127 Hours – 127 Horas

O desespero de não encontrar uma saída seguido da dúvida se ela surgirá a tempo. Depois, ao perceber o básico sempre ignorado, de que não temos o controle de tudo, continuar resistindo, mas com uma certa calma para perceber o que aconteceu até ali e o que ainda poderá surgir – mesmo em delírio. Tudo isso sob a ótica de um garoto e sua busca por adrenalina. Apaixonado por belas paisagens e pela ação, o protagonista de 127 Hours faz os espectadores mergulharem em belos cenários e em desespero. Não é qualquer um que deve aguentar a angústia desta história. E não é qualquer um que seria capaz de transformar a narrativa de um sujeito com um braço trancado em uma pedra em um cânion distante da civilização em algo interessante de ser visto. Pois bem, mais uma vez, o diretor Danny Boyle mostra porque é um dos grandes cineastas da atualidade. E há algum tempo. Se você quiser se aventurar a assistir a este filme (e esta é uma produção interessante de ser assistida), antes saiba que grande parte da história é o que eu disse acima, angustiante. E que há cenas bastante fortes – ainda, claro, que não se trate de um filme ao estilo de Saw.

A HISTÓRIA: Torcida, palmas, orações. Multidões comemoram, ganham dinheiro, competem. Correm. Vencem tempo, distâncias, desafios. Se divertem, vão trabalhar, voltam do trabalho, se encontram e se separam. Após várias cenas de gente mostradas em três telas divididas, acompanhamos os preparativos de Aron Ralston (James Franco) para sair de casa. Ele ouve um recado de Sonja, sua irmã, enquanto pega os suprimentos e equipamentos para mais uma de suas aventuras. Ele sai, deixando para trás a torneira pingando. Trânsito. No meio da noite, Aron sai pela estrada. É uma sexta-feira, 25 de abril de 2003. Acompanhamos a chegada de Aron em Canyonlands e, no sábado, sua ida, de bicicleta, até Blue John Canyon. Ali ele irá conhecer duas garotas, aventurar-se e ficar preso, por 127 horas, sem quase nada de água ou comida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a 127 Hours): Dizem que, quando alguém está prestes a morrer, sua vida passa “rapidamente na frente de seus olhos em milésimos de segundos, como um filme”. Tive umas duas oportunidades de partir desta para outra mas, talvez porque o pior não aconteceu, não vi o tal filminho. Em 127 Hours, não acompanhamos apenas alguns segundos da vida do protagonista, cada vez mais enfraquecido e angustiado com a possibilidade de morrer. Também não assistimos a um filme com sua trajetória inteira, e sim boa parte do que vemos são delírios e divagações. Prepare-se. Este filme não é para todos.

Comento isso sem medo porque, realmente, não acho que qualquer pessoa gostaria de gastar uma hora e 12 minutos de seu tempo acompanhando a agonia de um rapaz aventureiro, inteligente e bonito com o braço preso em uma pedra e agonizando lentamente. Claro que o filme não é apenas isso. Ele tem algumas boas lições escondidas no ótimo roteiro do diretor Danny Boyle escrito com Simon Beaufoy e baseado no livro de Aron Ralston. Mas é fundamental que o espectador saiba o que poderá esperar desta história – e que ela não será uma sequência de aventuras, adrenalina e bela paisagens o tempo todo.

O diretor Danny Boyle é fera e, ao lado do ótimo desempenho de James Franco, do roteiro de Beaufoy e da trilha sonora do fantástico A.R. Rahman, é o grande responsável por este filme ser interessante. Bonito, apesar do que a história inicialmente poderia sugerir. Boyle é tão bom que ele consegue transformar uma hora de agonia e de reclusão do protagonista em algo mais interessante do que o senso comum poderia imaginar. Isso porque ele e Beaufoy tiram da caixa de ferramentas artifícios como o olhar cuidadoso para os “pequenos milagres” do cotidiano, para a memória e a fantasia de Aron Ralston, além de sua insistência por sobreviver. Outros diretores, como o mestre Hitchcock, já conseguiram narrar um filme inteiro em um mesmo ambiente. Mas nunca, pelo menos que eu me lembre, uma história ficou focada apenas em um local e com a interpretação de um ator por mais de 1 hora. E o fato disso não ser entediante de forma insuportável revela a qualidade deste filme e de seus realizadores.

A primeira característica de 127 Hours evidente é dinâmica acelerada e fragmentada da direção de Boyle. Desde Slumdog Millionaire o diretor parece ter assumido esta dinâmica como sua marca registrada – algo que não lhe acompanha desde sempre, é preciso comentar, e que já foi utilizada antes por muitos diretores, inclusive Steven Soderbergh. Claro que uma escolha “conceitual” que, junto com a música dinâmica e “multicultural e multireferencial” de Rahman, parecem buscar uma síntese de nosso tempo. (Entendendo esse “nosso tempo” como um quase padrão das sociedades urbanas e “desenvolvidas”, sem inserir neste balaio todas as outras sociedades existentes e seus ritmos próprios e distintos).

Depois do bom e sugestivo trabalho inicial, que evidencia também a qualidade na edição de Jon Harris, mergulhamos na aventura e nas belas paisagens escolhidas pelo protagonista. Até que ele sofra o acidente, o tempo parece ter pouca importância nesta história. Ledo engano. Cada elemento mostrado anteriormente vai cobrar a sua parcela de atenção e o tempo, em especial, será o grande determinante da narrativa. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Agora, pensa comigo: se você acha complicado e angustiante ficar uma hora “preso/a” junto com Ralston naquele mesmo local, imagine o que foi ficar ali 127 horas. Claro que nós estamos lúcidos todo o tempo e percebemos cada nuance do que ocorre naquele local, diferente do protagonista que, mesmo tentando ficar lúcido o tempo todo, muitas vezes sucumbe ao cansaço, à fraqueza e aos delírios.

No quesito “filmes de aventura e busca de sentidos com nuances filosóficas”, ainda prefiro a Into the Wild. Não apenas pelas paisagens e pelos personagens interessantes que vão aparecendo no caminho de Chris McCandless, mas principalmente pelo “conjunto da obra” e pelo tipo de ensinamento que o filme tenta nos passar. Enquanto em Into the Wild a mensagem é de que não importa o que você faça ou descubra, suas ações e sabedoria só tem sentido se forem compartilhadas com as outras pessoas, em 127 Hours a grande mensagem é que o tempo passa rápido, que não temos o controle que achamos que temos da nossa vida e que o tempo deve ser melhor aproveitado com as pessoas que amamos.

Claro que as duas mensagens e os dois filmes são belos, bem produzidos e tem, cada uma a sua maneira, qualidades a serem enaltecidas. Ainda assim, prefiro Into the Wild. Mas como não nos importa muito fazer “competições” de filmes – ainda que a comparação seja sempre salutar -, voltemos a 127 Hours. James Franco, em especial, impressiona pelo bom trabalho. Ele consegue adotar o tom exato para cada momento de seu personagem. Algo impressionante e nem sempre fácil de encontrar, especialmente em filmes que concentrem tanto a atenção em apenas um desempenho. A trilha sonora de Rahman, mais uma vez, é um dos pontos fortes do filme.

