It Follows – Corrente do Mal

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Imagine que você é perseguido por algo que não dá para evitar. O terror chega devagar, mas é implacável. Para evitá-lo, a única alternativa é passar a “maldição” adiante e torcer para que as próximas pessoas da lista levem à sério o problema. Do contrário, aquilo que está te perseguindo vai voltar até você. It Follows parte desta premissa da inevitabilidade e do questionamento ético sobre a “salvação” para nos apresentar um filme interessante, envolvente e angustiante na medida certa.

A HISTÓRIA: Uma garota sai de casa desesperada. Com salto alto e roupa de festa, ela corre pela rua, mas logo para. Uma vizinha pergunta se está tudo bem, e o pai também quer saber o que está acontecendo. A garota, que se chama Annie (Bailey Spry), volta para casa, mas logo sai com uma bolsa e o carro. Annie vai para uma praia, aonde atende o pai no celular e diz que o ama. Quando amanhece, a garota está morta na praia de forma macabra. Corta.

Em outra residência, Jay (Maika Monroe) curte a piscina no quintal de casa, assim como a Natureza, até que a irmã dela, Kelly (Lili Sepe) comenta que Paul (Keir Gilchrist) e Yara (Olivia Luccardi) estão em casa para ver um filme. Jay fala que vai sair mais tarde. Ela se encontra com Hugh (Jake Weary) que, ela ainda não desconfia disso, vai mudar a vida dela.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a It Follows): Gosto de filmes com estilo, e It Follows é um destes exemplares. O visual da produção, o estilo da direção e até a trilha sonora fazem um conjunto perfeito e nos remetem a um estilo de filme que não existe mais. Como comentarei lá no final, para quem já assistiu a filmes de terror e suspense dos anos 1970, esta é uma produção com a alma daqueles filmes.

Mas não é apenas a questão conceitual. O roteiro também nos faz lembrar um pouco aqueles filmes. Vejamos. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Em It Follows, os pais praticamente não aparecem. Eles são secundários e não tem voz. São os jovens, os adolescentes, que protagonizam a história. Mergulhamos no estilo deles, em seus sonhos e medos. Como outras produções dos anos 1970 e 1980. O sexo é um elemento-chave nesta produção, assim como em outras que ajudaram a fazer a história do gênero.

O roteirista e diretor David Robert Mitchell acerta ao não perder tempo na narrativa. Primeiro, com Annie, percebemos que há um mal cruel e que parece ser implacável. Depois, por um breve período, esquecemos isso com o comportamento de Hugh. Ele parece ser apenas mais um sujeito desequilibrado que fará mal para uma garota que ele conseguiu convencer a sair com ele. Mas não. Na sequência do sexo no carro e dela ser amarrada em uma cadeira-de-rodas em um lugar sinistro e abandonado – e como não? – Hugh conta o “segredo”.

Ele foi contaminado por uma outra pessoa com quem ele transou e, agora, está passando a “maldição” para Jay. Para mim, foi inevitável pensar na AIDS e nas pessoas que, propositalmente, infectam as outras – após saber que estão com o vírus. Daí entra uma parte interessante deste filme: você passaria adiante a maldição apenas para sobreviver? Mataria outra pessoa ou, no mínimo, a traumatizaria apenas para se ver livre do problema?

Claro que com a AIDS isso não acontece. Mas é através do sexo, normalmente, que o contágio é feito. No caso do vírus, todos são contaminados. Mas no caso da “maldição” repassada pelo sexo no filme, se você fizer uma corrente bastante grande de pessoas infectadas, em teoria, você vai ficar livre do problema. Tendo que torcer, é claro, para esse grupo de pessoas não morrer antes que você, porque daí o alvo retorna para ti.

Outro acerto do roteiro de Mitchell é que a ameaça é física, realística – apenas o amaldiçoado pode vê-la, mas os efeitos de quem persegue podem ser vistos pelos outros, como uma porta quebrada, por exemplo. Ou seja, não pode atravessar paredes, ou voar. O que dá uma certa chance para quem está sendo perseguido. Ainda que, e este ponto é o mais angustiante da premissa, quem está sendo perseguido sabe que, mais cedo ou mais tarde, a morte vai chegar até ele(a).

O que fazer então? Basicamente, duas alternativas: fugir sempre, sabendo que mais cedo ou mais tarde a ameaça vai chegar e, por isso, estar sempre atento para voltar a fugir; ou passar adiante o problema. E não é simplesmente “contaminar” alguém. Você precisa convencer a pessoa a seguir passando para a frente, do contrário, quando ela morrer, você será perseguido novamente.

Por isso Hugh/Jeff cuidou de explicar para Jay o que ela deveria fazer. Mas ela resiste a passar adiante o problema. Mas acaba fazendo isso. Com um resultado catastrófico e com outro que nunca saberemos – o filme termina, justamente, em uma sequência em que o perigo pode ou não estar se aproximando novamente de Jay e Paul. Interessante a história e o questionamento ético que ela nos apresenta.

Ah sim, há ainda a tentativa do grupo em eliminar a ameaça. Uma tentativa inteligente proposta por Paul, mas provavelmente sem efeito. Como o filme termina “sem final”, não sabemos ao certo. Mas tudo indica que a história vai continuar com o problema da maldição precisando ser resolvido.

