Le Congrès – The Congress – O Congresso Futurista

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O cinema é feito de imaginação. Alguns filmes sabem e/ou preferem usar mais este recurso que outros. Le Congrès é um destes exemplares que mergulha fundo na imaginação. Dos realizadores e, consequentemente, do espectador. A exemplo de Sen to Chihiro no Kamikakushi (A Viagem de Chihiro) e outros filmes “viajandões”, Le Congrès exige um pensamento menos apegado à realidade e mais livre. Porque ele nos leva por lugares surpreendentes.

A HISTÓRIA: Robin Wright está sentada, e chora. O olhar fixo dela para a frente muda de direção quando Al (Harvey Keitel) chama a atenção da atriz. Ele diz que a ama, e que sempre esteve com ela. Em todas as situações, mesmo quando ela, com medo, tentava desistir de um projeto. Muitas vezes, Robin usava o filho Aaron (Kodi Smit-McPhee) como “desculpa” para fugir dos compromissos, acusa Al. Que continua dizendo que a história da vida dela foram as escolhas ruins. Mas que agora ela não deve errar novamente e ceder em um contrato que a afastará definitivamente da profissão de atriz. Robin deve pensar bem a respeito, colocando na balança suas crenças e aspirações.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Le Congrès): Foi com certo choque que eu assisti aos primeiros minutos deste filme. Isso porque, estimulada pelo cartaz de Le Congrès, eu esperava um filme inteiro animado. Mas não. Uma boa parte desta produção é de cenas filmadas, com atores reais. Nada que impeça que lá pelas tantas a história mergulhe no terreno que o diretor Ari Folman sabe tão bem explorar: o da animação.

Outro elemento que me impressionou, logo no início deste filme, foi o realismo da produção. Pelo título original – e mesmo pela adaptação dele no mercado brasileiro -, eu estava esperando tudo, menos uma história que começasse tratando de algo tão realista quando a supremacia dos grandes estúdios sobre o trabalho dos atores e dos demais profissionais que fazem o cinema.

O roteiro escrito por Folman, uma adaptação do romance The Futurological Congress do escritor Stanislaw Lem, acaba sendo mais crítico do que eu esperava. Se bem que nada disso é totalmente surpreendente vindo de Folman, a figura responsável pelo ótimo Vals Im Bashir (comentado aqui no blog). Pensando no histórico do diretor, seria impossível não imaginar que o novo filme dele teria uma pegada crítica.

Desta vez o alvo de Folman é o cinema e a necessidade das pessoas saírem cada vez mais de sua própria realidade para conseguirem sobreviver. Nesta crítica, ele mistura a realidade com a fantasia, exagerando nas cores sem, contudo, tornar o cenário futurista descolado da realidade atual. É como se tivéssemos um futuro com uma pegada de realidade exagerada. Ou, para o gosto de alguns, um futuro possível – mas com algumas lacunas lógicas que precisariam ser explicadas.

Há algum tempo a lógica do cinema dos grandes estúdios foi suplantada por uma outra lógica: a dos atores e diretores sindicalizados e melhor organizados, com poder suficiente para bancar os seus próprios projetos e/ou conseguir convencer os estúdios para embarcar em um determinado filme. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Ainda assim, em Le Congrès o diretor e roteirista Folman defende o argumento que nada mudou tanto assim.

No fundo, para os executivos dos estúdios, os atores e seus “gênios” (leia-se personalidade, aquilo que faz com que eles não cumpram os prazos ou digam “amém” como os executivos gostariam) são um atraso de vida. Eles apenas prejudicam a eficiência em conseguir cada vez mais dinheiro. E ainda que este filme seja exagerado na dose, é evidente que os executivos – e não apenas do cinema – pensam assim. Personalidade não é algo que facilite a vida deles.

Não sabemos exatamente em que momento a história de Le Congrès começa. Mas os realizadores dão a entender que seria em um futuro próximo. Nesta fase da “evolução” humana, a tecnologia relacionada ao cinema avançou ao ponto de que é possível escanear um ator, seus gestos e expressões ao ponto de que histórias inteiras poderão ser criadas depois, em computador, utilizando aqueles dados para conseguir uma “interpretação” daquele ator/atriz.

O que está em jogo, então, não é o talento, e sim o direito de imagem. E é neste ponto em que encontramos a personagem/atriz Robin Wright. O agente que a acompanha nos últimos 24 ou 25 anos, Al, está tentando convencê-la a assinar um contrato com o grande estúdio para o qual ela trabalha no qual ela abre mão de sua imagem. Faz parte das regras ela abandonar a carreira – não poderá mais atuar como atriz em parte alguma, nem na TV, no teatro, ou em qualquer outro lugar.

Robin vai ganhar tanto dinheiro com isso que não precisará se preocupar mais com trabalhar. Por um lado, a perspectiva parece boa. Afinal, ela tem um filho com uma doença grave, Aaron, com quem ela quer passar mais tempo e se dedicar mais. Mas por outro, e aí a dúvida da personagem, ela terá que abrir mão do próprio talento. Sem contar a capacidade de escolher em que projetos a sua “personagem” (ela mesma, mas virtual) poderá se envolver.

A premissa é muito louca mas, se pararmos para analisar, bastante coerente com os desejos de algumas corporações. Para as quais pouco importa o talento ou a vontade humana. O que interessa mesmo é o dinheiro e o lucro. O cinema atual utiliza tanto a tecnologia em alguns filmes, com vários personagens sendo criados totalmente por CGI – vide a grife The Lord of the Rings ou Avatar), que não seria uma surpresa, em breve, alguém cogitar de abrir mão totalmente dos atores.

Claro que a possibilidade de toda a categoria se render a essa ideia me parece exagerada. Sempre haverá atores mais “engajados” em dar voz ao próprio talento e que não vão abrir mão disso por causa de outras prioridades – como a família. Mas aí que Folman toca em um ponto interessante: a indústria dizendo que aqueles que não entrarem no jogo vão não apenas perder dinheiro, mas serem totalmente esquecidos.

E essa lógica é a mesma de qualquer indústria forte mundo afora. Quem domina um mercado – de canais de TV até jornais, grupos editoriais, estúdios de cinema e por aí afora – acaba colocando as cartas na mesa e pressionando os “peões de chão de fábrica”. O trabalhador é pressionado com “se você não quer aceitar isso, há quem queira”. E daí as pessoas cedem. Sempre e quando não se unem, evidentemente.

Pois bem, Robin acaba sendo pressionada por todos os lados e cede. Como outros atores. Ela negocia o próprio contrato – um dos pontos mais interessantes do filme, quando o próprio cinema é questionado. O advogado especialista em contratos de escaneio, Steve (Michael Stahl-David), orienta Robin sobre os detalhes do que eles devem propor para o estúdio – o nome do estúdio, Miramount, aliás, brinca com o real estúdio Paramount – falarei mais desta escolha mais abaixo.

No fim das contas, Robin, taxada como uma atriz que só fez escolhas ruins na carreira – uma paródia sobre a própria atriz e, através dela, de muitas outras intérpretes que nunca “decolaram” pra valer ou demoraram para fazer isso -, acaba cedendo à pressão. Assina um contrato por 20 anos – que, depois, deve ser renovado, podendo mudar as regras estabelecidas.

E é então que o filme dá um salto para o futuro. Robin Wright, até então, interpreta a sua personagem em carne e osso. Quando o contrato termina, ela é chamada para o Congresso Futurista da Miramount. O local: um hotel paradisíaco planejado para encantar as pessoas alucinadas por viver os seus personagens e/ou encarnar os seus atores preferidos do cinema. Em mais uma crítica à própria indústria, a história só aí mergulha na animação.

E aí, meus amigos e amigas, é quando Folman destila toda a sua liberdade “poética”. O filme faz uma guinada poderosa pela psicodelia, com o característico excesso de cores e de trocas de cenários e personagens. No hotel, Robin se depara com frequentadores que vivem tomando suas poções de “escape”. E daí entra outra crítica poderosa da produção: desta vez, o foco não é o cinema, mas o público dele (e da TV, e outros meios), cada vez mais sedento por viver a vida do outro e não a própria vida.

Ah, meus caros, é aí que o filme entra em uma “bad trip”. Porque, e isso você só vai pensar melhor depois, já que a narrativa entra em uma velocidade mais acelerada, como apenas a animação poderia permitir, nada mais chocante do que vermos a nossa realidade atual potencializada em um futuro alucinógeno literalmente. Convidadas pelo estúdio Miramount que, como é o sonho de qualquer “indústria do entretenimento” atual, virou muito mais que um estúdio, as pessoas passam a embarcar em uma vivência totalmente deslocada da realidade.

E não é isso o que muitas drogas fazem com os indivíduos atualmente? Levá-las para um “mundo” de prazer e êxtase no qual elas esquecem da própria vida? O problema das drogas atuais é que elas provocam isso por apenas alguns instantes e, nem sempre, deslocando a pessoa totalmente da realidade. Mas em Le Congrès, no futuro da Miramount, eles chegaram ao ponto de conseguirem substâncias que podem fazer as pessoas acreditarem que são o que elas querem ser.

A personagem de Robin fica chocada com o que vê. E tenta falar, para uma multidão, o que qualquer pessoa sã falaria: de fato vale se descolar da própria realidade para viver a vida de outra pessoa que, no fim das contas, também é feita de carne e osso? Isso sim eu chamo de dar um tapa na cara da sociedade! Mesmo sem ir para o futuro, falando dos tempos atuais, quantas pessoas passam horas, dias, meses de suas vidas lendo notícias sobre artistas e sonhando em ser igual a eles/as? E para que, no final? Na realidade não somos todos feitos das mesmas substâncias?

