The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner

A vida é como um jogo de gamão. Esta é a mensagem principal de uma das grandes surpresas na reta final do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Representante da Bulgária na disputa pela cobiçada estatueta dourada, Svetat e Golyam i Spasenie Debne Otvsyakade (que no mercado internacional recebeu a tradução literal de The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner) é um filme surpreendente. Ele segue a escola de outras produções que ensinam valores importantes e refletem sobre a forma com que uma pessoa se coloca frente ao mundo de uma maneira muito simples e, ao mesmo tempo, se destaca por uma produção impecável. Contando com um ator soberbo, um jovem talento promissor e uma direção de fotografia estonteante, este filme pode surpreender na disputa e conseguir um lugar entre os cinco indicados ao prêmio. Diria que ele ou o holandês Oorlogswinter tem mais a “cara do Oscar” que outros fortes concorrentes.

A HISTÓRIA: O nascimento de Aleksander Georgiev, apelidado de Sashko (Carlo Ljubek) marca a vida de sua família. O garoto veio ao mundo no dia 15 de setembro de 1975, e seu parto começa essa história. Em algum lugar dos Balcãs, “onde a Europa termina, mas nunca começa”, a gentil e suave Yana (Ana Papadopulu) dá a luz a Sashko. Enquanto a mulher grita de dor, seu marido, Vasil (Hristo Mutafchiev), conhecido como “Vasko”, espera ansioso por notícias no corredor do hospital. Enquanto isso, a avó de Sashko (Lyudmila Cheshmedzhieva) sai à caça de açúcar para preparar quitutes para celebrar o nascimento do neto, e o avô do garoto prestes a nascer, chamado por todos de Bai Dan (Miki Manojlovic), confronta um adversário para se tornar o novo Rei do Gamão local. Em um corte rápido, a história de Sashko pula para o momento em que ele viaja com os pais por uma estrada de acesso à cidades da Alemanha. Eles sofrem um acidente e Sashko perde a memória. Com a ajuda de Bai Dan, ele faz uma viagem de encontro à sua própria identidade e aos valores de sua família.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner): Logo nos primeiros minutos desta produção o espectador tem certeza de algo: este é um filme que valoriza cada linha de seu roteiro. As frases e a forma com que o diretor Stephan Komandarev constrói a narrativa por meio das imagens tem um lugar certo e um sentido bem planejado. Nada, absolutamente nada, sobra ou está fora do lugar. Esta é uma característica mais comum no cinema europeu – ainda que, em certas ocasiões, o cinema de Hollywood também opta por este cuidado. De qualquer forma, é sempre um prazer encontrar um filme que cuide de cada mínimo detalhe. The World is Big (vou abreviá-lo assim, ok?) é um destes casos.

O roteiro escrito por Komandarev junto com Yurii Dachev e Dusan Milic é uma delícia. Saboroso nos detalhes e sutil na maior parte do tempo, o texto convence tanto quando é apresentado por seu narrador – Sashko – quanto nas vozes de cada um de seus atores. E falando no elenco… impressionante quando um filme tem um grupo de atores comprometido e que se preocupa com a obra e não com os holofotes (como é o caso de muitos atores de Hollywood). Mesmo que Miki Manojlovic se destaque no papel do avô maluquete do protagonista (e não sei vocês, mas não consegui olhar para ele, na fase de “mais idade”, e não me lembrar do Einstein), todos os demais incorporam seus personagens com esmero. Mais um diferencial deste filme em relação a outras produções mais irregulares.

Na verdade, é difícil encontrar algum ponto negativo em The World is Big. Além do roteiro inspirado e cuidadosamente planejado, do elenco afinado e convincente, a direção de Komandarev se mostra segura e precisa. Como um maestro de uma orquestra, Komandarev executa cada movimento com cuidado e aproveita o melhor de cada elemento do conjunto – com destaque, além dos elementos que eu já citei, para a direção de fotografia de Emil Hristow. The World is Big não teria o apelo e a força que tem se não fossem as paisagens da Bulgária, da Alemanha, da Itália e da Eslovénia cuidadosamente captadas pelas lentes dos diretores.

Todos estes elementos ajudam a encantar o espectador, mas sem dúvida a sutileza da história e a sua “poesia simples” é o que torna este filme diferente de todos os demais concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano. Certo que esta produção lida com alguns lugares-comum. Por exemplo, ao fazer o paralelo entre as regras e malícias de um jogo e seu paralelo nos desafios da vida. Esta idéia foi explorada anteriormente, por distintas produções, roteiristas e diretores, mas no lugar do gamão, eram focados ensinamentos de xadres ou sinuca, por exemplo. Também não é a primeira vez que uma viagem pessoal de um desmemoriado provoca reflexões sobre valores, pessoas que fazem ou fizeram parte de sua vida e uma releitura da própria trajetória de seu protagonista.

Mas se estes dois pontos, o do paralelo entre um jogo e a vida e a “revisão histórica” de um indivíduo e de sua família não são, exatamente, originais, o que torna The World is Big tão interessante? Primeiro que o filme é tudo isso, mas ainda mais. Como pede uma produção que é universal e ao mesmo tempo muito particular – a velha história do “glocal” -, The World is Big revela para o espectador alguns pontos sobre a cultura e a história da Bulgária pouco conhecidos. Um dos temas mais importantes do filme, por exemplo, é a pressão política pela qual o país passou após a Segunda Guerra Mundial e o predomínio comunista em seu território.

Considerado até hoje um dos países mais pobres da União Européia, a Bulgária viu muitas pessoas deixaram o seu território buscando melhores oportunidades em outros países ou, simplesmente, tentando escapar do conservadorismo comunista. Este tema, assim como costumes de búlgaros comuns – representados pela família Georgiev e seus amigos – torna a produção mais rica e interessante. Mesmo de forma trágica e nada desejada, Sashko consegue o “sonho de consumo” de todo imigrante: não ter um passado ao qual se apegar.

Mas o jovem, que já se sentia um bocado perdido antes mesmo de perder a memória, não tem muito tempo para “aproveitar” essa liberdade que uma vida sem passado pode lhe dar. O divertidíssimo Bai Dan, avô do protagonista, não pensa em lhe deixar sem raízes – até porque, para ele, a família, o passado e os valores aprendidos com ambos é o que tornam uma pessoa o que ela é. E ele tem razão, é claro.

Bai Dan vai, pouco a pouco, ensinando as regras do jogo – e como “jogo” é possível entender o conceito como “gamão” ou “vida” – para o neto desmemoriado. Sashko aprende, na prática, que uma viagem de autodescobrimento passa por sacrifício, pela dor mas, também, pela intensa sensação de liberdade e de que temos “o mundo nas nossas mãos”. O filme é lindo, no conceito, nas paisagens, na forma com que é narrado e na emoção que provoca com naturalidade. Para ser mais perfeito, contudo, ele poderia se explicar um pouco menos.

No início, por exemplo, Bai Dan solta pérolas como “O mundo é grande e a salvação espreita na virada da esquina” – que, aliás, dá título ao filme – ou “Você deve acreditar nos dados. Pense em dois números. Agora jogue”. Na primeira afirmação, ele demonstra como a incrível chegada de açúcar de Cuba, tão distante da pequena Bulgária, pode ter salvado a festa de nascimento de seu primeiro neto. Por mais complicada que seja uma realidade, o mundo é muito grande e nele estão todas as oportunidades e possibilidades. Basta caminhar para a frente e, quem sabe na próxima esquina, encontrar a tão desejada salvação.

Na segunda pérola, Bai Dan está ensinando o pequeno Sashko, então com sete anos, como jogar gamão. Mas, muito mais que isso, ele está contando o segredo da vitória na vida mesma. Ou seja: para conseguir que algo dê certo, você deve pensar no que quer, desejar aquilo profundamente, “acreditar nos dados” e jogar (leia-se se arriscar). O bestseller O Segredo, de Rhonda Byner, parece seguir a mesma linha, não? Agora, uma pena que o filme, lá pelas tantas, torne estes ensinamentos sutis um tanto óbvios demais – ou, em outras palavras, quando as pérolas começam a ser explicadas por A + B. Achei desnecessário isso – e, mesmo assim, darei a nota abaixo para filme. Admitindo, antes, que sim, sou uma pessoa sentimental. 😉

NOTA: 10 9,7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Para muitos – e eu me incluo neste grupo – a escolha de The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner entre os nove pré-selecionados para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro foi uma surpresa. Francamente, eu não tinha ouvido falar desta produção made in Bulgária. Sua chegada entre os finalistas tirou de cena outros títulos mais comentados pela crítica internacional, como é o caso do boliviano Zona Sur, do finlandês Postia Pappi Jaakobille, do iraniano Darbareye Elly ou mesmo do coreano Madeo. Não assisti a maioria dos que ficaram de fora da lista, mas ao conferir The Wold is Big algo ficou claro: este filme pode surpreender ainda mais. E achei totalmente justificada a sua escolha entre os finalistas. Uma grande produção, sem dúvida.

Explicando melhor o que eu quis dizer antes com o “glocal”: há muito tempo especialistas sobre os efeitos da globalização na cultura e na comunicação afirmam que um projeto, para se diferenciar dos demais e ter êxito no panorama atual, deve preocupar-se em “pensar de forma global e agir de forma local”. Essa parece ter virado uma regra para os filmes nacionais. Eles devem apresentar uma mensagem que pode ser compreendida em todo o mundo ao mesmo tempo que, de forma quase obrigatória, devem apresentar elementos de identidade nacional que os fará serem reconhecidos/apreciados pelo público de seus países. Estas características fizeram o japonês Okuribito (ou Departures) ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano passado.

Bem adaptada para o cinema, a história de The World is Big tem sua origem no livro do escritor, tradutor e editor Ilija Trojanow. Nascido em 1965 na cidade de Sofia, capital da Bulgária, Trojanow viveu na pele a experiência de ter que deixar o seu país ainda muito jovem. Seus pais pediram asilo político na Alemanha, depois de passarem pela Iugoslávia e pela Itália no início da década de 1970. Os Trojanow acabaram vivendo no Quênia, onde o pai do escritor conseguiu um emprego como engenheiro. Na década de 1980 Ilija morou em Paris e estudou na Universidade de Munique.

A verdade é que o escritor nunca parou muito tempo em algum lugar – quem quiser saber mais sobre sua vida, este texto da Wikipédia em inglês revela boa parte de sua trajetória. O curioso de sua biografia é que ele se especializou na cultura e na literatura africana e traduziu alguns autores daquele continente para o alemão antes de começar a publicar seus próprios livros. O livro que inspirou este filme foi publicado originalmente em alemão (sob o título “Die Welt ist Gross und Rettung Lauert Überall”) e lançado em 1996 – nem preciso dizer que ele é semiautobiográfico, não é mesmo?

