Split – Fragmentado

Um suspense psicológico com requintes de terror e algumas ideias bastante interessantes. M. Night Shyamalan apresenta em Split um de seus bons trabalhos. Com algumas inevitáveis homenagens a filmes do gênero, mas cuidando também em inovar, esta produção é recomendada para quem gosta de um bom suspense psicológico. James McAvoy dá um show de interpretação e, sem dúvida, é um dos pontos fortes do filme, assim como aquelas ideias interessantes que comentei inicialmente. Está no grupo de filmes de qualidade do diretor.

A HISTÓRIA: Em um aniversário, enquanto o grupo de adolescentes festeja, uma garota está deslocada, parecendo que está em seu próprio mundo. No final da festa, a aniversariante Claire Benoit (Haley Lu Richardson) explica para o pai (Neal Huff) que ela teve que convidar a todos, inclusive a “esquisitona” e geralmente deslocada Casey Cooke (Anya Taylor-Joy). O pai de Claire, a aniversariante e uma de suas melhores amigas, Marcia (Jessica Sula), estão esperando para ver se alguém busca Casey. Como a garota não consegue “o socorro” dela, o pai de Claire oferece uma carona. No estacionamento as garotas entram no carro enquanto o pai de Claire coloca os presentes no porta-malas. Neste momento ele é acertado por um homem que entra no carro e rapta as três garotas.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes da produção, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Split): Eu não gosto de assistir ao trailer dos filmes antes de assisti-los, mas como nem sempre a gente escolhe o que ver antes de um filme no cinema, assisti a contragosto o trailer de Split. Então eu já sabia qual era a “levada” do filme antes de assisti-lo. Sabia das múltiplas identidades e do sequestro das meninas pela figura interpretada pelo sempre competente James McAvoy.

Então sim, eu já sabia de alguns dos principais fatos desta produção antes de assisti-la. E isso não foi tão ruim ao ponto de acabar com todas as surpresas da produção ou torná-la menos interessante. M. Night Shyamalan volta a mostrar uma boa forma em Split, um filme bem conduzido, com inteligência e com algumas ideias bem interessantes, como comentei no início desta produção.

A primeira ideia interessante (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme) é que diferentes personalidades que uma pessoa pode ter podem apresentar aspectos físicos diferentes. Este não é o primeiro filme e provavelmente não será o último a tratar de múltiplas personalidades que uma pessoa pode ter. Mas é o primeiro que explora tão bem esta questão de que uma pessoa que tem múltiplas personalidades pode ter não apenas comportamentos muito diferentes entre uma personalidade e outra, mas também desempenho e características físicas distintas.

Tanto o roteiro de Shyamalan quanto a interpretação de McAvoy exploram muito bem as características diferentes de uma parte das 23 personalidades diferentes que Kevin Wendell Crumb abriga em seu interior. O ator está muito bem e convence em cada personagem que ele “interpreta”. Alguns podem ficar indignados com a forma com que as vítimas lidam com o sequestrador. Mas até neste ponto Shyamalan acerta na escolha. Para rivalizar com Crumb, temos a interessante personagem da adolescente “problemática” Casey Cooke.

A atriz Anya Taylor-Joy, aliás, é a boa surpresa deste filme. Já esperávamos um bom trabalho de McAvoy, mas Anya acaba se destacando na produção. Ela tem o olhar profundo e o medo atento de quem já passou por maus bocados. De forma inteligente, Shyamalan intercala o presente angustiante da adolescente e de suas duas colegas com um flashback fragmentado que conta a história da presa de Crumb que pode, no momento certo, rivalizar com ele.

Enquanto as colegas de confinamento dela estão aflitas para buscar uma saída para aquela situação de confinamento, Casey relembra dos ensinamentos do pai (Sebastian Arcelus) quando eles saíam para caçar. Um elemento fundamental de qualquer caçada é compreender o entorno, ter paciência e acompanhar o desenvolvimento da caça antes de partir para o ataque. Sim, ela é vítima da situação criada por Crumb, mas está também atenta para qualquer oportunidade para virar o jogo.

Algo que alguns pode achar irritante, ou pouco crível, mas que eu achei perfeito, foi a forma com que Shyamalan apresenta e desenvolve a personagem de Casey. Afinal, ela é tão importante quanto Crumb para o desenvolvimento da trama. Verdade que logo nos primeiros minutos do filme, como imagino que qualquer outra pessoa da plateia no cinema ficou pensando, eu me perguntei porque a atenta Casey não teve uma reação mais dinâmica quando ela e as colegas foram sequestradas.

Ela poderia ter aberto logo a porta do carro e ter saído correndo, pedindo ajuda, quando Crumb entrou no automóvel. Mas aí, e vamos entender isso só depois, duas questões entram em jogo. A primeira é que precisamos esquecer a nossa desconfiança e a atenção extrema que todo brasileiro, cercado de violência e de risco de assaltos, tem, e tentar lembrar que em outras culturas esta não é a “normalidade” deles. Sim, já vivi e visitei outros países e ficou claro para mim que nestas sociedades eles não vivem sempre “alerta” e atentos para o pior como nós ficamos no Brasil.

Nestas sociedades, e acredito que os Estados Unidos sejam assim – ao menos parte do país, em alguns círculos, bairros, etc. -, as pessoas caminham tranquilas e vivem desatentas. Elas não esperam o pior dos outros praticamente o tempo inteiro. Nestes cenários, a primeira reação é a que vemos no início de Split: as pessoas ficam um tanto atordoadas, um tanto surpresas, e esperam mesmo que a outra pessoa esteja apenas enganada e que não seja um criminoso.

A segunda questão sobre aquele começo, e vamos entender isso só depois, conforme Shyamalan nos apresenta a história de Casey, é que a garota sabe que reagir pode ser pior. (SPOILER – aviso aos navegantes… bem, vocês já sabem). Violentada pelo tio desde que tinha cinco anos de idade, Casey se acostumou a dissimular e esconder o que sentia para sobreviver – fica claro que o tio dela (interpretado por Brad William Henke) vivia ameaçando a menina e, depois, adolescente, sobre o que poderia acontecer com ela se ela desse com as línguas nos dentes.

Unindo a experiência que teve com o pai, que lhe ensinou os princípios de uma boa caçada, e as lições ruins que aprendeu com o tio, Casey sabia que precisava encontrar o momento adequado para tentar reverter a sua situação. De forma inteligente, ela primeiro começa a entender aquela figura estranha que chega a cada momento com uma personalidade diferente no cárcere dela e das amigas. Depois, explora a ponta fraca entre as personalidades, que é o garoto Hedwig.

A outra ideia interessante do filme é aquela que norteia todas as ações de Dennis, Patricia e The Beast. Os três estão unidos no conceito de que os “impuros” devem sofrer e serem “libertados” de sua condição mortal para “evoluir”. Como acontece com muitas pessoas que tem distúrbios mentais pesados, as ideias de parte das personalidades de Kevin são bastante equivocadas e deturpadas.

O interessante de Split é que o filme nos apresenta um protagonista que tem algumas de suas identidades fascinadas pelas pessoas “puras” – Hitler e outros algozes também foram fascinados por este conceito. O curioso é que os “puros” são, na visão de The Beast e dos demais, os rejeitados, os problemáticos, aqueles que sofreram e/ou sofrem na vida e que são desprezados pela ideia de perfeição da sociedade. Os “impuros” são justamente os “perfeitos” segundo o olhar da sociedade. Meninas lindas e populares como Claire e Marcia. Os que não sofreram, que são vistos como modelos.

Em outras palavras, algumas da personalidades de Kevin estão lutando contra os padrões estabelecidos pela sociedade. Querem castigar e se “vingar” deste idealismo de pessoas consideradas modelos, belas e bem sucedidas, até como forma de “dar o troco” para esta mesma sociedade que excluiu o estranho Kevin e os demais. Afinal, exceto pela Dra. Karen Fletcher (Betty Buckley), que procura entender Kevin e as suas 23 personalidades, os demais não acreditam nele ou o consideram “bizarro”.

