Somos Tão Jovens

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Um filme planejado, em todos os detalhes, para agradar a uma legião de pessoas. Somos Tão Jovens não traz nenhuma novidade para os fãs de Renato Russo e da Legião Urbana, que conhecem cada detalhe da história do ídolo e da banda e vão perceber algumas “licenças poéticas” na produção. Mas para mim, que sou uma destas fãs, este filme revelou-se um verdadeiro alívio e uma revisita interessante ao passado. Como o próprio ator Thiago Mendonça, que interpreta a Renato Russo definiu, na pré-estreia da produção, na noite de quarta-feira, Somos Tão Jovens é um “filme de turma”. Que não lembra, muito, para meu alívio, a Malhação. Mas que tem o espírito da amizade como o seu principal foco. No fim das contas, o que fica é a poesia e a força das músicas do Aborto Elétrico, do Trovador Solitário e da Legião. Por isso mesmo, este filme funciona.

A HISTÓRIA: Várias fotos de Renato Russo, desde a infância, até a adolescência, passando por Brasília e o Brasil que se despedia da ditadura e dos tempos de mercado fechado. Logo após a vinheta, que termina com as assinatura de Renato Russo e a famosa expressão “Força sempre”, mergulhamos em imagens reais e históricas de Brasília. A produção é ambientada na capital federal entre 1976 e 1982. Naquela cidade, vemos a um Renato Russo (Thiago Mendonça) empolgado, que pedala em uma bicicleta com um violão nas costas e o uniforme do Colégio Marista sentindo o ar passar pelo seu rosto e entrando em seus pulmões. Até que ele cai e é levado para o hospital. Lá, os pais de Renato Manfredini Jr., Renato (Marcos Breda) e Carminha (Sandra Corveloni) descobrem que o filho foi operado e ganhou três pinos na perna por ter epifisiólise. A partir daí, conhecemos a história da transformação de Manfredini Jr. em Russo, e da formação de várias bandas naquele cenário de juventude entediada e inspirada no movimento punk. Eles criariam grupos que impulsionariam o Rock Brasilis, com a Legião Urbana como o seu principal expoente.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Somos Tão Jovens): Enquanto esperava para entrar no cinema, eu tive medo. Ao ver a um dos cartazes do filme, pensei: “Será possível que transformaram a história controvertida de Renato Russo e seu início na música em um capítulo estendido de Malhação?”. Na foto do cartaz, Mendonça aparece cantando em alto e bom som cercado por jovens que parecem ter sido escalados para uma propaganda de refrigerante.

Depois, dentro da sala de cinema, esperando pela inédita transmissão de um lançamento de filme nacional simultâneo em nove cidades do país começar, ouvi parte da trilha sonora da produção. Percebi que Mendonça, de fato, tinha um tom parecido com Renato Russo. Mas, claro, não era ele. Mesmo esforçado, Mendonça não tinha a potência vocal ou as nuances da voz do ídolo sensível e atormentado. O que me restava era esperar. Para ver o tamanho do desastre quando o filme começasse.

Para a minha grata surpresa, Somos Tão Jovens não é um desastre. Pelo contrário. Apesar de várias licenças poéticas e de tornar a história mais leve do que ela realmente foi, esta produção dirigida com muita inteligência por Antonio Carlos da Fontoura se mostra bastante honesta e com um propósito louvável: o de homenagear, segundo palavras do próprio diretor, Renato Russo e aquela turma que inesperadamente revolucionaria o país a partir de Brasília.

E é exatamente isto que Somos Tão Jovens faz. Uma homenagem que, como qualquer produto com esta característica, ignora os pontos polêmicos e controversos e se centra apenas na parte bonita e heróica da história. Não por acaso, a família Manfredini foi consultada e serviu como consultora para esta produção. Assim como diversos amigos de Renato Russo e integrantes das bandas que formaram o cenário do Rock Brasilis.

Na apresentação do tapete vermelho no Cine Odeon, na noite do dia 24, quando o filme teve pré-estreia em 12 salas de cinema do país com transmissão ao vivo direta do Rio, enfatizaram a data como um encontro para “comemorar o movimento cultural” surgido no final dos anos 1970 em Brasília.

Somos Tão Jovens busca contar a origem deste movimento. Como as principais figuras do rock nacional se conheceram, se relacionaram e montaram bandas como Aborto Elétrico, Plebe Rude, Capital Inicial, Dado e o Reino Animal e Legião Urbana. Estas foram as únicas bandas citadas na produção, mas que representaram todas as demais, como Paralamas do Sucesso (Herbert Vianna, interpretado por Edu Moraes, aparece em dois momentos na produção, mas sem citar a banda), Caos Construtivo, Blitz 64, Vigaristas de Istambul, XXX, Escola de Escândalo, entre outras.

