E o Oscar 2015 foi para… (cobertura online e todos os premiados)

87th Oscars®, Thursday Set Ups

Olá pessoal, boa noite!

Mais uma vez eu tenho o prazer de acompanhar a entrega do maior prêmio da indústria cinematográfica de Hollywood, o Oscar, junto com vocês.

Este ano, contudo, tenho uma novidade. A partir das 20h30 eu farei uma cobertura em tempo real do tapete vermelho e, depois, da premiação da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood no site do jornal Notícias do Dia, de Florianópolis, aonde trabalho como repórter e colunista de Economia.

Por lá eu vou atualizar muito mais rápido que por aqui. Por isso se você tem pressa e quer participar da cobertura, indico que acompanhe essa cobertura pelo site do jornal, que pode ser acessado por aqui. O canal E! Entertainment começou a programação do Oscar as 15h30 deste domingo, dia 22 de fevereiro, com a contagem regressiva para o tapete vermelho e a premiação.

A receita foi a mesma do ano passado: especulações e palpites sobre as celebridades que vão arrasar este ano no tapete vermelho, se destacando pelos vestidos, ternos e acessórios. Comentaram também a principal queda de braço da noite, na categoria Melhor Filme, que deve ser disputada por Boyhood e Birdman. As bolsas de apostas inglesas colocaram as fichas em Birdman. Para o meu gosto, quem deveria levar é Boyhood. Logo veremos.

Os comentaristas do canal E! também falaram do esquecimento no Oscar de Selma, que foi indicado apenas a Melhor Filme e Melhor Canção – e tem chances apenas na segunda categoria. Dá para entender esse “desprezo” da Academia por causa do ano conturbado que os Estados Unidos viveu desde o último Oscar. Em 2014 o prêmio principal foi para 12 Years a Slave, mas depois vieram as mortes de negros por policiais brancos e a convulsão social que agitou o país do Tio Sam. Agora, realmente, o clima é outro.

Na contagem regressiva o pessoal também falou de combinações de acessórios com diferentes cores de vestidos, lembraram atores e atrizes que se vestiram bem e mal em edições anteriores, e houve até uma predição feita por filhotes caninos – no ano passado o E! apostou no mesmo recurso.

No Oscar 2014 os cãezinhos disponíveis para adoção acertaram ao comer toda a comida do prato com o nome do filme 12 Years a Slave. Este ano, eles não limpara o prato, mas comeram mais o que havia em Boyhood. 😉 Vocês aqui no blog também votaram mais em Boyhood. Logo veremos se todos nós acertamos. Nas premiações pré-Oscar Boyhood e Birdman dividiram os prêmios. Será uma disputa concorrida, tenho certeza.

O tapete vermelho começou a ser transmitido pelo E! às 19h30. Como no ano passado, a chegada começou a ficar interessante depois das 20h.

Pessoal, a dica fica mesmo para vocês acompanharem a cobertura em tempo real no site que eu indiquei ali acima. Por aqui, vou conseguir apenas publicar os ganhadores das diferentes categorias depois.

Agora sim, voltei para cá. 🙂 Espero que vocês tenham me dado o prazer de ter me acompanhado em uma cobertura em tempo real para valer, desta vez. Inclusive com alguma interação. Para quem não viu como foi, dá para acessar o conteúdo neste link.

birdman13No fim das contas, os dois filmes mais indicados este ano, The Grand Budapest Hotel e Birdman, com nove chances cada um, foram também os que mais ganharam estatuetas. Birdman levou quatro, com vantagem por ter abocanhado três das principais: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Para fechar a conta, levou ainda o Oscar de Melhor Fotografia.

The Grand Budapest Hotel abocanhou quatro prêmios técnicos: Melhor Figurino, Melhor Maquiagem e Penteado, Melhor Design de Produção e Melhor Trilha Sonora. Todos merecidos. Em segundo lugar entre os filmes que mais receberam estatuetas, ficou Whiplash, com três prêmios: Melhor Ator Coadjuvante para J.K. Simmons, Melhor Edição e Melhor Mixagem de Som. Todos muito merecidos também.

Meu palpite era que o Oscar 2015 seria pulverizado. Pois bem, fora The Grand Budapest Hotel e Birdman ganhando quatro estatuetas cada e Whiplash levando três, o restante dos prêmios foram pulverizados para nada menos que 10 produções. Cada um ficou com um Oscar cada.

Isso já era previsto que acontecesse com filmes como Still Alice, Selma, Ida e CitizenFour, mas admito que eu esperava um reconhecimento maior para Boyhood. Para mim, junto com Selma, injustiçado já no momento das indicações, Boyhood foi o grande injustiçado da noite. Infelizmente ele ficou passível de ser comparado com filme muito mais fracos como Sniper Americano e The Theory of Everything.

Acabei citando outros premiados acima. Para mim, foi justo Ida ganhar como Melhor Filme em Língua Estrangeira, ainda que Mandariinid tenha mexido mais comigo. Gostei de ver Big Hero 6 desbancar How To Train Your Dragon 2. Não assisti a nenhum dos filmes de animação, mas eu tinha gostado da pegada de Big Hero 6 no trailer que eu assisti. Agora quero conferir o filme. Melhor Documentário não teve jeito, ganhou o favorito CitizenFour.

No saldo geral deste ano, achei a premiação bastante morna. O apresentador Neil Patrick Harris, em especial, foi muito ruim. Não fez rir nem a plateia de americanos que normalmente entende as piadas que pra gente não fazem muito sentido. Achei fraco demais. As apresentações – incluindo uma homenagem estranha protagonizada por Lady Gaga – também careceram de brilho e impacto.

Para salvar um pouco a noite, apresentações bacanas de Adam Levine (que interpretou a canção Lost Stars, do filme Begin Again), Tim McGraw (com a bela canção I’m Not Gonna Miss You, do filme Glen Campbell… I’ll Be Me), Rita Ora (com a canção Grateful, do filme Beyond the Lights) e, principalmente, com a emocionante e que levantou a plateia apresentação de Common e John Legend (da ótima Glory, de Selma). Essas apresentações, especialmente a última, ajudaram a salvar um pouco a noite de espetáculo morno.

Nas categorias dos atores e atrizes, nenhuma surpresa. E algumas injustiças com carreira bem consistentes resolvidas. Levaram estatueta J.K. Simmons, Patricia Arquette, Julianne Moore e Eddie Redmayne. Todos ganhando pela primeira vez. Aliás, este ano, muitos ganharam uma estatueta pela primeira vez. Fiquei especialmente feliz por Julianne Moore que há tempos merecia um Oscar. Justiça também com Simmons e Arquette, que sempre tiveram a coragem de fazer filmes alternativos, e com Redmayne, que teve o papel de sua vida em The Theory of Everything.

Sobre o resultado do Oscar 2015, sem dúvida gostaria que Boyhood tivesse levado mais prêmios, especialmente o de Melhor Filme. Acho ele mais profundo e impactante, inclusive mais fácil de ser lembrado no futuro, que Birdman. Selma e The Imitation Game também mereciam mais destaque. Mas algo é preciso dizer: a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood foi ousada ao premiar um filme como Birdman.

A produção com roteiro liderado por Alejandro González Iñarritu e dirigida por ele faz uma grande autocrítica ao mainstream. Conta uma história pesada que, apesar de ter alguma fantasia, faz questionamentos bem pesados sobre Hollywood, a Broadway e outros símbolos da cultura dos Estados Unidos. Premiar este filme é um passo a mais na renovação da indústria plasmada em Hollywood. E isso é sempre bacana.

Obrigada a você que me acompanhou na cobertura no site do Notícias do Dia. Espero que no próximo ano possamos continuar juntos, seja por aqui ou por outra plataforma que surgir. Abaixo deixo a lista com todos os premiados. Para saber a minha opinião sobre cada entrega de prêmios, acesse este link – o mesmo divulgado anteriormente. Abraços e até a próxima.

 

  • Melhor Ator Coadjuvante: J.K. Simmons (Whiplash). Outros indicados: Robert Duvall, Ethan Hawke, Edward Norton, Mark Ruffalo.
  • Melhor Figurino: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: Inherent Vice, Into the Woods, Maleficent, Mr. Turner.
  • Melhor Maquiagem e Penteado: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: Foxcatcher, Guardians of the Galaxy.
  • Melhor Curta de Animação: Feast. Outros indicados: The Bigger Picture, The Dam Keeper, Me and My Moulton, A Single Life.
  • Melhor Animação: Big Hero 6. Outros indicados: The Boxtrolls, How to Train Your Dragon 2, Song of the Sea, The Tale of the Princess Kaguya.
  • Melhores Efeitos Visuais: Interstellar. Outros indicados: Dawn of the Planet of the Apes, Captain America: The Winter Soldier, Guardians of the Galaxy, X-Men: Days of Future Past.
  • Melhor Curta Dramático: The Phone Call. Outros indicados: Aya, Boogaloo and Graham, Butter Lamp, Parvaneh.
  • Melhor Curta Documentário: Crisis Hotline: Veterans Press 1. Outros indicados: Joanna, Our Curse, The Reaper, White Earth.
  • Melhor Documentário: CitizenFour. Outros indicados: Finding Vivian Maier, Last Days in Vietnam, The Salt of the Earth, Virunga.
  • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Ida. Outros indicados: Leviathan, Mandariinid, Timbuktu, Relatos Salvajes.
  • Melhor Mixagem de Som: Whiplash. Outros indicados: American Sniper, Birdman, Interstellar, Unbroken.
  • Melhor Edição de Som: American Sniper. Outros indicados: Birdman, The Hobbit: The Battle of the Five Armies, Interstellar, Unbroken.
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Patricia Arquette (Boyhood). Outras indicadas: Laura Dern, Keira Knightley, Emma Stone, Meryl Streep.
  • Melhor Fotografia: Birdman. Outros indicados: The Grand Hotel Budapest, Ida, Mr. Turner, Unbroken.
  • Melhor Edição: Whiplash. Outros indicados: American Sniper, Boyhood, The Grand Budapest Hotel, The Imitation Game.
  • Melhor Design de Produção: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: The Imitation Game, Interstellar, Into the Woods, Mr. Turner.
  • Melhor Trilha Sonora Original: The Grand Budapest Hotel. Outros indicados: The Imitation Game, Interstellar, Mr. Turner, The Theory of Everything.
  • Melhor Canção Original: Glory (Selma). Outras indicadas: Everything Is Awesome (The Lego Movie), Grateful (Beyound the Lights), I’m Not Gonna Miss You (Glen Campbell… I’ll Be Me), Lost Stars (Begin Again).
  • Melhor Roteiro Adaptado: The Imitation Game. Outros indicados: American Sniper, Inherent Vice, The Theory of Everything, Whiplash.
  • Melhor Roteiro Original: Birdman. Outros indicados: Boyhood, Foxcatcher, The Grand Budapest Hotel, Nightcrawler.
  • Melhor Diretor: Alejandro González Iñarritu (Birdman). Outros indicados: Richard Linklater, Bennett Miller, Wes Anderson, Morten Tyldum.
  • Melhor Atriz: Julianne Moore (Still Alice). Outras indicadas: Marion Cotillard, Felicity Jones, Rosamund Pike, Reese Whiterspoon.
  • Melhor Ator: Eddie Redmayne (The Theory of Everything). Outros indicados: Steve Carell, Bradley Cooper, Benedict Cumberbatch, Michael Keaton.
  • Melhor Filme: Birdman. Outros indicados: American Sniper, Boyhood, The Grand Budapest Hotel, The Imitation Game, Selma, The Theory of Everything, Whiplash.