O constante jogo temporal do roteiro de The World is Big não incomoda – diferente de outros filmes recentes. Cada vez que a história retrocede para a infância do protagonista ou que retoma o seu presente é perfeitamente justificada. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). A troca é realizada de forma muito natural, fluente e, para simplificar a compreensão dos espectadores, com a utilização de uma direção de fotografia diferenciada – cores “sépias” para o passado e tons azulados para o presente. O passado, claro, sempre parece mais cálido que o presente – onde todas as oportunidades, prazeres e sofrimentos podem ser sentidos na pele. Os tons azulados, na verdade, marcam principalmente a fase do acidente de carro e a do hospital. Porque quando o protagonista e seu avô saem pelas estradas de diversos países em uma bicicleta dupla, todas as cores parecem ir retomando os seus lugares pouco a pouco – em uma evidente alusão de que a vida estava retomando o seu lugar/as suas cores.

Fiquei especialmente impressinada pela sacada de muitas sequências idealizadas pelo diretor Stephan Komandarev. Duas de muitas que merecem destaque são aquelas que representam a felicidade, o desespero, a liberdade e o medo que tal liberdade traz para a família Georgiev no agitado centro da italiana Trieste; e outra a que simboliza uma das primeiras lembranças do traumatizado Sashko de sua mãe. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Pouco depois de ouvir do avô que seus pais haviam morrido no acidente de carro que havia sofrido, Sashko se lembra de uma história que sua mãe lia para ele quando ele era criança. A voz e a imagem de Yana aparecem narrando o conto de um menino que se perdeu em uma floresta escura, sem a mãe, e que encontrou a esperança de voltar para casa e reencontrá-la ao visualizar um caminho branco. Enquanto isso, o Sashko adulto está do lado de fora do hospital, sentado em um banco junto a um caminho branco, pronto para encarar a sua jornada pessoal pela “floresta escura” (das memórias apagadas e do medo) para reencontrar a sua mãe (seu pai e sua avó, simbolicamente vivos em seu passado/presente). Lindo, vamos combinar.

The World is Big é repleto de pequenos ensinamentos. Entre outros, destaco quando Bai Dan ensina que todo jogador de gamão deveria jurar nunca jogar por dinheiro, “somente pela honra”. Esta é uma maneira diferente de dizer que aquele que conhece os segredos da vida, que atinge a sabedoria, não buscará converter os seu aprendizado em dinheiro, em “papel sujo”. A honra é muito mais importante. Outro ensinamento do engraçado avô de Sashko é que “não há dados ruins, apenas jogadores ruins”. Em outras palavras, não existe sorte ou azar. Nem mesmo um destino equivocado. O que existe são pessoas que não sabem tirar o melhor proveito do que acontece com elas – até porque quem domina os dados sabe conseguir deles os números que necessita para vencer (o mesmo valendo para os acontecimentos da vida).

Quando Bai Dan avisa para o neto que o gamão é feito de “seis pontos” e que Sashko havia aprendido a dominar apenas o primeiro, o espectador sabe que o garoto terá que passar por muitos desafios ainda. Bai Dai ensina que os pontos do Rei e do Paraíso são os mais importantes, e que ele havia aprendido, antes de abandonar o hospital definitivamente, apenas o primeiro dos seis pontos que deveria aprender. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Passa a ser divertido acompanhar os estágios deste aprendizado. O primeiro deles, que marca a primeira vitória de Sashko, foi conquistado quando o garoto aprendeu a jogar alto e, principalmente, se concentrar nos dados e no queria deles.Vale comentar sobre os outros pontos: a fantasia, que é considerado o “elixir de cada jogo”; a superação, a “conquista do topo”, quando eles conseguem vencer a etapa mais difícil da viagem; o Ponto do Paraíso, “o melhor de todos”, quando Sashko conhece o amor através de Maria (Dorka Gryllus); o ponto do autoconhecimento, quando o garoto tem que descobrir por sua própria conta como chegar até o destino final; e, finalmente, o Ponto do Rei, quando Sashko supera o avô e descobre que a vida é feita de perdas, ganhos, e tudo o demais que ele aprendeu.

Como eu disse antes, todos os atores deste filme estão perfeitos em seus papéis. Gostei demais da simpatia, do carisma e da “loucura” do vovô Bai Dan, interpretado com maestria por Miki Manojlovic. Seu parceiro na maior parte das cenas, Carlo Ljubek, consegue o tom exato de espanto, inocência, determinação e superação do personagem de Sashko adulto. O garotinho que interpreta o personagem quando criança, Blagovest Mutafchiev, também está perfeito – respirando curiosidade, inocência e encanto na medida exata. Os atores que interpretam os pais de Sashko também só merecem elogios. Ana Papadopulo é uma atriz linda que faz com equilíbrio a mãe amorosa e, nos momentos certos, decidida esposa de Vasko. Hristo Mutafchiev incorpora o lema da honra aprendido com o sogro e toma as decisões mais corajosas do filme – com a convicção devida na interpretação.

Além deste núcleo central, é emocionante assistir a entrega de Lyudmila Cheshmedzhieva como a “passiva” e amorosa avó Sladka. Merecem destaque ainda Vasil Vasilev-Zueka como Ivo “o Chicago”, um exilado político na Itália que sonhava em ir para os Estados Unidos e que se torna amigo dos Georgiev; a bela e carismática Dorka Gryllus como a professora de dança Maria, que encanta Sashko; e Stefan Valdobrev como Stoyan, outro exilado que se torna amigo da família. Na parte técnica do filme, merecem ser mencionados os trabalhos do ator StefanValdobrev com a trilha sonora (importantíssima para ditar o ritmo da história e não torná-la “pesada demais” mesmo nos momentos mais densos); e os trabalhos feitos com os figurinos, a direção de arte e o desenho de produção (todos os elementos funcionam perfeitamente para ambientar a história na época devida).

Svetat e Golyam i Spasenie Debne Otvsyakade estreou no Festival Internacional de Cinema de Sofia, capital da Bulgária, no dia 14 de março de 2008. De lá para cá, ele participou de pelo menos sete outros festivais. Os mais conhecidos foram os de Karlovy Vary, Mar del Plata e, nos Estados Unidos, o de Palm Springs (este último em janeiro deste ano). Svetat e Golyam ou The World is Big também participou do mercado de filmes paralelo ao festival de Cannes do ano passado. Ainda assim, ele foi pouco comentado pela crítica internacional.

Em sua trajetória, contudo, The World is Big conseguiu pelo menos sete prêmios. Os mais importantes foram conferidos pelas audiências dos festivais de Sofia e de Zurich; os prêmios dos júris dos festivais de Bergen e Warsaw; e a escolha como o melhor filme búlgaro de 2008 no festival de Sofia.

Os usuários do site IMDb conferiram a nota 8,5 para The World is Big. Uma nota muito boa, para os padrões do IMDb. Para confirmar a falta de críticas do filme na imprensa mundial, o site Rotten Tomatoes não tem nenhum texto sobre esta produção em seu acervo. Ainda assim, basta uma procura um pouco mais cuidadosa pelo Google, especialmente entre publicações conhecidas, para encontrar alguns textos sobre o representante da Bulgária no próximo Oscar.

Uma das críticas que encontrei, assinada por Jay Weissberg para a Variety, começa relembrando que The World is Big foi anunciada como a maior co-produção do cinema búlgaro desde a queda do comunismo. Para Weissberg, este é um drama doce que segue a velha fórmula de uma história que integra duas gerações muito diferentes e que engloba 30 anos de “crise social e política”. O filme ainda empreende “viagens internas e externas que convergem em algum lugar além da real capacidade de compreensão”.

O crítico também não concorda com o constante vai-e-vem da história, afirmando que o roteiro teria transcorrido de forma mais fluída se tivesse sido narrado de outra forma. Weissberg também afirma que é muito difícil de acreditar que um avô com mais de 70 anos cruzaria boa parte da Europa Central em uma bicicleta, ainda que admita que o ator que lhe interpreta consegue fazer um bom trabalho. “Apesar de irregular, o filme tem como um dos seus pontos fortes o seu visual”, comenta Weissberg antes de destacar um ponto que comentei antes, aquele que mostra o protagonista lembrando de um conto infantil enquanto seu caminho se assemelha ao do garoto da literatura.

Neste outro texto, Stephen Farber escreve para a The Hollywood Reporter sobre The World is Big afirmando que o filme tem um dos títulos mais pesados do ano e que tem sua origem na Bulgária, um país que não tem a tradição de apresentar filmes deslumbrantes. Ainda assim, comenta Farber, esta produção traz “surpresas felizes” que fazem com que o espectador fique viciado na história, o que torna o filme em um “encantador inesperado”.

O crítico destaca a figura do avô carismático tão apreciado pelos filmes mas afirma que o veterano Manojlovic, conhecido pelos filmes de Emir Kusturica, consegue uma interpretação tão “vigorosa e sentimental” que transforma seu personagem em algo nada genérico. “Muitos saborosos, os detalhes nada convencionais enriquecem a narrativa; algumas das cenas mais poderosas são aquelas vividas por Alexander e seus pais em um campo de refugiados italiano enquanto eles tentam o asilo na Alemanha. Estes belos episódios detalhados dão ao trauma universal da imigração um preciso e doloroso foco humano”, opina Farber.

O crítico coloca no mesmo patamar interpretativo de Manojlovic o desempenho de Mutafchiev, que vive o pai de Alexander. “As cenas de família são muito aconchegantes, e as imagens são impressionantes, mas uma edição mais nítida melhoraria o filme. (…) Apesar das manchas irregulares, a riqueza de momentos cômicos e agoniantes do filme fazem com que ele seja um dos road movies mais originais que você poderá assistir”, enfatiza Farber.

Mesmo sendo o representante da Bulgária no próximo Oscar, The World is Big é, na verdade, uma co-produção entre a Bulgária, a Alemanha, a Eslovénia e a Hungria. No filme são falados cinco idiomas: o búlgaro, o alemão, o italiano, o inglês e o esloveno.

CONCLUSÃO: Um filme leve, engraçado, denso e emocionante ao mesmo tempo. The World is Big and Salvation Lurks Around the Corner tem um dos títulos mais complicados de lembrar/indicar dos últimos tempos, mas isso não impede que ele seja uma das surpresas do ano na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar. Resgatando a idéia de que um jogo pode sintetizar as regras da vida, The World narra a inesperada aproximação de um avô e seu neto em uma viagem cheia de ensinamentos e aprendizagem. Repleto de imagens lindas e cuidadosamente planejadas, este filme emociona pela simplicidade de sua história e pela interpretação de seus atores. Esqueça o quanto o filme pode ser fantasioso ou realista. O que importa, nesta produção, é o quanto ela transforma estes conceitos e reflete sobre a vida enquanto nos conta uma história de interesse universal e rica em detalhes sobre seu país de origem, a Bulgária. Delicioso, belo, engraçado e emocionante. Totalmente recomendado.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: The World is Big ganhou força para chegar ao Oscar depois de sua participação no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs em janeiro deste ano. Até então, poucos haviam comentado sobre o filme nos Estados Unidos. Agora, depois de assistí-lo, eu não me surpreenderia se ele conseguisse ficar entre os cinco finalistas ao prêmio de Melhor Filme Estrangeiro. A verdade é que The World tem a cara do Oscar. Assim como o holandês Oorlogswinter. Sem discutir originalidade de argumentos ou a qualidade das produções, mas os representantes da Bulgária e da Holanda tem histórias mais facilmente “compreendidas” pelos votantes da Academia do que o ótimo La Teta Asustada, do Peru, para dar um exemplo.

