Aparentemente, apenas Ahmed sobrevive. Mas na hora de enterrar os mortos, Ivo e Margus encontram um georgiano sobrevivente: Niko (Misha Meskhi). Humanista e defensor da vida, Ivo não pensa duas vezes em fazer de tudo para salvar Niko.

Ele não se importa em abrigar sob o mesmo teto os dois inimigos mortais. Pelo contrário. Pelo seu olhar e risada contida, muitas vezes parece que ele acredita que aquela fatalidade foi perfeita. Ele pede para Ahmed que não mate o inimigo sob o seu teto, e o checheno dá a sua palavra. Niko está muito ferido para tentar qualquer vingança. E assim os dois inimigos começam a conviver. No início, chega a ser hilário o conflito entre os dois. Eles parecem duas crianças brigando para saber quem tem direito à terra, quem sabe lutar melhor ou quem é menos ignorante.

A birra um tanto infantil me parece bem calculada por Urushadze. Afinal, toda a guerra é baseada em disputas deste gênero, de quem chegou primeiro ou de quem tem mais direito à propriedade do que o outro. No fim das contas, e Ivo demonstra isso diariamente, sob a compreensão progressiva de Ahmed e Niko, pouco importa quem acredita ter mais direito que o outro. Todos são iguais e merecem viver. Esta é uma das grandes mensagens deste filme. Mas não é a única.

Depois da lição envolvendo os dois inimigos mortais, que pouco a pouco vão notando que não tem reais razões para se odiarem e desejarem a morte um do outro, o filme tem nova reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na reta final da produção, um grupo de militares pró-independência da Abecásia chegam na propriedade e questionam a origem de Ahmed. Ele diz que é checheno, mas eles não acreditam no que ele fala. Em poucos minutos ocorrem duas mortes.

Elas comprovam e ensinam dois importantes valores: primeiro, que a guerra não poupa ninguém e tira amigos de todos os lados; e segundo, que ela termina com os sonhos e talentos de jovens promissores. Pouco antes, sabemos um pouco mais sobre Niko. Apenas para ver que tipo de pessoa daria a vida para defender os seus protetores. Não importa o quanto uma luta seja justa, ou correta, ela nunca vai nos levar a algo positivo porque significará mortes, perdas irreparáveis.

Para fechar a narrativa, Ivo ainda tem um último gesto maravilhoso. Ficamos sabendo um pouco mais sobre ele, sua perda irreparável e, com isso, o espectador fica ainda mais maravilhado com o gesto de homenagem final para um jovem talento que ele ajudou a salvar, mas que foi morto por uma guerra sem justificativa.

Como ele bem defende nos minutos finais da produção, pouco importa se a pessoa morta era abecasiana, georgiana ou chechena. Ela era filha de alguém e um indivíduo que poderia ter contribuído muito para uma comunidade. A guerra é sempre uma lástima. Essa é a principal mensagem de Mandariinid, um filme simples e fantástico justamente por isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme não precisa ter um grande elenco, mas é fundamental ter ótimos atores em cena. Pessoas comprometidas com o trabalho e com passar cada pequeno aspecto da personalidade e das reações de seus personagens para o espectador. É isso o que comprova Mandariinid. A produção tem claramente quatro atores como destaque. Os demais, fazem apenas pontas. Por isso mesmo, o primeiro destaque desta produção são os atores Lembit Ulfsak, com especial atenção, porque ele é o protagonista; seguido de Giorgi Nakashidze, Misha Meskhi e Elmo Nüganen.

Outro elemento importante nesta produção é a marcante e muito presente trilha sonora de Niaz Diasamidze. O trabalho dele é vigoroso e nos remete para a tradição daquela região. Outro elemento importante e que funciona bem é a direção de fotografia de Rein Kotov. Ainda que o filme não saia das propriedades de Ivo e Margus, o cuidado com os contrastes e as cores daquele local valoriza as cenas que o espectador confere atentamente. Também muito competente e acertada a edição de Alexander Kuranov.

A equipe é pequena, e todos os envolvidos fazem um bom trabalho. Mas além dos elementos citados acima, acredito que outro elemento fundamental para esta história seja o som. Um bom trabalho do trio Harmo Kallaste, Valter Jakovlev e Ranno Tislar.