O duro é as pessoas perceberem isso e passarem a viver a própria vida, dedicando a sua energia, tempo e talento para mudar a própria realidade e o mundo ao redor para o bem. Le Congrès argumenta que é mais “fácil” e/ou convidativo as pessoas viverem a vida dos personagens e/ou astros preferidos e não a própria e “ordinária” vida. Com a ajuda de Dylan Truliner (com a voz de Jon Hamm), o desenhista que trabalhou com a imagem de Robin escaneada nos últimos 20 anos,  a atriz consegue se despedir daquele mundo animado e de ilusão e voltar para o mundo real.

O objetivo dela é procurar o filho, que ficou sozinho enquanto ela era mantida congelada após passar por uma forte crise de “descolamento” da realidade com a invasão do paraíso onde o Congresso Futurista estava sendo realizado. Robin não sabe se vai conseguir encontrar Aaron, mas ela se agarra à última oportunidade que ela tem para encontrar o filho.

Na reta final da produção, Folman não deixa o espectador sem uma resposta. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ele poderia ter feito isso, ter deixado a história em aberto – no estilo “uma mãe que segue procurando o seu filho”. Mas não. Ele não quer nos dar falsas esperanças. Os dois filhos de Robin, movidos por razões diferentes, se entregam àquela vida de ilusão da qual a atriz queria escapar.

Qual pode ser a saída de Robin para reencontrar o filho? O médico e amigo da atriz, Dr. Barker (Paul Giamatti) aponta para a única direção possível: ela também deve entrar naquela mundo de ilusão. Mas como todas as outras pessoas que abraçaram aquela realidade, ela deve escolher que “personagem” ela quer encarnar. E daí vem o golpe de mestre final de Folman: Robin escolhe “viver” a vida do filho, Aaron.

Passando por tudo que o garoto passou, da infância até a vida adulta, ela consegue, finalmente, encontrá-lo no mundo de fantasia. Afinal, ela vivenciou tudo que ele passou e pensava como ele. Um final lindo, poético e aconchegante. Ainda que Robin tenha, no final, se entregado para aquela realidade que ela combatia. Tudo, afinal, por causa do amor. Existe algum motivo mais nobre?

NOTA: 9,4.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Não foi por acaso que Le Congrès brinca com o nome da Paramount. Este estúdio, criado em 1912, foi um dos maiores e um dos mais lucrativos da Hollywood dos anos 1920, 1940 e 1970. Ou seja, participou ativamente de uma era em que os estúdios ditavam todas as regras – antes dos atores e diretores começarem a ter mais voz. Além disso, a Paramount soube investir no apelo de estrelas, da animação e, mais recentemente, na alta tecnologia. Elementos importantes para a história de Le Congrès.

Este é um filme que mistura fantasia, realidade, ficção e animação. Por isso mesmo, não dá para cobrar lógica na história o tempo todo. Mesmo sabendo disso, devo comentar alguns “detalhes” que chegaram a me incomodar no filme ao ponto de não considerá-lo irretocável. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Me incomodou, especialmente, a falta de viabilidade daquele futuro em que todas as pessoas vivem em ilusão permanente – após Robin voltar da hibernação “congelada”. Quando ela “cai na realidade”, vê um monte de gente suja, que parece em transe, andando pra cá e para lá – ou parada.

Certo. (ALERTA – o SPOILER continua neste parágrafo). Mas se todos vivem em uma realidade de fantasia, quando elas fazem as necessidades básicas – tipo comer, ir no banheiro, dormir, etc. Não me digam que estas necessidades vitais passam a não valer mais… porque, no fim das contas, as pessoas seguem tendo corpos, correto? E se existe carne e osso, existem as necessidades básicas para manter os corpos saudáveis. Não parece que estes cuidados faziam parte daquela realidade, o que me parece totalmente irreal. E beleza se não tivéssemos saído da vida fantasiosa, mas ir para aquela realidade sem que ela fizesse sentido, me pareceu um descuido dos realizadores de Le Congrès. Esse é o único problema da produção.

Gostei do trabalho de todos os atores envolvidos neste projeto. Mas é impossível não destacar o excelente desempenho de Robin Wright que, digamos assim, se “auto-interpreta”. Claro que o diretor e roteirista Ari Folman soube explorar alguns dados reais da atriz para construir esta personagem de Le Congrès – tornando ainda mais evidente a brincadeira e mistura entre ficção e realidade.

Vejamos: Robin Wright, a atriz na vida real, também teve dois filhos, a exemplo da Robin Wright de Le Congrès. No filme, ela também está educando os dois filhos sozinha – Robin Wright foi casada duas vezes, primeiro com Dane Whiterspoon (entre 1986 e 1988) e, depois, com Sean Penn (entre 1996 e 2010). Com o segundo, teve dois filhos: Dylan e Hooper – a garota tem 22 anos e o rapaz, 20. Eles aparecem juntos nesta matéria da Daily Mail. Mas diferente do garoto de Le Congrès, Hooper não tem uma doença grave e já começou a trilhar o caminho dos pais, atuando como ator. A irmã, Dylan, também está começando a experimentar na profissão.

Para muitos críticos, Robin Wright foi a típica promessa que nunca se cumpriu. Na vida real, a atriz de fato recusou papéis importantes – seja porque descobriu que estava grávida, a exemplo dos papéis que deixou para trás em The Firm ou Robin Hood: Prince of Thieves, seja porque não acreditava nos projetos, como em Batman Forever ou Sabrina, entre outros. Da minha parte, sempre achei ela uma ótima atriz, mas que nem sempre foi valorizada. Por isso mesmo, fico feliz com o acerto dela com a ótima série House of Cards. Finalmente Robin Wright parece estar tendo o reconhecimento merecido. E em Le Congrès ela dá um show, mais uma vez.

Todos os atores de Le Congrès estão bem. Além dos já citados na crítica, vale comentar o bom trabalho de Danny Huston como o executivo Jeff, aquele que está sempre negociando com Robin no filme; e Christopher B. Duncan como Christopher Ryne, o responsável por escanear os atores que aderiram ao projeto da Miramount. Além deles, fazem pontas na produção Michael Landes como Maxi, que “contracena” já no novo modelo de produções com a imagem da atriz Michelle, interpretada por Sarah Shahi; e Evan Ferrante dá a voz para o Tom Cruise que encontra Robin no Congresso Futurista. Durante o filme eu não reconheci a voz de Jon Hamm, conhecido pela série Mad Men, para o personagem Dylan. Mas ele faz um bom trabalho na dublagem.

Da parte técnica do filme, destaco a sensibilidade e o estilo do diretor Ari Folman. Ele tem claro qual é a proposta que quer consolidar e como conseguir passar a sua mensagem. Conhece sobre cinema e sabe explorar seus diferentes recursos, das cenas dramáticas reais até a animação, para envolver o público em sua história crítica e cheia de fantasia. Muito bom! Também gostei da direção de fotografia de Michal Englert, que soube valorizar bem a luz da parte filmada de Le Congrès. Vale citar ainda a trilha sonora de Max Richter e a ótima edição de Nili Feller.

Menção especial para a equipe de 20 profissionais coordenados por Yoni Goodman e que foram responsáveis pela parte de animação do filme. Ótimo trabalho – ainda que eu tenha achado menos potente que o feito em Vals Im Bashir (comentado aqui).

Le Congrès estreou em maio de 2013 no Cannes Director’s Fortnight. Depois, o filme participou de 13 festivais mundo afora. Nesta trajetória, recebeu cinco prêmios e foi indicado a um sexto. Entre os que recebeu, destaque para o de Melhor Filme de Animação no Festival de Cinema Europeu.

Antes de Robin Wright ser confirmada para o papel de protagonista de Le Congrès, Cate Blanchett foi sondada para o filme.

Le Congrès foi rodado em Los Angeles.

Esta é uma produção de Israel com co-produção da Alemanha, Polônia, Luxemburgo, França e Bélgica.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,8 para Le Congrès. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 17 textos positivos e dois negativos para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 89% e uma nota média de 6,8 – uma rara coincidência de nota entre público e crítica.

CONCLUSÃO: Este não é um filme para quem não sabe viajar. Tanto na história quanto na interpretação dela. Le Congrès exige uma mente desapegada do materialismo e que possa viajar como a pipa de um dos personagens centrais. Ainda assim, este filme não deixa de ter algumas âncoras bem fincadas na realidade. Tanto que chega a ironizá-la e exagerá-la. Há crítica nesta produção, assim como um desejo profundo de falar de valores que são fundamentais – e nem sempre lembrados. Uma bela produção, que vai ganhando contornos e interpretações conforme vamos pensando nela. Le Congrès, como vários outros filmes, não termina quando acaba.

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Out of the Furnace – Tudo por Justiça

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Filmes sobre odisseias de vingança pululam no cinema mundial. Especialmente Hollywood tem vários exemplares do gênero. Para quem já assistiu a uma boa parte destes filmes, Out of the Furnace parece apenas mais do mesmo. Uma pena, porque o filme começa bem, com estilo e foco bem definido. O elenco também é promissor. Pena que o roteiro não mostra força do meio para o final.