O que as personalidades de Kevin querem fazer é mostrar que elas tem “poder” e que podem fazer o que bem entenderem, independente do que a sociedade acha correto ou não. Essa ideia distorcida de parte das personalidades de Kevin é bastante interessante porque explora algo que a maioria dos suspenses psicológicos não exploram, que é justamente esta distorção maluca que algumas mentes doentes têm da realidade e de como elas podem resolver os seus próprios problemas ou se “vingar” da sociedade fazendo outros pagarem o pato. Muitos e muitos casos de gente doente e que se voltam contra a sociedade através de inocentes estão aí para nos mostrar que esta ideia de Split tem um grande fundo de realidade.

Mas independente da sina “vingadora” das personalidades de Kevin que querem fazer outros pagarem por suas próprias frustrações e limitações, é uma ideia interessante esta de que “os desgraçados” e as pessoas que sofrem seriam as mais evoluídas. Claro que ninguém foi feito para sofrer e que todos deveriam ter o direito de serem feliz a maior parte do tempo possível mas, de fato, aprendemos muito com as dificuldades e com o sofrimento. Provavelmente evoluímos mais com elas também. Nesta parte, Split tem uma reflexão interessante.

Só não dá para dizer que tudo é perfeito neste filme. Ao mesmo tempo que eu entendo aquele começo “estranho” com falta de reação das garotas no carro e que compreendo a escolha de Casey em primeiro entender o que está acontecendo e sobre o algoz das garotas antes de reagir, há outros momentos da produção difíceis de engolir. Por exemplo, por que a Dra. Karen Fletcher não utilizou aquela “mágica” de falar o nome de Kevin inteiro antes? Ela poderia ter evitado qualquer morte, inclusive a própria, tendo falado o nome dele. Mas não, preferiu escrever sobre isso em um papel.

Ok, para a trama de Shyamalan essa escolha é compreensível, afinal, deixa para a “heroína” Casey a parte decisiva do filme. Mas para a nossa lógica fica complicado engolir aquela história. Também parece um tanto exagerada a forma de ataque de The Beast, não? Ok, ele é uma “mistura” dos animais que circulam Kevin no zoológico e tudo o mais. Como um felino, ele ataca justamente o dorso das vítimas.

Ainda assim, um pouco difícil de acreditar que ele realmente devoraria as partes vitais de alguém com certa agilidade, não é? Por mais que o corpo dele “se modifique” e ganhe uma força sobre-humana e todo aquele blá-blá-blá do roteiro de Shyamalan, os dentes dele não crescem, não é mesmo? Então ele não passa a ter as presas de um felino para fazer todo aquele estrago tão rapidamente.

Uma exagerada do roteirista sem necessidade. O vilão poderia apenas matar as pessoas e tal, mas aquela “devorada” é difícil de engolir. Finalmente, bem difícil de engolir também aquela característica meio “Wolverine” do final. Ok que The Beast resistisse a alguns tiros mal dados, mas aí quando o “personagem” perdesse o lugar na luz de Kevin, que parece que é o que acontece no final, certamente Dennis, Patricia ou a outra personalidade que assumisse o holofote sentiria o baque. Não é isso o que acontece.

Esses detalhes incomodam um pouco. Também fiquei me perguntando para que apresentar Kevin como um sujeito com 23 personalidades distintas quando apenas sete, além do próprio Kevin, aparecem em cena? Isso seria sem sentido e forçado caso Split não terminasse como terminou. A produção abre um flanco descarado para uma continuação, inclusive com uma possível presença maior do personagem de Bruce Willis que aparece bem no finalzinho. Não sei se Shyamalan faria uma continuação, mas ela seria interessante e poderia render um ou mais de um filmes interessantes.

Anya Taylor-Joy e a sua Casey Cooke tem potencial para se tornar uma “heroína” de filmes de terror como Jamie Lee Curtis fez antes com a sua Laurie da série Halloween. Guardadas as devidas proporções, é claro. Não acho que Shyamalan encara uma série de filmes como Halloween, mas ele poderia fazer perfeitamente mais um ou dois filmes que desenvolvessem melhor tanto Kevin e as suas personalidades quanto Casey Cooke. A conferir. Se fizer alguma continuação, aí faria sentido Kevin ter tantas personalidades e algumas delas aparecerem no próximo filme.

NOTA: 9,3.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: M. Night Shyamalan é capaz de fazer grandes filmes e também de fazer bombas. Para mim, Split está na lista de bons filmes feitos por ele. Não há dúvidas que ele entende bem do ofício de diretor. Soube conduzir muito bem os atores e as situações desta produção. Como roteiro, Split não é o seu melhor e nem o seu pior filme. Ele trabalha alguns conceitos já trabalhados antes com algumas pitadas de originalidade. Mais acerta do que erra. Mas ainda tem espaço para melhorar.

De forma bastante honesta, Shyamalan faz em Split uma homenagem escancarada para Alfred Hitchcock, o grande entre os grandes do suspense. Não apenas pelas sequências da escadaria em caracol mas também por se incluir no próprio filme – como Hitchcock tanto gostava de fazer -, Shyamalan escancara a sua admiração pelo diretor inglês. Impossível, cá entre nós, não fazer isso. Hitchcock era e é um grande mestre, referência inevitável do gênero.

James McAvoy e Anya Taylor-Joy são os nomes fortes desta produção. Dão um show de interpretação. Além deles, vale bater palma para Betty Buckley como a Dra. Karen Fletcher. Outros nomes estão bem, mas nada excepcional. Haley Lu Richardson e Jessica Sula estão bem, convencem, mas acabam “desaparecendo” lá pelas tantas na história. Daí nem tinha como elas se destacarem muito mesmo. Os outros personagens são bem secundários, com certo destaque para Sebastian Arcelus como pai de Casey e para Izzie Coffey como a garota quando ela tinha cinco anos.

Da parte técnica do filme, destaco da trilha sonora de West Dylan Thordson, a direção de fotografia de Mike Gioulakis e a edição de Luke Franco Ciarrocchi. Vale citar também o design de produção de Mara LePere-Schloop; a direção de arte de Jesse Rosenthal; a decoração de set de Jennifer Engel e Dennis Madigan; os figurinos de Paco Delgado; e o departamento de maquiagem de Diane Dixon, Pamela Peitzman e Zachary Ripps.

Split teria custado US$ 9 milhões. Orçamento baixo para os padrões de Hollywood. Shyamalan mostrando, mais uma vez, como é possível fazer um bom filme em Hollywood com orçamento baixo, sim senhores! A produção faturou, apenas nos Estados Unidos, US$ 137,2 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez outros US$ 128 milhões. Ou seja, no total, já bateu os US$ 265,2 milhões. Um baita sucesso e um lucro que garante para Shyamalan liberdade para as suas próximas empreitadas.

Segundo as notas da produção, o personagem de Kevin foi inspirado em Billy Milligan, um sujeito que foi diagnosticado com o transtorno dissociativo de personalidade com nada menos que 24 personalidades diferentes. Essa condição dele foi utilizada em sua defesa para defendê-lo dos crimes que ele praticou e que Milligan disse que não tinha praticado – alegando que tinham sido algumas de suas personalidades.

Split ganhou quatro indicações a prêmios: Melhor Thriller e Melhor Atriz Coadjuvante para Betty Buckley pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos Estados Unidos; Melhor Atriz Jovem Inglesa/Irlandesa para Anya Taylor-Joy no London Critics Circle Film Awards; e Melhor Filme no Rondo Hatton Classic Horror Awards.

Para quem acha o tema de múltiplas personalidades interessantes, vale dar uma olhada neste texto e neste outro texto sobre o assunto.

Esta é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso mesmo esta crítica entra para a lista daquelas que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no site.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,4 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 164 críticas positivas e 54 negativas para Split, o que garante para o filme uma aprovação de 75% e uma nota média 6,4.

CONCLUSÃO: Um filme bem construído, com personagens interessantes, ainda que apenas parte deles seja realmente explorado. Split desenvolve uma história de suspense focada em um protagonista com múltiplas personalidades que está em uma fase muito instável. O perigo crescente e essa ideia de “bomba-relógio” mantém a tensão da produção que tem um desfecho interessante, ainda que com alguns pequenos poréns. Mas, no conjunto da obra, é um filme envolvente e interessante, que prende a atenção e que tem um baile de interpretação de James McAvoy. Os outros atores também se saem muito bem, o que torna esta produção bem acabada. Vale o ingresso se suspense com retoques de terror é do seu gosto.