A maioria daquelas bandas, que trocavam de integrantes quase como quem troca de roupa, não tinha qualidade ou se levava o suficientemente a sério para persistir no caminho. O que torna a figura de Renato Russo ainda mais impressionante. Ele poderia ter apenas “curtido” um tempo aquela transgressão, ter feito barulho e ter mudado de direção, como foi sugerido por seus pais. Mas não, insistiu em fazer música e mudar a vida de tanta gente com poesia e atitude. A persistência dele e dos irmãos Fê e Flávio Lemos são bem exploradas pelo filme de Fontoura.

O diretor paulistano de 74 anos, idade completada em janeiro deste ano e com uma filmografia que inclui documentários, curtas e filmes de diferentes gêneros, soube conduzir muito bem esta produção. Ele valorizou o trabalho dos atores, manteve a câmera nervosa nos momentos em que ela deveria seguir esta linha – especialmente nas festas e nas apresentações das bandas – e procurou belas cenas assim que possível. Há sequências memoráveis, embaladas por uma ótima trilha sonora – e haveria melhor do que as letras do Renato Russo? – e com a ajuda fundamental do diretor de fotografia Alexandre Ermel, que captou muito bem todas as cores do dia e da noite das cidades pelas quais a equipe do filme passou.

O roteiro foi muito bem escrito e consegue o propósito de qualquer realizador: faz as pessoas rirem e também se emocionarem. Percebi isso na sala de cinema, na pré-estreia do filme. Ainda que tenha me incomodado um pouco o fato de que as pessoas riram muito mais do que deveriam – e em momentos em que o propósito não era esse, como quando Renato Russo aparece mal por causa da morte de John Lennon.

O texto de Marcos Bernstein, escrito com a colaboração do diretor Fontoura e de Luiz Fernando Borges e Victor Atherino, tem ritmo, busca traçar um rápido retrato das contradições de Renato Russo, abre espaço para alguns personagens secundários daquele cenário de rock adolescente e, segundo o próprio Fontoura, trata do “rito de passagem” do Renato Manfredini Jr. para o ídolo Renato Russo.

Os fãs de RR e da Legião Urbana não vão assistir nada de novo. Pelo contrário. Vão perceber, aqui e ali, algumas “licenças poéticas” dos roteiristas que poderão desagradar aos mais fanáticos. Há vários episódios que podem ser questionados, mas eu destacaria dois, em especial: o acidente de bicicleta que começa o filme e que seria a razão para Renato e sua família descobrirem que ele tinha epifisiólise, e a primeira ruptura entre Fê Lemos e RR que teria colocado fim ao Aborto Elétrico.

De fato, RR foi diagnosticado com epifisiólise, teve três pinos colocados na perna e passou muito tempo em casa, sem poder sair do quarto. Depois de ficar na cama por seis meses, ele teria ficado outros seis meses em uma cadeira de rodas antes de ficar outros seis andando com muletas. Evidentemente que alguém que tinha tido a cartilagem da perna dissolvida pela doença não poderia andar de bicicleta, correto? A imagem inaugural do filme é muito bonita, e emblemática, mas não poderia ser mais fora da realidade. E outro detalhe: de acordo com o roteiro, ela acontece em 1976 mas, na verdade, a descoberta ocorreu um ano antes, quando RR tinha 15 anos.

Depois, chega a incomodar a explicação sobre a primeira ruptura do Aborto Elétrico. Segundo o roteiro de Somos Tão Jovens, RR bebeu o dia inteiro por causa da morte de John Lennon. Ao chegar bêbado para uma apresentação com o Aborto Elétrico, ele foi confrontado por Fê Lemos. No início do show, ele erra a música Veraneio Vascaína, o que faz Lemos atirar uma baqueta nas costas do vocalista, que para o show anunciando o fim da banda.

Segundo a biografia de RR escrita por Arthur Dapieve, a história foi bem diferente. Primeiro, que o tal show na cidade satélite de Cruzeiro Velho teria ocorrido no dia 8 de dezembro de 1981, um ano depois da morte de John Lennon. Depois, RR teria se atrapalhado com Veraneio Vascaína no meio do show, e não no início. Ele também não teria abandonado a apresentação logo depois de ter recebido a baqueta. O Aborto Elétrico tocou até o final, e não houve discussão no palco.

Estes são apenas dois pequenos exemplos do quanto Somos Tão Jovens não se preocupou tanto com os detalhes da história real. O objetivo do filme era outro. Contar a história menos conhecida de Renato Russo para todos aqueles que não conhecem todos os detalhes. Ajudar os pais dos fãs daquela época e, principalmente, os seus filhos, que cresceram nos últimos 17 anos, período sem Renato Russo, a entender como tudo surgiu. De quebra, temos um pouco do cenário do país no final dos anos 1970 e início dos anos 1980 sob uma ótica pouco explorada no período, o da juventude.

Além das licenças poéticas do roteiro, admito que me incomodei um pouco com o politicamente correto exagerado da produção. Ela suaviza os dilemas e as inquietudes da época, mostrando algum álcool e maconha aqui e ali – mas muito, muito menos do que realmente foi consumido. Renato Russo aparece bebendo pra valer em apenas um dia – aquele em que, supostamente, John Lennon morreu. Mas o fato é que ele bebia doses cavalares com muito mais frequência. Um filme que procura respeitar tanto a família e a memória de RR se permitiu mostrar, apenas, esta fragilidade em um “dia especial”. Mas nem sempre eles foram necessários para que RR passasse dos limites.