 

 

 

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CitizenFour

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Vale a pena fazer um trabalho alternativo e que rompe com as regras do jogo para mostrar a verdade por trás dos fatos suavizados pelo mainstream. Tanto isso é verdade que Edward Snowden procurou um blogueiro e uma documentarista alternativos e que vinham fazendo um trabalho sólido de denúncia de abusos do governo dos Estados Unidos para fazer a denúncia que abalou o mundo em 2013. CitizenFour conta os bastidores da boca no trombone de Snowden por uma das duas pessoas escolhidas por ele para falar das espionagens da NSA (National Security Agency, ou Agência de Segurança Nacional): a diretora Laura Poitras.

A HISTÓRIA: Começa com uma explicação da diretora. Ela diz que em 2006 foi colocada em uma lista secreta após ter feito um filme sobre a Guerra do Iraque. Nos anos seguintes, ela foi diversas vezes presa e interrogada nas fronteiras dos Estados Unidos. O filme seguinte dela foi sobre Guantánamo e a guerra contra o terror. Ela comenta que este é o terceiro filme da trilogia sobre a América após o 11/9.

Enquanto vemos a imagem de um túnel escuro com uma luz deslizando pelo teto, ouvimos a diretora narrando um e-mail que recebeu. Nele, um sujeito dizia que era funcionário do governo do mais alto nível da comunidade de inteligência, e que contatar com ela era de alto risco. Sugere que ela tome precauções de segurança antes deles continuarem a conversar. E termina assinando CitizenFour. Na cena seguinte, vemos a Glenn Greenwald no Rio de Janeiro, em sua residência em 2011, entrando ao vivo para falar de um contrassenso do presidente Barack Obama. Em breve, acompanharemos o encontro entre CitizenFour, Greenwald e Laura Poitras em Hong Kong.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já tenha assistido a CitizenFour): A única possibilidade de você nunca ter ouvido falar de Edward Snowden é se você viveu dentro de uma bolha no fundo do mar nos últimos dois anos. Desde que a primeira matéria de Gleen Greenwald sobre a espionagem em massa e global do governo dos Estados Unidos veio à tona, foi inevitável não ouvir falar deste assunto e, depois, de Snowden.

Sendo assim, CitizenFour não apresenta um personagem novo. Pelo contrário. O documentário da corajosa e elogiada diretora Laura Poitras explora parte dos nuances deste nome tão conhecido mundo afora nos últimos anos. Ver Snowden “mais de perto” e em momentos tão decisivos, como quando as primeiras matérias foram publicadas e começaram a repercutir, é o que este filme tem de mais interessante.

O jeito de Laura filmar é “naturalista”, ou seja, ela procura ter o mínimo de interferência possível no que está acontecendo. Mas como bem nos ensinou o diretor brasileiro Eduardo Coutinho, não existe documentário sem interferência de quem está por trás da câmera. Então é apenas uma ilusão a ideia que Laura tenta nos passar que ela está de forma “invisível” acompanhando tudo, sem muitas perguntas ou interferências de outros tipos. Isso fica evidente toda vez que Snowden comenta com Greenwald, especialmente, sobre algo que ele tinha conversado com Laura.

A diretora sabe, contudo, narrar uma história sem grandes interferências. Para isso, ela utiliza diferentes recursos. Lê e-mails que recebeu do CitizenFour, intercala cenas dos dias decisivos em que ela e Greenwald conversaram com Snowden, mostra parte do cotidiano de Greenwald, segue com Snowden mesmo quando o ex-advogado e articulista não estava mais no quarto já famoso de Hong Kong, e tempera tudo isso com cenas de outros personagens, como William Binney, um lendário cripto-matemático da NSA, e Ladar Levinson, fundador do serviço de correio eletrônico criptografado LAVABIT.

O filme perde um pouco porque já sabemos muito sobre as denúncias de Snowden, mas ganha pontos pela forma da narrativa de Laura. Ela vai nos situando sobre como tudo aconteceu. O trabalho que ela fez, assim como Gleen Greenwald, acaba atraindo o interesse de Snowden. Se Laura não tivesse feito os documentários My Country, My Country e The Oath e tivesse sido perseguida pelo governo dos Estados Unidos por causa disso, Snowden não a teria procurado após sentir dificuldade de manter um contato seguro com Greenwald.

Por coincidência, ou não, Laura era amiga de Greenwald. No livro “No Place to Hide” (ou “Sem Lugar para se Esconder”), lançado por Greenwald em 2014, ele conta como recebeu e-mails assinados por Cincinnatus, que dizia ter informações importantes, mas que só poderia manter um contato mais aprofundado se o articulista conseguisse uma conexão segura – o que ele não tinha, e de como acabou conhecendo a pessoa com quem ele se correspondeu desde o final de 2012 em poucas ocasiões por intermédio de Laura.

Isso, infelizmente, não fica claro no filme. Este é um problema de CitizenFour. O documentário não situa o espectador sobre a amizade de Greenwald com Laura e muito menos contextualiza um pouco melhor a importância dele para as denúncias envolvendo os exageros praticados pelo governo dos Estados Unidos especialmente após o 11 de Setembro. Esse é um ponto fraco do filme. A falta de contextualização é sempre um problema, especialmente para documentários.

Mas a narrativa sobre como tudo começou e foi se desenvolvendo é perfeita. Ficamos sabendo as razões de Laura ter sido escolhida por Snowden, acompanhamos o primeiro e-mail entre eles e sabemos, por exemplo, que a conversa entre o delator e Greenwald só não avançou por uma falta de segurança na comunicação. A parte mais interessante e de relevância histórica está nos dias em que o trio se encontrou no hotel de Hong Kong.

O primeiro encontro foi no dia 3 de junho de 2013. Durante oito dias Snowden se encontrou com Laura, Greenwald e durante parte deste tempo, com o jornalista investigativo do The Guardian Ewen MacAskill para tentar esmiuçar para eles os documentos ultra secretos que ele estava divulgando, explicar as suas intenções e motivações.

É fascinante ouvir Snowden falar sobre o desejo dele que a internet voltasse a ser livre, e que as pessoas tivessem a tranquilidade de serem e pensarem o que elas quisessem sem o medo de que algo de ruim poderia acontecer com elas simplesmente porque um determinado governo não quisesse que elas pensassem de determinada forma ou defendessem certas ideias.

Além de documento histórico, CitizenFour nos mostra um lado diferente de Snowden. Fica claro como ele sabia que o pior poderia acontecer com ele, após ele fazer contato com Greenwald e Laura, mas que ele não se importava com isso. Interessante ver como ele é um sujeito comum, apesar de ter uma inteligência fora do comum. Em certo momento, quando se sentiu mais frágil, ele se olhou no espelho e preocupou-se com a aparência. Como qualquer pessoa faria em algum momento da vida.

Também interessante ver como a reação de Snowden muda com o passar do tempo. No início, ele está tranquilo e bem seguro do que está fazendo. Diz que sabe que o pior pode acontecer com ele, mas está confiante de estar fazendo o que é certo – denunciar a vigilância e espionagem global do governo dos Estados Unidos, com potencial de monitorar todas as comunicações e localização de qualquer pessoa mundo afora. Até que as denúncias começam a aparecer, o assunto ganha repercussão, a namorada dele é encurralada, a família questionada, e ele já não está tão seguro assim.

Bacana essa parte. Afinal, nós temos coragem de fazer o que é necessário, mesmo que o pior aconteça com a gente. Mas quando vemos pessoas próximas sendo ameaçadas, essa segurança inicial é abalada. Nos sentimos responsáveis, culpados, e fragilizados por causa disso. Snowden passa por isso. Mas segue em frente. E é especialmente curioso que após o assunto vir à tona, ele percebe a ameaça real e já não está tão tranquilo sobre o que irá acontecer. O que comprova que uma coisa é idealizarmos uma situação, outra bem diferente é vivenciarmos ela.

Laura nos dá um documento importante não apenas por contribuir na narrativa dos fatos, mas também por mostrar um Snowden que ninguém conhecia. Interessante também como ele fez questão das primeiras notícias darem conta dos fatos e não apresentarem ele, o denunciante. Em mais de uma ocasião ele reforça que ele não era a notícia. Mas em certo momento Greenwald e ele falam sobre ele aparecer, ter a história contada, e de como isso poderia ser uma forma de contar os fatos da maneira correta, inclusive protegendo ele – o que não ocorreria se a revelação da identidade dele fosse feita pelo governo dos Estados Unidos, por exemplo.

Desta forma, CitizenFour nos dá algumas boas lições sobre o poder da informação e do jornalismo. Quando um trabalho é feito de forma séria, comprometida, e com as informações sendo dadas sempre em primeira mão, quem está divulgando estes dados tem o poder na mão. Por mais que as pessoas da NSA e do governo dos Estados Unidos seguiram mentindo por bastante tempo, negando a vigilância feita a nível global, os fatos revelados por Snowden comprovavam o contrário. Ele, um sujeito comum, aliado com Greenwald e outros jornalistas, conseguiu mudar o poder de mãos.

Pela forma com que esta produção é narrada, com um pouco de ajuda da trilha sonora marcante que acompanha a história, CitizenFour parece um filme de espiões. E não deixa de ser. Ainda que Snowden nunca trabalhou para governos “inimigos” dos Estados Unidos, mas apenas quis alertar o mundo sobre a vigilância individual e que acaba com a privacidade das pessoas. Do início ao fim o espectador sente que está acompanhando uma história de espionagem e contra-espionagem.