E o que falar do diretor Danny Boyle? Ele, junto com os diretores de fotografia Enrique Chediak e Anthony Dod Mantle, conseguiu utilizar diferentes câmeras e recursos para tornar uma história “parada” em dinâmica. Cada cena é valorizada e cuidadosamente planejada. E algumas sequências emocionam – e resumem qualquer discurso com “lição de moral” imaginável. São exemplo as imagens em que o protagonista, mesmo preso e sem perspectivas de ser libertado, continua admirando a beleza do que o rodeia, da pedra que ele sente com o toque dos dedos até o calor que o sol que invade o local por pouco tempo lhe propicia após uma noite de muito frio. Estes detalhes, assim como a memória/fantasia de Ralston em relação a sua própria vida, tornam este filme diferente e especial. Além da ousadia, é claro, de narrar uma história em que grande parte dela se resuma a um cara preso com o braço em uma pedra.

Além de possivelmente dar uma boa chacoalhada em muita gente por tornar tão evidente a grandeza e a limitação nossa de cada dia, nossa fortaleza e nossa fragilidade, 127 Hours serve também como uma reflexão por si só. Afinal, já que estamos falando de tempo e do uso dele, quem poderá achar insuportável passar uma hora de seu dia assistindo a agonia e aprendizado de uma pessoa comum? Alguém que vive acelerado e que “não tempo a perder”, certamente? Mas o que é perder tempo? Como se perde tempo? Eis uma das grandes reflexões desta produção.

Ralston ganhou ou perdeu 127 horas? Eu diria que o que ele aprendeu ali, sozinho, naquelas condições, muitas vezes o que uma vida inteira não é capaz de ensinar. O tempo, sem dúvida, é relativo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Não sei vocês, mas quando o protagonista ficou mais de dois dias preso naquela rocha, pensei: será que ele sobreviveu? Lembrei, no início do filme, que em um dos créditos apareceu que o roteiro havia sido inspirado por um livro dele. Mas como não lembrava, exatamente, o nome do livro, pensei que talvez o garoto pudesse tê-lo escrito antes. Afinal, o roteiro poderia ter recriado “livremente” o que poderia ter acontecido com o rapaz, caso ele tivesse sido encontrado morto tempos depois – e haviam aquelas filmagens feitas por ele que recontariam parte de sua trajetória até ali. Mas não, para satisfação geral da nação – algo que incomodou a muitos em Into the Wild, o que acho uma bobagem -, 127 Hours é um filme de esperança. Que nos mostra, no final, como a vida pode ser sempre renovada e recriada. E que diferente do que muitos acreditam, após grandes sacrifícios e grandes “provações”, podem surgir fases muito boas, surpresas empolgantes. Nada como um dia após o outro – e a graça de termos um recomeço.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Elas aparecem pouco, mas talvez por serem duas aparições raras na produção concentrada em um único ator, Kate Mara e Amber Tamblyn se destacam. Mara interpreta a Kristi, e Tamblyn a Megan. As duas amigas perdidas são encontradas por Aron Ralston e desviam do garoto de seu caminho. Elas acabam servindo de “trampolim” para percebermos como o protagonista é “boa gente”, assim como suas imagens servem de alento durante alguns momentos de solidão vividos por ele em sua prisão rochosa. As atrizes aparecem pouco, mas estão muito bem.

Falando em atores secundários, vale citar a participação dos veteranos Treat Williams e Kate Burton, que interpretam os pais de Aron. A bela Clémence Poésy aparece em cena como Rana, a última paixão do protagonista – e que se revela em algumas das lembranças mais bacanas dele. Finalmente, vale citar o simpático/carismático Peter Joshua Hull como o garoto que aparece no sofá e que simboliza a infância de Aron.

As pessoas mais atentas não devem ficar em dúvida como eu fiquei – mesmo que por poucos minutos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme ainda). Isso porque, nos créditos iniciais de 127 Hours, aparece o título do livro de Aron Ralston: Between a Rock and a Hard Place (Entre uma Rocha e um Lugar Difícil, na tradução literal). Ora, Ralston não poderia ter escrito um livro com este título caso tivesse morrido naquele local, não é mesmo? Então a dúvida não existe, sobre a sua sobrevivência, em parte alguma da produção. Apesar disso, a angústia sobre a saída para aquela situação não diminui – até porque a “propaganda boca a boca” já tinha feito a mensagem “ele corta o próprio braço” chegar até mim antes de assistí-lo. E olha que, mesmo preparada para aquele momento, isso não tornou ele menos angustiante.

127 Hours estrou em setembro de 2010 no relativamente desconhecido Festival de Cinema de Telluride. Depois, passou pelos festivais de Toronto, Londres e outros seis eventos do gênero, inclusive o de Dubai, na Índia. Até o momento, a produção recebeu quatro prêmios, todos para James Franco, foi indicada a seis Oscar e a outros 55 prêmios. James Franco ganhou dois prêmios como Melhor Ator pela Associação de Críticos de Cinema de Central Ohio, outro pela associação de críticos de Dallas-Fort Worth e o último pela Sociedade de Críticos de Cinema de Las Vegas.

Até agora, 127 Hours ainda não conseguiu se pagar. Pelo menos com a bilheteria dos Estados Unidos. O filme, que custou aproximadamente US$ 18 milhões, conseguiu pouco mais de US$ 11,1 milhões nos Estados Unidos até o dia 16 de janeiro. Quem sabe agora, com a ajuda das indicações do Oscar, ele consiga melhorar o desempenho. Mas do jeito que está indo, será difícil conseguir um bom lucro. Talvez a propaganda boca a boca, das pessoas comentando de algumas cenas difíceis exploradas pela produção – e por ela centrar-se em um mesmo local por mais de uma hora – esteja espantando o grande público. No Reino Unido, o filme tem ido bem: conseguiu pouco mais de 4 milhões de libras.

Quem ficou com curiosidade para saber onde a produção foi filmada, informo: 127 Hours foi rodado em duas cidades dos Estados Unidos, Moab, em Utah, e Salt Lake, no mesmo Estado.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,2 para 127 Hours. Para o padrão do site, está de bom tamanho. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos: publicaram 158 críticas positivas e apenas 11 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 93% (e uma nota média de 8,3). Grande desempenho.

Como era de se esperar, Danny Boyle se cercou de antigos colaboradores para trabalhar com ele, mais uma vez, neste seu novo filme. Na lista estão alguns ganhadores do Oscar com Slumdog Millionaire: além do diretor e de A.R. Rahman, o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle e o roteirista Simon Beaufoy.