Também senti falta do filme mostrar pelo menos um beijo gay. Afinal, por que o Renato Russo de Somos Tão Jovens pode ser mostrado na cama com a personagem ficcional Aninha, dando um educado beijo na boca dela, e não pode fazer o mesmo com Carlinhos (Antonio Bento)? Me parece que os realizadores seguiram a mesma teoria das novelas produzidas no país, de que o brasileiro ainda não está preparado para um beijo gay. Será mesmo? E quando, finalmente, estaremos preparados a conviver pacificamente com todas as nossas diferenças? Respeitando todas as pessoas, como pedia o próprio RR?

Tudo isso deixa ainda mais evidente que Somos Tão Jovens procurou ser uma grande homenagem a RR. Não lembra em quase nada, por isso mesmo, a sua vida real. Porque, afinal de contas, a história verdadeira do ídolo é cheia de controvérsias, de muitos altos e baixos e de uma parte triste e complicada que muita gente não quer enxergar. Mas este conhecimento da complexidade do ídolo só pode fazer bem. Ajuda a perceber a complexidade de todos nós e da própria vida. Somos Tão Jovens seria um filme adulto, se ousasse entrar nesta seara. Mas não. Ele é, de forma objetiva e planejada, um filme adolescente. Com toda a sua inocência, espírito naif e força transformadora.

No fim das contas, todas as licenças poéticas da produção e sua falta de ousadia pouco importam. O que fica, realmente, é a homenagem para a obra de Renato Russo, desde os tempos do Aborto Elétrico, passando pelo Trovador Solitário e até o início da Legião Urbana.

O filme dá bastante espaço para as músicas dele, bem interpretadas pelos atores que ficaram quatro meses em convivência diária e conseguiram, neste período, desenvolver covers bastante honestos dos ídolos nacionais. A força da dedicação deles, especialmente de Thiago Mendonça, que emociona na interpretação de RR, carregando o filme nas costas, resulta em músicas bem executadas e potentes. Mendonça não tem a potência vocal de RR, mas faz um belo trabalho. E os demais lhe seguem bem. Somos Tão Jovens é tão bom exatamente por isso. Porque fala de amizade, coragem, foco em objetivos ousados e de uma obra que segue inspiradora. Mesmo que o tempo tenha passado, a obra de RR e de seus colegas segue atual.

Da minha parte, como uma fã original da Legião Urbana e de Renato Russo – destas que ganhou ou comprou os discos originais, antes deles serem remasterizados, e que sempre buscava uma camiseta nova da banda nas lojas de discos -, me senti aliviada no final de Somos Tão Jovens. Não estragaram a história, transformando-a em uma releitura da origem de Renato Russo sob a ótica de uma produção a la Malhação. Ao mesmo tempo, me emocionei ao me transportar no tempo, resgatando sentimentos de um passado que ficou em seu devido lugar. Apesar da música de RR seguir sempre fazendo sentido. E ouví-la em alto e bom som, no cinema, foi gratificante. E será para você também.

NOTA: 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O cinema nacional está preocupado com a pirataria. Na pré-estreia de Somos Tão Jovens, todas as pessoas tiveram que sacar os seus celulares e smartphones para que os aparelhos fossem colocados em pacotes para serem lacrados. Quando chegou a minha vez, perguntei se a medida era para evitar que as pessoas tuitassem durante a produção. Brinquei se era para evitar que elas contassem o final do filme.

Apesar da brincadeira, de verdade, eu não tinha pensado que a medida era para evitar que alguém filmasse dentro do cinema e alimentasse a pirataria. Sei lá, vai ver que é porque eu tenho um celular dos antigos, incapaz de filmar qualquer coisa. Ou porque eu jamais pensaria em algo assim. Me surpreendi quando, antes da transmissão ao vivo do Cine Odeon começar, os organizadores pediram para ninguém usar o celular no cinema para evitar filmagens ou reproduções vetadas. Santa inocência, Batman!

Achei muito interessante a iniciativa da Imagem Filmes, da Fox, RioFilme, Canto Claro e da Petrobras, que apresentam Somos Tão Jovens, em promover uma pré-estreia em nove cidades do país na noite de quarta-feira com uma transmissão ao vivo simultânea do evento promovido no Cine Odeon, no Rio de Janeiro. Foi bacana por oferecerem o mesmo conteúdo de informações para públicos de diferentes locais do país. Espero que este exemplo seja seguido em outros lançamentos do cinema nacional.

O ator Thiago Mendonça dá um show em Somos Tão Jovens. Ele tentou emular não apenas a voz, mas a atitude e os trejeitos de Renato Russo. O perigo era grande dele ter uma interpretação caricatural. Mas, na minha análise, ele conseguiu flertar com a caricatura e ignorá-la de forma inteligente.