A HISTÓRIA: Vários carros parados em frente a um telão. De dentro de um deles, um homem se inclina para vomitar. Ele é Harlan DeGroat (Woody Harrelson), um sujeito violento que fica irritado com a mulher com quem está saindo (Dendrie Taylor) porque ela fica preocupada com a volta para casa e ri depois que ele fala que o carro se dirige sozinho. Depois de agredir a mulher, DeGroat espanca um homem (Carl Ciarfalio) que saiu de outro carro porque ficou incomodado com a situação. E foge dali.

Cenas de uma cidade industrial. É ali que trabalha duro, em uma siderúrgica, Russell Baze (Christian Bale). Tudo está sob controle na vida dele, que tem Lena Taylor (Zoe Saldana) como namorada e vive entre os cuidados com o pai doente (Bingo O’Malley) e o irmão caçula, militar, que gosta de jogar e tem algumas dívidas, Rodney Baze Jr. (Casey Affleck). Tudo parece em ordem, até que um acidente começa a mudar a vida da família Baze.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Out of the Furnace): Belo cartão-de-visitas o diretor Scott Cooper nos apresenta na sequência inicial desta produção. Pena que aquela sacada não se repita em mais momento algum da produção.

As imagens rodadas no drive-in são perfeitas porque jogam com duas perspectivas de planos e sequências de câmera. A primeira está sendo exibida no telão, e a segunda, é a própria dinâmica da câmera que roda Out of the Furnace. Este jogo cria uma perspectiva interessante, a ponto das cenas do telão darem a impressão de “crescerem” conforme a câmera comandada por Cooper ia descendo de um plano superior para o que se aproxima dos carros. Grande sacada!

Em seguida, o filme segue bem ao explorar a característica da cidade industrial onde boa parte do roteiro de Brad Ingelsby e Scott Cooper se desenvolve. Aquele contexto ajuda a explicar a falta de perspectivas de alguns personagens e também o jeito “grosseiro” que eles tem de resolver muitos de seus problemas. Como acontece em tantas cidades dos Estados Unidos e de outros países bem industrializados, há muitas cidades que tem a economia e, consequentemente, o modo de vida de seus cidadãos moldados por determinadas indústrias.

No caso de Out of the Furnace, a siderúrgica em que Russell Baze trabalha tem esta função. A única perspectiva para muitos homens pagarem as suas contas e terem uma vida decente é trabalhar naquela empresa. Que exige sacrifícios, como bem exemplifica o doente patriarca da família. É neste ambiente em que encontramos uma irmandade clássica em filmes em que haverá encrenca: o irmão mais novo de Russell quer escapar desta vida difícil e, para isso, procura a saída em caminhos bem mais fáceis como o mundo das apostas.

Como reza a história clássica dos jogadores no cinema, Rodney só se dá mal e começa a acumular dívidas. A sorte inicial dele é que estas dívidas são contraída com o vilão “bonzinho” John Petty (Willem Dafoe). O proprietário de um bar está acostumado a emprestar dinheiro e também a dever grana. Adepto das lutas ilegais, ele introduz Rodney neste cenário e, mesmo relutante, leva o irmão mais novo de Russell a entrar no mercado barra pesada de disputas que podem levar até a morte.

É neste último cenário em que entra em cena novamente o vilão da história, o violento Harlan DeGroat. Era evidente que, mais cedo ou mais tarde, os lados opostos de Russell e Harlan iriam se chocar. E não apenas esta previsibilidade ajuda a tornar o filme fraco, mas como a escolha sobre a forma do encontro torna esta produção uma obra requentada.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Existem muitas histórias no cinema de irmãos mais novos que colocam os mais velhos e protetores em encrenca. Depois, é clássica a ideia de que o “bom-menino-vítima-do-vilão-desalmado” tinha topado entrar em uma última missão (seja ela um assalto à mão armada, um assassinato ou, no caso deste filme, uma luta no melhor estilo Fight Club) e se deu mal por ter encarado esta tarefa. E daí alguém da família da vítima resolve se vingar e assume as armas.

Ou seja: vários lugares-comum explorados por outras produções são agrupados em Out of the Furnace para envolver o público. Não há surpresas ou inovação neste filme. Exceto por aquela sequência bem filmada, inicial, já comentada anteriormente, e pelo trecho da história “fora da curva” que é aquele em que Russell se acidente e provoca pelo menso uma morte – o filme não deixa claro se mais de uma pessoa morreu naquela batida. Também ficamos sem saber quanto tempo Russell ficou preso – um dado que seria interessante já que, ao sair da prisão, ele nos apresenta uma cidade um pouco mais decadente.

Se o roteiro do diretor Cooper e de Ingelsby é o calcanhar de Aquiles deste filme, a fortaleza da produção é o trabalho dos atores. Aliás, que grande elenco foi escalado para esta produção! Além dos já citados Woody Harrelson, Christian Bale, Casey Affleck, Willem Dafoe e Zoe Saldana, estão em cena também Sam Shepard e Forest Whitaker. Tudo bem que nem todos os personagens destes atores são bem desenvolvidos, mas isso faz parte de um roteiro fraco.

De qualquer forma, Christian Bale e Woody Harrelson estão ótimos. Os papéis deles são os melhores trabalhados – ainda que, no fim das contas, Harrelson se resuma a um vilão cruel e nada mais que isso, já que não sabemos nada sobre a vida pregressa ou mesmo o entorno que o cerca no presente. Mas foi bom ver Harrelson em um papel deste naipe após tanto tempo – impossível não lembrar do ator em Natural Born Killers. Gostei também do trabalho de Casey Affleck. Os demais atores tem que tentar emocionar com poucos argumentos, especialmente Dafoe e Saldana – sem contar Shepard e Whitaker que tem, cada um, praticamente pontas neste filme.

Um outro recurso que Out of the Furnace utiliza e que outras produção já utilizaram é o de mostrar um personagem que não consegue superar as cicatrizes criadas por ter servido à pátria-amada, os Estados Unidos. Desta vez esta figura é encarnada por Affleck. E a verdade é que, ao pensar em Out of the Furnace em perspectiva, o único detalhe que destoa um pouco da história clássica de vingança é este do ex-militar que não tem nada a perder porque não consegue se recuperar do que viu enquanto servia ao Exército no Iraque – por quatro vezes, importante dizer.

Só acho que o personagem de Affleck poderia ter estas cicatrizes melhor exploradas. Afinal, ele parece mais perdido do que traumatizado no filme. Perdido por perdido, há muita gente por aí que não sabe o que quer fazer da vida. Mas ter traumas profundos e achar que não tem nada a perder porque a morte, talvez, seria uma boa solução para esquecer os próprios fantasmas é algo bem diferente. E, pelo visto, o personagem deveria seguir mais a segunda linha. De qualquer forma, mais uma vejo que o problema está mais no roteiro do que no trabalho do ator.

NOTA: 7.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Bem planejadas e executas as sequências de pancadaria no melhor estilo Fight Club. O único problema daquelas sequências é que elas lembra demais o filme de David Fincher de 1999 – e que, este sim, merece ser visto e revisto.

Da parte técnica do filme, vale citar a boa direção de Scott Cooper – ele manja mais deste ofício do que tem talento como roteirista, aparentemente – e o bom trabalho do diretor de fotografia Masanobu Takayanagi. Além deles, vale citar o competente editor David Rosenbloom. E isso é tudo.

Há tempos eu estava curiosa sobre este filme. Não apenas por causa de Christian Bale, de quem gosto, mas porque o cartaz me remetia aos bons filmes policiais. Também porque esta produção chegou a ser cotada na temporada pré-Oscar para aparecer em algumas categorias da premiação. Mas que nada. Out of the Furnace ficou totalmente de fora do prêmio da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. E cá entre nós, a ausência não foi injusta.

Out of the Furnace estreou em novembro de 2013 no AFI Fest. Depois, o filme participaria de outros três festivais. Nesta trajetória, recebeu um prêmio e foi indicado a outros cinco. O único que levou para casa foi o prêmio de “melhor estreia e segundo filme” (título estranho, não) para Scott Cooper no Festival de Cinema de Roma.

Por falar no diretor, este é apenas o segundo filme dirigido por Cooper. Antes de Out of the Furnace, ele dirigiu a Crazy Heart (comentado aqui no blog). Para o meu gosto, o filme anterior de Cooper é melhor. Agora, o tira-teima vai ficar com Black Mass, filme estrelado por Johnny Depp, Guy Pearce Benedict Cumberbatch e Joel Edgerton e que está previsto para estrear no próximo ano.

Uma das qualidades de Out of the Furnace, além do bom trabalho dos atores, é a ótima escolha da música Release para dar o tom do começo e do fim da produção. Esta é apenas mais uma das grandes canções da banda Pearl Jam.

Agora, algumas curiosidades sobre esta produção. Como é de seu feitio, Christian Bale realmente aprendeu a operar um forno siderúrgico para este filme – evitando, assim, o uso de dublês. Algo que o ator costuma fazer nas produções em que decide mergulhar.

Cooper prometeu para Bale que não faria Out of the Furnace sem ele. Essa promessa foi feita em 2011. O diretor teve que esperar até o ano seguinte para que Bale conseguisse um espaço na agenda e para que eles conseguissem concretizar o projeto.

O filme que aparece nas cenas iniciais da produção sendo projetado no drive-in é The Midnight Meat Train, de 2008, dirigido por Ryûhei Kitamura.

Os atores Billy Bob Thorton e Viggo Mortensen chegaram a ser cogitados para o papel de Harlan DeGroat mas, no final, o personagem ficou com Woody Harrelson.