Não li o livro de Ralston, mas no resumo da Amazon.com, fica claro que o filme de Boyle segue a espinha dorsal da obra do aventureiro. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Em seu livro, Ralston narra em detalhes o que ele fez até o acidente e, depois, transcreve os vídeos que gravou para a família, seus pensamentos e, segundo o resumo, a narrativa detalhada de como ele fez para amputar o próprio braço. Ralston não comenta apenas como quebrou o antebraço, mas de que forma conseguiu cortar os músculos e tudo o mais. Deve ser de arrepiar. Mas saber que ele narra em detalhes esta parte torna ainda mais legítima a forma com que o momento é mostrado no filme. Ainda que choque, o trecho acaba sendo coerente com a proposta do jovem que ficou preso naquela pedra.

Em sua obra, Ralston classificou a própria história das 127 horas em uma “experiência ininterrupta” que testou ao máximo o desenvolvimento físico, mental, emocional e a percepção mesmo de indivíduo dele. O livro do aventureiro tem 16 páginas de fotos.

Encontrei neste link uma reportagem especial da revista Go Outside sobre a história de Aron Ralston. A edição brasileira reproduz, na verdade, uma reportagem da publicação original, dos Estados Unidos, de 2004. No texto, trechos da obra de Ralston. Vale uma conferida.

Uma curiosidade sobre 127 Hours: após uma sessão no Festival de Toronto, Ralston caiu em lágrimas quando alguém na platéia perguntou como ele se sentia ao ver sua história ser interpretada no cinema. Ele acabou sendo consolado pelos atores que estavam perto e disse que foi difícil. Quando perguntaram para Ralston sobre a fidelidade da produção com a sua história, ele comentou que 127 Hours é quase um documentário sobre o que aconteceu, sem perder, por isso, a característica de um filme de drama.

A primeira escolha de Boyle para o papel do protagonista deste filme seria o ator Cillian Murphy. Que bom que ele mudou de ideia – ainda que Murphy seja muito bom, duvido muito que teria feito um trabalho tão preciso quanto James Franco.

Outra curiosidade sobre a produção: a câmera de vídeo utilizada por Franco nesta produção foi a mesma utilizada por Ralston quando ele ficou preso no Cânion Blue John.

CONCLUSÃO: Imagine acompanhar a agonia, as descobertas, a lucidez e o delírio de um jovem preso com um braço em uma rocha em um lugar deserto por 1 hora. Mais precisamente 1 hora e 12 minutos de seu tempo, porque na prática, esta pouco mais de uma hora representam 127 horas de experiência angustiante para o protagonista deste filme. Reflexão contundente sobre o tempo e os limites de um indivíduo – e indiretamente, de todos nós -, 127 Hours comprova, mais uma vez, o talento do diretor Danny Boyle para a narrativa. Pensando em cada frame desta produção, o diretor consegue equilibrar uma narrativa fragmentada e acelerada com um olhar mais “contemplativo” para os detalhes, como o voo de um pássaro, a entrada dos raios de sol em uma caverna, assim como para o lirismo de uma memória “reinventada” do próprio passado e a projeção dos sentimentos em relação às pessoas queridas de alguém que não sabe por quanto tempo ainda irá resistir. Um filme duro e belo ao mesmo tempo. Destes que merecem ser vistos. Mas que, para isso, é preciso estar preparado/a para assistir a cenas fortes, quase ao estilo do que foi visto em Saw (mas perfeitamente justificadas, é claro). O melhor mesmo, se você está decidido/a a assistir a este filme, é que esteja preparado/a. Porque precisará ter paciência e sangue frio.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: 127 Hours foi indicado em seis categorias do Oscar. Francamente, não me surpreendeu em nada. Na verdade, achei que ele poderia ter sido indicado em mais uma categoria para a qual não foi: Melhor Diretor. Danny Boyle ficou fora da disputa. Infelizmente. Cá entre nós, eu acho que ele merecia ter entrado na disputa mais do que David O. Russell, de The Fighter. Mas paciência. Ele não foi o único injustiçado do ano – e afinal, que graça teria o Oscar se a Academia não fizeste destas? Se fosse um prêmio totalmente previsível, não teria tanta graça.

Dito isso, sempre há espaço para surpresas na premiação, é claro. Mas algo me diz que 127 Hours não terá chances em algumas das categorias principais nas quais está concorrendo. Como Melhor Filme, esqueçam. Ele não irá desbancar os favoritos The Social Network e The King’s Speech. Se alguma zebra fosse ganhar como Melhor Filme, eu apostaria em Black Swan. Mas isso não vai acontecer.

James Franco dificilmente conseguirá tirar o prêmio de Colin Firth, franco favorito, ou mesmo dos atores que correm um pouco por fora, como Javier Bardem e Jesse Eisenberg. Nesta categoria, Franco e Jeff Bridges são os azarões. Mas se o impossível acontecer e Franco levar o prêmio, não será uma injustiça. Ele está muito, muito bem em 127 Hours.

O filme acaba, assim, tendo mais chances nas categorias técnicas. A.R. Rahman pode repetir o feito conquistado com Slumdog Millionaire e levar um ou dois Oscar’s para casa. Será merecido, é claro. Mas ele tem pelo menos um grande concorrente em cada uma das categorias que está disputando – Melhor Música e Melhor Trilha Sonora. Jon Harris merece ganhar como Melhor Edição, mas Andrew Weisblum, por Black Swan, também está na disputa. E, para mim, ele é o favorito. Finalmente, o roteiro de 127 Hours está concorrendo… mas certamente ele não será páreo para Social Network ou mesmo Toy Story 3. Minhas fichas iriam para o texto de Aaron Sorkin.

No fim das contas, talvez 127 Hours consiga duas a três estatuetas, no melhor dos cenários. Ou fique apenas com uma, em Trilha Sonora ou Melhor Música. É esperar para ver.

The Fighter – O Vencedor

Mais um filme sobre boxe e a trajetória de um homem até a glória, escada acima? Não exatamente. The Fighter fala de boxe, de determinação, dos bastidores do esporte e da indústria que movimenta muito dinheiro a cada ano, mas não trata apenas disso. Baseado em uma história real, este filme trata de família, dos alicerces que nos fazem sermos quem somos, de glória, derrocada, fundo do poço, drogas, novas formas de inspiração, talento e redenção. A história não guarda muitas surpresas ou inovações. Na verdade, é bastante previsível. Mas a direção de David O. Russell e, principalmente, o elenco escalado para esta produção, seguram o interesse até o final.