Mendonça se entregou ao personagem, fazendo o público rir e se emocionar. Carrega, como eu disse antes, o filme nas costas. Com uma ajuda importante Laila Zaid, que dá um show como Ana Cláudia, a personagem ficcional que incorpora muitas amigas reais de Renato Russo em uma única persona. Tanto Mendonça quanto Zaid tem carisma e seguram bem os seus respectivos personagens. O mesmo não pode ser falado sobre outros atores e não-atores que aparecem em papéis menores e que não tem o mesmo destaque. Mas eles conseguem o fundamental: se sair bem na hora de formar uma banda e tocar pra valer no filme. Afinal, é a música o que realmente importa na produção.

No tapete vermelho da pré-estreia do filme, Laila Zaid destacou como o elenco viveu intensamente a experiência. No blog do filme, é possível saber que o trabalho de filmagem começou em maio de 2011 e que exigiu quatro meses de convivência diária do elenco principal. Zaid disse que a sua personagem “centra várias meninas que passaram pela vida de Renato Russo” e que ela fez um trabalho de mergulho intuitivo, seguindo os passos de Mendonça e “colando” em sua interpretação. Na opinião da atriz, que disse que é de uma geração posterior ao sucesso da Legião, faltam pessoas como RR atualmente, que façam crítica social.

Depois de Laila Zaid, foi a vez de Fontoura falar sobre o filme. O diretor disse que a produção homenageia Renato Manfredini Jr., um rapaz que saiu de uma quadra de Brasília para se tornar “um mito eterno do Brasil”. Ele disse que a Legião Urbana é universal, o equivalente a um The Beatles brasileiro. “Todo mundo gosta da Legião”, enfatizou.

Fontoura justificou a escolha pelo começo da carreira do ídolo afirmando que tratar da vida inteira de Renato Russo, em um filme, ficaria “muito corrido”. Além disso, ele disse sempre ter se interessado por começos, e que achou interessante contar o rito de passagem e a história de como Renato Manfredini Jr. “inventou” o Renato Russo. Finalmente, o diretor confirmou que chamava Thiago Mendonça de Renato, porque, afinal de contas, ele era o RR.

Bem vestido, Thiago Mendonça foi o terceiro a falar no tapete vermelho. Ele brincou que se inspirou no The Killers para escolher o terninho com o que foi na festa de lançamento do filme. Mendonça destaca a capacidade de Renato Russo em “associar a delicadeza da poesia com a força do rock”. Afirma que o país continua uma vergonha, como na época em que o filme é ambientado, e que é preciso ter mais gente com atitude como RR.

Mendonça destaca que a obra de RR e da Legião permanece, e que ele só acreditou que tivesse um timbre parecido com o do ídolo após a aposta e a confiança do assistente de direção musical Fernando Morello, que também atuou na preparação vocal e nos arranjos do filme, e do diretor musical Carlos Trilha. Para o ator principal deste filme, cantar significa “coragem e muita doação”. Ele destacou que Somos Tão Jovens é um “filme de turma”, e que incentiva o “do it yourself”, lema do punk que significa “faça você mesmo”.

Na sequência, o ator Cauã Reymond aparece em cena, dizendo que não era tão próximo da Legião, e sim de uma geração que acompanhou mais Caetano Veloso e Lulu Santos. Ele admitiu que estava ali por causa de uma parceria com a Imagem Filmes, que vai coproduzir o seu próximo filme, Língua Seca, um “road movie e thriller de ação”. Não disse nada demais, apenas que acredita nesta nova fase do cinema nacional, que poderá logo andar por suas próprias pernas, sem tanto financiamento, e ótimas produções que custam entre R$ 800 mil e R$ 2 milhões. Mesmo sem falar nada demais sobre a Legião ou RR, Reymond arranca reações emocionadas de parte da plateia feminina.

Dado Villa-Lobos e Nicolau, seu filho, surgem na sequência para falar como o jovem interpretou o próprio pai no filme. Nicolau brinca que teve 25 anos de laboratório em casa para saber como assumir o papel de Dado, por isso não precisou pedir dicas ou se informar sobre o período do início de tudo, em Brasília. Ele apenas pediu algumas dicas de música e para tocar guitarra, já que tudo foi “a vera no filme” – ou seja, todas as músicas que aparecem sendo executadas na produção, de fato, foram tocadas pelos atores que, segundo Nicolau, saiam das filmagens e iam para casa ensaiar aquelas músicas. Para Dado, é sempre muito bom prestar atenção nos filhos, e a sua geração de filhos teria produzido “muita coisa positiva”. A mensagem do filme, segundo Dado, é que os jovens devem juntar os seus amigos, sair de casa e fazerem alguma coisa. Para ele, Renato era “maluco, transgressor e agregador”.