Bem narrado, este filme ajuda a dar um quadro mais amplo sobre as discussões envolvendo os temas levantados por Snowden – a diretora mostra palestras e audiências sobre o tema que ocorreram paralelamente ao interesse de Snowden de colocar a boca no trombone e pouco depois dele ter feito isso. O Brasil aparece em alguma cenas, tanto por causa da residência de Greenwald no Rio quanto por matérias que foram publicadas por aqui e audiências sobre o tema feitas no Congresso. Laura, claro, sempre está acompanhando Greenwald e Snowden, os personagens centrais desta história.

O problema desta produção, além dela não provocar tanta surpresa ou arrebatamento porque já sabemos boa parte da história, é que a diretora nem sempre contextualiza os personagens para o espectador. Além de não sabermos muito sobre Greenwald, não entendemos muito bem a aparição de outras figuras em cena. Como Jeremy Scahill. Quem acompanha o jornalismo norte-americano sabe quem é Scahill. Especializado em assuntos envolvendo a segurança nacional dos Estados Unidos, Scahill é um jornalista investigativo. Conheci ele por causa do filme Dirty Wars (comentado aqui no blog), que foi indicado como Melhor Documentário no ano passado.

Mas se você não assistiu a Dirty Wars ou acompanha as denúncias de Scahill na imprensa norte-americana, não vai entender nada quando ele aparece em cena em CitizenFour. Descontado este e outros pequenos problemas, o filme é marcante e será lembrado no futuro, com certeza. Especialmente pelo conteúdo – ainda que a forma/narrativa também seja interessante.

O mais incrível, e que fica como mensagem nesta história, é como o governo dos Estados Unidos usou como desculpa a segurança nacional para infringir leis do próprio país e leis de consenso mundial. Utilizando a tecnologia, presente em quase todas as partes, o governo norte-americano tem o potencial de vigiar qualquer pessoa, incluindo você e eu.

O mais grave, contudo, é essa vigilância envolver governantes e empresas estratégicas de diferentes países. Parece argumento de ficção científica, mas é real essa invasão de privacidade. Filme importante e que agrega elementos novos sobre a história de Snowden. Envolvente, documento histórico, só peca um pouco pela contextualização.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O primeiro projeto com o qual a diretora Laura Poitras se envolveu foi a série de TV Split Screen, de 1997, quando ela atuou como assistente de direção. Ela atuaria na mesma posição no ano seguinte no documentário Free Tibet, quando ela também se envolveu como produtora associada. Como diretora, o primeiro projeto foi Flag Wars, de 2003, quando Laura atuou como co-diretora. A estreia na direção sozinha foi feita três anos depois, com My Country, My Country, indicado ao Oscar de Melhor Documentário em 2007.

Em 2010, Laura lançou o segundo documentário solo: The Oath. Depois, ela participaria com dois episódios na série de TV P.O.V. – os dois fruto dos documentários anteriores, um exibido em 2006 e, o outro, em 2010. Em 2011 e 2013 ela dirigiu dois curtas, O’Say Can You See e Death of a Prisoner, respectivamente. No ano passado foi a vez dela lançar CitizenFour.

Com o documentário sobre Edward Snowden a diretora chega a segunda indicação ao Oscar. As bolsas de apostas inglesas apontam que, desta vez, ela deve ganhar a estatueta dourada. Veremos. Até o momento, a diretora acumula 26 prêmios recebidos e outras 19 indicações.

Um nome me chamou a atenção logo nos primeiros minutos do filme: Steven Soderbergh. Ele é um dos produtores executivos do filme. A produção propriamente dita é dividida entre Laura Poitras, Dirk Wilutzky e Mathilde Bonnefoy. Mas é bacana ver Soderbergh como um dos apoiadores do projeto. Por estas e por outras que eu gosto dele.

A direção de fotografia de CitizenFour é feita por Laura Poitras – quase todos os documentários tem o diretor como diretor de fotografia também -, Kirsten Johnson, Trevor Paglen e Katy Scoggin. A edição ficou por conta de Mathilde Bonnefoy.

Para quem quiser saber um pouco mais sobre a NSA, uma introdução pode ser feita por este artigo da Wikipédia. Ao assistir a esse documentário, fiquei pensando: “Não ouvimos mais falar, nos últimos meses, de Snowden. Como ele estará?”. Pois bem, procurando um pouco a respeito, fiquei sabendo que seguem saindo matérias relacionadas com dados que ele divulgou, como esta em que documentos revelados por ele demonstraram que os serviços de informação dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha invadiram a rede de computadores da maior fabricante mundial de chip de celulares, a holandesa Gemalto. Essa notícia é de ontem, dia 20 de fevereiro de 2015. Snowden segue “causando”.

Depois de muita confusão sobre o asilo político para Snowden – inclusive foi feita uma campanha para ele ser aceito pelo Brasil -, ele foi recebido pela Rússia, como bem explica o filme de Laura. Mas a autorização dos russos era por um ano. O que aconteceu depois. Segundo esta matéria, o governo russo autorizou Snowden a permanecer por mais três anos abrigado no país. Como essa permissão foi dada em agosto do ano passado, ele tem pouso garantido por lá pelo menos até 2017. Menos mal que o mundo não tem apenas uma nação predominante. Nestas horas, acho bom China e Rússia, além de outros países, conseguirem colocar um pouco de equilíbrio na geopolítica mundial.

Quais nomes foram fundamentais nas discussões mundo afora nos últimos anos? Para mim, além de Edward Snowden, só mesmo o Papa Francisco. Pois bem, aparentemente os dois vão concorrer ao Nobel da Paz em 2015. Pelo menos é isso o que sinaliza esta reportagem. Se isso realmente for confirmado, vai ser interessante a definição sobre qual dos dois teve mais importância para a Paz mundo afora. O que vocês acham? Se eu tivesse que votar, eu teria sérias dúvidas em quem votar.

CitizenFour estreou em outubro de 2014 no Festival de Cinema de Nova York. Depois, o filme participaria de outros 10 festivais e eventos relacionados com filmes documentários. Nesta trajetória a produção recebeu 39 prêmios e outras 19 indicações – incluindo a indicação de Melhor Documentário no Oscar 2015. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o BAFTA de Melhor Documentário; para o prêmio de melhor direção em documentário dado pelo Directors Guild of America; para o prêmio de Melhor Filme dado pela Associação Internacional de Documentaristas; para o prêmio de Melhor Filme de Não-Ficção dado pelo Sociedade Nacional de Críticos de Cinema dos Estados Unidos; e para o prêmio de “cineasta que faz a diferença” no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Esta produção foi rodada em Hong Kong, em Berlim, Bruxelas, Londres, Rio de Janeiro, Moscou e nos Estados Unidos. Ou seja, Laura Poitras deu uma boa volta ao mundo para fazer este documentário. E ela migra de um local para o outro com muita suavidade.

Agora, uma curiosidade relacionada com Edward Snowden: ele será interpretado pelo ator Joseph Gordon Levitt na cinebiografia que será dirigida por Oliver Stone – outro diretor com posições políticas bem claras. O que eu admiro.

Não encontrei informações sobre os custos de CitizenFour, mas sim sobre o resultado dele nas bilheterias. De acordo com o site Box Office Mojo, este filme conseguiu pouco mais de US$ 2,6 milhões nos Estados Unidos e cerca de US$ 202,3 mil no restante dos mercados em que já estreou.

Na verdade, o filme estreou de forma limitada (em poucos cinemas) nos Estados Unidos, no Reino Unido, no Canadá e na Austrália, e entrou em cartaz em poucos países, como Alemanha, Dinamarca e Áustria. Ou seja: ele ainda precisa estrear na maioria dos lugares. Isso explica a bilheteria ainda baixa. CitizenFour tem previsão de estrear em março na França e na Espanha. Não há previsão ainda para o Brasil.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para o filme de Laura Poitras. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 120 textos positivos e apenas três negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 98% e uma nota média de 8,3 – o nível da aprovação e a nota são ótimos levando em conta o padrão do site.

Este filme é uma coprodução da Alemanha com os Estados Unidos. Sendo assim, ele entra na lista de produções pedidas por vocês, caros leitores, aqui no blog.

CONCLUSÃO: A história que Edward Snowden contou, todos conhecem. Mas parte dos bastidores dos contatos dele com os porta-vozes da novidade que ele veio trazer, de que o governo dos Estados Unidos através da NSA armazena informações da comunicação de pessoas do mundo inteiro, incluindo aí líderes de outros países, é apresentada neste CitizenFour. A outra parte da história pode ser conferida no livro de Gleen Greenwald.

Este documentário acerta ao nos mostrar os bastidores de parte das negociações e das entrevistas, assim como ajuda a desmistificar a figura séria de Snowden. Mas ele não chega a arrebatar, ou a nos revelar fatos muito surpreendentes sobre o personagem central. É bom, mas não é excepcional, apesar de ser um documento importante e que fecha uma trilogia da diretora.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Nas bolsas de apostas do Reino Unido, não tem para ninguém. CitizenFour é, disparado, o favorito para ganhar a estatueta dourada na categoria Melhor Documentário este ano. Os mesmos apostadores dão como certa a vitória de Birdman (comentado aqui) como Melhor Filme. Caso eles estejam certos nestas duas categorias, o Oscar vai dar passos largos no caminho da ousadia.

Começando por Birdman: o filme de Iñarritu atira para todos os lados ao fazer uma crítica geral ao mainstream. O filme ataca do cinemão norte-americano – simbolizado pelos filmes de heróis – até a Broadway e a parada de sucessos musical dos Estados Unidos. Ser nove vezes indicado ao Oscar este ano já era um grande feito para o filme. Se ele sair com as estatuetas de Melhor Filme e Melhor Diretor, o feito terá sido memorável.

CitizenFour vai na mesma direção. Primeiro porque o filme trata como herói um dos maiores inimigos dos Estados Unidos dos últimos anos. Edward Snowden escancarou a vigilância dos cidadãos dos Estados Unidos e do resto do mundo, virando um dos principais assuntos de 2013.

Se ganhar como Melhor Documentário, este filme não apenas consagrará ainda mais Snowden, mas também a diretora Laura Poitras que fez outras duas produções corajosas sobre a América após o 11/9. Por tudo isso, acredito que seria justo o filme ganhar. Isso iria coroar o trabalho corajoso da diretora e também a ousadia de Snowden.