El Secreto de Sus Ojos, representante da Argentina, têm sido muito badalado pela crítica internacional. Mas, francamente, acho que tanto El Secreto quanto La Teta correm por fora das cinco vagas. Têm seus lugares garantidos os filmes Das Weisse Band (Alemanha), Un Prophète (França) e, se levarmos em conta os altos elogios que recebeu, Samson & Delilah (Austrália). Sobrariam duas vagas para os demais candidatos. Ajami (Israel) e Kelin (Cazaquistão) são produções que, a exemplo de The World e Oorlogswinter, são pouco conhecidas da crítica internacional. Para mim, estes quatro disputam as duas vagas que sobram… e The World, assim como Oorlogswinter, bem que merecia chegar lá. Ganhar, já acho bem complicado. Das Weisse parece mesmo que domina os holofotes. De qualquer forma, a disputa deste ano está muito boa – e acima da média. Todas as produções merecem ser vistas.

The Blind Side – Um Sonho Possível

Não teve jeito. Depois que a Sandra Bullock ganhou o Globo de Ouro de Melhor Atriz – Drama, fui obrigada a assistir a The Blind Side. Tipo um tira-teima, sabem? Queria saber se ela realmente merecia ganhar o prêmio. E a resposta é um categórico não. Sandra Bullock está muito bem neste filme com roteiro e direção de John Lee Hancock, mas ela não chega nem perto do trabalho das atrizes Carey Mulligan e Gabourey Sidibe. Duvido muito, pela qualidade técnica das atrizes, que ela supere Helen Mirren – ainda não assisti The Last Station para afirmar com certeza, mas posso supor. Enfim, o prêmio de Sandra Bullock foi, definitivamente, apenas mais uma das injustiças do Globo de Ouro. Quanto ao filme, The Blind Side conta uma história interessante, bacana, mas ele me pareceu um tanto “forçado”, maniqueísta e simplório. Sabe aquele filme que você termina de assistir e pensa se é uma produção da Disney, destas onde tudo sempre dá certo? Pois é… Ainda assim, dá para entender perfeitamente porque ele caiu tanto no gosto do público dos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Cenas de TV mostram jogadores de futebol americano e, de fundo, a voz de Leigh Anne Tuohy (Sandra Bullock). Ela fala sobre a “luta” que acontece em um campo quando os “gladiadores” de dois times se enfrentam. Passo a passo, ela destaca os movimentos de um jogo que tornaram Lawrence Taylor famoso. Explorando o “ponto cego” do quarterback do time adversário, Taylor afastou o “lendário” Joe Theismann do futebol americano e mudou, segundo Leigh Anne, a história do esporte. E da vida dela. Em seguida, aparece em cena o grandalhão Michael Oher (Quinton Aaron), mais conhecido como Big Mike. Ele é levado, junto com Steve (Paul Amadi), para a escola católica Wingate. O pai de Steve, Big Tony (Omar J. Dorsey) procura cumprir a promessa que fez para a mãe de tirar o garoto de uma escola pública e colocá-lo em uma católica. Ele fala com o técnico de esportes da escola, Sr. Cotton (Ray McKinnon), que vê em Big Mike um grande potencial. Cotton luta para que o jovem grandalhão entre para a escola. Estudando ali a vida de Big Mike começa a mudar – especialmente quando ele se aproxima da família Tuohy.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Blind Side): Os estadunidenses tem orgulho de seus “símbolos” nacionais. Além da bandeira e do hino, que caracterizam todos os países – e em alguns lugares é mais ou menos usado -, o povo dos Estados Unidos adora o futebol americano (e outros esportes “nacionais”), seu lema de “bons cristãos” e sua forma política de enxergar o mundo pelos olhos republicanos ou democratas. Para cair como uma luva no gosto do público norte-americano nada melhor que The Blind Side. Um filme que enaltece a “bondade cristã”, a ascensão social através do esporte e que trata os problemas sociais com um véu de delicadeza – mascarando, em outras palavras, a realidade.

Para completar o cenário de “filme perfeito para os estadunidenses”, ele é estrelado por Sandra Bullock – uma eterna “garotinha da América”. Com tudo isso, não quero dizer que The Blind Side seja um filme ruim. Não. Ele tem algumas qualidades interessantes. Para começar, não importa o quanto a vida de alguns personagens possa ser dura, o roteiro John Lee Hancock tem o cuidado de transformar os piores cenários em realidades “aceitáveis” para o grande público. Do primeiro até o último minuto este filme é “gostoso” de assistir. E boa parte da responsabilidade por isto cai nas mãos de seus atores – com destaque especial para Quinton Aaron, que interpreta Michael Oher, e para o garotinho genial e mega simpático Jae Head, que interpreta S.J. Tuohy, o filho mais novo de Leigh Anne e seu marido, Sean (Tim McGraw).

Acho bacana quando um filme de Hollywood mostra um “bom exemplo”, como é o caso da adoção de Oher pelo casal Tuohy. Ainda que, por mais que o filme suavize o questionamento, impossível não ficar em dúvida se os pais adotivos do garoto, nos primeiros momentos em que olharam para aquele grandalhão perto dos filhos deles, não pensaram apenas que ele poderia ser um atleta de primeira grandeza. Claro que Oher, depois do inferno que ele viveu ao lado da mãe viciada em crack, só podia agradecer a atenção que recebeu dos Tuohy.

(SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Se ele realmente tinha o senso de proteção dos entes queridos superdesenvolvido, natural que ele quisesse dar “um orgulho” para Leigh Anne e Sean sendo bom em algo e, se possível, trazendo títulos para a equipe que eles ajudavam a financiar. No finalzinho do filme, ele afirma que era “natural” ir para a escola onde os Tuohy haviam estudado – e que eles seguiam apoiando – porque toda “sua família” tinha estudado ali. Mais uma demonstração que ele queria agradar/retribuir quem lhe havia dado uma nova oportunidade de vida. A questão é se os primeiros olhares de Leigh Anne e Sean para o garoto foram de interesse – projetando seu sucesso nos esportes – ou não, se eles foram totalmente desinteressados. The Blind Side tenta convencer que eles foram bondosos e nada mais – só que, francamente, eu teria dúvidas sobre isso.

De qualquer forma, vamos falar sobre as qualidades da produção. Ela tem um ritmo bem bacana e se mostra bastante “leve”. Destes filmes para fazer as pessoas sairem do cinema se “sentindo melhor”, sabem? Afinal, elas viram uma história gratificante, que apresenta um “bom exemplo” e que não revela com realismo a dura realidade de seu “herói”. Conta para o sucesso da produção, como eu disse antes, o bom trabalho de seus atores – todos muito simpáticos, divertidos e descontraídos. Além dos que eu já citei, vale comentar o bom desempenho da carismática Lily Collins como a adolescente Collins Tuohy, irmã mais velha de S.J. Por causa do elenco, essencialmente, que estou dando a nota abaixo para esta produção – porque, certamente, não é por causa de seu roteiro.

Outra qualidade do filme é a direção cuidadosa e inteligente de Hancock. Ele entrega um filme ágil e bem editado – mérito também do editor Mark Livolsi. A direção de fotografia de Alar Kivilo é luminosa – mesmo nos momentos “tensos” ou “obscuros”. Agora, termina aqui o meu esforço por elogiar este filme. 😉 (SPOILER – não leia os próximos dois parágrafos se você ainda não assistiu ao filme). Para mim, ele é “fantasia” demais. Vejamos: alguém realmente acredita naquela sequencia em que Leigh Anne encontra a mãe verdadeira de Oher? Viciada em crack, uma mulher que não lembra direito quantos filhos teve e nem quem eram os pais de cada um deles, Denise Oher (Adriane Lenox) aparece em cena de forma muito correta e decente. Sua casa não é um lixo deplorável como provavelmente seria na vida real. Enfim, sempre que pode, The Blind Side embeleza a realidade e transforma tudo em um cenário de isopor. Mesmo o “confronto” de Tuohy com os bandidinhos do bairro parece fazer parte de uma peça infantil onde “a vida como ela é” não pode se mostrada – apenas sugerida.

Fora esta convicção constante de que o mundo deve ser cor-de-rosa – vejam bem, não defendo aqui um documentário “nu e cru”, mas um pouco de coerência em uma história nunca faz mal para ninguém -, The Blind Side enaltece uma personagem planejada matematicamente para cair no gosto popular. A Leigh Anne desenhada para Sandra Bullock é uma figura unidimensional. Ela não tem complexidade – como uma pessoa de carne e osso. Não. Leigh Anne é o protótipo da “mulher cristã e republicana perfeita dos Estados Unidos”. Seu marido acha tudo que ela faz perfeito. Seus filhos também. Não há conflito na casa dos Tuohy. Além disso, Leigh Anne “briga com todos” sem descer do salto – juntando com perfeição a “masculinidade” de quem bate boca e decide os assuntos de casa com a “feminilidade” da mulher linda e desejada por todos.

Tanta “maquiagem” para transformar a imagem do “ideal” em “real” – afinal, está é uma história baseada em “fatos reais – só me fazem achar esta produção engraçadinha, mas fraca no conteúdo e na forma. Sem contar a sensação de ter comido pipoca de isopor. 😉

NOTA: 7,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Blind Side foi um dos fenômenos das bilheterias nos Estados Unidos no final de 2009 e início deste ano. A produção, que teria custado US$ 29 milhões, faturou quase US$ 219 milhões até o dia 10 de janeiro. Apenas nos Estados Unidos! Ou seja, o filme dirigido e escrito por John Lee Hancock, baseado no livro The Blind Side: Evolution of a Game, deve faturar, tranquilamente, mais de 10 vezes o que ele custou. Um sucesso estrondoso – e, fora o desempenho de Avatar, difícil de se conseguir hoje em dia.

O filme estrelado por Sandra Bullock teve pré-estréia no dia 17 de novembro de 2009 em Nova York. Três dias depois ele estreava no circuito comercial dos Estados Unidos e do Canadá. E rapidinho ele virou um fenômeno nas bilheterias.