Em seguida, entrou em cena Marcelo Bonfá e Conrado Godoy, que lhe interpreta na produção. Godoy explica que é amigo de João, filho de Bonfá, há muito tempo, e que eles tiveram muito material – desde fotografias até reportagens e muito material de vídeo e áudio – para consultarem quando começaram a trabalhar no projeto. E que isso foi fundamental para a imersão nos personagens e naquele tempo. Bonfá comentou que é bom rever aquele período, passado tanto tempo, porque eles viveram um “momento muito sério” na adolescência, quando tudo era “muito sério”. O músico explicou que o seu filho, João, inicialmente iria interpretá-lo, mas que ele não pode porque teve problemas na época. Godoy então comentou que o amigo achou bom que ele fizesse o papel do pai, e teria afirmado: “Melhor você do que alguém que eu não conhecesse”.

O ator Bruno Torres, que interpreta a Fê Lemos, possivelmente o maior papel depois de RR e Aninha, destacou o tamanho do lançamento de Somos Tão Jovens, que chegará aos cinemas com 600 cópias. Ele também disse que por “Renato ser um domínio público da sociedade, ele precisava ter um filme” como esse, porque ele conta uma história que as pessoas aindam não sabem a respeito do ídolo. Meia verdade, eu diria. Parte das pessoas não conhecia esta história. Torres disse que conversou com Fê Lemos por telefone, para saber de alguns detalhes da época, e que esteve várias vezes na casa dos pais dele.

Em seguida, apareceram em cena Carmem Teresa Manfredini e a atriz Bianca Comparato, que interpreta a irmã de Renato Russo no filme. A jovem intérprete disse que trocou muitas ideias com Carmem, que foi uma das idealizadoras do projeto, e que este contato lhe deu muita segurança para saber que eles estavam seguindo o caminho correto. Carmem disse que a atriz se saiu muito bem ao mostrar como ela “enchia o saco” do irmão mais velho, que era um verdadeiro exemplo para ela – que também é cantora.

Na sequência das entrevistas ao vivo, a plateia que viu a pré-estreia assistiu a um vídeo tipo trailer que apresentava a essência do projeto. Finalmente, os discursos finais, com destaque para a fala da produtora Letícia Fontoura, esposa do diretor, e que agradeceu ao apoio da família Manfredini, que esteve ao lado dos realizadores durante todo o tempo. Ela destacou, também, a “garra e a perseverança” de Fontoura.

Somos Tão Jovens envolveu uma equipe imensa. Apenas uma terceira parte – algumas dezenas – apareceu no Rio de Janeiro, no evento do Cine Odeon, segundo Fontoura. Dois anos depois das filmagens começarem, em Brasília, o filme chega ao público. E tenho certeza que fará muito sucesso. Porque tem méritos para isto.

Eu gostei do roteiro de Bernstein, apesar daquelas “licenças poéticas” citadas anteriormente. Mas ele escreveu um texto inteligente, engraçado, com algumas sacadas muito bacanas. Bernstein e Fontoura souberam escolher os momentos certos de fazer rir, emocionar, e inserir as canções de RR não apenas em apresentações na telona, mas também em momentos de intimidade do ídolo. Bom trabalho.

Thiago Mendonça faz um trabalho excepcional. Dos atores secundários, além do carisma de Laila Zaid, destaco a segurança e tranquilidade nas interpretações dos veteranos Sandra Corveloni e Marcos Breda, como os pais de RR, e a interpretação emocionada de Sérgio Dalcin como “Petrus”, apelido para André Petrorius, o filho do embaixador da África do Sul no Brasil que RR achava parecido com Sid Vicius e com quem ele formaria o Aborto Elétrico.

Entre as ausências deste filme, e que não são poucas, achei muito estranho a produção ignorar completamente a figura de Renato Rocha, conhecido também como Negrete ou Billy. Ele era conhecido da turma da Colina e formaria o quarteto que levaria a Legião para shows fora de Brasília e gravaria os primeiros CDs da banda. Ico Ouro Preto até aparece na história, mas praticamente some no filme – e ele também teve um bocado de protagonismo na turma.

Outros atores que vale citar: Daniel Passi como Flávio Lemos; Ibsen Perucci como Dinho; Olivia Torres como Gabi – aparentemente uma das poucas amigas que entendia o RR; Kotoe Karasawa como Suzy; Nathalia Lima Verde como Helena, namorada de Dinho; Rene Machado como Ico Ouro Preto; e Leonardo Villas Braga como Hermano Vianna, que colocaria a Legião na estrada. A maioria deles aparece pouco, quase em pontas.

Por ser um filme com alta carga musical, é de tirar o chapéu para Carlos Trilha, responsável pela direção musical. Trilha conheceu muito de perto Renato Russo, com quem trabalhou na Legião Urbana e como produtor de seus discos solo. Ninguém melhor para assumir esta função em um filme com este propósito.

Da parte técnica de Somos Tão Jovens, vale também destacar o belo trabalho de direção de arte de Waldy Lopes Jr e os figurinos de Verônica Julian.

Não sou de assistir filmes uma segunda vez. Algumas vezes abro excessões, especialmente depois de muito tempo após ter assistido a uma produção pela primeira vez. Mas, no caso de Somos Tão Jovens, eu o assistiria novamente no cinema logo.