A HISTÓRIA: Começa na cidade de Lowell, Massachusetts, em 1993. Dickie Eklund (Christian Bale) pergunta para as pessoas que estão lhe filmando se elas vão esperar pelo irmão dele, Micky Ward (Mark Wahlberg). Dickie está agitado, mas começa a contar a sua história. Comenta que começou com o boxe quando tinha 12 anos, e que mentiu sobre sua idade na época. Micky se aproxima. O irmão afirma que tudo que Micky aprendeu foi com ele, ainda que eles tenham estilos muito diferentes de lutar. Aparecem cenas da infância dos garotos e, quando Dickie cita Sugar Ray Leonard, são inseridas imagens da luta dele contra a lenda do boxe, em 1978. Ele começa a elogiar o irmão, a sua “mão esquerda”, mas parece um pouco alterado ou estranho demais. Ele comenta que leva o título de “orgulho de Lowell”. Corta. A câmera mostra Micky nivelando uma rua enquanto Dickie se exibe para as câmeras com golpes. A história segue, mostrando a relação entre os irmãos, seus familiares e a busca de Micky para sair da sombra de Dickie.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso sugiro que só continue a ler quem já assistiu a The Fighter): Christian Bale hipnotiza o espectador. Sua interpretação “alucinada” não é exatamente nova. Lembra muito o que ele havia apresentado, anteriormente, em filmes como The Machinist ou Rescue Dawn. Ainda assim, é impossível ignorá-lo. E, pelo Globo de Ouro que ele recebeu e pelo Oscar que deverá levar para casa, parece que finalmente Hollywood resolveu fazer uma reverência para o talento e a entrega deste ator.

The Fighter não se resume apenas a Christian Bale. A verdade é que o diretor David O. Russell e os produtores deste filme, incluindo os “todo-poderosos” irmãos Weinstein, souberam escolher a dedo o elenco que nos conta esta história. Todos os atores principais estão ótimos e convincentes, ainda que, a exemplo de Bale, algumas vezes eles parecem se esforçar “demais” na interpretação. Talvez apenas Mark Wahlberg, em sua interpretação muitas vezes “reticente”, pareça um pouco mais natural. Com isso, não quero dizer que os atores não estejam bem. Eles estão. Mas, em um momento ou outro, parecem exagerar na interpretação.

Começo falando tanto do desempenho do elenco porque este, sem dúvida, é o ponto alto de The Fighter. O roteiro de Scott Silver, Paul Tamasy e Eric Johnson, baseado na história dos dois últimos e mais Keith Dorrington, tem seus altos e baixos. Ele se mostra interessante ao pegar um tema bastante explorado pelo cinema, o do “herói” do boxe, do rapaz pobre que ascende por sua entrega ao esporte, e ampliá-lo.

O esforço de Micky Ward lembra, como parece ser inevitável quando falamos de filmes sobre o boxe, dos primeiros episódios envolvendo Rocky Balboa. Mais que isso, sua rotina sem estrelato e com muito esforço, incluído aí a entrada em “roubadas”, reproduz bastante da realidade do esporte e de tantos de seus “heróis”. Mas as semelhanças com filmes anteriores termina aí, nas cenas de treinamento e uma ou outra de luta sobre o ringue – e dos bastidores de negociações. Porque The Fighter procura revelar o entorno que envolveu a história de um entre tantos boxeadores dos Estados Unidos que chegaram ao topo da carreira.

Mais do que estas cenas conhecidas de treinamentos e lutas, The Fighter explora o ambiente familiar do lutador, a sua disputa por reconhecimento da mãe e das demais pessoas da família e, ao mesmo tempo, a batalha que ele trava para sair da sombra do irmão. Por este lado, o filme pode ser visto como uma reflexão entre tantas possíveis e que afetam diferentes áreas esportivas e de negócios. Quantas histórias já não ouvimos de irmãos que disputam o controle de empresas ou que se engalfinham para conseguir um holofote a mais nos palcos da vida – sejam eles esportivos, culturais ou na área que for?

Acrescentamos a este contexto ainda o tema das drogas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). E não falamos de um problema qualquer, mas de um viciado em crack. Por este lado, The Fighter serve como um alerta interessante e importante de como esta droga, considerada uma das piores de todos os tempos, pode chegar a todas as partes. Inclusive em um ambiente que, para muitos, é quase “imaculado”: o dos esportes. Antes mesmo de sabermos o nome do problema enfrentado por Dicky, fica evidente que ele tem um problema, e dos grandes. Algo que todos percebem, mas que muitos ignoram – o que reflete, mais uma vez, a realidade vivida por muitas pessoas fora dos cinemas.

Voltando a falar das interpretações, não é por acaso que Melissa Leo, que interpreta a mãe de Micky e Dicky, também levou para casa um Globo de Ouro, como Melhor Atriz Coadjuvante. Mesmo não concordando que ela teve a melhor interpretação do ano, entre as atrizes em disputa, devo admitir que a sua interpretação da forte Alice Ward merece ser aplaudida. Ela dá o tom exato para a mulher preocupada em educar os filhos, em equilibrar as relações dentro de casa e, claro, administrar as finanças domésticas. Equilibrando o perfil de mulher ambiciosa, injusta, amorosa, determinada, interesseira, “chefe da família” e, mais que tudo isso, humana e passível de erros e pedidos de perdão, a atriz rouba a cena da estrela Amy Adams. Apenas em alguns momentos, como ocorre com Bale e a própria Adams, Melissa Leo cansa um pouco por uma interpretação exagerada.

A negação da família para o problema de Dicky, a forma diferente com que cada um lida com este problema e as “interferências” da personagem Charlene Fleming (Amy Adams), a nova namorada do caçula de Alice Ward, tornam a história interessante além dos ringues. A exploração vivida por lutadores menos conhecidos, o tipo de situação e as lutas injustas às quais eles tem que se sujeitar até conseguirem se tornar campeões em alguma categoria, também fazem parte do contexto explorado pela história.

Ainda que ela seja rica e tenha muitos elementos que podem servir de alerta e para tirar o “glamour” do ambiente do boxe, esta história cansa um bocado por ser tão óbvia. Não há surpresas. Sabemos o que a droga faz com as pessoas, assim como temos uma boa ideia dos bastidores do boxe depois de tantos outros filmes terem explorado estes temas. Talvez o contexto familiar e da cidade de Lowell, tão carente de heróis – como tantas cidades dos Estados Unidos e do mundo, que insistem neste modelo de projeção para suprir suas próprias carências sociais – seja o diferencial desta produção, realmente. Sim, esta produção tem uma visão “social” diferenciada e, junto com as interpretações dos atores e alguns outros aspectos técnicos, faz valer o ingresso. Ainda que não seja tão emocionante e/ou impactante quanto poderia.

NOTA: 9 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Além do olhos esbugalhados e a magreza impressionante de Christian Bale, uma das primeiras características que chamam a atenção no início do filme é a direção de fotografia de Hoyte Van Hoytema. Para conseguir o efeito que vemos na tela ele e o diretor David O. Russell utilizaram câmeras dos anos 1990. Os equipamentos rodaram as cenas que reproduziram o documentário feito pela HBO do vício de Dickie Eklund e também as cenas de luta sobre os ringues. Um cuidado a mais para ambientar o espectador na história e dar maior “veracidade” para a produção.