Mandariinid – Tangerines

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Como comentei recentemente por aqui, um filme para ser bom não precisa ser longo. E o mais importante de tudo: pode ser bem simples. Mandariinid é uma produção muito simples, que gira sobre uma proposta interessante: o que pode acontecer quando dois inimigos mortais são “obrigados” a conviver sob o mesmo teto e sob a regra de não se matarem lá dentro? A tensão e a aproximação entre eles é inevitável, e o resultado desta proposta é muito interessante. Um filme simples, curto, e excelente ao revelar-se um grande libelo pela vida e pela paz.

A HISTÓRIA: Começa explicando que aldeias estonianas foram formadas na Abecásia na segunda metade do século 19. A guerra entre Geórgia e Abecásia começou em 1992, alterando a vida dos moradores estonianos. A maioria deles decidiu voltar para a sua terra natal. Isso esvazio as aldeias, aonde poucos resistiram à debandada. Uma destas pessoas é Ivo (o ótimo Lembit Ulfsak), que trabalha em caixas para armazenar e transportar tangerinas, cultivadas por ele e, principalmente, pelo vizinho e amigo Margus (Elmo Nüganen). Mas a vida tranquila dos vizinhos será modificada com a chegada de Ahmed (Giorgi Nakashidze) e a aproximação da guerra.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes deste filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Mandariinid): Que filme maravilhoso! Esse é o primeiro comentário que quero deixar claro por aqui. Focado em poucos personagens e no trabalho de ótimos atores, com um roteiro preciso e bem construído pelo diretor e roteirista Zaza Urushadze.

Como eu disse lá no início, Urushadze parte de uma premissa simples e muito interessante: o que aconteceria se dois inimigos mortais fossem reunidos frente a frente em uma mesa, sem a possibilidade matarem um ao outro? Ora, a resposta é evidente: eles teriam que vencer as próprias resistência e começarem a dialogar. Como bem apresenta Mandariinid, inicialmente a troca entre os dois se resume a farpas e provocações.

Mas para intermediar o conflito, temos o genial Ivo. Um homem com olhar atento, muita sabedoria e que sabe tratar as pessoas da forma justa, na medida certa para que elas o respeitem e para que saibam que ele as respeita. Aliás, a honra e o respeito são dois elementos fundamentais nas relações estabelecidas nesta história. De forma muito acertada, Urushadze decide fazer a história crescer lentamente.

Primeiro, ele dedica aquelas linhas iniciais para situar o espectador no cenário do filme. A produção se passa na Abecásia, região no Caucásio, entre a Ásia e a Europa, que fez parte da extinta União Soviética. A Abecásia é uma república autônoma em busca de independência da Geórgia, que fica ao Sul da Abecásia. É ali que, segundo o diretor, desde o século 19, vivem estonianos em aldeias.

De acordo com este texto da Wikipédia, com o fima da União Soviética em 1991, as tensões étnicas entre abecásios e georgianos cresceram com os movimentos de independência da república da Geórgia. A guerra civil matou milhares de pessoas em 1992 e 1993, até que foi declarado cessar-fogo em 1994. Sem o problema ser resolvido completamente, os conflitos retornaram no local nos anos 2000.

Pois bem, depois daquela breve introdução do problema na Abecásia, Urushadze nos apresenta o protagonista do filme, Ivo, tendo a rotina tranquila interrompida pelo cenário de guerra do país. O mercenário da Chechênia que é pago para lutar ao lado dos abecácios Ahmed pede comida para ele e o seu amigo e companheiro de armas. Não há negociação, e o primeiro pensamento que eu tenho é de “que bom que aquele homem vive ali sozinho e não tem nenhuma mulher em casa”. Sabemos como as guerras são cruéis.

A dupla de chechenos fica pouco tempo na casa de Ivo. Quando eles vão embora, ele não volta para a produção de caixas. Ivo procura o amigo Margus, produtor de tangerinas, e aí se apresenta o segundo drama da história: a luta dos dois vizinhos para continuar com a tradição do plantio e colheita de tangerinas. Os pés estão carregados de frutas, e os dois acham uma pena desperdiçar tudo aquilo. Mas eles tem pouco tempo para colher tudo e transportar a mercadoria – e, para isso, eles contam com a ajuda de homens que estão na luta armada e que prometeram trabalhar para eles por alguns dias.

Em pouco tempo o roteiro de Urushadze nos apresenta dois dramas que, ao mesmo tempo, são muito particulares daquela região do mundo e, também, bastante universais. Afinal, quantos países já contabilizaram guerras e conflitos em sua história? E quantos lugares tem práticas de busca de renda e de preservação das tradições e/ou culturas como aquele simples plantio de tangerinas mostrado no filme?

Não demora muito tempo para que Ivo seja retirado da tranquilidade novamente. E desta vez os fatos vão mudar a rotina dele definitivamente. Ahmed e o amigo entram em conflito com um grupo de georgianos. Aparentemente, apenas Ahmed sobrevive. Mas na hora de enterrar os mortos, Ivo e Margus encontram um georgiano sobrevivente: Niko (Misha Meskhi). Humanista e defensor da vida, Ivo não pensa duas vezes em fazer de tudo para salvar Niko.

Ele não se importa em abrigar sob o mesmo teto os dois inimigos mortais. Pelo contrário. Pelo seu olhar e risada contida, muitas vezes parece que ele acredita que aquela fatalidade foi perfeita. Ele pede para Ahmed que não mate o inimigo sob o seu teto, e o checheno dá a sua palavra. Niko está muito ferido para tentar qualquer vingança. E assim os dois inimigos começam a conviver. No início, chega a ser hilário o conflito entre os dois. Eles parecem duas crianças brigando para saber quem tem direito à terra, quem sabe lutar melhor ou quem é menos ignorante.

A birra um tanto infantil me parece bem calculada por Urushadze. Afinal, toda a guerra é baseada em disputas deste gênero, de quem chegou primeiro ou de quem tem mais direito à propriedade do que o outro. No fim das contas, e Ivo demonstra isso diariamente, sob a compreensão progressiva de Ahmed e Niko, pouco importa quem acredita ter mais direito que o outro. Todos são iguais e merecem viver. Esta é uma das grandes mensagens deste filme. Mas não é a única.

Depois da lição envolvendo os dois inimigos mortais, que pouco a pouco vão notando que não tem reais razões para se odiarem e desejarem a morte um do outro, o filme tem nova reviravolta. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Na reta final da produção, um grupo de militares pró-independência da Abecásia chegam na propriedade e questionam a origem de Ahmed. Ele diz que é checheno, mas eles não acreditam no que ele fala. Em poucos minutos ocorrem duas mortes.

Elas comprovam e ensinam dois importantes valores: primeiro, que a guerra não poupa ninguém e tira amigos de todos os lados; e segundo, que ela termina com os sonhos e talentos de jovens promissores. Pouco antes, sabemos um pouco mais sobre Niko. Apenas para ver que tipo de pessoa daria a vida para defender os seus protetores. Não importa o quanto uma luta seja justa, ou correta, ela nunca vai nos levar a algo positivo porque significará mortes, perdas irreparáveis.

Para fechar a narrativa, Ivo ainda tem um último gesto maravilhoso. Ficamos sabendo um pouco mais sobre ele, sua perda irreparável e, com isso, o espectador fica ainda mais maravilhado com o gesto de homenagem final para um jovem talento que ele ajudou a salvar, mas que foi morto por uma guerra sem justificativa.

Como ele bem defende nos minutos finais da produção, pouco importa se a pessoa morta era abecasiana, georgiana ou chechena. Ela era filha de alguém e um indivíduo que poderia ter contribuído muito para uma comunidade. A guerra é sempre uma lástima. Essa é a principal mensagem de Mandariinid, um filme simples e fantástico justamente por isso.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Um filme não precisa ter um grande elenco, mas é fundamental ter ótimos atores em cena. Pessoas comprometidas com o trabalho e com passar cada pequeno aspecto da personalidade e das reações de seus personagens para o espectador. É isso o que comprova Mandariinid. A produção tem claramente quatro atores como destaque. Os demais, fazem apenas pontas. Por isso mesmo, o primeiro destaque desta produção são os atores Lembit Ulfsak, com especial atenção, porque ele é o protagonista; seguido de Giorgi Nakashidze, Misha Meskhi e Elmo Nüganen.

Outro elemento importante nesta produção é a marcante e muito presente trilha sonora de Niaz Diasamidze. O trabalho dele é vigoroso e nos remete para a tradição daquela região. Outro elemento importante e que funciona bem é a direção de fotografia de Rein Kotov. Ainda que o filme não saia das propriedades de Ivo e Margus, o cuidado com os contrastes e as cores daquele local valoriza as cenas que o espectador confere atentamente. Também muito competente e acertada a edição de Alexander Kuranov.

A equipe é pequena, e todos os envolvidos fazem um bom trabalho. Mas além dos elementos citados acima, acredito que outro elemento fundamental para esta história seja o som. Um bom trabalho do trio Harmo Kallaste, Valter Jakovlev e Ranno Tislar.

Mandariinid estreou em outubro de 2013 no Festival de Cinema de Varsóvia. Depois, o filme participaria ainda de sete festivais – o último deles o Festival Internacional de Cinema de Palm Springs, em janeiro deste ano. Estranhamente ele não participou de nenhum dos grandes festivais. Nesta trajetória, a produção ganhou 10 prêmios e foi indicada a outros sete, incluindo a indicação para Melhor Filme em Língua Estrangeira no Oscar 2015.

Entre os prêmios que recebeu, destaque para uma menção honrosa na categoria de Melhor Filme no Festival de Cinema de Jerusalém, e para os prêmios de Melhor Filme e Melhor Diretor no Festival Internacional de Cinema de Varsóvia.

Para quem gosta de saber aonde os filmes foram rodados, Mandariinid foi filmado na cidade de Guria, na Geórgia.

O diretor Zaza Urushadze tem apenas cinco títulos no currículos. Todos longas. A estreia dele como diretor foi feita em 1989 com o filme Mattvis Vints Mamam Miatova. Depois, ele só voltaria a lançar um novo longa em 1998: Ak Tendeba. Fiquei com vontade de assistir aos filmes anteriores do diretor. Natural da Geórgia, em outubro ele completa 50 anos.