Mandariinid estreou em outubro de 2013 no Festival de Cinema de Varsóvia. Depois, o filme participaria ainda de sete festivais – o último deles o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, em janeiro deste ano. Estranhamente ele não participou de nenhum dos grandes festivais. Nesta trajetória, a produção ganhou 10 prêmios e foi indicada a outros sete, incluindo a indicação para Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para uma menção honrosa na categoria de Melhor Filme no Festival de Cinema de Jerusalém, e para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Varsóvia.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Mandariinid foi filmado na cidade de Guria, na Geórgia.

O diretor Zaza Urushadze tem apenas cinco títulos no currículos. Todos longas. A estreia dele como diretor foi feita em 1989 com o filme Mattvis Vints Mamam Miatova. Depois, ele só voltaria a lançar um novo longa em 1998: Ak Tendeba. Fiquei com vontade de assistir aos filmes anteriores do diretor. Natural da Geórgia, em outubro ele completa 50 anos.

Giorgi Nakashidze, que interpreta ao checheno Ahmed, na verdade é georgiano – nacionalidade que ele é pago para matar no filme. Essa foi a única curiosidade desta produção que eu encontrei para comentar aqui.

Para quem quiser saber mais sobre a Abecásia, recomendo este texto da Wikipédia e também esta notícia publicada na revista Exame que registra um acordo firmado pela Rússia com a Abecásia no final de 2014. Como o segundo texto deixa bem claro, a região da Abecásia se separou da Geórgia “mas não teve a sua independência reconhecida internacionalmente”. Enquanto isso, os conflitos continuam. O que faz com que Mandariinid seja um filme ainda mais corajoso – afinal, além de ser um libelo pela paz e contra qualquer guerra, ele ainda fala de um assunto bastante atual e que mexe com muitos brios atualmente.

Não encontrei informações sobre o custo de Mandariinid, mas imagino que ele tenha sido baixo – especialmente se comparado com o padrão de Hollywood. Também não vi notícias sobre a bilheteria do filme, mas para ele ser tão pouco falado, certamente foi pouco assistido nos Estados Unidos e em países importantes para a crítica de cinema.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção. Uma ótima, estupenda avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente ignoraram este filme até aqui. O site abriga apenas quatro críticas – todas positivas, o que daria uma aprovação para o filme de 100%. Essa quase ausência de críticas também reforça a minha observação acima, de que esta produção acabou sendo prejudicada porque quase não foi vista – ela teve uma distribuição restrita, aparentemente.

CONCLUSÃO: O essencial sobre a guerra, as divergências entre as pessoas, a busca pela paz e pelo entendimento está neste filme. Todos esses assuntos parecem ser complicados demais para serem resumidos em menos de 1h30 de uma produção, correto? Mas eis mais um ensinamento maravilhoso de Mandariinid: tudo pode ser simplificado até o essencial. Este filme é o contrário de Birdman e, para o meu gosto, mereceria muito mais evidência do que o filme de Inãrritu. Mas como o mundo não é justo e Hollywood está preocupada com os seus próprios filmes, teremos muito mais gente assistindo a Birdman do que a Mandariinid. O que é uma pena. Ainda assim, se puder, por favor, não evite esse filme. Ele é grandioso em sua simplicidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Representante do pouco conhecido no Brasil país Estônia, Mandariinid revela como uma história sem complicações e que aposta em uma boa ideia pode ser potente. Infelizmente pouco falado no Oscar 2015, para o qual os holofotes estão sendo direcionados para Ida (comentado aqui) e para Leviathan (com crítica neste link), este filme mexeu mais comigo que os outros dois.

Mas a verdade é que Mandariinid corre por fora na disputa, assim como Relatos Salvajes e Timbuktu. Pelo menos é isso o que sinalizam os burburinhos e as notícias de bastidores da premiação. Surpresas sempre podem acontecer, é verdade, ainda mais em uma categoria aonde a pressão dos grandes estúdios costuma influenciar menos. Mas acho difícil esse filme, o melhor da categoria para mim até agora, levar a estatueta.

De qualquer forma, muito boas e acima da média as três produções que concorrem a Melhor Filme em Língua Estrangeira que eu assisti até agora. O que apenas comprova que esta categoria, colocada em segundo plano no Oscar, sempre é uma das melhores e que tem todos os indicados dignos de serem vistos. Este é mais um grande ano nesta categoria. E ainda que Mandariinid ganhar seria uma grata surpresa, ainda acho que os favoritos são Leviathan e Ida – o primeiro com apelo de crítica à Rússia, e o segundo, aos crimes contra os judeus (grupo que tem grande peso nos Estados Unidos e, consequentemente, em Hollywood).