Falando em história real, como os créditos deste filme deixam claro desde o começo, The Fighter narra parte da vida de Richard Eklund e seu irmão mais novo. Segundo este texto da Wikipédia, a carreira de Eklund no boxe durou 10 anos, de 1975 até 1985. O seu momento de “glória”, bem explorado por The Fighter, foi a luta que teve contra Sugar Ray Leonard em 1978. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Interessante que o filme não deixa claro se Eklund ganhou ou  não a luta. Mas o texto da Wikipédia deixa claro que, ainda que tenha lutado muito bem, Eklund perdeu a luta por decisão unânime dos árbitros. Em sua trajetória como pugilista profissional, Eklund ganhou 19 lutas, sendo quatro por  nocaute, e perdeu 10.

Segundo o mesmo texto da Wikipédia (SPOILER – não leia… bem, você já sabe), Eklund começou a usar crack depois que parou de lutar, em 1985. O filme America Undercover, da HBO, acompanhou a rotina dele por um ano e meio. O documentário High on Crack Street: Lost Lives in Lowell acompanhou o ex-pugilista e outros dois viciados em sua cidade natal. Mas diferente do que o filme mostra, Eklund não foi condenado a uma pena de mais de 10 anos de prisão apenas por ter agredido a um policial. Ele foi acusado, na época, por envolver-se em tentativas de roubo, sequestro e outros crimes. Chegou ao fundo do poço e ainda cavou um pouco mais.

Na tentativa de diferenciar-se de outros filmes, The Fighter acaba se focando demais na história de Eklund. Como aquele mesmo texto da Wikipédia e tantos outros deixam claro, o irmão mais velho de Micky Ward teve uma importância infinitamente menor para o boxe do que o homem interpretado por Mark Wahlberg. Ok, há quem argumente que, sem Eklund, talvez não existisse Ward – como pugilista, pelo menos. Até pode ser. Um irmão como Eklund influencia muito o garoto que veio depois… mas no filme o talento de Ward acaba sendo eclipsado pelo espaço que Eklund toma da história – e não apenas uma questão de desempenho nas atuações, mas de tempo e de foco do roteiro dado para cada um dos personagens.

E como era de se prever, quando surgem os créditos finais, as pessoas que vemos em cena são os verdadeiros Mickey Ward e Dicky Eklund. Duas figuraças, sem dúvida. Quem quiser saber mais sobre o Eklund, aqui é possível acessar a página oficial dele. Além de aparecer com o irmão nos créditos finais do filme, ele treinou Christian Bale e foi consultor da produção.

Neste outro texto da Wikipédia, é possível saber um pouco mais sobre a vida e a carreira de Micky Ward. Ele começou a lutar profissionalmente em 1985, justamente quando o irmão deixou os ringues. Depois de várias vitórias, Ward perdeu quatro lutas consecutivas e deu uma parada na carreira em 1990. Diferente do que é mostrado no filme, o pugilista teria voltado a lutar depois que Eklund, ao sair da prisão, o convenceu para isto. Ou seja: Eklund teria uma participação maior no êxito do irmão do que é mostrado na produção.

Em sua carreira, Ward contabilizou 51 lutas, tendo 38 vitórias, 27 por nocaute, e 13 derrotas. Algumas destas lutas foram eleitas pela revista especializada The Ring como as lutas de seus respectivos anos. As disputas com Arturo Gatti, bastante violentas, tornaram o pugilista famoso – em duas das três disputas entre eles os pugilistas acabaram tendo que ir para o hospital. Ward também tem um site oficial, que pode ser acessado neste link.

Além dos atores já citados, vale a pena comentar o bom desempenho de coadjuvantes como Jack McGee, que interpreta a George Ward, pai de Micky e segundo marido de Alice; e as participações especiais de Mickey O’Keefe e Sugar Ray Leonard interpretando a eles mesmos.

As cenas de luta foram muito bem planejadas e filmadas. Certamente deu um bocado de trabalho ter que reproduzir, com o maior nível de fidelidade possível, cenas de luta que realmente aconteceram. Mérito do diretor e de sua equipe – valendo citar a editora Pamela Martin.

Este filme só existe porque Mark Wahlberg investiu mais de quatro anos de sua vida para viabilizá-lo. E outros quatro dedicados a treinamentos para interpretar o papel principal. Chegou a procurar Martin Scorsese, mas não conseguiu convencer o diretor a filmá-lo. Segundo este texto de Bob Tourtellotte, da Reuters, Wahlberg ficou tão interessado por esta história porque viu muitos pontos em comum da sua biografia com a de Micky Ward. De acordo com o texto, os “dois cresceram na região de Boston, em famílias com nove filhos. Ambos foram garotos briguentos”. Além disso, Wahlberg acompanhou a carreira de Ward.

The Fighter estreou no dia 10 de dezembro em alguns cinemas dos Estados Unidos mas entrou, definitivamente, no circuito comercial uma semana depois. Dois dias antes, estreou nas Filipinas.

A produção, que custou US$ 25 milhões para ser realizada, conseguiu, até o dia 16 de janeiro, pouco mais de US$ 67 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos. Está dando lucro, mas certamente pode conseguir um desempenho melhor conforme os prêmios forem chegando – especialmente o Oscar.

Até o momento, The Fighter recebeu dois Globos de Ouro e outros seis prêmios, além de ser indicado para outros 16. Os Globos de Ouro foram para Christian Bale e Melissa Leo, ambos apontados como os melhores Ator e Atriz Coadjuvante de 2011. Bale recebeu ainda o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante pela Sociedade dos Críticos de Boston, no importante National Board of Review e pela Associação de Críticos de Washington DC. Além do Globo de Ouro, Melissa Leo foi premiada pela associação de Washington. O elenco do filme recebeu ainda o prêmio da Sociedade de Críticos de Boston, e o diretor David O. Russell ganhou como Diretor do Ano no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,3 para The Fighter. Os críticos que tem textos linkados no Rotten Tomatoes foram um pouco mais generosos: dedicaram 156 textos positivos e apenas 20 negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% – e uma nota média de 7,9.

CONCLUSÃO: Um história familiar que envolve o boxe, as drogas e a superação de problemas e desafios. The Fighter é baseado em uma história real e, por isto mesmo, expõe com legitimidade estes assuntos. Bem dirigido e com um desempenho bastante uniforme e de entrega de seus atores principais, este filme surpreende pela unidade e pelas boas intenções. Pena que, mesmo tornando o universo do boxe muito mais complexo e “humano”, este filme não consiga realmente surpreender ou emocionar. Para os que já assistiram a várias produções do gênero e acompanharam os melhores trabalhos dos atores envolvidos, The Fighter não surpreende. Os atores estão bem, a história é interessante, mas nem o filme e nem o elenco conseguem transformar esta peça de cinema em uma obra-prima ou um produto acima da média. É bom, mas há outros filmes melhores nesta mesma safra. De qualquer forma, vale a pena ser conferido pelos elementos comentados anteriormente, especialmente pelo desempenho dos atores e pela história curiosa de dois meio-irmãos que entregaram as suas vidas para a paixão do esporte do boxe.