Giorgi Nakashidze, que interpreta ao checheno Ahmed, na verdade é georgiano – nacionalidade que ele é pago para matar no filme. Essa foi a única curiosidade desta produção que eu encontrei para comentar aqui.

Para quem quiser saber mais sobre a Abecásia, recomendo este texto da Wikipédia e também esta notícia publicada na revista Exame que registra um acordo firmado pela Rússia com a Abecásia no final de 2014. Como o segundo texto deixa bem claro, a região da Abecásia se separou da Geórgia “mas não teve a sua independência reconhecida internacionalmente”. Enquanto isso, os conflitos continuam. O que faz com que Mandariinid seja um filme ainda mais corajoso – afinal, além de ser um libelo pela paz e contra qualquer guerra, ele ainda fala de um assunto bastante atual e que mexe com muitos brios atualmente.

Não encontrei informações sobre o custo de Mandariinid, mas imagino que ele tenha sido baixo – especialmente se comparado com o padrão de Hollywood. Também não vi notícias sobre a bilheteria do filme, mas para ele ser tão pouco falado, certamente foi pouco assistido nos Estados Unidos e em países importantes para a crítica de cinema.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção. Uma ótima, estupenda avaliação se levarmos em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes praticamente ignoraram este filme até aqui. O site abriga apenas quatro críticas – todas positivas, o que daria uma aprovação para o filme de 100%. Essa quase ausência de críticas também reforça a minha observação acima, de que esta produção acabou sendo prejudicada porque quase não foi vista – ela teve uma distribuição restrita, aparentemente.

CONCLUSÃO: O essencial sobre a guerra, as divergências entre as pessoas, a busca pela paz e pelo entendimento está neste filme. Todos esses assuntos parecem ser complicados demais para serem resumidos em menos de 1h30 de uma produção, correto? Mas eis mais um ensinamento maravilhoso de Mandariinid: tudo pode ser simplificado até o essencial. Este filme é o contrário de Birdman e, para o meu gosto, mereceria muito mais evidência do que o filme de Inãrritu. Mas como o mundo não é justo e Hollywood está preocupada com os seus próprios filmes, teremos muito mais gente assistindo a Birdman do que a Mandariinid. O que é uma pena. Ainda assim, se puder, por favor, não evite esse filme. Ele é grandioso em sua simplicidade.

PALPITE PARA O OSCAR 2015: Representante do pouco conhecido no Brasil país Estônia, Mandariinid revela como uma história sem complicações e que aposta em uma boa ideia pode ser potente. Infelizmente pouco falado no Oscar 2015, para o qual os holofotes estão sendo direcionados para Ida (comentado aqui) e para Leviathan (com crítica neste link), este filme mexeu mais comigo que os outros dois.

Mas a verdade é que Mandariinid corre por fora na disputa, assim como Relatos Salvajes e Timbuktu. Pelo menos é isso o que sinalizam os burburinhos e as notícias de bastidores da premiação. Surpresas sempre podem acontecer, é verdade, ainda mais em uma categoria aonde a pressão dos grandes estúdios costuma influenciar menos. Mas acho difícil esse filme, o melhor da categoria para mim até agora, levar a estatueta.

De qualquer forma, muito boas e acima da média as três produções que concorrem a Melhor Filme em Língua Estrangeira que eu assisti até agora. O que apenas comprova que esta categoria, colocada em segundo plano no Oscar, sempre é uma das melhores e que tem todos os indicados dignos de serem vistos. Este é mais um grande ano nesta categoria. E ainda que Mandariinid ganhar seria uma grata surpresa, ainda acho que os favoritos são Leviathan e Ida – o primeiro com apelo de crítica à Rússia, e o segundo, aos crimes contra os judeus (grupo que tem grande peso nos Estados Unidos e, consequentemente, em Hollywood).

Leviafan – Leviathan – Leviatã

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O cenário pode ser belo, mas os sinais de decadência estão por todas as partes. Não apenas nas embarcações destruídas que fazem companhia para os esqueletos de baleias, mas principalmente no comportamento e no sentimento das pessoas sem escrúpulos ou em crise que habitam aquela terra. Leviathan é uma produção que reflete profundamente sobre a Rússia atual, seus ambientes de poderosos, corruptos, traidores e de discursos que não correspondem aos fatos. Bastante crítico, faz pensar não apenas sobre aquele cenário, mas em tantos outros ambientes igualmente decadentes ou em fase de corrupção.

A HISTÓRIA: Uma música marcante. As ondas batem em pedras imensas. Vemos lindas paisagens compostas de água, solo e rochas. Até que começam a surgir as intervenções humanas, como estradas e linhas de transmissão, além de carcaças de embarcações. O dia começa a amanhecer, e uma embarcação passa perto da casa de Kolya (Aleksey Serebryakov). Ele acorda, toma uma bebida e sai de carro para buscar, na estação de trem, ao amigo e advogado Dmitriy Seleznyov (Vladimir Vdovichenkov). Ele veio de Moscou para tentar reverter as decisões judiciais desfavoráveis para Kolya e a família, que estão sendo levadas a deixar a propriedade porque o prefeito Vadim Shelevyat (Roman Madyanov) tem outros planos para o local.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Leviathan): Interessante como esse filme vai crescendo lentamente. E ganha verdadeiro impulso quando termina. Leviathan conta uma destas histórias que faz você pensar por muito tempo depois da produção terminar.

O espírito do cinema russo é preservado nesta produção. O ambiente é um personagem fundamental, assim como a força da trilha sonora marcante de Philip Glass. O diretor Andrey Zvyagintsev começa explorando as belas paisagens russas, em um lugar com mar, costões, lagos e muitas pedras, aonde lentamente vamos vendo a interferência humana. A mensagem inicial parece ser que o Paraíso foi corrompido. E essa ideia vai se tornando mais clara conforme a produção avança.

Pouco a pouco o roteiro de Zvyagintsev e Oleg Negin vai apresentando e se aprofundando nas características e nas relações dos personagens, assim como na intricada teia de poder envolvendo políticos e a Igreja Ortodoxa Russa. O começo e o final, especialmente, são muito interessantes. O recheio, infelizmente, algumas vezes parece um pouco longo demais.

Mas voltemos ao início. Depois daquelas cenas iniciais da Natureza um tanto bruta, entramos nas relações entre as pessoas igualmente passíveis de tempestades. O protagonista, Kolya (o genial Aleksey Serebryakov), é um sujeito que tenta sair de uma situação complicada quando a história começa. Para isso, ele conta com a ajuda do amigo Dmitriy. Aparentemente, Kolya “parou no tempo”, preferiu ficar no interior, aonde tenta criar o filho Roman (Sergey Pokhodaev) da melhor forma possível, apesar das relações em casa serem complicadas.

Não ficamos sabendo o que aconteceu com a mãe de Roman e primeira esposa de Kolya, apesar de que, em certo momento, fica sugerido pela amiga da família, Yulya (Lesya Kudryashova) de que ela morreu. Parte da tensão do filme, contudo, reside na relação conflituosa entre Roman e a segunda mulher de Kolya, a bonita e aparentemente sempre insatisfeita Lilya (Elena Lyadova). Eles vivem em pé de guerra, enquanto Kolya não consegue manter uma posição firme – parece não querer nunca desagradar o filho.

Quando a história começa, como dito acima, o protagonista busca o amigo na estação de trem. Dimitriy é a última esperança de Kolya para que ele não tenha que deixar a terra dele e de seus antepassados. Mas na Rússia os poderosos é que mandam. Isso fica claro logo no início, quando Kolya passa por policiais corruptos e que estão habituados a cobrar favores de gente trabalhadora simplesmente porque eles tem o poder.

Leviathan mostra que isso está tão intricado na sociedade russa que, no fim das contas, não faz diferença para quem sofre o achaque. Os corruptos convivem tranquilamente com as pessoas por ele abusadas. Prova disso é que Kolya é amigo de Pacha (Aleksey Rozin) e de Ivan Degtyareyov (Sergey Bachurskiy), dois policiais corruptos e habituados a conseguir o que querem. Este é um sinal de que pessoas comuns não tem mais força para lutar contra o que está errado. Todos aceitam o que acontece porque não enxergam forma de mudar o status quo.

Pois bem, neste cenário, Kolya só entra em crise mesmo quando percebe que vai perder a propriedade familiar. Os russos, e acredito que quase todas as nacionalidades existentes, são muito apegados à própria terra. Dimitriy entra em cena para questionar a indenização ridícula oferecida pelo governo local para as terras de Kolya, que está prestes a ser despejado. Ele tem duas estratégias para conseguir isso: uma legal, apelando para o tribunal – igualmente corrupto -, e outra de jogar a mesma estratégia do prefeito Vadim (o também ótimo Roman Madyanov).

Como Dimitriy e Kolya não conseguem resolver o problema pelo caminho correto, ou seja, apelando para o tribunal comprado pelo prefeito, o advogado tenta o segundo caminho. E daí vem a parte mais interessante do filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu à produção). Por alguns minutos, o espectador até é levado a acreditar que Dimitriy pode ter sucesso na estratégia de pressionar Vadim por uma indenização justa para o amigo. Mas esta esperança dura pouco.

Preocupado com as relações de Dimitriy, Vadim não faz o que normalmente faria com um homem que o ameaça. Em uma situação normal, o prefeito mandaria alguém eliminar o desafeto. Simples assim. Mas com receio de ser confrontado com pessoas do partido comunista, com quem Dimitriy parece ter proximidade, Vadim resolve pedir conselhos para o Bispo da Igreja Ortodoxa (Valeriy Grishko). E daí surge um dos aspectos mais interessantes do filme.

O Bispo gosta de repetir que todo o poder vem de Deus, e que nada que Vadim tem é por acaso. Mas quando é procurado pelo prefeito, ele não recomenda a Justiça. Não. Ele lembra o prefeito que quem tem poder, tem força, e deve muitas vezes utilizá-la. Vadim entende bem o recado e resolve usar o poder que tem. Primeiro, dá um chega para lá definitivo na ameaça de Dimitriy. Depois, dá um jeito em acabar com a vida de Kolya.

A forma com que ele faz o segundo ato é bem interessante. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Os fatos ficam subentendidos, mas basta ter um pouco de atenção no desenrolar da trama que não é difícil perceber o que aconteceu. Para não dizer que temos santos e demônios naquela realidade – todos parecem equivocados em algum ponto -, o bonzinho Dimitriy revela-se um canalha ao trair o grande amigo mantendo um caso com Lilya. Ela, por sua vez, parece realmente infeliz. Perto de perder a casa, ela parece querer algum prazer, mesmo que fugaz, com Dimitriy. Sem se importar com Kolya, evidentemente.