Como os pais são ausentes, os jovens tem que resolver tudo sozinhos. Eles viajam, passam uns dias fora e, aparentemente, tudo está certo. Nenhum adulto parece se importar. Os hormônios estão gritando, e a protagonista é desejada por dois amigos: Paul e Greg (Daniel Zovatto) – este segundo atento a todas as demais meninas também. Bacana também o fato do roteiro, na ausência de adultos mais “presentes”, mostrar a união e a amizade entre os personagens jovens – eles é que dão graça para a história. A verdade é que quanto mais simples a premissa, melhor para o filme.

No caso de It Follows, o suspense é garantido por toda e qualquer pessoa que esteja caminhando em linha reta. Afinal, a ameaça nem sempre parece claramente uma pessoa morta. Muitas vezes se parece com alguém comum. O filme tem alguns bons sustos e, certamente, diversos momentos de tensão. Funciona neste sentido. Além do roteiro bem escrito, com a qualidade de ser direto e conciso, Mitchell acerta na direção do filme.

Ele investe em grandes planos, seja nas ruas ou outros ambientes abertos, seja em ambientes fechados e com sequências fluídas e muitas vezes circulares. A sequência na escola em que Hugh/Jeff estudou é um grande exemplar disso. Aliás, algumas vezes é preciso estar bem atento aos detalhes – como a garota que segue andando em linha reta quando eles saem do local e que, por pouco, não chega em Jay a tempo de pegar a garota.

Estas sequências fluídas do diretor, junto com a valorização das interpretações dos atores e dos detalhes da história para dar-lhe tensão são o ponto forte do filme. Apesar deste ser um trabalho bem acabado, não dá para dizer que It Follows reinventa a roda. E nem precisava, não é mesmo? Afinal, o que mais está faltando hoje em dia, são filmes que cumprem o seu papel e ainda nos fazem pensar sobre o que estamos fazendo ou sobre o que faríamos no lugar deste ou daquele personagem. Com duração certa – pouco mais de 1h30 – It Follows consegue fazer tudo isso. Sorte nossa.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Vale a pena ficar de olho em David Robert Mitchell. It Follows é apenas o terceiro trabalho dele. Mitchell estreou como roteirista e diretor do curta Virgin, em 2002, e em 2010 escreveu e dirigiu The Myth of the American Sleepover. Não assisti a estas produções, mas achei que ele foi muito bem, com assinatura e estilo neste It Follows. Vale ter ele em mente.

Além do ótimo trabalho de Mitchell, gostei do elenco que ele escolheu para este filme. Todos estão muito bem, mas sem dúvida alguma o destaque vai para a protagonista, interpretada por Maika Monroe. Mas todos os outros estão muito bem, com atenção especial para Keir Gilchrist e Lili Sepe.

Agora, tem cenas que deixam um certo ponto de interrogação. (SPOILER – não leia se você não tiver assistido ao filme). Por exemplo, aquela sequência em que Jay entra na água aparentemente para ir até o barco em que estão três homens. Aparentemente ela fez isso para transar com um ou mais de um deles, certo? Então por que não demora muito para ela voltar a ser perseguida? Ela não falou nada para os homens do que eles deveriam fazer, eles morreram rápido mesmo assim ou ela não chegou a ir até o barco? Perguntas sem resposta. Ainda assim, eu apostaria na terceira opção – afinal, ela volta a ver uma figura a perseguindo logo na sequência.

Como em outros filmes de suspense e terror, o diretor explora bem a questão urbana, as casas americanas parecidas e uma certa “decadência” do cenário. Há uma sequência, inclusive, em que Yara comenta sobre a segregação entre as pessoas da cidade e as do subúrbio. Ou seja, o filme não é descolado da realidade. Aliás, falando em Yara, achei interessante também o “gadget” que ela utiliza e lembra os atuais “kindle” e afins. É em um aparelho destes que ela está lendo O Idiota, de Fiódor Dostoiévski. Ainda que eu não tenha visto nenhum paralelo entre o filme e a obra de Dostoiévski, achei bacana o autor citá-lo na produção – quem sabe alguém que viu o filme acaba lendo o livro?

Da parte técnica do filme, sem dúvida alguma merecem elogios a ótima direção de fotografia de Mike Gioulakis, que nos transporta para os anos 1970; a edição precisa e elegante de Julio Perez IV e a marcante, precisa e equilibrada trilha sonora de Rich Vreeland. Vale também citar, como contribuições importantes para o “clima” do filme, o trabalho de Michael Perry no design de produção, o de Joey Ostrander na direção de arte e o de Kimberly Leitz nos figurinos.

It Follows estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme participaria ainda de outros 38 festivais – um número impressionante, devo dizer. Nesta trajetória, a produção recebeu oito prêmios e foi indicada a outros cinco. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o Prêmio do Público no Festival Internacional de Cinema Fantástico Nocturna Madri e para os de Melhor Filme e Melhor Roteiro no Festival Fantástico de Austin.

Esta é uma produção que comprova que um bom roteiro não precisa consumir muito dinheiro. It Follows teria custado apenas US$ 2 milhões. Nas bilheterias dos Estados Unidos o filme conseguiu pouco menos de US$ 14,7 milhões até o dia 21 de junho. Em outros mercados, até abril, o filme tinha acumulado outros US$ 10 milhões. Nada mal para um filme com nomes bastante desconhecidos e que, certamente, fez este sucesso por causa da propaganda boca a boca. Merecido o resultado.