Francisco, El Padre Jorge – Papa Francisco, Conquistando Corações

Um Papa amado por multidões e respeitado por pessoas de diferentes religiões. Francisco, El Padre Jorge conta um pouco da história do Papa Francisco, que é o líder máximo da Igreja Católica desde 2013. O filme tem uma boa narrativa, um roteiro que vai e volta no tempo algumas vezes e que procura aproximar a narradora da história e o espectador do Sumo Pontífice. O único problema da produção é que ela apresenta poucas novidades. Quem é católico e que buscou saber ao menos um pouco além do básico sobre o Papa Francisco, não será surpreendido.

A HISTÓRIA: Cenas de Buenos Aires. O dia está nascendo e ouvimos a uma música típica da Argentina. O ano é 2013, e a jornalista Ana (Silvia Abascal) chama a filha Eva (Naia Guz Sanchez) para a responsabilidade que elas tem na cidade. A menina quer ir para o zoológico, mas a mãe dela explica que antes da diversão vem o dever. Ana e Eva embarcam na excursão para turistas que apresenta a Buenos Aires do padre Jorge Mario Bergoglio, nomeado o 266º Papa da Igreja Católica em março daquele ano. Nesta história descobrimos um pouco sobre ele e também sobre a relação da jornalista Ana com o padre Jorge Bergoglio.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Francisco, El Padre Jorge): O Papa Francisco conseguiu encantar católicos e pessoas de diferentes religiões desde o início de seu pontificado. Mas também foi alvo de vários ataques e de algumas polêmicas. Esta produção dirigida pelo espanhol radicado na Argentina Beda Docampo Feijóo ajuda a explicar um pouco da trajetória do primeiro padre latino-americano a se tornar Papa e das razões que fazem ele ser combatido por algumas correntes da própria Igreja.

O roteiro escrito por Beda Docampo Feijóo com colaboração de César Gómez Copello e tendo o livro de Elisabeta Pique como fonte é bastante franco sobre a trajetória de Bergoglio na Argentina e algumas de suas principais bandeiras antes e depois de se tornar Papa. Com trajetória ligada à periferia e com defesa franca dos pobres, Bergoglio denunciava a corrupção e a hipocrisia em Buenos Aires. No fundo, denunciava estas práticas em qualquer parte.

Chama a atenção no filme a parte em que ele conta a trajetória de Jorge antes dele se tornar padre. Para mim, esta foi a parte mais “nova” da produção. Eu não sabia, por exemplo, que a avó dele tinha sido uma fonte de inspiração do jovem quando ele estava para decidir o que faria da vida. Foi ela que lhe presentou com um livro sobre São Francisco de Assis – santo que, sem dúvida, foi e é uma grande influência para o pontífice.

Interessante os trechos do filme em que vemos a um jovem Bergoglio cercado da família e de amigos e que foi capaz de ficar encantado por uma garota que, como ele, amava a literatura. Desde jovem, o atual Papa Francisco era um devorador de livros. Este conhecimento dele, assim como a forma com que ele mergulhava na interação com as pessoas comuns e de todos os tipos, fez com que ele se tornasse muito, muito humano. Capaz de consolar, de interagir com qualquer pessoa de qualquer idade, de escutar e de citar ótimas referências – inclusive literárias.

A trajetória de Jorge Bergoglio fez com que ele entendesse o Evangelho e o exemplo de Jesus Cristo como grandes exemplos de amor e de inclusão. Perto de se aposentar, ele acabou se tornando Papa, algo que ele não desejava, realmente. Mas ele aceitou, porque sabe que Deus escreve certo por linhas tortas e que a vontade dele deve sempre se curvar frente à vontade de Deus. Algo interessante neste filme também são os “bastidores” do Conclave. Para mim, também uma parte diferenciada da produção.

Interessante como Jorge Bergoglio “bateu na trave” quando da eleição do alemão Joseph Aloisius Ratzinger, que se tornou o Papa Bento XVI. Diferente do que os vaticanistas pregavam, não era exatamente uma surpresa o “independente” e um tanto “revolucionário” Bergoglio ser eleito Papa. Ainda que a corrente progressista da Igreja tenha vencido na eleição dele, a corrente mais conservadora não dormiu no ponto e tem se posicionado contra algumas declarações do Papa Francisco.

O filme apenas toca neste tema. A preocupação de Francisco, El Padre Jorge certamente não era polemizar ou adentrar realmente nos bastidores da Igreja Católica, formada por diferentes correntes. A produção deseja mais ser uma introdução sobre a história por trás do atual Papa, esboçando através de um roteiro cheio de idas e vindas no tempo e no espaço, um rápido painel sobre as influências e a trajetória que ele fez antes de assumir a liderança da Igreja Católica.

Para muitos católicos bem informados que conhecem um pouco mais do que o básico sobre o Papa Francisco, este filme será bastante previsível. Para os que são bem informados, mas que não leram o livro de Elisabetta Pique ou outras obras sobre Jorge Bergoglio, talvez parte da produção apresente elementos novos. Eu me enquadro neste segundo grupo. Acho o filme bem feito, com uma proposta bastante clara e que deve agradar, especialmente, as pessoas que sabem pouco sobre o Papa.

NOTA: 8,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: O diretor espanhol Beda Docampo Feijóo nasceu apenas na cidade galega de Pontevedra, na Espanha. Quando ele tinha um ano de idade, a sua família se mudou para Buenos Aires. Foi lá que ele fez a carreira como diretor e roteirista, tendo 14 títulos no currículo pela primeira função e 20 na segunda. O filme mais conhecido dele é El Marido Perfecto, de 1993, estrelado por Tim Roth.

O roteiro de Francisco, El Padre Jorge é um bocado fragmentado, mas bem escrito. Tanto que o espectador não fica perdido na história. A produção tem um ritmo bom e não deixa o interesse do público cair, mesmo entre aqueles que já conhecem boa parte da história narrada. eu só não achei a produção melhor porque ela poderia ter um pouco mais de “tempero” e de detalhes menos conhecidos da vida do biografado.

O elenco está bem, ainda que eu tenha sentido falta de um ator que se “enquadrasse” mais no perfil do Papa Francisco. Darío Grandinetti é um grande ator, com bastante experiência, mas é impossível vê-lo na telona e não ficar pensando que outros atores poderiam ter se enquadrado mais no perfil do Papa. Mas, descontada a diferença grande física e de idade, dá para acreditar no trabalho de Grandinetti. Do elenco, o destaque acaba sendo Silvia Abascal, que interpreta uma Ana bastante verossímil e humana.

Do elenco, vale ainda elogiar o bom trabalho de Lucas Armas Estevarena, que interpreta Jorge Bergoglio quando ele tinha 13 anos; para Gabriel Gallicchio, que interpreta o jovem Bergoglio; Mariano Bertolini como o padre Pepe; Rubén Darío Figueredo como Ernesto, padre que deixou o sacerdócio e que contou para a protagonista sobre a defesa que Bergoglio fez de padres durante a ditadura no país; para María Ibarreta, que interpreta Patricia, mãe de Ana; e para Leonor Manso, que interpreta a avó de Bergoglio, Rosa.

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de Kiko de la Rica, que valoriza muito bem a cidade de Buenos Aires, em especial, mas também Roma e Madri; a edição bem feita de Cristina Pastor; e os figurinos de Natacha Fernández e Marcela Vilariño.

Francisco, El Padre Jorge foi indicado a três prêmios da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas da Argentina em 2015, mas não recebeu nenhum deles.

Os usuários do site IMDb deram a nota 5,8 para esta produção. O site Rotten Tomatoes não tem críticas para o filme.

Este filme é uma coprodução da Espanha, da Argentina e da Itália.

Faz umas duas semanas que eu assisti a este filme no cinema. Agora eu quero me lançar neste fim de semana novamente em uma sala escura para ver a novos filmes e comentá-los por aqui. Aguardem e confiem. 😉

CONCLUSÃO: O Papa Francisco tem uma jornada que é coerente com o que ele acredita ser o centro do Evangelho. Pelo seu forte contato com o povo e os menos favorecidos, desde quando ele morava em Buenos Aires, é que os católicos tem um pontífice que acredita na inclusão e no amor ao próximo e à Deus acima de tudo. Ele defende o amor entre todos, como Jesus ensinou há mais de 2 mil anos. Francisco – El Padre Jorge nos mostra parte da formação, do contexto familiar e da caminhada dele até que ele se tornasse Papa. É um filme bem feito, mas que acrescenta pouco para quem já conhece a história do Papa Francisco. A parte boa é que a essência da sua história está na produção e pode servir como introdução para os menos informados.