Alguns podem defender que Lilya fez o que fez porque estava tentando chamar a atenção do marido. Pedir que ele tomasse partido para o lado dela – afinal, dentro de casa, ele não mostrava nem autoridade com o filho. Lá pelas tantas, ela própria diz que quer ter um filho. Em uma situação tão decadente como aquela, para quê? A crise estava aguda, e nem sempre as pessoas conseguem aliar uma vontade legítima com o melhor momento para tentar realizar os próprios sonhos. Lilya parecia querer fugir, escapar.

Por isso mesmo fica tão interessante o desfecho dela. A sugestão dos roteiristas é que ela, desesperada e sentindo-se culpada (ou sem saída?), teria se jogado no mar e se matado. Enquanto ela estava sumida, Kolya verdadeiramente fica desesperado e magoado, acreditando que tinha sido abandonado. Quando a história dá mais uma reviravolta e a polícia defende que Lilya foi assassinada, ninguém fica ao lado de Kolya. Ou sequer duvidam da versão de que ele teria matado a esposa. Nem os “amigos” dele Pacha e Yulya – até porque a mulher parecia ser mais amiga de Lilya do que de Kolya.

Fica sugerido, mas não muito evidente, que Lilya teve um fim trágico a mando do prefeito. Afinal, com esta saída “simples”, ele se veria livre de Kolya e com o caminho livre para destruir a propriedade dele e fazer, ali, um empreendimento que lhe traria muito dinheiro e mais prestígio. Mas o filme não termina aí, com a derrocada do mais fraco imposta pelo mais forte. Existe o grande finale, composto de duas cenas para guardar na memória: o diálogo de Kolya com o Bispo, antes do primeiro ser preso, e o discurso final da Igreja Ortodoxa.

A conversa entre Kolya e o Bispo sem a roupa tradicional, mas vestido com um “reles mortal”, é para guardar na memória. Kolya questiona o Bispo sobre toda a tragédia que está recaindo sobre ele – ele perdeu a propriedade e, naquela altura da história, também a mulher. O Bispo cita passagens da Bíblia, inclusive citando a incapacidade humana de ir contra forças muito maiores, como o Leviatã – citado no Antigo Testamento como o maior e mais poderoso dos monstros aquáticos.

E ele segue falando de Jó, e de como apesar dele ter sofrido todas as desgraças imagináveis, ao ser um permanente questionador do sentido da vida, ele se manteve firme na fé, aceitando o próprio destino sem desacreditar em Deus. O Bispo fala disto e sugere que Kolya tenha a mesma postura, de seguir crente apesar de tudo que lhe aconteceu – e o pior ainda viria. A postura do Bispo seria corretíssima, se ele não tivesse aquele papel junto ao prefeito. O mesmo se pode dizer sobre a cena final envolvendo a Igreja Ortodoxa. Fica claro que o importante para aquela Igreja é manter-se perto do poder, podendo assim influenciar e inclusive ditar os rumos da sociedade russa.

Por todo esse conjunto de ponderações, Leviathan é um filme poderoso. E é genial a forma com que Zvyagintsev resolve fechar a trama. Após mostrar todo aquele ambiente podre e corrompido, aquela falsidade entre os discursos da Igreja e a sua prática, ele termina mostrando aquele mar vigoroso e bonito do início poluído com um tanque. Fica a mensagem que o Homem só surgiu para destruir o que era belo. Desta forma, Leviathan não é um filme carregado de esperança ou de uma mensagem edificante. Pelo contrário. Ele expõe o que a Rússia – e outras sociedades, diga-se – tem de pior para, quem sabe assim, fazer com que as pessoas decidam tomar um outro rumo. Eficaz, bem feito, só um pouco longo demais.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não desanime. Se você viu a Leviathan e ficou desconfiado(a) de que gostou do filme, mas não tem bem certeza sobre isso, dê uma certa distância temporal. Conforme as horas vão passando e você vai pensando sobre tudo que viu, as peças se encaixam melhor e o sentido desta produção aparece. Belo trabalho dos roteiristas Oleg Negin e Andrey Zvyagintsev.

Muitos elementos funcionam bem neste filme. Destaquei já a impactante e em alguns momentos angustiante trilha sonora do ótimo e veterano compositor Philip Glass. Mas há ainda a excepcional direção de fotografia de Mikhail Krichman e o competente design de produção de Andrey Ponkratov.

Além da parte técnica do filme, Leviathan não seria o que ele é sem alguns atores que fazem um trabalho marcante. O grande nome deste filme é o de Aleksey Serebryakov. Ele impressiona como Kolya, um homem que, apesar dos pesares, mantêm-se firme no caminho do bem, procurando ajeitar a família em crise apesar de todos os conflitos e na iminência da perda da casa. Junto com ele, faz um grande trabalho como o prefeito ambicioso e sem escrúpulos Vadim o ator Roman Madyanov. Ele bebe sem parar. Aliás, como os russos bebem! Pelo menos é que este filme mostra – e a lenda sobre aquele país confirma.

Estão bem em seus respectivos papéis, também, Elena Lyadova, que primeiro aparece apoiando e acompanhando o marido, e depois se mostra frágil e suscetível a escolhas equivocadas quando se sente acuada e perto de perder a segurança que imaginava ter. Vladimir Vdovichenkov também é um outro destaque do filme. Ele está muito bem em um papel que vai se revelando aos poucos. Os atores coadjuvantes estão bem, com destaque, talvez, para Lesya Kudryashova como Yulya.

Muito bom assistir novamente a um filme russo. Gosto sempre que uma premiação revela o bom cinema de outras latitudes além dos Estados Unidos. Claro que o cinema de Hollywood nos é mais familiar – afinal, estamos habituados a ele desde sempre, já que no Brasil o cinema norte-americano é consumido por diversas gerações há muito tempo. Mas como é bom ver outros olhares e forma de contar histórias! Não assisti a tantos filmes russos como eu gostaria – sem dúvida alguma vi mais produções francesas, alemãs, argentinas e espanholas/italianas -, mas a minha memória para aquela escola é sempre positiva.

Andrey Zvyagintsev acabou de completar 51 anos de idade, no último dia 6. Ele tem apenas sete trabalhos como diretor, mas já acumula 33 prêmios e 28 indicações na carreira. Zvyagintsev estreou dirigindo um episódio da série de TV Chyornaya Komnata no ano 2000. Três anos depois ele estrearia no cinema com o filme Vozvrashchenie (ou The Return). Antes de Leviathan, ele dirigiu outros dois longas e mais dois curtas. É um nome a ser acompanhado, sempre que os filmes feitos por ele chegarem no Brasil.

Leviathan estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de 30 festivais – um número bem expressivo. Nesta trajetória o filme conquistou 12 prêmios e foi indicado a outros 26 – incluindo a indicação ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira, para Melhor Filme Internacional no Festival de Cinema de Munique, para o Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de São Paulo e para o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cinema de Cannes.

Esta produção 100% russa foi totalmente rodada em diferentes cidades da província de Murmansk Oblast, na região noroeste da Rússia, na chamada Península de Kola.

Agora, curiosidades sobre esta produção. Leviathan foi inspirada na história de Marvin Heemeyer, da cidade de Granby, no Estado do Colorado. Encontrei este resumo do que aconteceu na Wikipédia, com interessantes links para reportagens da época. Soldador dono de uma oficina mecânica – como o protagonista de Leviathan -, Heemeyer ficou revoltado com uma disputa por terras e utilizou um “bulldozer” (tipo de tanque) para demolir a prefeitura, a casa do prefeito e outras edificações da cidade. Interessante. Eu jamais teria feito esse paralelo se não tivesse lido a respeito. 🙂

Em 2009, na cidade de Kirovsk, na região de Murmansk aonde o filme foi rodado, um empresário local, Ivan Ankushev, insatisfeito com o alto nível de impostos e taxas cobrados no município, disparou contra o prefeito e seu vice para habitação e, depois, se matou.

Não encontrei informações sobre o custo de Leviathan. Mas nas bilheterias dos Estados Unidos, até o dia 8 de fevereiro, o filme tinha conseguido pouco mais de US$ 469 mil. Uma miséria, é claro, mas dentro da tradição dos norte-americanos de verem poucos filmes de outros países. Talvez ele consiga um desempenho melhor se ganhar o Oscar.

Para quem quiser saber mais sobre o mito de Leviatã, este artigo da Wikipédia pode ser uma boa introdução. Ele dá referências da Bíblia e de outras fontes.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para Leviathan. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram ainda mais generosos, dedicando 84 críticas positivas e apenas uma negativa para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 99% e uma nota média de 8,6. Os críticos gostaram mais do filme do que o público em geral, até agora.

CONCLUSÃO: O cinema russo não aparece com muita frequência pela terra brasilis, mas sempre que uma produção daquele país chega por aqui, ela vem trazendo uma brisa interessante de novidade. Leviathan tem diversas camadas de leitura, mas o essencial desta produção é como ela se debruça sobre a crise de valores que afeta todas as esferas da vida na Rússia. Um filme bastante duro sobre a realidade daquele país, com uma narrativa crescente e que vai se aprofundando cada vez mais na história dos personagens. Especialmente o final é interessante por tornar muito evidente como alguns discursos, apesar de corretos, estão muito distantes da prática. Interessante. E merece estar entre os favoritos ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Leviathan chega ao Oscar com uma força interessante e conquistada na reta final. Até o Globo de Ouro, o filme mais cotado para a maior premiação do cinema de Hollywood era Ida. Mas daí, para surpresa de muitos, Leviathan foi lá e abocanhou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira. No próximo dia 22 a parada será dura entre estas duas produções que, curiosamente, falam de fé – mas de maneiras bem diferentes.

Ida tem uma fotografia deslumbrante. Tanto que foi indicado nesta categoria também no Oscar 2015. Ele é um filme que fala do passado polonês, dá um novo olhar para as feridas da Segunda Guerra Mundial, mas também trata das escolhas e das convicções de duas vidas muito diferentes: uma em busca da santidade, mas com capacidade para sucumbir à tentação, e outra que se sente perdida e comprometida para sempre, sem capacidade para o auto-perdão.