Meus bons leitores deste blog, com Somos Tão Jovens eu iniciou um período de críticas sobre filmes brasileiros. Estou atendendo a um pedido de vocês, que votaram na enquete aqui do blog para que eu dedicasse um tempo para os filmes nacionais. Então vambóra! Estou apenas começando a lista com Somos Tão Jovens.

Muito bom o trabalho da equipe envolvida com este filme em todos os detalhes. E para a minha sorte, apenas um dos três cartazes que eu vi do filme passavam a ideia de algo no estilo Malhação. Os outros trabalhos passam mais a ideia de um filme menos enlatado. Ainda bem.

Gostei muito do site criado para falar do filme. Especialmente pelo formato de blog. Há muita informação bacana por ali. Vale conferir.

Até a tarde de hoje, por ainda não ter estreado em circuito comercial, Somos Tão Jovens não apresentava nota no site IMDb.

CONCLUSÃO: Um filme politicamente correto sobre uma galera que rompeu barreiras, padrões e que bradou a transgressão em um país que saia da ditadura militar e que clamava por mudanças. Somos Tão Jovens foi planejado para agradar a dois públicos principais: o dos fãs de Renato Russo e da Legião Urbana, ávidos por assistir a história de seus ídolos na telona; e o da nova geração adolescente que não conviveu com esta história enquanto ela acontecia. O diretor Antonio Carlos da Fontoura conduz a história com inteligência, valorizando o trabalho dos atores, que conviveram intensamente e de forma comunitária por mais de um mês.

O resultado é que eles conseguiram imergir nos personagens baseados em ídolos reais e as pessoas de seu entorno. Os atores que interpretam os integrantes das bandas Aborto Elétrico e Legião Urbana, em especial, conseguiram fazer covers bem decentes. Um ponto fundamental para o filme dar certo. No fim das contas, descontadas as licenças poéticas e o excesso de politicamente correto, Somos Tão Jovens é tão bom porque valoriza o que deveria valorizar: o trabalho diferenciado, ao mesmo tempo corajoso, poético e atemporal de Renato Russo. O filme funciona. Tanto para quem já conhecia a história, como para quem ainda sabia pouco sobre a gênesis do Rock Brasilis. E é isso que importa, no final, não? Que o filme tenha uma bilheteria estrondorosa e que a obra de RR e de sua Legião cheguem a muito mais gente. Tenho certeza que Somos Tão Jovens vai ajudar neste sentido.

The Master – O Mestre

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Todos servem a algo ou a alguém. Essa afirmação foi cantada por Bob Dylan em 1979 na música Gotta Serve Somebody. E eu sempre lembro dela, nos momentos mais diferentes. Afinal, por mais independente e esperto que alguém se imagine, uma hora ou outra ele vai servir a alguém. The Master trata um pouco sobre isto. De como as pessoas precisam de lideranças e de crenças. Elas vão seguir e servir a alguém. E elas tem o poder de escolher a quem.

A HISTÓRIA: O mar. Águas azuis. Um marinheiro olha para o horizonte e sente o sol. Depois, em um coqueiro, ele retira alguns cocos com um machado, e bebe aquela água com um aditivo. Este cidadão é Freddie Quell (Joaquin Phoenix), que faz parte de um grupo de marinheiros em tempo de guerra que encontra tempo para lutar como “gladiadores” na areia e para fazer imagens de mulheres nuas na praia. Com o fim do conflito, Quell volta para os Estados Unidos, onde passa por um tratamento psiquiátrico. Liberado, ele vai trabalhar como fotógrafo, na colheita de verduras, mas sempre se envolve em algum conflito. Até que entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), conhecido como Mestre, e fazer parte do grupo de seguidores de sua filosofia chamada A Causa.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a The Master): A música no início do filme fala muito a respeito do que vamos assistir a seguir. Porque ela é estimulante e ajuda a estarmos, ao mesmo tempo, atentos e inquietos. E este é apenas o começo. Outro elemento também logo fica evidente: que Joaquin Phoenix carrega o filme sozinho. Ele é a parte mais perturbadora da história, porque tem um desempenho visceral que impressiona.

The Master é um destes filmes curiosos do senhor Paul Thomas Anderson. O diretor assina também o roteiro da produção, que mergulha em elementos conhecidos do público estadunidense, como os traumas de um pós-guerra e a difícil experiência de integração dos ex-soldados a uma sociedade que não viu ou sentiu o que eles passaram em ambientes de batalha, tédio, espera e tensão. Mas o filme também inova ao mostrar uma seita, baseada em “ciência”, mas que trata de questões quase (ou que podem ser consideradas) religiosas.

Por todas as partes, os elementos dominantes deste filme são a dominação e a submissão. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não percebemos no início, mas teremos certeza apenas no final, que Freddie Quell e Lancaster Dodd estão em uma permanente queda de braços. Para Dodd, líder de uma seita que busca consolidar-se e crescer, Quell é um belo experimento. Um desafio que, se superado, vai ajudar-lhe a ganhar ainda mais fama. Quell, por sua vez, perdido e solitário, sem amigos ou o amor verdadeiro, fica fascinado com a persuasão de Dodd, com o grupo que circula ao redor dele, e com a aparente confiança que o “guru” deposita nele, um pária social.