Silence – Silêncio

Até hoje impressiona como ser cristão incomoda a tanta gente. Por que tantas pessoas se sentem “ofendidas” e muitas delas inclusive perseguem quem afirma de forma convicta que acredita em Deus e em Jesus Cristo? Para mim, esse é sempre um ponto de admiração. Mas tudo isso está previsto na Bíblia. Realmente os cristãos tem a sina de “incomodarem” e serem perseguidos. Quem persegue um cristão é que deveria se pergunta o porquê. Silence é um filme magistral, forte, e que trata de forma franca justamente um de tantos casos de perseguição de cristãos. Angustiante. De arrepiar.

A HISTÓRIA: Em uma montanha cheia de piscinas termais, alguns japoneses esperam pelos seus prisioneiros. O grupo chega escoltado. Um dos padres recebe água fervendo no rosto. Como resposta, ele reza. Na sequência, os padres são castigados com conchas que espirram a água fervente em seus corpos. Assistindo a tudo isso, o padre Ferreira (Liam Neeson), considerado um dos nomes mais importantes da evangelização no Japão. Ele mesmo narra o que está acontecendo em uma carta, datada de 1633, no qual ele diz que a profissão de fé dos colegas lhe enche de força.

Quem lê a carta é o padre Valignano (Ciarán Hinds) para os ex-alunos de Ferreira, o padre Rodrigues (Andrew Garfield) e o padre Garupe (Adam Driver). Ele insiste que o comerciante holandês que lhe entregou esta carta depois de um longo período dela ter se perdido garantiu que Ferreira renunciou a sua fé. Os ex-alunos dele se recusam a acreditar nesta versão e insistem em ir para o Japão para saber o que realmente aconteceu. Esta é a história deles e das pessoas que eles encontram no caminho.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Silence): A primeira cena deste filme me fez lembrar imediatamente de Akira Kurosawa. Aqueles homens caminhando em meio à neblina e/ou fumaça resgataram na minha memória o estilo do diretor japonês. Esta produção, como tantas outras, será sentida de forma diferente dependendo do background do espectador.

Se você é cristão, como eu, e conhece bem a vida e o exemplo de Jesus Cristo, se você acredita que Ele é o caminho, a verdade e a vida, Silence terá um efeito sobre você. Se você professa outra fé ou não tem fé alguma, certamente o efeito será outro. Como cristã, achei este filme marcante. Muito duro, muito denso, sem nenhuma razão para riso ou para a “leveza” que normalmente se encontra em um entretenimento.

Sim, Silence é cinema. E, para muitos, cinema é entretenimento. Eu entendo. Muitos filmes realmente são apenas isso, uma forma de entreter as pessoas e fazerem elas saírem de seu dia a dia comum e ordinário e viver outro tipo de sensação. Mas outros filmes estão além da linha do entretenimento e figuram na lista de obras de arte. Destas que nos fazem pensar não somente sobre o que o artista quer nos dizer, mas especialmente sobre nós mesmos e os outros, o que nos cerca.

Silence está nesta categoria. Respeito, mas não entendo os risinhos que eu ouvi no cinema ao assistir ao filme – por estas e por outros que, muitas vezes, prefiro ver um filme sozinha e não no cinema. Mas ok, temos que entender o diferente e que nem todos pensam ou agem como a gente. Ir no cinema é parte deste aprendizado.

Silence me tocou fundo porque eu sei que aquela história apresentada pelo filme não é uma coisa do passado. Hoje, quatro séculos depois do que Silence nos apresenta, muitos cristãos continuam sendo mortos todos os anos em diferentes partes do mundo simplesmente porque eles professam esta fé. Mas nenhum deles morre sozinho, ou em vão. Nenhum mártir morre em vão, como bem argumentou o padre Rodrigues (o ótimo Andrew Garfield).

Claro que o entendimento disto depende de fé. E diferente do que o próprio Rodrigues questiona, não é com a compreensão falha e limitada humana que vamos entender. Ele questiona, no filme, porque Deus permite que tantos morram em nome Dele. Ora, não é Deus que está matando aquelas pessoas. Quem é cristão sabe que um dos maiores presentes que Deus nos deu foi justamente o poder da escolha. Sendo assim, na mesma medida em que um cristão escolhe acreditar, o seu algoz pode escolher matá-lo. Sempre são escolhas individuais.

Enfim, este papo é longo e o blog não se presta a discutir religião. Mas o que eu posso dizer é que este é um grande filme sobre fé e sobre escolhas. (SPOILER – não leia se você não assistiu ao filme). Tentado por Ferreira (Liam Neeson), seu antigo professor e exemplo, Rodrigues acaba cedendo e “renunciando” a própria fé para, aparentemente, salvar cinco vidas. Mas o que significa salvar alguém?

Para quem tem fé e realmente é cristão a morte física não representa absolutamente nada. Ou melhor, representa o fim da vida terrena e o início da vida eterna. Então nenhum dos padres que renunciou ao cristianismo estava, na verdade, salvando ninguém. Quem realmente salva, no sentido amplo e pleno desta palavra, é apenas Deus. Este foi o maior erro de Rodrigues. Acreditar na cantilena de Ferreira de que ele estava salvando ou condenando os cristãos que não renunciavam à sua fé.

Ora, cada cristão que decidia manter a sua fé e não renunciar à Deus ou à Cristo era executado não por causa de um ou de outro padre, mas em nome da fé e da convicção que eles tinham sobre ela. Em última instância, estavam morrendo em nome de Deus. Ninguém mais. Quando as pessoas se acham mais importante do que Deus é quando elas começam a sucumbir e perdem a firmeza dos mártires.

Claro que ao afirmar isso eu não estou condenando Ferreira ou Rodrigues. Se ninguém pode ser salvo se não por Deus, ninguém também pode ser condenado se não por Ele. E Deus é tão paciente, tão amoroso, que Ele parece nunca se cansar de nos dar chances de aprender, de acertar e de melhorar. A exemplo de Kichijiro (Yôsuke Kubozuka), que repetidas vezes renunciou a Deus para salvar a própria vida, mas que depois se arrependia e pedia perdão, qualquer pessoa pode ser salva por Deus se realmente estiver arrependida. É isso o que um cristão aprende.

Uma das maiores “fraquezas” humanas é a nossa vontade de viver o máximo possível. Por isso mesmo, no diálogo entre Rodrigues e Jesus, pouco antes dele renunciar à própria fé, Rodrigues acredita que Jesus lhe absolveu porque ele entendia a fraqueza humana. Por isso Ele teria se feito homem, justamente. Então, a priori, é possível sim perdoar a quem blasfemou contra Deus e renunciou a fé Nele, porque esta pessoa não conseguiria ver além da própria vida e sacrificá-la para defender a sua fé.

Claro que foram mais fortes todos os cristãos que aparecem no filme, assim como o padre Garupe (Adam Driver), que jamais renunciaram de sua fé. Eles tinham a convicção sobre o que lhes esperaria após a vida. Eles tinham a calma e a certeza de que ressuscitariam em Cristo. Mas não dá para condenar aos que foram fracos e que cederam a uma das maiores dificuldades do ser humano, que é a de aceitar a própria morte.

Agora, sou obrigada a dizer: quando Ferreira, parecendo o próprio Diabo que tentou Cristo, fala para Rodrigues que ele deveria agir como Jesus, e que Ele, naquela posição, também negaria a Deus para salvar um grupo de pessoas, ele estava cometendo a maior blasfêmia que eu já ouvi na vida. Evidentemente que nunca, sob circunstância alguma, Jesus negaria o próprio Pai. Ele não fez isso quando esteve aqui, não faria isso agora.

Enfim. O filme é muito interessante, faz pensar e, principalmente, mexe com o coração de quem compartilha com tantos mártires daquele tempo e de todos os tempos – inclusive hoje – a mesma fé. Acredito que seremos uma civilização razoavelmente evoluída quando respeitarmos todas as crenças e não matarmos mais ninguém porque a pessoa tem uma fé diferente da nossa – ou fé alguma.