Leviathan, por outro lado, tem um caráter de drama pessoal muito forte, mas também uma pegada de crítica social marcante. Apesar de muito equilibrados em termos de qualidade, admito que meu gosto pende um pouco mais para Leviathan. Especialmente pela análise profunda que ele faz das relações sociais russas. Meu voto iria para ele no Oscar, mas francamente acho difícil de acertar de antemão o vencedor deste ano. Ida tem a vantagem de ter sido indicado a duas estatuetas. Leviathan tem o impulso de ter recebido o Globo de Ouro – o que nem sempre conta muito no Oscar. Logo mais veremos quem leva a melhor.

Still Alice – Para Sempre Alice

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Você acredita que tem a sua vida sob controle e, sem nenhum aviso, essa segurança se esvai. Não gostamos de lembrar disso, mas a verdade é que todos nós estamos sujeitos a mudanças radicais de nossos planos de uma hora para a outra. Somos mortais, e podemos desaparecer da face da Terra sem o menor aviso. Still Alice fala da fragilidade da vida, das escolhas que fazemos e de como as pessoas ao nosso redor reagem quando toda aquela fortaleza que parecemos ter é abalada. Filme sensível, com ótimas atuações e com um roteiro irretocável. Faz lembrar muito a vida real, suas nuances, fragilidades e lições.

A HISTÓRIA: Alice Howland (Juliane Moore) comemora o aniversário com o marido e os filhos em um restaurante. A filha mais velha, Anna Howland-Jones (Kate Bosworth) é a primeira a entregar para a aniversariante o presente. O marido de Anna, Charlie (Shane McRae) comenta que a sogra não parece ter 40 anos, muito menos 50. Ela agradece, educada, assim como diz ter amado o presente, e cumprimenta o filho que chegou atrasado, Tom (Hunter Parrish). Ele diz que esqueceu o presente no hospital, e começa a contar para o pai, John (Alec Baldwin), e os demais sobre a última ocorrência no trabalho. O clima é bom, mas fica no ar que Anna gosta de competir com os irmãos. Corta.

Alice é convidada para dar uma palestra em Los Angeles, e no meio da apresentação, esquece da sequência do que estava falando. Ela brinca que não deveria ter tomado uma champagne. Sem fazer alarde ou comentar com alguém da família, contudo, ela procura ajuda médica porque está tendo diversos esquecimentos. A partir desta ponto, a vida dela e da família muda definitivamente e de forma muito rápida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER –  aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Still Alice): Não há tempo a perder. Nem na vida, nem neste filme dirigido e escrito por Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Os desavisados podem até perder as primeiras interações da família central desta produção porque os realizadores abriram mão daqueles tradicionais créditos iniciais para entrar logo na ação.

Não é por acaso aquela cena inicial. E vamos entendê-la melhor conforme a história vai se desenvolvendo. No restaurante, no aniversário de Alice, todos estão felizes. Afinal, é mais uma volta ao Sol concluída da matriarca a ser comemorada. Mais um presente, mais um brinde, mais um atraso e um esquecimento com pedido de desculpas. Tudo parece se somar, como se colocássemos mais uma colherada de açúcar no café. De fato, a vida é uma soma de dias, de ações e de decisões e suas consequências. E ninguém pode adivinhar quando tudo isso vai por terra.

Então, de forma precisa e brilhante, Glatzer e Westmoreland, baseados na obra de Lisa Genova, entram na vida de Alice com pressa, mostram as relações familiares dela para, pouco a pouco, ir nos mostrando que há algo de errado na aparente normalidade. Na comemoração do aniversário, totalmente “do nada”, Alice confunde uma brincadeira feita pelo genro, Charlie, com a esposa, Anna, ao ironizar a rivalidade da irmã mais velha com a mais nova, a ausente naquela comemoração Lydia (Kristen Stewart), com a própria relação dela com a irmã falecida.

O equívoco, que poderia ser normal para qualquer pessoa, logo se soma a outros. Como a perda da linha de raciocínio quando ela se apresenta em Los Angeles, a convite de Frederic Johnson (Seth Gilliam). Inteligente também como, da cena do restaurante, quando percebemos o clima familiar da família Howland, logo entramos no ambiente universitário, a segunda prioridade na vida de Alice – ela é centrada na família e na carreira, essencialmente. Através de Johnson, ficamos sabendo que Alice não é uma professora ou pesquisadora qualquer. Ela é uma doutora em sua área, e foi a mais jovem professora de linguística na Universidade de Columbia.

Ela é uma mulher impressionante. Escreveu um livro que posteriormente seria usado como referência na área de linguística enquanto criava três filhos. Em casa, ela não era a única centrada no trabalho. Aparentemente o marido dela, John, era tão ou mais obcecado pela carreira. Ela é centrada, objetiva e competitiva.

Por isso mesmo, por achar que a vida depende muito do esforço próprio de cada indivíduo, ela fica incomodada com a filha mais nova em uma carreira tão instável quanto a do teatro. As duas tem um certo conflito quando se encontram após a palestra de Alice em Los Angeles. Mas nada que signifique rompimento ou situações mais constrangedoras – apenas a tradicional diferença de visões de quem está começando a fazer a carreira e de quem já tem mais vivência.

Pois bem, há alguns elementos lançados por Glatzer e Westmoreland que nos fazem duvidar sobre o fluxo da rotina de Alice, mas a dúvida maior surge mesmo quando ela se perde no meio de uma corrida. Como o filme não enrola, pelo contrário, costuma ir direto ao ponto, a exemplo da protagonista, o suspense logo vai ao solo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Alice procura um neurologista para tentar entender o que está acontecendo. Ela diz que começou se esquecendo de algumas palavras mas que, agora, já vive momentos em que se sente totalmente perdida.

Sem apressar o passo, mas sem enrolar muito, o médico vai progressivamente descartando opções até que surge o diagnóstico: alzheimer precoce. Um tipo muito raro, genético. Perto do diagnóstico, Alice envolve o marido. Entre a primeira consulta e aquela com o veredicto, ela aguenta tudo sozinha. Tem medo, parece, de falar em alto e bom som que talvez ela tenha que parar de fazer o que sempre fez. Compreensível.

A pior parte do diagnóstico, contudo, surge quando o médico Dr. Benjamin (Stephen Kunken) afirma que são grandes as probabilidades dos três filhos de Alice também serem portadores da doença. Julianne Moore, uma das grandes da sua geração – ou talvez a maior -, representa muito bem toda a aflição e a dor pré e pós-diagnóstico. Ela realmente está mortificada pelos filhos talvez terem a mesma doença. No fim das contas, uma tem, outro não, e a terceira resolve que não quer fazer o teste.

A progressão da doença, seus sintomas e dificuldades é muito rápida. De acordo com o médico, em tipos raros de alzheimer como aquele, e em pessoas mais intelectualizadas, a evolução da doença costuma ser mais rápida. É isso o que acontece. Mas o filme não foca apenas na tragédia, nas perdas que Alice vai sofrendo – de memória, de foco, de consciência de si mesma e dos demais. Still Alice tem a honradez de, especialmente, mostrar a batalha desta mulher por seguir tendo uma vida digna.

Um elemento adicional interessante e que é lançado logo após o diagnóstico, ao comunicado consequente para toda a família e às críticas que vão surgindo por parte dos alunos para o trabalho de Alice – a primeira de muitas partes cruéis mas bem realistas do filme -, é como a protagonista, sempre tão racional, procura controlar o próprio fim.

Primeiro, de forma muito corajosa, ela vai sozinha pesquisar um local em que ela poderia ficar internada quando a doença avançasse. Claramente ela não se sente confortável com o que vê, e decide deixar um vídeo para si mesma, para que ela assista quando não conseguir mais responder a algumas perguntas básicas sobre ela própria, sugerindo um final extremo e solitário. Mas, com aquele final planejado, ela terá mantido o controle – algo que para ela sempre foi importante – e não terá sido um “fardo” para ninguém.

De arrepiar a cena em que ela grava a mensagem para si mesma. O interessante deste recurso narrativo é que o espectador sabe daquele “perigo”, mas vai mergulhando na história de Alice até que o tema volta à tona. E de forma dramática. Mais um acerto do roteiro. Alice vai piorando, e o marido, a pessoa mais próxima dela, não reage como esperamos. Pelo contrário. Ele é frio, distante, e decide seguir a vida como se nada tivesse acontecido. John segue muito focado no trabalho, talvez até mais que antes.

Os filhos mais próximos de Alice também não se envolvem muito com ela. Anna está mais preocupada em engravidar e buscar, através da Medicina, minimizar as chances dos filhos dela terem o mesmo gene da doença precoce de Alzheimer. Tom é uma figura que parece refletir o pai, muito ocupado também com o trabalho. Lydia, mesmo em outra cidade, é a única que acaba sendo mais próxima. Volta e meia ela fala com a mãe pelo Skype e, quando está perto dela, realmente se importa e pergunta como está a mãe, o que ela está sentindo e passando.

Claro que na vida real muitas pessoas agem daquela forma. Elas parecem não se importar porque estão em processo de negação do problema. Mas eu considero que isso é compreensível por alguns dias, talvez um par de semanas, mas que depois as pessoas saem do círculo egoísta da autopreservação para olharem com maior generosidade e delicadeza para aquela pessoa que elas dizem amar. Por isso mesmo, por mais que as atitudes de Anna, Tom e John sejam reflexo de atitudes reais de pessoas muito centradas no êxito e no sucesso e pouco afeitas aos problemas e ao “fracasso”, fica difícil de engolir que eles agiram de forma tão egoísta por tanto tempo.

Essa é a única parte do filme com a qual eu tenho um pouco de ressalvas. Porque certo que Lydia era a mais próxima da mãe e, com veia artística, a mais sensível da família. Ainda assim, parece um pouco forçado os outros três entes próximos de Alice agirem de forma tão cretina e egoísta – especialmente John. Eu já não vou muito com a cara do ator Alec Baldwin e ainda ele faz um papel tão repugnante! Impossível não ficar indignada com ele durante o filme. Por grande parte da produção achei que ele poderia ter uma amante, e ter continuado com ela apesar da doença de Alice, mas acho que isso não aconteceu porque nada é mostrado na produção.

De qualquer forma, e voltando para o argumento anterior, achei que ficou um pouco forçado os três serem uns cretinos para que fosse ainda mais valorizado o bom exemplo de Lydia. Acho que um dos outros filhos, ao menos, Anna ou Tom, poderiam ter se aproximado mais, em algum momento, para tornar a história um pouco mais crível. Mas assim, este é um pequeno detalhe.