PALPITE PARA O OSCAR 2011: The Fighter me surpreendeu ao receber seis indicações para o Globo de Ouro. Ok, eu esperava que a produção fosse indicada nas categorias de Melhor Filme – Drama, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Atriz Coadjuvante e, talvez, Melhor Diretor. Mas foram um pouco surpreendentes as indicações para Melhor Ator e Melhor Atriz.

Com a força do nome Weinstein na produção e, claro, a qualidade do filme, The Fighter deve repetir boa parte das indicações no próximo Oscar. Contribui para isso também outros dois fatores: a boa recepção que o filme teve e está tendo com a crítica e o fato do Oscar ter espaço para 10 produções serem indicadas na categoria de Melhor Filme.

Acredito que The Fighter deve ser indicado nas categorias óbvias (Melhor Filme, Ator e Atriz Coadjuvante) e, talvez, emplaque em alguma outra, como Melhor Diretor. Chances reais para ganhar algo? Aposto em Christian Bale para ganhar como Melhor Ator Coadjuvante. E só. Claro que a Academia pode seguir os passos do Globo de Ouro e premiar a Melissa Leo. Não será uma injustiça, porque ela está bem, muito bem no filme. Mas, cá entre nós, eu prefiro Mila Kunis em Black Swan. Achei um trabalho mais interessante e cheio de nuances. O desempenho de Leo é bastante reto e previsível. Além disso, podem entrar na disputa Helena Bonham Carter, por seu desempenho em The King’s Speech; Jacki Weaver por Animal Kingdom; e Elle Fanning por Somewhere. A disputa será boa.

Não vejo que a produção tenha chances nas outras categorias, especialmente nas principais.

Black Swan – Cisne Negro

A busca incessante pela perfeição é angustiante, perigosa, cobra um preço alto e dá como frutos beleza e terror. Black Swan, o mais novo grande trabalho do brilhante Darren Aronofsky, poderia ser mais um filme sobre a fixação de uma jovem pelo estrelato, pelo sucesso e reconhecimento. Mas não. A forma diferenciada de Aronofsky em contar esta história, bebendo da essência do clássico que é “homenageado” e que serve de espinha dorsal da história, assim como a interpretação perfeccionista e brilhante de Natalie Portman transformam Black Swan em uma rara e preciosa peça de cinema. Um filme que tem uma proposta muito clara e que consegue, como poucos, ser fiel a esta proposta do início ao fim.

A HISTÓRIA: Uma bailarina, vestida de branco, desliza suave e com movimentos precisos em uma pequena área iluminada cercada de escuro. Quando ela abaixa e se senta no chão, reconhecemos Nina Sayers (Natalie Portman). Logo ela se levanta, sentindo a presença de Rothbart. Ela tenta fugir, mas ele a persegue. A câmera segue veloz os movimentos dos artistas, e mostra quando o Cisne Branco é enfeitiçado por Rothbart. Corta. Nina acorda animada, faz alguns exercícios em casa e conta para a mãe, Erica (Barbara Hershey) sobre o sonho que teve, no qual dançava o Cisne Branco. Ela come frutas no café da manhã e segue para a companhia dirigida por Thomas Leroy (Vincent Cassel). Prestes a perder a sua principal estrela, Leroy propõe uma releitura ousada do clássico O Lago dos Cisnes. Em sua montagem, o Cisne Branco e o Negro serão interpretados pela mesma bailarina. Nina faz de tudo para assumir o papel, mas deve enfrentar a concorrência das demais bailarinas e seus próprios demônios para conseguir interpretar o papel duplo.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Black Swan): Nos primeiros minutos do filme, o espectador é apresentado a dois dos três elementos principais que fazem de Black Swan uma obra diferenciada: a fluidez na direção de Aronofsky e a tão divulgada e comentada entrega para o papel da atriz Natalie Portman. Conforme a história vai se desenvolvendo, soma-se a estes dois elementos o roteiro provocante do trio Mark Heyman, John J. McLaughlin e Andres Heinz, este último o autor da história original que foi transformada em roteiro.

Em uma época em que o balé clássico, a dança e o teatro em geral – não apenas o alternativo – lutam de maneira inglória para conseguir alguma audiência, Black Swan surge para desafiar o senso comum. Não deixa de ser interessante assistir a um filme como este no mesmo ano em que o grande premiado da temporada seja The Social Network. Por um lado, temos a história do criador do Facebook, que retrata uma época de superexposição voluntária e pública da intimidade das pessoas. Por outro, a história de uma garota obcecada por brilhar em uma profissão com cada vez menos audiência. Mark Zuckerberg e Nina Sayers tem pelo menos duas características em comum: são dedicados, perfeccionistas e, ao mesmo tempo, tem uma certa dificuldade em se relacionarem com as pessoas.

Fora estas semelhanças e ironias entre os dois filmes, destaques desta temporada de premiações em Hollywood, outro ponto aproxima Black Swan e The Social Network: as duas produções são um bocado “anti-um grande público”. Como comentei na crítica sobre The Social Network, o fato dele tratar de um tema que nem todos dominam, utilizando termos técnicos e uma verborragia um tanto incomum para Hollywood, torna-o diferenciado da “vala comum” dos filmes comerciais produzidos por aquela indústria. E Black Swan, então… além de tratar de uma peça clássica do balé, ele é um filme autoral, com as estranhezas e sabores do cinema de Aronofsky.

Eu sou fã do diretor desde Requiem for a Dream. Sem dúvida, este filme do ano 2000 está na minha lista de preferidos, de todos os tempos. Fascinada com aquela produção, fui atrás de sua obra anterior, o fantástico Pi. Quem assistiu a estes dois filmes verá, em Black Swan, a digital do diretor. O tom macabro, dúbio, fragmentado e provocante de Pi volta com força nesta nova produção. Mas tecnicamente falando, em Black Swan Aronofsky consegue dar mais um passo em direção à perfeição. Ele assume a alma da produção e reproduz, com a câmera, a fluidez, singeleza e perfeição do balé. Nós viajamos com ele, assumimos a melhor ótica para cada cena. E mesmo quando a câmera de Aronofsky não está dançando, ela se aproxima dos personagens, tenta extrair a pulsação deles e exprimir a emoção de cada momento. Desta forma, o espectador é impelido a sentir-se angustiado, provocado, em dúvida, excitado, e surpreso.

Black Swan é uma verdadeira obra de cinema. Destas nas quais o diretor consegue conduzir a história de tal forma que manipula os sentimentos e sensações dos espectadores a seu bel-prazer. Mergulhamos no processo de criação de uma obra e nos bastidores de uma companhia. E mais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Adentramos na angústia perfeccionista da protagonista, uma garota sem experiência de vida, obcecada por ser a melhor bailarina da companhia, que se alimenta pouco – e vomita esse pouco para continuar magérrima, exemplo da bulimia que se tornou um bocado comum entre algumas bailarinas e modelos -, vive em função da dança, e que tem na própria mãe o pêndulo da cobrança e do controle constante. Sem contar a competição. Fascinante a forma com que a garota vai enlouquecendo e, ao mesmo tempo, ganhando a profundidade exigida por sua personalidade dupla no balé prestes a estrear.