Para quem gosta de saber sobre as locações dos filmes, esta produção foi toda rodada em diferentes locais do Michigan, nos Estados Unidos – incluindo Detroit.

Agora, algumas curiosidades sobre este filme: de acordo com o diretor David Robert Mitchell, a sua maior influência para esta produção foi Creature from the Black Lagoon, filme de 1954 que tem cenas lentas e um monstro bem persistente. Outra grande influência de Mitchell teria sido Night of the Living Dead, de 1968, que traz uma visão palpável e claustrofóbica do mal. A lista de produções que influenciaram bastante o diretor segue: The Shining, de 1980; The Thing, de 1982; Paris, Texas, de 1984; e A Nightmare on Elm Street, de 1984.

Além destas influências do diretor, vale citar o que ele deixa transparecer no filme como citações. No cinema em que Jay e Hugh vão, está passando Charade, de 1963. E na TV da casa de Jay e Kelly passam os filmes Killers from Space, de 1954, e Voyage to the Planet of Prehistoric Women, de 1968.

Os usuários do site IMDb deram a nota 6,9 para o filme, mas os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes foram mais generosos. Eles dedicaram 181 textos positivos e apenas sete negativos para It Follows – o que garante aprovação de 96% para o filme e uma nota média de 8,2. A nota média, em especial, é muito boa se levarmos em conta o padrão do site.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos.

CONCLUSÃO: Um filme de terror que te faz lembrar os bons exemplares do gênero dos anos 1970 e 1980. Se você já assistiu a vários filmes deste gênero, inclusive os antigos, vai encontrar em It Follows aquela mesma aura. Este é um dos elementos mais interessantes da produção, junto com o questionamento ético e as saídas criativas para o problema que a protagonista tem que enfrentar. Lembra algumas outras produções, mas também tem originalidade. Um bom exemplar do gênero, e que termina de forma aberta – o que pode incomodar alguns, mas é algo que eu acho acertado dentro da ótica da produção. Vale conferir, mas sem grandes expectativas a respeito – afinal, é um bom filme, mas não revoluciona o gênero.

Gett – The Trial of Viviane Amsalem – O Julgamento de Viviane Amsalem

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Ter liberdade de pensar e sentir por sua própria conta. Decidir a própria vida. Parecem princípios básicos, mas para muitas mulheres em muitas partes do mundo – e inclusive ao nosso lado ou dentro da nossa casa – isso não tem nada de básico. Para estas mulheres, a liberdade é uma palavra fora do dicionário. Por isso mesmo Gett – The Trial of Viviane Amsalem é um filme tão importante, tão vital. Ele mostra o estrago e o absurdo de uma cultura em que a mulher é um ser menor, sempre à mercê da vontade de um homem, especialmente se ela é casada. Com interpretações fantásticas e um roteiro bem construído, este filme é essencial.

A HISTÓRIA: O advogado Carmel Ben Tovim (Menashe Noy) olha fixo por um longo período antes de falar em nome de sua cliente, Viviane Amsalem (a fantástica Ronit Elkabetz). Ele diz que lamenta que o marido de Viviane, Elisha Amsalem (Simon Abkarian), não tenha cooperado nos últimos três anos em se fazer presente no tribunal e nem ao menos em opinar sobre o pedido de divórcio feito pela mulher.

Agora, na frente do juiz rabino Salmion (Eli Gornstein) e de seus dois auxiliares, Elisha diz que não aceita o divórcio e que quer que a esposa volte para casa. Mesmo ela dizendo que não é possível eles voltarem a ficar juntos, o juiz ordena que ela volte por seis meses, tentando a reconciliação. Este é apenas o começo de um longo martírio de Viviane em busca da própria liberdade.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Gett – The Trial of Viviane Amsalem): É um desafio assistir a este filme. Não porque ele seja longo demais, ou muito arrastado. Pelo contrário. O roteiro dos diretores Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz é tão bem escrito e preciso, com a valorização adequada do trabalho do pequeno grupo de atores envolvidos, que não há sobras ou faltas na ação. A dificuldade em assistir a esse filme sem em algum momento ferver um pouco o sangue é ver o absurdo da situação.

Estamos acostumados, no Brasil, a longos processos judiciais. Mas por aqui, normalmente, questões como o divórcio são resolvidas com grande facilidade. Algumas vezes, concordo, até com facilidade demais. Sou da opinião que as pessoas, depois de casadas, devem fazer um esforço para permanecerem juntas e darem certo naquela união. Afinal, elas deveriam ter pensado bem e escolhido com consciência os seus respectivos cônjuges. Dificuldades aparecem e vão aparecer, mas o casamento não deve terminar por causa delas.

Agora, uma situação muito diferente é vivida pelos personagens centrais desta trama. E é um grande acerto dos roteiristas ir desbravando a intimidade deles lentamente. No início, Viviane e Elisha apenas marcam posição: ela quer o divórcio, ele não. E segundo a cultura e a tradição judaica, é o homem que decide. Sim, e essa é a parte mais marcante desta produção: a mulher não tem direito de escolher, de opinar. Torna-se evidente, assim, a subjugação da mulher, colocada em segundo plano e abaixo do homem.

De arrepiar algo assim. Mas é o que a tradição – aquela mesma questionada por Jesus, condenado à morte e até hoje não aceito pelos judeus – deles prega. Que a mulher deve se submeter e, de preferência, sem questionar. Mas Viviane não é assim. Que brava e maravilhosa essa personagem e também a atriz que a interpreta – e que é uma das roteiristas e diretora, ao lado do irmão.