Out of the Furnace foi totalmente rodado nos Estados Unidos, com cenas externas e em estúdios feitas em Moundsville (West Virginia), Burgettstown, Beaver Falls e Braddock (Pensilvânia).

Esta produção teria custado cerca de US$ 22 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 11,4 milhões. Ou seja, falta um bom caminho ainda para o filme começar a dar lucro.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para este filme. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 89 críticas positivas e 81 negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 52% – e uma nota média de 5,9.

CONCLUSÃO: Contar uma história de vingança, nos dias atuais, precisa de um pouco de ousadia. E este é um elemento que não faz parte de Out of the Furnace. Então ou este é o primeiro filme do gênero que você assiste, ou ficará inevitável o gosto de comida requentada na sua boca. Não há frescor neste filme, apenas ideias requentadas. Uma pena. Mas se a história deixa a desejar, o elenco está bem escalado e faz um bom trabalho. Há tempos Woody Harrelson nos devia um vilão cruel como o que encontramos neste filme. Fora o bom trabalho dos atores, sobra pouco de interessante neste filme. Assista apenas se já tiver visto todas as opções melhores do cinema antes.

Grand Piano – Toque de Mestre

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Toda a dramaticidade de um concerto de música clássica e de uma trama de ameaça de morte. Grand Piano parte de uma boa e interessante premissa, mas tropeça nos detalhes e na interpretação pouco convincente dos protagonistas. O início do filme tem bons momentos, mas isso é tudo. Assista preferencialmente se gostar muito dos atores ou do diretor. Porque há suspenses melhores no mercado.

A HISTÓRIA: Aplausos nos créditos iniciais. Depois, entra o som da orquestra. Nas imagens, detalhes de um piano. Após os créditos iniciais, começa a história com uma equipe de funcionários de uma empresa de mudanças entrando em uma mansão cheia de objetos antigos. O local parece abandonado há algum tempo. Um dos supervisores aponta o local em que está o piano que será transportado e avisa que o grupo de funcionários tem 20 minutos para agir.

Com pressa de sair dali, os homens derrubam uma fotografia. Nela aparecem o pianista Tom Selznick (Elijah Wood) e seu mestre, o magnata da música Patrick Godureaux. Aquele piano, transportado com todo o cuidado, será uma peça fundamental do concerto que marca o retorno de Selznick para os palcos após uma ausência de cinco anos. Mas o espetáculo terá uma dramaticidade que o músico jamais poderia esperar.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Grand Piano): Interessante como uma boa ideia pode render um enredo apenas interessante, mas sem atingir o resultado que se esperava no início. Este é o caso deste Grand Piano.

O filme, que começa devagar, rapidamente abraça o suspense e o drama do protagonista quando o concerto que marca o retorno dele para os palcos ganha corpo. Mas o problema reside na continuidade das ideias iniciais, da provocação que é feita para o espectador que aguarda ansioso o próximo passo do “herói” e do “bandido”.

Antes de falar mais do final, vou retornar um pouco na história de Grand Piano. Uma qualidade fundamental desta produção é misturar a música clássica com o risco eminente de morte. Não há estilo musical criado pela humanidade melhor para representar o risco e a emoção “à flor da pele” do que a música clássica. Ela historicamente sempre embalou os maiores suspenses, dramas e amores, e por isso mesmo a sua escolha foi perfeita para Grand Piano.

Além disso, devo dizer, não deixa de ser corajoso fazer um filme, atualmente, que valorize tanto este estilo de música. Não apenas porque estamos nos habituando a ouvir muito lixo na música, mas principalmente porque 99% das pessoas consideram a música clássica algo ultrapassado, chato, e ignoram que ela não é apenas fundamental para o cinema, mas para a própria música em diferentes gêneros.

A música em Grand Piano não é apenas uma peça fundamental na trama – afinal, o centro das atenções está em um jovem talento da música e no piano histórico que ele está tocando -, mas também a grande condutora do suspense. Apenas na parte inicial do filme isso não ocorre. Nos primeiros 20 minutos da produção, o roteiro de Damien Chazelle nos apresenta não apenas os personagens centrais da produção – exceto os bandidos -, como também explica os interesses e relações que estão em jogo naquele “mise-en-scène”.

Nesta primeira parte da trama, percebemos toda a apreensão e aflição do personagem de Tom Selznick através dos grandes olhos de Elijah Wood. Algo que este ator sabe expressar é, sem dúvida, o medo e a aflição. 🙂 De acordo com o texto de Chazelle, acompanhamos o drama quando ele está prestes do ápice. Depois de vermos ao deslocamento do piano que será um dos astros da noite, assistimos o medo e a insegurança de Selznick quando ele chega em Chicago.

Todo este drama acontece porque o músico, considerado o mais brilhante de sua geração, está há cinco anos sem tocar para o público. Esta ausência se explica porque na última tentativa dele de tocar Selznick travou. Envergonhado, ele desistiu da música até que, no tempo presente do filme, ele retorna para os palcos por insistência da mulher, Emma (Kerry Bishé), considerada uma das melhores e mais bem sucedidas atrizes de sua geração.

O casal é interessante, ainda que pouco crível. Nas raras cenas em que ficam juntos, Tom e Emma não parecem ter a química que deveriam – ou mesmo parece ser muito lógico aquela mulher linda e talentosa dividir a vida com um sujeito tão cheio de inseguranças. Certo que alguém pode argumentar que aquele era apenas um momento complicado para Tom e que ele poderia ser muito mais seguro e atraente fora daquela situação. Verdade. Assim como é verdade que o amor é algo muitas vezes sem lógica. 😉

O drama parece estar posto quando Selznick está prestes a enfrentar o palco. Para alimentar a tensão, no caminho para o espetáculo Selznick não apenas fica sabendo de Emma que não vai encontrar a mulher antes do concerto (o que poderia ter sido um consolo/conforto), como também passa por uma entrevista desastrosa com uma tal Marjorie. Ela entrevista Emma e, em seguida, coloca Tom contra a parede.

É neste momento que ouvimos falar, pela primeira vez, de La Cinquette, uma “obra que não pode ser reproduzida” e que teria ajudado Selznick a travar da última vez. Prestes a subir no palco, Selznick vê que a partitura de La Cinquette faz parte do programa, mas ele a tira dali. O drama está posto, mas ele vai ficar ainda pior quando o protagonista começar a tocar a primeira peça.

Uma nada discreta cor vermelha se destaca em meio às partituras, e nesta primeira sequência de fatos temos o melhor do filme. Cada nova instrução escrita no papel é acompanhada de uma ação importante de Selznick e da expectativa de desastre – que se resume a ele travar e/ou desistir do concerto – por parte de Emma e do restante do público.

A música clássica tocada pela orquestra do maestro Norman Reisinger (Don McManus) e pelo piano de Selznick e a competente edição de José Luis Romeu dão o tom do suspense. Pela primeira vez Selznick esboça não apenas a sua insegurança, mas também uma certa determinação em entender o que está acontecendo e buscar sobreviver – além de salvar Emma.

A ameaça é real, e o músico percebe isso quando tem a luz vermelha de uma arma de longo alcance apontada para ele. Agora, um detalhe, entre muitos outros, que torna a história pouco crível: em certo momento esta luz vermelha chega a deslizar pela partitura que está à frente de Selznick. O atirador está em um camarote no ponto alto do teatro, do lado oposto ao do músico. Impossível aquela luz do alvo deslizar pelo papel que estava posicionado em posição perpendicular.

Essa primeira parte, de ameça “muda”, sem dúvida é a melhor do filme. Porque na sequência Selznick vai até o camarim – um ato muito “excêntrico” para um músico que tinha apenas acabado o primeiro ato do espetáculo – e daí as ameaças passam a ser verbais. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). No início, elas funcionam. Mas depois começam a ficar muito repetitivas. Afinal, o vilão resume grande parte de suas ameaças a “vou estourar os miolos de Emma”. Chazelle deveria saber que repetição no cinema sem novos temperos nunca funciona – especialmente em um suspense, quando se espera que novos fatos sempre alimentem a tensão.

O problema nesta segunda fase do suspense de Grand Piano é que nem sempre a troca de diálogos é interessante. Além de repetitiva, em muitos momentos, parece que falta um pouco de inspiração para Chazelle – diferente da música, que é ótima do início ao fim. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Mas o problema no roteiro começa mesmo quando Selznick tira o celular do bolso e começa a interagir com o amigo Wayne (Allen Leech). Se até então o vilão da história estava atento a cada mínimo movimento de tom, de verdade mesmo que o roteirista achou que iríamos engolir que ele não notaria aqueles movimentos estranhos do músico mexendo no celular?

Os personagens de Wayne e Ashley (Tamsin Egerton), aliás, são os piores da trama. Não apenas não entendemos muito bem a relação deles com o casal Selznick – seriam amigos? parentes? – como também não fica clara a função deles para a trama. Quer dizer, em certo momento isso fica claro… eles estão ali para morrer de maneira fácil, sem grande suspense. Eis mais um problema no roteiro.

Depois, a razão de toda aquela tensão é explicada. E aí surge outro elemento para encorpar o suspense: Selznick deve tirar de “ouvido” a dificílima La Cinquette. A razão? A partitura que o vilão colocou para Selznick foi destruída e ninguém tinha uma segunda cópia por ali (quanta distração deste bandido!).