A todo o momento, esperamos que alguma catástrofe aconteça. Não sei vocês, mas eu aguardava a hora em que Quell pegaria uma mulher contra a sua vontade, talvez até a “bastante acessível” Peggy Dodd (Amy Adams). Isso porque ele é inconstante e imprevisível. Ainda que, conforme o filme passa, começamos a ter um quadro um pouco mais aprofundado do personagem, o opositor perfeito para o equilibrado e calculista Lancaster Dodd.

A grande questão levantada por The Master é de quem, afinal, acaba tendo mais poder? O sujeito inteligente, determinado, manipulador e cheio de seguidores, que tenta convencer as pessoas com sua doutrina e lógica, ou a força destrutiva, independente, anárquica e fora dos padrões do sujeito que flerta com a loucura e brinca com os padrões sociais? (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Por boa parte do filme, o primeiro tenta domar, compreender e subjugar o segundo. Acreditando que ele precisa ser “salvo” e domesticado. O segundo joga este jogo do subjugado por um tempo, mas resiste. E surpreende. A cena final entre os gigantes Phoenix e Hoffmann é de arrepiar, e só revela, mais uma vez, como este é o trabalho da vida de Joaquin.

O final deste filme pode levantar muitos debates – como a produção inteira, inclusive. O que eu achei dele? Bueno, primeiro, que os métodos de Dodd não eram tão eficazes assim – o que acaba sendo uma ironia interessante sobre qualquer figura que, como ele, tenta ser um messias misturando religião com ciência. Depois, que há casos de psoturas anarquistas e que fogem da lógica predominante que vencem qualquer tentativa de “conversão”. E terceiro que, mesmo que o objetivo “total” de Dodd não tenha sido realizado, de subjugar Quell, ele serviu como inspiração para o ex-militar, que seguiu adotando algumas das técnicas de Dodd a sua própria maneira.

E eis a ironia final de The Master. Porque por mais que algumas pessoas resistam a certa dominação, elas acabam cedendo a parte delas e/ou a suas influências mesmo sem querer. No fim, sempre que duas pessoas se encontram e se relacionam pra valer, elas se modificam mutuamente. Seguem suas trajetórias, após este encontro, tendo algum hábito ou forma de atuar diferente, influenciada pela pessoa que encontraram.

The Master trata desta história. Com interpretações dedicadas, especialmente de Joaquin Phoenix, e uma direção que valoriza estas interpretações, este é um filme de atores. E que ironiza sobre alguns mestres e seus seguidores, e sobre a validade e eficácia de suas doutrinas. Esta produção segue a lógica de uma extensa sessão de psicanálise. Por isso, tem momentos angustiantes, de puro desabafo e de alguma chatice. A parte que pode render algum bocejo envolve os “exercícios” e “provações” que Quell passa sob a batuta de Dodd. Mas nada que torne a aventura insuportável. Até porque Paul Thomas Anderson sabe o momento de virar o disco. E faz isso sempre no momento certo.

NOTA: 9,2.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Difícil terminar de escrever este texto. Por uma razão bem simples: assisti a este filme, acredito, ainda em fevereiro. Após o Oscar. Na sequência, comecei a escrever este texto. Mas pela correria que tive no meu trabalho, salvei ele nos rascunhos e só voltei a completá-lo hoje. Final de abril, mais ou menos dois meses depois. Então ficou difícil de relembrar de todas as minhas impressões sobre o filme. Por isso, peço desculpas para vocês. Esta crítica ficou mais “fria” do que eu gostaria.

Muito se falou que The Master seria “livremente” inspirado na história de L. Ron Hubbard, o polêmico, admirado e criticado “mestre” da cientologia. Honestamente? Vejo muitos pontos em comum e acredito, francamente, que Paul Thomas Anderson quis dar uma cutucada na cientologia sim. Para os curiosos sobre este assunto, eis aqui um texto, em inglês, assinado por Marc Headley que faz uma comparação interessante entre o filme, Lancaster Dodd, L. Ron Hubbard e a cientologia.

Paul Thomas Anderson faz mais um belo trabalho aqui, mas não considero este o seu melhor filme. Ainda prefiro Magnolia e There Will Be Blood. Neste momento, o diretor está trabalhando em seu décimo sexto título, Inheret Vice, ambientado na Los Angeles dos anos 1960 e protagonizado, mais uma vez, por Joaquin Phoenix.

Para mim, e volto a repetir isto, este é o trabalho mais impressionante de Phoenix. Ele domina e carrega o filme. E olha que ele tem, ao seu lado, o ótimo Philip Seymour Hoffmann e a sempre competente Amy Adams. Ainda assim, eles ficam eclipsados por Phoenix.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Jesse Plemons como Val Dodd, filho do Mestre; Ambyr Childers como Elizabeth, a filha de Dodd; Rami Malek como o marido dela, Clark, que acaba desafiando o protagonista em diversos momentos; e Laura Dern como Helen Sullivan, uma das “crentes” da doutrina de Dodd.