Eu só não dei a nota máxima para esta produção porque me incomodou um pouco o argumento final de Ferreira para convencer Rodrigues, esse em que ele cita Jesus, e também porque eu esperava mais de Rodrigues. Claro que a História é a História e os fatos são os fatos, mas eu fiquei especialmente decepcionada com Ferreira. Ele poderia ter renunciado ao que ele quisesse, mas não precisava ter feito isso com Rodrigues. Ainda que, e isso fica evidente no final do filme, Rodrigues nunca renunciou a sua fé de verdade. Muitas vezes é no silêncio que manifestamos a nossa fé. Não em palavras, mas no nosso coração e no silêncio. Belo filme.

NOTA: 9,5.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Esta produção tem vários grandes momentos. Mas um dos melhores, para mim, foi quando Rodrigues finalmente encontra Ferreira. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). O jovem padre está cheio de razão em cada resposta e questionamento que ele faz para o ex-professor e ex-padre. Gostei, em especial, quando ele diz com todas as letras que ele, ao renunciar ao cristianismo e à Deus, não estava sendo nobre e nem salvando ninguém, mas estava apenas salvando a sim mesmo. Esta era a grande questão. Os padres que renunciaram às suas crenças estavam apenas salvando a própria pele – prova disso é que os fieis que se mantiveram firme na fé continuaram sendo mortos, ou seja, nenhum deles foi salvo por eles terem abdicado da promessa que fizeram.

Este é um filme longo, mas ele tem as suas razões para isso. O diretor Martin Scorsese, que também escreveu o roteiro junto com Jay Cocks, não teve pressa em contar essa história. Pelo contrário. Ele quis explorar cada detalhe da missão dos padres Rodrigues e Garupe desde que eles foram para o Japão em 1640. A história é linear, partindo da carta/relato de Ferreira antes dos jovens padres irem atrás dele e terminando apenas quando a história deles é concluída.

O foco do roteiro na figura de Rodrigues foi muito acertada. Ele é, praticamente, o narrador do filme. Vemos tudo sob a ótica dele, o que humaniza a história e mostra, sob a perspectiva dele, tudo o que aconteceu. É um filme lento, no melhor estilo dos clássicos do cinema japonês – não por acaso me lembrei de Akira Kurosawa no início. Assim, Scorsese respeita a cultura na qual esta história submerge. O diretor faz um grande trabalho aqui, e diferente de quase tudo que ele apresentou até então. Realmente interessante.

O roteiro de Scorsese e de Cocks é baseado no livro de Shûsaku Endô.

Todos os atores desta produção estão muito bem, mas diferente do que o cartaz da produção pode sugerir, o protagonista de Silence é Andrew Garfield e não Liam Neeson. Gosto muito de Neeson, mas neste filme não tem como não ficarmos com uma certa “raiva” do personagem dele. Claro que isso desaparece com o tempo, mas realmente o papel dele é complicado de ser “engolido”. Garfield, por outro lado, faz um grande trabalho e se consolida, com este filme e com Hacksaw Ridge (comentado aqui) como um dos grandes talentos da nova geração. Merece ser acompanhado, com certeza.

Gostei de todos os detalhes técnicos deste filme. Martin Scorsese faz uma grande direção, seguindo um bocado a escola japonesa, mostrando tanto os locais e as suas particularidades quanto a interpretação dos atores. O roteiro também é competente, sem nenhuma linha sobrar na história. Cada palavra, cada linha, cântico, grito, gemido e cada silêncio tem o seu propósito. Outros destaques são a direção de fotografia de Rodrigo Prieto; a edição de Thelma Schoonmaker; e o design de produção de Dante Ferretti.

Algo que Silence nos mostra também é a humanidade dos padres, freis e sacerdotes. Sim, eles são humanos, suscetíveis a erros, tentações, dúvidas, questionamentos e desespero. Alguns, como Garupe, parecem ter mais convicção e a fé mais clara, enquanto outros, como Rodrigues, estão mais suscetíveis às fraquezas humanas. Isso acontece em todas as partes. Sem dúvida há padres e fieis que tem a sua fé muito clara, são mais firmes nela do que outros. Faz parte. Precisamos entender e deixar que Deus exerça a Sua Misericórdia em relação a quem fraqueja e em relação a nós.

Além dos atores já citados, vale comentar o trabalho de Tadanobu Asano como o intérprete que acompanha Rodrigues por bastante tempo; Issei Ogata como o inquisidor Inoue; Shin’ya Tsukamoto simplesmente ótimo como Mokichi, um dos fieis que recebe os jovens padres e que é o braço direito da liderança local; Yoshi Oida também maravilhoso como Ichizo, o líder da comunidade cristã que os padres encontram logo que chegam; Shi Liang como o comerciante chinês que apresenta os padres para Kichijiro; Miho Harita como Tomi, mulher de Ichizo; Nana Komatsu como Monica/Haru, uma das cristãs que Rodrigues encontra quando está como prisioneiro; Ryo Kase como John/Chokichi, outro fiel desta fase; e Asuka Kurosawa como a “mulher” de Rodrigues. Há muitos outros atores que fazem papéis secundários. Todos estão muito bem e convincentes.

Ainda que a história se passe inteira no Japão, este filme foi praticamente todo rodado em Taiwan. Apenas uma pequena parte foi rodada em Macau, na China – são as imagens do início do filme, em que os jovens padres jesuítas falam com o padre Valignano.

Silence teria custado uma pequena fortuna, cerca de US$ 46,5 milhões. Como a produção não tem, digamos assim, um tema realmente popular, e imagino que também por ela ser “lenta” e um bocado longa, ela conseguiu pouco nas bilheterias. Nos Estados Unidos o filme fez pouco mais de Us$ 7,1 milhões. Pelo andar da carruagem, tem tudo para ser um fracasso nas bilheterias.

Esta produção ganhou seis prêmios e foi indicado a outros 40. Entre os prêmios que recebeu, destaque pelo filme ter sido listado como um dos melhores do ano segundo o AFI Awards e por ter vencido como Melhor Roteiro Adaptado no National Board of Review. Foi indicado ao Oscar de Melhor Fotografia, mas perdeu a estatueta para La La Land.

Silence é uma coprodução dos Estados Unidos, de Taiwan e do México.

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,5 para esta produção, enquanto que os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 178 críticas positivas e 33 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 84% e uma nota média 7,5. Os dois níveis de aprovação estão bons para os padrões dos sites.

Como eu comentei antes, até hoje milhares de cristãos são mortos todos os anos por causa da fé que eles professam. Segundo esta matéria da Rádio Vaticano, as estimativas apontam que pelo menos 90 mil cristãos foram mortos pelo mundo em 2016 por causa de sua fé.

CONCLUSÃO: Este filme está para a perseguição de padres e de fiéis que acreditam em Cristo como The Passion of the Christ está para o sofrimento de Jesus. Silence vai fundo na questão da fé, da busca pela verdade e por respostas. Independente do tempo ou do local, sempre existe em maior ou menor medida a perseguição a quem acredita em Cristo. Seja de forma franca, seja de forma velada. Este importante tema é tratado de forma muito interessante pelo diretor Martin Scorsese. Um filme denso, longo, duro, mas que mostra que ninguém pode quebrar a fé de outra pessoa. Mesmo que ela seja obrigada a renunciar sobre o que acredita, é no silêncio que esta fé segue vivendo. Como uma chama bem guardada. Grande filme.

The Founder – Fome de Poder

Persistência, ambição e falta de escrúpulos. Esta pode ser a fórmula de “sucesso” de muitos homens. The Founder conta uma destas histórias. Mostra como um conglomerado global foi criado e como ele teve como uma figura chave do processo justamente um sujeito que seguiu esta fórmula. Com um ótimo roteiro, um grande elenco e uma direção afinada de John Lee Hancock, temos neste filme a história da rede de lanchonetes McDonald’s. Querendo uma não, uma “bela” história da cultura americana.