Depois de relembrar La Cinquette, Selznick volta para o piano e, finalmente, fica sabendo porque deve tocar esta obra. O mistério está desvendado. E daí para o final, o filme apenas abaixa a tensão e o suspense. Perde fôlego nos 18 minutos finais. É muito tempo para isso acontecer. E o final… sem surpresas ou impacto. Quase brochante.

Apesar do roteiro deste filme ser o seu ponto fraco, a direção de Eugenio Mira é ótima. Ele não apenas escolhe os planos certos, valorizando o teatro, o piano, a orquestra e os atores principais, como também joga com diferentes ângulos e com uma dinâmica de câmera precisa. Em diversos momentos ele me fez lembrar o mestre Alfred Hitchcock. Pena que a história de Grand Piano não soube manter a qualidade inicial.

NOTA: 7,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Sei que muitos de vocês vão discordar de mim, mas não posso me eximir de fazer este comentário. Para mim, um dos problemas de Grand Piano é ter um ator apenas regular no papel principal. O melhor da expressividade de Elijah Wood são os seus olhos azuis “saltados”. Além deles, sobra pouco para a interpretação do ator. Talvez a testa franzida em diversos momentos. E só. Mas o papel de Selznick pedia um pouco mais de expressividade do que isso. E como grande parte da trama está centrada nele, temos um problema em cena.

Além de Elijah Wood, ganha um pouco de destaque o trabalho de Kerry Bishé. A atriz, diferente de Wood, encarna muito bem o papel da profissional de sucesso no cinema e que procura ajudar o marido a voltar ao estrelato. Bishé lembra musas do cinema, em especial uma das preferidas de Alfred Hitchcock (algo me diz que não é coincidência): Grace Kelly.

Além de linda, Bishé mostra o estilo de interpretação necessário e justo para Emma. Outra figura que aparece só no final, mas que ajuda a manter certo suspense na produção, é John Cusack como o vilão Clem. Cusack… coitado. Há muito tempo eu não vejo ele convencendo no papel que for. Aqui, novamente, o ator entrega um estereótipo do personagem, em uma interpretação carregada demais.

Entre os coadjuvantes, gostei do trabalho de Don McManus como o maestro – ele encarna não apenas o profissionalismo que aquele posição exige, mas também um bocado de simpatia e de empatia com Selznick. Alex Winter fecha a lista de figuras centrais em uma interpretação condizente com a de “assistente” de vilão. E o competente Allen Leech, mais conhecido como o Tom Branson da série Downton Abbey, acaba sendo eclipsado em um papel bobo e ralo – a exemplo da parceira de cena na maior parte do tempo, Tamsin Egerton.

Agora, uma pequena ponderação sobre o argumento central de Grand Piano. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Será mesmo que esperar pelo aguardado concerto que marcou o retorno de Selznick aos palcos seria a melhor oportunidade para Clem conseguir acessar a chave que lhe daria a fortuna do falecido Godureaux? Não teria sido mais fácil sequestrar Selznick e levá-lo até o casarão abandonado onde estava o piano? Certo que fácil não seria, mas acho que o plano que acabo de comentar seria menos suscetível a problemas do que o de fazer isso no teatro cheio. Tentar forçar Selznick após o concerto seria complicado porque o piano tinha os seus seguranças “particulares” – gente ligada ao seguro do instrumento, aparentemente.

Da parte técnica do filme, além da acertada e competente direção de Eugenio Mira, gostei muito da trilha sonora de Víctor Reyes, da já citada excepcional edição de José Luis Romeu, do design de produção de Javier Alvariño e da edição de som da equipe de Francisco Elías Toro Ramírez.

Logo nos créditos iniciais me chamou a atenção que a maior parte dos recursos deste filme veio da Espanha. Interessante ver como esta produção espanhola nasceu com uma pegada internacional. Não apenas pela escolha do local para a história – Chicago – mas, especialmente, pelos nomes envolvidos no elenco. Por trás das câmeras estão muitos nomes espanhóis, inclusive o diretor Mira, natural de Alicante. O roteirista, contudo, é norte-americano e tem apenas 29 anos de idade.

Grand Piano estreou em setembro de 2013 no Austin Fantastic Fest. Depois, o filme participou ainda de outros quatro festivais. Nesta trajetória, ele recebeu dois prêmios e foi indicado a outros nove. Grand Piano faturou os prêmios de Melhor Edição e Melhor Trilha Sonora conferidos pelo Cinema Writers Circle da Espanha.

Não há quase informação alguma sobre a grana que circula por Grand Piano. Não encontrei informações sobre o custo da produção e, no site Box Office Mojo, consta apenas US$ 9,89 mil de bilheteria nos Estados Unidos – o filme estreou no dia 7 de março por lá. Até o momento, pois, fica impossível saber se o filme está se saindo bem ou não.

Para quem gosta de saber sobre o local em que os filmes foram rodados, Grand Piano teve cenas feitas em Las Palmas de Gran Canaria, localizada na parte nordeste da Gran Canária, na Espanha; em Barcelona e em Chicago.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6 para Grand Piano. Uma avaliação condizente com o padrão do site, na minha opinião. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 33 críticas positivas e sete negativas para a produção, o que lhe garante uma aprovação de 83% – e uma nota média 6,8. Alguns críticos, como Stephen Holden do New York Times e Robert Abele do Los Angeles Times, destacam o fato de Grand Piano ser um filme B – ou seja, de baixo orçamento e que se caracteriza por exagerar nos tons de forma proposital. Ambos disseram que o filme diverte, apesar de não inovar.

CONCLUSÃO: Música clássica e clima de suspense sempre combinam. Grand Piano sabe explorar isso muito bem ao escolher uma trilha sonora vigorosa e alguns momentos de tensão. O problema é que a premissa inicial, que poderia render um bom curta-metragem, não sustenta um longa – mesmo que ele tenha apenas 1h30min de duração. Após a tensão inicial, o suspense de Grand Piano fica repetitivo e um tanto previsível. Há diversas sequências pouco críveis, e um final que chega a ser brochante. Mas para quem não tinha grandes expectativas para este filme, como era o meu caso, até que a experiência não foi um desastre. Vale como puro passatempo. Mas, como eu disse no início desta crítica, há outros filmes do gênero melhores no mercado.

Lone Survivor – O Grande Herói

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Muitos filmes de guerra flertam com o patriotismo exagerado. Bom e protegido por Deus é aquele que defende o nosso país, e o mal está do lado do inimigo. Defender bandeiras é algo comum neste gênero. E mesmo sem escapar desta característica, que normalmente eu acho prejudicial, Lone Survivor surpreende pelo realismo, a ótima direção de Peter Berg e uma história que faz homenagens. Não apenas aos combatentes que viram “irmãos” mas, principalmente, ao senso de justiça e de honra. Baita filme, e que mereceu a bilheteria que fez nos Estados Unidos.

A HISTÓRIA: Um soldado é retirado da água fria e lhe perguntam o quanto é seis vezes três. Ele treme. Outro soldado, também tremendo, responde 18. Em seguida, várias cenas de treinamento pesado, muitas que levam os soldados até o esgotamento físico e mental. Há quem veja ali imagens de tortura – especialmente as cenas da técnica “impossível de respirar”. Todos são ensinados a não desistir. Depois, a informação de que a trama que se segue é baseada em uma história verídica. Afeganistão. Pouco a pouco, um helicóptero se aproxima.

Dentro dele, o soldado Marcus Luttrell (Mark Wahlberg) está muito ferido e recebendo atendimento médico. Enquanto a ação se desenrola, ouvimos Luttrell falando da tempestade que cada um carrega dentro de si, sobre a necessidade de cada soldado ser empurrado até o extremo. Em seguida, a ação volta três dias no tempo, quando Luttrell e seus companheiros partem para uma missão arriscada e que vai se mostrar de grande sacrifício.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Lone Survivor): As primeiras cenas deste filme me preocuparam. Isso porque elas me pareceram um preâmbulo para dizer que todos os exageros praticados na preparação dos soldados é justificado. Inclusive a polêmica técnica “impossível de respirar”, que leva os soldados a mergulharem em uma piscina totalmente imobilizados, considerada por muitos uma espécie de tortura, poderia fazer parte de um treinamento necessário segundo o filme dá a entender. Conforme a história vai passando, fica evidente que aquelas cenas reais no início da produção fazem parte do conjunto da obra para explicar o que virá. A surpresa não está na justificativa, propriamente, mas no que veremos no decorrer da história.

Como pede a técnica utilizada por muitos roteiristas, Lone Survivor gasta os primeiros minutos da produção para mostrar um pouco da “vida comum” dos Navy SEALs – a elite da Marinha dos Estados Unidos – antes de mergulhar na ação propriamente dita. O primeiro acerto deste filme é que ele não gasta muito tempo com a “introdução trivial”. Há um pouco de humor ali, um pouco de “humanização” dos personagens centrais, mas nada que comprometa muito da narrativa. Afinal, o que realmente importa é a ação.

Logo o espectador é apresentado para os detalhes da missão liderada por Michael Murphy (Taylor Kitsch). Ele vai para a missão de reconhecimento em um terreno íngrime no Afeganistão junto com Matt Axelson (conhecido como Axe, interpretado por Ben Foster), responsável por registrar os alvos; Danny Dietz (Emile Hirsch) responsável pela comunicação com abase; e Marcus Luttrell nos cuidados com os mantimentos/suprimentos.