Agora, voltando para um dos acertos fundamentais desta produção: os roteiristas escreveram a narrativa para ela crescer lentamente. No início, temos apenas a posição firme e contrária dos dois personagens centrais. Depois, pouco a pouco, é que vamos ouvindo outras testemunhas – familiares de Viviane, conhecidos de Elisha e vizinhos do casal. E, na reta final, finalmente marido e mulher dão os seus testemunhos.

Antes destes outros personagens entrarem em cena e do filme ganhar em tensão com os depoimentos das duas partes diretamente interessadas no divórcio, impressiona já o que o roteiro fala nos diálogos e o que ele comunica com a troca de olhares entre os personagens. Os flagrantes e os silêncios expressam tanto ou mais do que os argumentos. Como acontece na nossa vida e, certamente, na casa de Viviane e Elisha – que sempre tiveram grande dificuldade de comunicação.

É verdadeiramente assustador pensar que uma mulher deva ficar durante diversos anos se submetendo a um juizado composto por três ou dois (quando um deles renuncia temporariamente) rabinos para conseguir um direito tão básico quanto o de tomar as rédeas da própria vida. Mas quantas mulheres hoje em dia são prisioneiras de seus próprios namorados e maridos depois de terem sido “sequestradas” por eles – para usar um termo do Padre Fabio de Melo? Seja esse sequestro mais “literal”, com elas sendo mantidas em casa praticamente como prisioneiras, seja de forma mais genérica, com elas capturadas após um longo período de manipulações e de esmagamento do que elas tem de melhor, que é a sua própria independência e auto-estima.

O fantástico deste filme é que ele mostra uma mulher forte, brava, destemida e que respeita a si mesma, em primeiro lugar. Depois de algumas décadas de casamento, quando ajudou a cuidar da sogra e educou os filhos, ela decide se separar. Porque vive uma vida miserável ao lado de Elisha, um homem que não consegue se comunicar com a esposa e que, segundo ela, sempre que pode a critica e a ofende. Ele também se queixa da mulher, dizendo que ela não o respeita, grita com ele e que não age como uma “boa esposa”.

Ora, então por que ele quer insistir naquela vida miserável e infeliz? Ele jura que é porque ama ela. Viviane argumenta que, no fundo, ele a odeia. No fundo, amor e ódio muitas vezes se misturam, e isso fica evidente nas trocas de olhares entre os dois. Além de amor e ódio, é possível ver naqueles olhares pedidos de súplica, perdão, desprezo e competição aberta para saber quem pode mais. Quem será mais forte.

O bacana desta produção é que ela não julga e nem apresenta uma única interpretação sobre o que aquele casal sente e vive. De forma muito natural, Gett – The Trial of Viviane Amsalem nos apresenta uma realidade e nos dá a liberdade – algo tão negado para a protagonista – de fazermos as nossas próprias leituras e interpretações. Característica fundamental de um grande filme, que acerta também na dinâmica da história, ao enclausurar a audiência junto com aqueles personagens em uma sala de audiência e na ante-sala de espera, e também na aposta da interpretação dos atores.

Da minha parte – e você tem, como sempre, todo o direito de discordar -, acredito que Viviane e Elisha tiveram em algum momento amor um pelo outro. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Mas, de fato, ele não dava o divórcio para ela por puro orgulho e porque ele não queria perder o controle sobre a mulher. Na reta final, quando ele cede após ela prometer que não vai se relacionar com mais nenhum homem, fica subentendido que este era o “problema” dele: vê-la em outra relação. Não acredito que seja apenas isso.

Acho sim que ele não admitia que aquela mulher tivesse vida própria. O cotidiano deles tinha virado um inferno? Ele preferia isso e dar o troco para ela sempre que possível do que deixá-la ser feliz longe dele. Homens que vêem as mulheres como objetos, como “coisas” que eles podem possuir, jamais vão respeitar a vontade própria destas mulheres. De fato, e como aquele sistema judaico do qual eles fazem parte, eles acreditam que a mulher é “inferior” e deve se submeter. Me desculpe se você acha isso também, mas este pensamento é repulsivo e totalmente contrário ao que qualquer crença digna possa sugerir.

Além de nos fazer pensar sobre o absurdo de diferentes realidades – e muitas vezes a nossa ou de alguém próximo também pode ser vista como absurda -, este filme nos mostra um exemplo de mulher admirável. Que não sucumbiu ao que o juiz ordenou inicialmente, nem ao desgasta do longo processo ou da condenação de boa parte daquela sociedade em que ela estava inserida.

Ela não estava feliz, tinha uma vida miserável e sabia que não havia salvação para aquela realidade mudar com o marido e, por isso, decidiu recomeçar. O final, que mostra ela caminhando para a liberdade, não poderia ser mais bonito e encorajador. Para todas as mulheres, homens, jovens e adultos que se sentem prisioneiros de algo que lhes faz mal. Belo filme.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Interessante refletir sobre os primeiros minutos desta produção. Logo no início temos o ator Menashe Noy, que interpreta ao advogado Carmel Ben Tovim, em uma cena que parece longa de olhar fixo para baixo, parecendo um pouco constrangido, e ao olhar para alguém que estava em um nível inferior ao dele. Conforme a cena se desenrola e vemos a parte dos outros homens do recinto, percebemos só depois que ele olhava para Viviane Amsalem. Não por acaso ela é a última a ser mostrada. Afinal, naquele cenário, ela está em “posição inferior” a dos homens e é a última a “importar”. Muito inteligente esta sequência que representa bastante da história que veremos em seguida.