A HISTÓRIA: Começa afirmando que este filme é baseado em uma história real. Ray Kroc (Michael Keaton) lança o seu discurso para mais um potencial comprador. Ele fala que o cliente vai vender muito mais milk-shake se ele comprar a máquina que ele está vendendo. Aumentando a oferta, ele também vai aumentar a demanda, seguindo a lógica do ovo e da galinha, garante Kroc. Ele vive visitando drive-thrus tentando vender a sua máquina de cinco eixos para acelerar o processamento de milk-shakes, mas sem sucesso.

A história começa em Saint Louis, cidade do Missouri, em 1954. Kroc não tem sucesso em suas investidas, até que fica sabendo de uma empresa que ligou para o escritório dele pedindo seis máquinas. Ele não acredita, liga para o local, e acaba falando com Dick McDonald (Nick Offerman). Curioso para saber quem teria “bala na agulha” para comprar tantas máquinas de uma vez, Kroc viaja até San Bernardino, na Califórnia, para ver de perto o negócio dos McDonald’s.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a The Founder): Eu fui assistir a este filme sem muitas expectativas. Bem, eu sabia que se tratava da história do McDonald’s, claro. Mas eu não sonhava que The Founder seria uma crônica mordaz sobre o pior lado do “sonho americano”. O filme se debruça como poucos nos desdobramentos de um homem que é ambicioso e que passa como uma patrola sobre todos para conseguir tudo o que deseja.

Como o bom cinema pede para qualquer realizador, The Founder vai crescendo em narrativa e em interesse pouco a pouco. Francamente, eu não sabia nada sobre a história do conglomerado McDonald’s até assistir ao filme. Acredito que a impressão sobre esta produção será diferente para pessoas que já conheciam bastante a história. Para mim, foi uma grande surpresa tudo que The Founder revelou.

Não há dúvidas que o protagonista Ray Kroc (Michael Keaton) teve muita ousadia. Para começo de história, claro. Ao mesmo tempo, Dick (Nick Offerman) e Mac McDonald (John Carroll Lynch) eram o contrário dele. Pessoas simples, daquelas que acreditam na palavra dos outros e não tem malícia, eles contavam para quem quisesse ouvir como eles haviam revolucionado o setor de lanchonetes nos anos 1950 – o filme começa em 1954, para ser mais exata. E foi assim que, encontrando um “espertalhão” como Kroc pela frente, eles se deram mal.

O roteiro de Robert D. Siegel é um primor. Como o cartaz mesmo do filme sugere, esta produção conta a história de Kroc, sob a perspectiva dele. É assim que o acompanhamos desde que ele vendia máquinas de milkshake e até ele encontrar os irmãos McDonald e o seu modelo revolucionário de fazer e vender hambúrgueres, batatas fritas e refrigerantes. Como a narrativa de Siegel é bem construída, no início você pode até pensar, como eu, que sem Kroc nós jamais teríamos um McDonald’s a cada esquina.

Ele realmente soube construir e encarnar muito bem o “espírito americano” ao negócio, fazendo o McDonald’s ser tão ianque e colonizador quanto o próprio país. A sacada dele foi realmente preciosa. Sem dúvida alguma o McDonald’s original jamais teria se tornado o que se tornou sem esta figura. Até aí, tudo bem, se ele tivesse feito tudo com respeito aos criadores do conceito e proprietários do nome. Mas não, ele não teve respeito nenhum por eles.

Conforme foi ganhando dinheiro e espalhando lanchonetes do McDonald’s pelos Estados Unidos, os “olhos” de Kroc “cresceram”. Com o ego bem alimentado e se sentindo poderoso, inteligente, capaz de tudo, ele foi passando como uma patrola sobre quem aparecesse pela frente. Este é o problema da ambição, do gosto pelo poder e pelo dinheiro. As pessoas que se deixam “encantar” por todos estes ingredientes ou por um deles se perdem.

Claro que Kroc não teria conseguido tudo o que conseguiu se ele não tivesse cruzado com Harry J. Sonneborn (B.J. Novak). Foi ele que mostrou de onde, realmente, sairia o dinheiro da companhia. Não seria de uma pequena porcentagem da vendas de combos baratos, mas da compra de terrenos que dariam depois renda permanente através da cobrança dos franqueados. E foi assim que a rede McDonald’s cresceu e multiplicou resultados.

Até um certo momento do filme, você fica admirado(a) pela história dos irmãos McDonald e pela ousadia de Kroc em abraçar aquela ideia e crescer com ela. Mas depois, quando percebemos como ele vai mudando de postura conforme ganha fama e dinheiro, logo presumimos que essa história não pode acabar bem. E não acaba, realmente. Ao menos para os irmãos que criaram todo o conceito do negócio. Por tudo isso, o trabalho de Siegel e de Hancock é exemplar.

Eles tem a ousadia de fazer um retrato mordaz sobre o homem que fez o conceito McDonald virar um conglomerado global. Não é para poucos. É preciso coragem e talento para contar uma história como esta sem querer tapar o sol com uma peneira. Em The Founder não temos isso. Somos apresentados a uma história interessante, com muitas lições sobre empreendedorismo e sobre como um negócio pode ser deturpado pelas mãos de alguém que tem pouco ou nenhum escrúpulo.

Como eu disse antes, The Founder acaba sendo um retrato impressionante sobre muitas e muitas empresas gigantes e que são vistas como “importantes” pelo mundo. Certamente em quase todos esses casos alguma história obscura sobre tanto poder e dinheiro foi escondida. Pois bem, The Founder nos revela uma destas histórias escondidas, ajudando a lançar luz também sobre o pior lado da ambição e do capitalismo como sistema que permite a premiação deste tipo de gente sem escrúpulos.

Quer dizer, a Humanidade ainda não criou um sistema econômico em que os valores estão no centro das trocas e das relações. Infelizmente. O capitalismo fomenta histórias bacanas e histórias podres como esta contada por este filme. Ainda não inventamos nada melhor, possivelmente porque nós, como coletivo, também não sejamos melhores. Afinal, quantas pessoas, após assistir a este filme, farão escolhas melhor de consumo? Imagino que pouquíssimas. Quantas abririam mão de fortuna e de sucesso para manter os seus valores éticos? Este filme nos levanta todas estas questões. Por tudo isso, achei ele brilhante.

NOTA: 10.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: Fascinante a reconstrução de época orquestrada pela equipe do diretor John Lee Hancock. Voltamos realmente aos anos 1950 nos Estados Unidos. Além da direção muito bem feita de Hancock, que sabe valorizar os ambientes e as interpretações de seus atores, este filme se destaca pelo excelente roteiro de Robert D. Siegel e, claro, pelo elenco escolhido à dedo. Cada elemento técnico do filme funciona à perfeição, junto com o roteiro, a direção e o elenco. Nada a criticar negativamente.

Algo que eu gostei neste filme é como ele mostra a genialidade dos irmãos McDonald’s. Eles realmente revolucionaram o setor das lanchonetes. Muito interessante como The Founder mostra como eles chegaram lá e de que forma eles construíram o conceito de lanchonete enxuta e eficiente. Ray Kroc teve ousadia, sem dúvida, mas não foi ele que teve nenhuma sacada para o negócio propriamente dito.

Tive curiosidade de saber o quanto o filme foi fidedigno com a história original, e ao ler este texto da Time, eu diria que a grande sacada de Kroc foi de marketing. Afinal, ele soube explorar o nome McDonald’s e criar a figura de Ronald McDonald para vender muito para um público fundamental para a marca, as crianças. No mais, ele foi tudo o que esta produção conta. Fui obrigada também a pesquisar como o próprio McDonald’s hoje conta a sua história. Lendo esta explicação fica claro que a empresa incluiu uma linha sobre os grandes responsáveis pelo modelo da empresa mas que tudo o mais gira em torno de Kroc. Acho que nem preciso dizer mais nada, não é mesmo?

Da parte técnica do filme, gostei da direção de fotografia de John Schwartzman, muito coerente com a época e elemento importante para nos situar nos anos 1950; a ótima edição de Robert Frazen; a música bem pontual e bacana de Carter Burwell; o design de produção de Michael Corenblith; a decoração de set de Susan Benjamin; os figurinos de Daniel Orlandi; e o ótimo trabalho dos 34 profissionais envolvidos com o departamento de arte, responsáveis desde a construção de cenários e até o design gráfico da produção.