No início do filme, especialmente, naquelas cenas no metrô, Black Swan me fez lembrar outro filme brilhante: La Double Vie de Véronique, do fantástico – e mais que recomendado – diretor Krzysztof Kieslowski. Não sei até que ponto a semelhança foi uma espécie de “homenagem” de Aronofsky para o genial Kieslowski, mas é importante lembrar a origem destas “brincadeiras” de sentido. Além de uma direção dinâmica e “bailarina”, Black Swan conta com uma frequente sensação de paranoia e de evolução da personagem principal que torna o seu roteiro psicológico.

Aronofsky e os roteiristas jogam, o tempo todo, com a dúvida do espectador. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Desde o início, a aposta mais evidente é de que Nina Sayers está enlouquecendo. Pela falta de alimentação e descanso, pela alta competitividade que lhe cerca e, principalmente, pela pressão do papel duplo e da expectativa pela substituição da estrela Beth Macintyre (Winona Ryder). As alucinações dela, que passa a ver uma outra Nina perambulando por aí, é o termômetro de que as coisas vão mal e continuarão piorando. Mas até este elemento cria dúvidas no espectador, porque inserem um elemento “sobrenatural” na história. Ou sugerem, pelo menos.

Ainda que a grande estrela do filme seja Natalie Portman, importante destacar pelo menos três outros nomes que acabam sendo fundamentais para esta produção – inclusive como “escada” para a protagonista: o experiente Vincent Cassel como Thomas Leroy; a enigmática, encantadora, fascinante e “competitiva” Mila Kunis como Lily e, finalmente, a veterana Barbara Hershey como Erica, mãe de Nina. Os três estão perfeitos em seus papéis cheios de dupla interpretação – suas ações e reações ganham outros contornos conforme a leitura da protagonista, o que torna a história ainda mais interessante. Dizem que Meryl Streep havia sido cogitada para o papel da mãe de Nina mas, cá entre nós, Barbara Hershey tinha muito mais a ver com o papel. Que bom que ela foi a escolhida.

Black Swan me fez lembrar outro filme, um clássico maior que aquele comentado do Kieslowski: All About Eve, com as fantásticas Bette Davis e Anne Baxter. No filme de 1950, não tínhamos nenhuma sugestão de “sobrenatural” acontecendo, mas uma disputa acirrada entre duas atrizes. Algo visto em Black Swan, entre as duas bailarinas aspirantes ao estrelado – e sugerido entre Nina Sayers e Beth Macintyre e todas as demais bailarinas jovens que pretendem substituir rapidamente a estrela “decadente”.

O interessante de Black Swan é que estas referências a outras filmes não tornam ele uma “cópia” ou uma coleção de referências sem inventividade. Pelo contrário. As lembranças que ele traz de outras produções de qualidade apenas enriquecem a produção e deixam ela mais saborosa, mas não menos criativa. Com uma direção inspirada, um grupo de atores que literalmente se entregaram para os seus papéis e um cuidado técnico de tirar o chapéu, Black Swan envolve e prende o espectador mais do que o esperado. Equilibrando drama, suspense, um tom “fantástico” e artístico, este filme cumpre o seu papel do início ao fim. Algo bastante raro nos dias de hoje, quando muitos filmes, inclusive os de qualidade, costumam apresentar aquele quase inevitável momento de “baixa” na narrativa. Mas não aqui. E o melhor: como em qualquer grande peça de balé, Black Swan também tem o seu “grand finale”. Perfeito.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Pode parecer óbvio, em um filme que tem a alma de um clássico repaginado do balé, mas dois elementos técnicos são fundamentais nesta produção: a direção de fotografia de Matthew Libatique e a trilha sonora de Clint Mansell. A primeira joga o tempo todo com tons crus, geralmente carregados, muito mais escuros do que iluminados, em um mergulho constante em tons cinzas ou mais escuros. A razão para isto é óbvia: o caminho obscuro e denso/tenso que pode levar uma pessoa até o estrelato. A trilha sonora é fundamental, porque ela justifica a maior parte da “dança” da câmera do diretor e o ritmo assumido pelo filme. Mérito de Mansell, antigo colaborador de Aronofsky. Soma-se a estes elementos a edição fundamental de Andrew Weisblum. Essa edição, em parceria com a “câmera na mão” e em sistemas versáteis adotados pelo diretor, é responsável pelo tom dinâmico da produção.

Não deixa de ser irônica a escalação de Winona Ryder como a estrela decadente Beth Macintyre. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). A atriz faz praticamente uma ponta neste filme. Aparece pouco. Mas a sua própria trajetória, de atriz famosa que foi envolvida em vários escândalos e foi perdendo, na mesma proporção, o convite para bons papéis, reflete-se na personagem do filme de Aronovsky. Em algumas cenas, a decadência e/ou semiloucura da personagem chega a arrepiar. Depois de Mickey Rourke, em The Wrestler, este parece mais um resgate irônico e com certa crítica ao mainstream fomentada pelo diretor. Mas, diferente de Rourke, desta vez Ryder não ficou com o papel de protagonista e, por isso, praticamente some na produção.

Uma cena específica da produção deu o que falar e serviu como um bom chamariz para os que se interessam por temas “picantes”. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me refiro à provocante e sensual sequência em que Natalie Portman se atraca com Mila Kunis. Muito bem conduzida e interpretada, a cena está perfeitamente justificada na produção. Poderia não estar, como tantas outras “cartas” polêmicas inseridas em algumas outras produções que inserem sequências lésbicas provocativas apenas como “chamariz”. Aqui não. O atraco entre Nina e Lily se justifica pela imagem que a segunda representa para a primeira desde o princípio. Além disso, a libido de Nina estava incitada após o desafio de Thomas para que ela começasse a experimentar a sua própria sexualidade. E ela foi neste caminho, rendendo cenas provocativas com Thomas e a já famosa sequência com Lily.

Black Swan tem uma trajetória recente. Estreou em setembro no Festival de Veneza e, a partir daí, passou pelos festivais de Telluride, Toronto, New Orleans, Londres, Austin, Virginia, da AFI, Denver, Saint Louis e Thessaloniki. Até o momento, o filme ganhou três prêmios e foi indicado a outros 22, incluindo quatro Globos de Ouro: Melhor Filme – Drama, Melhor Diretor, Melhor Atriz – Drama e Melhor Atriz Coadjuvante – Drama. Os dois últimos, claro, para Natalie Portman e Mila Kunis.

Os prêmios recebidos pelo filme, até agora, foram os seguintes: Melhor Atriz, para Natalie Portman, e Melhor Edição para Andrew Weisblum no Prêmio da Associação de Críticos de Boston e o prêmio Marcello Mastroiani para Mila Kunis no Festival de Cinema de Veneza.