Funciona muito bem a forma com que o diretor e roteirista Peter Berg apresenta a missão do grupo de quatro Navy SEALs. Isso porque o espectador guarda os indicativos que vão servir para aqueles soldados enviados em uma missão de reconhecimento para identificar os alvos: Ahmad Shah (Yousuf Azami), comandante sênior do Talibã, em primeiro lugar e, como segundo alvo, o braço direito dele, Taraq (Sammy Sheik). Os nomes de marcas de cervejas para marcar os diferentes estágios da missão e o nome do cantor de funk e soul norte-americano Rick James representando Shah são fáceis de lembrar e ajudam o espectador a começar a sua própria torcida.

(SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Ainda que o título original desta produção seja muito sugestivo (Lone Survivor significa, em uma tradução livre, Único Sobrevivente) e que fique subentendido que o personagem de Mark Wahlberg deve ter sido o único sobrevivente daquela missão de reconhecimento, conforme a história vai se desenrolando, o espectador é levado a torcer para aqueles homens incansáveis. E aí, quando naquela missão as coisas começam a dar errado, você aprende o significado da paciência. Afinal de contas, é preciso lutar e esperar pelo próximo golpe antes de revidar já que, não se esqueça, tudo pode piorar.

E neste quesito que Lone Survivor se revela um esplendor de cinema de guerra e de ação. Porque quando a artilharia começa, o espectador é lançado a uma eletrizante sequência de luta que fala muito sobre a persistência do ser humano em tentar sobreviver e atingir os seus objetivos. E no caso daqueles homens, com o objetivo principal tendo se esvanecido – capturar e/ou matar as lideranças do Talibã -, o que passa a ser prioridade é cuidar da vida dos companheiros de farda e tentar sobreviver, voltando para casa assim que possível.

Mas a vida daqueles soldados vira um inferno. E tudo começa porque, caramba!, a comunicação falha. Não adianta o investimento bilionário de todos os anos, há regiões ermas deste mundo em que a tecnologia existente não é capaz de solucionar as limitações provocadas por montanhas de diferentes envergaduras.

Mesmo baseado em uma história real, achei interessante como o roteiro de Berg, inspirado no livro de Marcus Luttrell e Patrick Robinson, não maquia esta “falha de recursos” dos Estados Unidos. E mesmo depois, quando a história está na reta final, Lone Survivor não esconde que o erro de estratégia do comando, ao enviar os helicópteros de apoio para outra missão antes de saber se a equipe de reconhecimento iria passar por algum aperto ou se estava segura. Houve falhas na operação, não há dúvidas, e o roteiro deste filme não as desmente ou encobre.

Para mim, o primeiro grande momento de Lone Survivor é quando Marcus Luttrell, Danny Dietz e Matt Axelson discutem o que eles devem fazer com os pastores de cabras naquela montanha do Afeganistão. A lógica pedia que a recomendação de Dietz e Axe fosse seguida, ou seja, que eles deveriam deixar eles amarrados ou eliminar a ameaça. Caso fizessem isso, a missão prosseguiria e eles estariam seguros – pelo menos, em teoria. Mas Luttrell argumenta diferente, e pede que Michael Murphy respeite as regras da guerra e dos direitos humanos, não importando o que poderia acontecer com eles na sequência. O medo dos soldados, claro, era que aqueles pastores os dedurassem para os inimigos.

Só achei a sequência da discussão um pouco longa e “politicamente correta” demais. Será mesmo que eles ficariam tanto tempo argumentando até que Murphy tomasse a decisão? Acho que uma situação como aquela pediria uma resposta mais rápida. Ainda assim, é um momento decisivo do filme – porque, entre outras coisas, mostra o sentido de honra por parte dos Navy SEALs – eles fazem o correto, apesar de saberem o preço que podem pagar na sequência.

Mesmo que este momento seja importante, para mim o filme começa a impressionar de verdade e a mostrar como ele é diferente de qualquer outro do gênero quando, acuados pela primeira vez, decidem “sair” daquela situação em queda livre. Uau! O que foi aquela sequência? Decisiva para a história e de cair o queixo. Mas ela seria apenas a primeira de muitas cenas que mostraram a bravura, coragem e determinação daqueles soldados. Para eles, não havia dor e nem sentimento de derrota. Eles iriam até o fim, até o ponto em que não pudessem aguentar mais.

Até chegar naquele ponto, tentariam matar ao máximo de inimigos. E fizeram muito estrago. Apesar disso, Lone Survivor não é um filme em que todos os “mocinhos” se saem bem. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). E o protagonista mesmo, só sobrevive porque Gulab (Ali Suliman), literalmente, lhe estende a mão. E daí que aprendemos uma outra lição sobre honra. Ensinamento este que será compreendido apenas se você ficou assistindo o que veio após as cenas de ação finais. Lone Survivor mergulha na homenagem aos homens reais que viveram esta história e, só então, explica a razão de Gulab ajudar a Marcus Luttrell – para mim, um grande acerto dos realizadores. Afinal, eles mantém a dúvida dos espectadores até o último minuto, mas não deixam de dar uma explicação para o que havia acontecido.

Mas antes disso tudo acontecer, há uma outra sequência que torna este filme eletrizante e diferenciado. Praticamente derrotados, Marcus e Axe comemoram quando a “cavalaria” chega pelos ares. Eles – e nós por tabela – chegamos a pensar: ufa, a salvação será possível! E aí, meus caros, acontece mais uma surpresa no filme. Imagens realistas, sem dúvida, assim como todas as outras para as quais somos apresentados. Aliás, uma qualidade do trabalho de Berg é dirigir de uma forma com que você se sente um “companheiro” ao lado dos Navy SEALs. Forma muito eficaz de imersão do espectador – e o diretor dá uma aula neste quesito, mantendo a câmera sempre perto dos atores e se movimentando muito com eles.

Na reta final, finalmente, tive o meu temor sobre este filme ser um grande libelo ufanista sobre os combatentes dos Estados Unidos praticamente todo eliminado. Claro que grande parte da produção é para mostrar a entrega deles. Mas o final de Lone Survivor redime qualquer leitura injusta dos “inimigos” ao mostrar que, além dos extremistas, existem pessoas comuns que não querem ver as suas famílias sendo exterminadas por conflitos que eles não concordam.

E a exemplo de Murphy, que decide fazer o certo independente do preço que eles e seus companheiros iriam pagar, Gulab também decide fazer o certo, mesmo sabendo que poderia morrer e que todos em seu vilarejo poderiam ter o mesmo fim. Desta forma, com uma direção eletrizante e competente e uma história que tem algumas surpresas cruciais, Lone Survivor nos ensina um bocado sobre o senso de dever, de fazer o que é certo e justo. Em outras palavras, o senso de honra. Bacanérrimo.

Agora, apesar de todas as qualidades deste filme, ele não recebe a nota máxima porque, de fato, acho que ele justifica demais alguns absurdos na postura dos “heróis norte-americanos”. Ainda que eles busquem fazer o que é certo, dá para perceber um certo controle de “vou matar todos vocês” quase todo o tempo, não importante quem seriam, exatamente, aquele “todos vocês”. E ainda que os soldados sejam levados ao extremo nos treinamentos para estarem preparados para batalhas como aquela vivida pela equipe de Murphy, jamais eu vou achar que a tortura seja justificável. Uma coisa é a hora da batalha, quando as pessoas devem se superar, outra é a de preparação para aquele momento.

De qualquer forma, e descontados os exageros no patriotismo, Lone Survivor nos traz valiosos ensinamentos sobre honra, senso de lealdade, capacidade de superação e de ultrapassar os próprios limites do corpo, da dor e da mente. Inspirador. E faz refletir. Além de ser um ótimo entretenimento, com uma ação muito bem planejada – dando os devidos momentos para a adrenalina e para as sequências lentas e de contemplação/reflexão. Quase irretocável.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Gostei da escolha dos realizadores deste filme por apostarem 90% da produção (ou mais) na dinâmica do grupo de reconhecimento enviado para capturar/matar as lideranças do Talibã. Concentrar a ação naqueles personagens dinamiza a história e torna mais fácil estimular o espectador para torcer pelos atores – que, aliás, fazem um grande trabalho. Ainda assim, acho que faltou um pouco mais de “conteúdo” sobre os bandidos que deviam ser combatidos.

Esta produção me surpreendeu por ter elementos que podem interessar tanto ao público masculino quanto ao feminino. O primeiro é fisgado não apenas pelas ótimas cenas de combate e de ação, mas também pelas piadinhas feitas com o novato Shane Patton (Alexander Ludwig). O segundo público vai gostar das sequências iniciais, quando o belo elenco ainda não está detonado, achará interessante a dancinha de Shane e seguirá com atenção os bonitões em cena – mesmo quando eles estiverem bem destruídos. Como eu gosto de todos os estilos de filme, gostei de Lone Survivor por todos estes quesitos e todos os demais que eu comentei anteriormente. 🙂

Fiquei impressionada com o trabalho do diretor Peter Berg. Ele dá um show na forma de conduzir a história, dando não apenas realismo para ela, mas também cuidando para não fazer de Lone Survivor apenas mais um filme de guerra cheio de tiroteio. Ainda que haja muitas sequências deste gênero, o diretor também valoriza o trabalho dos atores, da equipe de maquiagem e do diretor de fotografia, adicionando cenas de pura contemplação em diversos momentos.