Todo o julgamento a que assistimos é absurdo. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Logo no início os juízes são informados que a mulher que está pedindo divórcio está há três anos fora de casa, morando com parentes, e que neste período o marido não falou com ela, exceto uma vez – quando ela perdeu um irmão. Isso não significa nada para os rabinos e juízes Salmion (o que preside quase todo o julgamento), Danino (Rami Danon) e Abraham (Roberto Pollack).

Não demora muito para Salmion perguntar para o advogado de Viviane se o marido não lhe dava o essencial, que seria dinheiro e comida. Sério mesmo? Como Carmel mesmo diz, logo no início do julgamento, Viviane é cabeleireira há 20 anos, e foi com o dinheiro de seu trabalho que ela conseguiu se sustentar e aos filhos nos três anos em que viveu fora da casa de Elisha. Então ela não precisa de um marido para lhe dar “dinheiro e comida”. Como se não bastasse esse pensamento ridículo, ainda o juiz diz que a razão dela para querer o divórcio, que é não amar mais ao marido, “não é razão” para se separar. Sem maiores comentários.

Interessante como logo nos primeiros minutos do filme o protagonista diz para a esposa que busca o divórcio: “Jamais, Viviane!”. Claramente, para mim, o orgulho dele fala mais alto. E não há amor ali. Porque quem ama quer ver a outra pessoa feliz. Se esforça para isso. E se, lá pelas tantas, não consegue mais fazer a outra pessoa feliz, vai querer que ela busque a felicidade em outro lugar. Assim de simples. Isso só não funciona para homens machistas que acham que são proprietários das mulheres – tornadas mercadorias.

A atriz Ronit Elkabetz tem uma interpretação digna de muitos prêmios – além do Oscar, de outros tantos mais de respeito mundo afora. Ela dá um show de interpretação neste filme. Depois de diversos anos de um longo julgamento em que ela só pedia pelo direito de recomeçar a vida – mas no qual ela estava sendo julgada -, sem dúvida alguma os grandes momentos da produção são aqueles em que ela tem dois rompantes de desabafo. Mas são momentos inesquecíveis também quando ela e o ator Simon Abkarian, que também faz um grande trabalho, dão os seus próprios testemunhos.

Neste momento, do testemunho deles, muito da relação entre os dois se torna clara e cristalina. (SPOILER – não leia… bem, você já sabe). Elisha diz que ama a mulher e que não aceita o divórcio porque ela é o destino dele e os dois estão presos um ao outro. Em seu depoimento, Elisha também deixa claro que nunca tentou agradar a esposa e que ele não é tão coerente assim ao seguir a própria religião – afinal, gosta de coisas que não são “kosher”, como o cinema.

Ela, por sua vez, emociona ao dizer que há 10 anos pensa seriamente em se separar, mas que o primeiro pensamento a esse respeito veio logo depois deles terem se casado. Viviane não demorou para perceber que os dois eram incompatíveis. Perguntada sobre o porquê de ter se casado, ela respondeu o que muitas mulheres, certamente, responderiam sobre as suas próprias escolhas: “porque nós fazemos isso, nos casamos”. É, minha gente, isso é complicado. Algumas vezes as pessoas casam porque é o que a sociedade e as famílias esperam, mas fazem escolhas ruins. O resultado disso sabemos que nunca será bom. Essa história é um bom exemplo.

Além dos dois atores principais, que estão perfeitos em seus papéis, vale destacar o ótimo trabalho de Menashe Noy como o expressivo e sensível advogado de Viviane; Sasson Gabai como o magnético e competente advogado e rabino Shimon, irmão de Elisha e que por boa parte do julgamento atua como advogado dele; além, claro, dos juízes. Outros atores aparecem como testemunhas. Eles fazem um bom trabalho, mas nada que fuja do esperado ou mereça um destaque específico.

Da parte técnica do filme, achei perfeita a direção da dupla Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz. Os irmãos acertam em cheio na dinâmica em cena, no ritmo das câmeras e na atenção constante no trabalho dramático do elenco. O roteiro também é construído com esmero, sem sobras ou faltas. Para estes elementos funcionarem bem, vale destacar o trabalho da diretora de fotografia Jeanne Lapoirie e do editor Joel Alexis.

Gett – The Trial of Viviane Amsalem estreou em maio de 2014 no Festival de Cinema de Cannes. Depois, o filme passaria ainda por outros 32 festivais e mostras em diversas partes do mundo. Uma trajetória admirável e merecida pelo filme de qualidade.

Em suas andanças por estes festivais, o filme abocanhou 13 prêmios e foi indicado a outros 14. Poderia ter sido mais. Só acho que não foi porque esta produção, apesar de ter uma temática universal, pode cair estranha para o gosto de alguns – que não se interessam e/ou não são interessados pela cultura judaica ou por culturas diferenciadas. Entre os prêmios que recebeu, destaque para o de Melhor Filme e Melhor Ator Coadjuvante para Sasson Gabai no Prêmio da Academia de Cinema Israelense; o de Melhor Roteiro no Festival Internacional de Cinema de Chicago; o de Melhor Produção Israeli, Melhor Ator para Menashe Noy e Prêmio da Audiência do Festival de Cinema de Jerusalém; o Prêmio Diretores para Acompanhar no Festival Internacional de Cinema de Palm Springs; e o prêmio da produção ter figurado na lista do Top 5 de Filmes em Língua Estrangeira do National Board of Review.