The Blind Side é inspirado no livro homônimo do escritor e jornalista Michael Lewis. Além deste livro, Lewis é mais conhecido pela obra A Nova Novidade, que se debruça sobre o fenômeno econômico do Vale do Silício. The Blind Side, por sua vez, conta a história da revelação do futebol americano Michael Oher. Quem ficou curioso para saber mais sobre o esportista, recomendo este texto de Fábio Aleixo publicado na Lance.net e a página pessoal do jogador na NFL. Oher atualmente joga na equipe do Baltimore, depois de ter sido escolhido como um dos melhores jogadores de linha ofensiva da liga profissional. E o próprio jogador, que não gosta muito de comentar o filme de Hancock, comenta que a produção é boa, mas não retrata o que aconteceu com fidelidade. “É Hollywood”, ele resume. Pois sim, só que há filmes da mesma Hollywood que se preocupam muito mais com a realidade do que este.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,9 para The Blind Side. Uma nota muito boa, para a média do IMDb. Os críticos que tem seus textos linkados pelo Rotten Tomatoes foram um pouco menos generosos: eles dedicaram 92 textos positivos e 39 negativos para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 70%.

O elenco de apoio deste filme trabalha muito bem. Francamente, as estrelas de The Blind Side, para mim, são o já citado Jae Head e a atriz Kathy Bates. Ela interpreta Miss Sue, professora particular contratada para ajudar Oher a conseguir a nota mínima para ganhar uma bolsa de estudos. Os dois, sempre que aparecem no filme, roubam a cena. Quinton Aaron começa o filme exageradamente anulado mas, pouco a pouco, ele vai soltando o belo sorriso e ganha a empatia do público. Vale citar ainda o trabalho de Kim Dickens como a “professora boa” Mrs. Boswell e Tom Nowicki como o “malvado” professor de literatura que não alivia nos julgamentos do protagonista.

Até o momento, The Blind Side recebeu três prêmios e foi indicado a mais oito. Além do badalado Globo de Ouro para Sandra Bullock, a atriz recebeu ainda o prêmio dado pela Broadcast Film Critics Association; e o ator Jae Head recebeu o prêmio de Melhor Performance de um Jovem Ator da Sociedade de Críticos de Cinema de Phoenix.

O crítico Wesley Morris, do The Boston Globe, comenta neste texto que a personagem de Leigh Anne é “uma força imparável” e que Michael parece um “objeto imóvel”. Em outras palavras, Morris comenta que o filme faz o espectador acreditar que Leigh Anne é a única responsável pelo crescimento do rapaz anteriormente rejeitado. “O que parece ser certo para um filme que circula em torno de Bullock. Ela é tão divertida (na vida real) quanto ela aparece no filme”, comenta o crítico. Gostei quando ele afirma que a personagem de Leigh Anne é “parte Erin Brockovich, parte Julia Sugarbaker (da minissérie “cor-de-rosa” Designing Women)”. Como designer, Leigh Anne vê em Michael uma “extensão de seu trabalho”, segundo Morris. Ele pega pesado – mas, francamente, está certo.

Em seu texto, Morris ainda comenta que John Lee Hancock escolheu apenas as partes mais afetivas do livro de Michael Lewis – que escreveu metade da obra sobre Oher e metade sobre Lawrence Taylor. Mesmo sendo um roteirista de “mão leve”, o crítico ressalta que Hancock teve o cuidado de levantar questões como o cinismo, o ufanismo, a culpa liberal e o medo de certos estereótipos de homens negros. Ainda assim, Morris critica o fato do filme retratar Oher como um agente passivo de seu próprio sucesso. “Filmes Comerciais Americanos estão interessados em histórias sobre jovens negros salvos Deus sabe de onde por brancos legais ou pelos esportes. Aqui é por ambos. Essa dupla sorte acontece ocasionalmente na vida. Mas é um grampo em Hollywood, onde grandes homens negros são algumas vezes, e ao mesmo tempo, uma benção e uma ameaça. A vida de Oher tem a intenção de nos fazer bem, e consegue fazer isso. Mas o quanto nos sentimos bem sobre a história dele é proporcional ao quanto nós estamos dispostos a ser cegos sobre como ela é contada”, escreve Morris. Perfeito!

Neste outro texto, Elizabeth Weitzman, do New York Daily News, comenta que “infelizmente o roteirista e diretor John Lee Hancock transformou a vida notável de Oher em uma fábula de Hollywood que troca realidades difíceis por clichês fáceis”. Eu diria que este é um bom resumo do filme. 😉 O que o transforma no oposto do ótimo Precious, por exemplo. Weitzman classifica o roteiro de Hancock de “simplista” e afirma que Sandra Bullock e Tim McGraw fazem um trabalho excelente com o texto que eles têm em mãos – tanto que ela afirma que este talvez seja um dos melhores trabalhos da carreira de Bullock. A crítica comenta ainda que a biografia e as entrevistas televisivas do Oher verdadeiro indicam que ele é um “cara inteligente com um filão de sobrevivência impossível de quebrar” mas que, na visão de Hancock, ele se tornou um dos estereótipos favoritos de Hollywood: o “gigante gentil” em dívida com a bondade de seus “patrões”.

CONCLUSÃO: Um filme cuidadosamente planejado para agradar ao seu público mas que falha na maquiagem que aplica para embelezar a realidade. Com um elenco de apoio tão bom (e em alguns momentos, um pouco melhor) quanto seus protagonista, The Blind Side procura na história real do jogador Michael Oher um exemplo de generosidade e redenção. Leve do início ao fim, é destes filmes para divertir. Se forem ignoradas todas as suas falhas – como a obviedade e linearidade da história, além da construção unidimensional de boa parte de seus personagens -, não será difícil terminar de assistí-lo com um sorriso no rosto. Além da maquiada na realidade um tanto exagerada, me incomodou um pouco a mensagem de “perfeita família cristã dos Estados Unidos que, além de tudo, é republicana”. Mas ignorada a lógica, o bom senso e o apreço pela realidade, é um filme divertido. Tem bons atores e uma Sandra Bullock confortável e firme em seu papel. Para o cenário dos Estados Unidos, perfeitamente justificado o seu caráter de fenômeno nas bilheterias. Mas (me desculpem os fãs do filme) ele é muito, muito fraquinho.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Infelizmente Sandra Bullock tem grandes chances de chegar entre as finalistas do Oscar deste ano. Afinal, ela acaba de ganhar a cobiçada estatueta de melhor atriz dramática do Golden Globes. Agora, francamente, será uma ofensa para a inteligência dos amantes do cinema e das grandes atuações de atrizes em sua história se ela ganhar a estatueta. Falei antes e repito: Carey Mulligan e Gabourey Sidibe estão muito, mas muito melhores que Bullock em seus filmes. Pelo menos as duas atrizes trabalham com personagens complexas, cheias de nuances – e roubam a cena cada vez que aparecem. Mesmo não tendo gostado tanto de Meryl Streep em Julie & Julia, ela sempre – em qualquer ocasião – será melhor atriz que Sandra Bullock. Então a protagonista de The Blind Side pode até chegar entre as cinco indicadas, mas não deve(ria) ganhar o prêmio. Fora sua indicação, acho difícil The Blind Side ser indicado em mais alguma categoria.

The Cove

Você admira o Japão, como eu admirava? Pois prepare-se para pensar diferente. The Cove, o melhor documentário do ano passado – e um dos melhores dos últimos tempos – revela um crime ambiental covarde em solo japonês que é encoberto pelo governo daquele país. Em uma produção impecável e corajosa, o diretor Louie Psihoyos e sua destemida equipe conseguem imagens impressionantes sobre a matança de golfinhos na cidade de Taiji, no Japão. Em uma verdadeira operação de guerra, a equipe de Psihoyos consegue burlar a segurança privada, de pescadores e da polícia local para capturar cenas inéditas do absurdo que acontece naquela pequena parte do mundo. Diferente de Food, Inc., outro documentário pré-selecionado para o Oscar, The Cove não deixa fios soltos. Completo em todos os detalhes, este filme aborda os variados aspectos de seu tema, tendo a figura de Rick O’Barry, antigo treinador de golfinhos, como seu personagem principal. O’Barry, que se tornou mundialmente famoso pelo trabalho de adestramento que fez na série Flipper, dedicou os últimos 30 e tantos anos de sua vida para libertar o maior número de golfinhos possível mundo afora.

A HISTÓRIA: Cenas de uma lagoa e uma placa em japonês começam a ambientar o espectador na cidade de Taiji. Depois, um grupo de homens mascarados revela as dificuldades do diretor e de sua equipe para transformar este documentário em realidade. O próprio Louie Psihoyos comenta que gostaria de ter feito The Cove de forma legal. Mas isso não foi possível. As cenas filmadas à noite simulam uma operação secreta e/ou de guerra. Usando táticas de espionagem e alta tecnologia, Psihoyos e um grupo de profissionais invade uma área pública que foi considerada privada para evitar que o mundo ficasse sabendo sobre a matança de golfinhos no interior do Japão. Todos os anos, segundo o diretor e seu principal entrevistado/personagem, Rick O’Barry, são mortos 23 mil golfinhos e botos no Japão – sem contar os outros tantos que acabam sendo capturados e enviados para parques de entretenimento pelo mundo. The Cove aprofunda a denúncia deste crime ambiental, reflete sobre a prática de captura de golfinhos e toca na ferida das mentiras contadas pelo governo japonês para tentar justificar a caça de golfinhos e baleias. E mais que isso, o documentário narra a operação corajosa dos seus realizadores para conseguir as cenas impactantes que o espectador vai assistir e, ao mesmo tempo, conta a história de arrependimento e busca por redenção de O’Barry.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Cove): Não é nada simples fazer um documentário com cenas inéditas e, ao mesmo tempo, cercar todos os aspectos de um tema. Food, Inc. está aí para dar um exemplo recente disto. Como comentei nesta crítica sobre o filme, um dos fortes candidatos deste ano ao Oscar, Food, Inc. é cheio de boas intenções, bem produzido, mas incompleto. Ele deixa muitos fios soltos e, principalmente, perde força e capacidade crítica ao se limitar apenas à realidade dos Estados Unidos. The Cove, por mais que se concentre em um pequeno ponto do mar japonês, consegue ampliar o seu campo de visão em várias direções, cercando e derrubando todos os argumentos que tentam justificar a morte e captura de golfinhos.

Alguns podem dizer: “Ah, mas esse documentário é feito por um grupo de ecochatos. Eles querem defender os golfinhos, os botos e as baleias sem respeitar uma tradição cultural que faz parte da história japonesa”. Verdade que o filme é feito por ecologistas. O diretor Louie Psihoyos e o produtor executivo Jim Clark criaram, em 2005, a Oceanic Preservation Society (OPS), uma ONG ambiental que procura registrar o que está acontecendo nos oceanos pelo mundo – e, de quebra, denunciando o processo de degradação deste habitat causado pelo homem.