Por falar na equipe técnica do filme, além do trabalho de Berg, merece uma longa reverência o trabalho do editor Colby Parker Jr., a direção de fotografia de Tobias A. Schliessler e a maquiagem feita pela equipe de nove profissionais liderados por Howard Berger e Geordie Sheffer. Outro ponto importante da produção e que funciona muito bem é a trilha sonora de Explosions in the Sky e Steve Jablonsky. Ainda que o forte do filme seja o som e a edição de som dos momentos de batalha, a trilha sonora entra em situações pontuais e que ajudam a alimentar a tensão/expectativa/torcida.

Lone Survivor estreou no Festival de Cinema da AFI em novembro de 2013. Esta foi a única participação do filme em eventos do gênero. Mesmo assim, a produção recebeu cinco prêmios e foi indicada a outros 12 – incluindo a indicação para dois prêmios no Oscar. Entre os principais estão o de Performance de Ação Marcante de Elenco no Screen Actors Guild Awards; e os de Melhor Filme de Ação e Melhor Ator em Filme de Ação para Mark Wahlberg entregues no Broadcast Film Critics Association Awards.

Para quem gosta de saber sobre o local de gravações dos filmes, Lone Survivor foi totalmente rodado no Novo México – com cenas externas e em estúdio na cidade de Albuquerque.

De acordo com o site Box Office Mojo, Lone Survivor teria custado aproximadamente US$ 40 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, quase US$ 124,6 milhões. Um belo resultado, e que deve ficar ainda melhor quando a produção estrear em outros mercados no mundo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,8 para Lone Survivor. Uma ótima avaliação levando em conta o padrão do site. Os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 147 textos positivos e 48 negativos para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 75% e uma nota média de 6,6.

Este é um filme com produção 100% dos Estados Unidos – sendo assim, ele entra para a lista de títulos que foram comentados aqui no site, daquele país, após uma votação feita com vocês, meus bons leitores.

Termino o texto inicial por aqui. Assim que possível, vou acrescentar algumas curiosidades sobre esta produção. Até logo!

ATUALIZAÇÃO (10/06): Colocando os links neste texto, algo que não fiz quando o publiquei, é que notei um esquecimento imperdoável. Não citei o bom trabalho do ator Eric Bana como o comandante Erik Kristensen. Falha minha! Mas corrigida agora. Bana está bem no papel, ainda que Kristensen não tenha grande relevância para a história – comparado com os quatro protagonistas.

CONCLUSÃO: Não fique surpreso se, mesmo tendo assistido a diversos filmes sobre guerras e ações promovidas pelos Estados Unidos, você ficar boquiaberto com Lone Survivor. Da minha parte, posso dizer: nunca vi a um filme como este. E isso não apenas porque esta produção é baseada em fatos reais – uma característica marcante dos indicados no último Oscar. Mas principalmente pela honestidade na narrativa. O roteiro é eletrizante, e a direção, exemplar. O filme envolve e surpreende e, apesar do patriotismo ianque – que, cá entre nós, acho cada vez mais justificável e compreensível -, rende a devida “homenagem” ao outro lado. Porque, afinal de contas, nem todos são inimigos no território inimigo. Se você gosta de filmes do gênero, não deve perder este.

Svecenikova Djeca – The Priest’s Children – Os Filhos do Padre

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Os temas sexo e Igreja sempre rendem pano para manga. Especialmente quando eles são juntados em uma mesma história. Com música e início que flertam com a comédia, Svecenikova Djeca aos poucos vai se revelando mais sério do que parece. Este filme croata-sérvio trata de temas contemporâneos muito presentes dentro e fora da Igreja. Irônico, mexe em algumas feridas e também faz pensar.

A HISTÓRIA: Choro de criança. Depois, a imagem de um bebê chorando em um berço. Ao lado dele, outras crianças e, no meio delas, um homem barbudo. Batidas na porta. O capelão Simun (Filip Krizan) entra e cumprimenta o homem deitado na cama – que não tem nenhuma criança ao seu redor. Simun pergunta sobre a operação, e o homem comenta que não haverá nenhum aborto, antes de acender a um cigarro.

Em seguida, pergunta se Simun foi ali para daouvir uma confissão. Apesar da resistência inicial, o homem começa a contar a sua história, desde que ele chegou a uma ilha na Croácia logo após sair do seminário como padre Fabijan (Kresimir Mikic). A partir daí, conhecemos cada passo do padre no lugar, incluindo a missão que ele assume de buscar “empatar” o número de nascimentos com o de mortes.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso só recomendo que continue a ler quem já assistiu a Svecenikova Djeca): Este filme começa com uma premissa inteligente. Um padre, recém-saído do seminário, assume a missão de substituir a um pároco muito popular. Incomodado com o alto número de mortes no local e com o baixo – para não dizer zerado – índice de natalidade, ele resolve agir.

Alguns temas fundamentais para a Igreja fazem parte deste filme. Entre outros, os espinhosos assuntos do sexo fora do casamento, da fidelidade e do pecado dentro da própria Igreja. Além dos assuntos que envolvem o catolicismo, Svecenikova Djeca aborda questões que são relevantes para a Europa, como a disputa entre povos, a imigração, a baixa natalidade e o fascínio que notícias sobre “locais milagrosos” despertam nas pessoas por intermédio da mídia.

A intenção do diretor e roteirista Vinko Bresan, que escreveu Svecenikova Djeca junto com Mate Matisic, claramente, é fazer comédia com estes assuntos. Ou, na melhor da hipótese, tocar nas feridas da Igreja para fazer uma crítica ao “modus operandi” de diversos de seus participantes. Francamente, os realizadores escolheram o caminho fácil, abordando os temas apenas pelo lado da crítica à Igreja.

Por ser formada por pessoas de carne e osso, a Igreja está suscetível a falhas. Não há dúvidas. Mas ela não é apenas isso. Também há muita dedicação, fé, entrega e caridade na Igreja. Mas os problemas é o que costumam ser ressaltados, e não os valores ou as qualidades. Dito isso, falemos do filme que aborda apenas um lado das questões.

Achei interessante a premissa de Svecenikova Djeca. Como o novo pároco de uma comunidade onde são registradas muitas mortes e quase nenhum nascimento deve se portar? Este drama de gente idosa partindo desta vida pra melhor e de pouca renovação na comunidade é vivido por muitas e muitas cidades na Europa. A Igreja, e todos sabem disso, defende a vida em qualquer situação. E nesta defesa, faz parte a premissa de que as mulheres que tem vida sexual ativa devem ter filhos sempre que for “a vontade de Deus”.

Evidentemente que esta ideia vai contra os meios de prevenção da gravidez. Afinal, se é da vontade de Deus, a mulher deve engravidar – e não evitar isso com contraceptivos ou o uso da camisinha. No início de Svecenikova Djeca, o protagonista nos mostra de maneira divertida e bem direta a grande diferença que separava ele do padre que ele deveria suceder, o padre Jakov (Zdenko Botic).

Enquanto o velho pároco estava bem inserido na comunidade e participava das principais atividades da ilha, Fabijan ainda tentava se encaixar. Em diversos momentos isto ficou evidente, como na Páscoa, quando se formou uma grande fila de pessoas querendo se confessar com Jakov e quase ninguém com Fabijan. Com pressa, o empregado de uma banca de jornais que também vendia camisinhas na entrada da cidade, Petar (Niksa Butijer), resolve se confessar com Fabijan. E daí que a história toda começa.

Em dúvida se estava pecando por vender camisinhas e impedir que diversas crianças nascessem, Petar confessa para o padre esta inquietude provocada por comentários de sua mulher, Marija (Marija Skaricic). Daí que Fabijan tem uma brilhante ideia: por que não dar uma “ajudinha” para Deus aumentar o número de nascimentos e casamentos naquela comunidade? E a partir daí que tudo vai se complicando nesta história.

Para mim, parece evidente que o padre protagonista não poderia simplesmente ter feito aquilo. Afinal, mesmo que ele fosse contrário ao uso de contraceptivos, ele jamais poderia atuar para acabar com o livre-arbítrio das pessoas. Isso seria contra o que prevê a própria Igreja. Além disso, não adianta apenas aumentar a natalidade. É preciso também ter sexo e relacionamentos com responsabilidade e com amor – esta é a base do que a Igreja defende, muito mais que simplesmente proibir a camisinha ou outros meios de contracepção.

Mas é claro que Svecenikova Djeca não iria “problematizar” a questão. É mais fácil pegar o tema da “proibição da camisinha” e o do “pecado carnal de padres” e tratá-los de forma ligeira, fazendo piada e crítica sobre eles, do que discutir estas questões mais à fundo. Ainda que o roteiro do filme seja ligeiro demais para o meu gosto, a verdade é que a dinâmica de Svecenikova Djeca se desenvolve muito bem em grande parte do tempo – apenas no final, quando Jure (Goran Bogdan) começa a dar o seu “showzinho de bêbado” é que a história fica um pouco arrastada.

Querendo ou não, o roteiro de Bresan e Matisic mostra criatividade e alguns acertos. A dinâmica é boa, como comentei antes, e há personagens interessantes além dos padres. Por exemplo, a dupla Petar e Marin (Drazen Kuhn), que acaba sendo a grande “aliada” de Fabijan na “missão” de fazer a natalidade da comunidade avançar. Os dois acabam investigando a vida amorosa de todos naquela comunidade. Para isso, utilizam com bastante frequência os seus celulares, produzindo vídeos e fotos como provas. hehehehe. Essa foi uma sacada genial. Afinal, nunca a tecnologia foi uma aliada tão eficaz para acabar com a privacidade das pessoas.