O elenco é fantástico. Outro ponto fortíssimo do filme – eu diria que tão fundamental quanto o roteiro e a direção. Michael Keaton está soberbo. Ele convence em cada cena e humaniza a figura sem escrúpulos que vemos em cena. Apenas perto do final conseguimos ter “ódio” dele. 😉 Os atores Nick Offerman e John Carroll Lynch, que vivem os irmãos McDonald, também estão soberbos. Fazem um grande trabalho. O filme não seria o mesmo sem eles.

Além deste trio de atores soberbo, vale citar o elenco de coadjuvantes que também faz um grande trabalho: B.J. Novak se sai muito bem como Harry J. Sonneborn; Laura Dern está bem como Ethel Kroc, esposa do protagonista; Patrick Wilson como Rollie Smith, dono de restaurante que acaba virando um dos franqueados da rede; Linda Cardellini como Joan Smith, mulher de Rollie; Justin Randell Brooke como Fred Turner, funcionário de Kroc e que acaba se transformando em um dos seus sócios; Kate Kneeland como June Martino, secretária de Kroc; e Adam Rosenberg como o funcionário do McDonald’s original que rouba a cena quando atende Kroc. Há vários outros coadjuvantes, mas nenhum sem grande destaque para a narrativa.

No texto da Time que eu citei, eles falam sobre o livro que Kroc escreveu e sobre a matéria que a própria Time fez sobre ele. No texto, eles comentam que diferente do que o filme mostra, os irmãos McDonald’s já tinham algumas franquias antes de Kroc aparecer na vida deles. Ora, o filme fala sobre isso. Eles deixam claro que os McDonald’s já tinham franquias, mas que não queriam mais seguir com este modelo de negócios porque achavam complicado garantir a mesmo qualidade que eles queriam em franquias que não estivessem próximas. Kroc acaba os convencendo, mas o filme é bastante preciso nesta informação.

O diretor texano John Lee Hancock tem oito filmes em seu currículo. Antes, eu assisti dele The Blind Side (comentado aqui) e Saving Mr. Banks (com crítica neste link). Não tenho dúvida alguma ao afirmar que The Founder é o melhor filme do diretor até agora.

The Founder teria custado US$ 7 milhões – um orçamento baixo para os padrões de Hollywood – e faturado, apenas nos Estados Unidos, pouco mais de US$ 12,5 milhões. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase US$ 7,6 milhões. Ou seja, no acumulado, tem pouco mais de US$ 20 milhões. Já se pagou e está obtendo lucro. Ainda que pequeno, comparado com outros filmes. Como ele não tem uma propaganda massiva, certamente fará sucesso na propaganda boca a boca.

Até o momento The Founder ganhou um prêmio e foi indicado a outros três. O prêmio que ele recebeu foi o de Melhor Ator para Michael Keaton no Capri – ele dividiu o prêmio com Andrew Garfield por seu trabalho Hacksaw Ridge (comentado aqui).

Os usuários do site IMDb deram a nota 7,2 para esta produção, enquanto os críticos que tem os seus textos linkados no Rotten Tomatoes dedicaram 150 críticas positivas e 32 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 82% e uma nota média 7. Os dois níveis de avaliação são bons, mas para o meu gosto eles poderiam ser um pouco maiores. Talvez o pessoal que gosta do McDonald’s não gostou muito de saber a história por trás da marca. 😉

Esta produção é 100% dos Estados Unidos, por isso ela entra na lista de filmes que atendem a uma votação feita há algum tempo aqui no blog.

CONCLUSÃO: Um filme que mostra bem o “espírito americano”. Uma sociedade baseada no ideário do sucesso, da persistência que leva o homem ou a mulher até o êxito que, geralmente, significa dinheiro. The Founder nos conta a impressionante e pouco comentada história por trás da rede McDonald’s. Como as pessoas que realmente criaram a fórmula foram passadas para trás. Um grande filme sobre o pior lado do capitalismo e da ambição humana. Este é um “case” do gênero famoso, mas quantos mais do mesmo tipo não teremos por aí? Certamente muitos. E o que tudo o que o protagonista desta história lhe garantiu? Certamente não a vida eterna. Grande filme. Muito bem realizado e que nos faz pensar.

Logan

Para muitos, ele pode estar velho. Para mim, ele está em sua melhor forma. Logan resgata algumas das melhores características do personagem que todos conheceram como Wolverine. O filme é bastante violento e vai direto ao ponto em muitos momentos. Mesmo sendo uma produção de ação e com um desenrolar um bocado previsível, esta produção tem alguns grandes momentos. Há uma velha parceria bem interessante em cena, mas em outro estágio. Porque o tempo passou. Logan nos fala muito sobre o tempo e sobre a passagem dele. Também trata de novas descobertas. Vale o ingresso.

A HISTÓRIA: Música alta e a voz de um grupo de latinos falando alto. Dentro do carro, Logan (Hugh Jackman) acorda quando o veículo começa a ser levantado. Ele sai da limusine e pede para os bandidos irem embora sem prejudicarem o carro, que é alugado. Ele logo leva um tiro no peito. Quando os bandidos dão as costas para ele, Logan começa a se levantar. Cansado e um pouco bêbado, ele não tem mais o vigor que tinha quando era jovem. Apanha, mas também mata parte do grupo. Logan trabalha como motorista para conseguir juntar dinheiro e comprar um barco. Mas logo os planos dele serão interrompidos pelo pedido de socorro de uma mulher desconhecida.

VOLTANDO À CRÍTICA (SPOILER – aviso aos navegantes que boa parte do texto à seguir conta momentos importantes do filme, por isso recomendo que só continue a ler quem já assistiu a Logan): Eu não assisti a todos os filmes da Marvel e demais produções baseadas em personagens de HQ. Mas conheço o suficiente deste universo para poder comentar sobre um filme sobre o Wolverine. Antes de Hugh Jackman estrear nos cinemas com este personagem, eu já conhecia bem o Logan/Wolverine das HQs.

Soube, antes de assistir a este filme, que ele seria inspirado na série Old Logan. Li a HQ antes de assistir ao filme e, por isso, posso dizer com toda a convicção que o filme não tem praticamente nada a ver com os quadrinhos. Os únicos elos de ligação são o fato de Logan estar envelhecido no filme e na HQ e das duas obras serem um tipo de “road trip”. E isso é tudo. A HQ tem uma história mais interessante e complexa que o filme, além de ter outros personagens e uma questão central: o velho Logan não quer mais usar as suas garras. Ele está “aposentado”.

Nada disso nós assistimos em Logan. Logo no início o personagem de Jackman utiliza as suas garras para matar, sem ter qualquer questionamento sobre isso. (SPOILER – não leia se você ainda não assistiu ao filme). Outra diferença fundamental é que no filme, ainda que esta questão não esteja totalmente clara, mas apenas “sugerida”, o culpado pela morte de parte dos X-Men foi o professor Xavier (chamado apenas de Charles no filme, interpretado pelo ótimo Patrick Stewart). Na HQ, que nem tem o professor Xavier na história, o culpado pela morte de todos os X-Men foi Logan – manipulado por um inimigo.

Então, para resumir, o HQ é sim melhor que o filme. Especialmente porque a produção Logan tem um roteiro previsível demais. A premissa criada pelo diretor James Mangold e que acabou resultando no roteiro assinado por ele junto com Scott Frank e Michael Green deveria ser muito boa. Um envelhecido Wolverine batalha para sobreviver em um mundo sem novos mutantes e no qual ele, o professor Xavier e Caliban (Stephen Merchant) estão envelhecidos e sem grande perspectiva de viver um longo tempo.

Neste contexto, aparece em cena uma nova mutante. Logan acaba sendo impelido a ajudar ela a escapar dos bandidos que a estão caçando – a exemplo de como ele próprio já foi tantas outras vezes. A premissa é boa, não é mesmo? O problema é que o desenvolvimento do filme acaba sendo um tanto previsível demais. Quando Laura (Dafne Keen) aparece em cena junto com Gabriela (Elizabeth Rodriguez) fica evidente que teremos um tipo de “caçada sem fim” e que vai resultar com a garota sendo salva de alguma maneira.