A OPS financiou este filme e, por isso, ele pode ser considerado produto de um grupo de ambientalistas. Isso é verdade mas, nem por isso, esta é uma produção mentirosa. Como todo documentário – ou toda reportagem jornalística, por exemplo -, The Cove narra a realidade sob determinada ótica. A preocupação de Psihoyos é denunciar uma prática que ele considera abominável – e, depois de uma operação incrível, o diretor demonstra a crueldade da matança de golfinhos na prática. Literalmente, as imagens falam mais do que muitos discursos. O principal argumento utilizado pelos japoneses que apóiam este tipo de matança é de que ele “preserva” uma tradição de “vários séculos”. Mas a crueldade das imagens de The Cove – bastante fortes, devo alertar – não deixam margem à dúvidas: não há tradição que justifique aquelas imagens.

Sempre acho uma piada quando alguém utiliza o argumento da tradição para justificar absurdos. Mudando totalmente de cenário, vou citar as touradas na Espanha. Por mais que Pedro Almodóvar e tantos outros tenham mostrado a “plasticidade” da “luta” entre toureiro e animal, a verdade é que não existe beleza alguma naquele show bárbaro. Poucos sabem, mas o touro é covardemente atingido, várias e repetidas vezes, antes de “enfrentar” o toureiro. Atingido por homens sobre cavalos “blindados” e por homens armados por varas com ponta de arpão, o touro perde litros de sangue e fica fragilizado antes de “bailar” com o toureiro. Como isso pode ser defendido como a luta do “homem contra o animal”?

Como tantas outras práticas “centenares” ou “milenares”, a morte de golfinhos e de touros, só para dar dois exemplos, foram desvirtuadas com o passar do tempo e hoje, francamente, só mostram como o ser humano pode continuar sendo bestial – em algumas situações. Mesmo com o risco de ser tachada de “radical”, pergunto: por que a morte cruel de golfinhos é defendida como tradição e o canibalismo não pode ser incentivado sob o mesmo argumento? Evidente que estou sendo irônica. A prática de alguns humanos comerem outros humanos e a de pessoas terem o direito de matar com crueldade outros animais não deveria ser justificada sob argumento algum.

Feita esta reflexão sobre os possíveis ataques que The Cove pode receber, vamos falar sobre o filme propriamente dito. O diretor Louie Psihoyos ensina como produzir um documentário ao mesmo tempo criativo, belíssimo e chocante. A criatividade surge pela forma com que o diretor e sua equipe escolheram contar a sua história. Eles mostram as dificuldades e todas as barreiras impostas por parte dos habitantes de Taiji para que este filme se tornasse realidade. Diante das dificuldades, Psihoyos convocou uma equipe de primeira para mostrar o que outras pessoas queriam esconder. Em jornalismo, o trabalho de Psihoyos seria considerado um “furo de reportagem” – quando um profissional consegue mostrar/revelar algo que ninguém mais conseguiu.

A linha narrativa principal de The Cove começa com a justificativa das filmagens que procuram denunciar a matança de golfinhos e botos em Taiji e segue com a realização deste projeto. Mas o documentário vai além da “aventura” de seus realizadores para tornar o filme viável. Psihoyos intercala o projeto de realização do filme com a história de “redenção” de Rick O’Barry e, o que torna The Cove diferente, com a resposta para várias questões levantadas pelos defensores daquela prática “secular”. Ponto a ponto, o roteirista Mark Monroe e o diretor vão desmontando os argumentos dos japoneses.

E para esclarecer o que eu disse lá nas primeiras frases desta crítica, não acho que todos os japoneses sejam culpados pelos absurdos que o espectador assiste neste filme. Tanto isso é verdade que Psihoyos tem o cuidado de entrevistar pessoas em Tóquio que afirmam desconhecer a morte de golfinhos em seu país. Alguns, inclusive, ficam indignados com tal informação. Evidente, não apenas por aqueles depoimentos, mas pela forma de vida dos japoneses, que são poucos os que defendem aquela matança.

A minha “decepção” a respeito do Japão reside no fato de que eu achei que aquele povo, tão cordial, educado e defensor da Natureza, jamais poderia ter dirigentes políticos – e uma pequena parte de sua população – defendendo um crime ambiental como o que é mostrado em The Cove. Simplesmente, para mim, era inconcebível pensar em japoneses tendo as atitudes mostradas neste documentário – e isso vale para os que golpeiam os golfinhos naquele recanto do lago e para os que afrontam com gritos e violência as pessoas que procuram mostrar aquela realidade. De qualquer forma, até neste sentido The Cove serve como uma grande lição: não há, em parte alguma da Terra, uma civilização acima de qualquer suspeita. Ainda que estejamos em pleno século 21 e que falemos de alta tecnologia e de países desenvolvidos, há partes destas culturas que continuam com práticas deploráveis. Não importa a cor de suas bandeiras ou o PIB anual destas nações.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Preferi, desta vez, dividir o texto em duas partes. Na anterior, me concentrei em dar opiniões sobre The Cove. A partir de agora, vou comentar em detalhes sobre as características técnicas e narrativas da produção.

Nos primeiros minutos do filme Louie Psihoyos afirma que o que Rick O’Barry lhe havia contado sobre o que acontecia em Taiji era apenas “a ponta do iceberg”. O interessante do trabalho do diretor é que ele não se ateve apenas a esta ponta do iceberg, mas mergulhou fundo em todos os aspectos que envolvem o tema da captura, caça e exploração comercial dos golfinhos. Esta característica de The Cove é o que o torna tão melhor que Food, Inc., por exemplo.

Falando nos primeiros minutos de The Cove, foi muito inteligente o clima de “espionagem” – que sempre incentiva a adrenalina do espectador – impresso no começo da produção. Um belo trabalho de Psihoyos, da equipe que auxiliou na captura daquelas imagens e, também, do editor Geoffrey Richman. Se The Cove fosse “simplesmente” um filme clássico sobre a vida no “fundo do mar” ou sobre golfinhos, ele não seria tão interessante. A mistura entre filme de espionagem, de aventura e um documentário sobre animais selvagens torna The Cove um produto diferenciado.

O texto de narração do filme e os depoimentos captados por seu diretor também são excelentes. Logo no início se percebe uma certa ironia nos comentários de Psihoyos que brinca, por exemplo, com o tom “paranóico” de O’Barry. Depois, claro, o diretor demonstra, por A + B, como a tal “paranóia” era totalmente justificada. Ainda assim, sobram referências divertidas do diretor sobre seu trabalho e sobre pessoas de sua equipe. Ele comenta, por exemplo, que a filmagem de The Cove parecia mais um projeto de Ocean’s Eleven. 😉

Achei interessante e proveitoso para a “transparência” desta produção como Louie Psihoyos se coloca como narrador do filme e um de seus personagens centrais. O diretor explica, por exemplo, as razões que fizeram ele e Jim Clark criarem a organização Oceanic Preservation Society, produtora do filme. Mergulhador há mais de 35 anos, Psihoyos se especializou em documentar a vida marinha e a degradação de oceanos ao redor do mundo. Em uma conferência que participou na cidade de San Diego, onde participaram alguns dos maiores cientistas do mundo, Psihoyos disse ter se surpreendido quando Richard O’Barry foi barrado como o palestrante principal. Querendo saber as razões disto, Psihoyos soube que O’Barry desagradava o principal patrocinador do evento: o Sea World. Foi então que o diretor se aproximou de O’Barry e ficou sabendo de Taiji. Aí é onde The Cove começou.

Rick O’Barry, que integra o Earth Island Institute, aparece pela primeira vez explicando como foi barrado naquele evento. Sua história é a mais emocionante do filme. No melhor estilo “uma história de redenção”, a biografia de O’Barry é explorada de tempos em tempos, durante a produção. O’Barry conta como ele se tornou um ativista ambiental. Conta como migrou do trabalho de adestrador de golfinhos, pelo qual ficou mundialmente famoso na década de 1960, com as filmagens de Flipper, para sua missão de libertar o maior número de animais “em apuros” ao redor do mundo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Emociona quando ele fala das razões de seu arrependimento e, em especial, quando comenta sobre o “suicídio” de Cathy, uma das cinco fêmeas que “interpretou” Flipper. Sem contar o “grand finale” de The Cove, arrepiante, que mostra O’Barry “invadindo” uma conferência da IWC com imagens sobre a matança estampadas em um televisor no seu peito – e, depois, ele faz o mesmo em um dos cruzamentos mais famosos do mundo, em Tóquio.

Muito interessante todas as informações e reflexões que o filme faz sobre os golfinhos. O’Barry, em especial, compara a realidade (que ele conhece muito bem, diga-se) vivida pelos animais em cativeiro com aquela que eles desfrutam em seu habitat natural. A inteligência dos golfinhos, seu alto potencial comunicativo e, segundo O’Barry, a capacidade desta espécie em ter consciência de si própria – algo que muitos acreditavam ser típico apenas de humanos – são ressaltadas pelo documentário. Um trabalho complicado e magistralmente filmado por Psihoyos, com a fundamental participação de diferentes especialistas que falam sobre estes temas.

Especialmente revoltante a forma com que a comunidade de pescadores, com o apoio da municipalidade e da polícia de Taiji, transformaram parte de um parque nacional como o de Tsunami em uma propriedade com acessos restritos. Os portões, cercas e a presença constante de pescadores e seguranças armados com facas, lanças e câmeras é absurda. Esta posição do governo de Taiji e, principalmente, a posição do governo japonês na International Whaling Commission (IWC) é o que me deixou tão decepcionada com aquele país.

Interessante, ainda neste aspecto de “intimidação” das autoridades de Taiji contra os estrangeiros que tentam mostrar o que acontece por ali, são as imagens documentadas por Psihoyos de veículos que seguem sua equipe e as câmeras escondidas que registram a intimidação de O’Barry feita por policiais disfarçados no Hotel Urashima.

Segundo os realizadores de The Cove, a temporada de caça de golfinhos em Taiji começa em setembro e segue até março. Ou seja, enquanto escrevo estas linhas, provavelmente centenas de animais estão sendo mortos naquela cidade. Ainda conforme o documentário, estima-se que 23 mil golfinhos e botos são mortos no Japão todos os anos. A indústria do cativeiro – liderada por Sea World e outras empresas – é que impulsionaria estes crimes – Psihoyos e Mark Monroe comparam o quanto os pescadores ganham pela venda de golfinhos vivos ou pela carne deles. Rick O’Barry, por sua vez, é categórico em afirma que em Taiji é feito o maior massacre de golfinhos do mundo – e que nenhuma sociedade protetora de animais ou da Natureza se manifesta a este respeito.