Esta produção, indicada oficialmente ao Oscar por Israel, foi nomeada também como Melhor Filme em Língua Estrangeira no Globo de Ouro 2015. No Oscar o filme não conseguiu chegar entre os finalistas. No Globo de Ouro ele perdeu para Leviathan (com crítica aqui). Da minha parte, gosto de Leviathan. É um filme importante e crítico, mas apreciei mais o debate levantado por Gett – The Trial of Viviane Amsalem. Gostos.

Há poucas informações sobre o desempenho de Gett – The Trial of Viviane Amsalem nas bilheterias. Consegui apurar apenas que o filme teria feito pouco menos de US$ 988 mil nos Estados Unidos.

Não consegui descobrir as locações deste filme, apenas que ele foi rodado no Verão de 2013.

Os usuários do site IMDB deram a nota 7,8 para Gett – The Trial of Viviane Amsalem. Uma avaliação boa para o padrão do site. Mas os críticos que tem os seus textos divulgados no Rotten Tomatoes foram ainda mais efusivos na aprovação do filme. Eles dedicaram 65 críticas positivas, uma rara aprovação de 100% e uma nota média de 8,5. Excelente.

De acordo com este texto do site do Film Society Lincoln Center, Gett – The Trial of Viviane Amsalem é baseado na história real de uma mulher que lutou nos tribunais para conseguir o divórcio em uma comunidade ortodoxa de Israel.

Esta é uma coprodução de Israel com a França e a Alemanha.

Interessante o currículo de Ronit Elkabetz. Nascida em Beershaba em 1964, ela tem 30 trabalhos como atriz, quatro como roteirista e três como diretora. Todos os trabalhos dela na direção foram feitos ao lado do irmão, Shlomi Elkabetz. Ele tem quatro projetos como roteirista e diretor – além dos três feitos com a irmã, ele tem Edut como um trabalho solo. Os dois valem ser acompanhados.

CONCLUSÃO: Um filme com poucos atores e que se passa inteiro em um tribunal. Brilhante justamente por esta escolha. Afinal, a vida de Viviane Amsalem ficou presa e suspensa durante todos aqueles anos em que ela foi julgada por querer ser livre. Algo inadmissível para a cultura machista judaica em que uma mulher deve se submeter sempre aos desejos do marido. Mesmo em culturas que não são aquela os homens esperam que as mulheres estejam sempre aos seus pés.

No Brasil mesmo vivemos em uma sociedade machista em que as mulheres devem ceder o máximo possível frente a homens que se acham superiores. Por tudo isso esse filme é fundamental. Mesmo que você não entenda o que ele quer dizer. Bem pensada para o propósito que ela se dispõe, esta produção acerta na valorização dos atores, dos sentimentos que eles trocam e querem passar e na sensação de clausura. Perfeito na simplicidade.

Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? – Que Mal eu Fiz a Deus?

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Apenas o humor é capaz de vencer algumas barreiras, situações e preconceitos. Ou, se não é capaz de vencer, pelo menos de diminuir distâncias e de fazer pensar. Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? pode ser um destes filmes que vai te deixar indignado(a) e revoltado(a), mas pode ser também uma forma de vencer barreiras, fazer pensar e analisar de uma forma diferente uma situação plausível na vida real. Claro que, como uma boa comédia, esta produção é exagerada. Mas ela não deixa de ter um pé bem fincado na realidade – da França e de tantas famílias “tradicionais” daquele e de outros países.

A HISTÓRIA: Prefeitura de Chinon, Indre-et-Loire, França. Uma cerimônia oficializa a união de Rachid Abdul Mohamed Benassem (Medi Sadoun) e Isabelle Suzanne Marie Verneuil (Frédérique Bel). Do lado de Rachid, uma grande família. Do lado de Isabelle, os pais Claude (Christian Clavier) e Marie Verneuil (Chantal Lauby) e a as irmãs Odile (Julia Piaton), Ségolène (Emilie Caen) e Laure (Elodie Fontan).

Um ano depois, Odile Huguette Marie Verneuil casa com David Maurice Isaac Benichou (Ary Abittan). E um ano depois, Ségolène Chantal Marie Verneuil se casa com Chao Pierre Paul Ling (Frédéric Chau). Para os pais, que são católicos, é um verdadeiro desafio ver três de suas filhas casando com homens de outras origens e religiões. A última esperança deles é que Laure case com um católico.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?): Este filme deixa claro a que veio logo no início. De forma divertida e propositalmente exagerada, os roteiristas Philippe de Chauveron (que também dirige o filme) e Guy Laurent mostram três das quatro filhas de um casal católico e tradicional francês casando com três homens de origens diferentes. Fica evidente que os pais das meninas não estão, exatamente, felizes.

Esta impressão é confirmada pouco tempo depois, em uma refeição familiar aonde sobram estranhezas, pré-conceitos e provocações. Temperamental, o pai das meninas, Claude, não deixa barato e sai ofendido. No caminho, ele e a mulher Marie falam de cada um dos genros, debatendo sobre qual é o pior. Como normalmente é típico das mulheres, contudo, Marie começa a procurar explicações para os seus sentimentos.