Black Swan se saiu bem na opinião dos usuários do site IMDb: conseguiu a nota 8,6. Só para comparação, maior do que a de The Social Network: 8,2. No site Rotten Tomatoes o filme também foi bem: conseguiu a aprovação de 88% dos críticos, ou, em outras palavras, recebeu 185 críticas positivas e 25 negativas. A nota média recebida pelo filme foi de 8,2 – nada mal, para os padrões dos críticos que tem textos linkados no site. Um de seus concorrentes no Oscar, King’s Speech, teve um desempenho melhor: conseguiu a aprovação de 95% dos críticos – com nota média de 8,7. E o concorrente principal da produção, The Social Network, conseguiu uma avaliação ainda melhor: 97% e uma nota média 9. Nada mal – e mais uma prova que o filme é o favoritíssimo no próximo Oscar.

O filme de Aronofsky custou US$ 13 milhões e faturou, até o dia 9 de janeiro, pouco mais de US$ 61,2 milhões apenas nos Estados Unidos. Nada mal. Especialmente por se tratar de um filme um bocado “alternativo”. Com certeza o grande chamariz da produção tem sido a avalanche de comentários positivos para o desempenho de Natalie Portman. E a bilheteria só tende a aumentar conforme a atriz for abocanhando novos prêmios. O mesmo vale para Mila Kunis.

Para os que ficaram curiosos para saber onde a produção foi rodada, Black Swan foi interiamente filmado em Nova York.

O grande Vincent Cassel comparou o seu personagem a George Balanchine, co-fundador do Ballet da cidade de Nova York. Segundo Cassel, Balanchine era um controlador extremo, um “verdadeiro artista que usava a sexualidade para direcionar os seus dançarinos”. Parece que o ator francês realmente se inspirou nesta linha. 🙂

Uma curiosidade sobre a produção: inicialmente ela iria ser ambientada nos bastidores do teatro de Nova York. Aronovsky gostou da ideia, do roteiro, mas pediu para que ele fosse transportado para o balé. Sem dúvida, um acerto. Sobre os bastidores do teatro e a competição entre atores existem muitos filmes, mas com o mesmo foco no ambiente do balé, não.

Impressionante a preparação de Natalie Portman e de Mila Kunis para os seus respectivos papéis. Quem quiser saber mais detalhes sobre a preparação das atrizes, o site IMDb traz detalhes neste link. Vale comentar que, apesar da entrega e da preparação pesada de Natalie Portman para o seu papel, em algumas cenas com movimentos muito complexos, ela contou com a ajuda da “dublê” e bailarina profissional Sarah Lane.

Em uma entrevista para a divina Ana Maria Bahiana, Aronovsky disse que Black Swan “é mais um conto de fadas do que um estudo da mente humana. É a antiga disputa da luz contra a sombra. É uma jornada pelo mundo das sombras”. E eu diria que esta é uma boa definição. E outra curiosidade: a irmã de Aronofsky fez balé por muito tempo, por isso o fascínio e o conhecimento do diretor deste mundo – e seu interesse em transportar a história do teatro para o balé. Bacana, hein? Foi a irmã dele que comentou que, muitas vezes, a bailarina do clássico interpreta a Rainha dos Cisnes e o Cisne Negro ao mesmo tempo.

CONCLUSÃO: Um filme intenso, pulsante, que mergulha na arte e na força do ballet. Se aprofunda, também, nos efeitos de uma busca incessante pela perfeição. Mais um grande trabalho do diretor Darren Aronofsky, um dos jovens cineastas autorais que manteve, até o momento, uma filmografia digna de ser vista do início ao fim. Contando com uma câmera ágil, um roteiro envolvente e uma entrega dos atores principais digna de prêmios, Black Swan atinge com perfeição todas as suas promessas. Trata da arte e de suas múltiplas interpretações na mesma forma com que joga com a libido do espectador. Uma produção sem erros, com a marca de seu realizador e um trabalho incrível da atriz principal. Merece ser vista – com tempo e sem receios.

PALPITES PARA O OSCAR 2011: Black Swan tem alguns grandes concorrentes pela frente. The Social Network é um filme competente e que consegue resumir, de uma maneira que outras produções premiadas fizeram anteriormente, o seu próprio tempo. Ainda assim, mesmo que esta próxima edição do Oscar tenha quatro ou cinco grandes concorrentes na disputa, acredito que Black Swan poderá figurar com indicações nas principais categorias.

Para o deleite das pessoas que gostam do bom cinema feito nos Estados Unidos, nos últimos anos o Oscar tem dado cada vez mais espaço para os filmes “independentes” ou, se preferirem chamar, para as produções de baixo orçamento. Black Swan caminha nesta linha. Pela qualidade técnica do filme e sua veia artística escancarada, acredito que a produção deverá ser indicada para as principais categorias. Disputará em Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Original, Melhor Edição e, possivelmente, Melhor Atriz Coadjuvante. Talvez consiga aparecer em alguma outra categoria técnica. É de se esperar.

Entre as categorias que eu tenho como certas que ele vá concorrer, acredito que as melhores chances do filme estejam em Melhor Atriz, Melhor Atriz Coadjuvante (com menos chance) e Melhor Diretor. Pessoalmente, gostaria muito que Aronofsky ganhasse, mas ele terá um páreo duríssimo com “a bola da vez”, David Fincher. Natalie Portman provavelmente levará o Oscar, mas também não seria de todo injusto se Annette Bening surpreendesse a todos e levasse o prêmio para casa.

Além de Fincher, o grande concorrente de Aronofsky no prêmio é Tom Hooper. Eu torço para Aronofsky e, em segundo lugar, Fincher, ainda que eu acredite que o segundo vá ganhar – junto com o seu filme. Nas categorias técnicas, Black Swan pode abocanhar alguns prêmios, especialmente em edição. É esperar para ver – e, neste domingo, o Globo de Ouro será um bom termômetro.

SUGESTÕES DE LEITORES: Meus caros, vocês devem ter observado que eu estou super-mega-ultra atrasada com as respostas para vocês. Mas pouco a pouco vou colocando a nossa conversa em dia. Como só agora estou tendo tempo para começar esse processo, devo admitir que cometi uma falha. Há tempos eu estava monitorando para assistir a Black Swan, mas muito antes de conseguir fazer isso, vários leitores deste blog comentaram sobre o filme. E vocês sabem que qualquer comentário eu considero uma sugestão para o blog, mesmo que isso não esteja totalmente declarado. Então eu devo dizer que o primeiro a indicar Black Swan, no final de dezembro de 2010, foi o Túlio. Alguns dias depois, a segunda pessoa a falar do filme foi o Vander. Então, meus bons, muito obrigada pela dica e pela “forcinha” para que eu assistisse a Black Swan. Pela correria, só fui ver ele tempos depois. Mas vale aqui o registro. E se eu reparar que outros indicaram o filme antes que eu publicasse o texto dele aqui, vou citá-los em seguida.