O “vilão abominável” de The Cove é Joji Morishita, delegado do Japão no IWC. Interessante – e inteligente – a forma com que o documentário vai mostrando as “mentiras” ditas por Morishita na comissão ao mesmo tempo em que vai, ponto por ponto, desmontando seus argumentos. Especialistas, por exemplo, explicam como o Japão “prostitui” pequenas ilhas para que elas votem a seu favor para a liberação da caça de baleias. The Cove explica que a IWC, mesmo sendo uma organização criada para a proteção dos cetáceos, ignora os “pequenos” mamíferos que compõe este grupo animal, como é o caso dos golfinhos e botos. Estes últimos não são protegidos pela comissão porque, segundo especialistas, o Japão faz pressão para que isto não aconteça. O documentário revela ainda que a IWC proibiu a caça comercial de baleias em 1986. Um ano depois, segundo os produtores de The Cove, o Japão respondeu a esta proibição triplicando “a matança de golfinhos e botos” e começando programas letais de pesquisa com grandes baleias – a caça de baleias para fins de “pesquisa científica” são permitidas.

Além de Rick O’Barry, os únicos “famosinhos” que aparecem neste documentário são os integrantes do Surfers for Cetaceans, um grupo formado por esportistas e que tem Dave Rastovich como seu porta-voz no documentário. Ele fala sobre a experiência de conviver com estes animais em muitas aventuras pelo mundo e a irmandade que existe entre “homem e golfinho”. Rastovich e as atrizes Hayden Panettiere e Isabel Lucas fizeram parte de um pequeno grupo que, em 2007, “invadiu” a lagoa em Taiji onde os golfinhos são aprisionados – e, perto dali, muitos deles são mortos. O’Barry revela que aqueles ativistas foram presos, expulsos do país e, por isso, estão proibidos de retornar para lá. Com o lema do ex-adestrador de que o “caminho para impedí-los (os pescadores que aniquilam os golfinhos) é expô-los”, Psihoyos assume a responsabilidade de fazer o documentário. Com ele, o diretor sonha em acabar com a morte de golfinhos – no Japão e, preferencialmente, no mundo.

Em pouco menos de 30 minutos de filme, o espectador é apresentado ao problema dos golfinhos e botos e fica sabendo sobre as atitudes tomadas até aquele momento para denunciar os crimes ambientais de Taiji. A partir daquele ponto do filme, começa a narrativa de “espionagem” e operação de guerra que viabilizou as imagens inéditas vistas no documentário. Entram em cena os profissionais que possibilitaram que The Cove fosse filmado. O primeiro a ser chamado para o projeto foi Charles Hambleton, amigo do diretor, “viciado em adrenalina” que viajou o mundo como correspondente fotográfico. Hambleton parece um rockeiro.

Como jornalistas investigativos, Hambleton e Psihoyos pegaram a frustração causada pelas reuniões com as autoridades de Taiji como incentivo. Quando os “manda-chuvas” japoneses colocaram um mapa sobre a mesa e fizeram Xs sobre todos os locais em que o diretor e sua equipe não poderiam ir na cidade, a dupla assumiu aqueles pontos “proibidos” como um roteiro dos locais aonde eles deveriam filmar. 😉 Genial e perfeito! Observando as pedras em um dos pontos turísticos mais famosos do Japão, Psihoyos teve a idéia de camuflar câmeras de alta resolução em rochas fabricadas. Foi aí que entrou em cena um dos amigos e primeiros assistentes de Psihoyos que, atualmente, trabalha na empresa Kerner Optical, que integra a famosa Industrial Light and Magic.

The Cove, aliás, é uma aula de recursos e técnicas de filmagem para quem se interessa em trabalhar no cinema. O espectador é apresentado ao trabalho de Simon Hutchins, o único da equipe “com experiência militar”. Foi ele quem criou maneiras “estranhas” de esconder as câmeras de alta definição e os hidrofones em diferentes pontos da lagoa de Taiji. Joe Chisholm, que trabalha na organização de concertos de rock, auxiliou na logística da equipe de produção do documentário, cuidando da operação de levar centenas de caixas de material para o Japão.

Entre os equipamentos utilizados por Psihoyos e equipe, está uma câmera militar de sensor térmico – ela dá o tom de “espionagem” dos créditos iniciais de The Cove; um um helicóptero utilizado para captar imagens aéreas; um balão não-tripulado com uma câmera de alta definição giratória; e aquele que é considerado um dos dispositivos mais importantes do filme: um hidrofone capaz de captar sons com alta tecnologia – equipamento que é colocad em uma caixa subaquática. A idéia dos realizadores do filme é que o espectador tivesse uma experiência completa do que acontecia em Taiji. Para eles, tão importante quanto as imagens, era a captação dos sons que revelavam a comunicação dos golfinhos na lagoa. Para conseguir registar esta comunicação é que entra em cena Mandy-Rae Cruickshank e Kirk Krack, mergulhadores livres mundialmente conhecidos. Eles são responsáveis por estrelar algumas das cenas mais exuberantes do filme e, também, sequências muito emotivas – como aquela que registra o primeiro contato dos mergulhadores com a realidade de Taiji.

Paralelamente à operação para conseguir as imagens impactantes naquela lagoa japonesa, The Cove vai desmontando cada um dos argumentos utilizados para justificar aqueles atos. Para começar, Psihoyos mostra como japoneses em Tóquio desconhecem a morte de 23 mil golfinhos e botos em seu país a cada ano – uma tentativa, sem dúvida, de não generalizar a crítica do filme para todos os japoneses. Depois, vários especialistas revelam como a carne dos golfinhos é fortemente contaminada com mercúrio. E apesar disto, ela é vendida nos mercados muitas vezes disfarçada como sendo de outros animais. Vereadores de Taiji denunciam o risco de uma proposta que pretendia implantar a carne de golfinhos na merenda de escolares – esta proposta acabou caindo por terra.

Enquanto as duas missões da equipe de filmagem se desenvolvem, entrevistados por Psihoyos derrubam outro argumento utilizado pelo governo japonês e pelos pescadores: o de que baleias e golfinhos são os culpados pelo declínio da pesca mundial. E quando, finalmente, a segunda missão têm êxito, o espectador assiste a algumas das cenas mais chocantes vistas em um documentário em muito tempo. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). É de arrepiar a morte brutal dos golfinhos na área proibida e com forte segurança. A água azul se transformada rapidamente em líquido vermelho de puro sangue. Em seguida, a brutalidade é contrastada com imagens dos golfinhos livres. A mensagem não poderia ser mais clara e potente. E para acabar com quem estava segurando o choro, a sequência de Rick O’Barry e seu monitor preso ao corpo. Emocionante e de arrepiar. Impossível não se render à força da narrativa cuidadosamente construída por Psihoyos e equipe.

O objetivo principal de The Cove é o de fazer as pessoas sairem de suas posições de conforto e partirem para a ação. Louie Psihoyos e Rick O’Barry acreditam que a denúncia da matança em Taiji e os argumentos a favor da liberdade e preservação dos golfinhos e botos pode auxiliar em uma mudança social e de costumes. A intenção, sem dúvida, é uma das melhores. Mas, infelizmente, parece que esta mudança ainda não começou. Segundo esta e esta reportagem, os pescadores de Taiji protestaram no final de 2009 contra a comoção provocada por The Cove e contra as críticas internacionais que eles receberam. A captura e a morte dos animais continua – pelo menos até que mais pessoas e governos entrem em ação para impedir esta prática. Achei interessante esta notícia sobre a exibição de The Cove no Festival de Cinema de Tóquio. Nela, Psihoyos vaticina: “Quando uma tradição choca os direitos humanos, então dizer que é uma tradição não se sustenta” – referindo-se à alta toxicidade da carne de golfinho, argumento principal para que a caça deles continue.

Para quem quer saber mais sobre as touradas na Espanha e a forma com que esta “tradição” foi alterada com o passar do tempo, recomendo esta matéria da Superinteressante. É uma boa introdução sobre o assunto.

The Cove estreou em abril de 2009 no Festival Internacional de Cinema de Newport Beach. Depois, a produção participou ainda de outros 10 festivais. Até o momento, o filme de Psihoyos conquistou 19 prêmios e foi indicado ainda a mais oito. The Cove foi considerado o melhor documentário de 2009 pela National Board of Review e por quatro associações de críticos dos Estados Unidos. Além disso, ganhou os prêmios da audiência dos festivais de Sundance, Estocolmo e Sydney.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,5 para The Cove. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: eles dedicaram 107 críticas positivas e apenas cinco negativas para a produção – o que lhe garante uma aprovação de 96%.

Mesmo com todos os prêmios que recebeu e a opinião positiva de público e crítica, The Cove conseguiu, até o dia 13 de dezembro de 2009, pouco mais de US$ 861,7 mil nas bilheterias. Um valor pequeno, mas que pode aumentar consideravelmente se o filme ganhar o Oscar deste ano e for relançado nos cinemas.

Um dos elementos impressionantes do filme é a sua direção de fotografia. Um excelente trabalho do diretor de fotografia Brook Aitken. A trilha sonora de J. Ralph (o mesmo compositor da trilha do genial Man on Wire) também se mostra bastante acertada ao casar perfeitamente com a narrativa do documentário.

CONCLUSÃO: Um filme belíssimo e ao mesmo tempo chocante. Equilibrando depoimentos, entrevistas e uma narrativa que lembra filmes de espionagem e ação, The Cove desvela cenas impactantes de captura e morte de golfinhos e botos em uma pequena cidade do Japão. Cuidadosamente planejado e com um texto perfeito (preciso, irônico e cheio de autorreferências), este documentário deixa claro a sua intenção desde o princípio. Financiado e realizado por um grupo de ambientalistas, The Cove denuncia um crime ambiental, desmonta paulatinamente os argumentos que o sustentariam e, de quebra, dá uma aula de como fazer um documentário. Um grande trabalho do diretor Louie Psihoyos e de sua equipe. Surpreende aos espectadores que podem pensar neste filme como “mais um” documentário sobre a vida marinha. Isso porque The Cove é uma operação arriscada de filmagem ao mesmo tempo em que narra a história de redenção de um homem: Rick O’Barry, antigo adestrador de golfinhos que ficou famoso com a série Flipper. Completo e redondo, este documentário é um exemplo perfeito de cinema como “arma de propaganda” para um fim ecológico. Com cenas belíssimas e uma reflexão importante sobre a inteligência dos golfinhos, The Cove é ainda inspirador. Deveria ser obrigatório.

PALPITE PARA O OSCAR 2010: Por todas as qualidades que comentei antes e pelos prêmios que recebeu até agora, sem dúvida The Cove é um dos favoritos para levar o Oscar de Melhor Documentário do ano. Food, Inc., comentado anteriormente aqui no blog, pode até conseguir chegar entre os cinco indicados nesta categoria, mas sem dúvida não tem a força para desbancar The Cove. Os únicos que podem enfrentar o trabalho de Psihoyos parecem ser Burma VJ e Les Plages d’Agnès.

O primeiro, com direção de Anders Ostergaard, mostra o protesto de centenas de monges feito em 2007 em Burma (país do sul asiático conhecido também como Mianmar ou Birmânia). O segundo, dirigido pelo veterano Agnès Varda, é uma autobiografia do diretor. Nenhum dos dois, contudo, recebeu até o momento tantos prêmios quanto The Cove. Para mim, é certo que o filme de Louis Psihoyos estará entre os cinco indicados a Melhor Documentário. Ele também é a minha aposta para levar a estatueta dourada.