Primeiro, ela se queixa com o padre local (Loïc Legendre) que, só de ouvir a voz da fiel, já fica arrepiado. Ele sabe por aonde vai o andor da conversa entre eles e da confissão que se segue. O sonho de Marie e de Claude era ter um casamento tradicional, com uma das filhas se casando com um católico. Depois da queixa, ela procura as respostas que comentei antes e, ao falar com o marido, comenta que eles também tem uma parcela de culpa na falta de união familiar, já que demonstraram ter preconceitos com as origens muçulmana, judaica e oriental dos genros. Daí surge a ideia de unir a todos no Natal.

Muito bacana como, mesmo cheio de estereótipos – e que comédia não os têm? – o filme vai avançando na solução para aquele problemão de convivência que passa pelas “maledetas” das expectativas e pela frustração delas. Como a maioria das mulheres, Marie ama a família e, para que eles melhorem a convivência, ela se esforça para preparar uma Ceia de Natal que agrade a todos os paladares. Muito fofa!

Como acontece em diversas situações e com diferentes famílias, todos se esforçaram e cederam um pouco em suas posições e, adivinhem? A sintonia começou a acontecer. Esta é uma das grandes lições de Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu?: o preconceito e a distância que separa as pessoas só existe porque cada um defende o seu lado e dá mais valor para o que lhe diferencia dos demais, ao invés de procurar o que há de comum e buscar entender a outra ótica. Quando todos cedem um pouco, o diálogo acontece e as pessoas começam a entender e a respeitar umas às outras.

Dá tudo certo no Natal, mas há um detalhe que começa a fugir do controle: os pais de Laure tentam arranjar um pretende católico para ela. Mal eles sabem que ela já está namorando sério e que está pensando em casar. (SPOILER – não leia se você não viu o filme). Sem abrir o jogo totalmente para os pais, Laure diz que está namorando e que quer apresentar o pretendente para eles. Pequeno detalhe: Charles Koffi, com quem ela pretende se casar, é negro.

Até aí, não haveria nenhum problema. Afinal, aparentemente, a lamentação dos pais de Laure é que nenhuma das outras filhas tinham casado com um católico e um francês “clássico”. Há franceses negros e que são católicos. Nesta parte, fica evidente que o preconceito não tem só a ver com religião, ou com raça, mas com cor da pele também. O roteiro brinca com isso, de que agora os pais de Laure terão todas as cores do arco-íris na família.

Interessante como os pais nunca se posicionaram contra nenhum dos casamentos. Eles respeitaram as escolhas das filhas, ainda que, entre eles, lamentassem as suas decisões. As irmãs e os cunhados de Laure, contudo, pressionam a garota de que ela deveria escolher outro rapaz que fosse do agrado dos pais. Ora, que direito eles tinham de fazer isso? Nenhum. Mas não é raro ver o caçula da família tendo que satisfazer os sonhos dos pais que os outros não conseguiram propiciar. Laure e Charles não se fazem de rogados, mas nem tudo será tranquilo até o casamento.

No Natal, enquanto Laure passava a festa com a família, Charles vai visitar a família dele na África e descobre que há preconceito do lado deles também. Mais especificamente o pai dele, André Koffi (o ótimo Pascal N’Zonzi), faz o contraponto para Claude. Ele gostaria que o filho casasse com uma negra e não uma “branquela” de uma família de “brancos exploradores”. Os noivos seguem o plano, mas perto do casamento os desentendimentos entre Claude e Marie e a possibilidade de confronto entre os patriarcas Verneuil e Koffi ameaça o planejado.

O final acaba sendo perfeito. Ao externalizarem as suas próprias opiniões e preconceitos, André e Claude percebem, mais uma vez, como antes tinha acontecido com os Verneuil e os seus genros, que eles tem mais coisas em comum do que poderiam inicialmente admitir. E voilà! Os dois se tornam amigos e tudo acaba fluindo bem, apesar deles terem quase colocado tudo a perder.

Descontados os exageros aqui e ali, este é um filme divertido e que nos faz pensar sobre as nossas próprias convicções e atitudes. Afinal, por que algumas vezes não gostamos de certas pessoas? Ou, visto de outra forma, antipatizamos com colegas de trabalho ou temos dificuldade de lidar com quem age diferente do que consideramos “normal”? Será que também percebemos os nossos problemas e mancadas, ou achamos sempre que o “inferno são os outros”?

No fim das contas, quando paramos para pensar um pouco melhor, percebemos que é possível encontrar pontos em comum com todas as pessoas. Mesmo com aquelas que parecem tão diferentes da gente. Este filme nos faz pensar sobre isso e, apenas por esta razão, ele merece ser visto. Claro que a mesma reflexão poderia ser feita em um filme mais reflexivo, sem tanto preconceito transvestido de comédia.

Mas, talvez, se fosse assim, ele não chegaria tão facilmente nas pessoas nas quais essa história precisa chegar e que preferem rir do que “pensar”. Sim, estou sendo um pouco preconceituosa com este comentário, mas quantas pessoas você conhece que preferem ver filmes “leves” e “engraçados” e ter conversas deste gênero do que pensar sobre os seus próprios sentimentos e atos? Eu conheci várias pessoas assim, e acho que uma comédia, talvez, e só talvez, para elas possa fazer alguma diferença.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A narrativa desta produção é linear e sem reviravoltas, mas com aquelas surpresinhas básicas que toda comédia nos pede. Por exemplo, os diferentes perfis dos personagens. Especialmente os homens que casaram com as filhas do casal Claude e Marie tem as suas histórias mais exploradas. As mulheres deles aparecem pouco e, com exceção da artista da família, sabemos pouco sobre os gostos e perfis das demais. Desta forma, dá para dizer que o roteiro da dupla Laurent e de Chauveron é bem construído e condizente com a proposta deles.