Da parte técnica do filme, vale comentar sobre a trilha sonora fundamental, e algumas vezes irritante, de Jonny Greenwood; e a direção de fotografia de Mihai Malaimare Jr., que valoriza a luz, algumas vezes parece “superexposta” e, consequentemente, nos ajuda a nos transportar para os Estados Unidos do período pós-Segunda Guerra Mundial.

Este foi o primeiro filme de Anderson sem o diretor de fotografia Robert Elswit – que tinha se comprometido a filmar The Bourne Legacy.

E uma curiosidade sobre The Master: ele tem uma forte influência estilística do documentário Let There Be Light, de John Huston, lançado em 1946.

A cena em que Freddie retira etanol de um torpedo para “envenenar” uma de suas bebidas foi baseada em fatos reais contados por Jason Robards para o diretor.

Na cena da destruição da cela na prisão, Phoenix realmente quebra o vaso sanitário. Ele fez isso no improviso. Outra sequência de improviso é aquela que abre o filme, com Freddie falando na praia.

The Master foi indicado a três Oscar‘s, mas não levou nenhuma estatueta para casa. Mesmo saindo de mãos vazias da premiação máxima de Hollywood, ele foi bem reconhecido em outras partes. No total, até o momento, ele recebeu 60 prêmios, a maioria deles entregue por associações de críticos. Preciso destacar, entre este total, os prêmios de melhor Diretor e melhores Atores para Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman no Festival de Veneza.

Esta produção recebeu a nota 7,2 pelos usuários do site IMDb. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos, dedicando 189 críticas positivas e 31 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 86% e uma nota média de 8,1. Especialmente a nota é muito boa, levando em conta a média do site.

Meus bons leitores/seguidores deste site, peço desculpas pela ausência desde o último Oscar. Mas é que vivi meses complicados, de muito trabalho fora do blog. Mas prometo que a partir desta semana eu voltarei a publicar com mais frequência, combinado? Obrigada a quem seguiu visitando este espaço e para quem fez comentários por aqui no período.

Em breve, começo a cumprir a promessa da última enquete neste site. A maioria de vocês pediu para que eu comece a falar de filmes nacionais. Muito bem, vou começar a fazer isto. Amanhã, vou assistir ao filme Somos Tão Jovens, um belo recomeço para as críticas de filmes nacionais aqui no blog. Sou convidada do Cinemark do Floripa Shopping. E na sequência, falo tudo sobre esta produção, que certamente vai mexer comigo – depois conto as razões -, para vocês. Inté breve!

CONCLUSÃO: Paul Thomas Anderson é um diretor diferenciado. E isso é o que eu mais gosto nele. Anderson fez um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, Magnolia. E em todas as suas produções, ele apresenta esta forma de fazer cinema que não se parece com a de nenhum outro diretor de sua geração. The Master é mais um filme potente de sua filmografia, que flerta com questões importantes para a psicologia, mas que vai além. Trata de seitas, religiões e da ciência – cada uma com muitas aspas. Aborda os desejos reprimidos, a parte racional e animal de cada indivíduo e, principalmente, a nossa necessidade de acreditar e seguir certas ideias e pessoas. Um filme tão interessante que, certamente, pode render horas de debates. Por tratar de certas datas e locais, The Master foi apontado como uma produção que trata da cientologia e de seu fundador. De fato, há muitas semelhanças entre o roteiro e a história real, o que alimenta, ainda mais, os debates e a polêmica. Um filme perturbador, em vários sentidos, mas muito bom.

OSCAR 2013: The Master foi indicado a três estatuetas do Oscar deste ano. E não levou nenhuma. O que não é surpreendente, porque este não é um filme fácil para Hollywood.

As indicações foram para três atores. Algo justo, porque esta é uma produção que destaca o trabalho do ator. Assim, Joaquin Phoenix foi indicado como Melhor Ator; Philip Seymour Hoffman foi indicado como Melhor Ator Coadjuvante; e Amy Adams foi indicada como Melhor Atriz Coadjuvante.

De fato, acho que Christoph Waltz e Anne Hathaway tiveram interpretações mais impactantes em seus respectivos filmes do que os sempre competentes Hoffman e Adams. Agora, Phoenix… ele está tão entregue a seu papel e faz uma interpretação tão impactante e alucinante, que ouso dizer que ele merecia mais a estatueta que Daniel Day-Lewis.

Claro que ninguém duvida que Day-Lewis merecia ser o primeiro ator a receber três estatuetas pela categoria principal para homens do Oscar. Mas, desta vez, Phoenix fez um trabalho superior. Mas para quem acompanha a Academia, faz parte também saber que ela é política, e gosta de criar os seus mitos. Day-Lewis foi alçado a esta posição. Com méritos.