Globo de Ouro – coments no Twitter e avaliação final

Olá meus caros leitores aqui do blog!!

Hoje vamos fazer um experimento diferente. Vou acompanhar – bem, na verdade, agora, 21:50 no horário de Brasília, já estou acompanhando – o Golden Globes ao vivo.

Estou fazendo comentários sobre as premiações pelo Twitter – minha conta por lá é @aleogeda

Vocês serão super bem-vindos para trocar idéias sobre os prêmios comigo.

No Oscar deste ano, como fiz em 2009, farei estes comentários “ao vivo” aqui pelo blog (talvez pelo Twitter também).

P.S.: O site do Golden Globes está transmitindo ao vivo desde cedo – pela NBC.

O Twitter me impediu de continuar atualizando… então vou comentando por aqui.

1:10 – Hitchcock, Kubrick… sim senhor, cite os imensos. #scorsese #goldenglobes

1:14 – Jodie Foster, para variar, lindérrima.

1:15 – Agora sim, melhor diretor… E o Globo de Ouro vai para James Cameron. Sim, senhores. Muita, muita gente deve estar soltando fogos agora.

1:17 – Olha, agora começo a duvidar da minha convicção de que Avatar só se daria bem nas categorias técnicas do Oscar. Cameron pode levar a cobiçada estatueta dourada para casa sim. Vamos esperar para ver.

1:19 – Melhor série de TV – comédia para Glee. Bola super cantada – e todos dizem que merecida. Infelizmente ainda não assisti para opinar. Uma certa “vingança” dos seus fãs depois de Jane Lynch ter perdido na categoria de melhor atriz por série comédia.

1:22 – Até o momento, o Globo de Ouro com pouquíssimas surpresas. Na verdade, apenas Chlöe Sevigny surpreendeu aos fãs de Glee por vencer na categoria de melhor atriz em série de TV – comédia e, surpreendeu a alguns (admito que eu incluída) a vitória de James Cameron como Melhor Diretor.

1:26 – Consegui voltar, temporariamente, para o Twitter. Veremos até quando…

Certo, amigos, terminada a premiação do Globo de Ouro, vamos à lista de premiados da noite:

  • Melhor Filme – Drama: Avatar
  • Melhor Filme – Comédia: The Hangover
  • Melhor Diretor: James Cameron por Avatar
  • Melhor Atriz – Drama: Sandra Bullock por The Blind Side
  • Melhor Ator – Drama: Jeff Bridges por Crazy Heart
  • Melhor Atriz – Comédia: Meryl Streep por Julie & Julia
  • Melhor Ator – Comédia: Robert Downey Jr. por Sherlock Holmes
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Mo’nique por Precious
  • Melhor Ator Coadjuvante: Christoph Waltz por Inglourious Basterds
  • Melhor Filme de Animação: Up
  • Melhor Filme em Língua Estrangeira: Das Weisse Band
  • Melhor Roteiro: Jason Reitman e Sheldon Turner por Up in the Air
  • Melhor Trilha Sonora: Michael Giacchino por Up
  • Melhor Canção Original: The Weary Kind, de Crazy Heart
  • Melhor Série de TV – Drama: Mad Men
  • Melhor Série de TV – Comédia: Glee
  • Melhor Atriz em Série de TV – Drama: Julianna Margulies por The Good Wife
  • Melhor Atriz em Série de TV – Comédia: Toni Collette por United States of Tara
  • Melhor Ator em Série de TV – Drama: Michael C. Hall por Dexter
  • Melhor Ator em Série de TV – Comédia: Alec Baldwin por 30 Rock
  • Melhor Minissérie ou Produção para a TV: Grey Gardens
  • Melhor Atriz em Minissérie ou Produção para a TV: Drew Barrymore por Grey Gardens
  • Melhor Ator em Minissérie ou Produção para a TV: Kevin Bacon por Taking Chance
  • Melhor Atriz Coadjuvante em Minissérie ou Produção para a TV: Chlöe Sevigny por Big Love
  • Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Produção para a TV: John Lithgow por Dexter

RESUMO da premiação: Quase todos os premiados tiveram suas “bolas” cantadas antes da premiação. Talvez as principais surpresas da noite tenham sido Chlöe Sevigny por Big Love e quase todos os prêmios entregues depois do Globo de Ouro de Melhor Diretor para James Cameron.

Ainda não assisti a Avatar – agora terá que ser um programa obrigatório -, mas duvido muito que ele possa ser melhor que The Hurt Locker, Precious, Inglourious Basterds ou Up in the Air. Pessoalmente, não gostei dos dois prêmios de melhor filme, nem o de melhor atriz – drama para Sandra Bullock. Mesmo não achando que ela está fantástica em Julie & Julia, Meryl Streep costuma ser superior as demais concorrentes na categoria que venceu este ano.

Gostei, contudo, das premiações para Dexter, Grey Gardens, Mo’nique por Precious, de Meryl Streep (ainda que eu não goste taaanto dela em Julie & Julia) e, mesmo não tendo assistido a seus desempenhos, de Jeff Bridges e Robert Downey Jr. em seus respectivos filmes (gosto dos dois).

Por via das dúvidas, vou preparando o meu espírito para o Oscar deste ano. Na dúvida, faço figa para que ele não siga boa parte dos passos do Golden Globes. Boa noite e obrigada a todos que interagiram durante a entrega dos prêmios!

Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans – Vício Frenético

Imaginem um policial um tanto corcunda, que anda meio duro e que sucumbe a todos os deslizes possíveis em sua profissão. E, ainda assim, é promovido de tempos em tempos e sob aplausos de outros policiais e superiores. Este é o perfil do “herói” do novo filme do diretor alemão Werner Herzog. Escolhi colocá-lo na frente de outras produções que estavam na vez de serem assistidas por causa do diretor. Mas eu deveria saber que um filme com o Nicolas Cage dificilmente seria excepcional. Nada contra o ator, é claro, que já fez trabalhos muito bons. Mas é que, convenhamos, há tempos ele não merece nenhuma estatueta ou prêmio por seu desempenho. Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans é uma “viagem” um tanto psicodélica demais que, contudo, subverte o gênero dos filmes policiais. Para começar, ele é mais engraçado que trágico – e olha que não faltam motivos para que ele fosse tenso. Justamente por ser estrelado por Cage, este filme me pareceu um Leaving Las Vegas misturado com House M.D. Ou talvez ele possa ser resumido como um Ben Sanderson, protagonista de Leaving Las Vegas, com uma arma na cintura e um distintivo na lapela.

A HISTÓRIA: Uma cobra nada nas águas sujas que dominaram boa parte de New Orleans após a passagem do Furacão Katrina. Preso em uma cela, um homem grita por socorro enquanto os policiais Terence McDonagh (Nicolas Cage) e Stevie Pruit (Val Kilmer) descobrem fotos da namorada de um colega que deu no pé. Depois, os dois “homens da lei” fazem piada da situação do preso com água até quase os ombros. Até que McDonagh surpreende ao colega ao se jogar naquelas águas sujas para libertar o homem desesperado. Tempos depois, o Dr. Miburn (Robert Pavlovich) lhe comunica que um problema nas costas recentemente descoberto vai lhe causar dores moderadas a intensas. Ainda assim, ele poderá voltar à ativa – mas tendo que tomar remédios para dor, começando pelo Vicodin. McDonagh é promovido a tentente com honras por sua bravura. Seis meses depois, ele é colocado à frente de um caso envolvendo o homicídio de cinco pessoas de uma mesma família. Sua busca pelos culpados revela a decadência do policial, viciado em drogas, adepto da jogatina e da extorsão, capaz dos gestos mais insanos e antiéticos para conseguir os seus objetivos.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes de The Bad Lieutenant, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu ao filme): Dei muitas risadas com este filme, eu admito. Muito diferente de um filme policial padrão, esta nova produção captaneada por Werner Herzog prima pelo absurdo e pelo nonsense. Se for encarada como uma comédia, ela pode até agradar. Agora, se o espectador estiver buscando um roteiro com pé e cabeça, que siga a fórmula dos policiais tradicionais, provavelmente irá se decepcionar.

The Bad Lieutenant está mais para Fear and Loathing in Las Vegas do que para o genial Heat – ainda que este último, como o novo filme de Herzog, questione a “moralidade” de um policial. The Bad Lieutenant entra fundo no perfil de um “oficial da lei” que é tudo, menos ético ou “acima de qualquer suspeita”. Em uma interpretação quase todo o tempo exagerada, Nicolas Cage acaba provocando mais pena que repulsa neste antiherói enlouquecido e muitas vezes cômico. O exagero, aliás, caracteriza esta história e a forma com que Herzog manipula a realidade para mostrar os estados de “graça” de seu protagonista.

Algo que acho interessante deste filme é como um sujeito do tipo de McDonagh, totalmente corrupto e corruptível, pode ser considerado o melhor policial do departamento liderado por James Brasser (o veterano Vondie Curtis-Hall). (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No melhor estilo “os piores ganham os melhores postos” – quantos de vocês não se perguntaram como determinada pessoa incompetente/corrupta/puxa-saco profissional poderia ser promovida enquanto outros, mais competentes, ficavam para trás? – McDonagh vai subindo de posições até chegar a ser capitão. E detalhe: sempre com menções honrosas por seu “valioso trabalho”. O que seus superiores não sabem é que, para conseguir concluir os seus casos, McDonagh não pensa duas vezes em plantar provas, extorquir e intimidar bandidos e “peixes pequenos” como são os usuários de drogas.

Um dos melhores momentos do filme, para mim, foi a sequência com as iguanas na “mesa do café” de McDonagh quando ele e sua equipe vigiam a casa do suspeito Deshaun “Anão” Hackett (Lucius Baston). Antes, há cenas envolvendo cobras e jacarés. Eis aqui uma das marcas registradas do diretor Werner Herzog: seu apreço por mostrar o “lado selvagem” da Natureza. Mas, no caso de The Bad Lieutenant, a vida selvagem não aparece em seu estado puro, mas em um delírio provocado pela mistura de drogas que o protagonista do filme utiliza para evitar a dor – e, claro, lá pelas tantas ele já está viciado em todo aquele entorpecente. Alguém aí lembrou de Gregory House antes dele “ficar limpo”?