Além de roteirista, como comentei anteriormente, Philippe de Chauveron é também o diretor do filme. Ele faz um bom trabalho, que valoriza o desempenho dos atores e, em certos momentos, também o cenário e as paisagens aonde eles estão inseridos. Gostoso de ver a França urbana, mais comum no cinema, e principalmente o país do interior. Neste quesito, vale destacar também a direção de fotografia de Vincent Mathias, que nos apresenta imagens bem iluminadas e que garantem qualidade na proposta de equilibrar a dinâmica entre os atores e os ambientes.

Em diversos momentos o filme reforça a ideia de que a França é um país miscigenado, com grande mistura de raças, credos e cores. De fato, isso é verdade. Mas também é verdade que parte do país sofre com isso ou tem problemas decorrentes desta mistura. Uma busca por notícias no Google rapidamente vai trazer diversas reportagens sobre conflitos raciais ou de cultura na França. Mas isso quer dizer que o povo francês é mais preconceituoso que outros? Não acho que seja assim.

Acredito que todo país que tem uma grande mistura de raças, de etnias e de credos terá maior probabilidade de conflito do que um país em que isso não acontece. Conta para os problemas também quando há algum tipo de “disputa” em jogo – por território, bens ou serviços. No caso do Brasil, que tem também bastante miscigenação, nos “favorece” quando ela foi feita: há alguns séculos ou décadas.

Agora, quando há uma “invasão” em um espaço curto de tempo e quando o país tem uma desigualdade maior entre regiões e distribuição de renda, daí os conflitos podem aparecer mais. Para mim, isso é o que acontece na França e em tantos outros países da Europa. A forma de enfrentar isso é baixar a guarda – tanto as pessoas nativas quanto aquelas que estão indo morar lá – e tentar encontrar os pontos em comum e a convivência. A França discute muito este tema. Nós por aqui fazemos isso o suficiente?

Todos os atores envolvidos nesta produção fazem um bom trabalho. Mas gostei, especialmente, do desempenho de Chantal Lauby como Marie, uma das personagens mais sensíveis da produção; e do trabalho dos grandes Christian Clavier e Pascal N’Zonzi. Eles parecem ter sido forjados para a comédia, esbanjando em expressões e em trejeitos. Muito bons!

As filhas do casal Claude e Marie são muito bonitas, mas impossível não admirar, em especial, Elodie Fontan. Belíssima atriz. Depois dela, Julie Piaton se destaca. Entre os homens, não achei nenhum muito bonito, mas gostei, em especial, do trabalho de Frédéric Chau. Acho que ele tem uma pegada maior para a comédia.

Da parte técnica do filme, além da direção de fotografia bem iluminada e já comentada, vale destacar o bom trabalho de edição de Sandro Lavezzi e a trilha sonora divertida e “pra cima” de Marc Chouarain. Cécilia Blom também faz um bom trabalho na decoração de set, assim como a equipe envolvida no departamento de som.

Qu’est-ce Qu’on a Fait au Bon Dieu? foi lançado no dia 16 de abril de 2014 na Suíça e na França. No Brasil ele estreou no dia 6 de agosto de 2015. A produção que teria custado US$ 13 milhões faturou, apenas na França, pouco mais de US$ 12,2 milhões. Na Alemanha, ele fez mais US$ 3,8 milhões. Na Espanha, outros US$ 1,16 milhão. Ou seja, se somar todos os países, o filme conseguiu empatar o investimento – com a produção e a distribuição – com o resultado nas bilheterias.

Esta produção ganhou dois prêmios e foi indicado para um terceiro até o momento. Entre os que recebeu está o The Bernhard Wicki Award, entregue no Festival Internacional de Cinema Emden, para Philippe de Chauveron; e o de Melhor Roteiro no Prêmio Lumiere, da França.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7 para esta produção. Uma boa avaliação, levando em conta o padrão do site. No site Rotten Tomatoes só há uma crítica para o filme, e ela é negativa. Ou seja, este filme não repercutiu praticamente nada e, possivelmente, não será muito apreciado pelo grande público – ele não tem a característica de “bombar” depois de um tempo.

CONCLUSÃO: Este filme não vai revolucionar a sua vida. E nem te mostrar nada muito inovador. Qu’est-ce Qu’on a Fait Au Bon Dieu? é apenas uma comédia que fala sobre assuntos polêmicos e em alta na Europa – e em outras partes. Trata com amor o preconceito e, desta forma, quem sabe, consegue avançar na compreensão de algumas cabeças “fechadas” de que excluir pessoas simplesmente pelo fato delas não serem o que você gostaria é absurdo. Em uma França e em uma Europa com alta dose de miscigenação, com um bocado de conflito cultural e de preconceito, este filme tenta fazer refletir sobre tudo isso com humor. É uma forma de fazer isso. Normalmente, gosto de filmes mais “sérios”, realistas, mas às vezes é bom também “atacar” com outros instrumentos. Esta produção acerta em muitos momentos, inclusive com situações clássicas de casais e seus pais. Vale conferir.