Todas as crianças e jovens que fogem das garras da grande corporação manipuladora, uma evolução da mesma organização que injetou adamantium em Logan no passado, acabam combinando a mesma coordenada que viram em uma HQ do X-Men como ponto de encontro. Logan critica a versão dada por Gabriela e por Laura porque acha que elas estão sendo “iludida” pela HQ. Ao mesmo tempo, Mangold faz uma grande homenagem ao clássico de George Stevens de 1953, Shane, um dos grandes filmes de faroeste. Seria uma forma do diretor dizer que os filmes são mais importantes que as HQs?

Essa é uma questão menor. O importante é que Logan cumpre o seu papel de entreter. Bem diferente do recentemente comentado aqui The Great Wall, que dá sono, Logan deixa você bem acordado o tempo inteiro. Mérito do bom trabalho do diretor Mangold e, sem dúvida alguma, das ótimas interpretações de Hugh Jackman e Patrick Stewart, em especial. Quando os dois estão em cena, impossível não ficarmos com o nível de atenção no máximo. Cada detalhe da interpretação deles é preciosa.

O mesmo não pode ser dito de outros atores da produção. Achei a menina Dafne Keen esforçada, mas com um trabalho bastante raso. Boy Holbrook como Pierce, o capanga principal do Dr. Rice interpretado por Richard E. Grant também está mais ou menos. Mas o que nos “prende” a atenção é como a passagem do tempo cobra o seu preço até dos nossos heróis. Wolverine e o professor Xavier se esforçam em defender a nova geração que está chegando, mas eles são apenas “a sombra” de quem já foram.

Como acontece com os simples mortais, com os mutantes também o tempo é inexorável. Este é a parte mais interessante do filme, assim como a relação extremamente afetuosa e de respeito entre o professor e o discípulo. É muito bonita a forma com que Logan cuida do velho Xavier. É como a retribuição de um filho. Estes são os pontos fortes da produção, assim como diversas cenas de ação bem orquestradas.

Os pontos fracos estão na narrativa. Além da previsibilidade grande do desenrolar da história – ok, apenas o X-24 me pareceu surpreendente -, me incomodou um pouco algumas incongruências do filme. Certo que Logan precisava que Laura (ou X-23) sobrevivesse até o final e tudo o mais, mas qual, afinal, era a motivação do grupo liderado por Pierce? O que Dr. Rice e companhia queriam de verdade? Matar aquelas crianças mutantes que não serviam para o propósito deles, correto?

Então me parece um tanto sem sentido toda aquela perseguição sem fim de Laura e companhia se para os perseguidores bastava matá-los para resolver o “problema” que eles tinham. Ou, em outras palavras, me pareceu um pouco forçado o filme “poupar” tanto os personagens juvenis. Ninguém quer ver criança ou um jovem ser morto ou agredido, é claro, mas isso me parece ser mais condizente com a história.

Se Logan acerta no retrato sobre a personalidade do personagem-título, acho que o mesmo não pode ser dito sobre o retrato que eles fazem sobre a “nova geração” dos X-Men. Afinal, e isso fica claro para quem acompanhou os HQs dos X-Men, eles só eram realmente fortes e conseguiam vencer qualquer inimigo quando eles juntavam as suas forças e habilidades. Pois bem, na reta final do filme, eles até fazem isso na hora de combater Pierce, mas a ação não é a mesma para defender Laura ou Logan. Isso não parece um bocado sem sentido?

Quando um filme abre a mão de fazer sentido apenas para que a história tenha o fim que o realizador imaginou, todos os espectadores perdem. Afinal, podemos nos divertir com uma boa ação. Podemos achar bacana ver Hugh Jackman dando um fim digno para o seu personagem, assim como ver um pouco mais da relação “derradeira” dele com o professor Xavier, mas tudo isso acaba sendo insuficiente quando pensamos em todas as pequenas mancadas da história.

Por tudo isso, Logan é um bom filme. Não é uma produção excepcional. Provavelmente não é melhor filme baseado em um personagem de HQ que eu já vi. E, certamente, ficou aquém do que se poderia esperar de uma produção “inspirada” (será? acho que não) em Old Logan. No dia em que adaptarem o velho Batman de Cavaleiro das Trevas e fizerem isso bem, quem sabe eu não me sinta redimida? Agora, nos resta esperar o que mais vão nos contar dos X-Men. Esperamos que venha história boa por aí.

NOTA: 9.

OBS DE PÉ DE PÁGINA: A direção de James Mangold é um dos pontos fortes do filme. Também merece menção a competente direção de fotografia de John Mathieson; a ótima e difícil edição de Michael McCusker e de Dirk Westervelt; o design de produção de François Audouy; a direção de arte de Chris Farmer, Jordan Ferrer, Luke Freeborn e Scott Plauche; a decoração de set de Peter Lando; o ótimo trabalho dos 27 profissionais envolvidos no departamento de maquiagem; e, claro, os 18 profissionais envolvidos com os efeitos visuais e os 145 profissionais envolvidos com os efeitos visuais. Sem dúvida algumas os efeitos do filme são também pontos fortes da produção.

Em termos de atuação, os nomes fortes desta produção são mesmo Hugh Jackman e Patrick Stewart. Jackman está bem, só me incomodou um pouco ele ficar mancando a produção inteira sem uma explicação aparente para isso. Stewart, por outro lado, está de arrepiar a cada aparição. Dos outros atores, gostei do esforço de Stephen Merchant como Caliban; de Eriq La Salle como o fazendeiro Will Munson; e de Richard E. Grant em quase uma ponta como Dr. Rice.

Além dos atores já citados, vale comentar o bom trabalho dos coadjuvantes Elise Neal como Kathryn Munson, mulher do fazendeiro; e de Quincy Fouse como o filho do casal, Nate. A atriz Dafne Keen não faz um trabalho ruim, mas achei ela parecida com todas essas novas atrizes que emplacaram com o papel de “esquisitonas”. Também preferi a parte do filme em que ela não abre a boca. Porque com aquela voz estridente que ela solta quando começa a falar em espanhol e, depois, em inglês, chegou a me dar “um nervoso”. Calada ela era menos irritante.

Logan teria custado cerca de US$ 97 milhões e faturado, apenas nos Estados Unidos, até ontem, dia 9 de março, pouco mais de US$ 114,8 milhões. Essa é a terceira melhor bilheteria no país em 2017 – atrás apenas de The Lego Batman Movie, com US$ 151,2 milhões, e de Split, com US$ 134,6 milhões. Como Logan estreou há menos tempo, tem tudo para ultrapassar estes dois concorrentes. Nos outros mercados em que o filme já estreou ele fez quase outros US$ 190,8 milhões. Ou seja, a bilheteria acumulado do filme chega a quase US$ 305,6 milhões. Sucesso completo e que não deve parar de faturar tão cedo.

Infelizmente eu não pude assistir a Logan em 3D porque o filme não estreou nesta versão na minha cidade. Esperei uma semana para assisti-lo por causa disso, mas eu não iria esperar mais tempo.

Os usuários do site IMDb deram a nota 8,7 para esta produção, enquanto os críticos do site Rotten Tomatoes dedicaram 243 críticas positivas e 21 negativas para o filme, o que lhe garante uma aprovação de 92% e uma nota média 7,8. Para os padrões dos dois sites, especialmente do IMDb, a nota do filme está muito boa.

Logan é uma produção 100% dos Estados Unidos. Por isso esta crítica entra na lista de produções que atendem a uma votação feita há tempos aqui no blog.

CONCLUSÃO: A passagem do tempo traz pontos positivos e negativos. Para qualquer pessoa e, segundo esta produção, também para qualquer mutante. Logan nos apresenta um filme que trata sobre este assunto da mesma forma com que ele revela a importância da renovação. Novas gerações surgem enquanto outras se despedem. É assim a vida. Gostei do tom algumas vezes amargo, muitas vezes violento e em certos momentos afetivo desta produção.

É um belo filme, apesar dele ser bastante previsível. Até demais, se pararmos para pensar. Mas você até esquece disso enquanto assiste a produção, que é bastante envolvente. Uma bela despedida de Hugh Jackman do personagem que o levou ao estrelato e com o qual ele está eternizado no cinema. O filme, contudo, não tem nada a ver com o HQ Old Logan. O que não deixa de ser uma pena. Apesar de ser bom, Logan acaba falhando em algumas escolhas do roteiro. Ainda assim, é um bom entretenimento.