O incrível desta história é como McDonagh, por mais “fora da casinha” que ele esteja, consegue resolver os piores problemas nos quais ele vai se metendo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Seguindo uma narrativa clássica e linear, os roteiristas deste filme deixam o protagonista, lá pelas tantas, afundado até o pescoço por distintas ameaças e problemas. Mesmo com drogas exalando por todos os poros e sem dormir direito, McDonagh parece mostrar uma “inteligência superior” a ponto de enganar a todos e levá-los a resolver os seus problemas. Incrível – e, convenhamos, bastante improvável. Esse “exagero” da história me incomodou um pouco, admito. Mas quando percebi que se tratava de uma comédia, mais que de um policial, relaxei. Se for visto desta maneira e com uma grande dose de ironia, The Bad Lieutenant até que pode ser interessante. Vai depender dos gostos do espectador.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: The Bad Leutenant tem um elenco de apoio bastante interessante. Mas como a história é centrada totalmente no personagem de Terence McDonagh, muitos dos personagens secundários são quase pontas no enredo. A única que tem um papel um pouco maior, realmente, é a atriz Eva Mendes. Ela interpreta a namorada de McDonagh e prostituta Frankie Donnenfeld. A atriz está bem no seu papel – ainda que, convenhamos, Eva Mendes é mais bonita do que boa intérprete. E, como a personagem de Frankie pede, Eva Mendes está linda, frágil e, em alguns episódios, determinada. Nada demais. Val Kilmer aparece em um papel bastante secundário – e, de tão “morno” perto do exagerado Nicolas Cage, ele praticamente desaparece e/ou não é reconhecido.

Outros atores que fazem parte do elenco e que merecem ser mencionados: Jennifer Coolidge convence como Heidi, a “madrasta” de McDonagh que está em permanente estado de embriaguez; Brad Dourif em uma interpretação excelente como Ned Schoenholtz, o homem que aceita as constantes apostas do detetive para o geralmente perdedor time do Louisiana; Shawn Hatosy como o policial Armand Benoit, “aprendiz” manipulável de McDonagh; o rapper Xzibit, que dá um show como o chefão do tráfico Big Fate; Shea Whigham em uma interpretação divertida como o “descompassado” filhinho de poderoso Justin – que resolve se vingar depois de uma prensa de McDonagh por ele ter batido em Frankie; e Tom Bower como Pat McDonagh, pai alcóolatra em fase de AA do policial-protagonista.

Em pontas ainda menores, estão Fairuza Balk como a policial Heidi, que não se importa em fazer um “favorzinho” para o protagonista em troca de alguma “diversão”; o sempre ótimo Michael Shannon como Mundt, o oficial da sala de apreensões que passa a ter medo de ser flagrado retirando drogas para McDonagh e, por isso, termina com o fornecimento que fazia para ele; Denzel Whitaker como Daryl, testemunha dos crimes envolvendo a família de imigrantes senegaleses; e fechando a lista de destaques, Lucius Baston e Tim Bellow interpretam a Dashaun “Anão” Hackett e Gary “G” Jenkins, os cúmplices de Big Fate. As atrizes Irma P. Hall, como Binnie Rogers, e a que interpreta a idosa chamada como Sra. Edwin (não consegui descobrir o seu nome) garantem junto com Nicolas Cage algumas das cenas mais engraçadas do filme.

Este filme de Werner Herzog com roteiro de William M. Finkelstein é uma releitura de Bad Lieutenant, produção de 1992 dirigida por Abel Ferrara e estrelada por Harvey Keitel. Não assisti ao original mas, pelo que todos os críticos que andei lendo afirmam, este novo Bad Lieutenant não tem nada (ou muito pouco) a ver com a produção de 1992.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,1 para o filme. Bastante justa, na minha opinião. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes, por sua vez, foram mais generosos: dedicaram 77 críticas positivas e 14 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 85%.

The Bad Lieutenant estreou no Festival de Veneza em setembro de 2009. De lá para cá, o filme participou de outros 13 festivais e conseguiu, até o momento, duas premiações: melhor ator para Nicolas Cage segundo a associação de críticos de cinema de Toronto e o prêmio especial da Fundação Christopher D. Smithers entregue para Werner Herzog no Festival de Veneza. The Bad Lieutenant está na disputa, atualmente, pelo prêmio de melhor fotografia no Independent Spirit Awards.

Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme está tendo um desempenho fraquíssimo – para os padrões daquele mercado, claro. Ele arrecadou, até o último dia 10, pouco menos de US$ 1,5 milhão. Se continuar assim, levará prejuízo.

Além de corrupto e viciado em drogas, o protagonista de The Bad Lieutenant tem outro vício: o sexo casual. Sempre que pode, ele troca “prensas” contra jovens usuários de drogas e pequenos favores por sexo. Por essa característica, há pelo menos uma cena bastante quente no filme: aquela que envolve McDonagh e a garota que tem uma pedra de crack valiosa. 😉

Na parte técnica, o filme funciona bem em cada detalhe. Destaque, em especial, para as diferenciações fundamentais de “momentos da história” feitas pela direção de fotografia de Peter Zeitlinger e para a trilha sonora hilária de Mark Isham. Classifico a trilha desta forma porque ela ressalta, ainda mais, a forma “deslocada” do filme – que foge dos lugares-comum de um policial. Bem interessante.

O crítico David Denby, do The New Yorker, comenta neste texto que o filme de Herzog consegue ser, ao mesmo tempo, um filme sobre procedimentos policiais e uma celebração escandalosa dos desvios provocados pela “mania do crack”. Gostei, especialmente, quando Denby define a interpretação de Nicolas Cage como a de um “Quasimodo que não tem a corda de um sino para se pendurar”. Genial. hehehehehe. “Herzog envia este literalmente quebrado detetive para casas perigosas e ruas escuras, com uma arma na mão, como qualquer outro policial em uma perseguição faria. Mas no minuto seguinte McDonagh terá uma alucinação – ele vê um cadáver dançando break – ou explodirá em histeria, seu rosto se transformando violentamente em um sorriso enorme. (…) O filme é uma bagunça, mas certamente não é monótono”, comenta o crítica.

A. O. Scott, do The New York Times, ressalta que o filme de Werner Herzog não é nem uma refilmagem, nem uma sequência da obra original de Abel Ferrara. Ele classifica The Bad Lieutenant como “um filme noir anarquista que parece, às vezes, quase tão desequilibrado quanto seu protagonista”. Neste texto, Scott ressalta a interpretação de Nicolas Cage – que deveria requer “adjetivos ainda não inventados, digitados em caps lock e em itálico” – no filme de Herzog que classifica como “glorioso” e bagunçado. Para o crítico, a “imprevisibilidade maníaca” de The Bad Lieutenant relembra os espectadores de como os thrillers de crimes ultimamente tem sido previsíveis e maçantes.

“Este gênero, que certa vez foi um repositório de mistério, emoções selvagens e uma maliciosa invenção cinematográfica, foi transferido recentemente para um estado de uma mal-humorada, sádica rotina”, critica Scott. Gostei, em especial, quando ele compara Cage com um “Jimmy Stewart drogado”. 😉 O crítico destaca ainda o trabalho de Cage e de Herzog afirmando que as rajadas de energia que podem parecer aleatórias e disassociadas são, de fato, os passos brilhantes de jogadores que tem, com certeza, ainda que de forma nada ortodoxa, noções de ritmo. Para Scott, The Bad Lieutenant não é “nenhuma obra-prima, mas é sem dúvida o trabalho de um mestre”. Estou com ele nesta avaliação. “Existe disciplina em Bad Lieutenant, e um respeito aos princípios, semelhante ao que vimos no filme de guerra do Sr. Herzog Rescue Dawn, para os prazeres e regras de um gênero”, comenta o crítico.

Betsy Sharkey, do Los Angeles Times, destaca a simbologia da serpente que aparece na sequencia de abertura do filme. Para ela, Werner Herzog deixa claro, desde o início, o ventre “sedutor e de duplicidade” das coisas que serão narradas nesta história. Sharkey destaca que existe, no fundo, uma ligação entre as duas produções de Bad Lieutenant: ela reside na premissa básica de um policial desonesto e abastecido por drogas que tem uma vida dupla. “Mas a loucura e a maldade (do filme de Herzog) são de uma faixa mais cerebral”, comenta ela neste texto. Sharkey destaca a forma com que Nicolas Cage torna seu personagem extremamente real – especialmente a dor que ele sente pelo problema nas costas que adquire ao salvar o presidiário no início do filme. E afirma que Herzog dirige sob suas próprias obsessões – como “alguns interlúdios estranhos com animais”. Na síntese de Sharkey, o diretor fez bem o seu filme noir, dando ao espectador “o que ele deveria – crime, corrupção, sarcasmo, sexo e sombras por toda a sua lente escura”.

Um dos críticos que reprovou Bad Lieutenant foi Kyle Smith, do New York Post. Nesta crítica ele comenta que sempre haverá apenas um Bad Lieutenant: Harvey Keitel. Na produção dirigida por Werner Herzog, comenta Smith, Nicolas Cage tenta ser um cara durão mas consegue apenas ficar parecido com um vendedor ruim de carros usados. Depois de bater firme no ator principal do filme, o crítico afirma (talvez com um pouco de cinismo) que “não importa” a sua interpretação desastrada porque “Werner Herzog está aqui para salvar o dia, entregando um propositalmente inclinado filme ruim com um brilho demoníaco”. Para Smith, com a inadequação do personagem, o ator (Cage) e o diretor reforçam um ao outro para conseguir um efeito hilário. “Herzog não conhece a ação (um tiroteio, que carrega o potencial de ser um momento Scarface, acaba sendo estragado), mas conhece a luxúria, o desagradável e a loucura. O coração deste filme é (eu direi isso de uma forma agradável) tão sujo quanto um pano engraxado de um restaurante de beira de estrada”, definiu Smith.

CONCLUSÃO: Um filme mais engraçado que tenso. O diretor Werner Herzog segue a sua própria tradição de incentivar os protagonistas de seus filmes até o limite de suas interpretações e, assim, consegue um desempenho tresloucado de Nicolas Cage como o policial Terence McDonagh. Psicodélico, “viajandão”, The Bad Lieutenant se debruça em uma realidade policial em que predomina a inteligência e o “jeitinho” no lugar da ética e da preocupação de seu protagonista em “bem servir”. As drogas e a corrupção correm soltas nesta história que, de forma cômica, muitas vezes é interrompida para entrar nos delírios de McDonagh – o mais engraçado deles envolvendo duas iguanas. Recomendado apenas para pessoas que podem levar uma produção de cinema nada à sério. Aqui o drama vira comédia, a tensão é diluída na convicção de que o clown-protagonista domina todas as situações. Herzog faz um bom trabalho, ainda que esta produção esteja longe de figurar na lista de seus melhores filmes. Cage capricha na interpretação, convencendo na caracterização de seu papel – não deve ser nada fácil caminhar permanentemente com uma parte das costas mais inclinada que a outra. Talvez este seja o seu melhor desempenho nos últimos tempos, ainda que algumas vezes ele chegue a irritar nas cenas mais exageradas. Mas, no fim das contas, Cage faz rir – o que talvez seja o grande objetivo deste filme. Uma produção curiosa, por ser tão fora dos padrões, mas ainda assim muito distante de ser excepcional.