Pouco a pouco o padre Fabijan e seus “comparsas” acabam “ajeitando” a vida pregressa dos casais, ajudando quem fazia sexo sem compromisso a formar suas “famílias”. Claro que a solução não seria esta. Para a Igreja, o sexo deveria vir só depois do casamento. E a união de duas pessoas deveria ser feita por meio do amor e do conhecimento profundo um do outro. O remendo que Fabijan orquestrou naquela ilha não garantia a felicidade dos casais, apenas melhorava a proporção nascimentos/óbitos.

Um acerto de Svecenikova Djeca é a ponderação que o filme faz sobre isso. Na sequência em que Petar observa a mulher com um recém-nascido no colo, fica evidente a intenção dos roteiristas em dizer que ter filho significa trabalho. Além de muitas despesas. Uma criança não deveria ser apenas desejada, mas também planejada. Os pais precisam (ou deveriam) estar preparados, em todos os sentidos. Esta é uma ponderação interessante do filme, ainda que seja explorada em segundo plano na história.

Algo interessante que esta produção explora e que independe do tema principal, que envolve a Igreja, é de como um ato falho leva a outro e assim por diante. Dificilmente alguém que conta uma mentira não precisa contar várias outras para encobrir a primeira. E o mesmo vale quando você toma uma atitude que muda a vida de uma ou mais pessoas. Quando vê, o protagonista desta história está tão perdido nos efeitos de seu ato de furar camisinhas que há pouca chance dele sair ileso daquela situação. E isso acontece na vida real de diferentes formas.

Dentro das críticas que o filme faz à Igreja, vale citar a chegada do bispo (Lazar Ristovski) na comunidade para averiguar uma carta irada escrita por Marija depois que ela encontra uma camisinha nas roupas do padre Fabijan. A preocupação do bispo é se o padre estava usando a camisinha com crianças – especialmente meninos – da paróquia. E chega a comentar que é preferível o padre usar a camisinha e não engravidar alguém como outros “padres irresponsáveis” haviam feito.

A conversa do bispo com Fabijan é, sem dúvida, a parte alta da crítica que Svecenikova Djeca faz à Igreja. Ali, além de citar os casos de pedofilia de sacerdotes de diferentes países e de falar sobre os cuidados que os padres deveriam ter, o bispo ainda joga a ideia de que se Fabijan estivesse indo para o caminho da pedofilia, teria que transferi-lo. É como se o filme dissesse que a Igreja apenas acoberta estas práticas. De fato, houve momentos e locais em que isso foi feito. Mas o Papa Francisco, atualmente, deixa claro que isto não deve mais acontecer.

E quando você acha que o filme já tinha explorado todas as fragilidades da Igreja possíveis… (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Daí os roteiristas resolvem pegar pesado e sugerem que o “adorado” padre Jakov era não apenas um explorador de menores – afinal, ele engravidou uma adolescente, Kristina (Lana Huzjak) -, mas que ele também poderia ser um assassino. Não fica claro, no filme, se ele era culpado apenas pela gravidez da menina ou se ele teria agido diretamente para concretizar a morte da jovem. Pesado, não?

De qualquer forma, discutir estes temas não é o propósito deste blog. E ainda que eu costume tratar dos assuntos dos filmes além de falar da qualidade deles, não vou me estender na discussão levantada por Svecenikova Djeca porque ela, afinal de contas, debate a prática de uma religião. E quando isso acontece, cada um vai se apegar no argumento que melhor lhe interessar. Há quem vai enxergar apenas um lado da questão e há quem vai ponderar todos os lados, percebendo que há acertos, lógica, erros e tropeços neste debate.

Falando exclusivamente do filme, Svecenikova Djeca é uma produção que apresenta criatividade e alguns bons momentos. A história flui em uma hora e meia de filme, com uma boa direção de Vinko Bresan e a escolha de bons atores nos papéis centrais. O protagonista, em especial, merece aplausos. Kresimir Mikic faz um ótimo trabalho como o padre Fabijan, apresentando todas as boas intenções e fragilidades do personagem.

Também gostei do cenário escolhido para narrar esta história. Interessante ver os costumes e as paisagens de um pedacinho da Croácia, este país que é tão pouco explorado pelos filmes. Curioso perceber como as características daquele lugarejo se parecem com as de muitos outros lugares do mesmo porte e que estão em diferentes culturas. No fim das contas, o mundo é mesmo um pequeno grão de feijão. Temos mais semelhanças que diferenças para compartilhar.

NOTA: 8.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A história de Svecenikova Djeca segue a linha clássica de mostrar o principal do enredo com um flashback. Depois de vermos ao protagonista internado em uma instituição – sem sabermos, a princípio, se ela é para tratamento de saúde física ou mental -, somos apresentados à sua história com uma volta ao passado. O narrador é também o personagem principal, que está se confessando.

Pela história ter a dinâmica acima, a direção de Vinko Bresan trilha o caminho básico. A câmera dele normalmente fica estática, sem movimentações ou uma grande dinâmica. O foco está nos atores, sem inovação nas cenas – como alguns diretores fazem ao focar em outros elementos que fazem parte do contexto ou em planos diferenciados para quebrar a narrativa e/ou aprofundá-la.

O único recurso diferenciado que Bresan utiliza para quebrar a narrativa são as cenas em um cenário branco que reproduzem a imaginação do padre Fabijan. Criadas como esquetes curtas, estas cenas ajudam a mostrar como o padre tem uma visão esquemática e um tanto “criativa”. 🙂

Da parte técnica do filme, vale destacar o bom trabalho do diretor de fotografia Mirko Pivcevic e a competente edição de Sandra Botica. A trilha sonora assinada por Mate Matisic acaba sendo um recurso importante para o filme, ainda que ela carregue um pouco demais na ideia de comédia – e em muitas ocasiões este filme não faz rir.

Além dos atores já citados, responsáveis pelos principais momentos do filme, vale citar o nome de uma atriz que aparece menos na produção, mas que acaba ganhando uma relevância maior perto do final: Jadranka Djokic se sai bem como a louca Ana.

Svecenikova Djeca estreou em janeiro de 2013 na Croácia e na Sérvia, países que são responsáveis pela produção. Em julho do ano passado o filme participou de seu primeiro festival, o Karlovy Vary. Depois, o filme participaria ainda de outros seis festivais. Nesta trajetória o filme recebeu dois prêmios e foi indicado a outros dois. Os que recebeu foram o de Melhor Ator Coadjuvante para Niksa Butjer no Festival de Cinema Pula (promovido na Croácia) e um prêmio chamado “A Look at the Balkans Award” para Vinko Bresan no Festival de Cinema de Thessaloniki (realizado na Grécia e mais conhecido que o anterior).

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para esta produção. Uma boa avaliação. O site Rotten Tomatoes tem apenas uma crítica sobre o filme – e ela é positiva. Para Ben Sachs, do Chicago Reader, esta coprodução sérvio-croata “começa como um tapinha (embora agradável) de sátira anticlerical antes de ter várias reviravoltas surpreendentes, algumas com assuntos bastante obscuros (uma das piadas mais audaciosas faz alusão à limpeza étnica)”.

O crítico compara o trabalho de Bresan com o do diretor espanhol Alex de la Iglesia afirmando que os dois conseguem preservar o tom brilhante, quase de desenho animado, de seus filmes não importando o que pode acontecer de ruim na história. A crítica original e curta de Sachs pode ser conferida aqui.

Não tratei antes sobre este tema, mas Sachs tem razão ao afirmar que outros temas densos são tratados por Svecenikova Djeca além da questão “crítica à Igreja”. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). O personagem de Marin se revela um extremista xenófobo e racista. A ponto de ser movido para a missão com o padre pela vontade de encher a ilha de descendentes bósnios e impedir, assim, a “ocupação” de muçulmanos e ortodoxos. Ele é que tem a ideia de mexer com as pílulas anticoncepcionais e diafragmas. Mas ele quase desiste do plano quando os estrangeiros começam a chegar no local – e, claro, Marin é contra os estrangeiros, especialmente sérvios e mouros. Assustador, mas muitos pensam como ele e acham que o ideal seria isolar as suas comunidades desta “gente vinda de fora”. Coitados!

Eu ia terminando estes comentários sem citar algo que, para mim, foi o ponto alto do filme: quando a notícia sobre o aumento da fertilidade da ilha onde se passa esta história ganha as notícias e o local passa a atrair turistas mesmo fora da temporada. Grande ironia! De fato, muita gente é atraída por qualquer superstição para tentar conseguir o que deseja. No caso do filme, muitos casais que tentavam ter um filho e não conseguiam buscaram a “magia” de um lugar como a ilha croata para tentar mudar a própria realidade. E pensar que isso acontece fora do cinema…

CONCLUSÃO: É fácil criar polêmica. Basta pegar temas delicados e fazer comédia com eles. Svecenikova Djeca entra na seara da fertilidade e da postura da Igreja sobre a concepção para fazer rir e também para fazer críticas. De fato, em alguns momentos, o filme consegue o primeiro intento. Mas a respeito do segundo… a leitura que Svecenikova Djeca faz da Igreja é muito, muito rasa. Típica de quem só consegue ver uma face da moeda. Como toda obra artística, este filme tem os seus propósitos e consegue atingi-los. Mas para quem conhece a Igreja um pouco mais de perto, a superficialidade do roteiro chega a incomodar. Nada demais, no fim das contas. Para resumir, eis um filme curioso, carregado de intenções muito evidentes e que enxerga apenas um lado da argumentação, mas que acaba cumprindo o seu papel para o debate e para alguns momentos de diversão.