Há cenas cruéis na produção, como a falta de compreensão, paciência e generosidade com Alice por parte de seus familiares, mesmo com ela estando em uma doença tão difícil. Depois, acredito que poucas enfermidades sejam tão complicadas quanto o alzheimer. Uma pessoa perder a lucidez completamente é uma situação. Mas alguém inteligente e capaz viver em uma gangorra, tendo dias de quase normalidade e dias em que a pessoa se sente completamente perdida, deve ser terrível. Acho difícil alguém não conseguir se colocar no lugar de Alice – mérito da ótima atriz Julianne Moore que consegue, em mais este filme, nos aproximar muito da personagem que ela está interpretando.

Racional, Alice faz um discurso quase científico quando é convidada para falar sobre a doença em um congresso. Lydia a questiona, sugerindo que ela escreva um discurso mais pessoal. Afinal, as pessoas querem saber o que uma pessoa enfrenta ao ter uma doença como aquela.

No início, Alice se aborrece, porque passou um trabalhão para conseguir escrever aquele texto. Mas para nossa surpresa, ela acaba cedendo ao que a filha disse – e faz um discurso inesquecível, um libelo à vida, à luta que ela estava travando e a tudo que importa. Um dos grandes momentos do filme. Outro grande momento é o final. Não imagino outro desfecho tão perfeito. Afinal, Still Alice é um filme sobre amor. À vida e às relações que vamos construindo passo após passo. Lindo.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Julianne Moore é uma atriz divina. Ela estrelou pelo menos dois dos meus filmes favoritos de todos os tempos: Magnolia e The Hours. Mas não é porque ela tem talento acima da média, que ela faz só papéis bons. Não. Volta e meia ela entra em algum filme de segunda categoria. Isso porque ela trabalha, e muito.

Aos 54 anos – fará 55 em dezembro -, ela tem 76 produções no currículo (sendo que duas estão em fase de pós-produção e uma em pré-produção). Apenas no ano passado, para vocês terem uma ideia, ela esteve envolvida em cinco filmes. Foi, sem dúvida, um dos anos mais produtivos da atriz – apenas em 1999 e em 1997 ela tinha feito outras cinco produções em cada ano. Em muitos outros anos a média dela de trabalho é de quatro filmes.

Sem dúvida ela dá um show em Still Alice. Impressionante ver como ela começa e termina a produção. Sempre firme na interpretação, convencendo em cada momento. Julianne Moore conquistou, até o momento, 97 prêmios na carreira, e foi indicada a outros 103 prêmios – incluindo a indicação a cinco Oscar’s. Talvez, este ano, ela finalmente leve uma estatueta para casa. Seria muito, mas muito merecido. Minha torcida, desde já, é por ela.

Apenas uma outra atriz, acredito, seja mais deslumbrante que Julianne Moore: a imbatível Meryl Streep. A atriz estará, mais uma vez, no Oscar deste ano, sendo indicada e, provavelmente, “zoada” com as tradicionais piadas sobre ela estar concorrendo mais uma vez. Meryl Streep tem impressionantes 167 prêmios no currículo – incluindo três Oscar’s – e foi indicada a outros 242 prêmios. Uma mulher formidável e atriz espantosa.

Mas voltemos para Still Alice. 🙂 Além de Julianne Moore, o outro nome de destaque da produção é Kristen Stewart. No início, ela parece encarnar mais um papel de “garota estranha”. Olhar quase sempre para baixo, jeito meio de bicho acuado. Mas daí, pouco a pouco, ela parece que vai se soltando. E no final, faz uma dobradinha muito bacana com Julianne Moore. A garota se sai bem, e tem potencial para crescer ainda mais na interpretação nos próximos anos.

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma os principais elogios vão para o ótimo roteiro e para a direção fluída e muito acertada da dupla Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Eles acertam na cadência da história e em não fazer os espectadores perderem tempo. Não existe tédio e nem momento de fluxo mais lento na história. E mesmo quando o silêncio predomina, é para que a interpretação de quem está em cena aflore com todo o seu esplendor. Como diretores, eles tem o cuidado de acompanhar de perto sempre os atores, sem esquecer de mostrar o contexto em que eles estão inseridos. Belo trabalho.

Outros elementos interessantes da produção são a direção de fotografia de Denis Lenoir e a trilha sonora pontual e emotiva de Ilan Eshkeri. Também gostei do trabalho de edição de Nicolas Chaudeurge, muito preciso e detalhista. O tom realista é reforçado pelas ótimas escolhas de Susan Perlman na decoração de set e de Tommaso Ortino no design de produção.

Para ajudar a mostrar a mudança rápida e marcante de Julianne Moore, muito importante o trabalho da equipe de sete profissionais envolvidos com o cabelo e a maquiagem.

Still Alice estreou em setembro de 2014 no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Depois, o filme participaria ainda de outros oito festivais. Três estão na agenda ainda para acontecer: Festival de Cinema de Glasgow, no dia 21 de fevereiro – véspera do Oscar -; Festival de Cinema de Kamloops e Festival de Cinema de Belgrado, ambos em março deste ano. Nesta trajetória o filme ganhou 24 prêmios e foi indicado a outros 15 – incluindo um Oscar.

Destes 24 prêmios, 15 foram para a atuação de Julianne Moore. Alguns destes prêmios que a atriz recebeu são bem importantes, como o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama; Melhor Atriz no Prêmio BAFTA; Melhor Atriz pelo Screen Actors Guild Awards; e Melhor Atriz pelo National Board of Review.

Still Alice foi totalmente rodado em Nova York.

Pequena consideração adicional sobre esta produção. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Há quem argumente que o marido de Alice seguiu levando uma vida normal e “alienada” aos problemas da mulher por culpa dela. Ou seja, que por ela ser uma mulher tão independente, inteligente e autossuficiente, ela acaba afastando as pessoas. Gente que, como John, não sabia que a mulher também era frágil e precisava ser amada e cuidada. Ah, por favor! Sério mesmo que uma mulher independente assusta e engana tanto assim? Vamos e venhamos, somos todos humanos. Logo, frágeis, mortais, passíveis de acertos e de erros. E todos nós gostamos de ser respeitados, cuidados e, principalmente, amados. Nada justifica a frieza, a crueldade e a covardia de John. Ainda que dê “para entender”, como quase dá para entender tudo nesse mundo. Outra coisa é aceitar.

Agora, algumas curiosidades sobre o filme: o diretor Richard Glatzer sofre de ALS (Amyotrophic Lateral Sclerosis ou, na tradução, Esclerose Lateral Amiotrófica) e, por causa disso, não pode falar. Para se comunicar durante as filmagens, ele utilizou um aplicativo “text to speech” – destes que converte texto em voz – do iPad.

Foi Julianne Moore que sugeriu que o papel de John fosse feito por Alec Baldwin. Isso porque os dois atores queriam trabalhar novamente. Desculpe a atriz, mas eu preferia outro ator em cena. 🙂

Still Alice foi rodado durante 23 dias e fora da ordem cronológica.

De acordo com a autora do livro no qual o filme é inspirado, Lisa Genova, antes de Alice ser interpretado por Julianne Moore, o papel foi oferecido para Michelle Pfeiffer, Julia Roberts, Diane Lane e Nicole Kidman, mas todas acabaram recusando o papel. Ainda bem que Julianne Moore o aceitou. Ficou em excelentes mãos!

Richard Glatzer tem apenas cinco trabalhos como diretor – ele estreou no ofício em 1993, com Grife. Depois, ele voltaria a dirigir um longa apenas em 2001, com The Fluffer. Até o momento ele ganhou oito prêmios e foi indicado a outros dois. Wash Westmoreland soma mais filmes no currículo como diretor: 18 no total. Ele começou com o curta em vídeo Squishy Does Porno, de 1995, e faria o primeiro longa em 2001. Justamente The Fluffer, junto com Glatzer. Certamente o trabalho mais conhecido da dupla antes de Still Alice foi o filme Quinceañera, de 2006.

Não encontrei informações sobre os custos estimados de Still Alice. Mas vi que até o dia 16 de janeiro o filme tinha feito pouco menos de US$ 2,6 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Uma miséria. Infelizmente. Espero que no resto do mundo o filme se saia melhor – ou mesmo com a possível vitória no Oscar 2015.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para o filme. Uma boa nota, levando em conta a média do site, mas assim eu acho que a avaliação poderia ter sido melhor. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 91 textos positivos e 11 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 89% – e uma nota média de 7,5. Um raro empate entre a avaliação de público e crítica.

Still Alice é uma coprodução dos Estados Unidos com a França.

CONCLUSÃO: O tema da fragilidade humana já foi explorado por diversos filmes. E será explorado por muito tempo ainda. Talvez por ser um dos temas mais importantes e fascinantes que existem, já que ele é carregado de ensinamentos. Mas diferente de outros filmes do gênero, Still Alice nos remete a uma doença assustadora, e fala muito sobre o preparo que alguns tem e outros não para enfrentar a fragilidade de alguém próximo – e, consequentemente, perceber a própria mortalidade. Tocante, atencioso nos detalhes, com duas grandes atrizes encabeçando o elenco, Still Alice é uma destas produções que faz pensar. E que emociona, de maneira singela e com alguns grandes momentos. Um filme que vale a pena conferir e pensar sobre ele.

PALPITES PARA O OSCAR 2015: Still Alice foi indicado a apenas um Oscar, o de Melhor Atriz para Julianne Moore. Para muitos, ela é a favorita. Até porque recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama. Ela recebeu, como eu comentei acima, nada menos que 15 prêmios por este papel. De fato, ela está divina. Como Meryl Streep, mas claro que dois degraus atrás da recordista em indicações ao Oscar, Moore está um patamar acima da média das atrizes de sua geração e, possivelmente, de outras gerações também. Ela é divina e, certamente, merece um Oscar.

Ainda preciso assistir às outras atrizes que estão concorrendo nesta categoria este ano. Vi apenas a Felicity Jones, por The Theory of Everything e, sem dúvida, em um embate entre as duas, Moore leva vantagem. Mas desconfio que Marion Cotillard esteja ótima em seu papel em Deux Jours, Une Nuite. Minha aposta neste momento seria de que Moore é favorita, mas que apenas Cotillard poderia tirar uma estatueta dela. Ainda estão na disputa Rosamund Pike e Reese Witherspoon. Inicialmente, não vejo chance para elas. Veremos…